Exílios

A tua imagem está gravada no meu coração e é no meu coração que está também traçado o teu afastamento.
E mais do que ela me reanima, a tua imagem ausente aflige-me.
A tua separação confunde os meus projectos; o teu exílio impede e torna tortuosos os meus caminhos.
É por tua causa que a minha alma foi abatida e o meu orgulho foi humilhado.
A ponto que os sicômoros se levantam acima do meu cipreste e que o arbusto do hisope pareça mais alto que os meus cedros;
Que o morcego ultrapasse o meu abutre e que a mosca voe por cima das asas da minha águia; (…)

Judá Abravanel, conhecido como Leão Hebreu (1465-1535), médico, filósofo e poeta, judeu português nascido em Lisboa, filho de D. Isaac Abravanel.

[fragmento de um poema escrito em Itália, em 1503, dedicado ao filho do autor, Isaac, de 12 anos, que ficara em Lisboa e fora convertido à força ao catolicismo. Escrito originalmente em hebraico, a tradução para o português é citada por Fiama Hasse Pais Brandão num artigo do Jornal de Letras de 26 de Maio de 1981. Uma tradução em inglês do poema completo pode ser encontrada aqui.]

Viagens na Blogolândia I

Ainda a recompor-me lentamente da ausência blogosférica, tento recuperar o tempo perdido, por entre pilhas de trabalho acumulado, toneladas de bytes de e-mail a responder e blogs a seguir. Mais uma vez, gostaria de agradecer a todos os que comentaram, citaram e felicitaram o meu casamento. Estou a tentar por a correspondência em dia e conto responder individualmente a todas as mensagens recebidas. Só espero que os destinatários me perdoem o atraso.
Para já, aqui ficam umas pequenas notas blogosféricas.

O Acidental – O Paulo Pinto Mascarenhas converteu-se à blogolândia! Durante anos falámos quase diariamente ao telefone, quando o Paulo era editor do Internacional d’ O Independente e eu o correspondente do jornal nos EUA…. apesar das divergências políticas, o Paulo e eu construímos ao longo dos anos uma excelente amizade da qual me ficaram saudades quando deixei o Indy, em 2001. Gostei de voltar a lê-lo. Um grande abraço para ti, camarada Paulo. (Sim, confesso, o “camarada” é para te lembrar the good old days.)

Aviz – O Francisco José Viegas já se mudou para o Brasil. O Mestre manda agora prosa tropical, da Bahia. A mudança de ares já se vai reflectindo nos posts. Portugal ficou mais vazio, ganhando em contrapartida outro “estrangeirado”. Um imenso abraço Francisco e desejos das maiores felicidades.

Pintura Portuguesa – Um blog magnífico, recém-criado pelo autor do Abre-latas. A página demora uma eternidade a abrir (as imagens conseguem ser “pesadas”), mas vale bem a pena esperar.

25 de Abril – O Coice que Abril Deu – Outro blog recém-nascido, desta vez criado pelo incansável autor do indispensável Jumento. De visita diária obrigatória. A bem da (R)evolução.

Povo de Bahá – Um blog bem escrito e muito interessante que já há algum tempo colocara na minha lista de links à esquerda. Nele descobri uma preciosa referência ao Ocean – World Religions Free Research Library, um projecto educacional da Fé Baha’i, com mais de um milhar de livros digitais (35 dos quais em Português), relativos a 10 religiões mundiais, entre elas o judaísmo. Interessante.

Parabéns! – Finalmente, e com um atraso significativo, não podia deixar de mencionar os aniversários blogosféricos de duas das mais inspiradoras bloguistas portuguesas: a Ana Albergaria, autora do Crónicas Matinais, e a Carla Hilário de Almeida Quevedo, dona da Bomba Inteligente. Obrigado a ambas pelas leituras diárias. Parabéns!

The Whore of Mensa

Woddy Allen
… por falar em judeus nova-iorquinos com um perfeito e exacerbado sentido de timing humorístico, descobri, via My Moleskine, a versão integral de The Whore of Mensa, um dos meus contos favoritos de Woody Allen. Uma delícia:
“It all poured out – the whole story. Central Park West upbringing, Socialist summer camps, Brandeis. She was every dame you saw waiting in line at the Elgin or the Thalia, or penciling the words ‘Yes, very true’ into the margin of some book on Kant. Only somewhere along the line she had made a wrong turn.”
Vá, agora vão ler o resto.

[A Inês (a quem aproveito para dar os parabéns pelo excelente blog) postou aqui um fragmento do conto traduzido por Luísa Costa Gomes, publicado no ano passado em Portugal pela Ficções – revista de contos.]

“Eu sou do meu amado e o meu amado é meu”

A frase transcrita acima, retirada do Cântico dos Cânticos (um dos mais belos poemas litúrgicos de que há memória, atribuído ao rei Salomão), simboliza na tradição judaica a união literal de duas metades da mesma alma. Assim fica explicada a prolongada ausência do autor deste blog, casado de fresco, literalmente unido à mais fantástica mulher do mundo. O casamento teve lugar na cidade de Raleigh, na Carolina do Norte, oficiado pelo rabino David Bockman, da Sinagoga Beth Meyer.
Escrevendo sobre a possibilidade de duas almas gémeas se encontrarem, o rabino místico quinhentista Isaac Luria, o Leão Sagrado, disse que esta era uma das mais complexas e difíceis tarefas da evolução espiritual do indivíduo: “Às vezes é preciso atravessar continentes e transpor oceanos.” Comigo foi mesmo assim. Foi necessário atravessar o Atlântico e a América do Norte para que encontrasse Shlomit Keren Stein, hoje a minha mulher e a minha melhor amiga.
Pronto, reconheço e admito a lamechisse destas linhas. Mas há ocasiões em que estas coisas se desculpam. O casamento faz parte desta lista.

PS – Obrigado a todos os que escreveram e enviaram felicitações.

Cenas de um Casamento

O rabino David Bockman explica a Ketubá, o contrato de casamento tradicional, inscrito em aramaico. A nossa foi inspirado na famosa Bíblia de Lisboa, iluminada em 1483 pelo judeu português Samuel Hasofer (fotos em baixo).

Regresso I – A Páscoa


Marranos (judeus secretos de Belmonte, Portugal) celebram a Páscoa judaica no sótão. Foto de Frédéric Brenner (1989)

A justificação da prolongada ausência seguirá dentro de momentos. Por agora, no dia em que o cristianismo inicia a comemoração da sua Páscoa, aqui fica a foto de uma família de cripto-judeus (judeus secretos) de Belmonte preparando-se para celebrar uma outra Páscoa, a judaica. Tirada num sótão anónimo em 1989 por Frédéric Brenner, esta foto está integrada no livro Diaspora: Homelands in Exile, um brilhante ensaio fotográfico sobre a Diáspora judaica. No judaísmo, a Páscoa comemora anualmente a libertação do povo hebreu do cativeiro no Egipto, a passagem da escravidão para a liberdade – a palavra hebraica da qual deriva a nossa “páscoa”, Pesach (פסח – pronunciada péssarr), quer literalmente dizer passagem. A Páscoa judaica é celebrada no dia 15 do mês hebraico de Nissan, que este ano recaiu na segunda e terça-feira passadas (segundo o calendário hebraico, os dias começam ao pôr do sol).

Ética

 Rabino Hillel, Pirke Avot, 2:6“Num lugar sem humanidade,
aspira a ser humano.”

Rabino Hillel, Pirke Avot, 2:6

[NOTA] Lost in Translation: foi este apropriado título que o meu amigo José, autor do excelente blog Guia dos Perplexos, deu a um post onde me chamava a atenção para o facto da tradução inicial desta citação do rabino Hillel ser pouco clara em relação ao espírito do texto original. O José tem toda a razão. A minha primeira tradução limitava-se apenas a transvasar do hebraico para o português, esquecendo que a primeira obrigação de uma tradução eficiente não é a fidelidade cega às palavras, mas sim ao sentido nelas contido. Esta inepta tradução (diga-se em minha defesa, feita ensonadamente quase às três da madrugada) era a seguinte: “Num lugar sem gente, / tenta ser uma pessoa”, o que na prática se resumia a uma tradução palavra por palavra do hebraico à direita (que transliterado para o alfabeto latino dá “b’makom she-ein anashim / histadel lihiyot ish”). Mesmo traduzido desta forma, apesar das óbvias imperfeições linguísticas incapazes de repetir no português o imediatismo interpretativo alcançado no hebraico, a essência das palavras de Hillel continuava a fazer sentido – num espaço vazio, num vácuo ético, sê uma pessoa (com tudo o que isto implica). O hebraico não é das mais fáceis línguas de traduzir… o dicionário, por exemplo, define “ish” (composto pelas letras alef-yud-shin, איש, a última palavra do texto) como “homem, alguém, pessoa, qualquer pessoa”, e neste contexto o seu sentido pode ser ainda mais alargado – aqui o “ish” é o que nós em português designamos como “homem com ‘h’ grande”, aqui na sua significação mais plena no contexto da tradição espiritual do judaísmo: o Homem Ético.
Depois de algumas consultas, optei pela tradução que postei acima, que julgo ser um compromisso razoável entre as palavras do hebraico original e o sentido intrínseco que o rabino Hillel, há mais de dois mil anos, terá tentado com elas transmitir. A hipótese sugerida pelo José, feita a partir de uma tradução inglesa, apesar de estar absolutamente correcta quanto ao sentido, na minha opinião, foge um pouco ao original do texto hebraico pela opção de vocábulos.
Autor de um blog com o nome da obra maior de um dos grandes pensadores judaicos de todo os tempos, o rabino medieval ibérico Moses ben Maimon, (Maimonides), o José, apesar de católico romano, fica desde já promovido a judeu honorário aqui na Judiaria. Obrigado José. Pelas leituras. Pela atenção. E pela tua boa vontade. Shalom chaver!

Contribuições para a História Judaica de Portugal

Aquilino Ribeiro “O declínio do sobrenaturalismo no Ocidente foi obra indirecta dos judeus expulsos e dos da sua progénite. Os títulos que punham aos trabalhos impressos – nada mais que por virtude do contraste que apresentavam em relação às designações de moda, herméticas e estapafurdicamente pedantes: de Amatus Lusitanus, Curationum medicinalium centuriae; de Rodrigo de Castro, De universa mulierum medicina; de Isaque Bem-Solimão, De febris, etc. revelavam eloquentemente pela precisão nas ideias que foram de sempre apanágio da raça hebraica. Estes títulos é quanto basta para nos dar a conhecer a dose de bom senso que tais homens apagados e nómadas acabaram por imprimir ao curso das ciências e das letras na Europa com manifesto eclipse do misticismo milagreiro. Muitos anos andados ainda Bacon trazia a lume o Lião verde, uma das suas obras postas nos cornos da lua sapiente.
Pelo combate que no campo das ciências aplicadas, em particular, davam à superstição e à medicina sobrenatural – como aposição de relíquias e de ferros santos, intercessão de bem-aventurados, a cada um competindo determinada zona anatómica ou espécie zoológica, assim a Cabeça Santa para a raiva, S. Fiacre para as almorreimas, Santa Luzia e Santa Flamínia, ambas concorrentes, para os achaques dos olhos, Santa Apolónia para a dor de dentes, S. Francisco de Paula a bem da sucessão masculina e ainda contra a estiagem, S. Marino para a sarna, Santa Tecla para as queimaduras, Santa Rita para todos os impossíveis do corpo e da alma, reservando-se Santo Antão o privilégio de guardar os porcos ao chambaril, Santa Marta de esconjurar o pulgão e o filoxera das vinhas, S. Pedro Gonçalves a lagarta das hortas e até S. Paulo Mártir de preservar as searas e favais do granizo e das trovoadas – concitavam contra si todos os agentes de rotina e de conservação. Para o vulgo os físicos hebreus eram herejes e sequazes do Diabo, com o qual tinham pacta. Queimava-se no Entrudo o judeu de estopa e alcatrão, como o judeu de carne e osso na Praça da Lã.
Esta perseguição da Igreja romana contra o judaísmo, equivalente dentro da ideia monoteísta, na esfera das reacções, à da pernada contra o tronco, do verbo contra o logos, de Deus Padre contra Jeová, de Cristo contra Moisés, é um dos casos mais estupendos e absurdos da história.”

Aquilino RibeiroPortugueses das Sete Partidas Lisboa: Bertrand, (1950?), p. 235-237

Não Podes Mostrar Fraqueza

Não podes mostrar fraqueza
e tens de estar bronzeado.
Mas às vezes sinto-me tal qual os finos véus
das mulheres judias que desmaiam
em casamentos e no Yom Kippur.

Não podes mostrar fraqueza
e tens de fazer uma lista
de todas as coisas que podes levar
num carrinho de bebé sem bebé.

É assim que agora as coisas estão:
se eu destapo o ralo da banheira
depois de tomar banho,
temo que Jerusalém toda, e o mundo inteiro com ela,
seja sugada pela escuridão imensa.

Durante o dia lanço armadilhas para as minhas memórias
e à noite trabalho nas fábricas de Balaam,
transformando maldições em bênçãos e bênçãos em maldições.

E nunca mostres fraqueza.
Às vezes desmorono por dentro
sem que ninguém note. Sou como uma ambulância
em duas pernas, carregando o paciente
dentro de mim para os Últimos Socorros
com o uivo chorado da sirene,
e as pessoas pensam que é linguagem normal.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.


Profeta Jeremias lamenta a destruição de Jerusalém, Rembrandt van Rijn, 1630, Rijksmuseum, Amsterdam

A Paz

“A maioria dos conflitos – tanto individuais como internacionais ou intercomunais – não se resolvem; desvanecem-se por fadiga e exaustão – não quando uma das partes abre os olhos e se apercebe dos erros e abraça o outro dizendo, “ó irmão, ó irmã, o que é que eu te fiz? Será que me podes perdoar? Toma lá a terra, quero lá saber da terra. Dá-me antes o teu amor.” Nada disto. Fadiga, exaustão, cada uma das partes ainda defende que estava certa e a outra errada, mas, mesmo assim, estão pelos cabelos e aprendem a coexistir.”

Amos Oz, escritor israelita, em entrevista ao programa NewsHour, da cadeia pública de televisão americana PBS, em Janeiro de 2002.

INQUALIFICÁVEL

“É por causa desta duplicidade de critérios, deste complexo do Holocausto que o Ocidente tem em relação a Israel, que houve o 11 de Setembro, o 11 de Março e há-de haver mais. Quando é que o Ocidente se aperceberá de que antes os israelitas do que nós?”

Comentário inqualificável de Filipe Moura a um post do blog Renas e Veados. Filipe Moura é um dos autores do Blogue de Esquerda. A quem ainda alimente dúvidas sobre o que isto (e também isto) queira dizer, aconselho a leitura deste meu post: Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo.

“Goedemorgen Poortugaal!”

Vasculhava eu numa tradução inglesa de um manuscrito setecentista holandês sobre a comunidade de judeus portugueses na Holanda quando deparei com o inusitado nome de uma cidade – Poortugaal. Assim mesmo, com dois “ós” e dois “às”. No manuscrito apenas se fazia uma referência de raspão a Poortugaal, sem mais explicações. Uma pequena cidade próxima de Roterdão. Seria a semelhança do nome apenas uma coincidência? Liguei o computador, abri o browser no inestimável Google e fiz uma busca: Search: Poortugaal. A minha manifesta incapacidade de ler holandês não ajudou muito, mas mesmo assim consegui encontrar um interessante mapa de Poortugaal e a página na net do clube de futebol local, o PSV Poortugaal.
As maiores pistas para a possível cumplicidade, encontrei-as em duas páginas de heráldica: Bandeira de Poortugaal e Nederlandse Gemeentewapens – Poortugaal, onde se fazem excelentes comparações entre as bandeiras e brasões de Portugal e Poortugaal. Apesar das evidências aparentes apontarem para uma relação íntima entre o nosso país e a pequena cidade holandesa, o mistério permanece. Será que os meus amigos fluentes em holandês (estou a lembrar-me de Luís Carmelo) podem fornecer mais pistas?

Citações & Recortes Blogosféricos IV

“SOBRE A GUERRA. Ahmed Yassin, que a imprensa trata como «líder espiritual», defendia explicitamente o ataque a civis, e foi citado várias vezes como tendo ordenado pessoalmente ataques suicidas (abençoando os seus autores) e não suicidas (valorizando o número de vítimas causadas pelas Izz al-Din al-Qassim ou por qualquer outro grupo armado). Defendeu várias vezes esse direito divino a atacar civis e, portanto, raramente condenou as explosões. Era também um adversário da Autoridade Palestiniana e ordenou ataques à polícia da AP, bem como fuzilamentos sumários de civis palestinianos, apedrejamentos (sobretudo de mulheres e de homossexuais) e a formação de campos militares para treinar crianças, em ligação à Jihad. Tal como outros xeiques das mesquitas de Gaza, pensava que matar judeus estava ordenado no Corão (é uma das passagens menos discutidas do texto); tal como o Grande Muftí de Jerusalém, afirmava que em nenhuma parte o Corão condenava os ataques suicidas ou o uso de crianças para transportar explosivos. Yassin fazia parte da guerra e era um soldado que nunca o escondeu — nem nas suas alianças nem no apelo que já tinha feito (leia-se o site do Hamas sobre a jihad global). Estava na guerra e era tratado como um general dessa guerra que, para ele, era santa e religiosa. Este é um ponto.

O segundo ponto é que, independentemente de todas as razões, o ataque a Yassin não deixa de ser uma falta estratégica e, claramente, aos olhos do Ocidente, uma baixa moral importante. Internamente, significa que Ariel Sharon aceita o apoio e a base eleitoral dos partidos haredim e de extrema-direita (que tinham defendido a eliminação de Yassin), em «compensação» pela saída de Gaza e por um compromisso sobre os territórios da Judeia e da Samaria; externamente, é um golpe que não deixará de ser condenado (embora ninguém chore uma lágrima por Yassin) e que aumentará a campanha anti-Israel numa parte da opinião pública. Não há aqui juízos sobre equivalência moral; o Hamas acabou de ganhar um mártir poderoso. A guerra vai continuar a ser devastadora. Não se sabe com que efeitos.

O terceiro ponto é sobre a natureza da compaixão. Yassin é retratado como um «velho numa cadeira de rodas». Está numa cadeira de rodas desde os 12 anos e isso nunca o impediu de ter ordenado atentados, de ter declarado esses ataques uma «obrigação religiosa» e de dizer que o dia mais feliz da sua vida seria aquele em que morresse como mártir suicida (shahid). Infelizmente, fizeram-lhe a vontade. Mas prevejo que aqueles que agora aparecerão a lamentar a morte de Yassin se calaram nos minutos a seguir aos atentados que ele ordenou. Mas, como já disse, não há aqui juízos sobre equivalência moral.”

Análise imensamente lúcida de Francisco José Viegas, no Aviz.

Adenda: Ainda sobre a morte de Ahmed Yassin, a não perder é também os posts “Esquerda – a separação das águas”, de João Pedro Henriques, “Basta ya, Yassin”, de Alberto Gonçalves no Homem a Dias, e Estranhas elegias, de Luís Carmelo no Miniscente.

A Noite de Shabbat, ou a Arqueologia das Pequenas Felicidades

Há dias assim, feitos de pequenas felicidades. Há dias em que o acaso nos leva por caminhos inexplicáveis, rumo a descobertas preciosas. Quando isto acontece, o nosso universo quotidiano torna-se ainda mais pequeno, como se o mundo encolhesse e ficasse condensado na pequena descoberta imensamente feliz…

Há dias assim, feitos de pequenas felicidades. Há dias em que o acaso nos leva por caminhos inexplicáveis, rumo a descobertas preciosas. Quando isto acontece, o nosso universo quotidiano torna-se ainda mais pequeno, como se o mundo encolhesse e ficasse condensado na pequena descoberta imensamente feliz.
Hoje encontrei este pequeno livro: A Noite de Shabbath, publicado em 1927, no Porto, pelo capitão Artur Carlos de Barros Basto – uma figura imensa que merecerá em breve um perfil aqui na Judiaria – , Ben Rosh, impulsionador e líder da Obra do Resgate, que na segunda década do século XX acolheu de volta ao judaísmo oficial centenas de cripto-judeus (marranos) portugueses até então votados à clandestinidade. É quase impossível descrever a alegria (escreveria mesmo “emoção” se a palavra não me soasse tão piegas) que senti ao encontrar este livro, uma raridade preciosa. Comprei-o. Não posso deixar de pensar nos caminhos que ele percorreu em 77 anos, até chegar às minhas mãos, aqui em Los Angeles, do outro lado do mundo, numa sexta-feira à tarde. À beira da noite de Shabbat.
Shabbat shalom!

O Diâmetro da Bomba

O diâmetro da bomba era trinta centímetros
e o diâmetro do seu raio efectivo cerca de sete metros,
com quatro mortos e onze feridos.
E em volta deles, num largo círculo
de dor e tempo, espalham-se dois hospitais
e um cemitério. Mas a mulher nova
que foi sepultada na cidade de onde ela veio,
à distância de mais de cem quilómetros,
alarga o círculo consideravelmente,
e o homem solitário chorando a sua morte
na costa distante de um país longínquo
inclui o mundo inteiro no círculo.
E nem menciono o uivo dos órfãos
que alcança além do trono de Deus,
fazendo um círculo sem fim e sem Deus.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Jacob Rodrigues Pereira

Jacob Rodrigues Pereira – judeu português, pedagogo e investigador pioneiro no estudo da linguagem gestual

Jacob Rodrigues Pereira (1715-1780), pedagogo e investigador, judeu português do século XVIII, foi pioneiro no ensino de surdos mudos e na criação da linguagem gestual. Nascido em Peniche no seio de uma família judia com raízes em Chacim, Macedo de Cavaleiros, emigrou ainda criança para França levado pelos pais, Magalhães Rodrigues Pereira e Abigail Ribea Rodrigues, que tentavam escapar à Inquisição. A família instala-se definitivamente em Bordéus, onde existia já uma considerável comunidade de judeus portugueses. É aqui que Jacob, com seis anos, é submetido ao Brit Milá (circuncisão), um ritual que a Inquisição proibira em Portugal sob pena de morte.
Tido como um dos maiores pedagogos do século XVIII, Jacob Rodrigues Pereira ingressou na Academia, onde veio a ter admiradores e amigos entre as grandes figuras da cultura e das ciências francesas da época, entre os quais se destacam Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788).
O seu estudo “Observations sur les sourds-muets”, publicado em Paris 1762, é considerado o primeiro trabalho científico alguma vez escrito sobre surdos mudos e valeu-lhe uma pensão vitalícia concedida pelo rei Luís XV. Na sequência da sua investigação, Jacob Rodrigues Pereira viria a desenvolver os primeiros esboços da linguagem gestual, permitindo a comunicação com os surdos mudos, até então considerados “doentes mentais” pelas doutrinas dominantes. Jacob Rodrigues Pereira está sepultado no cemitério Judaico de Villette, em Paris.
Tal como outros judeus portugueses forçados ao exílio, o nome de Jacob Rodrigues Pereira é virtualmente desconhecido em Portugal. Isto apesar de ter sido fundado em Lisboa, em 1834, o Instituto Jacob Rodrigues Pereira, pioneiro no ensino de surdos em Portugal e hoje integrado na Casa Pia de Lisboa. Com uma presença na Internet, o Instituto não faz menção alguma ao homem que inspirou a sua criação.
Os descendentes de Jacob Rodrigues Pereira mantiveram-se em França, onde acabariam por afrancesar o nome para Pereire no início do século XIX. Um dos mais conceituados membros desta família de judeus portugueses emigrados foi Jacob Émile Pereire (1800-1875), bisneto de Jacob Rodrigues Pereira, banqueiro e parlamentar nascido em Bordéus. Em 1835 Jacob Émile foi o responsável pela construção do caminho de ferro entre Paris e Saint Germain e mais tarde fundou, com o seu irmão Isaac, a Société Générale de Crédit Mobilier, que haveria de tornar-se a maior instituição bancária de França. Os dois irmão (ver Connaissez-vous vraiment les frères Pereire ?) viriam a criar também, em 1855, a Compagnie Générale Transatlantique (ver também French Line), a primeira empresa marítima francesa a assegurar carreiras de vapores regulares entre Nova Iorque e o Havre. O seu navio Pereire era então o mais rápido do Atlântico, assegurando em 1867 a travessia entre França e os Estados Unidos em oito dias e 16 horas. Quando o Crédit Mobilier entrou em falência, Jacob Émile entregou 16 milhões de dólares do seu próprio bolso para evitar o colapso da instituição. Quando morreu, a fortuna de Jacob Émile Pereire era estimada em mais 60 milhões de dólares.
Uma avenida em Paris (e uma estação de metro), próximo de Champs-Elysées, ostenta hoje o nome da família. Os Pereire converteram-se ao catolicismo nos finais do século XIX, por “questões sociais”, como forma de fazer face ao antisemitismo francês. Mesmo assim, a família continuou a manter laços estreitos com a comunidade judaica francesa.

Praça Jacob Rodrigues Pereira, Peniche (postal ilustrado de 1909)
Praça Jacob Rodrigues Pereira, Peniche (postal ilustrado de 1909)

Boulevard Pereire, em Paris
Boulevard Pereire, em Paris.