Três Meses da Judiaria

Faz hoje precisamente 3 meses que a Rua da Judiaria nasceu na blogosfera. O parto de 27 de Outubro de 2003 foi complicado, confesso; era o resultado de meses de gestação e contemplações, decisões e rescisões, avanços e recuos. As minhas dúvidas iniciais eram básicas: Que poderia eu fazer com um blog? Que ganhariam os outros em ler as minhas prosas? A tudo isto se juntava uma natural desconfiança do próprio “meio blogosférico” que, admito, conhecia apenas de raspão. O preconceito tinha muito a ver com a minha formação de jornalista feito na tarimba pura e dura das redacções. Mas, aos poucos, a rigidez dogmática foi cedendo. Aprendi que os blogs podem ser muito mais que meros diários íntimos, simples listagens cronológicas de iras quotidianas ou repositórios de acusações aleatórias.
O processo que acabaria por gerar a Rua da Judiaria foi feito aos poucos, ao longo de meses, com etapas sucessivas que acabariam por alterar por completo a minha mal formada opinião inicial. A culpa aqui foi das leituras regulares de blogs notáveis que fizeram cair as minhas “defesas”. Descobertos clique após clique, os mestres desta minha conversão redentora à blogosfera foram o Aviz, o Miniscente, o Abrupto, o BdE – Blogue de Esquerda (ainda na sua anterior encarnação), o Almocreve das Petas, o Barnabé… a lista poderia prosseguir, encadeada com todas as suas inconsistências e contradições aparentes.
Hoje, precisamente 90 dias depois de ter começado, a Rua da Judiaria teve já mais de 14 mil visitas – gente que aqui chega vinda de todo o mundo: de Portugal ao Brasil, da Escandinávia à Nova Zelândia, do Canadá a Timor Leste. Gente que lê e escreve emails e comenta e pede ajuda e procura raízes.
Continuo sem saber se estou à altura desta tarefa. Se serei capaz de ajudar a derrubar preconceitos estupidificantes. De desenterrar memórias do nosso património colectivo, apagadas da nossa História oficial há cinco séculos.
Neste modesto balanço não posso deixar passar em claro um agradecimento profundo, não só aqueles que por aqui vão passado, mas também aos blogs que têm citado e elogiado a Rua da Judiaria. Obrigado.

Dois poemas ladinos

A la una yo naci
A las dos m’engrandeci
A las tres tomi amante
A las cuatro me cazi
Alma vida y corason.(…)

A la Una
A la una yo naci
A las dos m’engrandeci
A las tres tomi amante
A las cuatro me cazi
Alma vida y corason.

Dime nina donde vienes
Que te quero conocer;
Si tu no tienes amante
Yo te hare defender
Alma vida y corason.

Yendome para la guerra
Dos bezos al aire di
El uno es para mi madre
Y el otro para ti.
Alma vida y corason.

Adio Querida
Tu madre cuando te pario,
Y te quitou al mundo,
Corason ella no te dio
Para amar segundo.

Adio, Adio querida,
No quero la vida
Me l’amargates tu.

Va, buxcate otro amor,
Aharva otras puertas,
Aspera otro ardor,
Que para mi sos muerta.

Dois poemas de cantigas tradicionais (cerca do séc. XV) em Ladino, a língua franca dos judeus ibéricos – considerada de raiz “Ibero-Romance”, o Ladino é uma mescla de espanhol e português medievais com hebraico. Com a expulsão dos judeus espanhóis em 1492, o Ladino acompanhou o processo da diáspora e hoje pode ainda ser encontrado enquanto língua viva entre algumas comunidades judaicas da Turquia, Marrocos, Grécia, Tunísia, Croácia, Bulgária, Bósnia, Estados Unidos e Israel. Em tempos a mais falada das línguas dos judeus sefarditas, estima-se que cerca de 160 mil pessoas em todo o mundo falem ainda Ladino. Para ouvir um pequeno trecho de uma destas melodias (“Adio Querida”) numa interpretação moderna da cantora americana Sarah Aroeste, é só clicar aqui (formato .mp3). Um achado de “arqueologia litúrgica” é esta oração de Rosh Hashana, “Sakrifisyo de Ishak” (formato .ra), em Ladino, gravada em Los Angeles, em 1966, recitada por Heskia Franco, um descendente de judeus portugueses nascido na Grécia (via site da Sinagoga Kahal Shalom, de Rhodes). Sobre o Ladino, vale também a pena ler este interessante texto – “The Ladino Language”, do historiador e genealogista americano Arthur Benveniste.

Diálogos Inter-Religiosos: Parte I – O Conceito de Messias no Judaísmo

Resposta ao Guia dos Perplexos

Torah A propósito do meu post sobre o “Credo do Judaísmo”, o José, autor de um excelente blog Católico que há muito faz parte das minhas deambulações diárias pela blogosfera, o Guia dos Perplexos, levantou algumas questões que merecem resposta. Aos leitores menos interessados nestas questões de doutrina religiosa, peço desde já as minhas desculpas pela prosa que se segue. Por isso, tentarei aliviar a densidade “doutrinária” deste post. Mas, por outro lado, pelo imenso respeito que me merece o José e o seu Guia dos Perplexos, senti-me obrigado a responder de forma pública a questões levantadas em público. Devido à complexidade dos temas, resolvi dividi-los em posts diferentes. Aqui vai então a primeira tentativa de esclarecimento.
O primeiro ponto que o José refere (a questão do messias, no ponto 9) está formulada no “Credo do Judaísmo” por oposição à percepção cristã, segundo a qual os judeus “estão à espera” do Messias enquanto Salvador – implicando não só a necessidade deste enquanto figura redentora, mas traduzindo igualmente uma atitude passiva dos judeus “que esperam”. Este messias não existe, de facto, no judaísmo.
Antes de prosseguir, gostaria de deixar bem claro que não tenho aqui a mínima intenção de pretender invalidar a leitura cristã do chamado Antigo Testamento em relação ao messianismo de Jesus (aliás não é esse o papel deste blog). Vou tentar apenas responder às questões levantadas em relação à interpretação judaica do conceito de Messias.
A exegese cristã quanto ao papel messiânico de Jesus (Yeshua Ben Yosef, de seu nome hebraico, ver “Jesus, o Judeu”) diverge grandemente da interpretação judaica da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento), em parte como resultado das alterações introduzidas na teologia cristã durante o crescendo de influência política da Igreja no reinado do imperador Constantino, que culminariam no Credo decretado pelo Concílio de Niceia, no ano 325 da Era Comum (que instituiu igualmente outra cisão profunda com o judaísmo: a doutrina trinitária).
Mas primeiro convém definir a palavra original para nos podermos aperceber das diferenças fundamentais entre uma e outra visão. Messias é uma tradução da palavra hebraica moshiach, משיח (em hebraico pronunciado mochiárr), que aparece cerca de 150 vezes na Bíblia Judaica, embora o seu contexto seja invariavelmente contrastante com a visão que lhe é atribuída pelos cristãos.
A palavra משיח significa literalmente “ungido”, numa referência ao acto de “ungir” com óleo (azeite) a cabeça de reis, sacerdotes e mesmo objectos de culto, de forma a iniciá-los ao serviço de Deus. (ver Exodus 29:7, I Reis 1:39 e II Reis 9:3).
Por esta razão existem inúmeros messias na Bíblia Hebraica, uma vez que todos os reis e sacerdotes nela mencionados foram “ungidos” e, como tal, podem ser referidos individualmente como “o ungido” (moshiach – משיח ) – em II Samuel 23:1 lê-se: “E estas são as últimas palavras de David: Diz David, filho de Jessé, e diz o homem que foi levantado em alturas, o ungido [משיח no original hebraico] do Deus de Jacob, e o suave em salmos de Israel.”
Na versão deste versículo na Vulgata Latina é utilizada a palavra christo, de origem grega, que mais tarde seria aplicada exclusivamente a Jesus: “Haec autem sunt verba novissima quae dixit David filius Isai dixit vir cui constitutum est de christo Dei Iacob egregius psalta Israhel”. (Para uma comparação com os originais hebraicos ver também I Samuel 26:11, II Samuel 22:51, Isaías 45:1 e Salmos 20:6.)
A figura de um messias que “há-de vir”, “Ha’Mashiach” (literalmente O Messias), curiosamente, não aparece na Torá propriamente dita, pelo que não poderá nunca ser considerado um princípio central e norteador do judaísmo – isto apesar do messianismo existir em vertentes que examinaremos mais à frente.
A concepção judaica do Messias (“Ha’Mashiach”), no entanto – e aqui o José tem razão –, surge como tema estrutural de promessas proféticas de uma era futura de perfeição e paz universal. Muitas destas passagens referem-se ao messias como um rei temporal que governará Israel, descendendo directamente da casa de David (Ha’Mashiach Ben David). (ver Isaías 11:1 a 9 e Oséas 3:4 e 5). Na prática, e segundo os profetas, o Messias será um homem normal, um judeu, filho de um homem e de uma mulher, que ascenderá “ao trono de Israel”, conduzindo a Nação e o Mundo numa era de paz e prosperidade universais, marcada pelo fim das guerras e da intolerância, durante a qual todos os povos coexistirão de forma pacífica.
O corte entre as visões judaica e cristã assume-se aqui de forma reforçada. Os judeus crêem que não há “segundas chances” na era messiânica (Olam Ha’Ba, literalmente “o mundo que há-de vir”), e que esta começará assim que o Messias for revelado. Na sua concepção judaica, o Messias também não é e não pode ser objecto de veneração ou adoração.
Quando no post sobre o “credo” do judaísmo referi que “os judeus não estão à espera da vinda de alguém” (reforçando a parte da “espera”) a intenção era transmitir que no conceito judaico de Messias não está implícita qualquer salvação ou expiação, uma vez que cada indivíduo é responsável pela correcção das suas próprias imperfeições e erros. Olam Ha’Ba poderá ser, se quisermos, o “fim dos tempos”, mas para lá se poder chegar, os judeus acreditam na necessidade de um papel activo na evolução espiritual e individual do conjunto da Humanidade (ver pontos 3 e 4 do “Credo do Judaísmo”). A este respeito, devo confessar que fiquei agradavelmente surpreendido com os conhecimentos do José, nas interrogações que coloca no seu Guia dos Perplexo, em relação à Cabalá Lurianica e ao conceito de Tikkun Ha’Olam, o que demonstra o seu extraordinário interesse de ir além das fronteiras tradicionais da sua fé (o catolicismo), uma qualidade imensamente rara e por isso extraordinária.
Através da História, e em grande medida devido à condição de perseguição permanente, e consequente desespero, em que viveram as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo, surgiram aqui e além homens que chegaram a ser vistos como messias, não porque prometiam uma qualquer “salvação da alma”, mas porque os profetas do judaísmo profetizaram um líder temporal que traria a paz e o fim dos males terrenos, em conjugação com a recta final do processo de “retorno ao Criador” – entre estes contam-se Simon Bar Kochba e Shabbetai Zevi, os mais conhecidos.
Em Portugal, nos finais do século XV, os cristãos-novos (e cripto-judeus) Luís Dias, alfaiate de Setúbal, e Gonçalo Anes (o Bandarra), sapateiro de Trancoso, conheceram os cárceres da Inquisição (e as suas fogueiras, no caso do alfaiate) por serem apontados como “Messias”, e misturarem em trovas e profecias as aspirações do messianismo judaico com o patriotismo sebastianista, também ele intrinsecamente messiânico. Aqui, D. Sebastião, ele sim um rei, representava para os cristãos-novos portugueses a perfeita encarnação messiânica do monarca temporal que prometia o judaísmo – ao qual foram obrigados a abjurar publicamente mas continuavam a manter em segredo.

Tempus Fugit

À beira do Shabbat, a semana acaba sem deixar nas margens tempo que chegue para aqui escrever tudo o que seria fundamental. Yehuda Amichai é que estava certo. A razão deste post prende-se com isso mesmo: é uma promessa anotada de temas que regressarão à Judiaria assim que as estrelas surgirem no fim do horizonte de sábado. Primeiro, cumprirei o que prometera já pessoalmente ao José e tentarei responder às questões levantadas no seu imprescindível Guia dos Perplexos (e já agora também à interrogação de David Bengelsdorff) acerca do meu postEm que acreditam os judeus?”. A prosa promete desde já ser um enfado de hermenêutica judaica e, por isso mesmo, a não perder!
Voltarei também ao “O Judeu nos Painéis de São Vicente”, alvo de polémica disputa por parte do notável bibliófilo Almocreve das Petas. Os Painéis de São Vicente, os seus “mistérios” e “charadas”, são um exemplo de vetusta controvérsia nada pacífica, mas irei tentar explicar porque concordo amplamente com a tese de António Salvador Marques no que diz respeito ao judeu do painel. Quando à possibilidade deste ser ou não D. Isaac Abravanel, isso é já outra discussão.
Na lista de tarefas a cumprir aqui na Judiaria consta também um comentário ao brilhante artigo de Francisco José Viegas no JN, intitulado “Pois Tu Foste Estrangeiro“, e disponível no Aviz. Há muito que andava para escrever aqui sobre emigrantes, imigrantes e imigração e o artigo do Francisco é o pretexto mais do que perfeito para o fazer. O tema toca-me particularmente por viver no estrangeiro. Gostava de explorar, para além das experiências dos outros, também a minha própria self-image: o que é isto de ser português, viver na América e não me sentir “emigrante”.
Finalmente, faltam-me os agradecimentos. Muita gente tem escrito, comentado e mesmo elogiado a Rua da Judiaria sem que eu tenha mostrado o mínimo reconhecimento. A injustiça será rectificada em breve.
Shabbat Shalom!

 “A Noiva do Shabbat”, Judith Silverman
A Noiva do Shabbat, Judith Silverman

Hebréia

Castro Alves

Flos campi et lilium convallium
(Cântico dos Cânticos)

Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! …

Tu és, ó filha de Israel formosa…
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia…
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!…

Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho..

Depois nas águas de cheiroso banho
– Como Susana a estremecer de frio –
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto…

Vem pois!… Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, – se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto…

Não vês?… Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!…
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!.
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante!…

Castro Alves (1847-1871), poeta brasileiro (in “Espumas Flutuantes”, Salvador da Bahia, 1870).

Um Homem e a Sua Vida

Yehuda Amichai

 Yehuda Amichai.  Yehuda Amichai.

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro

O Judeu nos Painéis de São Vicente

Paineis de São Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves

Escondido no último retábulo da mais conhecida obra da pintura portuguesa quinhentista, Os Painéis de São Vicente, atribuída ao pintor Nuno Gonçalves, encontra-se uma figura que tem despertado a curiosidade dos historiadores.Painel da Relíquia ou Alegoria do Comando Virtuoso, um dos poucos registos iconográficos de judeus portugueses quinhentistas que ainda restam.
No Painel da Relíquia, também conhecido como “Alegoria do Comando Virtuoso”, envergando um manto negro e um barrete, um homem robusto segura nas mãos um livro com caracteres indecifráveis. Uma análise detalhada do retábulo não deixa dúvidas: a misteriosa figura é uma das poucas representações iconográficas que restam de um judeu português quinhentista.
Além do livro com caracteres que imitam o hebraico, a figura ostenta no peito uma estranha insígnia de seis pontas, interpretada por alguns como uma representação oculta remanescente da estrela de David. No entanto, a insígnia não é mais do que o sinal que os judeus portugueses eram obrigados a usar nas suas roupas, decretado no texto das Ordenações Afonsinas – livro II, título 86 –, onde a lei Joanina de 1429 prescreve a utilização obrigatória de “sinais vermelhos de seis pernas cada um, no peito, acima da boca do estômago, (…) pois os judeus não traziam quais sinais que deviam trazer e esses que traziam eram tão pequenos que não se pareciam, e outros os traziam de duas e três pernas e mais não.
Mas a chave central para decifrar o judaísmo desta figura integrada numa das maiores obras primas da pintura europeia quinhentista, acima de tudo, é o livro que tem nas mãos. Acerca da representação do livro, e mais especificamente da forma como ele é manuseado, António Salvador Marques, no seu Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização, escreve que a intenção do pintor em transmitir o judaísmo do personagem foi mais do que premeditada:

Livro em “hebraico” ilegível (clicar para uma versão ampliada da imagem)

O livro encontra-se nas mãos de uma figura com aspecto severo, marcada por um sinal vermelho de seis pontas na indumentária, cujo gesto denuncia a intenção de mostrar que as páginas se voltam da esquerda para a direita, isto é, no sentido contrário ao habitual. Se o leitor reproduzir o gesto defronte de um espelho, aperceber-se-á da forma como o posicionamento dos dedos no acto de passagem da página é significativo de uma tal intenção, muito mais que da exibição de algum trecho específico de livro conhecido.

Os livros hebraicos são abertos da esquerda para a direita e lidos em ordem inversa. Ainda na opinião de António Salvador Marques, o facto da escrita reproduzida pelo pintor ser constituída por caracteres “fantasiosos e ilegíveis” pode também ser demonstrativo:

A conotação judaica não é dada só pela forma como as páginas são voltadas, mas também pelo aparecimento de caracteres ilegíveis que poderiam sugerir a escrita hebraica aos olhos dos não conhecedores, como se interessasse apenas a compreensão de que se trata de um livro hebraico, e não a leitura de um qualquer trecho bem determinado mas irrelevante para os fins em vista. A figuração de comentários ao longo das margens parece sugerir a prática talmúdica de interpretação e comentário da escritura, e reforça ainda mais a conotação judaica. A presença expressa de numerosas anotações marginais num livro ilegível não parece fazer sentido em qualquer outro contexto.

Última parte do tríptico temporal, na “Alegoria do Comando Virtuoso” o judeu português quinhentista representa a virtude do rigor, ladeado pela penitência e pelo sacrifício.
Antes do restauro dos painéis, Joaquim de Vasconcellos, n’O Comércio do Porto de 28 de Julho de 1895, percebeu essa parte da alegoria, transmitindo-a numa prosa encharcada de preconceitos antisemitas: “aponta com gesto arrogante, todo ele vaidoso, enfatuado na sua sabedoria de rabino, para um livro de confusos caracteres fantasiados. É bem o tipo da sinagoga militante (…) por detrás do rabino dois clérigos de alva, esculturais, profundamente característicos, postos de sentinela ao bilioso sectário.” (via “Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização”).
Os historiadores brasileiros Guilherme Faiguenboim, Paulo Valadares e Anna Rosa Campagnano, no recém editado “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes” (Frahia, São Paulo 2003), vão mais longe e afirmam que este judeu nos painéis de Nuno Gonçalves pode muito bem ser D. Isaac Abravanel, um dos mais ilustres judeus portugueses do século XV – estadista, líder da comunidade judaica ibérica, filósofo e rabino cabalista nascido em Lisboa, cujos escritos são ainda hoje estudados – especialmente a sua interpretação do código de ética Pirkei Avot (A Ética dos Pais). Curiosamente, como comentam os autores, Isaac Abravanel é “o 15º avô do empresário e apresentador de TV [brasileiro] Sílvio Santos”, Senor Abravanel de seu nome verdadeiro.
Aos que quiserem saber mais sobre os painéis de Nuno Gonçalves, descritos pelo Museu Nacional de Arte Antiga, seu actual repositório, como “um dos mais notáveis retratos colectivos da pintura europeia”, aconselha-se uma passagem pela versão on-line do excelente trabalho de António Salvador Marques, intitulado Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização.

Cantares de Salomão – שיר השירים

Shir Ha-Shirim שיר השירים (Cantares de Salomão), tradução de João Ferreira de Almeida

Beije-me ele com os beijos da sua boca;
porque melhor é o seu amor do que o vinho.
Para cheirar, são bons os teus unguentos;
como unguento derramado é o teu nome;
por isso, as virgens te amam.

Leva-me tu, correremos após ti.
O rei me introduziu nas tuas recâmaras:
em ti nos regozijaremos e nos alegraremos;
do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho
os rectos te amam.

Eu sou morena, mas agradável,
ó filhas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como as cortinas de Salomão

Não olheis para o eu ser morena,
porque o sol resplandeceu sobre mim:
os filhos de minha mãe se indignaram contra mim,
e me puseram por guarda de vinhas;
a vinha que me pertence não guardei.

Dize-me, ó tu, a quem ama a minha alma:
onde apascentas o teu rebanho,
onde o recolhes pelo meio dia:
pois por que razão seria eu
como a que erra entre os rebanhos
dos teus companheiros?

Se tu o não sabes,
ó mais formosa entre as mulheres,
sai-te pelas pisadas das ovelhas,
e apascenta as tuas cabras
junto às moradas dos pastores.

Às éguas dos carros de Faraó te comparo,
ó amiga minha.
Agradáveis são as tuas faces entre os teus enfeites,
o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos,
com pregos de prata.

Enquanto o rei está assentado à sua mesa,
dá o meu nardo o seu cheiro.
O meu amado é para mim um ramalhete de mirra;
morará entre os meus seios.
Como um cacho de Chipre,
nas vinhas de Engedi,
é para mim o meu amado.

Eis que és formosa,
ó amiga minha,
eis que és formosa:
os teus olhos são como os das pombas.

Eis que és gentil e agradável,
ó amado meu;
o nosso leito é viçoso.
As traves da nossa casa são de cedro,
as nossas varandas de cipreste.

Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Qual o lírio entre os espinhos,
tal é a minha amiga entre as filhas

Qual macieira entre as árvores do bosque,
tal é o meu amado entre os filhos:
desejo muito a sua sombra,
e debaixo dela me assento;
e o seu fruto é doce ao meu paladar.
Levou-me à sala do banquete,
e o seu estandarte em mim era o amor.
Sustentai-me com passas,
confortai-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.

A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça,
e a sua mão direita me abrace.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas e cervas do campo,
que não acordeis nem desperteis o amor, até que ele o queira.

A voz do meu amado! eis que vem aí,
saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros.
O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho do veado;
eis que está detrás da nossa parede,
olhando pelas janelas, lançando os olhos pelas grades.
Fala o meu amado e me diz: Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem.
Pois eis que já passou o inverno; a chuva cessou, e se foi;
aparecem as flores na terra;
já chegou o tempo de cantarem as aves,
e a voz da rola ouve-se em nossa terra.

A figueira começa a dar os seus primeiros figos;
as vides estão em flor e exalam o seu aroma.
Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem.
Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas,
no oculto das ladeiras, mostra-me o teu semblante faze-me ouvir a tua voz;
porque a tua voz é doce, e o teu semblante formoso.
Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas;
pois as nossas vinhas estão em flor.

O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Antes que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu,
e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes de Beter.

De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma;
busquei-o, porém não o achei.
Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade;
pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma.
Busquei-o, porém não o achei.
Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade;
eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?
Apenas me tinha apartado deles, quando achei aquele a quem ama a minha alma;
detive-o, e não o deixei ir embora, até que o introduzi na casa de minha mãe,
na câmara daquela que me concebeu:
Conjuro-vos, ó filhos de Jerusalém,
pelas gazelas e cervas do campo,

que não acordeis, nem desperteis o amor, até que ele o queira.

Que é isso que sobe do deserto, como colunas de fumo,
perfumado de mirra, de incenso,
e de toda sorte de pós aromáticos do mercador?

Eis que é a liteira de Salomão;
estão ao redor dela sessenta valentes, dos valentes de Israel,
todos armados de espadas, destros na guerra,
cada um com a sua espada a cinta, por causa dos temores noturnos.
O rei Salomão fez para si um palanquim de madeira do Líbano.
Fez-lhe as colunas de prata, o estrado de ouro, o assento de púrpura,
o interior carinhosamente revestido pelas filhas de Jerusalém.
Saí, ó filhas de Sião, e contemplai o rei Salomão com a coroa de que sua mãe
o coroou no dia do seu desposório,
no dia do júbilo do seu coração.

Como és formosa, amada minha,
eis que és formosa!
os teus olhos são como pombas por detrás do teu véu;
o teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.
Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas,
que sobem do lavadouro, e das quais cada uma tem gêmeos,
e nenhuma delas é desfilhada.
Os teus lábios são como um fio de escarlate,
e a tua boca e formosa;
as tuas faces são como as metades de uma roma por detrás do teu véu.
O teu pescoço é como a torre de David, edificada para sala de armas;
no qual pendem mil broquéis, todos escudos de guerreiros valentes.
Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.
Antes que refresque o dia e fujam as sombras,
irei ao monte da mirra e ao outeiro do incenso.
Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha.
Vem comigo do Líbano, noiva minha, vem comigo do Líbano.
Olha desde o cume de Amana,
desde o cume de Senir e de Hermom,
desde os covis dos leões, desde os montes dos leopardos.
Enlevaste-me o coração,
minha irmã, noiva minha;
enlevaste- me o coração com um dos teus olhares,
com um dos colares do teu pescoço.
Quão doce é o teu amor, minha irmã, noiva minha!
quanto melhor é o teu amor do que o vinho!
e o aroma dos teus unguentos do que o de toda sorte de especiarias!
Os teus lábios destilam o mel, noiva minha;
mel e leite estão debaixo da tua língua,
e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Jardim fechado é minha irmã, minha noiva,
sim, jardim fechado, fonte selada.

Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes;
a hena juntamente com nardo,
o nardo, e o açafrão, o cálamo, e o cinamomo,
com toda sorte de árvores de incenso;
a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias.
És fonte de jardim, poço de águas vivas, correntes que manam do Líbano!

Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul;
sopra no meu jardim, espalha os seus aromas.
Entre o meu amado no seu jardim, e coma os seus frutos excelentes!

Venho ao meu jardim, minha irmã, noiva minha,
para colher a minha mirra com o meu bálsamo,
para comer o meu favo com o meu mel,
e beber o meu vinho com o meu leite.
Comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados.

Eu dormia, mas o meu coração velava. Eis a voz do meu amado!
Está batendo: Abre-me, minha irmã, amada minha, pomba minha, minha imaculada;
porque a minha cabeça está cheia de orvalho,
os meus cabelos das gotas da noite.
Já despi a minha túnica; como a tornarei a vestir?
já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar?
O meu amado meteu a sua mão pela fresta da porta,
e o meu coração estremeceu por amor dele.

Eu me levantei para abrir ao meu amado;
e as minhas mãos destilavam mirra,
e os meus dedos gotejavam mirra sobre as aldravas da fechadura.
Eu abri ao meu amado, mas ele já se tinha retirado e ido embora.
A minha alma tinha desfalecido quando ele falara.
Busquei-o, mas não o pude encontrar;
chamei-o, porém ele não me respondeu.
Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade;
espancaram-me, feriram-me;
tiraram-me o manto os guardas dos muros.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado,
que lhe digais que estou enferma de amor.

Que é o teu amado mais do que outro amado,
ó tu, a mais formosa entre as mulheres?
Que é o teu amado mais do que outro amado, para que assim nos conjures?

O meu amado é cândido e rubicundo, o primeiro entre dez mil.
A sua cabeça é como o ouro mais refinado,
os seus cabelos são crespos, pretos como o corvo.
Os seus olhos são como pombas junto às correntes das águas,
lavados em leite, postos em engaste.
As suas faces são como um canteiro de bálsamo,
os montes de ervas aromáticas;
e os seus lábios são como lírios que gotejam mirra.
Os seus braços são como cilindros de ouro,
guarnecidos de crisólitas;
e o seu corpo é como obra de marfim, coberta de safiras.

As suas pernas como colunas de mármore,
colocadas sobre bases de ouro refinado;
o seu semblante como o líbano, excelente como os cedros.
O seu falar é muitíssimo suave;
sim, ele é totalmente desejável.
Tal é o meu amado, e tal o meu amigo, ó filhas de Jerusalém.

Para onde foi o teu amado, ó tu,
a mais formosa entre as mulheres?
para onde se retirou o teu amado,
a fim de que o busquemos juntamente contigo?

O meu amado desceu ao seu jardim,
aos canteiros de bálsamo,
para apascentar o rebanho nos jardins e para colher os lírios.
Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu;
ele apascenta o rebanho entre os lírios.

Formosa és, amada minha, como Tirza,
aprazível como Jerusalém,
imponente como um exército com bandeiras.
Desvia de mim os teus olhos, porque eles me perturbam.
O teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.
Os teus dentes são como o rebanho de ovelhas que sobem do lavadouro,
e das quais cada uma tem gêmeos, e nenhuma delas é desfilhada.
As tuas faces são como as metades de uma romã, por detrás do teu véu.
Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e virgens sem número.
Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada;
ela e a única de sua mãe, a escolhida da que a deu ã luz.
As filhas viram-na e lhe chamaram bem-aventurada;
viram-na as rainhas e as concubinas, e louvaram-na.

Quem é esta que aparece como a alva do dia,
formosa como a lua,
brilhante como o sol,
imponente como um exército com bandeiras?

Desci ao jardim das nogueiras,
para ver os renovos do vale,
para ver se floresciam as vides e se as romanzeiras estavam em flor.
Antes de eu o sentir, pôs-me a minha alma nos carros do meu nobre povo.

Volta, volta, ó Shulamite; volta, volta, para que nós te vejamos.
Por que quereis olhar para a Shulamite como para a dança de Maanaim?

Quão formosos são os teus pés nas sandálias, ó filha de príncipe!
Os contornos das tuas coxas são como jóias, obra das mãos de artista.
O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida;
o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.
Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela.
O teu pescoço como a torre de marfim;
os teus olhos como as piscinas de Hesbom, junto ã porta de Bate-Rabim;
o teu nariz é como torre do Líbano, que olha para Damasco.
A tua cabeça sobre ti é como o monte Carmelo,
e os cabelos da tua cabeça como a púrpura;
o rei está preso pelas tuas tranças.

Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!
Essa tua estatura é semelhante à palmeira, e os teus seios aos cachos de uvas.
Disse eu: Subirei à palmeira, pegarei em seus ramos;
então sejam os teus seios como os cachos da vide,
e o cheiro do teu fôlego como o das maçãs,
e os teus beijos como o bom vinho para o meu amado,
que se bebe suavemente, e se escoa pelos lábios e dentes.

Eu sou do meu amado, e o seu amor é por mim.
Vem, ó amado meu, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias.
Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas,
vejamos se florescem as vides,
se estão abertas as suas flores,
e se as romanzeiras já estão em flor;
ali te darei o meu amor.

As mandrágoras exalam perfume,
e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos,
novos e velhos; eu os guardei para ti, ó meu amado.

Ah! quem me dera que foras como meu irmão,
que mamou os seios de minha mãe!
quando eu te encontrasse lá fora, eu te beijaria;
e não me desprezariam!
Eu te levaria e te introduziria na casa de minha mãe,
e tu me instruirias;
eu te daria a beber vinho aromático,
o mosto das minhas romãs.
A sua mão esquerda estaria debaixo da minha cabeça,
e a sua direita me abraçaria.

Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
que não acordeis nem desperteis o amor,
até que ele o queira.

Quem é esta que sobe do deserto,
e vem encostada ao seu amado?
Debaixo da macieira te despertei;
ali esteve tua mãe com dores;
ali esteve com dores aquela que te deu à luz.

Põe-me como selo sobre o teu coração,
como selo sobre o teu braço;
porque o amor é forte como a morte;
o ciúme é cruel como o sheol;
a sua chama é chama de fogo,
verdadeira labareda do Senhor.
As muitas águas não podem apagar o amor,
nem os rios afogá- lo.
Se alguém oferecesse todos os bens de sua casa pelo amor,
seria de todo desprezado.

Temos uma irmã pequena,
que ainda não tem seios;
que faremos por nossa irmã,
no dia em que ela for pedida em casamento?

Se ela for um muro, edificaremos sobre ela uma torrezinha de prata;
e, se ela for uma porta, cercá-la-emos com tábuas de cedro.

Eu era um muro, e os meus seios eram como as suas torres;
então eu era aos seus olhos como aquela que acha paz.

Teve Salomão uma vinha em Baal-Hamom;
arrendou essa vinha a uns guardas;
e cada um lhe devia trazer pelo seu fruto mil peças de prata.
A minha vinha que me pertence está diante de mim;
tu, ó Salomão, terás as mil peças de prata,
e os que guardam o fruto terão duzentas.
Ó tu, que habitas nos jardins,
os companheiros estão atentos para ouvir a tua voz;
faze-me, pois, também ouvi-la:
Vem depressa, amado meu,
e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho da gazela sobre os montes dos aromas.

Shir Ha-Shirim שיר השירים (Cantares de Salomão), tradução de João Ferreira de Almeida.

Em que Acreditam os Judeus?

Recebi desde o início deste blog (já lá vão quase três meses) vários e-mails de leitores que pretendiam saber mais sobre o judaísmo enquanto Religião. As primeiras perguntas eram invariavelmente as mesmas: “Em que acreditam os judeus?” e “Quais as diferenças entre Judaísmo e Cristianismo?”
Numa tentativa de responder a estas e outras questões que possam existir em relação ao judaísmo, resolvi dar aqui a conhecer uma versão minguada, quase “reader’s digest” é certo, do “credo” do judaísmo.
Convém referir que, tal como acontece com o cristianismo, existem no judaísmo diversas correntes teológicas e movimentos religiosos com interpretações divergentes, pelo que este “credo” funciona apenas como uma amostra genérica daquilo em que os judeus acreditam. A este respeito, há um velho provérbio hebraico que diz “onde há dois judeus tem de haver duas sinagogas”.

O “Credo” do Judaísmo

1.Deus: Deus é o Criador. Eterno, omnisciente, omnipotente, infinito e incorpóreo. Deus não tem género no sentido humano do termo, o pronome masculino é-Lhe atribuído apenas por convenção. Deus é único. Deus é um e não composto por diferentes personalidades.

2.Instrução: O Criador concedeu ao Homem instruções de comportamento destinadas a promover a vida e a evolução espiritual. As instruções são baseadas em constantes universais criadas por Deus, e como tal imutáveis. As instruções encontram-se contidas na Bíblia Hebraica (Torá, ver Tanakh, conhecida entre os cristãos como “Antigo Testamento”).

3.Futuro: Seguindo as instruções, o Homem, ao longo dos séculos, produzirá mudanças positivas no Mundo, restaurando a sua essência primordial (ver conceito de Tikkun ha-Olam). Esta mudança (restauração) é um esforço colectivo dos povos ao longo de muitas gerações.

4.Julgamento: Cada pessoa é julgada com base apenas nos seus actos, independentemente de outros factores, tais como crença, etnia ou orientação sexual. Os actos de outras pessoas – quer sejam familiares, antepassados ou homens santos – são irrelevantes. O Homem possui total e inquestionável livre arbitro bem como controlo sobre todas as suas acções.

5.Expiação: A correcção dos erros individuais quotidianos é feita através da oração (meditação), observância anual do Dia do Perdão (Yom Kippur); e arrependimento, corrigindo os erros sempre que possível, resolvendo não os repetir e cumprindo as Instruções – incluindo a ajuda aos mais necessitados, tida como a maior de todas elas.

6.Recompensa: Deus não promete recompensas individuais (ver Futuro), mas sim colectivas.

7.O Bem e o Mal: Deus é o Criador de todas as coisas. O judaísmo não tem o conceito de Diabo. Enquanto em hebraico existe a palavra satan, e ela de facto é mencionada várias vezes na Bíblia Hebraica, o seu significado é completamente diferente do atribuído pelos cristãos – em hebraico satan quer dizer oponente, referido por regra no contexto da luta interior individual entre dois opostos. O “Mal” é produto exclusivo das acções, individuais e colectivas, do Homem, assumindo-se como o resultado de um processo cósmico de “causa e efeito” equiparável às teorias da física newtoniana.

8.Depois da Morte: No judaísmo não existem os conceitos de Céu, Inferno ou Salvação. As preocupações devem ser centradas unicamente nesta vida; não temos qualquer tipo de controlo sobre o que nos irá acontecer depois da morte. Uma vez que o objectivo da evolução espiritual individual só pode ser alcançado com a imersão na sociedade e a interacção com o semelhante, também não existe no judaísmo o conceito de isolamento monástico. Na prática, o objectivo é viver a vida da melhor e mais justa forma possível.

9.Messias: A palavra hebraica moshiach (משיח – messias) não tem a mesma conotação que lhe é atribuida pelo cristianismo. No judaismo não existem homens-deus, semideuses ou filhos literais de Deus. Uma pessoa não pode tomar ou absolver os pecados de outra (ver Julgamento). Os judeus não estão à espera da vinda de alguém. O Futuro chegará através das acções do conjunto da Humanidade. Um dos sinais contidos na Bíblia Hebraica para a chegada da era messiânica é a paz universal.

10.Povo Eleito: A Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) refere-se poucas vezes aos judeus como “o povo eleito”, mas a expressão tem sido destorcida ao ponto de se fazer crer que os judeus se julgam intrinsecamente superiores aos não-judeus. Esta leitura é completamente falsa. Os judeus são “escolhidos” apenas enquanto portadores da Mensagem (Instrução), e seus guardiões através dos séculos. Não existe qualquer sentimento de superioridade ou inferioridade implicita. (ver também Julgamento)

11. Sacrifício e Expiação: O sacrifício não é necessário para a expiação. O propósito do sacrifício é expressar o sentimento de afinidade pessoal para com o Criador. Na ausência do sacrifício, o mesmo sentimento pode ser expresso através da oração (meditação) e correcção dos erros cometidos.

12.Dez Mandamentos: Os conhecidos “Dez Mandamentos” são apenas uma parte da Instrução, ainda que importante. A palavra hebraica usada significa literalmente “declaração” (“dez declarações”). No judaísmo, em vez de apenas dez, existem 613 mandamentos (mitzvot).

Este “credo” foi elaborado (traduzido e largamente editado) com base numa lista do site Am ha-Aretz: Judaism of the masses.

Citações & Recortes Blogosféricos II

A propósito do meu post sobre o aniversário da chegada dos primeiros emigrantes judeus portugueses a Nova Iorque, em 1654 (ver Os primeiros judeus nas Américas), o escritor Luís Carmelo, no seu blog Miniscente, escreveu uma entrada intitulada Tragédia de um Esquecimentor aqui reproduzida. Às questões levantadas, que responda quem sabe.

“Lembra o blogue Rua da Judiaria que, em 2004, se celebram 350 anos “sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque)”. Tratou-se, na altura, de um contingente de 23 emigrantes judeus fugidos à Inquisição do Recife, no Brasil. De facto, um certo mutismo português adora esquecer os labirintos judaicos de Amesterdão, de Antuérpia, de Istambul ou do Recife que, afinal, lhe saíram da sua própria carne. Por que razão será muda a história oficial portuguesa acerca da implosão judaica de finais de século XV e inícios do século XVI?
Independentemente de tal mudez, a verdade é que não há português que não traga consigo um pouco de Israel e, no entanto, parece disfarçá-lo com uma leviana saudade da escuridão, com uma timidez pessoana e quase mitológica, com uma ignorância tétrica e, às vezes, com uma apaixonada tentação pela erradicação memorial (tantas vezes pressionada pelos fluxos ideológicos de conjuntura).
É como se, na frente de um Portugal marmóreo e cristalizado, apenas ficasse o mar e as suas lendas a sós, apenas ficasse a imagem passada de um século de ouro, apenas ficasse a euforia das Europálias, das Expos, das Décimas sétimas, das N Capitais da cultura e das várias Exposições do mundo português. É como se, em todas estas cenografias da exaltação lusa, nada sobrasse do vestígio da alma judaica arrancada à nossa própria alma. Que auto-imagem celebrará tal amputação, ou tal compaixão desprovida de rosto?(…).”

Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe em 1675 (Gans Collection, CRDJ)

Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe, 1675 (Gans Collection, CRDJ)

Citações & Recortes Blogosféricos I

No Contra a Corrente, Carlos MacGuffin escreve hoje:

Três pequenas observações
Hoje de manhã, ouvi na rádio (Antena 1) as declarações de um palestiniano que vive na Faixa de Gaza, sobre o mais recente atentado em Israel. Ahmed comentava a decisão israelita de fechar as fronteiras da Faixa de Gaza por tempo indeterminado. Considera a decisão como uma medida grave, já que a mesma impedirá que cerca de 25.000 palestinianos possam cruzar a fronteira para trabalhar.

Observação n.º 1: milhares e milhares de palestinianos trabalham em Israel, com direitos e garantias asseguradas. E, pasme-se, em paz.

Ahmed prossegue, dizendo que o recente atentado do Hamas, que ceifou a vida a quatro israelitas, foi perpetrado por uma mulher palestiniana que vivia sem perspectivas de futuro. É o desespero que provoca este tipo de acções. É a falta de perspectivas que corrói o espírito dos jovens palestinianos.

Observação n.º 2: há atentados em Israel, onde são ceifadas vidas humanas, quase sempre civis. Há incursões do exército israelita que acabam na morte de palestinianos. Mas, do ponto de vista da comunicação social, existe um pendor pró-palestiniano (admito que não totalmente consciente) que leva a que se procurem ouvir as razões ou justificações de um lado, mas raramente as razões do outro.

Contudo, Ahmed acrescentou que esse tipo de desespero, aliado à descrença em relação ao futuro, está presente em todas as sociedades, inclusive na europeia. O problema, diz Ahmed, é que na Palestina existem grupos políticos armados que fazem uso desse desespero para fins terroristas, envolvendo o assassinato de civis israelitas.

Observação n.º 3: os suicidas palestinianos não são meros civis que, face às dificuldades, decidiram um dia, por livre iniciativa, rebentar-se a si próprios e ao maior número de israelitas. Se assim fosse, Africa e outros pontos negros do planeta seriam locais preferenciais para que este tipo de acções florescesse. Os atentados terroristas palestinianos têm uma marca política. São alvo de organização e de uma propaganda que incita à morte e ao ódio pelo seu semelhante. Eis um aspecto que ainda não entrou na cabeça de muito gente.

Este post (retirado do blog Contra a Corrente) traz-me à memória um brilhante artigo assinado por Miriam Greenspan na edição de Dezembro da revista Tikkun. Sobre o ódio, e a fundamental necessidade de o irradicar, o texto terminava assim:

“Renouncing hatred, in all its forms, is the only thing that will save us—Israeli, Palestinian, Tutsi, Hutu, Croat, Serb, Muslim, Christian, Jew, Hindu, Buddhist, Kurd, man, woman, and child. Are Palestinians “justified” in nursing their rage at Occupation until it becomes a deadly hatred of Jews? Are Jews “justified” in turning their fear of annihilation and their anger at Arab terrorism into a blind and spiteful Occupation? Where will this get us? Will it bring back the dead on both sides? Will Arab mothers be able to lift their children in their arms in a free society rather than send them to their deaths in order to take down another Jew? Will Jewish mothers be able to put their children on a bus without fear that they will never see them again except, if they are lucky, at the morgue? Will hatred bring about two states in Israel and Palestine? Will it bring justice? Will it bring peace? Will it do anything at all except spill more innocent blood and poison the soul of the hater? To paraphrase a forgotten 1960’s anti-war song: When will we ever learn? When will we ever learn?”

Natan Zach

Não é bom para o homem estar só
mas ele está só mesmo assim
ele espera e está só
ele adia e está só
só, ele sabe
que mesmo adiando
chegará

Original em hebraico

Natan Zach, poeta israelita contemporâneo.
Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro

Quando telefonaste a tua voz estremeceu

Natan Zach

Quando telefonaste a tua voz estremeceu
e eu soube que fiquei de luto por tua causa

E não precisei de ouvir as tuas palavras
porque quando telefonaste a tua voz estremeceu

E soube que fiquei de luto por minha causa
e tu não tiveste de ouvir a minha voz

Porque quando telefonaste a tua voz estremeceu
eu soube que estavas já ausente

Original em hebraico

Natan Zach, poeta israelita contemporâneo.
Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro

Os primeiros judeus nas Américas


Gershom Mendes Seixas (1745-1816), o primeiro rabino de Nova Iorque.

Em 2004 celebram-se 350 anos sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque). Fugidos da Inquisição no Brasil (Recife), os primeiros 23 emigrantes judeus a chegar à América eram portugueses.
Apesar da oposição inicial do governador Peter Stuyvesant, o governo holandês contrariou-o e concedeu aos judeus portugueses permissão para se instalarem na colónia. A primeira sinagoga construída na parte norte do “novo mundo” foi a Shearith Israel (meados do século XVIII), de Nova Iorque, que ainda hoje existe e mantém a designação de “Sinagoga Portuguesa e Espanhola“.
A comunidade floresceu com o correr dos anos e a aparente tolerância religiosa das Américas continuou a atrair judeus de todo o mundo, incluindo muitas famílias portuguesas que entretanto tinham emigrado para Inglaterra, Holanda e Brasil.
Apesar de pouco divulgada entre nós, a presença dos judeus portugueses na América deixaria uma marca indelével na história do país.
Entre os judeus portugueses que ascenderam à notoriedade em terras americanas destaca-se a família Mendes Seixas, levada de Lisboa para Nova Iorque pela mão do patriarca Isaac Mendes Seixas em 1730.
O filho mais velho, Gershom Mendes Seixas (1745-1816), conhecido como o “primeiro rabino da América do Norte”, era amigo pessoal de George Washington e foi um dos três representantes do clero presentes na cerimónia de tomada de posse do primeiro presidente americano, em 1787.
Quando o rabino Gershom morreu, a Câmara de Nova Iorque decretou luto municipal e o conselho de reitores da Universidade de Columbia abriu concurso público para que se fizesse uma medalha comemorativa com o seu busto. Tido como um exemplo de tolerância – contava com amigos entre os mais respeitados pastores protestantes da cidade – e serviço público, a American Jewish Historical Society considera ainda hoje Gershom “um modelo para os rabinos americanos contemporâneos”.
Além de Gershom, outros Mendes Seixas viram os seus nomes elevados a figuras de relevo da História americana: Abraão Mendes Seixas (1751-99) foi oficial no exército revolucionário de Washington; Benjamin Mendes Seixas (1748-1817) foi um dos fundadores da Bolsa de Valores de Nova Iorque – ao lado Isaac Gomes, outro judeu português –; Moisés Mendes Seixas (1744-1809) tornou-se um dos organizadores do Banco de Rhode Island – percursor da actual Reserva Federal – e presidente da histórica sinagoga de Newport. O filho de Gershom, David Mendes Seixas fundou o Instituto de Surdos Mudos de Filadélfia e foi um inventor prolífico, descobrindo, entre outras, formas mais eficientes de queimar carvão mineral.
A História americana destaca também o nome de Aaron Lopes, um judeu português de origem cripto-judaica (conhecido em Portugal como D. Duarte Lopes) nascido em Lisboa em 1731 que ainda criança viajara com a família para a América. Armador estabelecido na cidade de Newport, em Rhode Island, Aaron Lopes era dono de 30 navios transatlânticos e 100 embarcações costeiras que permitiram abastecer o exército revolucionário de George Washington, apesar da enorme pressão da coroa britânica.
Francis Salvador e Benjamin Nunes, outros dois judeus de ascendência portuguesa, foram de Inglaterra e França, respectivamente, para lutar ao lado das tropas revolucionárias. Francis Salvador seria mais tarde escolhido para integrar o Congresso Provisório da Carolina do Sul, em 1774, e foi também o primeiro patriota morto pelas tropas britânicas. Benjamin Nunes, que durante a guerra ascendera ao cargo de major, tornou-se membro da Câmara dos Representantes do recém formado país. Entre os judeus portugueses que combateram ao lado dos revolucionários americanos contam-se ainda os irmãos Jacob e Salomão Pinto, que em 1750 se estabeleceram na cidade de New Haven.
Por alturas da Guerra de Independência, estima-se que existissem já largas centenas de emigrantes portugueses na colónia, a esmagadora maioria destes de origem judaica. Cerca de 20% dos marinheiros do primeiro navio de guerra a hastear a bandeira americana, o Bonhomme Richard, capitaneado por John Paul Jones, eram portugueses.
O aniversário da chegada, em 1654, dos primeiros judeus portugueses à América vai ser assinalado este ano nos EUA pelo semanário Forward, de Nova Iorque. Na última edição é de ler um artigo assinado pela juíza do Supremo Tribunal de Justiça Ruth Bader Ginsburg, intitulado Recordando os Cinco Juizes Judeus do Supremo. Entre os nomes citados encontra-se outro descendente de judeus portugueses: Benjamin Cardozo, nomeado pelo presidente Hebert Hoover em 1932.

A Noite, o Que é?

Hoje, madrugada de domingo, as saudades e o frio sentem-se nos ossos. Engana-se a distância, o tempo e o espaço, relendo.

Francisco José Viegas “Jaime Ramos voltou como voltara outras vezes, rendido a um mistério mais intenso do que a morte, mais doloroso do que a evidência da morte. Voltou, não se lembraria quanto tempo depois, mas voltou nessa mesma noite e olhou de novo para o corpo deitado sobre a mesa, sabendo que seria a última vez que o faria – mas pressentindo que aquelas imagens voltariam até que o pesadelo acabasse, o que demoraria muito tempo.
Foi então que acendeu o charuto e, ao aspirar o primeiro fumo, dando-se conta do cenário, lembrou a morte, a morte mais pura de todas, a morte que se acolhe como uma benção e como uma música vinda do interior da terra. Lembrou a morte como um passeio final ao cemitério, num dia de chuva, um cemitério de aldeia, ladeado de muros onde cresciam braços de hera, silvas, ramos soltos de árvores rasteiras, um cemitério num dia de chuva com um caixão de madeira, simples, a descer à terra, ao interior da terra, e dentro do caixão Jaime Ramos vê o seu pai, abandonado como numa despedida que, apesar de tudo, nesse caso, foi surpreendente. E para lá da chuva vê-se o retrato fino e escurecido de uma aldeia suspensa numa colina sobre o rio, uma casa de pedra, de madeira, de cal, o regresso a casa depois do enterro, o badalar dos sinos como um anúncio de rendição e de alarme. E nesse regresso a casa, muitos anos antes, Jaime Ramos viu a sua mãe, os seus irmãos, os xailes negros cobrindo as cabeças, toda a sua vida, todo o resto da sua vida, uma explosão de neve arrebatando o que nesse instante sobrava da noite, debruçado sobre o corpo estendido sobre a mesa de inox, diante do mostrador da balança que servira para pesar os órgãos do morto um a um, pelo menos os necessários, mais uma ardósia onde se anotam os números que equivalem a operações de uma aritmética simples mas inexacta, que é a da soma das medições, pesos, avaliações, observações. E os estilhaços dessa explosão traziam-lhe o que definira como uma suspeita sobre esses sinais insignificantes e finais, uma espécie de disciplina que a sua cabeça exigia, uma disciplina que evitasse o medo da morte e a vontade de sobreviver, uma disciplina que o levasse a organizar quadros, pistas, silêncios, arquivos, associações. Mas a morte vive em cada gesto, em cada sinal de envelhecimento, em cada minuto, encerrado nesta sala ou respirando a humidade da noite. Qualquer coisa como impressões digitais, autópsia, exame tanatalógico e de toxicologia, carne e osso, pistas descobertas em carne e osso e restos do que foi sangue e é uma matéria a entregar à noite e à podridão. Gestos mágicos. Jaime Ramos conhecia-os. Ilusões. Gestos de ilusão. A vida de um polícia. Que se foda, que se foda, que se foda, dizemos isto muitas vezes enquanto pensamos em nada e em tudo, na vida toda, na morte toda, nos impostos para pagar no fim do ano, nas contas do dia-a-dia, no fumo que se infiltra nos pulmões, no colesterol, que se foda, que se foda, que se foda, um tempo feliz, um tempo infeliz, um tempo em que o paraíso está tão próximo, um tempo em que o paraíso está tão afastado, um tempo e que a felicidade se descobre ao acender um charuto, ao beber um café, um copo de água, uma cerveja guardada como vinho de missa, um tempo colorido de azul como alguns sonhos, um tempo em que nos aproximamos do que nos aproxima do paraíso e da ideia que dele sobra vinda dos sonhos. Não quero morrer já. Não quero. Os cadáveres entram e saem desta sala, mas não quero que chegue a minha vez, tenho de ter tempo, um tempo de ser frio como um risco no céu de uma madrugada de Verão, um polícia vulgar, um polícia com nome, um homem com nome, um homem sem excepções de género, pessoas, declinação. Um homem que não tem de ser imune, um homem que toma duche e pequeno-almoço e sol e ar e tudo. E isso antes de ficarmos rígidos, cheios de manchas arroxeadas, sangue coagulado, um cadáver visto da cabeça aos pés, a distância a que o tiro foi disparado, a direcção do disparo, fragmentos na pele, rasgões nos tecidos, vísceras em formol, os seus extractos mínimos em lâminas observadas ao microscópico, o corpo aberto, o corpo sem corpo, o corpo que volta a ser cosido, lavado, rectificado, vestido como se fosse a um baptizado. Mas o que resta dele são apenas este momentos, fórmulas guardadas num papel, exames de dactiloscopia, de roupa, de estrutura dentária, cicatrizes, DNA nos ossos que já não são ossos mas formações ósseas, frases de peritos, um bisturi apontado para um cadáver, um bisturi que aponta para o único corpo onde se grava o segredo de uma morte e de uma vida, e paz, paz profunda, paz de objectos recolhidos que não têm senão um aparente sentido, uma aparente verdade.
Jaime Ramos levantou-se. Havia vozes ao fundo do corredor, duas vozes em surdina. Havia a noite. Toda a noite.”

Francisco José Viegas, Um Céu Demasiado Azul, Edições Asa, 1995.