

Se existe um único tema que domina todos os meus escritos, todas as minhas obsessões, é a memória – porque tenho tanto medo do esquecimento quando do ódio ou da morte. Esquecer, para um judeu, é negar o seu povo – e tudo o que ele simboliza – e também negar-se a si próprio. Daí o meu desejo de não esquecer nem de onde venho nem o que influenciou as minhas opções: as paisagens assombradas da minha infância; a terra de maldição onde num instante as crianças se transformavam em velhos; as pessoas que conheci ao longo desse caminho.
Lembrar… lembra-te que foste escravo no Egipto. Lembra-te de santificar o Shabbat… Lembra-te de Amalek, que quis aniquilar-te… nenhum outro mandamento bíblico é mais persistente. O judeus vivem e crescem sob o signo da memória. (…) Ser judeu é lembrar – reclamar o nosso direito à memória bem como o dever de a manter viva.
Através do passado recente encontro-me com as minhas origens distantes, retornando a Moisés e Abraão. É também em seu nome que eu comunico a minha busca. Quando um judeu reza, as suas orações enlaçam-se às de David e do Besht. Quando um judeu desespera, é a tristeza de Jeremias que o faz chorar. A memória dos judeus ganha força na memória do seu povo e, para além dela, da humanidade.
Porque a memória é um bem: cria laços em vez de os destruir. Laços entre o presente e o passado, entre indivíduos e grupos. É por me lembrar do nosso princípio comum que me aproximo dos meus semelhantes, de todos os seres humanos. É por me recusar esquecer que o seu futuro é tão importante quanto o meu. Que seria o futuro da humanidade se fosse desprovido de memória?”
Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz, retirado do prefácio do livro “From the Kingdom of Memory”, Summit Books, New York, 1990.
Quando pedi aos meus leitores que fossem ao Rossio para lembrar simbolicamente as quatro mil vítimas do massacre de 19, 20 e 21 de Abril de 1506, nos dias em que passam 500 anos sobre o acontecimento – de forma absolutamente voluntária e desprovida de uma qualquer estrutura ou “organização” – nunca imaginei que poderia ser intimado a explicar-me e a expor as razões subjacentes a tal iniciativa.
Tal como Elie Wiesel, tenho medo do esquecimento. O apelo que fiz aos meus leitores foi desencadeado pela percepção de que a data iria passar completamente despercebida. Que os mortos de há 500 anos iam ser esquecidos. Não há comemorações oficiais; não há lançamento de livros, artigos de jornal ou reportagens de televisão. Confesso que – talvez por ingenuidade minha, talvez por teimar em acreditar na bondade humana – parti do princípio que o meu apelo nada tinha de polémico ou controverso: Exactamente 500 anos depois de 4 mil pessoas terem sido chacinadas em Lisboa, pedi aos meus leitores que as lembrassem acendendo uma vela no Rossio, um dos locais emblemáticos do massacre, onde durante três dias milhares de cadáveres arderam em fogueiras improvisadas. Escrevi: “que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.”
Reparo agora que até a questão das velas foi mal interpretada. Para mim, o significado das velas nunca foi nem o de romaria, cerimónia religiosa, expiação de pecados ou pedido de desculpas. Pode até ser uma questão cultural, reconheço, mas para mim, neste caso, o significado das velas é apenas um: lembrar os mortos. No judaísmo, o aniversário da morte de alguém é recordado anualmente acendendo uma vela em sua memória – em hebraico, a palavra ór (אור) significa simultaneamente luz e chama e, de forma metafórica, também conhecimento e memória. Ao pedir que fossem acesas velas em memória dos mortos de 1506 nunca tive em mente uma cerimónia religiosa – que religiosidade terá o gesto equivalente de colocar flores na campa de alguém? Por isso mesmo, por não considerar as velas como parte de uma celebração religiosa, pedi depois aos meus leitores religiosos (judeus) que recitassem Kaddish, a oração judaica em memória dos mortos.
Para mim, acima de tudo, o importante era não esquecer. O importante era lembrar os três dias que há 500 anos encheram de sangue as ruas de Lisboa. O importante era lembrar as vítimas. Afinal, a habitual leitura “hagiográfica” da História de Portugal tende a simpatizar com os números redondos e gordos que marcam a passagem dos séculos sobre eventos que lhe ditaram o rumo. Ainda assim, os 500 anos do massacre de Lisboa corriam o risco de ser esquecidos. Uma vez mais.
Não tenho ilusões quanto à dimensão do blog. Apesar dos cerca de 1500 leitores diários, este blog não deixa de ser apenas um recanto ínfimo do ciberespaço. Mas também é tendência inata da blogosfera a capacidade de transbordar para fora de si própria – e por isso não me admirei quando comecei a receber emails de jornais, portugueses e estrangeiros, que me pediam comentários sobre a iniciativa e sobre o aniversário do massacre. Nunca foi minha intenção arvorar-me em porta-voz das comunidades judaicas de Lisboa, dos judeus em geral, dos marranos descendentes das vítimas. Nunca reclamei para mim a exclusividade da tentativa de perpetuação da memória. A iniciativa que propus aos meus leitores, pelo menos para mim, sempre foi simples e translúcida: um gesto simbólico e individual, desprovido de qualquer carácter oficial ou de estrutura (religiosa ou política), propositadamente sem uma organização definida. Ninguém é obrigado a acender uma vela, tal como ninguém é obrigado a ler o blog. O desafio, para mim, era um desafio à memória.
No Quase em Português, Lutz Brückelmann propôs um debate sobre a comemoração do massacre e, mais especificamente, sobre a minha proposta. O resultado, a meu ver, foi imensamente triste. Como um pescador sentado à beira de um lago aparentemente calmo, Lutz lançou o isco que provocou um feeding frenzy, um frenesi que trouxe à tona o que se ocultava sob as águas.
Choveram comentários extemporâneos, os odiozinhos do costume, as acusações gratuitas – “eles só se preocupam com os judeus” (não são organizações judaicas que estão hoje à cabeça da tentativa de fazer com que o mundo não esqueça o genocídio em Darfur? Não foram os judeus o único grupo étnico que participou activamente ao lado dos negros durante a luta pelos direitos cívicos nos EUA da década na 60?); “se há coisa que os judeu não têm é autocrítica” (não são judeus Hannah Arendt, Susan Sontag, Norman Mailer, Philip Roth, Benny Morris, e até Noam Chomsky ou mesmo o execrável Norman Finkelstein, cuja obra é leitura obrigatória para qualquer neo-nazi que se preze?)…
Por tudo o que este “debate” encerra, por todo o ódio que pôs a nu, por todas as “teorias de conspiração”, por toda a ignorância, maldade e sobranceria, o maior mérito que teve foi o de mostrar – provar mesmo – a necessidade absoluta e irredutível da memória.
O assinalar do 250o aniversário do terremoto de Lisboa de 1755, em Novembro passado, não levantou em ninguém este tipo de questões (nem devia ter levantado, obviamente). Ninguém correu para os teclados a debitar prosa rancorosa nos comentários dos blogs; ninguém clamou “mas isso foi há tanto tempo, precisamos é esquecer” ou “… e então os terremotos do Irão e da Turquia, o ‘tsunami’ do Sudoeste Asiático ou as vítimas do Katrina?”; ou sequer “é preciso recordar também todas as vítimas de todas as catástrofes naturais ocorridas na história desde os tempos do Dilúvio até à desastrosa resposta da Administração Bush à tragédia do Katrina.” Ninguém se sentiu manipulado. De cabeça, lembro-me que houve extensos artigos na Imprensa, livros, reportagens de televisão, cerimónias oficiais, missas e procissões em memória das vítimas de 1755. Tudo isto sem que o relembrar desta fracção de memória fosse vista como uma qualquer maquiavélica maquinação. Mas uma tentativa semelhante para lembrar os mortos do massacre de 1506, aparentemente e para muitos, terá sempre “outra carga” – mesmo quando a data não é assinalada oficialmente; mesmo que a esmagadora maioria dos portugueses a desconheça; mesmo quando muitos apenas a descobriram recentemente, através da leitura de um notável romance histórico escrito por Richard Zimler, um judeu americano que mora em Portugal.
Em relação ao “debate”, subscrevo inteiramente o que escreveu Francisco José Viegas:
“Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer.
Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo.”
O meu amigo Lutz Brückelmann tem razão e a sua conclusão certeira deixa-me francamente desgostoso (algo que ele também antecipou): nada disto teria acontecido se os mortos não fossem judeus portugueses; se este desafio à lembrança e à preservação da memória não tivesse sido feito por um judeu; caso não tivesse partido de um blog marcadamente judaico escrito por um judeu. Esta “questão” não existiria (nunca!) se eu não fosse quem sou…
::A LER:: posts sobre o tema e a “polémica”: Miniscente (Luís Carmelo) / A Origem das Espécies (Francisco José Viegas) / Adufe (Rui Cerdeira Branco) / Povo de Bahá (Marco Oliveira) / A Memória Inventada (Vasco) / Os Tempos que Correm (Miguel Vale de Almeida) / Renas e Veados (Boss) / O Amigo do Povo (Bruno Cardoso Reis) / O Amigo do Povo (João Miguel Almeida) / O Amigo do Povo (Ana Cláudia Vicente) / Bombyx Mori (Afonso Bivar) / Ma-Schamba (José Pimentel Teixeira) / Água Lisa (João Tunes) / Local & Blogal (António Baeta Oliveira) / Planície Heróica (Francisco Nunes) / Almocreve das Petas (Masson)
…lista ainda em actualização.
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