A Resposta (um pequeno conto)

Dois estudantes do Maggid de Mezheritz foram ter com o mestre: “Rabi, temos um problema. Está escrito no Talmude que devemos agradecer tanto pelos dias bons como pelos maus. Como pode ser isto possível? Que significado terá a nossa gratidão se ela for igualmente repartida entre o bom e o mau?”
Ao ouvir a interrogação dos seus discípulos, o Maggid respondeu: “Vão até Anapol e procurem o rabino Zusya. Ele terá a resposta que procuram.”
Os estudantes puseram-se a caminho e depois de dois dias de viagem chegaram finalmente a Anapol. Na mais pobre rua da vila, entre duas pequenas casas, encontraram uma modesta cabana praticamente em ruínas. Lá dentro, o rabino Zusya estava sentado à mesa, a ler um livro iluminado por uma nesga de luz que vinha da única janela da habitação. À sua volta não havia praticamente nada além da mesa, três cadeiras e uma estante carregada de livros. Ao ver que tinha visitas, o velho rabino ergueu os olhos: “Sejam bem-vindos! Desculpem eu não me levantar, mas tenho umas dores terríveis nas pernas. Querem comer alguma coisa? Só tenho algum pão… mas também há água…”
“Não. Viemos somente para lhe fazer uma pergunta. O Maggid de Mezheritz disse-nos que o rabi Zusya nos poderia explicar porque razão o Talmude diz que devemos agradecer tanto os dias bons como os maus?”
O velho rabino sorriu e abanou a cabeça com ar intrigado: “Eu? Não faço a mínima ideia porque é que o Maggid de Mezheritz vos mandou vir ter comigo. É que eu nunca tive um dia mau na minha vida. Todos os meus dias são sempre cheios de milagres.”

Baal-Shem-Tov, nome pelo qual ficou conhecido o rabino Israel ben Eliezer (1700-1760), fundador do Hassidismo.

Ilustração: “Oração Matinal”, Kazimierz, o bairro judaico de Cracóvia, Polónia, 1937. Fotografia de Roman Vishniac (1897-1990).

Esta pequena história inaugura uma nova rubrica fixa da Rua da Judiaria dedicada aos contos antigos da tradição judaica. Este primeiro conto, formulado segundo os padrões de uma sensibilidade antiga, escrito pelo seguidor de um homem chamado Baal-Shem-Tov (que quer literalmente dizer Mestre do Bom Nome), sem dúvida um grande nome, é dedicado a José Pacheco Pereira, pelo segundo aniversário do seu Abrupto. Muitos parabéns!

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