Ehud Manor, o bardo de Israel

Ofra Haza – Chai

Ehud Manor, um dos mais prolíficos poetas israelitas, morreu subitamente na terça-feira, aos 64 anos, vítima de um ataque cardíaco. O seu funeral foi realizado ontem à tarde na pequena cidade de Binyamina, a sua terra natal. Ehud Manor era reconhecido especialmente pelas inúmeras letras que escreveu para canções que se tornariam inesperados êxitos internacionais – entre elas “Aba Ni Bi” e “Chai”, que representaram Israel no Festival Eurovisão da Canção, onde alcançaram o primeiro e segundo lugar, respectivamente.


(clique na imagem para ouvir a canção)

Vivo (חי)

Oiçam irmãos, estou ainda vivo
E os meus olhos ainda se erguem para a luz
Muitos são os meus espinhos, mas também as minhas flores
E à minha frente estão anos numerosos demais para contar
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda

Um salmo passa de geração em geração
Como uma Primavera antiga, rumando à eternidade
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda

Refrão:
Vivo, vivo, vivo – Sim, estou ainda vivo!
Esta é a canção que o meu avô
Cantou ontem ao meu pai
E hoje eu canto.
Estou vivo, vivo, vivo
O povo de Israel vive
Esta é a canção que o meu avô
Cantou ontem ao meu pai
E hoje eu canto.

Os meus dias e noites estão cheios de vida
E no meu céu o pilar de fogo ainda se ergue
Cantarei eternamente
Abro os meus braços
Aos meus amigos do outro lado do mar
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda

(Refrão)

Vivo, vivo, vivo (2x)
Vivo, estou ainda vivo!

Com letra de Ehud Manor e música de Avi Toledano, “Chai” foi cantada por Ofra Haza, representando Israel no Festival Eurovisão da Canção de 1983, realizado na Alemanha. O poema original em hebraico pode ser lido aqui: חי

::A LER:: Haaretz – His strength was his simplicity / Haaretz – Happiness in the simple landscapes of childhood / Arutz Sheva – Deputy PM Shimon Peres: Manor Was the Most Beloved of Israel / Jerusalem Post – Thousands mourn at Manor’s funeral / Murió el poeta israelí, Ehud Manor / È morto Ehud Manor / Entrevista a Ehud Manor: Made in Binyamina / המוסיקה של ישראל – אהוד מנור / אהוד מנור – ויקיפדיה / Ynet – אהוד מנור – תרבות ובידור

A Música dos Judeus do Uganda

Músicas da Judiaria VII

 Abayudaya, os Judeus do Uganda

Para ouvir

The Jews from Uganda: Lekhá Dódi

A sétima edição das Músicas da Judiaria é dedicada aos Abayudaya, nomeados no domingo passado para um Grammy.
Abayudaya é uma palavra do dialecto bantu-luganda que significa literalmente Povo Judeu. Os Abayudaya são os judeu negros do Uganda. Escondidos do resto do mundo durante largas décadas em pequenas aldeias ao redor de Mbale, nas encostas do monte Elgon, próximo da fronteira com o Quénia – a 250 quilómetros de Kampala, a capital – os cerca de mil judeus do Uganda viveram até agora uma existência a oscilar entre a perseguição e o esquecimento. Na semana passada, uma nomeação para os Grammy, na categoria de melhor álbum de World Music catapultou-os para a ribalta da cena musical internacional, levando o seu líder, o jovem rabino Gershom Sizomu (ver Gershom Sizomu – Judeus na Primeira Pessoa [Arquivos da Judiaria]), a pisar a passadeira vermelha do Staples Center, em Los Angeles.
A nomeação dos Abayudaya foi atribuída ao álbum Abayudaya – Music from the Jewish People of Uganda, lançado pela Smithsonian Folkways e compilado pelo rabino Jeffrey A. Summit, professor de etnomusicologia da Tufts University.
Das 24 canções do CD, escolhi para a sétima edição das Músicas da Judiaria uma das mais emblemáticas composições litúrgicas judaicas: Lekhá Dódi – לכה דודי –, um hino composto a partir de um poema místico seiscentista da autoria de Shlomo Alkabetz, um cabalista de Safed, cidade da Galileia onde se refugiaram centenas de judeus portugueses fugidos da Inquisição.
Vale bem a pena ouvir os Abayudaya. É só clicar aqui: Músicas da Judiaria VII

::NOTA:: Até à semana passada, altura em que a Rua da Judiaria mudou definitivamente para este novo endereço, o blog não dispunha de espaço de armazenamento online suficiente para manter um arquivo completo das Músicas da Judiaria. Agora, feita a mudança, essa deficiência foi superada e todas as músicas que passaram pelo blog serão gradualmente aqui arquivadas em página própria na coluna da direita, a abrir os Arquivos Temáticos. Fiquem atentos.

A Judia

(poema de Tomás Ribeiro)

Dormes? eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi:
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme, querida, que eu descanto aqui!

Dorme! eu descanto a acalentar-te os sonhos,
Virgens, risonhos, que te vem dos céus!
Dorme! e não vejas o martírio, as magoas,
Que eu digo às águas e não conto a Deus!

Anjo sem pátria, branca fada errante,
Perto ou distante que de mim tu vás,
Há de seguir-te uma saudade infinda,
Hebrea linda, que dormindo estás!

Onde nasceste? Onde brincaste, oh bela?
Rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? em Malta? em Nazareth? no Egipto?
Mundo infinito, e tu sem berço?! oh! Sim.

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Folha que o vento da fortuna impele!
Vítima imbele que o tufão roubou!
Flor que n’um vaso se alimenta, cresce,
Ri, desaparece, e nunca mais voltou!

Filha dum povo perseguido e nobre,
Que o mundo encobre o seu martírio, e crê!
Sempre Ashevero a percorrer a esfera!
Desgraça austera! Inabalável fé!

Porque há de o lume de teus olhos belos,
Mostrar-me anelos d’infinito ardor?
Porque esta chama a consumir-me o seio?…
Deus de permeio maldiz o amor!…

Peito! meu peito, porque anseias tanto?
Pranto! Meu pranto, basta já, não mais!
É sina, é sina; remador, voltemos;
Não n’a acordemos… para quê, meus ais?…

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Tomás Ribeiro (1831- 1901), poeta português.

Versos adaptados para uma canção popular novecentista, dedicada à “Ex.ma Snr.a D. Anna Adelaide Leite Bastos”, recolhida no “Cancioneiro de Músicas Populares”, da autoria de César das Neves com prefácio de Teófilo Braga; Porto, 1893.
(imagens da Biblioteca Nacional).

Bob Dylan – O Sionista

Músicas da Judiaria VI

Para ouvir:

Bob Dylan: Neighborhood Bully

Por ocasião do lançamento (nos EUA e Reino Unido) do primeiro volume das memórias de Bob Dylan, a 6ª edição das Músicas da Judiaria – agora “revista e aumentada” – recuperou aquela que é talvez a mais emblematicamente judaica das canções de Dylan: Neighborhood Bully, do álbum Infidels, de 1983, um tema onde Bob Dylan demonstra uma profunda afinidade e identificação com o povo judeu e com Israel. Ao mesmo tempo, Neighborhood Bully assume-se como um violento ataque ao antisemitismo e ao anti-sionismo.
Mas a relação de Dylan com o seu judaísmo nunca foi pacífica. Robert Allen Zimmerman– de seu nome verdadeiro -, o franzino adolescente judeu que passava as férias de Verão no Herzl Camp, em Devil’s Lake, Wisconsin, haveria de ocultar as origens sob o nome artístico que o consagraria.
Em 1978, quebrando as rígidas e auto-impostas barreiras de defesa da sua privacidade, Bob Dylan anunciou ao mundo que se convertera ao cristianismo. O recém-adquirido estatuto de “cristão renascido” transbordou para a carreira musical, chocando o seu público e os críticos. Passou apenas a compor temas religiosos e produziu três álbuns inspirados pela linguagem do gospel: Slow Train Coming (1979), Saved (1980) e Shot of Love (1981). A crítica não lhe perdoou a trilogia e profetizou-se o fim da célebre “nascente de talento” de Dylan, como um dia lhe chamara Phil Ochs.
Talvez influenciado pela reacção negativa à sua conversão musical, Bob Dylan abandonaria o cristianismo em 1983, regressando ao judaísmo, desta vez como praticante. Começou a recusar fazer concertos ao sábado e dedicou-se ao estudo da Cabalá, muito antes desta se tornar moda entre as estrelas da música e do cinema.
Nesse mesmo ano, lança o álbum Infidels, selando definitivamente o corte com o cristianismo e o regresso ao judaísmo. É daqui que sai Neighborhood Bully, a canção desta edição das Músicas da Judiaria. O rompimento com o cristianismo é flagrante especialmente na letra iconoclasta da canção Man of Peace.
Desde então, Bob Dylan apareceu por diversas vezes na famosa maratona televisiva L’Chaim/To Life, organizada anualmente nos EUA para recolher fundos para o Chabad Lubavitch, um movimento ortodoxo judaico com uma forte componente mística. Em finais de Setembro último, Bob Dylan foi visto nos serviços de Yom Kippur da sinagoga ortodoxa Adath Israel, em St. Paul, no Minnesota.
Mas quem for ler a sua nova autobiografia à procura de mais revelações sobre a espiritualidade de Bob Dylan certamente ficará desapontado. Por enquanto, no primeiro de três volumes, o cantor limita-se a escrever essencialmente sobre a faceta da sua vida que mais fascinará os seus seguidores – a sua carreira musical.
Recentemente, Like a Rolling Stone, da sua autoria, foi escolhida como a melhor canção de rock ‘n’ roll de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone. “Nenhuma outra canção pop transformou e desafiou de forma tão profunda as leis comerciais e as convenções artísticas da sua época, e de todas as épocas”, escreveu a revista.
A autobiografia resgatou-o também do exílio mediático que Bob Dylan impusera a si próprio. No domingo passado, Dylan foi entrevistado pelo jornalista Ed Bradley para o programa 60 Minutes, da CBS, naquela que foi a sua primeira entrevista televisiva em duas décadas. Um excerto da entrevista pode ser visto aqui (formato Windows Media™).
Entretanto, enquanto não há tradução portuguesa do Bob Dylan Chronicles: Vol. One, vale a pena clicar no link para as Músicas da Judiaria VI e ouvir (e ler) Neighborhood Bully.

A Tradição Musical dos Judeus Portugueses

Músicas da Judiaria V

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

A edição n° 5 das Músicas da Judiaria é dedicada à tradição musical da liturgia dos judeus portugueses. Apesar de totalmente extinta em Portugal pela perda de continuidade gerada com as perseguições quinhentistas, a liturgia segundo os ritos dos judeus portugueses continuou a ser praticada na Diáspora, especialmente em Amsterdão, Nova Iorque, Londres, Bordéus, Hamburgo e Curaçao (Antilhas Holandesas) – onde existiram (e ainda existem) as mais representativas comunidades de judeus lusitanos emigrados.
Nesta edição dá-se aqui a conhecer a melodia do Salmo 29, cantado pelo rabino Abraham Lopes Cardozo, descendente de judeus portugueses nascido na Holanda, em 1914, bisneto de David Lopes Cardozo (1808-1890), rabino-chefe da comunidade portuguesa de Amsterdão – o último rabino da cidade holandesa a fazer os seus sermões de Shabbat em português.
Um verdadeiro achado de etnomusicologia, a canção desta edição das Músicas da Judiaria é retirada do CD The Western Sephardi Liturgical Tradition, as sung by Abraham Lopes Cardozo, recentemente editado pelo Jewish Music Research Center, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

::Ilustração:: “Vista da Sinagoga dos Judeus Portugueses em Amsterdão”, gravura holandesa do século XVII

Tendress et Rage – A Música Yiddish

Músicas da Judiaria IV

 Moshe Leiser (voz e guitarra), Ami Flammer (violino) e Gérard Barreaux (acordeão)

Para ouvir:

Chansons Yiddish: Reyzele

Nesta edição das Músicas da Judiaria IV presta-se homenagem à tradição musical popular e à língua dos judeus da Europa Central e de Leste, o yiddish. À semelhança do ladino – a língua franca dos judeus de tradição ibérica –, o yiddish é também uma língua mesclada, feita de palavras tomadas primariamente de empréstimos do alemão e do hebraico. Enquanto língua viva, o yiddish florescera dos dois lados do Atlântico.
Com o fluxo migratório gerado antes e durante a Segunda Guerra Mundial, a língua que apaixonara Franz Kafka muda o seu epicentro da Europa para os Estados Unidos. Em Nova Iorque, o yiddish aparece intimamente ligado a manifestações culturais da vasta comunidade judaica – da literatura ao teatro, passando pela música e pela rádio. Era a língua materna de George Gershwin.
Para ter uma ideia da importância do impacto do yiddish na cultura popular americana aconselho vivamente a audição de uma reportagem radiofónica efectuada pela National Public Radio (disponível aqui em formato RealAudio).
Aos poucos, o yiddish foi perdendo notoriedade, correndo mesmo risco de extinção. O Shoá (Holocausto) e o desaparecimento progressivo das gerações que tinham no yiddish a sua língua materna – aliado ao ideal nacionalista israelita de fazer do hebraico a língua nacional – quase condenaram o yiddish (e também o Ladino) ao desaparecimento.
Em 1985, um grupo de três jovens músicos judeus residentes em Paris (na foto), resolveu tentar resgatar a língua moribunda dos seus pais gravando um conjunto de canções populares dos judeus da Europa Central e de Leste. Moshe Leiser (voz e guitarra), Ami Flammer (violino) e Gérard Barreaux (acordeão), todos com formação clássica gravaram então “Chansons Yiddish – Tendress et Rage”. O yiddish não era a “língua primária” de nenhum deles, mas todos tinham crescido a ouvir o idioma falado e cantado pelos pais. A gravação contém, de forma perfeitamente assumida, alguns erros de pronúncia, mas, mais do que forma, é o espírito que importa.
Actualmente, Moshe Leiser, o vocalista, é director artístico da Welsh National Opera, de Cardiff, depois de ter desempenhado funções idênticas no Grand Théâtre de Genève, Opéra de Lyon, Théâtre des Champs-Elysées e no Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, entre outras companhias. Na Welsh National Opera, Moshe Leiser dirige este Verão La Traviata, de Verdi.
Por último, não resisto à tentação de dedicar esta canção das Músicas da Judiaria IV a Rui Zink, que em 1993 me ofereceu uma cassete onde gravara “Chansons Yiddish – Tendress et Rage“. É a ele que devo o meu primeiro contacto com estas notáveis cantigas de ternura e raiva. Obrigado Rui.

::A VISITAR:: Yiddish Radio Project / National Yiddish Book Center / Vilnius Yiddish Institute / Shtetl, Yiddish Language and Culture / Yiddishkeit (palavras e expressões em yiddish traduzidas para o inglês) / The Spoken Yiddish Language Project / Yiddish-Hebrew-English-German-Russian-French Picture Dictionary

Richard Kaplan – A Música dos Judeus do Iraque

Músicas da Judiaria III

 Richard Kaplan


Hallelu Avdey Adonai

Foi hoje actualizada a canção das Músicas da Judiaria, uma rubrica permanente já na sua terceira edição. Esta semana, os leitores da Judiaria podem ouvir Richard Kaplan (na foto), um etnomusicólogo que dedicou a sua carreira a estudar e interpretar a música tradicional dos judeus da Diáspora. A canção escolhida é Hallelu Avdey Adonai (Adorai, Servos do Senhor), uma composição litúrgica tradicional dos judeus iraquianos – uma canção responsorial que segue a ordem crescente do alfabeto hebraico na enumeração dos atributos do Criador: “Bendito dos Benditos”, “Antigo dos Antigos”, “Santo dos Santos”. O refrão é retirado da primeira linha do Salmo 113.

Edições anteriores das Músicas da Judiaria:
I – Shlomo Bar e os Habrera Hativeet (canção: “Yeladim Ze Simcha” / II – Suzy (Herencia (canção: “Mar de Leche”)

Os Judeus do Iraque

Hallelu Avdey Adonai, da edição desta semana das Cantigas da Judiaria, pertence à tradição litúrgica dos judeus do Iraque, uma comunidade milenar, cuja origem remonta à deportação das “Dez Tribos” que habitavam o Reino do Norte de Israel, no século VIII AEC*. A população judaica da Babilónia – terra natal do Patriarca Abraão – sofreu um aumento significativo, após a destruição do Primeiro Templo por Nabucodonosor, com a deportação forçada de centenas de milhar de judeus, em 586 AEC. Mais tarde, a mesma comunidade receberia novos influxos de refugiados, especialmente após a Judeia ter deixado de ser um estado independente, sob o braço de ferro de Vespasiano e Tito, no ano 70, e depois do esmagamento da revolta de Bar-Kochba, no ano 135.
Devido às condições de tolerância relativa em que viviam os judeus na Babilónia, a comunidade prosperou e por alturas da destruição do Segundo Templo era já composta por cerca de um milhão de pessoas.
Culturalmente, os judeus da Babilónia rapidamente ultrapassaram os seus congéneres que permaneceram na terra natal da Judeia. O Talmude da Babilónia (distinguindo-se do Talmude de Jerusalém) foi composto no seio desta comunidade e continuamente ensinado em academias judaicas em Sura, Pumbeditha e Nehardea. Os judeus da Babilónia dominaram cultural e religiosamente o mundo judaico até ao século XI, altura em que a comunidade começou a entrar em declínio, eclipsada agora pelos judeus da península Ibérica.
A partir do século XVIII, os judeus de Bagdade, e de toda a Mesopotâmia, começaram a ser vítimas de uma repressão crescente por parte dos líderes islâmicos. No início do século XIX, muitos judeus iraquianos emigraram para a Índia, para a China e para a Europa Ocidental.
Após a criação do estado de Israel, os judeus iraquianos sofreram novas perseguições e pogroms, uma situação que deu origem, em 1951, a uma gigantesca “ponte aérea” de emigração para Israel (ver Operations Ezra & Nechemia: The Aliyah of Iraqi Jews). De um total de mais de 150 mil em 1948, actualmente residem ainda no Iraque apenas 34 judeus.

* Antes da Era Comum, designação “religiosamente neutra” adoptada pelos historiadores em detrimento de “Antes de Cristo”

 Escrituras sagradas judaicas em Bagdade após a invasão
Escrituras sagradas judaicas recuperadas em Bagdade, em finais de 2003, após os motins e pilhagens que marcaram as semanas seguintes à queda do regime de Saddam Hussein.

A LER: The Scribe – Journal of Babylonian Jewry / Iraqi Jews fight for Independence in the Arab Revolt of 1916-18 / The Search for a Talmud in Baghdad / The Few Remaining Jews in Baghdad / Baghdadi Jews in Shanghai / Reason: Babylonian Hostility: In Iraq, the Jews – and anti-Semitism – are everywhere / From the Kitchen of Babylonian Jews.

Suzy

Músicas da Judiaria II

Suzy, a nova estrela da música em Ladino


(clique para ouvir a canção)

Tal como prometido, foi actualizada a canção das Músicas da Judiaria, uma nova secção com direito a link arquivo permanente na coluna da direita. Depois de Shlomo Bar, cabe esta semana a vez de Suzy, uma cantora israelita nascida na Turquia que mantém vivas as tradições melódicas dos judeus ibéricos expulsos de Portugal e Espanha nos finais do século XV. A canção é Mar de Leche, uma cantiga tradicional em ladino cantada há mais de 500 anos por judeus da Diáspora sefarditas.

Si la mar era de leche
Yo me aria un pescador
Pescaria mis dolores
Con palavricas d’amor
Dame la mano, palomba
Pora suvir al tu nido
Maldicha que durmes sola
Vengo a durmir contiyo

Para mais sobre o ladino – a língua mesclada feita de espanhol e português medievais falada pelos antigos judeus ibéricos – é só clicar no link das Músicas da Judiaria e seguir as sugestões propostas.

Shlomo Bar

Shlomo Bar – Yeladim Ze Simcha

Músicas da Judiaria I
(clique na imagem para ouvir a canção)

A Rua da Judiaria passa a ter uma rubrica dedicada exclusivamente à música. Para inaugurar este espaço, escolhi uma canção de Shlomo Bar, Yeladim Ze Simcha. Para a ouvir, e para saber mais sobre o cantor e a sua banda, é só clicar aqui. Vale bem a pena. As Músicas da Judiaria vão ficar disponíveis no Arquivo da coluna da direita. Espero que gostem.

O Caso Esquecido do Tenor Ladino

Aqui na Judiaria já se escreveu sobre o Ladino, já se postaram poemas, recomendaram links para ouvir cantigas e mesmo orações, tudo na língua mesclada dos judeus portugueses e espanhóis medievais. Mas a isto faltava uma outra coisa, algo de recorrente, que perpassa um pouco o todo deste blog: o esquecimento a que nós, portugueses, votamos parte da nossa alma colectiva.
E não se esquece só o passado distante, o dos mortos centenários. Esquecem-se também os vivos.
Serve esta entrada para dizer que um dos mais conceituados tenores “americanos” é um judeu português. Nascido em Lisboa, em 1931, descendente de uma longa linha de rabinos sefarditas, Nico Castel é neto de Abraão Castel – que durante mais de três décadas foi o rabino da comunidade judaica de Lisboa, imediatamente antes do saudoso rabino Abraão Assor. Tido como um dos maiores estudiosos da tradição musical dos judeus portugueses e espanhóis, Nico Castel é residente da Metropolitan Opera de Nova Iorque há 34 anos, leccionado ainda nas prestigiadas Juilliard School of Music, Mannes College of Music e Manhattan School of Music, de Nova Iorque; e no Instituto Israelita de Artes Vocais, em Tel Aviv. Apesar de já ter actuado no São Carlos, Castel é um virtual desconhecido em Portugal.

Para ouvir uma cantiga em Ladino (Cuando el rei Nimrod) na voz de Nico Castel é só clicar acima.

Nico CastelCuando el rei Nimrod

Cuando el rei Nimrod al Campo salia,
Mirava en el cielo i en la estreyeria,
Vido una luz santa en la Juderia,
que havia de naser Avraham Avinu,
Avraham Avinu, padre querido
padre bendicho, luz de Israel.
La mujer de Terah quedo prenhada
E dia en dia ele preguntava:
De que teneij la cara tan demudada,
eya ya savia, el bien que tenia(…)

De origem incerta, datada dos séculos XIV ou XV, esta canção conta a história do nascimento do patriarca Abraão. A Midrash conta que quando o rei Nimrod, famoso pelas suas previsões astrológicas, antecipou o nascimento de Abraão, viu também que ele estaria predestinado a negar a sua auto-proclamada divindade dinástica. Em desesperado, o rei ordena a matança de todos os recém nascidos do sexo masculino, mas Abraão sobrevive miraculosamente. Esta homenagem ao patriarca era cantada pelos judeus ibéricos na noite de shabbat, depois do jantar, e após as cerimónias da circuncisão (Brit Milá).

(Nico Castel com Plácido Domingo, revista Opera News, May 1981)
Nico Castel aparece aqui (à direita na foto) ao lado de
Plácido Domingo, numa fotografia publicada na edição
de Maio de 1981 da revista Opera News