A Paz

“A maioria dos conflitos – tanto individuais como internacionais ou intercomunais – não se resolvem; desvanecem-se por fadiga e exaustão – não quando uma das partes abre os olhos e se apercebe dos erros e abraça o outro dizendo, “ó irmão, ó irmã, o que é que eu te fiz? Será que me podes perdoar? Toma lá a terra, quero lá saber da terra. Dá-me antes o teu amor.” Nada disto. Fadiga, exaustão, cada uma das partes ainda defende que estava certa e a outra errada, mas, mesmo assim, estão pelos cabelos e aprendem a coexistir.”

Amos Oz, escritor israelita, em entrevista ao programa NewsHour, da cadeia pública de televisão americana PBS, em Janeiro de 2002.

INQUALIFICÁVEL

“É por causa desta duplicidade de critérios, deste complexo do Holocausto que o Ocidente tem em relação a Israel, que houve o 11 de Setembro, o 11 de Março e há-de haver mais. Quando é que o Ocidente se aperceberá de que antes os israelitas do que nós?”

Comentário inqualificável de Filipe Moura a um post do blog Renas e Veados. Filipe Moura é um dos autores do Blogue de Esquerda. A quem ainda alimente dúvidas sobre o que isto (e também isto) queira dizer, aconselho a leitura deste meu post: Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo.

Citações & Recortes Blogosféricos IV

“SOBRE A GUERRA. Ahmed Yassin, que a imprensa trata como «líder espiritual», defendia explicitamente o ataque a civis, e foi citado várias vezes como tendo ordenado pessoalmente ataques suicidas (abençoando os seus autores) e não suicidas (valorizando o número de vítimas causadas pelas Izz al-Din al-Qassim ou por qualquer outro grupo armado). Defendeu várias vezes esse direito divino a atacar civis e, portanto, raramente condenou as explosões. Era também um adversário da Autoridade Palestiniana e ordenou ataques à polícia da AP, bem como fuzilamentos sumários de civis palestinianos, apedrejamentos (sobretudo de mulheres e de homossexuais) e a formação de campos militares para treinar crianças, em ligação à Jihad. Tal como outros xeiques das mesquitas de Gaza, pensava que matar judeus estava ordenado no Corão (é uma das passagens menos discutidas do texto); tal como o Grande Muftí de Jerusalém, afirmava que em nenhuma parte o Corão condenava os ataques suicidas ou o uso de crianças para transportar explosivos. Yassin fazia parte da guerra e era um soldado que nunca o escondeu — nem nas suas alianças nem no apelo que já tinha feito (leia-se o site do Hamas sobre a jihad global). Estava na guerra e era tratado como um general dessa guerra que, para ele, era santa e religiosa. Este é um ponto.

O segundo ponto é que, independentemente de todas as razões, o ataque a Yassin não deixa de ser uma falta estratégica e, claramente, aos olhos do Ocidente, uma baixa moral importante. Internamente, significa que Ariel Sharon aceita o apoio e a base eleitoral dos partidos haredim e de extrema-direita (que tinham defendido a eliminação de Yassin), em «compensação» pela saída de Gaza e por um compromisso sobre os territórios da Judeia e da Samaria; externamente, é um golpe que não deixará de ser condenado (embora ninguém chore uma lágrima por Yassin) e que aumentará a campanha anti-Israel numa parte da opinião pública. Não há aqui juízos sobre equivalência moral; o Hamas acabou de ganhar um mártir poderoso. A guerra vai continuar a ser devastadora. Não se sabe com que efeitos.

O terceiro ponto é sobre a natureza da compaixão. Yassin é retratado como um «velho numa cadeira de rodas». Está numa cadeira de rodas desde os 12 anos e isso nunca o impediu de ter ordenado atentados, de ter declarado esses ataques uma «obrigação religiosa» e de dizer que o dia mais feliz da sua vida seria aquele em que morresse como mártir suicida (shahid). Infelizmente, fizeram-lhe a vontade. Mas prevejo que aqueles que agora aparecerão a lamentar a morte de Yassin se calaram nos minutos a seguir aos atentados que ele ordenou. Mas, como já disse, não há aqui juízos sobre equivalência moral.”

Análise imensamente lúcida de Francisco José Viegas, no Aviz.

Adenda: Ainda sobre a morte de Ahmed Yassin, a não perder é também os posts “Esquerda – a separação das águas”, de João Pedro Henriques, “Basta ya, Yassin”, de Alberto Gonçalves no Homem a Dias, e Estranhas elegias, de Luís Carmelo no Miniscente.

O Novo Rosto do Terrorismo?

Sharmute!

Abdallah Koran

Esta criança recebeu 5 shekels (menos de 1 euro) para transportar uma mochila com 10 quilos de explosivos perto da cidade de Nablus. Os 5 shekels foram pagos ao pequeno Abdallah Qar’an, contam as notícias, por dois tanzim, membros das “Brigadas dos Mártires de Al Aqsa”. A criança desconhecia o conteúdo da mochila e acreditava tratar-se de “peças de automóvel”. Desde o início da segunda intifada, em Setembro de 2000, 29 atentados suicidas foram cometidos por menores, alguns deles usados pelos grupos terroristas sem noção do que faziam. Ontem, no seu Guia dos Perplexos, José citava o comunicado que reivindicou a matança em Madrid: “‘vocês amam a vida e nós amamos a morte’. Deve ser aqui que se passa ao choque de civilizações.”

:: A LER:: Terror Friends try to Turn Boy Into Bomb / Detention of Palestinian boy draws attention to use of youths by militants / IOL : ‘Militants wanted to blow up 10-year-old boy’ / The sixth-grade Shahid / BBC NEWS | Middle East | Israel arrests boy with bomb / B’Tselem – Press Releases – 16 March 2004: Using Children in Combat – A War Crime

Heterodoxias – Um Erro de Palmatória

Cada vez que se fala em extremistas religiosos judaicos, no contexto de Israel ou noutro qualquer, há uma tendência generalizada para se falar de “ortodoxos”. Quem assim fala, e escreve, demonstra com as suas próprias palavras não saber o que diz. A esmagadora maioria dos judeus de todo o mundo são ortodoxos – apenas à excepção dos EUA, onde os movimentos do Judaísmo Conservador e Reformado possuem um número significativo de aderentes. Os judeus portugueses, tal como a esmagadora maioria dos sefarditas, são ortodoxos. A ortodoxia (do grego “opinião correcta”, peço à Carla que me corrija se estiver errado) significa simplesmente a aderência às doutrinas, regras e mandamentos do judaísmo tradicional. Nada mais, nada menos do que isso. Os extremistas nunca podem ser denominados “ortodoxos” precisamente por não pertencerem à ortodoxia, ou seja, à opinião dominante. Em vez disso, e apesar de heterodoxos, podem ser classificados como “ultra-ortodoxos” – conhecidos pelos termos hebraicos “haredim” (temerosos perante Deus) e “hassidim” (pios).
Os meus leitores que me perdoem a acidez pouco habitual deste post, mas esta é uma das minhas (poucas) ravinhas de estimação.

Hijos de Puta!

“O terrorismo é como a heroína: as doses devem ser cada vez mais fortes, para que o efeito se mantenha.”

Frase do escritor israelita Amos Oz, recordada no El Pais a propósito dos atentados de hoje em Madrid.

(via Aviz)

Novo Antisemitismo?

As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo

Ilustração Foreign Policy Magazine, edição Novembro/Dezembro de 2003 – The New Face of Anti-Semitism

Como o tema é pesado, comecemos com uma anedota. Esta vem da Hungria: Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, um húngaro encontra um amigo na rua. Vendo-o muito sorridente, pergunta-lhe porque está tão feliz. “Ouvi dizer que os israelitas abateram hoje seis caças MIG de fabrico soviético”, responde o outro. No dia seguinte os dois voltam a encontrar-se, desta vez o amigo está ainda mais radiante: “Os israelitas abateram mais oito MIGs”, conta ele. No terceiro dia o amigo está agora cabisbaixo. “Então? Os israelitas não abateram mais nenhum MIG?”, pergunta o outro tentando perceber a razão da tristeza. “Abateram sim, mas hoje explicaram-me que os israelitas são judeus.”
A anedota, contada num artigo recente por Uri Avnery, jornalista israelita e activista pela paz, parece dizer muito em poucas linhas. Avnery prossegue: “O antisemita odeia judeus por eles serem judeus, independentemente das suas acções. Os judeus são odiados porque são ricos e ostentativos ou porque são pobres e vivem na miséria. Porque desempenharam um papel fundamental na revolução bolchevique ou porque alguns ficaram ricos depois do colapso do regime comunista. Porque crucificaram Jesus ou porque infectaram a cultura ocidental com “a moralidade cristã da compaixão”. Porque não têm pátria ou porque criaram o estado de Israel. Esta é a natureza de todos os tipos de racismo e chauvinismo: odeia-se alguém por ser judeu, árabe, mulher, negro, indiano, muçulmano, hindu. Os seus atributos pessoais, as suas realizações e proezas são irrelevantes. Se alguém pertencer à maldita raça, religião ou sexo será odiado.
No mesmo artigo, Uri Avnery interroga-se: “Será possível que todos os que criticam Israel sejam antisemitas? Absolutamente não.” Eu concordo. Também em absoluto. Só que há antisemitismo e antisemitismo e a definição de Avnery, do chamado “antisemitismo clássico”, fica muito aquém de enquadrar as subtilezas da actual judeofobia. Vou mais longe: muito do discurso de alguns que criticam Israel assenta nos mitos do antisemitismo, moldados agora a uma outra realidade e com outras motivações.
O debate em torno do chamado “novo antisemitismo” é fundamental e recentemente temos assistido a algumas contribuições honestas para a sua fruição. Incluo neste lote o artigo que Vital Moreira escreveu a 24 de Fevereiro no Público, citando um texto de Edgar Morin publicado no Le Monde. Não é a primeira vez que escrevo aqui sobre o antisemitismo, nem sobre a forma como o debate em torno do conflito israelo-palestiniano tem sido enquadrado. Também não é a primeira vez que estabeleço este diálogo com Vital Moreira (ver “Vital Moreira Errou”). Apesar de não concordar com muito do que escreveu no artigo, reconheço em Vital Moreira a honestidade intelectual de quem quer não só debater, mas também encontrar soluções. Mesmo assim, este post não pretende ser uma resposta a Vital Moreira, mas apenas uma contribuição pessoal para este debate. Não reclamo ter todas as respostas. Tenho, isso sim, muitas perguntas.

No passado fim-de-semana o judaísmo celebrou mais uma das suas festas religiosas, o Purim, uma celebração que anualmente reconta a antiguidade do antisemitismo. Resumidamente, o Purim comemora um acontecimento ocorrido na Pérsia, há milhares de anos, quando os judeus escaparam ao extermínio decretado por Haman, um conselheiro do rei Artaxerxes, que reinou entre 484 e 425 antes da Era Comum. O episódio, relatado no Livro de Ester, não explica as razões do ódio que motivara a ordem de extermínio contra os judeus.
Apesar de todas as formas de racismo e xenofobia serem execráveis na essência, infelizmente o antisemitismo não pode ser catalogado como uma simples variante destas aberrações sociológicas.
Num livro em que analisou com acutilante lucidez o antisemitismo entrincheirado na sociedade francesa, (Réflexions sur la Question Juive) Jean-Paul Sartre escreveu: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa – e por isso ele próprio tornou-se um taboo. É evidente que não podemos encontrar aqui a explicação para o antisemitismo moderno; mas se o antisemita escolheu o Judeu enquanto objecto do seu ódio, é por causa do terror religioso que este sempre inspirou.”
Descrito pelos historiadores como “o mais antigo ódio do mundo”, pelas suas raízes históricas, pelas suas consequências práticas ao longo dos séculos – da Inquisição às expulsões, passando pelos pogroms até se chegar ao Shoá –, o antisemitismo infelizmente reveste-se de um carácter singular inegável. É parte integrante do património macabro da humanidade. E no museu de horrores da História possui uma ala própria.
À partida, dizer que o antisemitismo que hoje se vive na Europa deriva exclusivamente do conflito israelo-palestiniano é contar uma meia verdade – é simplificar o monstro. É olhar apenas para uma das suas milhentas cabeças, esquecendo-lhe as mandíbulas e as garras afiadas. Mas é assim que se pretende definir o problema.
“A violência de que os judeus são hoje alvo apresenta-se sempre como solidariedade com a causa palestiniana. Alimenta-se das imagens da intifada”, afirma o filósofo francês Alain Finkelkraut. Mas a questão filosófica que se coloca é bem mais subtil e infinitamente mais complexa: será a causa palestiniana que alimenta o antisemitismo, ou será a causa palestiniana alimentada pelo antisemitismo?
Antes de prosseguir, para evitar mal-entendidos, e especialmente para aqueles que lêem este blog pela primeira vez, gostaria de abrir um breve parêntesis para sublinhar a minha posição pessoal face ao problema: sou a favor da solução normalmente designada “dois povos, dois estados” – uma Palestina livre, democrática, autónoma e economicamente viável, ao lado de um estado de Israel onde a segurança dos seus cidadãos é salvaguardada. Sempre me manifestei contra a ocupação dos territórios, contra a manutenção dos colonatos, contra a política de Ariel Sharon e contra a duplicidade hipócrita de Yasser Arafat. Sou contra a pesada subjugação militar de uma população brutalmente carenciada e sou contra a injustificável violência terrorista dos atentados suicidas. Contraditório? Não. Por tudo isto, gostaria de ressalvar que escrevo aqui sobre o conflito não porque pretenda retirar legitimidade à causa palestiniana, bem pelo contrário, mas apenas porque acho fundamental que se analisem os fenómenos para além das suas superfícies aparentes. Aqui vai a tentativa de fazer isso mesmo.

Desde o colapso do processo de paz de Oslo e do desencadear da intifada de Al-Aqsa, em Setembro de 2000 que o conflito israelo-palestiniano tem gerado opiniões gradualmente mais hostis em relação a Israel. Muitas das criticas centram-se no facto de Israel ser um país desenvolvido, relativamente forte, que usa o seu poderio militar para manter uma ocupação sobre um largo segmento da população palestiniana, politicamente e economicamente desfavorecida. À medida que a violência se torna cada vez mais brutal de ambos os lados, com as assimetrias entre israelitas e palestinianos, aliadas à determinação de Sharon em manter a ocupação, registou-se uma degradação gradual tanto do apoio a Israel na Europa como da própria imagem de Israel no mundo.
Sob este prisma, as críticas a Israel são moralmente justificáveis, perfeitamente aceitáveis e legítimas. Não o serão, a meu ver, numa vertente sociológica, e não moral, tal como esta é definida por Max Weber, quando se coloca em causa a existência do próprio estado de Israel. Mas já lá iremos.
No entanto, há sérias razões para duvidar que a oposição a Israel se deva exclusivamente às políticas do seu governo face aos palestinianos. A atenção que se volta sobre Israel contrasta de forma gritante com a indiferença passada e presente face a atrocidades cometidas por outros países. A oposição da opinião pública europeia face a Israel deve ser contrastada com o seu silêncio perante continuadas violações dos direitos humanos numa escala significativamente mais elevada praticados, por exemplo, pelas campanhas militares de Slobodan Milosevic no Kosovo e antes na Bósnia. O massacre de mais de seis mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, apesar de ter chocado alguns, não motivou manifestações de massas nem levou à “demonização” da Sérvia nem apelos ao boicote de universidades sérvias. Milosevic senta-se agora no banco dos réus em Haia, acusado de crimes de guerra, ao mesmo tempo que a opinião pública europeia, e especialmente a esquerda, permanece maioritariamente indiferente.
Outro exemplo pode ser encontrado no brutal esmagamento da revolta dos separatistas muçulmanos na Chechnya por parte da Rússia, que apenas ocasionalmente tem sido mencionada por grupos de defesa dos Direitos Humanos. A Imprensa europeia dedica um espaço mínimo à Chechnya e a opinião pública dá também mostras de pouco interesse.
Tanto no caso dos Balcãs como no da Chechnya, o nível da violência e as graves violações dos Direitos Humanos têm sido muito maiores do que aquelas geradas pelo conflito israelo-palestiniano.
Então porquê só Israel e não também a Rússia, a Sérvia, ou mesmo a China, a Índia e o Paquistão?
Mais uma vez repito que as críticas e condenações não deixam de ser justificadas. Israel não é, e não poderá nunca ser, imune a críticas. Enquanto tudo isto não pode nunca ser encarado como uma justificação dos actos de Israel nos territórios ocupados, a verdade é que levanta sérias questões quanto aos motivos por detrás da imensa onda de hostilidade face a Israel. Acima de tudo, considero fundamental que seja feito um enquadramento global.
Uma das respostas possíveis passa pelo antisemitismo, esse fenómeno milenar embrenhado no subconsciente colectivo europeu. A importância da judeuofobia europeia neste processo não pode ser minimizada, ao contrário do que defendem alguns.
Acima de tudo, é forçoso acompanhar as morfologias do antisemitismo. Da extrema-direita fascista e ultra-nacionalista, o discurso antisemita, e muitas das suas mitologias, faz agora parte do imaginário do outro lado do espectro político.
“O antisemitismo que hoje prevalece não é o mesmo do passado. Nada tem a ver com o racismo que defendia um qualquer ideal nacionalista. Hoje é um antisemitismo em nome dos oprimidos. Não se trata de um antisemitismo racista, mas sim de um antisemitismo ‘anti-racista’”, defendeu Finkelkraut numa conferência recente.
O judeu enquanto pária social tem sido objecto de inúmeros tratados, ensaios e romances. A sua caracterização cabe aqui como parte da discussão destas raízes. No livro que acima referi, Jean-Paul Sartre refere-se também a essa condição: “Este é talvez um dos significados de O Julgamento de Kafka, ele próprio um judeu. Tal como o herói deste romance, o Judeu está envolvido num longo julgamento. Ele não conhece os seus juizes, raramente os seus próprios advogados; ele não sabe do que é acusado, mas mesmo assim sabe que é considerado culpado; a sentença final é continuamente adiada – por uma, duas semanas – e ele aproveita estes atrasos para melhorar sua posição em milhares de formas possíveis, mas cada precaução tomada ao acaso empurra ainda mais o espectro da culpa. A sua situação externa pode parecer brilhante, mas o julgamento interminável fá-lo definhar, e por vezes acontece, tal com no romance, que homens o carreguem sob a pretensão de que perdeu o caso, e o assassinam num qualquer baldio dos subúrbios.”
Neste debate actual existem duas posições extremadas: os que negam a existência de uma nova forma de antisemitismo e os que consideram antisemitas todas as críticas a Israel. Em pólos opostos, os argumentos deste dois campos falham em ir além da superfície.
“A solução do problema não está em bem intencionadas e ritualizadas condenações do racismo e do antisemitismo. Temos de reconhecer o facto de que muitas pessoas com educação superior não reconhecem o ódio aos judeus a não ser quando este lhes é apresentado vestido com um uniforme nazi. O problema é que a saudação ‘heil Hitler’ já não é o principal critério para medir o antisemitismo”, escreveu, em Junho do ano passado, o professor Robert Wistrich, historiador e director do Vidal Sassoon International Center for the Study of Antisemitism, da Universidade Hebraica de Jerusalém.
A diferença entre o “velho” e o “novo” antisemitismo é que este hoje já não é institucional, como o foi na Europa durante séculos. Agora apresenta-se, acima de tudo, como uma opinião.
As sociedades democráticas ocidentais tendem a acreditar – como matéria probatória da sua própria essência – na obrigatoriedade de aceitar todos os tipos de opinião, ao abrigo dos conceitos de Liberdade de Expressão. Mas será o antisemitismo simplesmente uma opinião? Em Réflexions sur la Question Juive, Sartre responde: “Antisemitismo não se enquadra na categoria de ideias protegidas pelo direito de livre opinião. Na verdade é bem diferente de uma ideia. É antes de mais uma paixão. (…) Longe da experiência produzir esta ‘ideia’ do judeu, é esta que enforma a experiência. Se o judeu não existisse, o antisemita haveria de o inventar.” Mais à frente acrescentaria uma frase emblemática já citada neste blog: “Il ne s’agit pas là d’une opinion mais d’un délit.”
Na prática, e em última análise, o antisemitismo é irracional e desafia qualquer enquadramento lógico. Por isso mesmo desisti há muito de entrar em discussões com antisemitas. Não vale a pena. É uma perda de tempo. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar dissuadir racionalmente um homem de algo que ele não concluiu pela razão.”
A discussão – no sentido construtivo do termo – tem de ser feita e mantida com aqueles que recorrem agora ao imaginário e à mitologia antisemita, muitas vezes, acredito, de forma inconsciente e não deliberada.

[Para quem ainda alimente dúvidas sobre a definição da palavra antisemitismo aconselho a leitura do excelente post Anti-semitismo: o que é?, de R.J. Oliveira no Super Flumina; e ainda este no Crónicas Matinais, de Ana Albergaria. Para evitar qualquer tipo de dúvidas, optei há muito por retirar o hífen quando escrevo antisemitismo.]

Não vou aqui abordar a evolução semântica da palavra sionismo (ficará, provavelmente, para posts futuros), mas o facto da sua conotação negativa actual estar totalmente desenraizada do seu contexto não é alheio à “demonização” de Israel e ao mito da incompatibilidade entre a existência de dois estados, livres e independentes. Como escreveu Miriam Greenspan, “a confluência do antisemitismo e do anti-sionismo gerou o complexo híbrido de Intolerância e fanatismo que hoje emerge”.
Para demonstrar que uma e outra coisa não são incompatíveis, “Sionista e pró-Palestiniano” foi o título escolhido para uma série de conferências efectuadas no ano passado por um grupo de intelectuais judeus franceses, entre eles o acima citado Alain Finkelkraut e Bernard-Henri Lévy. Concordo com o slogan e adopto por inteiro aquilo que ele pretende encapsular: a existência inequívoca do estado de Israel, defendendo ao mesmo tempo o fim da ocupação e a criação de um estado palestiniano independente e viável. Para os que preferem olhar a realidade através de dicotomias simplistas, esta posição parecerá inconciliável.
Mais uma vez, chamo a atenção dos meu leitores para The New Anti-Semitism, um texto notável de Miriam Greenspan, que aqui já citei por várias vezes. A minha posição pessoal identifica-se na totalidade das opiniões por ela expressas.
Nesse artigo (ver The New Anti-Semitism), Miriam Greenspan escreve: “Ao abordar a questão israelo-palestiniana, recordo a velha história de três cegos que apalpam um elefante. Aquele que tacteia a tromba diz que é uma cobra. O que sente só a perna diz que é o tronco de uma árvore. O que toca no dorso diz tratar-se de uma parede. Todos partilhamos a ‘cegueira’ da parcialidade mas mesmo assim falamos como se a verdade, toda a única, nos pertencesse. Quantos dos leitores da The Nation também lêem a Jewish Week? Quantos leitores do jornal oficial da Autoridade Palestiniana também lêem o Ha’Aretz? Qualquer um pode encontrar “factos” para apoiar praticamente qualquer posição acerca de Israel e da Palestina. Os factos, eles próprios, são matéria disputada e nem todos somos especialistas académicos em Médio Oriente. O que decidimos acreditar e qual a “linha” a que aderimos depende muito mais das nossas emoções do que gostaríamos de admitir. E essas emoções podem incluir um preconceito consciente ou inconsciente contra judeus, mas também um preconceito consciente ou inconsciente contra árabes. A história das relações israelo-palestiniana será sempre contestada, escrita tanto pelas nossas não-declaradas paixões primitivas como pelo exercício da nossa colecção de “factos” preferidos. Os mitos históricos tendem a ser imutáveis e inflexíveis – não deixando espaço para contradições desconfortáveis. Eles mantém a sua integridade à custa da supressão de outros factos desconcertantes que podem levantar ansiedades sobre se estamos do lado dos ‘bons’ ou dos ‘maus’ – especialmente em áreas onde existem imperativos morais.”
A leitura de Miriam Greenspan aplica-se a ambas as partes. Aos dois lados do conflito. Lembrei-me disto quando na semana passada assisti a uma acesa polémica sobre os palestinianos com aspas ou sem aspas (que passou pelo Barnabé, pelo Homem a Dias, pelo Aviz, pelo causa nossa e pelo Avatares de um Desejo). Como escreveu Francisco José Viegas: “Nisto, cairíamos na chamada elucubração adversativa, ou seja: nunca citaríamos um argumento sem que o outro dissesse, logo a seguir, “sim, mas o contrário também existe”, e assim por uma larga eternidade, que é o tempo em que já deveríamos ter concluído essa “discussão despreconceituosa do conflito israelo-palestiniano”, como escreve. Não se pode é, creio eu, invocar o mal de um só lado quando se fala deste assunto.”

Um dos grandes problema de discurso é a colagem, generalizada e indiscriminada, de todos os judeus às políticas de Israel – algo que, honestamente, tenho muitas dificuldades em não designar como antisemitismo. Chamo a atenção para uma boa análise sobre isto mesmo feita no blog Pagan Days, num post intitulado “Generalizações”.
À luz disto, o discurso que defende existir uma separação estanque entre justificadas críticas às políticas de Israel e o antisemitismo é demonstrativo, antes de mais, de uma cegueira selectiva.
Quando, em 2002, José Saramago comparou Jenin a Auschwitz falou dos “judeus” como executores de um “novo Holocausto”. “Os judeus”, repare-se. Não os militaristas, os “falcões” de Israel, não a direita de Sharon, mas “os judeus”. Todos. Subitamente os judeus são novamente reduzidos a uma caricatura e mergulhados mais uma vez numa iconografia irreflectida, ruinosa e abismal que deveria arrepiar qualquer mente pensante. Mas não. Aparentemente.
O socialista alemão August Bebel descreveu um dia o antisemitismo como “o socialismo dos tolos”. Não nos podemos esquecer que antes dos comunistas, nas mentes primaristas, eram os judeus quem “comia criancinhas ao pequeno almoço”. E foi assim durante séculos. Mas o que fazer então das críticas, por mais legítimas que sejam, que abraçam os “eternos” mitos propagados há séculos pelos antisemitas?

Cartoon contra a Barreira (ou muro) de Segurança Israelita

Postal de Propaganda Nazi, mostrando ‘o judeu’ como uma cobra

Iconografia Nazi – ‘o judeu’ como ‘ninho de víboras'

Propaganda Nazi: a “cobra judaica ataca a Alemanha

Propaganda Árabe: a ‘cobra’ israelita é degolada pelos árabes

Que diferenças, em termos iconográficos, existem entre a primeira representação (uma imagem publicada recentemente no Blogue de Esquerda) e a segunda (ver especialmente o terceiro postal), ou ainda mais esta?
Obviamente que alguns me dirão que são “muito diferentes”, mas a verdade é que uma discussão intelectual honesta terá de ir além da superfície e reconhecer, admitir mesmo, a essência das “fontes de inspiração”. Durante séculos, a teoria da “semente da serpente” – ainda hoje prevalecente entre “igrejas” e grupos para-religiosos antisemitas e racistas, como a Aryan Nations, a Ku Klux Klan e a World Church of the Creator, entre outras – professou que os judeus são descendentes da “relação adúltera de Eva com o Diabo”, que a terá tentado “em forma de serpente” (ver The “Christian Identity” Movement). Durante toda a Idade Média os judeus na Europa eram habitualmente identificados como “serpentes”, apontados com a progénie do Diabo. A imagem permaneceria adormecida no subconsciente colectivo até ser recuperada novamente pelos nazis. Agora, pelos vistos, volta a reaparecer, aos olhos de todos, como se fosse apenas mais uma “opinião”. Como se fosse inocente e tivesse nascido de geração espontânea. Ou da imaginação de um cartoonista ingénuo. Para uma reflexão interessante aconselho uma passagem, por exemplo, pela página de cartoons do “Movimento Nacional Socialista Chileno”, disponível aqui Dibujos y comics, e depois para ler um pouco mais sobre esta “organização”, clique-se aqui.
Na minha opinião, é necessário e urgente analisar e expurgar estas relações incestuosas, esta promiscuidade entre as posições da nossa esquerda, mesmo quando assumidas em críticas legítimas, e um repugnante subconsciente antisemita que obviamente não só não foi apagado como se vê agora renascido com novas roupagens. E com estranhas e inóspitas alianças.
A recorrente sensibilidade face às minorias, que perpassa o todo do discurso da esquerda, possui hoje uma fronteira rígida no que toca aos judeus. A homogeneização, o tomar o todo pela parte, o recurso ao simbolismo e imaginário do “velho” antisemitismo continuam a prevalecer entre aqueles que dizem defender os direitos humanos, os oprimidos e as minorias. Ao contrário do que muitos afirmam, o único ódio socialmente aceitável na era do politicamente correcto é o ódio ao judeu, ainda que muitas vezes encapotado e dissimulado como “crítica legítima”. Existem milhentas críticas legítimas a Israel, eu – e uma multidão de judeus comigo – serei dos primeiros a reconhecê-lo. Mas existem formas variadas de conceptualizar ideias e críticas, que não têm de passar pelo recurso às antigas e estafadas fórmulas judeofóbicas.
Não deixa de ser curioso, irónico mesmo, que se argumente que hoje em dia “não se pode criticar os judeus”, não se pode “dizer mal de Israel”, que tudo isto é agora “proibido” em nome do politicamente correcto. “É preciso ter coragem e não ter medo” para criticar os judeus, escrevia recentemente o autor anónimo de um blog português. Na realidade, para qualquer observador honesto, o que verdadeiramente se passa é o inverso: politicamente correcto é dizer mal de Israel (muitas vezes apenas com reacções pavlovianas e mal informadas) e meter os judeus todos no mesmo saco. Politicamente incorrecto, infelizmente, é defender o simples direito de Israel existir. Ou falar do antisemitismo. A este respeito aconselho a leitura de um artigo de Melanie Phillips, intitulado Return of the Old Hatred reproduzido no dia 4 de Fevereiro no Contra a Corrente.
Em Fevereiro do ano passado o rabino americano Michael Lerner, director da revista Tikkun e activista pela paz, foi impedido de discursar num comício contra a guerra no Iraque porque um dos grupos organizadores se recusou a aceitá-lo por causa das suas “posições pró-israelitas”. Quem alguma vez leu a revista Tikkun terá obrigatoriamente de ficar, no mínimo, boquiaberto. Acusado por alguma direita israelita – e da Diáspora – de ser um “traidor” por defender o fim da ocupação e o respeito pelos Direitos Humanos do povo palestiniano, Lerner era agora ostracisado também no seio da esquerda e do movimento pacifista americano. O seu “crime”: defender o direito à existência de Israel.
Uma petição em favor do rabino foi publicada em vários jornais americanos, assinada por um grande número de figuras marcantes da esquerda norte-americana, entre eles o historiador Howard Zinn, o sociólogo Maurice Zeitlin; Marc Cooper, editor da revista The Nation, e os escritores Eric Alterman e Mike Davis (ver Let Anti-War Rabbi Michael Lerner Speak). A verdade é que o rabino Michael Lerner não falou no comício (para uma lista de artigos do rabino Michael Lerner ver Beliefnet.com).
Um dos efeitos primários deste novo antisemitismo é precisamente este: o silenciamento e secundarização das opiniões moderadas de judeus e israelitas que não correspondam à “imagem” esteriotípica com que o discurso dominante vai pintando o judeu e o israelita. Em vez de alargar o diálogo e fomentar a discussão séria e honesta, restringe-se o todo a pinceladas de preto e branco sem espaço para as indispensáveis tonalidades intermédias.
O caso do rabino Lerner, a meu ver, é paradigmático quando enquadrado num contexto ainda mais vasto: a “coligação pacifista” – com organizações como a A.N.S.W.E.R. (Act Now to Stop War & End Racism!) – que liderou a oposição nas ruas da América à intervenção militar da Casa Branca no Iraque era composta por grupos que inicialmente se juntaram para organizar manifestações públicas contra a globalização, nomeadamente em Seattle (ver Globalization Foes Plan to Protest WTO’s Seattle Round Trade Talks).
Outro exemplo: o Fórum Social Europeu publicou, em finais de Outubro passado, no seu site na Internet um texto abjecto de Tariq Ramadan, académico e islamista suíço, onde este fazia uma lista de jornalistas e intelectuais judeus franceses acusados de participarem numa “conspiração mundialista” – a sua publicação tinha sido recusada antes pelos jornais Le Monde e Libération (ver Tariq Ramadan accused of antisemitism). Bernard-Henri Lévy, um dos intelectuais visados, responderia em Novembro com um artigo no Le Monde intitulado L’autre visage de Tariq Ramadan.
Anos antes uma lista semelhante com acusações idênticas às agora veiculadas por Ramadan provocara uma intensa onda de polémica em França, merecendo uma condenação unânime da Imprensa, do poder e da comunidade intelectual. O seu autor: Jean-Marie Le Pen.
Considero o texto de Bernard-Henri Lévy fundamental por várias razões – não só por chamar a atenção para o “lado negro” de Ramadan (mitificado pelos media francófonos como um exemplo acabado de “islamista moderado”), mas também pelo alerta que faz às ligações perigosas que se vão tecendo no seio do movimento anti-globalização.
Sob a capa “altermundialista”, de oposição legítima e fundamental à globalização e ao que ela poderá representar, assiste-se hoje a uma mistura de retóricas tradicionalmente de traços antagónicos. Hoje, segundo Alain Finkelkraut, “o discurso do antisemitismo foi absorvido pelo discurso do anti-racismo; o novo antisemitismo cortou com as raízes do antisemitismo clássico e vem agora de pessoas que falam de valores humanistas, do altruísmo e da democracia”.
O novo antisemitismo une hoje “camisas castanhas”, “vermelhos” e “verdes” (a “aliança castanha-vermelha-verde”, como lhe chama o académico francês Roger Cukierman), num caldo até há pouco inconcebível do ponto de vista teórico e prático. Num trabalho intitulado Antiglobalism’s Jewish Problem, publicado numa das últimas edições da revista Foreign Policy (uma versão condensada foi publicada pela Australian Financial Review ), Mark Strauss escreve: “O novo antisemitismo é único porque cose sob uma bandeira comum as várias formas do antigo antisemitismo: o conceito de judeu detido pela extrema-direita (a quinta coluna, leal apenas a si próprio, sabotador da soberania da economia e da cultura nacional), o conceito de judeu detido pela extrema esquerda (capitalista e usurário, controlador do sistema económico internacional) e o antisemitismo histórico e religioso (o do judeu assassino adaptado hoje como opressor colonialista).”
As teorias de conspiração que marcaram o dogma antisemita do século XIX – que acabaria por produzir o tristemente célebre Protocolos dos Sábios de Sião – encontram agora eco entre muitos daqueles que combatem a globalização. A simpatia pela causa palestiniana é um forte elo de ligação entre os “verdes” e os “camisas castanhas”.
“Eles estão a tentar impor um sistema de apartheid nos territórios ocupados”, afirmou o emblemático líder altermundialista francês José Bovè depois de uma visita a Ramallah em 2002.
“Aqui, a questão saliente nem sequer é: o que é que os activistas anti-globalização têm contra Israel? Mas, sim, é importante perguntar: Porquê só Israel? Porque não viajou Bovè até à Rússia para demonstrar a sua solidariedade para com os separatistas muçulmanos chechenos, que lutam a sua própria guerra de libertação? Porque circulam nas universidades petições para que não se invista em companhias com laços com Israel, mas não com a China? Por razão as manifestações que denunciam as tácticas de Israel contra os palestinianos ficam silenciosas em relação aos milhares de muçulmanos mortos em pogroms em Gujarat, na Índia?”, interroga-se ainda Mark Strauss no mesmo artigo.

É verdade, e urge realçar, que muitas NGOs anti-globalização fizeram já soar o alarme, reconhecendo a infiltração de neo-nazis e do ideário antisemita no seio do movimento anti-globalização. Mas como escreve Mark Strauss, o movimento em si não está livre de culpas. “Não sendo intrinsecamente antisemita, mesmo assim tem ajudado os antisemitas ao propagar teorias da conspiração.”
E onde há conspiração há conspiradores – e inevitavelmente, porque assim tem sido ao longo dos séculos, o dedo acusatório antisemita volta-se contra os judeus, os eternos “manipuladores da alta finança”.
Por ser de esquerda (será necessário mostrar aqui o cartão do meu partido?), sinto tudo isto ainda mais de perto. Este “socialismo dos tolos” torna agora real o que muitos consideravam simplesmente inconcebível, juntando do mesmo lado da barricada, por exemplo, algumas posições do Bloco de Esquerda e as opiniões dos skinheads neo-nazis que, em 1992, na Rua da Palma, mataram José Carvalho.
Dirão que estou a exagerar. Deixem-me então levar-vos numa pequena “visita guiada” por este “lado negro” do movimento anti-globalização. Visite-se a página da auto-proclamada Anti-Globalism Action Network (ver Anti-Globalism Action Network – a front for fascists), que se descreve como “um colectivo de activistas anti-globalização que trabalham no sentido de alargar o movimento anti-globalização de forma a incluir vozes divergentes e marginalizadas”. E que vozes são essas? Basta ir à página de links do site. Dos dois links disponíveis, o segundo leva-nos até ao site da National Alliance, a maior organização neo-nazi dos Estados Unidos, que mantém laços com grupos neo-nazis e “supremacistas brancos” de todo o mundo.
Mais uma citação do texto de Mark Strauss: “A oposição às políticas do governo de Israel não transforma automaticamente a esquerda em antisemitas. Mas um movimento em campanha por uma justiça social global arrisca-se a cair no ridículo ao condenar unicamente o estado Judaico. E quando as mentalidades conspiracionistas do movimento anti-globalização se misturam com a retórica anti-Israel, os resultados podem ser muito feios. Bovè, por exemplo, disse a um repórter que a Mossad, os serviços secretos israelitas, eram responsáveis pelos ataques antisemitas em França de forma a distrair as atenções das acções do seu governo nos territórios ocupados. (…) Por todo o mundo, manifestantes carregam placards comparando Sharon a Hitler e acenam bandeiras israelitas onde a estrela de David é substituída pela suástica. Estas manifestações apontam Israel como responsável único pela violência, ignorando centenas de israelitas que morreram vítimas de ataques suicidas e o papel da Autoridade Palestiniana no fomentar do conflito. Para mais, comparar Israel ao Terceiro Reich é a mais básica forma de revisionismo histórico do Holocausto, fazendo passar a mensagem de que a única “solução” para o conflito israelo-palestiniano é a completa destruição do estado Judaico. Naomi Klein, escritora e activista anti-globalização, tem falado publicamente contra estas comparações, mas ela está em franca minoria. Os mesmos movimentos anti-globalização que se orgulham em fazer contra-protestos face aos neo-nazis que infiltram as suas manifestações, dão os braços a manifestantes que exibem suásticas em nome dos direitos dos palestinianos.”
O dualismo simplista vitima/opressor cega agora aqueles que o propagam em relação às atrocidades cometidas pelos oprimidos. E reacende os velhos ódios antisemitas

No Guardian, a colunista Julie Burchill escreveu uma série de dois artigos sobre o antisemitismo (Good, bad and ugly e The hate that shames us), no primeiro pode ler-se: “ataques contra judeus neste país [Reino Unido] subiram em 75% este ano; desde 2000 registou-se um aumento de 400% em ataques a sinagogas.” Os números são oficiais e paralelos ao que se regista em França, na Itália, na Alemanha, na Áustria. Qualquer debate honesto sobre o tema do antisemitismo actual tem de levar isto em conta. Pode de alguma forma a solidariedade para com a causa palestiniana justificar a vandalização de sinagogas e cemitérios judaicos? Podem as acções do governo de Sharon servir de justificação para que qualquer judeu de Paris tema andar de metro, com receio de ser atacado, de lhe cuspirem em cima, de ser insultado? (ver “Mostrem a estrela amarela com orgulho!”)
Este é um dos problemas do argumento dos que afirmam que não existe um novo antisemitismo, ou daqueles que tentam estabelecer fronteiras claras entre uma coisa e outra. Dizer que a culpa do “ressentimento contra os judeus” que actualmente se vive na Europa é de Israel, da miopia política de Ariel Sharon, é simplesmente querer tapar um elefante com um lenço de assoar e fingir que ele não existe. Dizer que “a culpa é de Israel”, sem tentar perceber o que está por detrás desta violência é, no mínimo, irresponsável. Tentar encontrar justificações morais para o ódio, desculpabilizá-lo com racionalizações irreflectidas e pavlovianas, é ainda pior.
A Amnistia Internacional nasceu, em 1961 como consequência de uma notícia lida num jornal britânico pelo advogado Peter Benenson. A notícia falava de dois estudantes portugueses detidos depois de terem brindado à Liberdade (ver Amnesty International – The first 40 years). Como nos sentiríamos nós se todos os portugueses espalhados pelo mundo tivessem sido corresponsabilizados? Será que poderíamos ter minimizado ataques contra emigrantes portugueses em Newark, Pretória, Paris, Londres, Genebra, Bruxelas ou Sidney? E não me venham dizer que a nossa “colonização exemplar” não teria fornecido motivos mais do que equiparáveis. A verdade é que um mal não pode nunca justificar outro.
É esta cegueira selectiva que me assusta. É esta “banalização do mal” que me preocupa. Em 1963, no livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil, Hannah Arendt traçou o perfil original e polémico de Eichmann como um burocrata que cumpriu o seu dever e que seguiu ordens sem reflectir. Para ela, a monstruosidade do comportamento de Eichmann não se deveu a uma vontade sádica. Longe de corporizar um “mal radical”, Eichmann era o paradigma da “banalização do mal”. Esta caracterização do responsável nazi daria origem ao poema All There is to Know About Adolph Eichmann, de Leonard Cohen, (do livro Flowers for Hitler, 1964). Hoje não podemos cair no mesmo erro. Não nos podemos deixar engolir em “espirais justificativas” que não fazem mais do que banalizar e defender o indefensável. E isto, mais uma vez, aplica-se aos dois lados do debate no conflito israelo-palestiniano.

“Muitos argumentam que os judeus, que outrora foram vítimas, se transformaram em vilões no palco mundial, que Israel chamou o novo antisemitismo sobre si própria ao aliar-se aos interesses imperialistas americanos. Que esse ódio de Israel é “justificado”. À parte da perigosa prática corrente de juntar indiscriminadamente os judeus às políticas de Israel, há uma questão lógica que ressalta desta linha de raciocínio: se o ódio dos árabes e muçulmanos em relação a Israel é justificado, então o ódio judeu a árabes e muçulmanos por causa do antisemitismo é também “justificado”? Se isso é verdade, então onde nos leva todo este ódio “justificado”?”, escreve Miriam Greenspan, na revista Tikkun.
Esta citação torna evidente, entre outras coisas, os desníveis deste debate. Mais um exemplo. Quando aqui há algumas semanas escrevi um post sobre o penúltimo atentado em Jerusalém, decidi publicar os nomes das vítimas. Como consequência, foi criticado por ter “uma visão parcial” e “pouco objectiva” ao “esquecer” as vítimas palestinianas do conflito. Resta-me deixar uma pergunta no ar: será que os mesmo que criticaram esta minha “parcialidade” escrevem também para os jornais e para os blogs que incessantemente insistem em ignorar as vítimas israelitas? E ainda outra: Se umas vidas não valem mais do que outras porque razão se continua a insistir num discurso que faz prevalecer esse mito?

Já li em vários lugares, incluindo na blogosfera, que hoje em dia não existe antisemitismo em Portugal e que este debate é perfeitamente supérfluo. Apesar de morar fora do país desde Junho de 1994, tenho sérias dúvidas que esta análise esteja correcta. Infelizmente, tendo a acreditar que a realidade é bem diferente. Será que poderia andar completamente em paz pelas ruas de Lisboa ou do Porto com um kippá na cabeça? Nós portugueses tendemos a olharmo-nos ao espelho das nossas próprias mitologias. A que nos apelida de “povo de brandos costumes”, apesar de errada, prevalece.
Um exemplo rápido e demonstrativo. Depois de ter ler um texto profundamente antisemita deixado por um leitor numa caixa de comentário do blog Cruzes Canhoto, resolvi fazer o que por norma não faço e ripostei com sarcasmo. Horas depois, na mesma caixa de comentários, o autor da prosa que motivara a minha resposta volta à carga: “(…)Quanto a ti Nuninho, (…) sinceramente eu preferia que emigrasses para Israel e tivéssemos todos a sorte de estares dentro de um autocarro durante “o horário de trabalho” da malta do Hamas. Rui Pereira.” Receio que não seja necessário qualquer comentário.
Convém sublinhar que o Cruzes Canhoto nada teve a ver com esta manifestação de ódio primarista, antes pelo contrário. O autor do blog (J.) viria a condená-la fortemente.
Dizer que o antisemitismo não existe em Portugal é, no mínimo, ingénuo. Durante a minha adolescência tive uma alcunha que me acompanharia para sempre. Eu era “o judeu”. Como nunca neguei as minhas raízes e sempre tive orgulho delas, recebi-a inocentemente como um elogio. Mas todos sabemos que “judeu” continua a ser atirado como um insulto. Tal como a própria palavra “judiaria”. Não é necessário ler Freud nem Carl Jung para perceber que estas coisas não se apagam facilmente.

A necessidade da paz entre israelitas e palestinianos é inegável, essencial e urgente. Mas enganam-se os que acreditam que com ela virá também o fim do antisemitismo. O Paquistão serve aqui de exemplo – um país sem judeus, que nunca teve qualquer contacto com judeus, afastado do Médio Oriente, é hoje uma das maiores fontes de propagação do antisemitismo.
Ao mesmo tempo, como Mark Strauss escreve na revista Foreign Policy, quando se chegar a uma paz real, as condições conducentes à propagação do antisemitismo não irão desaparecer de forma milagrosa. Os governos árabes continuam avessos a reformas políticas e económicas sérias no sentido de abrir as suas sociedades e retirar os seus cidadãos da pobreza endémica. E o ódio, esse, dificilmente será extirpado por completo.
À lógica dos conflitos, especialmente neste caso imensamente complexo, não se podem aplicar os mesmo princípios das paixões irracionais que gerem, por exemplo, o clubismo. Isto é verdade especialmente para nós, que estamos de fora.
O diálogo, apesar de fundamental, também nunca será uma solução em si mesmo. Além das palavras são precisos actos. Dentro e fora de Israel. Dentro e fora da Palestina. E depois dos actos, é preciso tempo. Porque, como escreveu o poeta israelita Yehuda Amichai, “história leva anos e anos a fazer”. E a desfazer também.

Notas
Queria terminar com dois links que considero fundamentais. Aconselho o visionamento de duas conferências sobre o antisemitismo realizadas pelo Vidal Sasson International Center for the Study of Antisemitism, da Universidade Hebraica de Jerusalém (formato WindowsMedia). Aqui vão os links:

Reflexions sur l’antisemitisme qui vient, por Alain Finkelkraut

Conferência de Bernard-Henri Lévy

Gostaria de fazer ainda uma breve chamada de atenção para um debate intitulado O anti-semitismo e o Estado de Israel, que se realiza a 23 de Março às 19h30 no Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais (ver o site para mais informações). Nele estará presente, entre outros, Esther Mucznick, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.

Violência Sagrada II


The Passion of the Christ, de Mel Gibson, acabou de estrear hoje aqui nos Estados Unidos. Sentado à secretária, trabalho com a televisão ligada, quase como ruído de fundo. CNN, Fox News, MSNBC, os principais canais noticiosos do país, não falam de outra coisa. “Wall-to-wall coverage” como aqui lhe chamam. Os debates são incessantes. Padres contra pastores. Padres contra padres. Pastores contra rabinos. Ninguém se entende e o nível do diálogo desce agora, também ele, a pouco mais do que estática hertziana.
O consenso parece ser apenas um: a extrema violência do filme. Segundo as contas de Roger Ebert, um dos mais conceituados críticos de cinema americanos, dos 126 minutos de duração do filme, 100 são passados na contemplação de violência.
Como já aqui escrevi há quase duas semanas, depois de ver o filme (o post está aqui, Sagrada Violência) o que mais me impressionou foi a crueza desta opção pela violência.
Sobre o filme, aconselho a leitura do ensaio crítico de David Denby, um cristão, na The New Yorker, intitulado Nailed. No insuspeito Christian Science Monitor, na minha opinião um dos melhores jornais americanos, David Sterritt escreve Gibson’s ‘Passion’ has little but suffering on its mind e a historiadora e teóloga Paula Fredriksen, professora da Boston University, assina Controversial ‘Passion’ presents priceless opportunity for education, ambos a não perder. O Francisco José Viegas chama também a atenção para uma ilustrativa entrevista do pai de Mel Gibson transcrita no New York Daily News.
Depois de tudo isto, como qualquer filme saído das linhas de montagem de Hollywood, The Passion of the Christ traz consigo um mar de merchandising – livros “oficiais”, lancheiras para a escola, t-shits, canecas, porta chaves e… “pregos da crucificação” para usar ao peito, segundo conta o New York Post, que podem ser comprados a $16.99 na Christian Publications Bookstore, em West 43rd Street.

Jogar Xadrez

Escolher um filme preferido, apenas um de entre muitos, é uma tarefa perfeitamente fútil. No cinema, tal como nos livros, prefiro a multiplicidade de amores. De entre os que verdadeiramente gosto, um ou outro salta à memória consoante os dias, os humores, a chuva ou o sol. Hoje lembrei-me de um desses filmes que guardo no meu baú de paixões – Os Jogadores de Xadrez (Shatranj Ke Khilari – The Chess Players) de Satyajit Ray.
Baseado num conto do escritor indiano Munshi Premchand, Os Jogadores de Xadrez é uma metáfora sublime e um dos meus filmes favoritos. Nele, dois amigos, Mirza Sajjad Ali e Mir Roshan Ali (magnificamente encarnado por Saeed Jaffrey, que anos mais tarde daria corpo a Nasser, o tio corrupto de My Beautiful Laundrette), abstraem-se por completo do mundo à sua volta e passam os dias a jogar xadrez. Talvez seja por causa do céu encoberto e da tonalidade cinzenta do dia, mas hoje percebo bem os personagens de Ray.
Hoje leio este artigo de Vital Moreira. Recordo este outro, de Emanuele Ottolenghi no Guardian, e ainda este, um texto notável de Miriam Greenspan. Leio também este, e mais este. Depois penso, por exemplo, na frase de Zeca Afonso que ontem transcrevi e em quantas das nossas “verdades” quotidianas nos são simplesmente fornecidas, pré-mastigadas, e já digeridas. Às vezes apetece-me responder. Calmamente.
Hoje não. Hoje, apetece-me simplesmente jogar xadrez.

Imortalidade, ou o Yahrzeit de Zeca

“As pessoas estão contaminadas por um gosto que lhes é fornecido, que lhes é imposto e fixa, na verdade, as preferências da maioria. Torna-se urgente reagir, contribuir para uma higienização desse gosto.”

Zeca Afonso (2 de Agosto de 1929 – 23 de Fevereiro de 1987), em entrevista a Carlos Cáceres Monteiro e Daniel Ricardo, A Capital, 26 de Dezembro de 1970 (via Ruialme).

“The Passionof Gibson” (Adenda)

Li hoje que Mel Gibson está a considerar a possibilidade de colocar uma frase no final do seu The Passion of the Christ. Uma pequena frase, dizem as notícias, recomendada por historiadores e clérigos cristãos preocupados com a possibilidade do filme reacender antigas chamas de antisemitismo. Aqui vai a frase:
Durante a ocupação romana, 250 mil judeus foram crucificados pelos romanos, mas apenas um se levantou de entre os mortos.”

PS – Obrigado a Vicent e David Bengelsdorff, a Fernando Macedo, ao José, ao Marcos Osório, ao Rui, ao Tiago de Oliveira Cavaco, ao Afonso Neves, ao M. Marujo, ao Filipe Alves, ao Manuel, ao Nuno Mota Pinto e ao Francisco José Viegas pelos excelentes contributos para este debate.

Sagrada Violência

ou Jesus Segundo Mel Gibson

Foi com alguma antecipação (receio talvez seja a palavra mais apropriada) que assisti ontem à noite, aqui em Los Angeles, a um screening privado do polémico filme de Mel Gibson, The Passion of the Christ, ainda por estrear. Fiquei, confesso, bastante perturbado com o filme. Não pela mensagem. Nem sequer pelas razões que têm soprado as chamas da controvérsia – embora o alegado antisemitismo da narrativa mereça ser analisado. O que mais me chocou foi a extrema violência gráfica com que Mel Gibson resolveu pintar as últimas 12 horas da vida de Jesus.
Sangue a rodos, intermináveis grandes planos de feridas e uma violência brutal marcam todo o filme. Só a cena da flagelação de Jesus pelos soldados romanos dura mais de 15 minutos… é claro que isto não é nada quando comparado com o que de melhor se faz na “série B” de Hollywood. Mas também é verdade que o famoso Texas Chainsaw Massacre nunca foi usado para validar doutrinas religiosas. Na melhor das hipóteses, The Passion of the Christ é um cruzamento de teologia tridentina com Braveheart, com a crueza nua da violência extrema (ver um exemplo aqui) a ser usada aqui para sublinhar o papel sacrificial do messias cristão – uma opção doutrinária óbvia, escolhida em detrimento, por exemplo, da mensagem positiva dos evangelhos.
Mas porque razão estarei eu aqui a escrever sobre um filme de uma religião que não é a minha? A pergunta é perfeitamente legítima. Primeiro, porque a figura central do filme, Jesus, é, para todos os efeitos, um judeu – Yeshua ben Yosef, de seu nome hebraico original (para mais ver Jesus, o judeu). Segundo, porque o filme coloca o ónus da morte de Jesus exclusivamente nos judeus, não só nas autoridades do Templo, mas também colectivamente no povo de Jerusalém, livrando de responsabilidades aquele que os historiadores apontam como principal responsável pela execução do messias cristão: o governador romano, Poncio Pilatos.
Não tenho intenção de discutir aqui o carácter histórico dos evangelhos (textos sagrados de uma religião que não é a minha), mas quem já leu Mateus, Lucas e João sabe que existem contradições e inconsistências entre eles. Mas tudo isso é perfeitamente secundário, uma vez que a essência dos textos (escritos entre 80 a 150 anos após a crucificação) é doutrinária e não histórica.
No filme, seguindo quase à risca o relato evangélico de Mateus, o governador romano da Judeia, Poncio Pilatos, é mostrado como o relutante executor de Jesus, crucificando-o apenas “porque os judeus o queriam”. Esta bonomia apresenta-se em flagrante contraste com o que se sabe de Pilatos. Historiadores da época, como os judeus Flavius Josephus e Philo de Alexandria, descreveram de forma extensa e detalhada a brutalidade do governador romano da Judeia. “Inflexível, casmurro e cruel” foram adjectivos usados por Philo de Alexandria para descrever Pilatos, acusando-o ainda de “incomensuráveis actos de crueldade contra os judeus”, incluindo execuções de prisioneiros sem julgamento. A crucificação, aliás, era uma pena romana aplicada exclusivamente aos crimes de insubordinação política. Jesus é crucificado por alegadamente se intitular “o rei dos judeus” – o que Pilatos poderia ter recebido como um insulto à incontestável autoridade romana sobre a província.
Curiosamente, a carreira de Pilatos acabaria em desgraça precisamente por causa da sua brutalidade: no ano 36 é demitido e chamado a Roma pelo imperador Tibério, depois de ter ordenado o massacre de uma multidão de seguidores de um profeta samaritano.
Por tudo isto, os relatos evangélicos da sua relutância em condenar Jesus são lidos pelos historiadores como uma tentativa dos cristãos primitivos de tornar a narrativa da Paixão o menos censurável possível aos olhos romanos.
Quanto ao aparente antisemitismo, tanto dos textos evangélicos como do filme de Gibson, compreendo e aceito os primeiros, mas não consigo entender o segundo. Passo a explicar. Sempre que existiu uma cisão em qualquer religião, a identidade da nova facção é imposta primariamente por negação da anterior. Por isso é absolutamente compreensível que os evangelhos – sublinho textos doutrinários e não históricos – revelem algum ressentimento contra as autoridades religiosas da “estrutura mãe”. Séculos mais tarde, os escritos de Martinho Lutero ou Calvino viriam a revelar o mesmo sentimentos de revolta e negação voltados agora contra a Igreja Católica.
Agora, para ler as entrelinhas do filme de Gibson é necessário analisar a “fonte”. Mel Gibson é partidário de um grupo ultraconservador, os Servos da Sagrada Família, saído da Congregação São Pio X, fundada pelo cardeal Marcel Lefebvre – excomungado por João Paulo II em 1988, por desobediência, depois de consagrar quatro bispos sem autorização do Vaticano.
Para este movimento cismático (conhecido como “tradicionalista”), os aspectos doutrinários mais marcantes são a celebração da missa em latim (tridentina), o apelo à confissão diária dos crentes e a enfatização dos “tormentos do Inferno” para os que cometerem pecados mortais. Este “movimento tradicionalista” católico recusa aceitar as reformas decretadas pelo Concílio Vaticano II – entre elas a rejeição de que os judeus seriam de alguma forma responsáveis pela morte de Cristo, uma doutrina que a Igreja acalentou durante séculos, e que esteve na base de perseguições, chacinas, progroms e de um antisemitismo latente que se enraizou no mundo católico. Ao criar a Sociedade São Pio X, o cardeal Marcel Lefebvre propunha-se lutar contra as reforma ecuménicas do Vaticano II, por ele descritas como “marxistas” e “protestantes”.
É no seio desta “seita” católica ultraconservadora que surge a base doutrinária para o filme de Mel Gibson. “Eu vou a uma igreja onde e celebrada apenas missa em latim, segundo os ritos anteriores ao Vaticano II. Nos anos 60 muita gente dizia que tinha de se evoluir com os tempos, mas a verdade é que o criador instituiu coisas muito específicas, e nós não as podemos mudar só porque nos apetece”, disse Mel Gibson em 2001 em entrevista ao diário norte-americano USA Today. Mais recentemente, em declarações ao jornal italiano Il Gionale, Gibson foi mais longe atacando o Vaticano e o papa, chamando-lhe “um lobo disfarçado de ovelha”.
O pai do actor, Hutton Gibson, com 84 nos, é bem conhecido nos círculos tradicionalistas católicos. Autor de vários livros em que ataca abertamente a hierarquia máxima da Igreja, como “Is the Pope Catholic… Enough?”, o pai de Mel defende que a abertura desenhada com o Concílio Vaticano II foi desastrosa para a fé católica, advogando a necessidade de “voltar atrás”. Hutton Gibson é também um revisionista histórico, afirmando nos seus escritos que o Holocausto nunca existiu (ver nota biográfica Hutton Gibson – Wikipedia). Por isso, não me espantei quando comecei a ver esboços de uma campanha de promoção do filme de Mel Gibson em vários blogs portugueses de extrema-direita (para não dizer mesmo fascistas).
Agora, depois de ter visto o filme, há algumas conclusões a tirar. Como experiência cinematográfica pura e dura, é extremamente pobre e brutalmente violento. Já nem sequer vou mencionar o facto de ser integralmente falado em latim e num aramaico mal pronunciado. Salva-se apenas uma fotografia (cinematografia para os meus leitores brasileiros) razoável que consegue alguns momentos eficazes.
Mas, muito mais importante é perceber se os meus amigos cristãos se vão rever neste The Passion of the Christ, um filme inquestionavelmente enraizado em doutrinas cismáticas e marginais. Será que a mão cinematográfica de Mel Gibson fará vingar a visão ultraconservadora, e porque não revanchista, do cardeal Lefebvre? A pergunta fica no ar. Que me respondam os meus amigos cristãos. Sim, José, Fernando Macedo, Tiago de Oliveira Cavaco, David e Vincent Bengelsdorff, gostava de saber o que pensam.

Para mais sobre duas figuras centrais na Paixão de Jesus num contexto histórico aconselho uma passagem por Profiles of Joseph Caiaphas and Pontius Pilate, key figures in the arrest, trial and crucifixion of Jesus. (University of Missouri). Um excelente livro sobre o governador romano da Judeia é Pontius Pilate by Ann Wroe, editado nos EUA pela Random House. Uma recensão do livro de Ann Wroe pode ser lida aqui,
FT August/September 2000: Player in a Cosmic Drama

O Véu, o Kippah e a Cruz

Já muito se escreveu em torno do debate teórico da laicidade ligada à questão do véu islâmico em França. Ontem Pacheco Pereira, no seu Abrupto dava voz a vários leitores com interessantes perspectivas sobre o tema. Mas uma coisa é a discussão académica acerca do “equilíbrio entre Liberdade e a Igualdade”, como ali escrevia Ricardo Peres, num comentário bastante interessante. Outra são as reais implicações que advém da proibição exercida com força de lei – uma atitude “autoritária e tipicamente jacobina”, como escreveu Pacheco Pereira alguns dias atrás no Abrupto, uma leitura com a qual concordo (ver também uma excelente análise de Luís Carmelo no Miniscente).
Agora, o relatório da comissão Stasi vem propor a interdição por via legislativa, total e compulsiva, do uso de “símbolos religiosos ostensivos” nas escolas francesas. Véus islâmicos, kippot judaicos e “crucifixos de grandes dimensões” são banidos em nome da “integração”.
Como ponto de partida argumentativo, não faz o mínimo sentido comparar a cruz usada num fio de ouro ou prata com um véu islâmico (hidjab) ou com o kippah judaico. Ao contrário do crucifixo, usado pelos cristãos meramente como adorno, a hidjab e o kippah são obrigações religiosas para muçulmanas e judeus. Tal como o é, por exemplo, o turbante sikh – sim, bem sei que as motivações aqui são outras e os sikh, coitados, até nem são fundamentalistas… mas usar fundamentalismos e integrismos islâmicos como argumentos justificativos para esta proibição é passar verdadeiramente ao lado da questão central criada com esta medida: uma maior insularização (agora forçada) de comunidades já de si marginalizadas.
É essencial integrar os emigrantes, instilando-lhes os valores da sociedade francesa”, disse o ministro dos Assuntos Sociais francês, François Fillon, justificando o seu apoio às conclusões do relatório.
Na prática, o raciocínio de Fillon não anda muito longe – pelo menos em espírito – das políticas de integração desenvolvidas pelo governo australiano em relação aos aborígenes nas décadas de 40 e 50, ou da assimilação forçada por que passavam os nativos americanos e os emigrantes no final do século XIX nos EUA. Era nesse mesmo contexto que a World’s Columbian Exposition, realizada em Chicago em 1893, se proclamava como “the first expression of American thought as unity”, simbolizando a unificação e uniformização da cultura americana.
Salvaguardadas as distâncias, a conclusão contida no relatório Stasi, obrigando à secularização sob pena de expulsão, é equiparável às medidas inquisitoriais por que foram obrigados a passar os judeus portugueses e espanhóis no século XV. «La question n’est plus la liberté de conscience mais l’ordre public», assenta o relatório francês, uma frase justificativa que podia ser recuada cinco séculos mantendo todo o seu contexto.
Ao contrário do que diz o ministro Fillon, estas proibições não contribuem para qualquer tipo de integração. Forçados a escolher entre a escola secular e a religião, a escolha para aqueles que o relatório visa será sempre óbvia: a religião.
Para compreender isto é necessário perceber o que estes “símbolos religiosos” representam para aqueles que os usam. E aqui vou resumir-me apenas ao que conheço de causa própria, o judaísmo.
Para um rapaz judeu oriundo de uma família ortodoxa “praticante” – e ortodoxos são a esmagadora maioria dos judeus que vivem fora dos Estados Unidos, incluindo os portugueses – usar o kippah é uma obrigação. É um mandamento. Do ponto de vista bíblico, apenas aos sacerdotes do Templo (Kohanim) era requerido que cobrissem a cabeça. Mas o uso de kippot tornou um costume obrigatório que os homens judeus cumprem há quase 2 mil anos. A própria Halakhah (a Lei Judaica) diz: “é proibido andar quatro cúbitos sem cobrir a cabeça.”
No chamado mundo ocidental é costume descobrir a cabeça em sinal de respeito. No judaísmo, cobrir a cabeça é um sinal de respeito. O Talmude sustenta que o propósito do uso de kippot é funcionar como uma recordação constante que Deus está “sobre nós” (Tratado Kiddushin 31a). Acções externas criam consciência interna e o uso de algo simbólico e tangível “sobre nós” reflecte nos homens judeus o sentimento interior de respeito por Deus.
À parte de toda a discussão do estatuto da mulher no Islão (que considero igualmente fundamental, mas que, a meu ver, não cabe neste contexto), é também desta forma que a hidjab deve ser enquadrada, pelo menos enquanto prática religiosa islâmica.
Percebendo isto mesmo, ainda antes de se saber que a comissão Stasi iria propor igualmente a interdição do uso do kippah, o rabino chefe de Paris, rav Joseph Sitruk juntara já a sua voz ao coro daqueles que protestavam contra qualquer disposição legal que proibisse a hidjab islâmica.
Se Jacques Chirac aceitar agora os conselhos da comissão Stasi, o resultado prático destas proibições será um resurgimento acentuado de escolas privadas, islâmicas e judaicas, onde as crianças agora visadas crescerão de forma totalmente isolada e exponencialmente insular. Esta tendência começou já a dar sinais em França, com o aparecimento recente da primeira escola secundária islâmica, em Lille.
O problema maior reside aqui no facto da comissão Stasi ter decidido com base no preconceito. Em sociologia chama-se a isto “orientalismo manifesto”, uma visão neocolonialista do “outro”, transplantada agora para as entranhas da “Metrópole” (ver Edward Said’s Orientalism: a Brief Definition).
Acerca disto o recém falecido Edward Said escreveu:

“For every Orientalist, quite literally, there is a support system of staggering power, considering the ephemerality of the myths that Orientalism propagates. The system now culminates into the very institutions of the state. One would find this kind of procedure less objectionable as political propaganda – which is what it is, of course – were it not accompanied by sermons on the objectivity, the fairness, the impartiality of a real historian, the implication always being that Muslims and Arabs cannot be objective but that Orientalists. . .writing about Muslims are, by definition, by training, by the mere fact of their Westernness. This is the culmination of Orientalism as a dogma that not only degrades its subject matter but also blinds its practitioners.”

O grande desafio das sociedades modernas reside na capacidade de sobreviver nos moldes da diversidade, e na definição da palavra tolerância não cabe esta interdição.

RTP Internacional e a frustração de quem mora longe

Primeiro a confissão: a regular leitura de blogs contribuiu para me aproximar ainda mais de pessoas com quem mantinha laços de amizade e cumplicidades, mas também ajudou a mudar ideias feitas que tinha sobre outros com quem nunca tinha convivido e de quem conhecia apenas a persona mediática. Nesta última categoria encontra-se J. Pacheco Pereira. O seu ABRUPTO permitiu-me encontrar um JPP que desconhecia por completo. No blog encontrei um homem que aprendi a admirar, apesar de politicamente termos do mundo uma visão oposta.
Dito isto, leio no ABRUPTO um comentário de JPP com o qual não podia estar mais de acordo. Escreve ele sobre a RTP Internacional e a total ausência de senso comum e sentido de serviço público que presidem à sua programação:

“Volto à pátria por via televisiva. Procuro notícias, o telejornal, encontro um programa da RTP Internacional ainda mais bizarro do que o costume. Um filme português do tempo do PREC, que apanho no fim, numa cópia de tão má qualidade que quase nada se via no ecrã. Depois uma sucessão caótica de pequenos filmes sem nexo: uma Contra-Informação, uns spots musicais, um do Luís Represas, uns filmes turísticos sobre Portugal profundo, uns reclames repetidos n vezes sobre como era boa a televisão pública, outros sobre o “futebol de interesse público”, quatro vezes o anúncio do programa do Francisco José Viegas. Parecia que alguém tinha deixado bocados de filme em piloto automático durante quase três horas. Nem uma palavra sobre quando é que passaria o telejornal, nem o que se passava com a programação. De repente, out of the blue, às 23,53, o telejornal.
Vim depois a saber que a RTP estava a transmitir um jogo de futebol, o enésimo, para Portugal, e a RTPI enchia o espaço com o que algum funcionário preguiçoso encontrava em arquivo. Nenhuma explicação, nenhum texto dizendo a que horas haveria programação normal, o que se estava a passar. O jogo, por sua vez, entre Portugal e França, era invisível aos emigrantes portugueses em França – eis o “futebol de interesse público”. A completa falta de respeito da televisão pública para com os emigrantes. Inimaginável.”

Há quase 10 anos que deixei Portugal. Morando actualmente em Los Angeles, na Califórnia, confesso, recorro de quando em vez à RTP Internacional em busca de um cordão umbilical à pátria. Mas, como escreve JPP, “voltar à pátria por via televisiva” acarreta elevados custos. Imagine-se o que é procurar a nossa “inner-portugalidade”, da única forma audiovisual possível a esta distância, e deparar com chorrilhos de pimbalhice e remakes portuguesas abastardadas de sitcoms americanas dos anos 50 e 60. Para já não falar das constantes alterações de programação, feitas sem que o espectador tenha a mínima ideia do que aconteceu ao programa que estava à espera de encontrar quando ligou a TV.
Seriam precisos megabytes e megabytes de blog para exemplificar a falta de estratégia programática da RTPI e a sua total falta de sensibilidade quanto às necessidades dos seus utentes televisivos. É claro que muito disto tem a ver com o sentimento há muito enraizado de preconceito em relação aos emigrantes reduzido ao silogismo “emigrante logo pimba”. Durante muito tempo, isto fez da RTPI uma versão televisiva das cassetes pirata vendidas nas feiras de província. A RTPI, durante os últimos anos, também pouco mais foi do que uma versão “digest” da RTP nacional, de onde o sentido de serviço público andou sempre arredado.
É certo que as coisas começaram a mudar de há uns meses para cá. Hoje são exibidos magazines temáticos sobre várias comunidades emigrantes (Canadá, África do Sul, etc.), mas será mesmo isso que os portugueses que estão no estrangeiro precisam de ver na versão internacional da televisão estatal? Na verdade muitas destas comunidades têm acesso fácil a meios de comunicação locais (jornais, rádios, mesmo televisão) onde publicitam e noticiam as suas actividades.
Confesso que pertenço ao grupo de ingénuos que acredita na função pedagógica da televisão, especialmente de uma televisão de serviço público de alcance internacional. Como pode, por exemplo, a actual RTPI cativar a atenção dos luso-descendentes californianos, alguns de segunda ou terceira geração, que apesar de sentirem uma ligação a Portugal não falam uma palavra de português? Não deveria ser essa uma das vocações da RTPI? Promover a extensão do sentido de portugalidade e a imagem de Portugal deviam ser objectivos orientadores da RTPI, mas basta olhar para a sua programação actual para ver que se está bem longe disso.
Será que os responsáveis pela nossa RTPI não olharam nunca para o que fazem os canais internacionais das suas congéneres europeias? TVE, TV5, etc.?
E depois há o eterno problema colocado por JPP no seu blog: os programas mudados à pressa e que raramente são emitidos às horas anunciadas.
Às vezes penso que sou eu que estou mal habituado, pelo menos no que toca ao respeito pelos espectadores. Com todos os defeitos que a televisão americana pode ter (e acreditem que a lista seria bastante longa), a forte competição entre estações criou regras rígidas destinadas a criar hábitos definidos entre aqueles que escolhem a estação. Uma delas é a rotina. Não é preciso ser um génio para perceber que a rotina é a primeira regra de fidelização dos espectadores. Saber que o programa “X” passa às tantas horas faz mais pelas audiências do que milhões em publicidade. Por aqui, os espectadores habituaram-se a ver os programas começados apenas às horas certas (20:00h; 22:00h, etc.) e às meias horas (20:30h, 22:30h, etc.), o que por si só é infinitamente melhor do que ter de memorizar que um programa começa às 18:34h…
Já desisti de ficar frustrado com a RTPI, mas ainda me irrito sempre que a minha tentativa de “voltar à pátria por via televisiva” não é correspondida. “Porque raio estás tu a ver televisão mexicana?”, perguntou-me há algum tempo a minha amada e futura mulher, que não fala português, quando me apanhou a meio de um pretenso programa cómico da RTPI onde a ideia de comédia era transmitida aos gritos e por “laugh tracks” despropositadas.
No final. Com um suspiro intermitente, pego no controlo remoto e mudo para o canal 764 que a Adelphia de West Hollywood me concede. Finalmente volto “à Europa por via televisiva”… graças à TV5. Merci!