
.::PARA OUVIR::.
Democracy, Leonard Cohen.
Author: Nuno Guerreiro Josué
Obama e Israel III
Israelis4Obama from www.JCER.info on Vimeo.
Obama e Israel II
שנה טובה — Feliz Ano Novo

Shaná Tová Umetuká (votos atrasados…) a todos os meus leitores (com um abraço especial a todos aqueles que me foram escrevendo ao estranhar a ausência de actualizações aqui no blog). Que o ano judaico de 5769 vos traga a realização de todos os vossos desejos positivos — e que sejam inscritos no Livro da Vida para um ano doce e bom!
Kaddish: Paul Newman (1925—2008)

O mundo permanece em silêncio III
Mas é o Mundo que paga…

Neste terceiro e último ensaio da série publicada originalmente no Ma’ariv — e traduzida aqui na Rua da Judiaria [ver O Mundo Permanece em Silêncio e O Mundo Permanece em Silêncio II (Os Refugiados)] — Ben-Dror Yemini examina o fluxo de ajuda financeira e humanitária canalizado para a Autoridade Palestiniana.
Com a acutilância que marcou os dois primeiros textos, Yemini recorre a números oficiais e relatórios internacionais para traçar um retrato da situação económica e do nível de vida dos palestinianos. Mais uma vez, tal como nos dois artigos anteriores, este texto é fundamental para colocar o conflito israelo-palestiniano em perspectiva — algo que manifestamente se encontra ausente da narrativa unilateral e polarizada que vai dominando os media.
um artigo de Ben Dror Yemeni
Segundo a opinião pública mundial, os palestinianos são o povo mais desgraçado do planeta. O mais oprimido da terra. Eles são uma nação que incorpora uma parte substantiva da imagem de vítima. Inúmeras publicações abordam esta miséria, esta pobreza, escrevem sobre o estatuto de refugiado que permanece inalterado há décadas. Mas, também aqui, a relação entre os factos e a propaganda é menor que nada.
No primeiro artigo desta série, O Mundo Permanece em Silêncio, abordámos o assassínio em massa que árabes, principalmente muçulmanos, cometem contra muçulmanos e árabes, comparando com os números relativamente baixos de árabes, em geral, e palestinianos, em particular, mortos no quadro da disputa com Israel. O segundo artigo da série, O Mundo Permanece em Silêncio II: Os Refugiados, analisou a manipulação do problema dos refugiados palestinianos: apesar de quase 40 milhões de pessoas terem sofrido com permutas populacionais realizadas com o propósito de criar estados com identidades nacionais, étnicas ou religiosas, apenas os palestinianos, de entre todas essas dezenas de milhões, permanecem como refugiados.
Este terceiro artigo irá examinar agora o mito da miséria palestiniana. Os palestinianos estão, de facto, em má situação. Ninguém disputará isto. A questão reside em perceber se isso é produto de danos causados pelos próprios e pelos quais os palestinianos são responsáveis, ou se é apenas fruto do sofrimento provocado por Israel e pelos Estados Unidos.
O mito, que é cultivado pelas “forças progressistas”, afirma que, naturalmente, os Estados Unidos são a raiz de todo o mal. Não só possuem uma “política desequilibrada”, como são o opressor das legítimas aspirações do povo palestiniano. E Israel, claro, agudiza a opressão geral. Será mesmo assim?
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“Ken anu yecholim”* — Obama, os judeus e Israel

Horas depois de ter assegurado a nomeação do Partido Democrata para a Presidência dos Estados Unidos, o senador Barack Obama discursou, em Washington D.C., perante a conferência anual do American Israel Public Affairs Committee.
Seguem alguns excertos:
Apercebi-me da história de Israel pela primeira vez quando tinha 11 anos. Aprendi acerca da longa jornada e da constante determinação do povo judeu em preservar a sua identidade através da fé, da família e da cultura. Ano após ano, século após século, os judeus preservaram as suas tradições, e o seu sonho de uma pátria, perante impossíveis contrariedades.
A história impressionou-me de forma profunda e poderosa. Eu crescera sem noção de raízes. O meu pai era negro, natural do Quénia, e deixou-nos quando eu tinha dois anos. A minha mãe era branca, nascera no Kansas, e eu mudei-me com ela para a Indonésia e depois para o Havaí. Durante muitos anos, eu não sabia de onde vinha. Por isso era atraia-me a ideia de que se podia sustentar uma identidade espiritual, emocional e cultural. E compreendi profundamente o ideal sionista de que há sempre uma pátria no centro da nossa história. (…)
Aprendi também acerca dos horrores do Holocausto e da terrível urgência que trouxe à jornada de retorno à pátria de Israel. Durante a maior parte da minha infância vivi com os meus avós. O meu avô combateu na Segunda Guerra Mundial, tal como o meu tio-avô. Ele era um rapaz do Kansas, que provavelmente nunca esperara ver a Europa — quanto mais os horrores que lá o esperavam. E durante meses depois de ter vindo da Alemanha, ele permaneceu em estado de coque, sozinho com as dolorosas memórias que não o abandonavam.
É que o meu avô pertencia à 89ª Divisão de Infantaria — os primeiros soldados americanos a chegarem a um campo de concentração nazi. Eles libertaram Ohrdruf, parte do campo de concentração de Buchenwald num dia de Abril de 1945. Os horrores desse campo vão muito além da nossa capacidade para os imaginar. Dezenas de milhares morreram de fome, tortura, doença, ou simplesmente assassinados — parte da máquina de morte nazi que matou seis milhões de pessoas.
Quando os americanos ali entraram, descobriram pilhas de cadáveres e sobreviventes famintos. O general Eisenhower ordenou que os alemães residentes nas terras vizinhas visitassem o campo, para que podessem ver o que tinha sido perpetrado em seu nome. Ordenou que os soldados americanos visitassem os campos, para poderem aperceber-se porque combatiam. Convidou congressistas e jornalistas para testemunharem. Ordenou que se tirassem fotografias e se filmasse. Explicando as suas acções, Eisenhower disse que queria produzir “testemunhos em primeira mão para evitar que no futuro haja alguma tendência para se dizer que isto tudo não passa de propaganda.”
Vi algumas destas imagens no Yad Vashem, e elas nunca nos deixam. E essas imagens apenas aludem levemente às histórias que os sobreviventes do shoa carregam consigo. Tal como Eisenhower, cada um de nós testemunha a tudo e todos que quiserem negar estes crimes sem nome, ou que fale em os repetir. Temos de querer dizer o que dizemos quando afirmamos: ‘nunca mais’.
Foi apenas alguns anos depois da libertação destes campos que David Ben-Gurion declarou a fundação do Estado Judaico de Israel. Sabemos que o estabelecimento de Israel foi justo e necessário, enraizado em séculos de luta e décadas de paciente labor. Mas 60 anos depois, sabemos que não podemos baixar os braços, não podemos capitular, e enquanto Presidente nunca irei ceder quando se tratar da segurança de Israel. (…)
Tal como qualquer israelita nos dirá, Israel não é um país perfeito mas, tal como os Estados Unidos, dá um exemplo a todos quando busca um futuro mais perfeito. (…) Porque há um empenho incrustado na fé e tradição judaicas: no sentido da liberdade e da lealdade; no sentido da justiça social e da igualdade de oportunidades. No sentido de tikkun olam — a obrigação de reparar o mundo.
Nunca esquecerei que não estaria aqui hoje se não fosse esse empenho. Nos grandes movimentos sociais da história do nosso país judeus e afro-americanos estiveram sempre ombro com ombro. Juntos apanharam autocarros rumo ao Sul. Marcharam juntos. Sangraram juntos. Judeus americanos como Andrew Goodman e Michael Schwerner estiveram dispostos a morrer ao lado de um homem negro — James Chaney — em nome da liberdade e da igualdade.
Vocês e eu sabemos que temos de fazer mais do que simplesmente ficar quietos. Agora é tempo de ficar vigilante e encarar todos os adversários, à medida que avançamos na busca de um futuro de paz para Israel e para todos. Agora é tempo de apoiar Israel neste novo capítulo da sua extraordinária jornada. Agora é tempo de nos juntarmos na tarefa de reparar o mundo.
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Barack Obama Addresses AIPAC Conference
(texto integral do discurso)
* Sim, podemos, em hebraico. Um dos lemas da campanha presidencial de Barack Obama.
Israel é…
Por Natalie Portman, em Nova Iorque
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)
Onde nasci. Onde comi o meu primeiro rebuçado e aprendi a ir sozinha à casa de banho. Onde alguns dos meus amigos adolescentes passam as noites em abrigos, dormindo de capacete. Onde guardas e seguranças são as únicas profissões em excedente. Onde os desertos florescem e as histórias dos pioneiros são romantizadas. Onde um cato doce e cheio de espinhos simboliza o ideal israelita. Onde a imigração para Israel é chamada “ascender” e emigrar de Israel se chama “descender”. Onde os meus avós não nasceram, mas onde eles foram salvos.
Onde o ano passa com a estação das azeitonas, das amêndoas, das tâmaras. Onde um transgressivo prato de porco ou camarão espreita provocadoramente de uma ementa de Jerusalém. Onde, apesar de excepções substanciais, reina a laicidade. Onde o vinho é religiosamente doce. Onde há uma fonte inesgotável de humor negro. Onde o riso é a moeda corrente e as anedotas a religião. Onde os partidos políticos se multiplicam mais depressa do que as pessoas. Onde tornar-se religioso é descrito como “retornar à resposta” e tornar-se laico “retornar à questão”.
Onde, em sessenta anos, oito cidadãos ganharam Prémios Nobel. Onde há neve duas horas a norte e hamsin (vento do deserto) duas horas a sul. Onde nunca foi permitido a Moisés entrar, mas cujas ruas sujamos. Onde a linguagem na qual Abraão falou a Isaac foi ressuscitada para incluir palavras e expressões como “camisola”, “guerra química” e “conferência de Imprensa”. Onde o muezzin canta, os sinos das igrejas tocam e onde os shofars clamam livremente na direcção do Muro. Onde os comerciantes regateiam. Onde os políticos regateiam. Onde um dia haverá paz, mas nunca sossego.
Onde eu nasci; onde as minhas entranhas recusam abandonar.
A Israel no seu aniversário

Israel
Um homem encarcerado e enfeitiçado
um homem condenado a ser serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylok,
um homem que se inclina sobre a terra
e sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de destruir
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Espinosa e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
um homem que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um advogado ou um dentista
que falou com Deus na montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que se obstina em ser imortal
e que agora voltou à sua batalha,
à violenta luz da vitória,
formoso como um leão ao meio-dia.
Jorge Luis Borges, Elogio de la sombra (1969)
(Republicação. Tradução minha)
O que Israel representa para mim
Por David Mamet, em Nova Iorque
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)
Noam Chomsky foi entrevistado na edição do Verão de 2004 da revista Heeb.
Heeb — E os recentes incidentes na Europa e no mundo árabe? É necessário fazer grandes acrobacias de lógica para afirmar que não são incidentes antissemitas…
Chomsky — Na Europa existe uma larga população muçulmana, e grande parte dela é conduzida ao islamismo fundamentalista. Demonstram ódio em relação aos judeus que é um reflexo das acções israelitas. Quer dizer, se alguém conduz uma brutal e malévola ocupação militar durante 35 anos… isso tem de ter consequências. Por vezes as consequências podem ser bastante feias e, entre elas, contam-se o incendiar de sinagogas em França. Sim, é antissemitismo, mas Israel insiste. Recorde-se que Israel não se intitula o país dos seus cidadãos. O Supremo Tribunal de Israel decretou à 40 anos que Israel é o Estado soberano do povo judeu, em Israel e na diáspora.
Na verdade, como o Estado judaico se auto-proclamou a pátria de todos os judeus, dentro das suas fronteira e na diáspora, para os judeus da diáspora tudo o que não seja a denúncia disto enquanto uma usurpação dos seus direitos pessoais, dos seus direitos enquanto cidadãos indiferenciados, é equivalente à aprovação do que o senhor Chomsky encara como uma aventura criminosa (o Estado de Israel). O senhor Chomsky, ele próprio um judeu, não reconhece a Israel o direito de existir; reconhece, no entanto, como moralmente vinculativos os pronunciamentos deste Estado fantasma. Vinculativos sobre quem? Sobre os membros do grupo religioso predominante nesse Estado.
Estes judeus da diáspora, é preciso notar, residem em países cujo direito à existência o senhor Chomsky reconhece. Por exemplo a França.
A França, enquanto nação soberana tem, então, o direito, que Israel não pode ter, de proteger os seus cidadãos. Este direito, no entanto, e na visão do senhor Chomsky, não é extensível aos judeus franceses — uma vez que o seu direito de viver em paz terá sido, de alguma forma, anulado pelas acções de outro Estado.
Vários países muçulmanos, como a Síria e os palestinianos, têm, como substância de religião e de doutrina política, expressado a sua intenção de destruir os judeus israelitas. Esta intenção não é uma adenda de uma disputa territorial, mas uma componente essencial do seu regime — este ódio não pode ser mitigado por concessões, negociações ou sequer por capitulação; pode apenas ser assegurado pelo sangue.
O senhor Chomsky parece não objectar a estes incitamentos ao genocídio, nem alarga ele o mesmo padrão de culpa extraterritorial à diáspora muçulmana.
Os Estados Unidos, no rescaldo do 11 de Setembro, têm tomado providências (podem ser insuficientes mas são matéria de política nacional) no sentido de proteger os direitos dos árabes-americanos, não vá uma população ignorante e assustada voltar-se contra inocentes por causa de meros laços de raça ou religião com os criminosos.
Esta parece ser a mais básica operação de justiça e humanidade — apoiar a vingança contra inocentes com base em raça ou religião é visto aqui simplesmente como uma criminosa obscenidade. O senhor Chomsky, no entanto, acha por bem compreender e aplaudir acções deste género, desde que elas tenham judeus como alvo.
Isto é antissemitismo — é ódio racial e incitamento ao assassínio.
É uma vergonha que o senhor Chomsky utilize uma capa de respeitabilidade, que ocupe a posição de “intelectual” e que continue a confundir e perverter os jovens com esta nojice. Tolerar esta vergonha é parte do preço de viver numa sociedade livre.
Israel é uma sociedade livre. Os direitos das suas minorias, dos seu oprimidos e mesmo dos seus criminosos estão protegidos. O senhor Chomsky seria livre de pronunciar estas baboseiras em Israel, tal como o é nos Estados Unidos.
Se ele se mudasse para um país do mundo árabe, seria perseguido pelo simples facto de ser judeu (tal como o poderia ser também em França).
E se ele fosse perseguido, Deus queira que não, poderia refugiar-se em Israel, ao abrigo da Lei do Retorno.
É isto que Israel representa para mim.
Israel: o dia-a-dia num país com 60 anos
Por Gabriel Pacio, em Tel Aviv
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)
Todo ano, em Israel, há um dia no qual é tocada uma sirene no país inteiro para relembrar o Holocausto. O coração da gente gela, todo mundo pára e lembramos em que país a gente vive.
Tel Aviv é o que há. Ruazinhas mal planejadas ainda na década de 20, arborizadas e cheias de carros estacionados por todos os cantos. Arquitetura Bauhaus dos anos 30, espigões de aço e de vidro dos anos 90 e 00, predinhos caindo aos pedaços dos anos 50. Jovens de lambreta, de bicicleta, de patins, a pé, com ou sem seus cachorros. Religiosos, hippies anacrônicos, estudantes, casais de gays de mãos dadas… a única coisa que não anda por Tel Aviv é o trânsito. A única coisa que não se encontra em Tel Aviv é estacionamento. Têm rodinha de pedreiros chineses rachando um rango na Yarkon, de frente ao mar, quase em Yafo. Tem rodinha de aposentados marroquinos jogando conversa fora e falando mal do governo. Rodinha de religiosos devotos do Rabi Nachmad de Uman, cantando ‘Festa no Apê’ com letra reescrita em hebraico exaltando o tal Rabi no meio da faixa de pedestre durante o sinal fechado.
Em Tel Aviv tem muita, mas muita mulher bonita. Descendentes de poloneses, alemães, iraquianos, iranianos, marroquinos, romenos, etíopes, argelinos, iemenitas, búlgaros, russos, turcos… e a mistura disso tudo com qualquer outra coisa também. Minha esposa consegue ser descendente de romeno, polonês, marroquino e de argelinos – e tem cara de brasileira.
Em Tel Aviv também tem praia. São mais ou menos limpas, com a água mais ou menos suja, muito fria no inverno, e morna no verão. Praias entupidas nos finais de semana. Cheias de arsim e farofeiros. Mas sempre divertidas para quem gosta de musica oriental (estilo árabe) em volume bem alto e gente falando gritando. E frescobol que, aliás, os israelenses acham que inventaram. Durante a semana e/ou inverno as praias ficam cheias de gente da cidade fazendo esporte, bebendo um chope ou praticando a arte milenar de levar fora das mulheres.
Como são praias de enseada, em geral a faixa de areia é menor do que encontramos no Brasil, o que facilita na hora de fechar com muros e cercas. As praias dos religiosos têm que ser assim: homens de um lado, mulheres do outro. Nas outras praias, a maioria das mulheres usa um biquíni que, no Brasil, iria ser considerado não só ultra-conservador como também terminaria aproveitado como modelo de fralda descartável. Graças a Deus esse desastre está saindo de moda. Fio dental são poucas, mas geralmente bem selecionadas. Topless, só em Eilat. Mas aí são cinco horas de carro numa estrada meio perigosa para ver peito…
Culturalmente tem de tudo. Uma barraquinha de falafel a cada 50 metros, um sushi-bar a cada 100 e suco natural de qualquer coisa que se possa fazer um suco, em todo canto. Restaurantes cheff a 200 dólares por pessoa e prato feito a 20 shekalim também tem. Restaurante de houmus populares ao lado de coffee shops sofisticados e modernos. Show de orquestra de música iraquiana tocando ud, show de metal-rock russo, ou barzinho de musica pop. Enfim, a única coisa que até hoje eu não consegui achar em Tel-Aviv foi estacionamento mesmo – e é por isso que vou de bicicleta para os estudos e para o trabalho, sendo quase atropelado 14 vezes por dia, que israelense costuma dirigir mal pacas. O trânsito num raio de uns 20 km ao redor de Tel Aviv é simplesmente impraticável.
Moro em Ramat-Gan, uma cidade vizinha de Tel Aviv e que, infelizmente, não é Tel Aviv. Em Tel Aviv simplesmente não há apartamentos para alugar. Você entra num site de buscas e, ao encontrar um apartamento, se demorar mais de quinze minutos para fechar o negócio, perde a chance. Além, é claro, dos preços estratosféricos.
No meu bairro, a maioria das famílias são religiosas. Os jovens estão sempre na pracinha, quando vou passear com minha cachorra. É que quando entra o Shabat – no pôr-do-sol da sexta-feira –, os religiosos não podem mais andar de carro ou qualquer outro veículo automotivo. Devem ficar meio sem ter o que fazer, que essa região é chata à beça. E daí que por isso ficam a fazer coisa nenhuma juntos, na pracinha onde a Preta gosta de correr atrás de gatos vadios e passarinhos. O que me vem na cabeça sempre que eu escuto a algazarra deles é como adolescente é igual no mundo todo, independente de credo, raça ou geografia. A única diferença é que, naquela pracinha, as meninas vestem saia até os tornozelos e os rapazes usam kipá. Religiosos, sim, mas não ortodoxos, que aqui é Ramat-Gan, não Bnei Barak ou Mea Shearim, em Jerusalém.
O país cresceu assustadoramente desde os anos 90. Gigantes mundiais se instalaram por aqui, empresas locais cresceram com a internet e ficaram maiores que as fronteiras de Israel. Esse novo capitalismo fez bem para a nação, e mal para os kibutzim e para o welfare state que reinava aqui até o governo Nataniahu. Depois da segunda intifada que coincidiu com o estouro da bolha inicial da internet e da Nasdaq, a economia freou. Nataniahu cortou as assistências do governo, a desigualdade social aumentou e a qualidade de vida diminuiu. E só nos últimos anos a coisa começou a se recuperar.
Bem, se recuperar quanto? Digamos que nem durante a guerra do Líbano a bolsa de valores balançou. Vem batendo recordes já faz mais de dois anos. O investimento internacional vem aos borbotões e o nível do crédito de Israel é o melhor de todos os tempos. Esse que vos escreve aproveita a onda para estudar e trabalhar. Não sei se em outras épocas ou outros lugares seria possível manter assim o estilo de vida enquanto se estuda. E tudo isso leva ao tal do trânsito que não consegue transitar. São centenas de milhares de carros entrando e saindo da região central de Israel por dia. A maioria novos, a maioria leasing, a maioria com o logotipo de alguma empresa de alta tecnologia, seguros ou construção. Eu sigo com a minha bicicleta, achando ruim apenas que eu não tenho buzina para poder retribuir a gentileza que esse povo todo me presta nas ruas de Ramat-Gan.
É definitivamente um país com tendências democráticas. Posso falar e escrever o que eu quiser. Inclusive com a certeza absoluta que vai chover gente discordando, não importa o que for dito.
No entanto, casamento no civil não existe: só no religioso. É o abocanhamento da teocracia que ainda influi no país e no estilo de vida. Ben Gurion achou que em pouco tempo os ortodoxos simplesmente desapareceriam, e por isso concedeu a eles tantas regalias. Errou. Como errou em não deixar os Beatles tocarem aqui por achar que iam estragar a juventude israelense. É, segundo a carta de independência de 1948, um país judaico democrático. Uma total anormalidade em toda história das ciências políticas, e uma contradição em termos. E nesta dualidade anda a nação já faz 60 anos.
Estar em um país judaico é bem mais que ouvir propaganda de ‘queima de estoque de Pessach!’ ou ‘Promoção de Chanuká’ ao invés de páscoa ou natal. É não encontrar qualquer transporte público no shabat. É, em várias regiões do país, ter que penar para encontrar comida não kosher (o que significa que preparar uma boa feijoada por aqui era bem complicado até algum tempo atrás, já que a coisa é difícil, mas já foi bem pior). É ver partidos políticos de peso tomando decisões baseadas na vontade de grupos religiosos que se respaldam em premissas religiosas e trechos bíblicos. É estudo da Torá obrigatório nas escolas e até fanáticos que às vezes matam primeiro-ministros.
Mas é também uma muralha de cultura, é estudar história na escola e não ter que se perguntar o que isso tem que ver comigo: a história é literalmente a dos seus antepassados. É andar de bicicleta no meio de uma auto-estrada no Yom Kipur, já que não andam carros em nenhuma rua ou estrada neste dia. É encontrar um restaurante que sirva exatamente a comida que você comia na casa da vó quando era criança. É ouvir as crianças nos jardins de infância cantando as músicas das festas que, vindo de um país católico, você achava que só você e seus colegas conheciam.
‘Judaico Democrático’ é ainda, dentro da dualidade, democrático. Falar mal de qualquer coisa, em especial do governo, é uma espécie de padrão de cidadania. É uma democracia de país muito pequeno, em que todo mundo conhece todo mundo. A principal rede de televisão é também dona de boa porcentagem do jornal de maior circulação e têm em sua linha de repórteres gente que trabalha para o jornal da concorrência. E todos foram, são ou serão colegas de trabalho um do outro na mesma empresa. Além disso, há pelo menos 3 canais de TV do governo. Dois deles só pela TV a cabo. Dentre os canais abertos, canal 1, do governo, canal 2, canal 10 e um canal em russo. E ainda todos os canais em árabe que (dificilmente) se pode sintonizar do Egito, Jordânia, Síria e Líbano. Isso significa que quase qualquer família de classe remediada para cima tem TV a cabo, que viver de 3 canais abertos (fora o canal em russo) não é mole. E ‘microdemocracia’ é envolvida aí também, pois são apenas dois fornecedores de serviços de TV a cabo e satélite. E um deles é de parcial propriedade da estatal (e até pouco tempo monopólio) de telefones fixos em Israel.
Confusão? Não é nem o começo para um país que desenvolveu tanta tecnologia de telecomunicações, internet e eletrônica para o mundo inteiro.
Cada jornal ergue uma bandeira. Um é direitista, outro populista e outro esquerdista. Fora os novos, menores e gratuitos, que a gente ainda não sabe para que time torcem. Todos são controlados por algumas poucas famílias. Quase todas essas famílias donas de outras empresas e conglomerados. E o diacho é que a imprensa aqui ainda consegue ser muitíssimo melhor do que a maioria da imprensa que eu conheço por aí. Neutra? Nem um pouco. Mas tem suas visões absolutamente claras, e fica fácil entender por qual filtro o jornal enxerga a realidade. É um país obcecado por atualidades. A cada hora cheia todas as rádios transmitem um pequeno noticiário de uns 3 a 5 minutos. É quase impossível não saber o que está acontecendo.
Quando há um atentado, 5 minutos depois a história toda já está digerida, e só não é reportada em sua totalidade porque a Justiça não permite a divulgação de nomes das vítimas até que os parentes próximos sejam avisados oficialmente. Quando uma tragédia dessas acontece, no mesmo dia, na edição principal dos noticiários a história das vítimas é contada, incluindo foto dados relevantes e irrelevantes. Cada um passa a conhecer os mortos, os feridos, as famílias. É, como se diria em português, levar para o lado pessoal. Mesmo. Nos últimos tempos a imprensa decidiu (conscientemente?) fazer o mesmo com as vítimas do trânsito. Aqui morrem por ano uma média de 500 pessoas em acidentes. É bem mais do que morrem em conflitos armados.
Uma das coisas mais impressionantes a respeito de Israel é como pode um país tão pequeno ter cantos tão diametralmente opostos distantes de poucas centenas de quilômetros. Jerusalém é diferente de Tel-Aviv até no cheiro. Em Tel-Aviv se encontra de tudo, até falafel orgânico eu já vi. Em Jerusalém não se encontra nada. A não ser que você tenha um excelente guia ou GPS no carro. Quando você sabe onde está, não têm idéia de como chegar onde quer. Quando sabe onde fica o destino, não consegue descobrir onde está. Quando sabe o caminho, este estará invariavelmente em obras e o motorista terá que dar uma volta tão grande que acaba se perdendo – de novo. Pelo menos pode-se, no caminho (de sabe-se lá onde para qualquer lugar) aproveitar a vista, que de quase todos os pontos é maravilhosa. São montes e vales cobertos por cedros aqui e acolá, pedras e pedregulhos, casas e edifícios todos, por lei, de pedras da mesma cor.
A cidade velha é história à parte. Literalmente. Lá, ao contrário do resto da cidade em que não se encontra absolutamente nada, se encontra praticamente de tudo – menos, é claro, o destino onde se quer chegar. Encontra-se de tudo mas, é claro, Made in China. Se quiser o original tem que procurar em outro lugar. Não na cidade velha. Lá, surpresa, velharia. Uns 3, 4.000 anos de história. Cada canto se descobre que aconteceu alguma coisa interessante. Bem, em 4.000 anos de história, não duvido que dê tempo de acontecer tanto em cada canto.
Já em Beer-Sheva não acontece nada. Nunca. E se esse texto fosse um guia turístico e não um folhetim de curiosidades estrangeiras, eu seria imediatamente apedrejado em praça pública por escrever tão pouco sobre Jerusalém e sequer tocar no assunto Beer-Sheva. Só que Jerusalém eu conheço muito pouco, e sinceramente, de tanto que Jerusalém já foi cantada em prosa e verso por melhores e maiores e mais aptos que eu, me sinto mais a vontade de escrever sobre um lugar em que qualquer absurdo que eu escrever, é passível de assim ter acontecido. E em Beer-Sheva realmente não acontece nada, mas qualquer coisa poderia acontecer. E quanto mais absurdo, mais provável.
E bem, Beer-Sheva não é nem norte do Neguev, nem sul. Fica lá, no meio, no meio de uns montes baixinhos, carecas e amarelados. E Beer-Sheva consegue ser tão feia quanto o vale onde está incrustada. Vivi lá por alguns anos por conta da universidade, que é fantástica. Quando não chove, e isso é quase o ano todo, a cidade fica toda coberta por uma camada de poeira, o que dá o tom meio amarelado a tudo que fica sobre aquele solo.
O Neguev, região sul de Israel é assim: o norte do Neguev é lindo. Todo artificialmente irrigado, cheio de campos. Na época das colheitas, quando o trigo é colocado em fardos pelos campos, dá a impressão de que estamos no meio de um passeio por uma plantação de cubos. As cidades pequenas, moshavim, kibutzim são lindos. As cidades grandes são feias e pobres. As estradas são boas e os motoristas seguem sendo uma porcaria. Já o sul do Neguev é deserto. Deserto montanhoso. É maravilhoso. São crateras como a de Mitzpe Ramon, facilmente confundível com um cânion de Marte. E Eilat, até para quem não mergulha é uma coisa impressionante. Depois de dirigir horas por um cenário de outro planeta, chega-se no cume de uma montanha, e de repente, quando se começa a descer, lá embaixo, entre montanhas gigantescas da Jordânia, se vê um mar de um azul que não é Marte, é Netuno.
No sul do Brasil, a preocupação de quem vê a previsão do tempo, são as massas de ar frio que vem da Argentina e trazem chuva e frio. Em Beer-Sheva, a preocupação é um negócio chamado Hamsin (em árabe) ou Sharav (em hebraico). É quando uma massa de ar vem direto do Sahara para dentro de casa. E traz consigo umidade quase zero, uma quantidade gigantesca de poeira e um calor de forno de padaria. O céu fica amarelo e tudo que é metálico dá choque. E a vontade de viver desaparece. Hamsin quando vem, cobre o país inteiro (o que não é tão difícil, dadas as dimensões). Mas em Beer-Sheva ele é bem pior. Certa vez, o céu ficou completamente vermelho. No meio do dia.
Foi um dos fenômenos meteorológicos mais estranhos que eu já presenciei. Hamsim às vezes termina com chuva. As massas úmidas e frias encontram ar quente e precipitam. As gotículas vão juntando partículas de poeira e chegam ao chão como lama. Isso mesmo. Chuva de lama. Das coisas mais nojentas que eu já conheci.
Contei como é quando não chove. Quando chove vira um pudim de lama. (Toda aquela poeira se junta com a água que escorre deficientemente e vira aquela coisa suja que cobre a cidade inteira). É uma cidade que cresceu tanto com a vinda dos imigrantes russos em 90 (da mesma maneira que aconteceu na imigração do Marrocos nos anos 50) que meio que inchou para todos os lados. Perto dos predinhos feios e caídos dos anos 50, surgiram edifícios estilosos, de arquitetura duvidável, por toda parte. E ao contrário de outras metrópoles, não há trânsito. Como é típico de Beer-Sheva, é por um erro de planejamento. As avenidas foram planejadas para terem enormes canteiros, gramados e árvores entre as pistas. Só esqueceram que não há água em Beer-Sheva. E assim as avenidas tomaram o lugar desses espaços.
Certa vez, estava comendo uma porcaria de um hambúrguer perto de casa numa lanchonete chinfrim. Fiquei escutando a conversa de uns estudantes que comiam a mesma porcaria que eu. Entrou um vendedor ambulante carregando nos ombros um monte de sacos de produtos made in Sei-lá-Onde. Os estudantes que me pareciam aborrecidos de qualquer maneira gostaram da novidade e imediatamente começaram a se interessar pela mercadoria. Um orgão eletrônico chamou atenção ‘Conecta na eletricidade?’, ‘toca quantos instrumentos?’ e assim por diante. Até que alguém perguntou: ‘O senhor é de onde?’. Ele respondeu o nome de uma vila palestina na região do Shomron. Um dos rapazes sorriu e eu não acreditei no que ele respondeu: ‘Puxa! Eu servi no exército por la!’. ‘É mesmo?’ ‘É! Sério! Você conhece a família Sharif no fim da rua principal?’ e o palestino responde: ‘Claro! Rahni é grande amigo meu.’ ‘Puxa! Mande um abraço para ele.’
Era tão surrealista que depois que tudo acabou e eles dois só faltavam se abraçar e trocar telefones, fiquei pensando em como faz falta um gravador às vezes.
Isreal?
Por Raquel de Jesus, ex-residente de Tel Aviv
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)
Quase três anos depois, ainda leio nas caras das pessoas um misto de desilusão e de incredulidade quando lhes conto como foi que passei meio ano em Israel.
Quem é que vai para um país cujas manchetes diárias reduzem vítimas a estatísticas? Que tipo de mulher deixa a 2045 quilómetros a família e os amigos, sem saber nada de uma língua e cultura, sem partilhar a emoção de viver algo que lhe é prometido pelos antepassados desde o berço?
Só quem se apaixona aceita uma tal irracionalidade. Conheci-o pela Internet, um regressado ao que nunca conheceu, enxotado em pequeno com a mãe da antiga URSS na promessa da aliyah, de um outro clima, de outro nome e oportunidades.
Meti-me num avião com uma mala e um bilhete de ida. No balcão de check-in explicaram-me que, não possuindo a nacionalidade, tinha de ter um bilhete de regresso. No questionário que preenchi a bordo para entregar na alfândega perguntavam-me pela religião. Tive medo de que implicassem comigo por deixar o espaço em branco (é que durante a escala em Amesterdão fizeram-me um interrogatório bastante exaustivo por ousar levar um corta-unhas na mala de mão – isto quando as refeições da El-Al foram depois servidas com facas de serrilha em inox…) e puxei do meu inofensivo baptismo católico. Este episódio prenunciava o meu lugar em Israel: uma turista bem acolhida, todavia uma shiksa com prazo de validade.
No primeiro mês da minha estadia fiquei em Bnei Brak, orgulhoso bastião da ortodoxia judaica nas aforas de Telavive. De bicicleta fui vendo como respirava a cidade insomne, cidadela do pecado para os jerosolimitas. À tardinha regressava à Jabotinski com as pernas nuas e um sorriso bronzeado, ante a condescendência dos «pinguins», calão com que se alude aos judeus ortodoxos que insistiam em ferver debaixo de pesadas casacas de fazenda e chapéus pretos à torreira dos 30ºC de Junho. Uma silenciosa lição de tolerância de costumes num país que há 60 anos é fustigado por vizinhos que a não têm.
No segundo mês, mudámo-nos para um rés-do-chão da Rehov Hamakabi, parco em luz e em espaço, onde a malograda roqueira Inbal Perlmutter, dizia-se, tinha chegado a viver. Estava no centro de tudo. Ao contrário do que pensavam em Portugal, as mulheres não andavam veladas e, se adormecessem num banco de jardim, não corriam perigo; consumia-se a cultura pop norte-americana, mas comia-se comida árabe; as mini-saias eram mínimas e coexistiam com as perucas das judias casadas com os «pinguins»; os elevadores dos hospitais e edifícios públicos paravam em todos os andares no Shabat para não obrigarem os observantes a trabalhar (e sim, carregar num botão é fazer trabalhar); as mulheres tinham nomes de flores e os dos homens eram hinos a Deus e à Sua virtude. Estava numa cidade mediterrânica borbulhante, onde gente de todos os países se cruza pelos calçadões e se ri com os desmandos autoritários dos salva-vidas do alto das suas palafitas.
Nunca aprendi mais hebraico além das saudações, do calão (que parece girar em torno da sexualidade e da guerra) e do básico para pedir uma refeição. As Ulpan tinham horários que acabavam onde a liberdade das minhas viagens pelo Chipre e por Sinai começavam. Contudo, aprendi o alefbet com os toldos das lojas e a sinalética das ruas, e cheguei a traduzir o meu nome na caixa do correio, para gáudio de todos os que leram o meu sobrenome e horror do meu senhorio, que chegou a propor que o mudasse. Foi assim que se tornou no meu némesis da guerrilha doméstica, embora secretamente me tenha deixado com a ideia de me tornar numa Raquel Cohen, como n’Os Maias.
Tinha-me tornado, por assim dizer, uma filha da terra.
É que o israelita está constantemente a reivindicar. Desde que entrei no táxi em Ben Gurion que senti que se estava sempre a discutir, a negociar, a insultar. Na verdade, apenas se debatia o percurso, mas aos meus ouvidos europeus o tom soava beligerante, malcriado, a língua explodia em detonações surdas que vinham morrer na garganta arranhada. Ao constante ralhar lá me habituei – sobretudo porque reclamar finalmente tinha efeitos, servia de algo; no nosso Portugal da eterna lamúria de taberna, o queixume nunca chega aos ouvidos do corregedor. Já a falta de respeito pelas filas nunca consegui aceitar.
Era na altura em que se deu a cedência da Faixa de Gaza à Autoridade Palestiniana e as varandas estavam pejadas com fitinhas cor de laranja ou azuis, consoante se era a favor ou contra. Num país em que tudo se disputa e conquista com muito sangue e ainda mais saliva, criavam-se grupos que brincavam com esta maneira de ser e estar – estou a lembrar-me do protesto anti-passiflora, contra a banalização do maracujá em produtos de higiene e beleza, ou das guerras com bisnagas na Kikar Rabin.
É o país em que cada primeiro-ministro é acusado de corrupção, mais ano menos ano (foi sem surpresa que li que Olmert também já está indiciado), mas se vivem as eleições com fervor místico; em que depois do 12º ano se vai para o exército, mas podemos estar numa discoteca de Eilat, verdadeira Algarve do Mar Vermelho, a dançar de kalashnikov às costas; em que toda a gente tem uma crítica a apontar ao governo, ao povo, aos costumes, mas ninguém imagina a hipótese de ir morrer a outro país.
No tempo todo que lá vivi, enganava-me constantemente a escrever «Israel». Isreal soava a pergunta. E ainda hoje me pergunto quando voltarei a beber uma limonana na Hof Yerushalayim ao entardecer, a partilhar húmus com os emigrantes iemenitas do HaCarmel ou a comer uma fatia de pizza na minha esquina com a Hamelech George. O meu estômago não me perdoou o regresso e os abraços que ainda devo pedem-me para voltar.
“Este é o dia que o Eterno fez”

Casamento durante a Guerra da Independência de Israel, foto de David Seymour.
Por Boaz Gabriel Canhoto, em Jerusalém
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)
Ainda a tinta das assinaturas na Declaração de Independência de Israel não tinha secado e, cinco nações árabes (Egipto, Transjordânia [actual Jordânia], Síria, Líbano e Iraque) alinhavam as suas tropas frente às fronteiras demarcadas pela ONU, prontas para invadir o recém-criado Estado Judaico. A estratégia árabe era simples e previa que a derrota judaica seria alcançada num prazo de uma ou duas semanas apenas.
Isto foi há 60 anos. Israel ficou abalado. Resistiu. Triunfou. Alguém religioso não nega o magnífico “dedo de Deus” presente em muitos dos momentos históricos destas seis décadas em Israel. Mesmo os cépticos certamente se perguntam como esta pequena nação, composta na sua maioria por refugiados, conseguiu erguer um país como o Israel do presente. Um puzzle social confuso, composto de peças dificilmente ajustáveis: judeus e árabes, religiosos e seculares, sefarditas e askenazitas, ex-soviéticos, americanos, etíopes, peruanos, filipinas e tailandeses.
O “milagre israelita” não é fantasia. É conhecida a metáfora do pequeno território composto, ainda há menos de um século, por pântanos e desertos, transformado num fértil jardim. As coisas não acontecem por acaso. Tudo – tudo mesmo – em Israel funciona à custa de muito suor e engenho humano. E fé. Da irrigação dos campos ao trânsito na auto-estrada.
Vim pela primeira a Israel em 1999. Queria passar dois meses das minhas férias de Verão no país, gastando o mínimo de dinheiro possível. Ser voluntário num kibbutz foi a opção ideal. Sem conhecer ninguém no país, sem falar nada da língua local. (Valeu-me o meu inglês.) À chegada, a surpresa: um país verdadeiramente moderno. É certo que já tinha visto imagens de Israel na TV, mas ao vivo é outra sensação. Os arranha-céus de Tel Aviv. Um mito destruído de imediato: a influência americana era quase inexistente. Cartazes publicitários em hebraico! Como era possível viver num país moderno sem usar uma língua ocidental? Peço desculpa pelo eurocentrismo idiota.
Nessa altura, o meu interesse em Israel já não era meramente turístico ou mesmo cultural. Eu estava a bater à porta do Povo de Israel. Nos meus planos, mesmo desconhecendo inteiramente o alcance desse ideal, estava uma conversão ao Judaísmo. Passaram-se anos até voltar a pisar a Terra Santa. Na segunda visita, de apenas 11 dias, o meu processo de conversão já dera muitas e difíceis voltas, mas finalmente começara a tomar forma.
Em apenas quatro meses estaria de volta. Para sempre. Nem eu sabia à partida. Conseguira uma vaga num curso oficial de conversão ao Judaísmo, nos arredores de Jerusalém. Sem trabalho fixo em Portugal, sem ter uma família para sustentar, pouco me prendeu em casa. Fiquei seis meses no curso de conversão e entretanto entrei numa yeshiva. Pela primeira vez, entrei a fundo no mundo religioso judaico.
Sem planos para ficar em Israel, a princípio planeei ficar apenas 6 meses. Ir, converter-me, voltar. As minhas identidades portuguesa e judaica pareciam perfeitamente equilibráveis. O retorno à minha vila da Batalha foi estranho. Eu era um estranho. Foi um regresso a casa, apenas de visita. Fui um turista na minha terra natal. Foi um alívio voltar a Jerusalém.
As mudanças são muito rápidas e radicais para quem vive por estes lados. Em 2005, chegara quando ainda se sentia em força o abalo da destruição dos colonatos de Gaza. Passei cá a Segunda Guerra do Líbano, com os telefonemas quase diários da minha mãe, aterrada com as violentas imagens da guerra transmitidas pela televisão. Implorou-me para voltar para casa. Tentei, como podia, descansá-la. “Que iria eu fazer a Portugal?”, pensei. Não queria sair naquela hora difícil. Não queria ter problemas para voltar, caso saísse.
Frequentemente recebo mensagens de amigos em Portugal que me pedem para voltar. Alegam que esta não é a minha terra. Que não tenho nada a fazer por aqui. Que o meu lugar é em Portugal. Entendo o ponto de vista deles. Um emigrante é visto como um ente temporariamente distante. Não conhecem a essência da emigração para Israel. Afinal, transplantar as raízes para um novo lugar é sempre um choque, também para a terra deixada vaga. Israel foi recém reimplantado nesta terra. Recém, se lembrarmos a cadeia de mais de 3500 anos de história judaica. Todos os que, como eu, decidiram viver aqui, são parte deste novo e impressionante reflorescimento judaico na Terra de Israel.
Estou em Israel há menos de três anos. Como judeu, há quase dois. Como cidadão, ainda não completei sequer um ano. Casei por cá, há exactamente um mês. Não me consigo imaginar a viver, de forma permanente, noutro lugar. Ao fim de um ano de aliya, dentro de alguns meses, vou poder tirar o passaporte israelita. Um ano de israelita em 60 anos de Israel.
Nota: O título provém de um versículo entoado na recitação de Halel, o conjunto de cânticos de louvor a Deus entoados nos dias mais alegres do ano. O Dia da Independência de Israel é um desses dias.
Israel 60 Anos: a Independência

Maio de 1948, Dia da Independência em Tel Aviv, foto de Robert Capa
Por Inácio Steinhardt, em Tel Aviv
(ver 60 anos de Israel na Rua da Judiaria)
O ESTADO DE ISRAEL inicia hoje as comemorações do 60.º aniversário da sua independência.
Que tem isso de extraordinário – dirão alguns – todos os povos comemoram uma vez por ano a sua independência, há dezenas ou centenas de anos e 60 anos não são uma história assim tão longa como isso.
A diferença, para o bem e para o mal, é que este povo existe há mais de 3000 anos. Perdeu a sua independência há dois mil e só há 60 anos a recuperou. Durante dois mil anos andou de terra em terra, de malas na mão, procurando encontrar sossego e sustento, onde lhe permitiam e enquanto lhe permitiam, até que lhe fosse dado regressar à terra dos seus antepassados.
Em dois mil anos poderia talvez ter aprendido a lição da história, feita toda ela de relatos de povos, que tiveram as suas pátrias, e as viram conquistadas por outros povos. Que se assimilaram aos vencedores ou emigraram para outras, a cujos povos se assimilaram, desaparecendo como entidade nacional.
Vejamos, como exemplo, como se formou a península ibérica.
Vieram os iberos e estabeleceram-se no território. Depois juntaram-se-lhes os celtas e formaram um novo povo: os celtiberos. E assim foram chegando, um após outro, outros povos, que conquistaram o território, assimilaram a si os autóctones, ou foram, por sua vez vencidos por novos conquistadores: romanos, visigodos, árabes, sem contactar com os colonos fenícios e cartagineses. Hoje a população de Portugal e Espanha é uma amálgama de povos e de raças.
Judeus já existiam na península quase desde o princípio do povoamento. Mas nunca vieram para conquistar. Por quê? Porque a história e a religião dos judeus é de tal ordem, que este povo só pode subsistir na Terra onde nasceu, a Terra de Israel. Quando o seu pensamento não estiver neste pequeno pedacinho de terra, o povo judeu deixará de existir.
É difícil explicar por quê. Mas enquanto viviam e labutavam na Península Ibérica, “no extremo do Ocidente” – como escreveu nessa altura o poeta Judah Halevy – o seu coração estava no Oriente. Em cada nova geração, houve sempre visionários que anunciavam o próximo regresso. Quando os expulsavam de uma terra, iam para outra. Quando os expulsaram da Espanha, foram para Portugal. Quando os converteram à força em Portugal, foram para a França, para a Holanda, para o Império Otomano, voltando aí ao Judaísmo, rezando sempre com os olhos em Jerusalém. Sempre com o bordão na mão, as malas feitas, e a esperança no coração. A Esperança que é também o nome do hino da sua pátria renovada, que levou dois mil anos a conseguir.
As parábolas, tão comuns aqui no Oriente, são uma forma avisada de fazer compreender conceitos difíceis de explicar por outro modo.
Conta-se que, uma vez, na Polónia, em pleno mês de Outubro, um pai e um filho se dirigiam para a sinagoga, sob chuva torrencial. Era o dia de Shemini Asseret, em que os judeus pedem a Deus que abençoe o ano, para que o inverno seja chuvoso e as terras produzam boas colheitas.
Perguntou o filho ao pai: “Está a chover tanto e nós vamos hoje pedir mais chuva?”.
Respondeu o pai: “Nós vamos pedir a Deus que mande chuva na nossa terra, na Terra de Israel, onde faz tanta falta.”
Quando, em 29 de Novembro de 1947, as nações do Mundo, reunidas na Assembleia Geral das Nações Unidas, decidiram conceder ao povo judeu o direito que têm todos os povos, concedendo-lhe metade do território da Terra de Israel, e criando, ao mesmo tempo, um Estado Árabe na outra metade, essa decisão histórica podia ter sido o início de uma nova era de paz, de boa vizinhança e de prosperidade para os dois povos. Por isso o Conselho do Povo aceitou essa limitação.
Em vez disso, cinco exércitos árabes (Transjordânia, Egipto, Síria, Líbano e Iraque) invadiram o território do Mandato Britânico, ameaçando expulsar todos os judeus para o mar.
Aos judeus só restava uma alternativa: vencer esses cinco exércitos ou permitir que a ameaça dos atacantes se concretizasse.
Numa guerra, o lado que não tem outra alternativa para sobreviver, tem que vencer.
Lembram-se da resposta do Marquês de Pombal perante a ameaça dos espanhóis?
“Muito pode um homem em sua casa, que até depois de morto são precisos quatro para o levarem!”.
Em Maio de 1948, o Conselho Superior Judaico trocou os passaportes palestinianos, que os ingleses tinham emitido aos habitantes da sua metade do território, judeus, árabes, cristãos e drusos, por passaportes do novo Estado de Israel.
Desde então, ainda não houve um dia de paz nesta região, apenas uma situação, que se mantém há 60 anos, ora uma nova guerra ora tréguas, atentados terroristas e ameaças de destruição.
Dois países árabes invadiram a parte da Palestina que a ONU tinha destinado à população árabe da Palestina: o Egipto, na Faixa de Gaza, e a Jordânia, que ocupou a Cisjordânia e mudou o nome do seu reino para Jordânia. Aí se mantiveram até 1967. Os habitantes de Gaza eram cidadãos egípcios. Os da Cisjordânia eram jordanos.
Nessa altura, nenhum desses países, nem sequer os habitantes árabes desse território, falaram num Estado Independente da Palestina, que, a constituir-se, deveria incluir uma grande parte do que hoje é a Jordânia, pois metade da sua população era e é palestiniana. Os restantes são beduínos.
Em 1967, na sequência de mais uma tentativa de invasão árabe, o exército israelita ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Por muito estranho que isso pareça, iniciou-se um período de boa vizinhança e de co-operação entre os dois povos. Os israelitas visitavam as áreas árabes e ajudaram a desenvolver o turismo e o comércio. Os árabes vinham ao Estado de Israel, uns procurar trabalho, outros comprar novos produtos que aqui se produziam, aprender novas tecnologias e novos processos de agricultura.
Entretanto, apesar das guerras, apesar do clima de insegurança, apesar da necessidade de manter toda a população em constante estado de alerta e de preparação, apesar do enorme ónus da defesa no orçamento anual do estado, os israelitas conseguiram desenvolver um enorme avanço científico e tecnológico, a par de um lugar preponderante na cultura, nas artes plásticas, nas letras, na música, no teatro e no cinema
Dizia-me, em 1969, o filho de um potentado árabe com quem almocei em Gaza: “Vocês fizeram um erro tremendo. Nós sabíamos como se vivia bem em Tel Aviv e nas outras cidades de Israel. A minha irmã, que vive no Líbano, e tem dois passaportes, tem conta aberta nas lojas de modas da Rua Dizengoff, em Tel Aviv. Mas nós dizíamos à população que nessa cidade as pessoas morriam de fome nas ruas. Agora vocês abriram-lhes o acesso às vossas cidades. Eles vão lá e vêem a realidade. Arranjam trabalho, e ganhando mesmo o que, para vocês, são ordenados de fome, hoje, até nas aldeias palestinas, cada casa já tem um frigorífico na cozinha e uma antena de televisão no telhado. Mas um dia vocês terão que se ir embora. Então o povo virá exigir de nós a mesma situação e nós não lhes poderemos dar trabalho. Vão correr rios de sangue e eu não quero aqui estar quando isso suceder. Por isso já comprei sete andares de luxo na Inglaterra.”
Muitos israelitas também atribuíam semelhantemente ao general Moshe Dayan a responsabilidade por esse erro. Dizem eles, talvez com razão, que ele deveria ter aproveitado o resultado favorável da guerra de 1967, para logo ali fazer as pazes com o Egipto e com a Jordânia, negociando com eles pequenos acertos estratégicos de território e traçando finalmente uma fronteira reconhecida, que ainda hoje não existe.
O erro foi feito, e muitos outros se lhe seguiram, alimentando o extremismo dos fanáticos de ambas as partes: implantação de colonatos judaicos, por um lado, e desenvolvimento dos atentados terroristas, pelo outro.
Então, por alturas de 1971, pela primeira vez se começou a falar na ideia de um Estado Palestiniano independente. Pela primeira vez surgiu o movimento nacionalista palestino.
Pouco tempo depois, quando o presidente Anwar Saadat, do Egipto, se propôs finalmente a negociar um tratado de paz com Israel, o primeiro-ministro israelita, Menahem Begin, ofereceu-lhe a entrega da Faixa de Gaza, juntamente com a Península do Sinai ocupada. Sadat declinou terminantemente essa oferta, ameaçando mesmo anular a proposta de paz, se os israelitas insistissem em entregar-lhe a responsabilidade sobre Gaza. Hoje, face ao que está a suceder na Faixa, podemos compreender por quê!
Também com a Jordânia foi feito um tratado de paz, o Líbano é teoricamente um país, cuja população anseia por concretizar a amizade com Israel, mas é dominado pelos extremistas estrangeiros, que lhe não permitem. E talvez a Síria um dia se decida finalmente a deixar normalizar a vida desta região.
Mas o preço que os israelitas pagaram e estão a pagar pela ocupação é enorme.
Parece um sacrilégio dizer isto face ao sofrimento da população palestiniana e do ódio que ele criou tanto nos adultos como nas crianças.
Mas o preço mais elevado para os israelitas talvez não tenham sido os mortos, nem os atentados terroristas. O que o prolongamento da ocupação provocou foi uma deterioração moral interna, sobretudo no seio da juventude, obrigada a servir o país não numa guerra contra soldados, mas no seio da população que serve de escudo aos combatentes palestinianos. Com os anos, que vão passando os israelitas sentem o crescimento da violência interna e do crime organizado.
Dizia uma vez Golda Meir, numa daquelas frases que se dizem para a história, mas que neste caso, sincera ou não, me parece muito certa: “Nós poderemos um dia perdoar aos árabes as mortes dos nossos filhos. Será mais difícil perdoar-lhes o terem obrigado a mandar os nossos filhos combater contra eles.”
Hoje mesmo, quando vos estou a escrever isto, três anos depois dos israelitas terem saído unilateralmente da Faixa de Gaza, as forças do Hamas lançam mísseis sobre as povoações civis israelitas da região, e, o que é mais incompreensível, contra os postos de passagem dos géneros alimentícios, gasolina e medicamentos que vêem de Israel para a sua população.
O Dia da Independência do Estado de Israel são na realidade dois dias.
O primeiro é um dia de luto. Soam as sirenes em todas as povoações para um minuto de silêncio e meditação; o povo une-se em orações recordando os milhares de soldados mortos nas guerras. E com eles as vítimas dos constantes atentados terroristas. As famílias visitam os cemitérios militares e choram junto às campas dos seus entes queridos, cujas vidas foram ceifadas, para que no dia seguinte se possa celebrar com explosões de alegria, bem justificada, mais um ano de sobrevivência e de valiosa realização humana. É um dia de orgulho nacional, pelas sua realizações, e de festas nas ruas e piqueniques.
Sessenta anos.
Israel: 60 anos

A Rua da Judiaria inicia hoje a publicação de uma série de posts destinados a assinalar a passagem do 60° Aniversário da Independência de Israel. Os primeiros serão textos e testemunhos de convidados lusófonos, escritos por luso-israelitas e basileiro-israelenses que vivem o seu dia a dia em Israel.
Para já, e em jeito de lançamento das comemorações, aqui fica uma canção oferecida ao Estado de Israel por Serge Gainsbourg:
.::PARA OUVIR::.
Le Sable & le Soldat, de Serge Gainsbourg