500 Anos: O massacre de Lisboa IX


Um dia, o rei D. Manuel tomou para si o papel de Herodes, e como um satrapa mandou arrancar aos pais e baptizar todos os filhos menores de quatorze anos, “a qual obra tão-somente foi de grão terror misturado com muitas lágrimas, dor e tristeza dos judeus, mas ainda de muito espanto e admiração dos christãos.” Ao mesmo tempo, num prazo breve, os judeus haviam de receber o baptismo, ou embarcar em navios que se lhes não davam.
(…)Por outro lado, em Lisboa, onde, para embarcar, os judeus tinham vindo de todo o reino, os Estáos da Ribeira , apresentavam o aspecto de um acampamento antigo. Albergadas em barracas as famílias – vinte mil judeus esperavam as naus de embarque, contando hora a hora o prazo da redenção. Esse prazo correu, sem virem as naus: por isso foram todos convertidos à força, porque os teimosos ficaram cativos. Este baptismo forçado, causa de tantas desgraças posteriores, revela a política dúbia e falsa de um governo que não tinha a coragem purista do castelhano, depois de ter perdido o bom senso e a humanidade dos tempos anteriores. Desumanos, os actos eram ao mesmo tempo cobardes, pois o cronista diz com franqueza que se procedia assim com os judeus por serem párias, sem rei nem terra, não se podendo já fazer outro tanto com os mouros, com medo das represálias dos soberanos maometanos.
De tal modo se originou a crise que teve na era de 1506 o seu primeiro episódio trágico.
As fomes dos anos precedentes, a peste que lavrara no Outono anterior e vitimara já na Primavera mais de cem pessoas por dia, enchiam de aflição o povo da capital, que buscava uma causa a tamanhas desgraças. D. Manuel tinha fugido da peste, para Évora. O castigo tremendo, que a cólera divina impunha sem piedade, não podia ter outro motivo senão a criminosa protecção concedida aos judeus. Baptizados, mas não convertidos, eram uma viva e impune blasfémia; e todos os seus actos religiosos outros tantos sacrilégios. Deus estava, de certo, ofendido; e por isso castigava sem dó. E o pobre povo sofria tamanhas misérias por causa destes malditos que insultavam Deus dentro do seu templo sagrado, fingindo orar e comungando!
(…)A 15 de Abril tinha havido uma procissão, com votos e lágrimas, pedindo a cessação do flagelo; e todas as noites, em São Domingos, se faziam preces públicas. Houvera um milagre, a 19, dia de Pascoela: a custódia do lado do Senhor aparecera iluminada; mas um herege ousou rir, dizendo que um pau seco não podia fazer milagres. Isto fez transbordar a ira de todos, e o tumulto começou fulminante. O ímpio foi tirado pelos cabelos de rastos, para fora da igreja, e logo ali morto e lançado a uma fogueira.
Os mercadores dos arcos do Rossio, desde a Betesga até S. Domingos, fecharam as lojas – onde vendiam as cassas de Holanda, os panos de linho cadequim da Índia, rendas, tranças, franjas e passamanarias – vindo em pessoa, com os seus escravos pretos e mouros, engrossar o tropel. A multidão corria por debaixo d’essa arcada, que limitava por oriente o Rossio, abrangendo o Hospital e o dormitório do convento de S. Domingos, amontoando-se às portas da igreja, onde o burburinho era grande, e um frade, de crucifixo em punho, pregava, exaltando o furor religioso da turba.
As mulheres agitavam-se coléricas pronunciando ditos obscenos, palavras descompostas, à mistura com as expressões de refinada devoção e de um fervente beaterio. Incitavam os homens à matança; e, do púlpito, o frade, oráculo do céu, definia com palavras o sentimento da multidão. Os judeus eram a causa da fome, eram a causa da peste! De cruz alçada, saindo da igreja, os frades vinham clamando, heresia! Heresia! Concitando o povo à matança.
Já houvera sangue, já crepitava o lume; e a cor rubra e os primeiros ais dos moribundos exacerbavam, como um touro, a fúria da plebe, açulada pelos sermões dos frades energúmenos. Desencadeou-se a tempestade, rebentando numa hora a cólera reunida em muitos séculos. Cresceram as fogueiras no Rossio e na Ribeira; e os bandos iam caçar pela cidade os judeus escondidos, invadindo as casas. Traziam-nos às manadas de quinze e vinte, amarrados, feridos, cuspidos, semimortos; e lançavam-nos, aos montes, nas fogueiras. As chamas crepitavam, e os gritos dos moribundos conseguiam ouvir-se por entre o vozear da plebe. Os sinos dobravam a rebate, chamando os fiéis à matança. Viam-se homens despirem-se, para mostrarem que, não sendo circuncisados, não podiam ser judeus; porque o furor da plebe já arrastava a queimar tudo, numa fogueira que purificasse os ares pestilentos. Além disso, as vinganças pessoais e o roubo soltavam-se à vontade no meio da desordem. Queimavam-se os infelizes, porque tinham sido assassinados; e assassinavam-se, porque se não deixavam roubar. Ao saque de Lisboa tinham corrido as tripulações dos navios do Tejo: eram mais de quinhentos marinheiros flamengos e outros; e na faina do roubo e da matança andavam gentes de todas as nações e cores, invadindo as casas, violando as mulheres, e incendiando. No primeiro dia, domingo, não faltou gente: matou-se meio milhar. Na segunda-feira eram já mil e quinhentos os que andavam na faina da matança. As justiças tinham fugido, o povo escondera-se, os judeus aferrolhavam as portas, enquanto os escravos acarreavam lenha para as fogueiras, os bandidos assaltavam as casas com vaivéns e escadas. Arrancavam as crianças do colo das mães desesperadas, e, tomando-as pelos pés, esmagavam-lhes os crânios tenros contra os muros. As casas escorriam sangue, que se precipitava pelas escadas vindo reunir-se em poças nas ruas. Havia um cheiro nauseabundo de carne queimada, risadas ferozes nos rostos dos pretos, os olhares terríveis na face macilenta dos frades, que pregavam à esquina das ruas. Os desgraçados corriam às igrejas perseguidos, rojavam-se nos altares abraçados aos santos e aos sacrários, e dali eram levados à fogueira arrastados pelos sicários. Na segunda feira mataram-se mais de mil. Na terça acalmou a fúria porque “já não achavam quem matar.” Três dias e duas noites durou a orgia; e no fim contavam-se mais de trezentas pessoas queimadas, mais de duas mil mortas, e não se sabe quantas mulheres, chorando com amargura a sua viuvez, a sua orfandade, a sua miséria, a sua desonra.
O rei acudiu com tropas, abriu devassa e enforcou muita gente; entre essa, frades. Os marinheiros de bordo velejaram barra em fora com os roubos nas mãos tintas de sangue; nas esquinas das ruas havia forcas; na fogueira acabaram os dois frades concitadores, e Lisboa pela sua fraqueza foi desautorada dos seus foros. O rei puniu o que não soubera prevenir; e insistindo na sua indiferença, ou na sua fraqueza, fez com que as cenas de Lisboa se reproduzissem periodicamente por todo o reino.”

J.P. Oliveira Martins (1845-1894), in História de Portugal (Tomo II), Livraria Bertrand, Lisboa, 1882.

500 Anos: O massacre de Lisboa VII

Testemunhos


A perseguição e matança dos hebreus não permite que hesitemos nas fórmulas do carácter fero de D. Manuel, que nem ao menos era fanático: sacrificava à sua luxúria por uma princesa de Castela as vidas dos hebreus, a melhor artéria da riqueza nacional; e, para contemporizar o erário com piedade, deixava matar sumariamente os judeus depois que ele os espoliava.”

Camilo Castelo Branco (1825-1890), in “D. Luiz de Portugal, Neto do Prior do Crato (quadro histórico)”, Porto 1883.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa VI

Testemunhos


Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até ao ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estevão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente. Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações encandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia! O rugido do tigre popular não tardou a ressoar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo. O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito de revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos. A ebreidade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas haviam perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas. Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. (…) À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.”

Alexandre Herculano (1810-1877), historiador, escritor e poeta português, in História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1855).
Com um agradecimento especial a Luís Pedro Schleibinger.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia 21, sexta-feira (ou quinta-feira à noite), o dia que assinala o fim do massacre, que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa V

Testemunhos


Antes que el Rei fosse de Lisboa para Almeirim, ordenou Tristão da Cunha à Índia por capitão de uma armada, da qual, e do que nesta viagem se fez se dirá adiante, no ano de mil quinhentos e oito, em que tornou. Pelo que nestes dois capítulos, que são já derradeiros desta primeira parte tratarei de um tumulto, e levantamento, que aos dezanove dias de Abril, deste ano de mil quinhentos e seis, em Domingo de Pascoela fez em Lisboa contra os cristãos-novos, que foi pela maneira seguinte. No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos, e os meio vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio a qual negócio lhes serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo, no qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas. A esta turma de maus homens, e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos segunda-feira continuaram nesta maldade com maior crueza, e por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram cometer com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. Nas quais cruezas não se esqueceram de meter a saque as casas, e roubar todo o ouro, prata, e enxovais que nelas acharam, vindo o negócio a tanta dissolução que das igrejas tiraram muitos homens, mulheres, moços, moças, destes inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de nosso Senhor, e de nossa Senhora, e outros Santos, com que o medo da morte os tinha abraçado, e dali os tiraram, matando e queimando sem nenhum temor a Deus assim a elas como a eles. Neste dia pereceram mais de mil almas, sem que na cidade alguém ousasse de resistir, pela pouca gente de sorte que nela havia por estarem os mais dos honrados fora, por causa da peste. E se os alcaides, e outras justiças, queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência, que eram forçados a se recolher a parte onde estivessem seguros, de não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos. (…) Passado este dia, que era o segundo desta perseguição, tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.”

Damião de Góis (1502-1574), in “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”, escrito em Lisboa entre 1566 e 1567. Historiador e humanista, Guarda-Mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo, figura central do Renascimento em Portugal – ele próprio acusado mais tarde de “heresia” pela Inquisição por causa das suas simpatias luteranas e da amizade com Erasmo –, Damião de Góis relata com sentida e genuína indignação o massacre de 1506, ao contrário de outros cronistas “cristãos-velhos” que se limitaram posteriormente a fazer um relato desapaixonado e quase burocrático da matança, optando por “branquear” os detalhes mais macabros testemunhados nos escritos de Góis.

500 Anos: O massacre de Lisboa IV

Testemunhos


A Matança de Portugal. Ano 5266 1. Não bastou have-los trazido com tanta sem razão e injustiça à sua fé afastando-os da Lei com que nasceram, mas ainda assim não os deixavam viver quietamente, denostando-os, injuriando-os, abatendo-os, e tratando-os com baixeza e desprezo, e isto não o levaram em paciência, e lhes levantavam aleives e falsos testemunhos para os destruir e arrancar do mundo, pregando os pregadores nos púlpitos, e dizendo os senhores em lugares públicos, e os cidadãos e vilãos nas praças, que qualquer fome, peste ou terremoto que vinha à terra era por não serem bons cristãos: e que secretamente judaizavam; Assim que alcançando alguns intrínsecos amigos a vontade do povo quanto inclinada estava em seu dano, acharam aparelho para meterem em efeito seus maus ânimos, entre os quais ouve dois frades dominicanos que saíram pela cidade de Lisboa com crucifixos às costas amotinando o povo e clamando que viessem todos em sua companhia vingar a morte do seu deus, e com muitos perversos ociosos e briguenta gente que a eles se recolheram, com lanças e espadas nuas em suas mãos arremetendo contra o fraco e desprovido povo dos mal baptizados e novos cristãos mataram quatro mil almas deles, roubando e viando todas aquelas crueldades que em um saque de uma cidade se fazem, atassalhando os homens arremessando as criaturas às paredes e desmembrando-as, desflorando as mulheres e corrompendo as virgens, e sobre isto tirando-lhes a vida. Houve muitas que prenhes as lançaram das janelas sobre as pontas das lanças que já embaixo as estavam esperando, e ali atalhavam o caminho às inocentes criaturas antes que arribassem ao mundo onde o céu piedoso as mandava: entre elas se achou uma que esforçando a muita ira e sua honra a um frade que a queria forçar matou com uma faca que o mesmo frade trazia. Se este assim terrível mal durara daquele ímpeto acabavam todos os novos cristãos que na cidade de Lisboa habitavam, mas provendo a misericórdia divina, com as justiças da terra acudiram, e trás isso el rei que com grande diligência veio a socorro da vila de Abrantes onde então se achava cessou aquela matança tenebrosa.”

Samuel Usque (1492-?), in Consolação às Tribulações de Israel. Historiador e escritor, judeu nascido em Lisboa, Usque era primo do pintor e tipógrafo lisboeta Abraão Usque. Fruto das perseguições de que foram vítimas em Portugal, ambos emigraram com as famílias para Ferrara, em Itália, onde Samuel publica “Consolação…”, em 1533, dedicando-o a Dona Gracia Mendes, a Senhora (a obra seria mais tarde reeditada em Amsterdão, por volta de 1600). Samuel Usque acaba por emigrar definitivamente para Safed, na Galileia, onde vem a morrer em data incerta.


Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Ferrara, Itália, 07/09/1553

1 O ano dado por Samuel Usque, 5266, refere-se ao calendário hebraico – 1506 da Era Comum.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa III

Garcia de Resende

Testemunhos

Vi qẽ em Lixboa se alçaram
Pouo baixo & villãos
Contra os nouos Christãos
Mais de quatro mil matarã
Dos qẽ ouuerão nas mãos.
Hũos delles viuos queimarã
Mininos espedaçarão
Fizerão grandes cruezas
Grandes roubos & vilezas
Em todos quantos acharão.

Estando só ha cidade
Por morrerem muito nella
Se fez esta crueldade
Mas el rey mandou sobrella
Cõ muy grande breuidade
Muitos forão justiçados
Quantos acharão culpados
homẽ baixos & bragantes
& dous frades observãtes
vimos por isso queimados.

El rey teue tanto a mal
Ha cidade tal fazer
Qẽ o titulo natural
De noble & sempre leal
Lhe tirou & fez perder.
Muytos homens castigou
& officios tirou
depois que Lixboa vio
tudo lhe restituyo
& o titulo lhe tornou

Garcia de Resende (1470 – 1536), in Miscellania & Variedades de Histórias, costumes, casos & cousas que em seu tempo aconteceram, escrito entre 1530 e 1533, e publicado após a sua morte, em 1554.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa II

Testemunhos


A matança que ocorreu lá, em Lisboa:
Estando eu fora da cidade, contaram-me dias depois ao regressar que os dois não podem ser comparados, tendo em comum apenas a crueldade e a extrema dor1. O que me contou um ancião é o que a seguir relato.
Na noite de Páscoa os cristãos encontraram marranos2 sentados à mesa com pão ázimo e ervas amargas, seguindo os rituais da Páscoa, e trouxeram-nos perante o rei, que ordenou que fossem eles encarcerados na prisão até que a sentença fosse determinada. Naquela altura havia fome e seca pelo reino, e os cristãos juntaram-se e disseram: “Porque faz o Senhor isto a nós e à nossa terra senão por causa da culpa dos judeus?” E as suas palavras foram ouvidas pela Ordem dos Pregadores também chamados Dominicanos, que se concentraram em encontrar um ardil com que ajudar os cristãos. Então um deles levantou-se na sua casa de oração e pregou palavras ásperas e amargas contra a semente de Israel. E eles planearam um artifício e fizeram um crucifixo oco com uma abertura atrás, e vidro na frente, e por lá passavam uma vela, dizendo que a chama emergia do crucifixo, enquanto o povo se prostrava e gritava: “Vede o grande milagre! Este é um sinal de que Deus julga pelo fogo toda a semente de Israel!”
Um marrano foi lá que não ouvira estas palavras e, na sua inocência, disse: “Era melhor que fosse um milagre de água e não de fogo, pois com a seca é de água que precisamos!”
Os cristãos, cujos desígnios eram funestos, levantaram-se e disseram: “Olhai, que zomba ele de nós!” A multidão de imediato o pegou e matou. Quando o seu irmão ouviu, veio e disse: “Infortúnio, ai meu irmão, quem te matou?” E um de entre a multidão ergueu a espada, cortou-lhe a cabeça e a atirou sobre o corpo do irmão. Depois disto todos os frades se levantaram levando consigo os paus de Jesus Cristo3. Foram eles pelas ruas da cidade e proclamaram: “Quem matar algum da semente de Israel terá 100 dias de absolvição no mundo vindouro!” E de entre a multidão surgiram homens armados de espadas e durante três dias mataram quatro mil almas. Arrastavam e traziam para a rua os corpos para os queimar. Mulheres grávidas foram atiradas das janelas, os seus corpos recebidos pelas pontas das lanças, os fetos caindo a muitos pés de distância. E outras crueldades semelhantes e abominações que não quero aqui contar.
Aos magistrados de Lisboa não se pode culpar, nem aos seus nobres e líderes, porque tudo isto foi feito apesar deles. Eles próprios foram tentar salvar judeus, mas por causa do tamanho da multidão não o puderam fazer, pois quase lhes puseram as mãos neles também, e eles tiveram de fugir para salvar as próprias vidas.”

Salomão Ibn Verga, in Sefer Shebet Yehudah (ספר שבט יהודה), Livro do Ceptro de Judá, escrito em Portugal pouco depois do massacre de Lisboa mas publicado apenas em 1550, em Constantinopla, pelo seu filho, Yosef Ibn Verga.

NOTAS:
1 Salomão Ibn Verga alude aqui aos dois massacres: o ocorrido dentro de Lisboa e o subsequente que se alastrou pelas áreas rurais circundantes.
2 “Anussim” (אנוסים) no hebraico original do texto, expressão que literalmente quer dizer “os forçados”. Termo aplicado aos judeus portugueses forçados a converter-se ao catolicismo.
3 (עצי ישו הנוצרי) referência pejorativa aos crucifixos.

(texto traduzido do original hebraico)

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 anos: O massacre de Lisboa

1506-2006

Vai fazer exactamente 500 anos, nos dias 19, 20 e 21 de Abril, que um cataclismo se abateu sobre Lisboa. A alma da Capital do Império sofreu um abalo tão grande – senão mesmo maior – quanto aquele que a haveria de destruir em 1755. Durante três dias, em nome de um fanatismo sanguinário, mais de 4 mil pessoas perderam a vida numa matança sem precedentes em Portugal.
Como vozes que teimam em emergir de entre as poeiras da História, cronistas como Damião de Góis e Samuel Usque deixaram relatos detalhados dos motins sangrentos. Contam os testemunhos que tudo terá começado na Baixa, no dia 19 de Abril de 1506, um domingo, na Igreja de São Domingos, quando alguém gritou ter visto o rosto do Cristo crucificado iluminar-se inexplicavelmente no altar. Em redor, gente que rezava pelo fim da seca prolongada que grassava pelo país clamou que era milagre. Entre eles, um judeu convertido à força terá tentado explicar que a luz que emanava do crucifixo era apenas um reflexo de um raio de sol que entrava por uma fresta. Terão sido as suas últimas palavras. Arrastado para a rua, o marrano e um irmão seu foram espancados até à morte. Os seus corpos mutilados foram arrastados para o Rossio e queimados em frente dos Estaus – onde décadas depois foi instalada a Inquisição. Eles eram apenas os primeiros de entre mais de 4 mil mortos – anussim, judeus portugueses, homens, mulheres e crianças, assassinados em três dias sangrentos.
Incitada por frades dominicanos, a multidão que entretanto se aglomerara decide partir em direcção da Judiaria, gritando “morte aos judeus” e “morram os hereges”. As incompreensíveis cenas de violência que se deram a seguir fazem parte de um pedaço da história de Portugal que a História resolveu esquecer. Conto voltar ao tema e às descrições desta tragédia de há 500 anos. Por agora, queria apenas deixar um apelo. Em Portugal comemoram-se há muito os grandes feitos da História, testemunhos quase sebastianistas de uma grandeza perdida. Que não se esqueça também a desgraça que prova ser mito a velha máxima do tal “povo de brandos costumes”.
Aqui fica o desafio: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (“Da Contenda Cristã, que Recentemente Teve Lugar em Lisboa, Capital de Portugal, Entre Cristãos e Cristãos-Novos ou Judeus, Por Causa do Deus Crucificado”)

Panfleto anónimo, com apenas seis folhas, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor por uma testemunha ocular. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

(Gravura reproduzida aqui a partir de uma cópia gentilmente cedida pelo Hebrew Union College. O original, encontra-se na Houghton Library, na Universidade de Harvard)

Abraham Lopes Cardozo צ”ל


Rabino Abraham Lopes Cardozo (1914-2006), responsável pela preservação da tradição musical dos judeus portugueses, faleceu na terça-feira, em Nova Iorque, aos 91 anos.

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

O rabino Abraham Lopes Cardozo, hazzan emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque e reconhecido pelos seus esforços na preservação da música tradicional dos judeus portugueses da Diáspora, morreu na passada terça-feira, dia 21 de Fevereiro, aos 91 anos de idade. Lopes Cardozo faleceu num hospital de Manhattan, em Nova Iorque. Abraham Lopes Cardoso foi responsável pela condução musical dos serviços litúrgicos da sinagoga portuguesa de Manhattan, Shearith Israel – a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos, fundada em 1654 – entre 1946 e 1984, altura em que se reformou.
Nascido a 27 de Setembro de 1914, o rabino Abraham Lopes Cardozo era descendente de uma longa linha de rabinos e músicos da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. O seu bisavô, o lendário rabino David Lopes Cardozo (1808-1890), foi o último líder espiritual da comunidade de Amsterdão a fazer os sermões de Shabbat integralmente em português. O pai do rabino Abraham, Joseph Lopes Cardozo – morto no campo de concentração de Sobibor em 1943 -, era músico, foi maestro do coro de rapazes da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e cantor durante o Santo Serviço (o nome ainda hoje dado pelos judeus sefarditas holandeses à liturgia de Shabbat).
Abraham Lopes Cardozo prosseguiu a longa tradição rabínica e musical familiar, primeiro na Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e posteriormente na Nederlandsch Portugeesch Israelietsch Gemeente Zedek Ve-Shalom, a congregação de judeus portugueses de Paramaribo, Suriname, nas Antilhas Holandesas, e em Nova Iorque, onde acabou por se fixar em 1946. Grande parte da sua família pereceu no Shoá. Em 1940, quando o exército nazi invadiu a Holanda, Abraham Lopes Cardozo estava já no Suriname. O seu irmão Arie Lopes Cardozo foi capturado em 1941, pouco tempo antes dos seus pais e do seu irmão mais novo, Ies, deportado no dia do seu casamento, a 26 de Maio de 1943. Nenhum deles sobreviveu aos campos de extermínio. Reformado oficialmente desde 1984 das suas funções de hazzan da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque, o rabino Abraham Lopes Cardoso continuou até ao fim da sua vida empenhado em perpetuar a tradição musical dos judeus sefarditas portugueses, compilando várias colecções de edição restrita. Em 2000 foi condecorado pela coroa holandesa com o título de Cavaleiro da Ordem de Oranje Nassau, pelo seu trabalho de preservação cultural. A mesma condecoração tinha sido em tempos conferida ao seu avô.
Em 2004, Abraham Lopes Cardozo gravou em Israel aquele que é considerado o maior registo da tradição musical dos judeus portugueses, num CD intitulado “The Western Sephardi Liturgical Tradition as Sung by Abraham Lopes Cardozo”, editado pelo Centro de Estudos de Música Judaica da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Abraham Lopes Cardozo foi enterrado ontem, dia 22 de Fevereiro, no cemitério da comunidade de judeus portugueses, em Manhattan.

Johann Philipp Reis

O judeu “português” que inventou o Telefone


Johann Philipp Reis (1834-1874), inventor alemão descendente de judeus portugueses.

Johann Reis nasceu a 7 de Janeiro de 1834 na pequena cidade de Gelnhausen, próximo de Frankfurt, na Alemanha. O seu pai, Segismundo Reis, um padeiro de parcos recursos, era filho de judeus sefarditas portugueses oriundos da Beira Baixa que emigraram para a Alemanha nos finais do século XVIII, juntando-se inicialmente à florescente comunidade de judeus portugueses estabelecidos em Hamburgo.
Órfão de mãe aos 11 meses, Johann Philipp Reis perdeu também o pai quando tinha apenas 10 anos, sendo criado pela avó materna, uma Judia portuguesa extremamente culta e bastante religiosa. Estudante talentoso desde tenra idade, Johann Reis passava horas na biblioteca do colégio, o Instituto Hanssell, lendo tudo o que apanhava sobre as suas disciplinas favoritas: geografia, matemática, física e línguas. Um dos seus tios queria fazer dele um comerciante, profissão tradicional na família, mas Johann tinha outras aspirações. Aos poucos, pagou do seu bolso aulas privadas de matemática e física e em 1858, um ano antes de casar, aceita a posição de professor de matemática e ciências no Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, nos arredores de Frankfurt.
O caminho que o levaria à invenção do telefone teve início acidentalmente, quando Johann Reis investigava a possível construção de uma “orelha artificial” (künstliches ohr) para aliviar a surdez – uma doença que afectava a sua avô beirã, já em idade avançada. Reis começou a trabalhar na “orelha artificial” com apenas 18 anos, em 1852. No laboratório improvisado num barracão nas traseiras da sua casa, Johann Reis construiu o seu primeiro aparelho com componentes inesperados que encontrou quase ao acaso: um violino, uma agulha de malha, uma rolha de cortiça, fio de cobre e uma salsicha. Uma pele de salsicha esticada sobre uma rolha de cortiça oca servia de microfone, unido com cera ao fio de cobre que por sua vez era ligado a uma corda do violino, que funcionada como receptor e caixa acústica. Os resultados não foram muito animadores, mas Reis não desistiu.
Dois anos mais tarde, em 1854, Johann Reis lê um interessante artigo do telegrafista francês Charles Bourseul, publicado na revista L’Illustration de Paris, no qual ele descreve a possibilidade de transmitir sons através de uma corrente eléctrica intermitente. O artigo de Bourseul concedia uma base teórica às experiências de Johann Reis, permitindo-lhe avançar com o seu projecto, ao qual deu o nome de “telefone”, cunhando pela primeira vez o termo que viria a fazer parte do vocabulário de todo o planeta nos séculos que se seguiram.


Esquema do “telefone de Reis”, 1861.

Em 1860, quase dez anos após as suas primeiras experiências, as tentativas de Johann Reis davam frutos significativos, 16 anos antes do escocês Alexander Graham Bell reclamar a sua patente. A primeira frase transmitida pelo telefone de Reis foi “das pferd frisst keinen gurkensalat” (literalmente “o cavalo não come salada de pepino”). A demonstração pública do novo invento foi efectuada perante a Sociedade de Físicos de Frankfurt (Der Physikalische Verein) a 26 de Outubro de 1861. Na altura com apenas 27 anos de idade, Johann Philipp Reis proferiu uma palestra intitulada “Das Telefonieren Durch Galvanischen Strom” (“Telefonia Utilizando Corrente Galvânica”) e transmitiu os versos de uma canção através de um cabo de 100 metros, naquela que seria a primeira exibição pública que provava com sucesso a possibilidade teórica da conversão de variações de corrente eléctrica em ondas sonoras.
Apesar de algum sucesso relativo, o telefone de Reis estava longe de ser perfeito. Construído para converter quebras de corrente eléctrica em som, o aparelho conseguia transmitir música mas tinha dificuldades em reproduzir a voz humana. Por causa disso, a invenção ficaria conhecida na época como “telefone musical”. A palestra de Frankfurt granjeou a Johann Reis alguma fama temporária, fazendo com que modelos do seu invento fossem levados para a Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos e Rússia.
Mesmo assim, a Sociedade de Físicos de Frankfurt voltaria costas ao telefone, com parte da comunidade cientifica alemã a classifica-lo como um mero “brinquedo filosófico”. Confrontado com o antisemitismo de alguns dos membros, Reis abandona a Sociedade de Físicos de Frankfurt em 1867.
Johann Phillipp Reis, o inventor descendente de judeus portugueses, morreu vítima de tuberculose às cinco da tarde do dia 24 de Janeiro de 1874, com apenas 40 anos, sem conhecer o verdadeiro sucesso do seu trabalho mas acreditando nele até ao fim. Pouco antes de morrer, Johann Reis escreveu: “Olhando para a minha vida posso dizer, como na Torá, que tem sido ‘trabalho e sofrimento’. Mas tenho também de agradecer a Deus que me deu a Sua benção na minha carreira e na minha família, e me concedeu mais do que eu alguma vez saberia como pedir-lhe. Hashem ajudou-me até aqui; Ele irá ajudar-me daqui para a frente.”
A 22 de Março de 1876, um editorial do New York Times intitulado “The Telephone” elogiava e enaltecia Johann Phillipp Reis como inventor do novo engenho. O editorial não fazia qualquer menção a Alexander Graham Bell, que poucos meses depois receberia uma patente americana registando “melhoramentos” no telefone. Em 1878, um grupo de físicos da sociedade de Frankfurt mandou erigir um monumento a Phillipp Reis, classificando-o como “o inventor do telefone”. A paternidade do invento foi-lhe igualmente atribuída em inúmeros livros e tratados publicados por toda a Europa. Já no século XX, pelo facto de Johann Reis ser judeu, o regime nazi haveria de expurgar o seu nome dos manuais escolares alemães. Reis seria reabilitado após a Segunda Guerra Mundial, homenageado em 1952 pelo governo alemão numa colecção de selos comemorativa dos 75 anos do serviço telefónico no país – um novo selo, este com uma gravura da sua invenção, seria emitido em 1989 na RDA.
Em 1986 as cidades de Friedrichsdorf e Gelnhausen, em conjunto com a Deutschen Telekom, instituíram o Johann Philipp Reis Preis, uma bolsa anual de 10 mil euros destinada a premiar jovens cientistas que se distingam no campo das telecomunicações.


Selos de homenagem a Johann Philipp Reis emitidos em 1952 e 1989 na RFA e RDA.

::A LER:: BBC – Alemão pode ter inventado telefone antes de Bell / Who Invented the Telephone? / Philipp Reis, a most eminent Telephone Pioneer / Philipp Reis by Phonebook of the World.com / Istituto e Museo di Storia della Scienza – Reis telephone transmitter / Connected Earth: Reis, Philip (1834-1874) : DIY telephone designer / The Reis Telephone Receiver 1862-1872 / The early history of the telephone. / IMSS – Multimedia Catalogue – Instrument – XIV.138 Reis telephone transmitter / Reis’ telephone – Wikipedia / Invention of the telephone – Wikipedia / Rolf Bernzen “Das Telephon von Philipp Reis” / Philipp-Reis-Schule Friedrichsdorf

Camille Pissarro, um pintor “transmontano”


Pissarro, pai do Impressionismo, descendente de judeus portugueses de Trás-os-Montes.

Até há pouco tempo, quando se discutia a paternidade da pintura moderna, o consenso parecia apontar para um único nome: Paul Cézanne. Nas últimas décadas, no entanto, um número crescente de historiadores de arte começou a questionar este pressuposto, olhando antes para Camille Pissarro, amigo e mestre de Cézanne, como o verdadeiro precursor da revolução que transformaria radicalmente a pintura na última metade do século XIX. Jacob Camille Pissarro, de seu nome completo, era filho de Abraham (Frederic) Gabriel Pissarro, um judeu “marrano” português, transmontano de Bragança, que ainda criança (nos finais do século XVIII) emigrara com os pais para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. Camille nasceu a 10 de Julho de 1830 em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, para onde o pai se mudara anos antes para servir de executor do testamento de um tio.
Camille Pissarro era um personagem fascinante. Amigo e mestre de Degas, Cézanne e Gauguin, Camille Pissarro era visto pelos colegas como um “patriarca” – uma figura generosa, amável e profundamente fiel às suas amizades. “Pissarro foi como um pai para mim: era o homem a quem se pediam conselhos, era como le bon Dieu”, escreveu sobre ele Cézanne. Henri Matisse chamou-lhe “o Moisés da pintura contemporânea, aquele que nos dá a Lei”; Cézanne afirmaria categoricamente: “todos nós descendemos de Pissarro.”
Anarquista convicto, Camille Pissarro não era religioso em termos formais mas, mesmo assim, nunca dissimularia o judaísmo herdado dos seus antepassados portugueses. Pelo contrário, Pissarro orgulhava-se de ser judeu.
Durante o Caso Dreyfus – o paradigma do antisemitismo que dividiu a sociedade francesa dos finais do século XIX – Pissarro, ao mesmo tempo que combatia o ódio irracional contra os judeus, sentiria na pele o antisemitismo de alguns dos seus colegas, mesmo vindo de amigos, como Degas e Renoir. Nessa altura, alguns dos seus colegas mais próximos chegariam mesmo a por em causa a sua relação de amizade, temendo “ficar contaminados” por se associarem a um judeu. “Continuar com o israelita Pissarro é ficar manchado com revolução”, escreveu Renoir, com um antisemitismo tristemente típico da época.
Na última edição da revista Commentary, o crítico de arte Dana Gordon escreve um excelente artigo de cinco páginas intitulado Justice to Pissarro, onde defende que a paternidade da pintura moderna deve ser definitivamente atribuída, não a Cézanne, mas a Camille Pissarro, o pintor descendente de judeus sefarditas de Bragança.


Camille Pissarro, L’Ermitage à Pontoise, 1867.


Camille Pissarro, Vue de ma fenêtre, Eragny sur Epte, 1886-88.

[Organizada pelo Museum of Modern Art (MOMA), de Nova Iorque, a exposição Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro pode ser visitada no LACMA, em Los Angeles, até 16 de Janeiro de 2006 e depois, entre 27 de Fevereiro e 28 de Maio no Musée d’Orsay, em Paris.]

::A VER:: Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro / Camille Pissarro The first Impressionist / L’Impressionnisme – Biographie de Camille PISSARRO / WebMuseum: Camille Pissarro / Camille Pissarro Online / Camille Pissarro – Olga’s Gallery / Camille Pissarro ~ The Artist / Camille Pissarro, 1830-1903 – a Political Biography of an Anarchist / Commentary – Justice to Pissarro / CNN.com – arts & style – Pissarro’s art reflects St. Thomas roots – July 17, 2000 / Frederic Bonin Pissarro (pintor, bisneto de Camille Pissarro).

Sinagoga secreta descoberta no Porto


Ekhal, a Arca da Scola Grande Tedesca, na sinagoga de Campo Ghetto Nuovo, Veneza.

Vestígios de uma sinagoga secreta dos finais do século XVI foram recentemente descobertos no Porto, na Rua de S. Miguel, numa casa comprada há quatro anos pelo pároco de Nossa Senhora da Vitória. Encontrado por acidente durante uma obras, um nicho emparedado foi identificado por especialistas como um ekhal (pronunciado “errál”), a reentrância onde eram guardados os rolos da Torá, a parte mais sagrada da sinagoga, também conhecida simplesmente como Arca (aron ha’kodesh – ארון הקדש). Este achado reveste-se de uma importância histórica notável, provando a existência de uma sinagoga secreta no Porto mais de um século após a conversão forçada dos judeus portugueses, decretada por D. Manuel I em 1497. Num trabalho publicado no Jornal de Notícias (ver Jornal de Notícias – Sinagoga descoberta no Porto), assinado pelo jornalista Pedro Olavo Simões, o arqueólogo Mário Jorge Barroca data o ekhal nos finais do século XVI ou princípios do século XVII. A descoberta do que resta de uma sinagoga clandestina naquela localização, segundo afirma a historiadora Elvira Mea também ao Jornal de Notícias, enquadra-se nos relatos do rabino Immanuel Aboab – que nasceu e foi criado no Porto – inscritos no seu livro Nomologia o Discursos Legales, publicado em Amsterdão em 1629. A historiadora diz ainda que contactou o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil, alertando para a necessidade de preservar este raro achado, mas apenas a última instituição terá manifestado algum interesse.

PS – Um muito obrigado a Carlos Romão e Paulo Jorge Santos por me alertarem para a notícia. Francisco José Viegas também escreveu sobre o achado no seu A Origem das Espécies. Já agora acrescento que Elvira Mea, a historiadora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto citada no texto de Pedro Olavo Simões, é responsável pela cadeira Judeus e Cristãos Novos na Cultura Portuguesa. Sobre a história dos judeus no Porto, e com uma breve referência à sinagoga agora descoberta, ver ainda este pequeno artigo da Jewish Encyclopedia, datado de 1905, da autoria do rabino alemão Meyer Kayserling, um dos maiores estudiosos novecentistas da história dos judeus portugueses.

::ADENDA::
Para memória futura, aqui fica a transcrição do trabalho do Jornal de Notícias:

Sinagoga descoberta no Porto

Por Pedro Olavo Simões

Foi descoberta, no Porto, uma sinagoga de finais do século XVI. Por circunstâncias várias, tem enorme importância histórica, mas está numa casa onde a paróquia de Nossa Senhora da Vitória ultima a construção de um lar de idosos, com aval do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR).
A historiadora Elvira Mea, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) , anda há dois anos a lançar alertas para a existência, no nº 9 da Rua de S. Miguel, de um “Ehal” (nicho onde são guardados os rolos da Torah, a Lei atribuída a Moisés), que tem o especial valor de ter sido feito depois da expulsão/conversão forçada dos judeus em 1496/97, por D. Manuel. Trata-se de uma sinagoga clandestina, que constituía “uma afronta total à situação de Contra-Reforma”. Para mais, além da tipologia da casa (uma entrada por trás, discreta, na Rua da Vitória), característica do culto clandestino, a documentação, designadamente da Inquisição, dá conta da existência, nas imediações, de casas de jogo, que os cristãos-novos usavam como elementos distractivos.
Elvira Mea, que diz ter contactado o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil (a única entidade que mostrou interesse), nota, ainda, que o achado faz luz sobre a obra “Nomologia…” (Amsterdão, 1629), de Imanuel Aboab, em que o autor diz ter visto a sinagoga, na sua meninice, algo que a ausência de vestígios materiais tornava duvidoso. A importância do “Ehal” é ainda maior, atendendo à falta de vestígios materiais da presença judaica no Porto, designadamente na zona do Olival, hoje Vitória, onde esteve a última judiaria da cidade. A localização da sinagoga na rua que agora é da Vitória, e não na de S. Miguel, é corroborada por escritos de historiadores como Geraldo Coelho Dias.
O arqueólogo Mário Jorge Barroca, também docente da FLUP, não hesita em afirmar que o “Ehal” é de finais do século XVI ou do início do século XVII, sendo um de quatro exemplares existentes em Portugal, juntamente com os de Castelo de Vide, de Castelo Mendo (que ele próprio identificou) e da Guarda. Apesar de danificado, por obras mais antigas, o “Ehal” constitui oportunidade única para aprofundar e divulgar o conhecimento sobre a cidade.
Agostinho Jardim, pároco de Nossa Senhora da Vitória, comprou a casa em questão há cerca de quatro anos, tendo descoberto o dito “nicho” ao ver que “havia uma parede falsa a tapar qualquer coisa”. O lar, feito ali por ter sido aquela a casa devoluta que apresentava melhores condições, é uma necessidade premente, e a obra está perfeitamente legal, mas o padre Jardim está aberto à procura de uma solução. Já Miguel Rodrigues, da Direcção Regional do Porto do IPPAR, admite a importância do achado e a necessidade de fazer tudo pela preservação, mas nota que, por o edifício não ser do Estado, há que ter em conta “todos os interesses em presença”. Diz ter sabido do caso há 15 dias, desconhecendo os apelos feitos anteriormente.

::ADENDA II::

Ha’aretz (Israel)
12/01/2006
Remains of a Torah ark discovered
during renovations in Portugal

By Amiram Barkat

A group of citizens from the city of Porto in Portugal who view themselves as descendents of Crypto-Jews want to turn a building in which the remains of an ancient synagogue were found into a museum dedicated to the history of the city’s Jews.
In their view, the building, in which a recess of a synagogue ark was discovered by chance, once served as the synagogue of Rabbi Isaac Aboab. However, so far the group’s request has not been acceded to, and it appears unlikely that it will.
Rabbi Aboab, also known as the “last gaon [sage] of Castile,” was the head of the Guadalajara yeshiva and one of the last gaonim of Spain. In March 1492, on the eve of the expulsion of the Jews from Spain, Aboab and a group of Jewish dignitaries managed to obtain political asylum in Portugal.
The rabbi settled in the Judiaria, or Jewish, quarter of Porto along with a few hundred Jewish families. Five years later, the Portuguese authorities forced all the Jews in the country to either convert to Christianity or be expelled.
Many of those forced to convert continued to observe the Jewish commandments in secret. Over the years, the Jews abandoned the Judiaria, and many of its buildings were handed over to the Church or various charity organizations. The synagogue building was handed over to a state charity.
Two years ago, the organization gave the building to a priest named Agostinho Jardim Moreira to establish an old people’s home in it. During renovations on the building, a recess where a synagogue ark once stood, in which the Torah scrolls were kept, was found behind a secret wall.
The niche was identified by historian Elvira Mea, a lecturer at the University of Porto who specializes in Jewish history. She happened to be passing by while guiding a tourist from Israel.
The location of the building precisely matches a description provided by 16th century writer Immanuel Aboab (a great-grandson of Rabbi Aboab), who wrote that the synagogue was located “in the third house along the street counting down from the church.”
Mea, who specializes in the period of the Inquisition, maintains that the synagogue continued to be active even during the period of the Crypto-Jews, who worshiped in it secretly. However, an Israeli journalist of Portuguese extraction, Inacio Steinhardt, who knows Mea personally, disagrees with her.
“It is difficult to believe the Crypto-Jews prayed in a synagogue, because it would have been far too dangerous,” he says. Steinhardt is convinced the Crypto-Jews removed the ark from the synagogue along with its other sacred artifacts and worshiped in their homes.
A group of descendants of Crypto-Jews who heard about the discovery has asked that the building be preserved and turned into a museum dedicated to the history of the city’s Jews. However, Father Moreira has demanded an alternative building as well as compensation for the money that has already been put into the renovations.
Israeli ambassador to Portugal Aaron Ram has appealed to the city of Porto and the local bishop regarding the matter. In addition, the Center for Jewish Art at Hebrew University has asked UNESCO to intervene.
Steinhardt says he is pessimistic regarding the chances of turning the building into a museum because only the Portuguese government is authorized to make any decisions in the matter.

O Terramoto de Lisboa, os judeus e a Inquisição

Às 9h20 da manhã de 1 de Novembro de 1755, há exactamente 250 anos, Lisboa era varrida pelo primeiro de uma série de três violentos abalos sísmicos. Em breves minutos, uma das mais belas capitais europeias ficaria irreconhecível, irremediavelmente destruída por um dos mais devastadores terramotos da História – que, segundo os geólogos modernos, terá atingido uma magnitude de 9 na escala de Richter. Entre 60 a 100 mil pessoas perderam a vida nos escombros (cerca de metade da população da capital portuguesa na época).
Escassos quatro meses após o terramoto de Lisboa, a 11 de Março de 1756, uma quinta-feira (9 de Adar II de 5516, segundo o calendário hebraico, cinco dias antes do festival judaico de Purim), os governadores da congregação sefardita portuguesa e espanhola de Hamburgo – onde na época residiam cerca de 350 judeus portugueses – decretam um dia “jejum geral”, para “orar e suplicar à Divina majestade”. Um panfleto escrito em espanhol circulou pela cidade, anunciando um sermão a cargo do rabino Jacob Bassan (1704-1769), no qual se lia:
Horden de Rogativa y Peticion, para orar y rogar, al Senhor, para tiempo de teramoto, o temblor de tierra, y segun se há oydo, la indignacion de Ds. se experimentó, em Varios lugares, y en diferentes partes, tembló la tierra, por lo que se ajuntaran los Senhores Parnassim, y con la aprovacion del Sr. HH, decretaran um ayuno general, para jueves, siendo 9 del mez de Adar segundo deste anho, para orar e suplicar ala Divina magestad, por nós y por todo Israel nuestros Hermanos los proximos y los remotos, El todo poderozo apiade sobre nós, y sobre todos os lugares de nuestras moradas, y ampare por nos, Amen.
Composto em Lengua Ebrea, y tradizido em Lengua Espanhola por el H.H.R. Jehacob de Abraham Bassan, rav del K.K. Beth Israel en Hamburgo. Estampado por orden de los Senhores Parnassim de dicho Kahal anno 5516. Estampado em Hamburgo, em casa de la Viuda de I.H. [ilegível] Anno 1756.


Esquerda: o panfleto da sinagoga portuguesa e espanhola de Hamburgo anunciando um dia de jejum e oração em memória as vítimas do terramoto de Lisboa (clique para ver uma imagem maior do panfleto). Direita: xilogravura checa sobre o terramoto de Lisboa datada de finais de 1755 (Original do Museu da Biblioteca Nacional da República Checa).

Rezando pela memória das vítimas do terramoto de Lisboa, e pedindo a protecção divina, alguns dos líderes religiosos dos judeus portugueses emigrados em Hamburgo – e também em Amsterdão – viam na catástrofe um “castigo divino” que punia Portugal pelos crimes da Inquisição, em retribuição pelas suas inúmeras vítimas1 (António José da Silva, dramaturgo conhecido como O Judeu, por exemplo, fora executado na fogueira 18 anos antes do terremoto). A mesma leitura seria feita na época um pouco por toda a Europa, onde teólogos protestantes imputavam o Grande Terramoto de Lisboa a uma omnipresente “mão de Deus” que castigava os portugueses pela sede sanguinária e fanática da Inquisição (ver gravura em baixo). Cerca de dois séculos antes, como testemunhou um atónito Gil Vicente, um grupo de frades de Santarém pregava que o terramoto de 26 de Janeiro de 1531 fora “um castigo divino” pela presença dos judeus em Portugal (que por sinal estavam no país há mais de 2500 anos…).
Mas no século XVIII, mesmo aqueles menos dados às coisas da religião não hesitavam em juntar terramoto e Inquisição nas mesmas páginas. Numa carta dirigida a M. Tronchin de Lyons, datada de 24 de Novembro de 1755, redigida pouco tempo depois de receber a notícia da catástrofe de Lisboa, o filósofo iluminista francês Voltaire escrevia: “(…) Que dirão os pregadores – especialmente se o Palácio da Inquisição ainda ficar de pé! Agrada-me a ideia de que esses reverendos padres, os da Inquisição, terão sido esmagados tal como as outras pessoas. Servirá isso para ensinar que homens não devem perseguir outros homens: porque, enquanto beatos hipócritas queimam uns quantos na fogueira, a terra abre-se e engole a todos sem distinção.”
Quatro anos mais tarde, Voltaire tornava a escrever sobre o terramoto de Lisboa, e sobre a Inquisição, no romance burlesco Candide. No capítulo VI de Candide, o filósofo francês coloca os padres da Universidade de Coimbra a proclamarem que “o espectáculo de queimar vivas umas quantas pessoas em fogo lento, e numa grande cerimónia, é um segredo infalível para prevenir que a terra trema”, pelo que se organiza um “grandioso auto-de-fé” no qual serão queimados, entre outros, “dois portugueses que se recusam comer toucinho”. “No mesmo dia”, escreve Voltaire no final do capítulo, “a terra tremeria de novo com um furor implacável.”

1Até aos finais do século XIX, as congregações de judeus portugueses na Diáspora (em Nova Iorque, Filadélfia, Savannah, Newport, Amsterdão, Caraíbas etc.) tinham nos seus livros de oração uma benção, pronunciada diariamente pelos congregantes, onde se lia em português: “Tende na vossa guarda a todos os nossos Irmãos prezos pella Inquisição e a todos os nossos irmãos que andão por caminhos tanto por mar como por terra.


(clique para ampliar)
Gravura britânica, publicada em Londres em 1756. O rei português, D. José I, frente a uma Lisboa em ruínas, pergunta a um padre anglicano quais as causas do terramoto; o sacerdote protestante mostra-lhe um “auto-da-fé”, dizendo que “queimar pessoas provoca a ira divina”. (Jan Kozak Collection, Universidade de Berkeley, Califórnia)

::A LER:: Candide (texto integral em francês) / Candide (texto integral em inglês) / Cândido (texto integral em português) / Voltaire – Poème sur le désastre de Lisbonne / Dialogus – Voltaire – Le tremblement de Lisbonne / Dicionário Histórico de Portugal: Padre Gabriel Malagrida / Pequeno Blogue do Grande Terramoto (um blog de Rui Tavares, historiador, tradutor de Voltaire para português e autor do Pequeno Livro do Grande Terramoto) / Historical Depictions of the 1755 Lisbon Earthquake / Earthquakes Around the World / DivulgandoBD: Terramoto de 1755 na Banda Desenhada

Rabino Abraham Assor זצ”ל

Em Saudosa Memória
(Tânger, 7 de Setembro de 1920 – Lisboa 15 de Outubro de 1993)


Rabino Abraham Assor זצ”ל, fotografado por Yale Strom.


De acordo com a Halakhá (a Lei Judaica), o arrependimento, a providência e a profecia expressam a missão de criar. No Talmude, está escrito que ser judeu é mais uma acção do que uma crença, é mais fazer pelos outros do que ter fé. Modelo de homem judeu, de bondade, de humanidade, de justiça e de tolerância, o rabino Abraham Assor, sempre dedicado à sua comunidade, construiu um exemplo.
Deus permita que o saibamos lembrar.”

Joshua Ruah, ex-presidente da comunidade judaica de Lisboa
Sivan 5760 (Junho de 2000)

Mazel Tov Mr. Pinter!

Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?


Harold Pinter fotografado por Chris Saunders.

O dramaturgo britânico Harold Pinter venceu o Prémio Nobel da Literatura, tornando-se o 13o judeu a ganhar o Nobel nesta categoria, sucedendo à escritora judia austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do prémio em 2004.

::ADENDA::
Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?
Esta questão, levantada, entre outros, por Jorge Palinhos (ver BdE – Blogue de Esquerda (II): O Pinto Nobelizado), não tem uma resposta fácil. Pinter acredita que o seu nome de família resulta da anglicização de “Pinto” (ou “Pinta”), um sobrenome generalizado entre as famílias de judeus portugueses da Diáspora (ver JewishEncyclopedia– Pinto Jewish Family Name, Ancestry.com – Pinter e Wikipédia – Isaac de Pinto). Na verdade, era bastante comum aos judeus portugueses emigrados alterar o nome de família como forma de melhor se integrarem nos países de acolhimentos – em França, os descendentes do pedagogo Jacob Rodrigues Pereira, por exemplo, chamam-se hoje “Pereire”, enquanto o ramo americano da mesma família optou por “Perera” (ver National Foundation for Jewish Culture: On Being Sephardic: The Children of the Diaspora, by Victor Perera).
Por outro lado, sabe-se que os judeus portugueses são responsáveis pelo restabelecimento da comunidade judaica em Inglaterra, depois do rabino Menasseh ben Israel (Manuel Dias Soeiro) ter negociado com Oliver Cromwell, no século XVII, a revogação do decreto de expulsão de 1290. Foram os judeus portugueses os primeiros a chegar a Londres (ver JewishEncyclopedia – Bevis Marks Synagogue). Sabe-se também que existiam vários “Pintos” entes estes pioneiros – o rabino português Joseph Jesurun Pinto (1565-1648), por exemplo, viveu em Londres grande parte da sua vida.
A eventual descendência portuguesa de Harold Pinter virá por parte do pai, Jack Haim Pinter, uma vez que a família da mãe, Frances Moskowitz, tem raízes nas comunidades judaicas da Polónia e Ucrânia. Mesmo assim, sem mais elementos factuais – a não ser a palavra do próprio Harold Pinter – é difícil traçar com certezas a sua mais do que provável ancestralidade judaica portuguesa. A pista final é dada pelo facto do pai de Harold Pinter ser sefardita e da esmagadora maioria dos judeus sefarditas britânicos descenderem de judeus portugueses. (Ver ainda New York Times – Harold Pinter.)
Quanto à importância que o facto de ter nascido judeu teve na formação de Pinter, a sua biografia no site oficial da Academia Sueca parece não deixar dúvidas: “Crescendo [em Londres], Pinter foi confrontado com expressões de antisemitismo que, segundo ele próprio indica, foram importantes na sua decisão de tornar-se dramaturgo.”