The Genius

(“For you I will be a ghetto Jew …”)

Por tua causa
serei o judeu do ghetto
e danço
e visto meias brancas
nos meus membros retorcidos
e enveneno os poços
da vila

Por tua causa
serei o judeu apóstata
e digo ao padre espanhol
do juramento de sangue
do Talmude
e onde estão escondidos
os ossos da criança

Por tua causa
serei o banqueiro judeu
e arrasto à ruína
um velho rei caçador
e acabo com a dinastia

Por tua causa
serei o judeu da Broadway
e choro nos teatros
pela minha mãe
e vendo pechinchas
por baixo do balcão

Por tua causa
serei o médico judeu
e procuro
prepúcios no lixo
para os coser de novo

Por tua causa
serei o judeu de Dachau
e deito-me em cal
com membros deformados
e uma dor inchada
que mente alguma pode entender.

Leonard Cohen, poeta e cantor. Judeu canadiano.
in The Spice-Box of Earth, 1961.

[Aniversário de L.C. anotado n’A Praia]

Quartzo, Feldspato & Mica

“Um ano a partir pedra”, escrevia Rui Manuel Amaral no primeiro aniversário deste blog fundamental. Um verdadeiro compêndio de geologia das palavras, é o que é!
De parabéns: António Pedro Pombo, Nuno Corvacho, Rui Manuel Amaral, João Luís Barreto Guimarães, Manuel Resende, Rui Lage e Sophie.

Shaare Tikvah

O chão tremeu – mas quem bateu
na rocha com a solene vara?
Que voz se ouviu por entre
o ruído da gente e o dos carros
sobre os negríssimos fumos

sobre a lida agora iluminada?
Que se passou enfim
quando um raio abriu ao lado do bulício
uma porta interstício
uma gruta menor
um som sem sino
nem idade
um pequenino
abrasador
tenaz lugar de fidelidade?

Pedro Tamen (poema inédito)

[Ver nota neste post]

Um Doce Ano Novo

Esta noite, vira-se uma página no calendário hebraico. Com o pôr do sol entra-se a 1 de Tishrei, o primeiro dia do ano 5765. Estamos na noite de Ano Novo – Rosh Hashana.
Como escreveu hoje a Ana no seu Crónicas Matinais, o Ano Novo no judaísmo é bastante diferente do que a maioria de nós pode estar habituado. Mais do que uma festa de exteriorização e alegria por nos livrar-nos do “ano velho”, Rosh Hashana marca o início de um período introspectivo de dez dias, em que somos convidados a analisar os nossos actos no ano que passou. Em vez de nos livrar-mos do ano que passa, temos a obrigação de olhar para trás e encarar os nossos erros, enfrentar as nossas falhas. Reconhecer e rectificar. Os 10 dias que agora se iniciam culminarão no Yom Kippur (Dia do Perdão), o dia mais sagrado do calendário judaico.
Símbolo ancestral da transição litúrgica do Ano Novo judaico, o soar do shofar (o instrumento que figura na ilustração deste post. Sobre o instrumento propriamente dito ver também esta página) estilhaça os klipot e prepara-nos para o ano que chega.

Em hebraico, este novo ano escreve-se com as letras tav, shin, samech e hei, o que equivale a 765 (em hebraico os algarismos escrevem-se com as letras do alfabeto, à semelhança da numeração romana). Segundo a gematria – a tradição da numerologia judaica –, 765 é o valor numérico conjugado das palavras:

אהבהahavá (“amor”, que começa com a letra alef)=13
מצווהmitzvá (“mandamento”, que começa com a letra mem)=141
תורהTorá (“instrução”, que começa com a letra tav)=611

As iniciais destas três palavras (alef, mem e tav) formam ainda a palavra אמת emet (“verdade”).
Cabalisticamente, começa hoje então um ano que promete.
A terminar, aqui ficam os votos tradicionais judaicos para este dia, que dedico aos leitores da Rua da Judiaria: Que possam ser inscritos no Livro da Vida e selados para um ano doce e cheio de paz.

! שנה טובה

Um ano de Perplexidades

A falta de tempo para blogar obrigou-me a cometer um lapso imperdoável: deixei passar em branco o primeiro aniversário do Guia dos Perplexos. O José, autor do Guia, foi uma das primeiras pessoas a dar pela chegada da Rua da Judiaria à blogosfera. Ao José devo uma das minhas mais gratificantes experiências blogosféricas, quando um dia me desafiou para um diálogo inter-religioso. Essa dívida de gratidão tem-se multiplicado diariamente pelas leituras generosas que o José vai proporcionado no blog que criou, inicialmente, como instrumento para uma reflexão intimista sobre a sua própria fé. Católico praticante, o José escolheu a obra máxima de Maimonides – um judeu, um filósofo, um rabino medieval ibérico – para título do seu blog. Um reflexo da sua generosidade. Pelo primeiro aniversário do Guia dos Perplexos, aqui vão os parabéns: !מזל טוב

Moises ben Maimon

Os perplexos têm o seu Livro, mas porque não hão-de
eles colocar o kippah ou adornarem-se com os tefillin?
Não lhes chegam o livro nem a fé, porque as areias
do deserto se confundem umas com as outras, basta

chegar uma tempestade, um vento mais forte passar
entre os cedros ou os pomares. Em alguma coisa se
distinguem e por isso os expulsaram ou escolheram.
Rezam numa língua antiga, os perplexos, e esperam.

No mundo, servem o mundo. Mas o coração, fechado
como uma concha, aberto como os muros de Jerusalém,
é um terreno para os enigmas, a perturbação, a sede,

o que fica por dizer. Será tudo tão exacto, tão claro
como nas linhas do Livro? Olham as árvores, perplexos
da sua culpa, guardando a sua alegria, o seu exílio.

Francisco José Viegas (poema inédito)

[Ver nota neste post]

מזל טוב

Incontornável, polémico, irreverente, irónico, bem escrito e por vezes deliciosamente irritante. Incontestavelmente um dos melhores blogs portugueses, o Barnabé faz um ano. מזל טוב (parabéns/boa sorte) rapazes, מזל טוב.

Le Salut par les Juifs

Os judeus deixam sempre
um lugar a mais na mesa,
à espera. Os judeus perderam
as razões para esperar e esperam.

Os judeus sabem que há
um sentido não-escrito
das palavras. Os judeus não dizem
directamente o nome santo.

Os judeu rasgam as vestes
e tapam os espelhos. Os judeus
nunca deixam de ser judeus.
Ainda mereceremos ser judeus.

Pedro Mexia (poema inédito)

::Nota:: Este é o primeiro de uma série de poemas inéditos sobre temas judaicos da autoria de poetas portugueses que em breve serão reunidos em livro, numa antologia organizada por Francisco José Viegas para assinalar o centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá de Lisboa. Poemas de José Augusto Mourão, Abel Neves, João Luís Barreto Guimarães, Francisco José Viegas, Nuno Júdice, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura e José Luís Peixoto vão passar aqui pela Rua da Judiaria. Fiquem atentos.

100 anos

A Comunidade Judaica de Lisboa celebra esta semana o centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança). Menos de um século decorrido sobre o fim da Inquisição, 50 anos depois do retorno dos primeiro judeus ao país, os judeus portugueses começavam a voltar as páginas de um passado feito de perseguições, massacres e tribulações.
Em 1904, a abertura da Sinagoga de Lisboa simbolizava um “regresso formal” dos judeus a Portugal, depois da “expulsão” de 1497 e da consequente conversão forçada ao catolicismo. Antes da agora centenária Shaaré Tikvá, a última sinagoga construída em Portugal fora a Sinagoga de Gouveia, inaugurada a 9 de Setembro de 1496, o dia de Rosh Hashana – o ano novo judaico –, poucos meses antes de D. Manuel promulgar o decreto de expulsão, a 5 de Dezembro do mesmo ano. Descoberta acidentalmente em 1967, uma pedra de granito da velha sinagoga enunciava em hebraico:

A glória desta casa última será maior do que a antiga / disse Adonai [Senhor] dos Exércitos; terminada foi a nossa santa e gloriosa casa neste ano: e os resgatados do Senhor voltarão a Sião com alegria.”

A última palavra hebraica desta inscrição – be-riná (com alegria) – dá-nos a data segundo a fórmula judaica tradicional, através do valor numérico das letras: o ano 5257 do calendário judaico (1496). A pedra de granito da Sinagoga de Gouveia, que em tempos encimara a ombreira da sua porta, fora ao mesmo tempo um epitáfio e uma profecia. Uma profecia que os judeus portugueses cumpririam 408 anos mais tarde, inaugurando em Lisboa a Sinagoga Shaaré Tikvá.

::Ilustração:: Postal mostrando o interior da Sinagoga Shaaré Tikvá (cerca de 1910), impresso e distribuído por Cohen & Cª, da Rua do Arsenal, em Lisboa. A fotografia é da autoria de um judeu português: Joshua Benoliel (1873-1932), conhecido como o “pai” do fotojornalismo em Portugal. Joshua Benoliel será um dos homenageados nas cerimónias oficiais da comemoração do centenário.

Separados à Nascença?


Rabino novecentista Haim Pinto e José Pacheco Pereira

Numa sinagoga frequentada maioritariamente por judeus marroquinos radicados aqui em Los Angeles, deparei um dia com um quadro que me prendeu a atenção. Na parede fronteira à porta principal da sinagoga, o retrato de um homem de longas barbas recebia os visitantes com um olhar algo austero. “É o rabino Haim Pinto, um grande sábio”, explicaram-me. O rabino Haim Pinto, tido como um dos maiores cabalistas marroquinos, conhecido como “O Sábio de Mogador” viveu no século XIX e ainda hoje é venerado por judeus e muçulmanos como “homem justo” (צדיק). Para além da óbvia ascendência portuguesa denunciada pelo nome, o que mais me chamou a atenção foi a extraordinária semelhança física do rabino marroquino novecentista com José Pacheco Pereira, decano da blogosfera e, à sua maneira, ele próprio um צדיק da política portuguesa.

:: A LER :: Jewish Encyclopedia – PINTO / LES SAGES DU MAROC: Rabbi Haim Pinto / History and Anthropology in Jewish Studies – Recounting of the passing of Rabbi Haim Pinto / Bo Voyages Morocco

Luto

E houve grande lamentação
por toda a terra de Israel, em todos os lugares:
Chefes e anciões gemeram,
rapazes e moças perderam o seu vigor,
e amorteceu a beleza das mulheres.
Os recém-casados entoaram cânticos fúnebres
e a noiva ficou de luto no seu quarto de casal.
A terra tremeu por causa dos seus habitantes,
e toda a família de Jacob se cobriu de vergonha.

Judá, século II Antes da Era Comum, I Macabeus, 1;25-28.