Le Salut par les Juifs

Os judeus deixam sempre
um lugar a mais na mesa,
à espera. Os judeus perderam
as razões para esperar e esperam.

Os judeus sabem que há
um sentido não-escrito
das palavras. Os judeus não dizem
directamente o nome santo.

Os judeu rasgam as vestes
e tapam os espelhos. Os judeus
nunca deixam de ser judeus.
Ainda mereceremos ser judeus.

Pedro Mexia (poema inédito)

::Nota:: Este é o primeiro de uma série de poemas inéditos sobre temas judaicos da autoria de poetas portugueses que em breve serão reunidos em livro, numa antologia organizada por Francisco José Viegas para assinalar o centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá de Lisboa. Poemas de José Augusto Mourão, Abel Neves, João Luís Barreto Guimarães, Francisco José Viegas, Nuno Júdice, Pedro Mexia, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura e José Luís Peixoto vão passar aqui pela Rua da Judiaria. Fiquem atentos.

Luto

E houve grande lamentação
por toda a terra de Israel, em todos os lugares:
Chefes e anciões gemeram,
rapazes e moças perderam o seu vigor,
e amorteceu a beleza das mulheres.
Os recém-casados entoaram cânticos fúnebres
e a noiva ficou de luto no seu quarto de casal.
A terra tremeu por causa dos seus habitantes,
e toda a família de Jacob se cobriu de vergonha.

Judá, século II Antes da Era Comum, I Macabeus, 1;25-28.

A Noite dos Poetas Assassinados

Morte Russa

Morte russa
É todas as mortes.

Dor russa
É todas as dores.

Como está agora o coração do mundo?
E a sua ferida purulenta?

Pergunta a uma criança.
Pergunta a uma criança judia.

Leyb Kvitko, 1919

[a partir da tradução do Yiddish original para o inglês, da autoria de Zackary Sholem Berger]

Pelo menos 15 escritores e poetas judeus russos de língua Yiddish foram executados por ordem de Stalin a 12 de Agosto de 1952, nos calabouços da infame prisão da praça Lubyanka, entre eles Peretz Markish, Leyb Kvitko, Dovid Hofshteyn, Itsik Fefer, Dovid Bergelson e Der Nister.

(via Zackary Sholem Berger )

100 anos de Neruda

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.”

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche esta estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque este sea el ultimo dolor que ella me causa,
y estos sean los ultimos versos que yo le escribo.

in “Veinte Poemas de Amor” (1924)

Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto (12 de Julho de 1904 – 23 de Setembro de 1973), poeta chileno de origem judaica, conhecido como Pablo Neruda, o pseudónimo que escolheu como homenagem ao poeta checo Jan Neruda.

Um poema para um país em crise

A Verdade Morreu

A Verdade morreu
Não se estima a piedade,
A infâmia e o erro
São fortes e poderosos,
Não há quem busque ser
Virtuoso e humilde,
E o respeito de Deus
Foi esquecido.
Ninguém sente desgraça
Em ser pedinte,
Grande é a vergonha,
As almas são pequenas face à culpa.
Em vez de amigos
Há inimigos.
Na companhia
Há inveja,
E amor fraternal
É um engano.
Honra
Não mais existe.
Dinheiro é a Palavra –
E quem o tem é senhor.
Todos fazem dele discussão.
Meu Deus, o que será de nós!

Ulma Seligman (séculos XVI e XVII), poeta judeu alemão. Poema extraído do livro “Der Zuchtspiegel” (O Espelho da Virtude), publicado em 1610.
[N.T. –Traduzido para português com base na tradução do yiddish original para o hebraico feita por Joseph Leftwich.]

Pouca Sorte

Planeta aziago por certo
governava os céus quando nasci –
Almejei fama e fortuna
Só tenho ruína e desdém.

Um destino perverso segue meus passos
com incansável maldade cruel;
Vendesse eu lanternas e velas,
Toda a noite o sol haveria de brilhar.

Não posso, não consigo, prosperar
Não importa o quanto tento –
Fosse meu negócio mortalhas vender
Homem nenhum haveria de morrer!

Abraham ibn Ezra (1092 – 1167), poeta e filósofo, judeu de Toledo.

Violino de Palmo e Meio

Sento-me no jardim onde brinquei em criança.
A criança brinca ainda na areia. As suas mãos fazem ainda
pat-pat, depois cavam a destroem,
depois outra vez pat-pat.

Entre as árvores a pequena casa está ainda de pé
onde a alta voltagem zumbe e ameaça.
Na porta de ferro a caveira é
outra conhecida de infância.

Quando tinha nove anos deram-me
um violino de palmo e meio
e palmo e meio de emoções.

Às vezes sou ainda assaltado por orgulho
e alegria: Já me sei vestir e despir
sozinho.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Ilustração: “Violin on Wall”, óleo sobre tela de Alexandre Zlotnik.

Em Memória de Sophia (1919-2004)

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

João Pinto Delgado, Poeta Marrano

Apesar de virtualmente desconhecido e ignorado em Portugal, João Pinto Delgado é considerado o maior poeta marrano* do século XVII – equiparado a Luis de León, Garcilaso de la Vega e outros nomes grandes da Época Dourada. Nascido em Portimão, em 1580 – o ano provável da morte de Luís de Camões –, era o mais velho dos três filhos de Gonçalo Delgado e neto de um poeta menor igualmente chamado João Pinto Delgado – com quem seria muitas vezes confundido. Aos 20 anos deixa o Algarve e muda-se com a família para Lisboa, com o objectivo de estudar e prosseguir as suas ambições literárias. É na capital – entretanto já sob o domínio espanhol da dinastia Filipina – que toma contacto pela primeira vez com as obras de Jorge Manrique, Garcilaso, Herrera, Góngora e Luis de León, que na época circulavam sob a forma de manuscritos. Apesar de existirem alguns poemas seus em português, o grosso da sua obra foi originalmente escrito em espanhol.
Em 1624, João Pinto Delgado parte para Ruão para se juntar aos seus pais, que entretanto tinham escapado à Inquisição portuguesa. É nesta cidade francesa – onde o seu pai é um dos líderes da comunidade marrana ibérica ali radicada – que publica uma colecção de poemas que viria a cimentar a sua reputação literária: Poema de la Reyna Ester. Lamentaciones del Profeta Ieremias. Historia de Rut, y varias Poesias.
Pouco depois da Inquisição espanhola ter enviado um emissário a Ruão para investigar os cripto-judeus em França, a família de João Pinto Delgado parte para Antuérpia e logo a seguir para Amsterdão. Aqui, perante a relativa tolerância religiosa holandesa, passa a praticar o judaísmo de forma aberta e livre pela primeira vez, e João passa a chamar-se Moshe (Moisés) Pinto Delgado. Entre 1636 e 1640 torna-se um dos sete parnasim (governadores) da Yeshiva (seminário religioso) Talmude Torá de Amsterdão, onde na altura estudava o pequeno Baruch (Bento) Spinoza.
Na sua obra poética, João Pinto Delgado busca os seus temas frequentemente na Bíblia Hebraica, uma tendência que partilha com os poetas marranos da época. Tem uma atracção particular por histórias que relatam o poder de Deus para resgatar Israel em tempos de sofrimento, tal como o demonstram as narrativas de Ester e do Êxodo, ambos por ele adaptadas poeticamente.
Em Lamentaciones del Profeta Ieremias, João Pinto Delgado discorre sobre as tragédias da história de Israel, apresentando a visão de que o povo é responsável pelo seu sofrimento por ter falhado aderir por completo à Lei de Moisés. Este é um tema recorrente da literatura marrana, derivado em grande medida de sentimento de culpa em relação à sua própria observância religiosa judaica, disfarçada sob a falsa capa do omnipresente catolicismo.
Na poesia de João Pinto Delgado transparece a sua noção de que a Inquisição seria um instrumento de Deus para trazer os marranos de volta ao judaísmo, acordando neles a firme noção das suas origens. João Pinto Delgado morreu em Amsterdão, a 23 de Dezembro de 1653.

Publica-se hoje aqui na Rua da Judiaria a primeira de três partes de La Salida de Lisboa, um dos raros poemas autobiográficos de João Pinto Delgado, retirado de um manuscrito da colecção Etz Haim, de Amsterdão, publicado pela primeira vez por pelo historiador I.S. Révah no artigo “Autobiographie d’un Marrane” (Revue des Études Juives, 1961).

*Marrano é o termo pelo qual habitualmente se designam os judeus portugueses e espanhóis (e os seus descendentes) forçados a converter-se ao catolicismo para salvar as suas vidas. Durante séculos, o termo foi considerado pejorativo, acreditando-se que derivava da palavra espanhola para porco (marrã em português arcaico). No entanto, actualmente existe uma corrente de linguistas e historiadores que defendem uma outra proveniência para o termo: marrano terá surgido da contracção das palavras hebraicas márr (amargo) e anússe (forçado). Assim, marranos quererá dizer “aqueles forçados à amargura”. Na liturgia da Páscoa Judaica, por exemplo, são utilizadas “ervas amargas” (márrór), para recordar a amargura da escravidão no Egipto. Em hebraico, os marranos são simplesmente designados como anussim – os forçados.
Entre os mais célebres marranos portugueses sobressai, obviamente, o nome de Baruch (Bento) Spinoza (ver Benedict De Spinoza [Internet Encyclopedia of Philosophy]).

La Salida de Lisboa (Parte I)

Aquí está la infame puerta,
la del olivo y la espada,
Para salir tan cerrada,
Y para entrar tan abierta.

Si en ti la paz se destierra,
no eres del ramo capaz,
Porque uno promete paz
y el outro la guerra.

Recoge, o nave, a Sodoma;
sólo a su cómplice embarca,
que, como no eres el Arca,
no hay que esperar la paloma.

Mancha tu cuchillo fiero
y queda pendiente aquí:
quedará la insignia en ti
como blasón verdadero.

Y tú, el más fiero león,
que matas quien no te ofende,
por mano de quien te entiende
tendrás la satisfacción.

Y aunque nace tu alegría
viendo a tantos perecer,
si a muchos lo hiciste ver,
también has de ver tu dia.

Si nuestro pecado obliga
a sufrir tanto rigor,
considera que el Señor,
si disimula, castiga.

Si parece que se olvida
de castigar su enemigo,
es sólo porque el castigo
ha de ser más que en la vida.

Porque el cielo más se indine,
fabricaste tu palacio
donde diste um breve espacio
para que el cuerpo se incline.

La doncella, entre el tormento,
estando en la vida incierta,
medio viva e medio muerta,
responde a tu pensamiento.

Y entre penas y entre engaños,
su temor no perdonó
al padre que la engendró,
cuanto y más a los extraños.

Niegas la vida a quein niega,
y el que confiessa y se olvida,
si ver remedio, su vida
entre las llamas entrega.

No basta ver que sudó
el pobre com lo que vives,
pues lo que ganó recibes
e coges lo que él sembró.

João Pinto Delgado (1580-1653)
(Continua…)

Jorge Luis Borges

(24 de agosto de 1899 – 14 de junho de 1986)

Borges

É impossível reduzir o labirinto de Borges a um caminho de sentido único. Ainda assim, aqui na Rua da Judiaria, dois dias depois do aniversário da sua morte, presta-se homenagem ao “judaísmo borgeano”, uma das mais fascinantes faces dos seus espelhos múltiplos. Filosemita assumido, estudioso apaixonado da Cabalá e do misticismo judaico, Jorge Luís Borges suspeitava ser descendente de judeus portugueses convertidos pela força ao catolicismo. Morreu sem nunca conseguir provar essa ligação de sangue, mas o judaísmo e os judeus seriam um tema recorrente ao longo de toda a sua obra. No poema Los Borges, o poeta e escritor argentino explora a sua provável obscura origem marrana portuguesa, enleando-a no mito sebastianista, ele próprio alimentado pelo sentimento messiânico dos judeus lusitanos dos séculos XVI e XVII:

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente

que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente

y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.

Em 1934, a sua identificação com o povo judeu transforma-o num alvo fácil para o crescente antisemitismo argentino. Nesse ano, o periódico católico Crisol, num texto profundamente antisemita, imputa a Jorge Luis Borges uma “ascendência judaica, maliciosamente oculta, mas mal dissimulada”. Ao ataque, Borges responde com elegância e humor nas páginas da revista Megáfono, de Buenos Aires, a 12 de Abril de 1934, num artigo intitulado “Yo, Judío” (“Eu, Judeu”).

No lo merezco. He hecho lo mejor que pude para ser un judío. Pude haber fracasado. Si pertenecemos a la civilización occidental, entonces todos nosotros, a pesar de las muchas aventuras de la sangre, somos griegos y judíos. Muchas veces me pienso judío pero me pregunto si tengo el derecho de hacerlo.

Dois anos antes, recém regressado de Espanha, em Agosto de 1932, Jorge Luis Borges defendera a comunidade judaica argentina contra um crescendo de ataques veiculados pela imprensa nacionalista católica. Um manifesto da Legión Cívica Argentina, publicado no Crisol, e assinado pelo tenente-coronel Juan Molina, enumerava os “perigos” que ameaçavam o país: “o socialismo, o comunismo, o anarquismo e o judaísmo.” Borges riposta nas páginas do Mundo Israelita, a 27 de Agosto de 1932:

Ciertos desagradecidos católicos –léase personas afiliadas a la Iglesia de Roma, que es una secta disidente israelita servida por un personal italiano, que atiende al público los días feriados y domingos – quieren introducir en esta plaza una tenebrosa doctrina, de confesado origen alemán, rutenio, ruso, polonés, valaco y moldavo. Basta la sola enunciación de ese rosario lóbrego para que el alarmado argentino pueda apreciar toda la gravedad del complot. Por cierto que se trata de un producto más deletéreo y mucho menos gratuito que el DUMPING. Se trata –soltemos de una vez la palabra obscena– del Antisemitismo. Quienes recomiendan su empleo suelen culpar a los judíos, a todos, de la crucifixión de Jesús. Olvidan que su propia fe ha declarado que la cruz operó nuestra redención. Olvidan que inculpar a los judíos equivale a inculpar a los vertebrados, o aun a los mamíferos. Olvidan que cuando Jesucristo quiso ser hombre, prefirió ser judío, y que NO eligió ser francés ni siquiera porteño, ni vivir en el año 1932 después de Jesucristo para suscribirse por un año a LE ROSEAU D’OR. Olvidan que Jesús, ciertamente, no fue un judío converso. La basílica de Luján, para El, hubiera sido tan indescifrable espectáculo como un calentador a gas o un antisemita… Borrajeo con evidente prisa esta nota. En ella no quiero omitir, sin embargo, que instigar odios me parece una tristísima actividad y que hay proyectos edilicios mejores que la delicada reconstrucción, balazo a balazo, de nuestra Semana de Enero, aunque nos quieran sobornar con la vista de la enrojecida calle Junín, hecha una sola llama.”

O escritor que, em 1949, escolhera o nome da primeira letra do alfabeto hebraico (א) para título do seu segundo livro de contos, El Aleph, manteve até ao fim da vida uma íntima relação afectiva e intelectual com o judaísmo, os judeus e Israel.

ISRAEL

Un hombre encarcelado y hechizado
un hombre condenado a ser serpiente
que guarda un oro infame,
un hombre condenado a ser Shylok,
un hombre que se inclina sobre la tierra
y sabe que estuvo en el Paraíso,
un hombre viejo y ciego que ha de romper
las columnas del templo,
un rostro condenado a ser una máscara,
un hombre que a pesar de los hombres
es Spinoza y el Baal Shem y los Cabalistas,
un hombre que es el Libro,
un hombre que alaba desde el abismo
la justicia del firmamento,
un procurador o un dentista
que dialogó con Dios en una montaña,
un hombre condenado a ser el escarnio,
la abominación, el judío,
un hombre lapidado, incendiado
y ahogado en cámaras letales,
un hombre que se obstina en ser inmortal
y que ahora ha vuelto a su batalla,
a la violenta luz de la victoria,
hermoso como un león al mediodía

Jorge Luis Borges

::A LER:: Algunos Pareceres de Nietzsche, Jorge Luis Borges / Borges Sobre Spinoza / Marcelo Abadi: Spinoza in Borges / Borges Studies on Line, by the J. L. Borges Center for Studies & Documentation / JUDEIDAD Y BORGES / Borges, judío – Moshe Korin / FORWARD : Why Jorge Luis Borges Wished He Was an ‘Israelite’ / Carlos Garcia: Borges y Orígenes / Algunas reflexiones sobre el “judaísmo” de Borges” – Mario Goloboff / BORGES, ARGENTINO UNIVERSAL – José Isaacson / Borges oral (entrevista com Bernard Pivot) / Charlas con Borges / Jorge Luis Borges, Emma Zunz, in El Aleph, 1949 / A Israel (outro poema de Borges dedicado a Israel, traduzido para português).

Um imenso obrigado à Ana Albergaria, autora do blog Crónicas Matinais, pela lembrança do aniversário da morte de Borges, aqui recordado com dois dias de atraso.

Porque é Dia de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela,
mas não servia ao pai, servia a ela,
que ela só por prémio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor com que enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida;
começou a servir outros sete anos
dizendo: mais servira se não fora
para tão longo amor, tão curta a vida.

Luís Vaz de Camões, um soneto “judaico”, inevitavelmente de amor, inspirado na história de Jacob, patriarca hebreu.

Escrevo em Hebraico

Escrevo em hebraico,
que não é a minha língua materna,
para me perder no mundo. Aquele que
não se perde, nunca encontrará o todo.
Porque todos têm os mesmos dedos dos pés.
O dedo grande da esquerda
perto do calcanhar direito.

Às vezes escrevo em hebraico
para arrefecer o sangue que brota
incessantemente do meu coração.
Sempre foi assim.
Há muitos tesouros
no cofre que construí no meu peito.
Mas as cores da noite embutida
nas paredes expostas, escorrem
sem nunca saber o que é
toda esta maravilha.

E escrevo em hebraico, para
me perder nas minhas palavras
e para encontrar interesse
nos meus passos.
Não parei de andar. Muito caminhos
se viajaram. Gravados pelas minhas mãos.
Porei os pés ao caminho
e encontrarei muita gente. E todos serão
meus amigos. Quem é estrangeiro?
Quem está perto, quem está longe?
Não há estranheza nas coisas do mundo.
Porque a estranheza, muitas vezes,
Descansa no coração dos homens.

Salman Masalha, poeta árabe israelita contemporâneo.

::A LER:: Salman Masalha: Biography / Salman Masalha interview – Israeli Arab Intellectual and Poet on Illiteracy in the Arab World.

Não como um Cipreste

Não como um cipreste,
não todos ao mesmo tempo, não todo de mim,
mas como a erva, em milhares de cautelosos fios verdes,
escondidos como muitas crianças
enquanto outra as procura.

E não como o homem só,
como Saul, que a multidão encontrou
e fez rei.

Mas como a chuva em muitos lugares,
de muitas nuvens, para ser absorvida, para ser bebida
por muitas bocas, para ser respirada
como o ar de todo o ano
e espalhada como rebentos de primavera.

Não a campainha aguda que acorda
o médico guardando o paciente,
mas o toque leve, em muitas pequenas janelas,
com o bater de muitos corações.

E depois da suave saída, como fumo
sem o som estridente do shofar, um estadista demite-se,
crianças cansam-se de brincar,
uma pedra pára de rolar
numa inclinada colina, no lugar
onde começa a planície das grande renúncias,
de onde, como orações respondidas,
se levanta poeira numa miríade de grãos.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

De Clemencia

Levántese la veda.
Proclámese la perfectibilidad del número ocho.
Convóquense cuatro parejas de recientes antepasados
al pie del tabernáculo.
Alcen la vista.
Llámenme que vendré de la veda vendré
de la risa dando vueltas (tiovivo) número ocho.
Den orden de presencias en este instante preciso
la bruma se alce transverbere la llamarada
los gorriones anuncien la llegada del
Arcángel estén al fiel las balanzas.
Campanilla de plata (dos) cedro del Líbano
la taracea cortina de terciopelo escarlata en oro
la sagrada inscripción: alcen las cuatro parejas
inmaculadas la voz.
Edad: treinta y cinco años. El Berith.
Una tiara de catarinas gualda rubí en la frente.
Vestidos estampados. Pantalón negro camisa
blanca de algodón botones de nácar. Los
rostros cera alabastro ocho pares de ojos zarcos.
Jerusalén.
Jerusalén Celeste.
Doce veces del subsuelo peldaños labrados
(saron) (Toráh) a las alturas Jerusalén Celeste.
A Jerusalén la Magnífica invocad al unísono
ojos en alto enajenados a toda condición:
en devoción una (única) los rostros cubiertos
(tapad) (tapad) manto de las devociones:
adentro la mirada en alto asidos a la gargantilla
(zafiros) zarcillos (ópalos) alianzas (platino):
inscripción del nombre sagrado del ignoto
nombre.
Parajes.
Puerta una (única) el borbotón instantáneo de la luz.
Treinta y cinco años.
En los parajes convocados a la intemperie creced
a la muerte corresponded a la muerte
labrad de la oscura letra inerte la ignota letra
del ignoto nombre.
Alabad alabad el Desconocimiento.
Salmos de oscuridad. Responde el progenitor. Acata acata acata.
Su esclavitud somete
al estiércol. Árbitro del Universo, acata. Blanca
doncella de banquetes pestilentes lo convoca.
Es momentáneo (instantáneo): nec metu.
Yo soy el hijo saltimbanqui (congregado).
Abro la boca (canto) (bailo) de Sidón al Tabor
a las llanuras de Sarón a Jerusalén.
Celeste Jerusalén.
A Jerusalén la Magnífica invoco
pasto de llamas verdugones enrarecido aliento
ojos pitañosos la cáscara
del rostro de gorriones
picoteada.
Soy el noveno de hinojos, en la hilera
(arrecife poroso el esqueleto): calvo mantillo
avispero celdilla hormiguero sudario azul.
Carne lechal.

José Kozer, poeta, judeu cubano, vencedor do Prémio Gulbenkian de Poesia em 1967.