Kinky Friedman, o cowboy judeu do Texas

They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore
Ride ’em Jewboy
Ride ’em Jewboy (versão de Willie Nelson)

Músicas da Judiaria X


Em seis dias Deus criou os céus e a terra e todas as maravilhas do universo. Honestamente, acredito que ele devia ter levado um bocadinho mais tempo…”

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They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore

Ride ’em Jewboy

Ride ’em Jewboy (versão de Willie Nelson)

Os críticos chamam-lhe “o Frank Zappa da música country”, mas Kinky Friedman prefere ser conhecido como o cowboy judeu do Texas. Iconoclasta, mordaz, irreverente e “politicamente incorrecto” quando nem sequer havia ainda “politicamente correcto”, Kinky Friedman é, por mérito próprio, um ícone incontestado da música country. Nos seus álbuns, nas décadas de 60, 70 e 80, participaram músicos como Bob Dylan, Tom Waits, Willie Nelson e Ringo Starr (que fez a voz de Jesus Cristo na canção Men’s Room in LA, do álbum Lasso from El Passo de 1976)
A sua mais conhecida canção – uma das duas escolhidas para esta edição das Músicas da Judiaria –, escrita na melhor tradição de “canções-história” cómicas como A Boy Named Sue, de Johnny Cash, chama-se They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore. Na letra, Kinky Friedman relata um episódio da sua vida real, quando num bar do Texas confrontou (… à pancada) um racista antisemita. Kinky é ainda o autor daquela que é a única canção de country western dedicada às vítimas do holocausto nazi: Ride ’em Jewboy, considerada pelos críticos uma das suas mais belas composições (apresentada aqui nas Músicas da Judiaria em duas versões, uma das quais cantada por Willie Nelson).
Richard “Kinky” Friedman nasceu em Chicago, a 31 de Outubro de 1944, mas tinha ainda poucos meses de idade quando a família se mudou para o racho Rio Duckworth, próximo da pequena localidade de Palestine, no Texas. Durante toda a sua carreira, Kinky Friedman fará questão de se apresentar como “o judeu de Palestine”.
Filho de um professor de psicologia da Universidade do Texas, Kinky inicialmente pensou seguir a carreira do pai, mas abandonou a ideia pouco tempo depois de se ter formado. Em 1966, entrou para o Peace Corps e passou dois anos de voluntariado a prestar ajuda humanitária no Borneo onde, segundo ele próprio conta, a sua maior proeza foi a introdução do frisbee junto dos nativos.
Regressado ao Texas, junta-se a um bando de músicos renegados para paradiar a surf music, então em voga, com um conjunto chamado King Arthur & the Carrots, mas sem grande sucesso. Em 1971, Kinky Friedman funda a banda que o acompanha até hoje e que acabaria por tornar-se a sua imagem de marca: Kinky Friedman and the Texas Jewboys, que depressa atingiu um estatuto de culto nas franjas da música country. A sua actuação em Nashville na mítica Grand Ole Opry – a “catedral” da música country –, ficaria lendária depois de Kinky saudar a audiência com um sonoro Shalom!


Kinky Friedman com Bob Dylan à porta do The Troubadour. Los Angeles, 1974

Com o seu amigo Bob Dylan, Kinky e os Texas Jewboys participaram, em 1975 e 76, na mítica digressão pelos EUA que ficaria para a história como The Rolling Thunder Revue, actuando ao lado de Joan Baez, Roger McGuinn, Rambling Jack Elliott, Joni Mitchell, Bob Neuwirth, Allen Ginsberg e, claro, do próprio Dylan (ver On the Road With Bob Dylan).
Musicalmente, Kinky influenciou toda uma nova geração de músicos da chamada zona indy country, de entre os quais se destaca Fred Eaglesmith.
Em 1986 Kinky Friedman escreveu o primeiro do que viria a ser uma série de 20 livros policiais, tornando-se um escritor de enorme sucesso dentro e fora dos EUA. Com títulos como Elvis, Jesus & Coca-Cola (1993), God Bless John Wayne (1995) e Love Song of J. Edgar Hoover (1996), os romances policiais de Kinky Friedman, tal como antes acontecera com os seus poemas e canções, oscilam entre um humor desbragado e uma seriedade capaz de obrigar o leitor a reflectir. O seu último livro, Ten Little New Yorkers, acabou de ser lançado nos EUA.
Hoje, para além da música e da escrita, Kinky Friedman embarcou numa carreira política semi-séria, candidatando-se ao lugar que em tempos pertenceu a George W. Bush, empenhado em tornar-se “o primeiro governador judeu do Texas”. Com o slogan “Why the Hell Not”, a sua candidatura não foi inicialmente levada a sério pelo establishment político texano, mas Kinky provou as suas intenções ao conseguir recolher mais fundos do que o seu opositor directo, o congressista democrata Chris Bell.
Apesar da campanha eleitoral ser a sério, Kinky Friedman não se deixa levar totalmente pela seriedade da política. Numa entrevista recente, um jornalista perguntou-lhe qual será o seu primeiro acto oficial quando for eleito governador. Kinky responde sem hesitar: “A primeira coisa será exigir uma recontagem dos votos.”

::A LER:: Kinky Friedman Official Site / Kinky Friedman’s Blog / The New Yorker: Lone Star / Texas Monthly: Kinky Friedman (colecção de artigos) / Kinky Friedman: a success against all odds (entrevista) / Azeite Farouk-Friedman

::A OUVIR:: Kinky Friedman Speaks Out (entrevista com Ann Devlin sobre o livro The Love Song of J. Edgar Hoover)

::A VER:: KLRU: Texas Monthly Talks > Kinky Friedman

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