Auto-retrato

Moses Mendelssohn

Chamais grande a Demóstenes,
Orador gago da Grécia;
E o corcunda Esopo dizeis sábio;
No vosso círculo, suponho,
Eu serei duplamente sábio e grande.
Pois o que neles separado havia
Em mim encontrais unido, –
Língua pesada e marreca combinadas.

Moses Mendelssohn (1729-1786), filosofo e poeta; judeu alemão, corcunda e gago, era conhecido pelos seus contemporâneos como “o Platão Germânico”.

Noite de Inverno

Boris Pasternak

Nevou e nevou em redor do mundo todo,
Neve varreu a terra de ponta a ponta.
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.

Como os enxames de mosquitos que no Verão
Batiam as asas contra a chama,
No pátio flocos de neve
Batiam na vidraça.

Sombras distorcidas levantavam-se
Sobre o tecto iluminado
Sombras de braços cruzados, de pernas cruzadas –
De destinos cruzados.

Dois sapatos minúsculos
tombaram no chão.
Uma vela na cómoda vazou lágrimas de cera
Sobre um vestido.

Tudo desapareceu na
Branca escuridão nevada.
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.

Uma corrente de ar soprou a vela
E a febre branca da tentação
Levantou suas asas de anjo
Numa sombra cruciforme

Nevou forte até ao mês de
Fevereiro, quase constantemente
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.

Boris Pasternak (1890-1960), escritor e poeta. Judeu russo.

Ilustração: caricatura de Pasternak da autoria de Vasco.

Separação

Israel Zangwill

Outrora, entre nós estava o Atlântico,
Mas eu sentia a tua mão na minha;
Agora sinto a tua mão na minha,
Mas entre nós está o Atlântico.

Israel Zangwill (1864-1926), escritor, dramaturgo e poeta.
Judeu britânico nascido em Londres.

Um pássaro sem nome

Emmanuel Moses

9.

Ele dissera: vou reconstruir tudo
A cidade com areia
O céu com um pouco de azul da Prússia
Os nervos com linhas de costura

Ele dissera: o coração não morrerá
E ao anoitecer, pássaros sombrios escapavam
Do braseiro.

Emmanuel Moses, poeta israelita.
Poema do livro OPUS 100 (1996).

Este poema, escrito por um dos meus poetas contemporâneos preferidos, é dedicado a Lutz Brückelmann, autor de um dos meus blogs favoritos, pelo segundo aniversário do seu imprescindível Quase em Português.

Fuga de Morte (Todesfugue)

Paul Celan

Leite negro da manhã bebemos ao cair da tarde
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos céus onde o espaço sobra
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando cai a noite nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
escreve e sai da casa e as estrelas todas chamejam
e assobia chamando os seus cães
e assobia chamando os seus judeus faz-nos abrir uma vala na areia
manda-nos tocar para a dança

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos de madrugada e ao meio-dia bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando a noite cai nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite cavamos uma sepultura nos céus
onde o espaço sobra

Ele grita vocês aí cavem fundo a terra destinada e os outros cantem e toquem
ele puxa a espada que traz à cinta agita-a e os seus olhos são azuis
empurrem as pás mais fundo vocês aí e os outros que continuem
a tocar para a dança

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite ele cultiva serpentes

Toquem mais doce a música da morte grita ele Morte é um capataz
aus Deutschland
ele grita arranhem mais negro esse violino e depois flutuem como fumo
nos ares
depois cavem uma sepultura nas nuvens onde o espaço sobra

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia Morte é um capataz aus Deutschland
bebemos ao entardecer e pela madrugada bebemos e bebemos
Morte é um capataz aus Deutschland o seu olho é azul
dá-te tiros com balas de chumbo a sua pontaria certeira
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margarete
atiça os seus cães contra nós dá-nos uma sepultura nos céus
cultiva serpentes e sonha Morte é um capataz aus
Deutschland

o teu cabelo de ouro Margareta
o teu cabelo cinza Shulamite

Paul Celan (1920-1970), pseudónimo do poeta Paul Antschel. Judeu romeno.

Traduzido para português com a ajuda preciosa da tradução inglesa da autoria de Jerome Rothenberg, in Paul Celan: Selections, editado por Pierre Joris, University of California Press 2005.

Em memória da Noite de Cristal (Kristallnacht), o pogrom de 9 e 10 de Novembro de 1938 que abriu caminho para o Holocausto.

Canção pela paz

Poema de Yaakov Rotblit

Para ouvir:
Shir La’Shalom (Canção pela Paz) – Miri Aloni

Shalom Haver (Adeus Companheiro) – Arik Einstein

Deixa o sol nascer
E a manhã oferecer a sua luz,
A força da mais pura oração
Não nos trará de volta.
Aquele cuja vela foi apagada,
E foi levado pelo vento,
Uma lágrima amarga não o acordará
E não o trará de volta.
Ninguém nos traz de volta
Da morte ou do sofrimento
Aqui, nem a vitória nos serve.
Nem cantos de salvação nem uma oração
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos

Deixa o sol entranhar as flores,
Não olhes para trás,
Deixa os que partiram.
Enche os olhos de esperança
E não apenas de intenção
Canta uma canção de amor,
E não uma canção de guerras.
Não digas apenas que o dia virá
Traz esse dia,
Porque não é apenas um sonho.
E em todas as praças da cidade
Aclamem a paz.
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos.

Poema de Yaakov Rotblit.

Na noite de 4 de Novembro de 1995, há exactamente 10 anos, minutos depois de cantar esta canção num comício pela paz na praça de Tel Aviv que hoje tem o seu nome, Yitzhak Rabin era assassinado. O papel com a letra da Canção pela Paz, que guardara no bolso do casaco, ficaria manchado com o seu sangue.

Estatísticas

Yehuda Amichai

Por cada homem enfurecido há sempre
dois ou três que o acalmam com palmadinhas nas costas,
por cada chorão, muitos mais limpadores de lágrimas,
por cada homem feliz, uma profusão de infelizes
a querer aquecer-se no calor da sua alegria.

E todas as noites pelo menos um homem
não consegue encontrar o caminho de casa
ou a sua casa mudou-se para outro lugar
e ele vagueia pelas ruas,
supérfluo.

Uma vez estava com o meu filho pequeno na estação
e um autocarro vazio passou por nós. O meu filho disse:
“Olha, um autocarro cheio de gente vazia.”

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Mazel Tov Mr. Pinter!

Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?


Harold Pinter fotografado por Chris Saunders.

O dramaturgo britânico Harold Pinter venceu o Prémio Nobel da Literatura, tornando-se o 13o judeu a ganhar o Nobel nesta categoria, sucedendo à escritora judia austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do prémio em 2004.

::ADENDA::
Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?
Esta questão, levantada, entre outros, por Jorge Palinhos (ver BdE – Blogue de Esquerda (II): O Pinto Nobelizado), não tem uma resposta fácil. Pinter acredita que o seu nome de família resulta da anglicização de “Pinto” (ou “Pinta”), um sobrenome generalizado entre as famílias de judeus portugueses da Diáspora (ver JewishEncyclopedia– Pinto Jewish Family Name, Ancestry.com – Pinter e Wikipédia – Isaac de Pinto). Na verdade, era bastante comum aos judeus portugueses emigrados alterar o nome de família como forma de melhor se integrarem nos países de acolhimentos – em França, os descendentes do pedagogo Jacob Rodrigues Pereira, por exemplo, chamam-se hoje “Pereire”, enquanto o ramo americano da mesma família optou por “Perera” (ver National Foundation for Jewish Culture: On Being Sephardic: The Children of the Diaspora, by Victor Perera).
Por outro lado, sabe-se que os judeus portugueses são responsáveis pelo restabelecimento da comunidade judaica em Inglaterra, depois do rabino Menasseh ben Israel (Manuel Dias Soeiro) ter negociado com Oliver Cromwell, no século XVII, a revogação do decreto de expulsão de 1290. Foram os judeus portugueses os primeiros a chegar a Londres (ver JewishEncyclopedia – Bevis Marks Synagogue). Sabe-se também que existiam vários “Pintos” entes estes pioneiros – o rabino português Joseph Jesurun Pinto (1565-1648), por exemplo, viveu em Londres grande parte da sua vida.
A eventual descendência portuguesa de Harold Pinter virá por parte do pai, Jack Haim Pinter, uma vez que a família da mãe, Frances Moskowitz, tem raízes nas comunidades judaicas da Polónia e Ucrânia. Mesmo assim, sem mais elementos factuais – a não ser a palavra do próprio Harold Pinter – é difícil traçar com certezas a sua mais do que provável ancestralidade judaica portuguesa. A pista final é dada pelo facto do pai de Harold Pinter ser sefardita e da esmagadora maioria dos judeus sefarditas britânicos descenderem de judeus portugueses. (Ver ainda New York Times – Harold Pinter.)
Quanto à importância que o facto de ter nascido judeu teve na formação de Pinter, a sua biografia no site oficial da Academia Sueca parece não deixar dúvidas: “Crescendo [em Londres], Pinter foi confrontado com expressões de antisemitismo que, segundo ele próprio indica, foram importantes na sua decisão de tornar-se dramaturgo.”

Yom Kippur

N.G.
Los Angeles, 9 de Tishri de 5766 (12 de Outubro de 2005)

Perdoa-me
A insensatez,
A inércia,
As palavras ditas,
As palavras caladas,
A falta de coragem,
A irritação,
A raiva,
A falta de raiva.

Perdoa-me
O dilúvio e a aridez.
Perdoa-me
O calor e o gelo.
Perdoa-me
O ruído e os silêncios.

Perdoa-me
Não ter conseguido ser
Nem mais nem menos
do que eu próprio.
Perdoa-me
Tudo.
Perdoa-me
O sopro,
A respiração,
A vida.

N.G.
Los Angeles, 9 de Tishri de 5766 (12 de Outubro de 2005)

Poemas à Moda da Antologia Grega

Nissim Ezekiel

I
Dos 20 anos aos 30
Ela esperou apaixonadamente por um amante.
Dos 30 aos 40
Tentou diligentemente apanhar um.
Agora é conhecida
Como a virgem viva
Do Centro Nacional de Artes Dramáticas.

II
Ele consagrou a vida à defesa da liberdade.
Todos os que com ele trabalhavam
se ressentiam do seu feitio autoritário.

IX
Ela anunciava-se como pintora,
Incessantemente,
Até ficar conhecida
Pela alcunha de “Eu-sou-pintora”.
Agora que morreu
Enlutam-se os seus amantes,
Aqueles que ficaram em silêncio
Quando ela falava de arte.

X
Porque dizem tantos desses
Poetas de antologias gregas
Que é melhor não nascer
E nascendo, é melhor morrer cedo?

Eu discordo.
É melhor nascer,
E nascendo,
Escrever versos dizendo
Que é melhor não nascer.
Ter uma vida longa
E escrever versos dizendo
Que é melhor morrer cedo.
Porque se não nascemos,
Que podemos dizer?
E se morremos cedo,
Como aprendemos a dize-lo bem?

Nissim Ezekiel (1924-2004), poeta, dramaturgo e critico de arte. Judeu indiano nascido em Bombaim.

Sinais…

Sami Michael, escritor israelita, nomeado para o Nobel da literature por um académico palestiniano.


Sami Michael, israelita, nomeado para o Nobel da literature por um académico palestiniano

Ahmed Harb, escritor, crítico literário e catedrático palestiniano de Ramallah, propôs oficialmente a nomeação do escritor israelita Sami Michael para o Nobel da Literatura (ver Palestinian writer nominates Sami Michael for Nobel Prize.) Em entrevista ao diário Haaretz, Ahmed Harb diz ter ficado “profundamente impressionado com a escrita de Sami Michael” que, na sua opinião, tem influenciado não só leitores israelitas mas também palestinianos e árabes a compreender o destino que partilham no Médio Oriente. “Com os seus romances, lavrados por um mestre, Sami Michael granjeou uma audiência israelita, palestiniana e internacional. Como escritor palestiniano tenho a honra de recomendar calorosamente Sami Michael para o Nobel da Literatura”, escreveu o professor Ahmed Harb na carta enviada à Academia de Estocolmo. Ainda na entrevista ao Haaretz, Harb adianta: “Para mim, a literatura está acima de qualquer conflito, por mais difícil e complexo que seja. Talvez seja apropriado encarar a minha carta como uma missiva de paz para ambos os lados.”
Confrontado com a sua nomeação para o Nobel feita pelo académico palestiniano, Sami mostrou-se profundamente comovido: “Apetece-me beijá-lo. Ele está a tomar um risco enorme ao fazer esta recomendação. Seres humanos generosos como Harb são a mais importante indicação de que temos aliados do outro lado.”
Judeu nascido em Bagdade, no Iraque, em 1926, Sami Michael é um dos mais conceituados escritores israelitas da actualidade, ao lado de Amos Oz, David Grossman e A.B. Yehoshua – um grupo no qual se integra também no que diz respeito às opções políticas. Na sua obra confluem inevitáveis influências judaicas e árabes, reflectindo as condicionantes da sua própria vida.
Sami fugiu do Iraque para o Irão em 1948, após a polícia secreta ter descoberto o seu envolvimento num grupo de resistência clandestino. Um ano depois, quando o governo iraniano se preparava para o extraditar para Bagdade, Sami consegue escapar para Israel, onde vive desde então. Após cumprir o serviço militar, começou a trabalhar para um semanário árabe de Haifa, onde escrevia a quase totalidade da secção literária. Durante 25 anos trabalhou para o Ministério israelita da Agricultura, fazendo prospecção de reservas naturais de água junto da fronteira com a Síria. Sami Michael estudou literatura árabe e psicologia na Universidade de Haifa e recebeu um doutoramento honorário da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ao todo, escreveu 11 romances em árabe e hebraico – o primeiro dos quais publicado em 1973 –, abordando em todos eles complexas relações interligadas entre judeus e árabes, cristãos e muçulmanos, nacionalistas e comunistas, homens e mulheres, em Bagdade e em Israel.
Politicamente, Sami Michael identifica-se com a ala esquerda do Partido Trabalhista e há décadas que juntou a voz ao grupo de intelectuais israelitas no movimento pela paz. Infelizmente, nenhum dos seus romances foi ainda traduzido para português.

::A LER:: World Conference on Culture at Stockholm – 1998 – The Wish of the Three Prophets, a paper by Sami Michael / Writing for a Jewish Future: About Sami Michael / The outsider — Baghdad-born writer Sami Michael a living conduit between Israel’s Arabs and Jews.

Sem Título

Emmanuel Moses

Em 1965 ou 66
no College Sevigné
eles não gostavam de judeus
mas eu gostava de Bianca
a filha do veterinário
tão católica
quanto eu era judeu
apertava-a com força
antes de adormecer
criança-súcuba
que me tirou a bebida e a comida
ninguém compreendia nada
pensavam que estava doente
e de facto
eu estava doente
tal como nos contos de outros tempos
nenhuma poção
nenhum médico
podia fazer nada por mim.

Emmanuel Moses, poeta israelita contemporâneo. Judeu marroquino.
Poema do livro Le Present (1999).

A estalagem

Emmanuel Moses

Um pouco de vinho
nesta ferida funda
que abre à noite
quando carros buzinam lá fora
e pedestres riem
gritando uns para os outros
animados por uma alegria
incompreensível àquele
que os vê por detrás das persianas.

Ele sonha acordado, subitamente na lua,
com a mulher que conheceu dois dias antes
e murmura o seu límpido nome
para o ouvir espalhado pelo quarto.

Sofrimento vem de outro lado,
que importa se é reflectido
em cada palavra
que ele aprendeu um certo número de
coisas
ajudado pela velhice,
especialmente que é necessário amar
quem está connosco, quem vem antes
e espera por nós,
sentado na estalagem nocturna.

Emmanuel Moses, poeta israelita contemporâneo. Judeu marroquino.
Poema do livro Dernières nouvelles de monsieur néant. Moses é casado com a escritora judia alemã Gila Lustiger.

Spinoza

Jorge Luis Borges

As translúcidas mãos do judeu
Lavram na penumbra os cristais
E a tarde que morre é medo e frio.
(As tardes à tarde são todas iguais.)
As mãos e o espaço de jacinto
Que empalidece no confim do Gueto
Quase não existem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.
Não o perturba a fama, esse reflexo
De sonhos no sonho de outro espelho,
Nem o temeroso amor das donzelas.
Livre da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa d’ Aquele que é todas as Suas estrelas.

Jorge Luis Borges
in El Outro, el Mismo (1964)

Ein Yahav

Yehuda Amichai


O deserto de Arava, Israel. Foto de Dan “Mobius” Sieradski, via Orthodox Anarchist.

Uma viagem nocturna de carro até Ein Yahav, no deserto de Arava,
Uma viagem à chuva. Sim, à chuva.
Ali conheci gente que cultiva tamareiras,
ali vi arbustos de tamarisco e arbustos de risco,
ali vi esperança farpada como arame farpado.
E disse a mim mesmo: É verdade, a esperança precisa ser
como arame farpado para afastar o desespero,
a esperança tem de ser um campo minado.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.