Diálogos Inter-Religiosos, Parte II – Os Conceitos de Julgamento e Vida Depois da Morte

Reposta ao Guia dos Perplexos

Nesta segunda parte (a primeira [O Conceito de Messias no Judaísmo] pode ser encontrada aqui), vou tentar estabelecer as diferenças fundamentais que separam as visões cristã e judaica em relação às noções de julgamento e vida após a morte. Mais uma vez, peço desculpa aos meus leitores menos dados a estas coisas das religiões comparadas, e questões doutrinárias, pela dimensão deste post – neste caso a expressão correcta nem será post, mas provavelmente estopada . Para os outros, aqui vai a tentativa de resposta às excelentes questões colocadas pelo post do Guia dos Perplexos.
No cristianismo em geral, e no catolicismo em particular, (peço ao José que me corrija caso esteja errado) as doutrinas do “pecado original” e da “corrupção da carne” concluem que o homem é incapaz de se livrar sozinho da sua inexorável bagagem de culpa. Esta desconfiança em relação ao que no judaísmo é descrito como “esforço ético” induz inevitavelmente os cristãos a duvidarem da eficácia do arrependimento enquanto forma única de reconciliação do “pecador” com Deus. Na exegese cristã, o homem está de tal forma imerso em culpa, na sua e na transmitida pelos pecados hereditários da Humanidade, que não existe para ele esperança de poder escapar à perdição sem a assistência da “graça”. No cristianismo essa “graça” é fornecida pelo sacrifício de Jesus, que “expiou os pecados da Humanidade”, segundo o dogma cristão, funcionando tecnicamente como uma “expiação a terceiros”.
A noção de “expiação indirecta”, isto é, o pagamento da punição não por aquele que transgride mas por um substituto, não existe no judaísmo – onde o sentido de justiça é tido como pedra basilar da harmonia do Universo. Na visão judaica, é perfeitamente injusto o sacrifício de uma pessoa inocente em nome das transgressões de outros. É injusto porque a justiça implica que sejam os transgressores a sofrer as consequências da transgressão.
A Torá (os cinco livros de Moisés que abrem o chamado Antigo Testamento) está recheada de exemplos disso mesmo. Quando o Criador ameaça punir aqueles que adoraram o bezerro de ouro, Moisés pede a Deus para ser ele a sofrer o castigo em nome do povo:

E aconteceu que, no dia seguinte, Moisés disse ao povo: Vós pecastes grande pecado; agora, porém, subirei ao Senhor; porventura farei propiciação pelo vosso pecado. Assim, tornou Moisés ao Senhor e disse: Ora, este povo pecou pecado grande, fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa o seu pecado, se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito.” (Shemót, Êxodo 32:30 a 32)

A este pedido de “expiação indirecta” de Moisés, a resposta de Deus não podia ser mais clara:

Então disse o Senhor a Moisés: Aquele que pecar contra mim, a este riscarei eu do meu livro.” (Shemót, Êxodo 32:30 a 32)

Na prática, esta resposta assenta num princípio simples – Moisés não pode pagar pelas transgressões do povo de Israel porque apenas aqueles que transgridem têm o dever (e obrigação) de acarretar as consequências. A justiça requer que “aquele que pecar” pague o preço justo das suas próprias acções. Convém aqui salvaguardar que esta punição, no judaísmo, é o resultado lógico de princípios de causa e efeito idênticos aos da física newtoniana, não implicando por isso uma acção directa de Deus. Isto pode ser traduzido numa analogia básica: quem coloca os dedos numa tomada eléctrica sofre um choque, não porque foi “castigado”, mas porque esse é o efeito correspondente à sua acção; os actos praticados no quotidiano obedecem às mesmas regras, traduzidas para um nível espiritual individualizado.
O carácter de responsabilização ética pelos actos individuais (causa e efeito) é um conceito fundamental do judaísmo. O processo de Tikkun (literalmente “correcção”), a que já fiz referência anteriormente aqui na Judiaria, assenta essencialmente nesta necessidade de gradualmente “emendar” e “corrigir” os defeitos da alma para assim se poder evoluir espiritualmente. Esta correcção passa por um processo genuíno de Tchuvá – admissão dos erros, arrependimento honesto, restituição sempre que tal seja viável.
Esta noção é reforçada, entre muitos outros exemplos, nos escritos do profeta Ezequiel:

“Porque razão as pessoas usam esse dito a propósito da terra de Israel: ‘Os pais comeram uvas ácidas e os filhos ficaram com os dentes embotados’? Tão certo como eu viver, diz o Senhor Deus, não hão-de dizer mais tal coisa em Israel, porque todas as almas me pertencem e hão-de ser julgadas – tanto pais como filhos, da mesma forma – e a minha regra é esta: É unicamente por causa dos seus pecados que uma pessoa morrerá.” Nevi’im, Yechezqel; Ezequiel 18:2 e seguintes)

Por tudo isto, o conceito de “expiação indirecta” é incompatível com o judaísmo. Agora, aqui entronca a outra questão colocada pelo José no seu post do Guia dos Perplexos: como pode ser esta leitura conciliada com escrituras em que pessoas parecem ser castigadas pelas transgressões dos seus antepassados? Um exemplo concreto deste último caso pode ser encontrado em Shemót; Êxodo 20:5:

“(…) eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos país nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.”

É com base nesta contradição aparente que partimos para a fase seguinte deste post: a vida depois da morte.
Como conciliar esta citação do Livro de Êxodo com esta outra, contida em II Melachim – II Reis 14:6?

“Porque os filhos dos matadores não matou, como está escrito no livro da Lei de Moisés, no qual o Senhor deu ordem dizendo: Não matarão os pais, por causa dos filhos, e os filhos não matarão, por causa dos pais; mas cada um será morto pelo seu pecado.”

Os rabinos interpretam a passagem de Êxodo citada acima como uma alusão clara a uma das menos conhecidas doutrinas do judaísmo – a reencarnação.
Explicando Shemót (Êxodos 20:5), o rabino Shimon Bar Yochai escreve no Zohar (Sefer Ha’Zohar, o Livro do Esplendor, o maior tratado místico do judaísmo):

“Está escrito: ‘visito a maldade dos país nos filhos até à terceira e quarta geração’. Estes são a mesma árvore, a mesma alma voltando uma, duas, três e quatro vezes, querendo dizer que encarnou e veio em quatro corpos, sendo punido pelos primeiros pecados na quarta encarnação. Porque o pai, o filho, a terceira e quarta geração (estas quatro encarnações) são um; uma alma que não fez as suas correcções nem atendeu a elas. É por isso punida pelos pecados nas primeiras encarnações. O inverso é também verdade. Uma árvore bem estabelecida pelas encarnações permanece firme, e está escrito: ‘mas mostrando clemência’…”

Sefer Ha’Zohar; Parshat Yitro 30:518

(Sefer Ha’Zohar; Parshat Yitro 30:518 tradução do aramaico original para o hebraico efectuada e comentada pelo rabino Yehudah Ashlag.)

Antes de prosseguir, convém aqui sublinhar que a doutrina da reencarnação, também conhecida como “transmigração das almas” ou Gilgul Neshamot, é uma parte integrante e bastante bem documentada do judaísmo. A doutrina é amplamente explicada no Zohar e posteriormente pelo rabino Isaac Luria no livro Shaar Ha’Gilgulim (Os Portais das Reencarnações), escrito em meados do século XVI.
Rav Avraham Brandwein, um rabino contemporâneo, reitor da Yeshiva (academia religiosa) Kol Yehuda Zvi, de Jerusalém, escreve que em Shaar Ha’Gilgulim, Isaac Luria “explica que Adão possuía uma alma universal (neshamah klalit) que incluía aspectos de toda a criação. A sua alma incluía também a unidade de todas as almas da Humanidade. É por isso que uma única acção sua pôde ter um impacto tão poderoso. Depois de ‘ter comido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal’, a sua alma fragmentou-se em milhares e milhares de pedaços [faíscas] – fragmentos e fragmentos de fragmentos – que subsequentemente viriam a encarnar em cada ser humano que nasceu até hoje e que ainda nascerá. O objectivo destes fragmentos/almas é realizar juntos o tikkun (rectificação) que Adão deveria ter alcançado sozinho.”
Assim, a questão colocada pelo José no seu post do Guia dos Perplexos, quanto à visão judaica da vida após a morte, fica parcialmente respondida.
Quando no postEm que Acreditam os Judeus” escrevi que “no judaísmo não existem os conceitos de Céu, Inferno ou Salvação” e que, por isso mesmo, as preocupações teológicas e éticas do judaísmo se centram “unicamente nesta vida”, o sentido tinha como ponto de partida uma comparação com as doutrinas cristãs. No judaísmo não existe o conceito de “punição eterna” contido na definição cristã de Inferno. Após a morte, parte da alma é “reciclada” e volta a encarnar, de forma a efectuar as correcções (Tikkun) necessárias para que possa cumprir o seu destino final de reunificação ao Criador.
Para perceber isso é necessário compreender a visão judaica da estrutura da alma. Os tratados rabínicos do Talmude e as escrituras místicas do Zohar dividem a alma em cinco partes distintas:

1.Nefesh– o estrato mais básico, ligada à componente animal, sede dos instintos e das reacções do corpo.
2.Ruach – o espírito, ou a “alma intermédia”, ligada à compreensão moral das distinções entre o bem e o mal.
3.Neshama – a “alma alta”, ligada ao intelecto, separa a humanidade das restantes criaturas vivas; permite ao indivíduo reconhecer a existência de Deus e participar na vida eterna.
4.Chayyah – segmento da alma permanentemente consciente da força da Luz Divina.
5.Yehidah – A mais elevada parte da alma, com capacidade de alcançar unidade perfeita com o Criador.

O objectivo da evolução espiritual é ao mesmo tempo individual (porque tem de ser assumido por cada ser humano) e colectivo (no caminho da reunificação total da “alma primordial” adâmica). Uma vez alcançado o objectivo final, a evolução espiritual de toda a humanidade, escrevem ainda os rabinos do Talmude, então virá a era messiânica e a ressurreição. “O Messias filho de David [Ha’Moshiach ben David] não virá até que todas as almas no Guph cheguem ao fim”, lê-se no Talmude (Tratado Jebamoth 62a).
Sem querer entrar aqui em detalhes demasiado obscuros, convém sublinhar que os rabinos cabalistas – uma tradição que marca hoje o todo do judaísmo ortodoxo, especialmente o sefardita – encaram as almas individuais como estilhaços literais (ou “faíscas”) de um “corpo comum” existente antes da Criação. O rabino quinhentista Isaac Luria (cognominado Ari Ha’Kadosh, o “Leão Sagrado”), com a sua doutrina do Tzimtzum, é responsável por aquilo que muitos encaram como a primeira formalização conceptual da teoria do Big Bang, ao descrever pormenorizadamente, no século XVI, a contracção e explosão primordiais que teriam dado origem ao Cosmos. E aqui convém sublinhar que Isaac Luria, o mestre rabino de Safed, viveu quase 500 anos antes do belga Georges Lemaître ter efectuado, em 1927, os primeiros esboços científicos do que seria a teoria do Big Bang. Para uma interessante comparação entre as duas aconselho a leitura de “Isaac Luria and the Big Bang Theory”.
[Os pontos de intersecção entre a ciência moderna e a Cabalá judaica são um universo fascinante que, desde já, prometo voltar a abordar aqui em breve. Formulações científicas, como os modelos matemáticos de Simon Yeger, as “Dez Dimensões”, a “Superstring Theory” e a “Teoria de Tudo”, fazem agora eco de fórmulas descritas por rabinos cabalistas há mais de dois milénios. É também fascinante o facto de Isaac Newton, no século XVII, por exemplo, ter deixado mais escritos sobre Cabalá do que sobre física e matemática. Mas isso são temas para posts futuros…]
Assim, segundo Luria, as almas individuais não são mais do que pedaços de uma alma colectiva primordial indicando, na prática, que as diferenças perceptíveis existentes entre os homens (etnia, sexo, nacionalidade, idade, opiniões, etc.) não passam de meras ilusões fornecidas pelos cinco sentidos [outro conceito que prometo aprofundar mais tarde]. Numa interessante alegoria, os rabinos referem-se às almas individuais como pequenas pedras fragmentadas de uma imensa montanha – apesar de serem aparentemente únicas e individuais, nunca deixam de ser sempre pedaços da montanha. As diferenças aparentes entre os homens mascaram assim o facto do conjunto da humanidade ser, em essência, uno: somos UM – um grito cabalista ainda hoje recitado diariamente nas sinagogas do mundo.

Bibliografia consultada: “Disputation and Dialogue: Readings in the Jewish-Christian Encounter”lmage; “Wheels of a Soul – Reincarnation – Your Life Today and Tomorrow”, Rabino Philip Berg; “The Power of One”, Rabino Philip Berg; “Safed Spirituality: Rules of Mystical Piety, the Beginning of Wisdom”, Lawrence Fine; “Judaism in Practice – From the Middle Ages through the Early Modern Period”, Lawrence Fine; “Physician of the Soul, Healer of the Cosmos: Isaac Luria and His Kabbalistic Fellowship”, Lawrence Fine; “Everyman’s Talmud”, Rabino A. Cohen.

Diálogos Inter-Religiosos: Parte I – O Conceito de Messias no Judaísmo

Resposta ao Guia dos Perplexos

Torah A propósito do meu post sobre o “Credo do Judaísmo”, o José, autor de um excelente blog Católico que há muito faz parte das minhas deambulações diárias pela blogosfera, o Guia dos Perplexos, levantou algumas questões que merecem resposta. Aos leitores menos interessados nestas questões de doutrina religiosa, peço desde já as minhas desculpas pela prosa que se segue. Por isso, tentarei aliviar a densidade “doutrinária” deste post. Mas, por outro lado, pelo imenso respeito que me merece o José e o seu Guia dos Perplexos, senti-me obrigado a responder de forma pública a questões levantadas em público. Devido à complexidade dos temas, resolvi dividi-los em posts diferentes. Aqui vai então a primeira tentativa de esclarecimento.
O primeiro ponto que o José refere (a questão do messias, no ponto 9) está formulada no “Credo do Judaísmo” por oposição à percepção cristã, segundo a qual os judeus “estão à espera” do Messias enquanto Salvador – implicando não só a necessidade deste enquanto figura redentora, mas traduzindo igualmente uma atitude passiva dos judeus “que esperam”. Este messias não existe, de facto, no judaísmo.
Antes de prosseguir, gostaria de deixar bem claro que não tenho aqui a mínima intenção de pretender invalidar a leitura cristã do chamado Antigo Testamento em relação ao messianismo de Jesus (aliás não é esse o papel deste blog). Vou tentar apenas responder às questões levantadas em relação à interpretação judaica do conceito de Messias.
A exegese cristã quanto ao papel messiânico de Jesus (Yeshua Ben Yosef, de seu nome hebraico, ver “Jesus, o Judeu”) diverge grandemente da interpretação judaica da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento), em parte como resultado das alterações introduzidas na teologia cristã durante o crescendo de influência política da Igreja no reinado do imperador Constantino, que culminariam no Credo decretado pelo Concílio de Niceia, no ano 325 da Era Comum (que instituiu igualmente outra cisão profunda com o judaísmo: a doutrina trinitária).
Mas primeiro convém definir a palavra original para nos podermos aperceber das diferenças fundamentais entre uma e outra visão. Messias é uma tradução da palavra hebraica moshiach, משיח (em hebraico pronunciado mochiárr), que aparece cerca de 150 vezes na Bíblia Judaica, embora o seu contexto seja invariavelmente contrastante com a visão que lhe é atribuída pelos cristãos.
A palavra משיח significa literalmente “ungido”, numa referência ao acto de “ungir” com óleo (azeite) a cabeça de reis, sacerdotes e mesmo objectos de culto, de forma a iniciá-los ao serviço de Deus. (ver Exodus 29:7, I Reis 1:39 e II Reis 9:3).
Por esta razão existem inúmeros messias na Bíblia Hebraica, uma vez que todos os reis e sacerdotes nela mencionados foram “ungidos” e, como tal, podem ser referidos individualmente como “o ungido” (moshiach – משיח ) – em II Samuel 23:1 lê-se: “E estas são as últimas palavras de David: Diz David, filho de Jessé, e diz o homem que foi levantado em alturas, o ungido [משיח no original hebraico] do Deus de Jacob, e o suave em salmos de Israel.”
Na versão deste versículo na Vulgata Latina é utilizada a palavra christo, de origem grega, que mais tarde seria aplicada exclusivamente a Jesus: “Haec autem sunt verba novissima quae dixit David filius Isai dixit vir cui constitutum est de christo Dei Iacob egregius psalta Israhel”. (Para uma comparação com os originais hebraicos ver também I Samuel 26:11, II Samuel 22:51, Isaías 45:1 e Salmos 20:6.)
A figura de um messias que “há-de vir”, “Ha’Mashiach” (literalmente O Messias), curiosamente, não aparece na Torá propriamente dita, pelo que não poderá nunca ser considerado um princípio central e norteador do judaísmo – isto apesar do messianismo existir em vertentes que examinaremos mais à frente.
A concepção judaica do Messias (“Ha’Mashiach”), no entanto – e aqui o José tem razão –, surge como tema estrutural de promessas proféticas de uma era futura de perfeição e paz universal. Muitas destas passagens referem-se ao messias como um rei temporal que governará Israel, descendendo directamente da casa de David (Ha’Mashiach Ben David). (ver Isaías 11:1 a 9 e Oséas 3:4 e 5). Na prática, e segundo os profetas, o Messias será um homem normal, um judeu, filho de um homem e de uma mulher, que ascenderá “ao trono de Israel”, conduzindo a Nação e o Mundo numa era de paz e prosperidade universais, marcada pelo fim das guerras e da intolerância, durante a qual todos os povos coexistirão de forma pacífica.
O corte entre as visões judaica e cristã assume-se aqui de forma reforçada. Os judeus crêem que não há “segundas chances” na era messiânica (Olam Ha’Ba, literalmente “o mundo que há-de vir”), e que esta começará assim que o Messias for revelado. Na sua concepção judaica, o Messias também não é e não pode ser objecto de veneração ou adoração.
Quando no post sobre o “credo” do judaísmo referi que “os judeus não estão à espera da vinda de alguém” (reforçando a parte da “espera”) a intenção era transmitir que no conceito judaico de Messias não está implícita qualquer salvação ou expiação, uma vez que cada indivíduo é responsável pela correcção das suas próprias imperfeições e erros. Olam Ha’Ba poderá ser, se quisermos, o “fim dos tempos”, mas para lá se poder chegar, os judeus acreditam na necessidade de um papel activo na evolução espiritual e individual do conjunto da Humanidade (ver pontos 3 e 4 do “Credo do Judaísmo”). A este respeito, devo confessar que fiquei agradavelmente surpreendido com os conhecimentos do José, nas interrogações que coloca no seu Guia dos Perplexo, em relação à Cabalá Lurianica e ao conceito de Tikkun Ha’Olam, o que demonstra o seu extraordinário interesse de ir além das fronteiras tradicionais da sua fé (o catolicismo), uma qualidade imensamente rara e por isso extraordinária.
Através da História, e em grande medida devido à condição de perseguição permanente, e consequente desespero, em que viveram as comunidades judaicas espalhadas pelo mundo, surgiram aqui e além homens que chegaram a ser vistos como messias, não porque prometiam uma qualquer “salvação da alma”, mas porque os profetas do judaísmo profetizaram um líder temporal que traria a paz e o fim dos males terrenos, em conjugação com a recta final do processo de “retorno ao Criador” – entre estes contam-se Simon Bar Kochba e Shabbetai Zevi, os mais conhecidos.
Em Portugal, nos finais do século XV, os cristãos-novos (e cripto-judeus) Luís Dias, alfaiate de Setúbal, e Gonçalo Anes (o Bandarra), sapateiro de Trancoso, conheceram os cárceres da Inquisição (e as suas fogueiras, no caso do alfaiate) por serem apontados como “Messias”, e misturarem em trovas e profecias as aspirações do messianismo judaico com o patriotismo sebastianista, também ele intrinsecamente messiânico. Aqui, D. Sebastião, ele sim um rei, representava para os cristãos-novos portugueses a perfeita encarnação messiânica do monarca temporal que prometia o judaísmo – ao qual foram obrigados a abjurar publicamente mas continuavam a manter em segredo.

O Judeu nos Painéis de São Vicente

Paineis de São Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves

Escondido no último retábulo da mais conhecida obra da pintura portuguesa quinhentista, Os Painéis de São Vicente, atribuída ao pintor Nuno Gonçalves, encontra-se uma figura que tem despertado a curiosidade dos historiadores.Painel da Relíquia ou Alegoria do Comando Virtuoso, um dos poucos registos iconográficos de judeus portugueses quinhentistas que ainda restam.
No Painel da Relíquia, também conhecido como “Alegoria do Comando Virtuoso”, envergando um manto negro e um barrete, um homem robusto segura nas mãos um livro com caracteres indecifráveis. Uma análise detalhada do retábulo não deixa dúvidas: a misteriosa figura é uma das poucas representações iconográficas que restam de um judeu português quinhentista.
Além do livro com caracteres que imitam o hebraico, a figura ostenta no peito uma estranha insígnia de seis pontas, interpretada por alguns como uma representação oculta remanescente da estrela de David. No entanto, a insígnia não é mais do que o sinal que os judeus portugueses eram obrigados a usar nas suas roupas, decretado no texto das Ordenações Afonsinas – livro II, título 86 –, onde a lei Joanina de 1429 prescreve a utilização obrigatória de “sinais vermelhos de seis pernas cada um, no peito, acima da boca do estômago, (…) pois os judeus não traziam quais sinais que deviam trazer e esses que traziam eram tão pequenos que não se pareciam, e outros os traziam de duas e três pernas e mais não.
Mas a chave central para decifrar o judaísmo desta figura integrada numa das maiores obras primas da pintura europeia quinhentista, acima de tudo, é o livro que tem nas mãos. Acerca da representação do livro, e mais especificamente da forma como ele é manuseado, António Salvador Marques, no seu Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização, escreve que a intenção do pintor em transmitir o judaísmo do personagem foi mais do que premeditada:

Livro em “hebraico” ilegível (clicar para uma versão ampliada da imagem)

O livro encontra-se nas mãos de uma figura com aspecto severo, marcada por um sinal vermelho de seis pontas na indumentária, cujo gesto denuncia a intenção de mostrar que as páginas se voltam da esquerda para a direita, isto é, no sentido contrário ao habitual. Se o leitor reproduzir o gesto defronte de um espelho, aperceber-se-á da forma como o posicionamento dos dedos no acto de passagem da página é significativo de uma tal intenção, muito mais que da exibição de algum trecho específico de livro conhecido.

Os livros hebraicos são abertos da esquerda para a direita e lidos em ordem inversa. Ainda na opinião de António Salvador Marques, o facto da escrita reproduzida pelo pintor ser constituída por caracteres “fantasiosos e ilegíveis” pode também ser demonstrativo:

A conotação judaica não é dada só pela forma como as páginas são voltadas, mas também pelo aparecimento de caracteres ilegíveis que poderiam sugerir a escrita hebraica aos olhos dos não conhecedores, como se interessasse apenas a compreensão de que se trata de um livro hebraico, e não a leitura de um qualquer trecho bem determinado mas irrelevante para os fins em vista. A figuração de comentários ao longo das margens parece sugerir a prática talmúdica de interpretação e comentário da escritura, e reforça ainda mais a conotação judaica. A presença expressa de numerosas anotações marginais num livro ilegível não parece fazer sentido em qualquer outro contexto.

Última parte do tríptico temporal, na “Alegoria do Comando Virtuoso” o judeu português quinhentista representa a virtude do rigor, ladeado pela penitência e pelo sacrifício.
Antes do restauro dos painéis, Joaquim de Vasconcellos, n’O Comércio do Porto de 28 de Julho de 1895, percebeu essa parte da alegoria, transmitindo-a numa prosa encharcada de preconceitos antisemitas: “aponta com gesto arrogante, todo ele vaidoso, enfatuado na sua sabedoria de rabino, para um livro de confusos caracteres fantasiados. É bem o tipo da sinagoga militante (…) por detrás do rabino dois clérigos de alva, esculturais, profundamente característicos, postos de sentinela ao bilioso sectário.” (via “Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização”).
Os historiadores brasileiros Guilherme Faiguenboim, Paulo Valadares e Anna Rosa Campagnano, no recém editado “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes” (Frahia, São Paulo 2003), vão mais longe e afirmam que este judeu nos painéis de Nuno Gonçalves pode muito bem ser D. Isaac Abravanel, um dos mais ilustres judeus portugueses do século XV – estadista, líder da comunidade judaica ibérica, filósofo e rabino cabalista nascido em Lisboa, cujos escritos são ainda hoje estudados – especialmente a sua interpretação do código de ética Pirkei Avot (A Ética dos Pais). Curiosamente, como comentam os autores, Isaac Abravanel é “o 15º avô do empresário e apresentador de TV [brasileiro] Sílvio Santos”, Senor Abravanel de seu nome verdadeiro.
Aos que quiserem saber mais sobre os painéis de Nuno Gonçalves, descritos pelo Museu Nacional de Arte Antiga, seu actual repositório, como “um dos mais notáveis retratos colectivos da pintura europeia”, aconselha-se uma passagem pela versão on-line do excelente trabalho de António Salvador Marques, intitulado Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização.

Cantares de Salomão – שיר השירים

Shir Ha-Shirim שיר השירים (Cantares de Salomão), tradução de João Ferreira de Almeida

Beije-me ele com os beijos da sua boca;
porque melhor é o seu amor do que o vinho.
Para cheirar, são bons os teus unguentos;
como unguento derramado é o teu nome;
por isso, as virgens te amam.

Leva-me tu, correremos após ti.
O rei me introduziu nas tuas recâmaras:
em ti nos regozijaremos e nos alegraremos;
do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho
os rectos te amam.

Eu sou morena, mas agradável,
ó filhas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como as cortinas de Salomão

Não olheis para o eu ser morena,
porque o sol resplandeceu sobre mim:
os filhos de minha mãe se indignaram contra mim,
e me puseram por guarda de vinhas;
a vinha que me pertence não guardei.

Dize-me, ó tu, a quem ama a minha alma:
onde apascentas o teu rebanho,
onde o recolhes pelo meio dia:
pois por que razão seria eu
como a que erra entre os rebanhos
dos teus companheiros?

Se tu o não sabes,
ó mais formosa entre as mulheres,
sai-te pelas pisadas das ovelhas,
e apascenta as tuas cabras
junto às moradas dos pastores.

Às éguas dos carros de Faraó te comparo,
ó amiga minha.
Agradáveis são as tuas faces entre os teus enfeites,
o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos,
com pregos de prata.

Enquanto o rei está assentado à sua mesa,
dá o meu nardo o seu cheiro.
O meu amado é para mim um ramalhete de mirra;
morará entre os meus seios.
Como um cacho de Chipre,
nas vinhas de Engedi,
é para mim o meu amado.

Eis que és formosa,
ó amiga minha,
eis que és formosa:
os teus olhos são como os das pombas.

Eis que és gentil e agradável,
ó amado meu;
o nosso leito é viçoso.
As traves da nossa casa são de cedro,
as nossas varandas de cipreste.

Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Qual o lírio entre os espinhos,
tal é a minha amiga entre as filhas

Qual macieira entre as árvores do bosque,
tal é o meu amado entre os filhos:
desejo muito a sua sombra,
e debaixo dela me assento;
e o seu fruto é doce ao meu paladar.
Levou-me à sala do banquete,
e o seu estandarte em mim era o amor.
Sustentai-me com passas,
confortai-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.

A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça,
e a sua mão direita me abrace.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas e cervas do campo,
que não acordeis nem desperteis o amor, até que ele o queira.

A voz do meu amado! eis que vem aí,
saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros.
O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho do veado;
eis que está detrás da nossa parede,
olhando pelas janelas, lançando os olhos pelas grades.
Fala o meu amado e me diz: Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem.
Pois eis que já passou o inverno; a chuva cessou, e se foi;
aparecem as flores na terra;
já chegou o tempo de cantarem as aves,
e a voz da rola ouve-se em nossa terra.

A figueira começa a dar os seus primeiros figos;
as vides estão em flor e exalam o seu aroma.
Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem.
Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas,
no oculto das ladeiras, mostra-me o teu semblante faze-me ouvir a tua voz;
porque a tua voz é doce, e o teu semblante formoso.
Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas;
pois as nossas vinhas estão em flor.

O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Antes que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu,
e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes de Beter.

De noite, em meu leito, busquei aquele a quem ama a minha alma;
busquei-o, porém não o achei.
Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade;
pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma.
Busquei-o, porém não o achei.
Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade;
eu lhes perguntei: Vistes, porventura, aquele a quem ama a minha alma?
Apenas me tinha apartado deles, quando achei aquele a quem ama a minha alma;
detive-o, e não o deixei ir embora, até que o introduzi na casa de minha mãe,
na câmara daquela que me concebeu:
Conjuro-vos, ó filhos de Jerusalém,
pelas gazelas e cervas do campo,

que não acordeis, nem desperteis o amor, até que ele o queira.

Que é isso que sobe do deserto, como colunas de fumo,
perfumado de mirra, de incenso,
e de toda sorte de pós aromáticos do mercador?

Eis que é a liteira de Salomão;
estão ao redor dela sessenta valentes, dos valentes de Israel,
todos armados de espadas, destros na guerra,
cada um com a sua espada a cinta, por causa dos temores noturnos.
O rei Salomão fez para si um palanquim de madeira do Líbano.
Fez-lhe as colunas de prata, o estrado de ouro, o assento de púrpura,
o interior carinhosamente revestido pelas filhas de Jerusalém.
Saí, ó filhas de Sião, e contemplai o rei Salomão com a coroa de que sua mãe
o coroou no dia do seu desposório,
no dia do júbilo do seu coração.

Como és formosa, amada minha,
eis que és formosa!
os teus olhos são como pombas por detrás do teu véu;
o teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.
Os teus dentes são como o rebanho das ovelhas tosquiadas,
que sobem do lavadouro, e das quais cada uma tem gêmeos,
e nenhuma delas é desfilhada.
Os teus lábios são como um fio de escarlate,
e a tua boca e formosa;
as tuas faces são como as metades de uma roma por detrás do teu véu.
O teu pescoço é como a torre de David, edificada para sala de armas;
no qual pendem mil broquéis, todos escudos de guerreiros valentes.
Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.
Antes que refresque o dia e fujam as sombras,
irei ao monte da mirra e ao outeiro do incenso.
Tu és toda formosa, amada minha, e em ti não há mancha.
Vem comigo do Líbano, noiva minha, vem comigo do Líbano.
Olha desde o cume de Amana,
desde o cume de Senir e de Hermom,
desde os covis dos leões, desde os montes dos leopardos.
Enlevaste-me o coração,
minha irmã, noiva minha;
enlevaste- me o coração com um dos teus olhares,
com um dos colares do teu pescoço.
Quão doce é o teu amor, minha irmã, noiva minha!
quanto melhor é o teu amor do que o vinho!
e o aroma dos teus unguentos do que o de toda sorte de especiarias!
Os teus lábios destilam o mel, noiva minha;
mel e leite estão debaixo da tua língua,
e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Jardim fechado é minha irmã, minha noiva,
sim, jardim fechado, fonte selada.

Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes;
a hena juntamente com nardo,
o nardo, e o açafrão, o cálamo, e o cinamomo,
com toda sorte de árvores de incenso;
a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias.
És fonte de jardim, poço de águas vivas, correntes que manam do Líbano!

Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul;
sopra no meu jardim, espalha os seus aromas.
Entre o meu amado no seu jardim, e coma os seus frutos excelentes!

Venho ao meu jardim, minha irmã, noiva minha,
para colher a minha mirra com o meu bálsamo,
para comer o meu favo com o meu mel,
e beber o meu vinho com o meu leite.
Comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados.

Eu dormia, mas o meu coração velava. Eis a voz do meu amado!
Está batendo: Abre-me, minha irmã, amada minha, pomba minha, minha imaculada;
porque a minha cabeça está cheia de orvalho,
os meus cabelos das gotas da noite.
Já despi a minha túnica; como a tornarei a vestir?
já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar?
O meu amado meteu a sua mão pela fresta da porta,
e o meu coração estremeceu por amor dele.

Eu me levantei para abrir ao meu amado;
e as minhas mãos destilavam mirra,
e os meus dedos gotejavam mirra sobre as aldravas da fechadura.
Eu abri ao meu amado, mas ele já se tinha retirado e ido embora.
A minha alma tinha desfalecido quando ele falara.
Busquei-o, mas não o pude encontrar;
chamei-o, porém ele não me respondeu.
Encontraram-me os guardas que rondavam pela cidade;
espancaram-me, feriram-me;
tiraram-me o manto os guardas dos muros.
Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, se encontrardes o meu amado,
que lhe digais que estou enferma de amor.

Que é o teu amado mais do que outro amado,
ó tu, a mais formosa entre as mulheres?
Que é o teu amado mais do que outro amado, para que assim nos conjures?

O meu amado é cândido e rubicundo, o primeiro entre dez mil.
A sua cabeça é como o ouro mais refinado,
os seus cabelos são crespos, pretos como o corvo.
Os seus olhos são como pombas junto às correntes das águas,
lavados em leite, postos em engaste.
As suas faces são como um canteiro de bálsamo,
os montes de ervas aromáticas;
e os seus lábios são como lírios que gotejam mirra.
Os seus braços são como cilindros de ouro,
guarnecidos de crisólitas;
e o seu corpo é como obra de marfim, coberta de safiras.

As suas pernas como colunas de mármore,
colocadas sobre bases de ouro refinado;
o seu semblante como o líbano, excelente como os cedros.
O seu falar é muitíssimo suave;
sim, ele é totalmente desejável.
Tal é o meu amado, e tal o meu amigo, ó filhas de Jerusalém.

Para onde foi o teu amado, ó tu,
a mais formosa entre as mulheres?
para onde se retirou o teu amado,
a fim de que o busquemos juntamente contigo?

O meu amado desceu ao seu jardim,
aos canteiros de bálsamo,
para apascentar o rebanho nos jardins e para colher os lírios.
Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu;
ele apascenta o rebanho entre os lírios.

Formosa és, amada minha, como Tirza,
aprazível como Jerusalém,
imponente como um exército com bandeiras.
Desvia de mim os teus olhos, porque eles me perturbam.
O teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas de Gileade.
Os teus dentes são como o rebanho de ovelhas que sobem do lavadouro,
e das quais cada uma tem gêmeos, e nenhuma delas é desfilhada.
As tuas faces são como as metades de uma romã, por detrás do teu véu.
Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e virgens sem número.
Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada;
ela e a única de sua mãe, a escolhida da que a deu ã luz.
As filhas viram-na e lhe chamaram bem-aventurada;
viram-na as rainhas e as concubinas, e louvaram-na.

Quem é esta que aparece como a alva do dia,
formosa como a lua,
brilhante como o sol,
imponente como um exército com bandeiras?

Desci ao jardim das nogueiras,
para ver os renovos do vale,
para ver se floresciam as vides e se as romanzeiras estavam em flor.
Antes de eu o sentir, pôs-me a minha alma nos carros do meu nobre povo.

Volta, volta, ó Shulamite; volta, volta, para que nós te vejamos.
Por que quereis olhar para a Shulamite como para a dança de Maanaim?

Quão formosos são os teus pés nas sandálias, ó filha de príncipe!
Os contornos das tuas coxas são como jóias, obra das mãos de artista.
O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida;
o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.
Os teus seios são como dois filhos gêmeos da gazela.
O teu pescoço como a torre de marfim;
os teus olhos como as piscinas de Hesbom, junto ã porta de Bate-Rabim;
o teu nariz é como torre do Líbano, que olha para Damasco.
A tua cabeça sobre ti é como o monte Carmelo,
e os cabelos da tua cabeça como a púrpura;
o rei está preso pelas tuas tranças.

Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!
Essa tua estatura é semelhante à palmeira, e os teus seios aos cachos de uvas.
Disse eu: Subirei à palmeira, pegarei em seus ramos;
então sejam os teus seios como os cachos da vide,
e o cheiro do teu fôlego como o das maçãs,
e os teus beijos como o bom vinho para o meu amado,
que se bebe suavemente, e se escoa pelos lábios e dentes.

Eu sou do meu amado, e o seu amor é por mim.
Vem, ó amado meu, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias.
Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas,
vejamos se florescem as vides,
se estão abertas as suas flores,
e se as romanzeiras já estão em flor;
ali te darei o meu amor.

As mandrágoras exalam perfume,
e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos,
novos e velhos; eu os guardei para ti, ó meu amado.

Ah! quem me dera que foras como meu irmão,
que mamou os seios de minha mãe!
quando eu te encontrasse lá fora, eu te beijaria;
e não me desprezariam!
Eu te levaria e te introduziria na casa de minha mãe,
e tu me instruirias;
eu te daria a beber vinho aromático,
o mosto das minhas romãs.
A sua mão esquerda estaria debaixo da minha cabeça,
e a sua direita me abraçaria.

Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
que não acordeis nem desperteis o amor,
até que ele o queira.

Quem é esta que sobe do deserto,
e vem encostada ao seu amado?
Debaixo da macieira te despertei;
ali esteve tua mãe com dores;
ali esteve com dores aquela que te deu à luz.

Põe-me como selo sobre o teu coração,
como selo sobre o teu braço;
porque o amor é forte como a morte;
o ciúme é cruel como o sheol;
a sua chama é chama de fogo,
verdadeira labareda do Senhor.
As muitas águas não podem apagar o amor,
nem os rios afogá- lo.
Se alguém oferecesse todos os bens de sua casa pelo amor,
seria de todo desprezado.

Temos uma irmã pequena,
que ainda não tem seios;
que faremos por nossa irmã,
no dia em que ela for pedida em casamento?

Se ela for um muro, edificaremos sobre ela uma torrezinha de prata;
e, se ela for uma porta, cercá-la-emos com tábuas de cedro.

Eu era um muro, e os meus seios eram como as suas torres;
então eu era aos seus olhos como aquela que acha paz.

Teve Salomão uma vinha em Baal-Hamom;
arrendou essa vinha a uns guardas;
e cada um lhe devia trazer pelo seu fruto mil peças de prata.
A minha vinha que me pertence está diante de mim;
tu, ó Salomão, terás as mil peças de prata,
e os que guardam o fruto terão duzentas.
Ó tu, que habitas nos jardins,
os companheiros estão atentos para ouvir a tua voz;
faze-me, pois, também ouvi-la:
Vem depressa, amado meu,
e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho da gazela sobre os montes dos aromas.

Shir Ha-Shirim שיר השירים (Cantares de Salomão), tradução de João Ferreira de Almeida.

Em que Acreditam os Judeus?

Recebi desde o início deste blog (já lá vão quase três meses) vários e-mails de leitores que pretendiam saber mais sobre o judaísmo enquanto Religião. As primeiras perguntas eram invariavelmente as mesmas: “Em que acreditam os judeus?” e “Quais as diferenças entre Judaísmo e Cristianismo?”
Numa tentativa de responder a estas e outras questões que possam existir em relação ao judaísmo, resolvi dar aqui a conhecer uma versão minguada, quase “reader’s digest” é certo, do “credo” do judaísmo.
Convém referir que, tal como acontece com o cristianismo, existem no judaísmo diversas correntes teológicas e movimentos religiosos com interpretações divergentes, pelo que este “credo” funciona apenas como uma amostra genérica daquilo em que os judeus acreditam. A este respeito, há um velho provérbio hebraico que diz “onde há dois judeus tem de haver duas sinagogas”.

O “Credo” do Judaísmo

1.Deus: Deus é o Criador. Eterno, omnisciente, omnipotente, infinito e incorpóreo. Deus não tem género no sentido humano do termo, o pronome masculino é-Lhe atribuído apenas por convenção. Deus é único. Deus é um e não composto por diferentes personalidades.

2.Instrução: O Criador concedeu ao Homem instruções de comportamento destinadas a promover a vida e a evolução espiritual. As instruções são baseadas em constantes universais criadas por Deus, e como tal imutáveis. As instruções encontram-se contidas na Bíblia Hebraica (Torá, ver Tanakh, conhecida entre os cristãos como “Antigo Testamento”).

3.Futuro: Seguindo as instruções, o Homem, ao longo dos séculos, produzirá mudanças positivas no Mundo, restaurando a sua essência primordial (ver conceito de Tikkun ha-Olam). Esta mudança (restauração) é um esforço colectivo dos povos ao longo de muitas gerações.

4.Julgamento: Cada pessoa é julgada com base apenas nos seus actos, independentemente de outros factores, tais como crença, etnia ou orientação sexual. Os actos de outras pessoas – quer sejam familiares, antepassados ou homens santos – são irrelevantes. O Homem possui total e inquestionável livre arbitro bem como controlo sobre todas as suas acções.

5.Expiação: A correcção dos erros individuais quotidianos é feita através da oração (meditação), observância anual do Dia do Perdão (Yom Kippur); e arrependimento, corrigindo os erros sempre que possível, resolvendo não os repetir e cumprindo as Instruções – incluindo a ajuda aos mais necessitados, tida como a maior de todas elas.

6.Recompensa: Deus não promete recompensas individuais (ver Futuro), mas sim colectivas.

7.O Bem e o Mal: Deus é o Criador de todas as coisas. O judaísmo não tem o conceito de Diabo. Enquanto em hebraico existe a palavra satan, e ela de facto é mencionada várias vezes na Bíblia Hebraica, o seu significado é completamente diferente do atribuído pelos cristãos – em hebraico satan quer dizer oponente, referido por regra no contexto da luta interior individual entre dois opostos. O “Mal” é produto exclusivo das acções, individuais e colectivas, do Homem, assumindo-se como o resultado de um processo cósmico de “causa e efeito” equiparável às teorias da física newtoniana.

8.Depois da Morte: No judaísmo não existem os conceitos de Céu, Inferno ou Salvação. As preocupações devem ser centradas unicamente nesta vida; não temos qualquer tipo de controlo sobre o que nos irá acontecer depois da morte. Uma vez que o objectivo da evolução espiritual individual só pode ser alcançado com a imersão na sociedade e a interacção com o semelhante, também não existe no judaísmo o conceito de isolamento monástico. Na prática, o objectivo é viver a vida da melhor e mais justa forma possível.

9.Messias: A palavra hebraica moshiach (משיח – messias) não tem a mesma conotação que lhe é atribuida pelo cristianismo. No judaismo não existem homens-deus, semideuses ou filhos literais de Deus. Uma pessoa não pode tomar ou absolver os pecados de outra (ver Julgamento). Os judeus não estão à espera da vinda de alguém. O Futuro chegará através das acções do conjunto da Humanidade. Um dos sinais contidos na Bíblia Hebraica para a chegada da era messiânica é a paz universal.

10.Povo Eleito: A Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) refere-se poucas vezes aos judeus como “o povo eleito”, mas a expressão tem sido destorcida ao ponto de se fazer crer que os judeus se julgam intrinsecamente superiores aos não-judeus. Esta leitura é completamente falsa. Os judeus são “escolhidos” apenas enquanto portadores da Mensagem (Instrução), e seus guardiões através dos séculos. Não existe qualquer sentimento de superioridade ou inferioridade implicita. (ver também Julgamento)

11. Sacrifício e Expiação: O sacrifício não é necessário para a expiação. O propósito do sacrifício é expressar o sentimento de afinidade pessoal para com o Criador. Na ausência do sacrifício, o mesmo sentimento pode ser expresso através da oração (meditação) e correcção dos erros cometidos.

12.Dez Mandamentos: Os conhecidos “Dez Mandamentos” são apenas uma parte da Instrução, ainda que importante. A palavra hebraica usada significa literalmente “declaração” (“dez declarações”). No judaísmo, em vez de apenas dez, existem 613 mandamentos (mitzvot).

Este “credo” foi elaborado (traduzido e largamente editado) com base numa lista do site Am ha-Aretz: Judaism of the masses.

Citações & Recortes Blogosféricos II

A propósito do meu post sobre o aniversário da chegada dos primeiros emigrantes judeus portugueses a Nova Iorque, em 1654 (ver Os primeiros judeus nas Américas), o escritor Luís Carmelo, no seu blog Miniscente, escreveu uma entrada intitulada Tragédia de um Esquecimentor aqui reproduzida. Às questões levantadas, que responda quem sabe.

“Lembra o blogue Rua da Judiaria que, em 2004, se celebram 350 anos “sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque)”. Tratou-se, na altura, de um contingente de 23 emigrantes judeus fugidos à Inquisição do Recife, no Brasil. De facto, um certo mutismo português adora esquecer os labirintos judaicos de Amesterdão, de Antuérpia, de Istambul ou do Recife que, afinal, lhe saíram da sua própria carne. Por que razão será muda a história oficial portuguesa acerca da implosão judaica de finais de século XV e inícios do século XVI?
Independentemente de tal mudez, a verdade é que não há português que não traga consigo um pouco de Israel e, no entanto, parece disfarçá-lo com uma leviana saudade da escuridão, com uma timidez pessoana e quase mitológica, com uma ignorância tétrica e, às vezes, com uma apaixonada tentação pela erradicação memorial (tantas vezes pressionada pelos fluxos ideológicos de conjuntura).
É como se, na frente de um Portugal marmóreo e cristalizado, apenas ficasse o mar e as suas lendas a sós, apenas ficasse a imagem passada de um século de ouro, apenas ficasse a euforia das Europálias, das Expos, das Décimas sétimas, das N Capitais da cultura e das várias Exposições do mundo português. É como se, em todas estas cenografias da exaltação lusa, nada sobrasse do vestígio da alma judaica arrancada à nossa própria alma. Que auto-imagem celebrará tal amputação, ou tal compaixão desprovida de rosto?(…).”

Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe em 1675 (Gans Collection, CRDJ)

Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe, 1675 (Gans Collection, CRDJ)

Os primeiros judeus nas Américas


Gershom Mendes Seixas (1745-1816), o primeiro rabino de Nova Iorque.

Em 2004 celebram-se 350 anos sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque). Fugidos da Inquisição no Brasil (Recife), os primeiros 23 emigrantes judeus a chegar à América eram portugueses.
Apesar da oposição inicial do governador Peter Stuyvesant, o governo holandês contrariou-o e concedeu aos judeus portugueses permissão para se instalarem na colónia. A primeira sinagoga construída na parte norte do “novo mundo” foi a Shearith Israel (meados do século XVIII), de Nova Iorque, que ainda hoje existe e mantém a designação de “Sinagoga Portuguesa e Espanhola“.
A comunidade floresceu com o correr dos anos e a aparente tolerância religiosa das Américas continuou a atrair judeus de todo o mundo, incluindo muitas famílias portuguesas que entretanto tinham emigrado para Inglaterra, Holanda e Brasil.
Apesar de pouco divulgada entre nós, a presença dos judeus portugueses na América deixaria uma marca indelével na história do país.
Entre os judeus portugueses que ascenderam à notoriedade em terras americanas destaca-se a família Mendes Seixas, levada de Lisboa para Nova Iorque pela mão do patriarca Isaac Mendes Seixas em 1730.
O filho mais velho, Gershom Mendes Seixas (1745-1816), conhecido como o “primeiro rabino da América do Norte”, era amigo pessoal de George Washington e foi um dos três representantes do clero presentes na cerimónia de tomada de posse do primeiro presidente americano, em 1787.
Quando o rabino Gershom morreu, a Câmara de Nova Iorque decretou luto municipal e o conselho de reitores da Universidade de Columbia abriu concurso público para que se fizesse uma medalha comemorativa com o seu busto. Tido como um exemplo de tolerância – contava com amigos entre os mais respeitados pastores protestantes da cidade – e serviço público, a American Jewish Historical Society considera ainda hoje Gershom “um modelo para os rabinos americanos contemporâneos”.
Além de Gershom, outros Mendes Seixas viram os seus nomes elevados a figuras de relevo da História americana: Abraão Mendes Seixas (1751-99) foi oficial no exército revolucionário de Washington; Benjamin Mendes Seixas (1748-1817) foi um dos fundadores da Bolsa de Valores de Nova Iorque – ao lado Isaac Gomes, outro judeu português –; Moisés Mendes Seixas (1744-1809) tornou-se um dos organizadores do Banco de Rhode Island – percursor da actual Reserva Federal – e presidente da histórica sinagoga de Newport. O filho de Gershom, David Mendes Seixas fundou o Instituto de Surdos Mudos de Filadélfia e foi um inventor prolífico, descobrindo, entre outras, formas mais eficientes de queimar carvão mineral.
A História americana destaca também o nome de Aaron Lopes, um judeu português de origem cripto-judaica (conhecido em Portugal como D. Duarte Lopes) nascido em Lisboa em 1731 que ainda criança viajara com a família para a América. Armador estabelecido na cidade de Newport, em Rhode Island, Aaron Lopes era dono de 30 navios transatlânticos e 100 embarcações costeiras que permitiram abastecer o exército revolucionário de George Washington, apesar da enorme pressão da coroa britânica.
Francis Salvador e Benjamin Nunes, outros dois judeus de ascendência portuguesa, foram de Inglaterra e França, respectivamente, para lutar ao lado das tropas revolucionárias. Francis Salvador seria mais tarde escolhido para integrar o Congresso Provisório da Carolina do Sul, em 1774, e foi também o primeiro patriota morto pelas tropas britânicas. Benjamin Nunes, que durante a guerra ascendera ao cargo de major, tornou-se membro da Câmara dos Representantes do recém formado país. Entre os judeus portugueses que combateram ao lado dos revolucionários americanos contam-se ainda os irmãos Jacob e Salomão Pinto, que em 1750 se estabeleceram na cidade de New Haven.
Por alturas da Guerra de Independência, estima-se que existissem já largas centenas de emigrantes portugueses na colónia, a esmagadora maioria destes de origem judaica. Cerca de 20% dos marinheiros do primeiro navio de guerra a hastear a bandeira americana, o Bonhomme Richard, capitaneado por John Paul Jones, eram portugueses.
O aniversário da chegada, em 1654, dos primeiros judeus portugueses à América vai ser assinalado este ano nos EUA pelo semanário Forward, de Nova Iorque. Na última edição é de ler um artigo assinado pela juíza do Supremo Tribunal de Justiça Ruth Bader Ginsburg, intitulado Recordando os Cinco Juizes Judeus do Supremo. Entre os nomes citados encontra-se outro descendente de judeus portugueses: Benjamin Cardozo, nomeado pelo presidente Hebert Hoover em 1932.

O Que é a Saudade?

É assim que o dicionário define a palavra:

“do ant. soedade, soidade, suidade < Lat. solitate, com influência de saudar; s. f., Lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.”

Durante séculos, aprendemos a olhar para a Saudade como património exclusivo da língua portuguesa. Ausência, distância, melancolia, estado de alma permanente e perpétuo da nação. Crescemos a aprender que a palavra Saudade não tinha tradução em qualquer outra língua do mundo. Mas tem. Em hebraico existe um equivalente preciso da nossa saudade: Ergá – ערגה.
Usada durante milénios por rabinos, filósofos e poetas judeus para traduzir os mesmos estados de alma, ergá é indubitavelmente a saudade hebraica. E depois, claro, há a música. Aqui pode ouvir-se um excerto de uma melodia judaica da Europa de Leste intitulada “Ergá” (em formato RealOne).
Há mesmo quem sugira que a saudade entranhou a alma lusa por via judaica, e que uma das suas maiores manifestações colectivas, o Sebastianismo, poderá muito bem ser uma transmutação do messianismo dos judeus e cristãos-novos portugueses do século XVI.

Jesus, o judeu

Jesus, visto por Marc Chagall, pintor judeu

Nascido na Galileia há mais de 2 mil anos, Jesus de Nazaré foi, sem margem para dúvidas, um judeu. As escrituras cristãs confirmam a cada passo que Cristo – Yeshua ben Yosef, de seu nome hebraico – seguiu à risca as tradições e mandamentos do judaísmo ortodoxo. Mesmo assim, durante séculos, numa tácita aliança de silêncios, cristãos e judeus recusaram reconhecer as raízes judaicas do pregador da Galileia, a quem chamaram rabino, e que acabaria por tornar-se uma das mais influentes e emblemáticas figuras da História humana.
Abandonado, e mesmo combatido, pela Igreja Cristã (tanto católica como protestante) durante séculos, o judaísmo de Jesus, e o seu enquadramento contextual, só começou a ser explorado recentemente.
Esta corrente, nascida na recta final do século XIX, assumiu novas proporções nos finais do século XX, quando a busca do “Jesus Histórico” e das raízes hebraicas de Cristo começou a fascinar teólogos e historiadores cristãos e judeus. Arredados já do cíclico antisemitismo que levara os cristãos durante séculos a negarem o judaísmo de Jesus, estes redescobriam agora o Messias cristão no seu contexto histórico, étnico e religioso.
O judaísmo de Jesus foi, até 1900, praticamente posto de parte também pelos pensadores judeus, em grande medida como reacção às perseguições que o cristianismo encetara contra os hebreus. Recorde-se que até ao Concílio Vaticano II, em 1965, a própria Igreja Católica acusava os judeus de terem morto Cristo – uma acusação que não só negava a verdade histórica, desculpabilizando o papel do governador romano Pôncio Pilatos enquanto executor máximos da pena (ver Who is Responsible for Jesus’ Execution), como também escondia o facto de Jesus ser, ele próprio, um judeu. Esse era um facto histórico inescapável, mas mesmo assim rodeado de uma polémica apenas explicável por um antisemitismo latente.
“Muitos cristãos continuavam a recusar aceitar o facto de que Jesus era judeu, afirmando a pés juntos que ele era ‘cristão’. Mas um cristão, por definição, é um seguidor de Cristo. Se assim fosse, Jesus seria um seguidor de si próprio, o equivalente de um cão que persegue a sua própria cauda”, comenta o teólogo cristão Jonathan Went, um estudioso das raízes judaicas de Jesus.
Contando com as poucas referências talmúdicas, as fontes históricas judaicas sobre Jesus restringem-se a breves passagens de fragmentos deixados por historiadores hebreus, o mais famoso dos quais o Testimonium Flavianum, escrito por Flavius Josephus, que viveu entre os ano 37 e 100 da era comum.
Agora, quase dois mil anos passados sobre o seu desaparecimento, aos poucos, rabinos e pensadores humanistas judeus começaram a reclamar Jesus enquanto figura histórica intimamente ligada ao judaísmo.
Na década de 90, foram editados vários livros que abordavam uma visão judaica de Jesus, o mais significativo dos quais lançado em finais de 2001 nos Estados Unidos sob o título “Jesus Through Jewish Eyes: Rabbis and Scholars Engage an Ancient Brother in a New Conversation”.
Na verdade, os relatos das escrituras cristãs apontam para o facto de Jesus ter cumprido escrupulosamente todos os preceitos da religião judaica. Os Evangelhos do Novo Testamento bíblico contam que Jesus foi circuncisado oito dias após ter nascido (Lucas, 2:21), segundo regem as leis judaicas; ainda bebé foi apresentado no Templo em Jerusalém (Lucas, 2:22), de acordo com o que mandava a tradição, e foi educado na Lei de Moisés (Lucas 2, 39 a 42). A Bíblia cristã confirma ainda que ele, como todas as crianças judias, começou a aprender a Torá – a Bíblia hebraica – aos seis anos e aos 12 anos no Templo “ouvia e interrogava” os rabinos (Lucas 2:46). Mais tarde, os evangelistas relatam que Jesus celebrava os festivais judaicos (Páscoa, Tabernáculos e Hanuká) além de guardar todos os sábados como dias santos. Ao mesmo tempo, envergou tzit-tzit e tefilin, adereços litúrgicos ainda hoje usados pelos judeus ortodoxos. Mesmo assim, perante este verdadeiro mar de referências bíblicas ao judaísmo de Jesus, este continuou a ser ignorado através das gerações.
No livro “Rabbi Jesus: An Intimate Biography”, o teólogo e historiador anglicano Bruce Chilton traça um perfil do Messias cristão fortemente enraizado no judaísmo. Para Chilton, Jesus foi indubitavelmente um rabino, reconhecido como tal na Galileia, e “os seus ensinamentos tornavam-no em tudo semelhante a outros rabinos galileus, conhecidos como chasidim. (…) Os chasidim eram curandeiros que curavam os doentes e aliviavam a seca através da oração, e Jesus juntou-se às suas fileiras”.
Numa visão amplamente partilhada por vários teólogos judaicos contemporâneos – entre eles Z’ev ben Shimon Halevi – , o padre Bruce Chilton vê ainda em Jesus um discípulo dos mestres da Cabalá, uma palavra hebraica que literalmente significa “tradição recebida” e que traduz o misticismo judaico. As influências cabalísticas nos ensinamentos de Jesus são notórias. A mais evidente de todas é a chamada “regra de ouro do judaísmo”, ensinada pelo rabino Hillel, que viveu em Jerusalém cerca de 200 anos antes de Jesus. Conta o Talmude que um viajante pouco familiarizado com os judeus pediu ao rabino Hillel que numa frase lhe explicasse a essência do judaísmo. O rabino olhou-o por instantes e respondeu sem hesitar: “Ama o próximo como a ti mesmo. Agora vai e pratica o que aprendeste.” A mesma máxima, repetida posteriormente por Jesus, pode ser encontrada na Bíblia hebraica, no livro de Levítico.
A grande separação das águas, no entanto, acontece quando teólogos judeus e cristãos são forçados a debater o papel de Jesus enquanto Messias. Para os judeus, o Nazareno é um rabino que seguiu a senda de outros nomes grados da história do judaísmo, mas que nunca quis formar uma religião à parte – mas sim reformar por dentro, levando os judeus do seu tempo a repensarem a sua relação com Deus. Na verdade, a separação entre o judaísmo e os seguidores de Jesus acontece posteriormente, quando Saulo de Tarso (São Paulo) transforma em religião distinta o que até então era apenas uma seita judaica.
Apesar da existência de movimentos messiânicos , onde judeus assumem a sua crença em Jesus enquanto messias, a questão da divindade de Cristo assume-se como a barreira inexpugnável entre as duas visões.
Mas o judaísmo de Jesus não é apenas um tema de debate teológico. A essência transbordou também para a literatura. Em “Ulisses”, James Joyce coloca o seu personagem principal, o judeu irlandês Leopold Bloom, em confronto com um antisemita cristão nas ruas de Dublin. Nesta parábola carregada de simbolismo, o antisemita, tal como o ciclope enfrentado por Ulisses, tem apenas um olho. Às invectivas, Bloom responde perante a ira incontida do seu interlocutor: “Mendelssohn era judeu, como Karl Marx e Mercadante e Spinoza. E o Salvador era judeu e o seu pai era judeu. O teu Deus era judeu. Cristo era judeu, como eu.”
Um dos primeiros teólogos judaicos a abraçar o judaísmo de Jesus foi o rabino americano Stephen S. Wise, que num artigo intitulado “The Life and Teaching of Jesus the Jew”, datado de Junho de 1913, escreveu: “Nem protestos cristãos nem lamentações judaicas podem anular o facto de que Jesus era judeu, um hebreu dos hebreus.”

Notas
Para uma visão mais aprofundada do “cristianismo histórico” de um ponto de vista judaico, aconselho a leitura de Rabbi Yeshua ben Yosef’s “New Testament”, um trabalho interessante e obviamente polémico.

Festas Felizes
Aqui ficam os votos de uma quadra feliz para todos quantos têm passado aqui pela Rua da Judiaria. Assinalando a data, nesta antevéspera natalícia, esta prosa sobre Jesus, visto da margem de cá do rio das religiões.

*(Este post é uma versão “interactiva” de um trabalho deste vosso escriba publicado na edição de hoje da revista FOCUS)

Os Judeus de Cabo Verde

A Congregação Har Shalom, nos arredores de Washington DC, vai acolher no próximo domingo, dia 14, uma conferência sobre os judeus de Cabo Verde. Carol Castiel, jornalista da Voz da América e investigadora de genealogia sefardita, irá apresentar as conclusões de um dos seus estudos sobre a mais recente das comunidades judaicas de Cabo Verde, composta maioritariamente por famílias originárias de Marrocos e Gibraltar que se fixaram no arquipélago em meados do século XIX. A conferência tem a chancela da Jewish Genealogy Society of Greater Washington. Já agora, aqui vai a morada da Congregação Har Shalom, para quem estiver aqui deste lado do mundo e por lá quiser passar: 11510 Falls Road, Potomac, Maryland.
Um artigo interessante sobre a história mais remota dos judeus de Cabo Verde e da costa da Guiné – e as suas ligações aos judeus portugueses – pode ser lido aqui.

O primeiro livro impresso em Portugal

O primeiro livro impresso em Portugal saiu das oficinas tipográficas de D. Samuel Porteiro, um judeu de Faro, em 1487. Sensivelmente 30 anos após Johannes Gutenberg ter espantado o mundo ao imprimir em Mainz a sua famosa Bíblia, o primeiro livro a sair de uma tipografia portuguesa foi igualmente uma edição das escrituras sagradas… mas em hebraico. O Pentateuco – os cinco livros de Moisés que compõem a Torá, foi impresso recorrendo já a avanços em relação à tecnologia inventada por Gutenberg, entre os quais a utilização de caracteres metálicos móveis. O único exemplar conhecido desta edição ainda em existência encontra-se na colecção permanente da British Library, em Londres, que detém ainda outra obra pioneira em termos nacionais: o Comentário ao Pentateuco, do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nachmanides), o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, editado por Eliezer Toledano em 1487.
D. Samuel Porteiro imprimiu ainda em Faro, em 1488, uma edição de 22 volumes do Talmude do qual restam apenas fragmentos, uma vez que a Inquisição ordenou a sua destruição depois de D. Manuel ter decretado a expulsão dos judeus do reino de Portugal (e consequente conversão forçada ao Catolicismo), em 1497.


facsimile do Pentateuco hebraico, o primeiro livro imprenso em Portugal, no século XV

Shabbat Shalom! (II)

Esta sábado será lida nas sinagogas a Parshat Toldot. Segundo a Cabala, a leitura da Torá desta semana realça a nossa tendência natural para criar amizades e estabelecer empatias com pessoas com opiniões e modos de vida semelhantes aos nossos. Em contraste, temos uma tendência inata para nos afastarmos e para julgar os que não concordam connosco. De acordo com os cabalistas, a leitura da parshat Toldot estabelece uma ligação mística que enfraquece esta predisposição negativa, de forma a podermos viver sob a regra estabelecida 200 anos antes da era cristã pelo rabi Hillel de Jerusalém: “Ama o próximo como a ti mesmo.” Shabbat Shalom e uma boa semana!

Resgate de valor incalculável

Sepher Yetzirah, “O Livro da Formação”, é um dos principais pilares literários e teológicos da Cabala.. Atribuído pelos sábios judaicos e cabalistas ao Patriarca Abraão, o livro é um tratado de astrologia, astronomia e gematria contido em pouco mais de 35 páginas. Agora, uma das suas mais antigas cópias ainda em existência, datada do século XIV, foi devolvida à comunidades judaica de Viena, depois de ter sido roubado há 65 pelos nazis .

O “Judaismo” de Jorge Sampaio

A edição semanal do Jerusalem Post publicou no passado dia 7 uma entrevista bastante interessante com o nosso Presidente, que parece ter passado completamente despercebida à Imprensa nacional e aos comentadores do costume.
De uma forma muito diplomática – talvez mesmo desconfortável por vezes – Jorge Sampaio assume as suas raízes judaicas e responde a algumas perguntas incómodas do jornalista Michael Freund. Neto de uma judia de origem marroquina, Jorge Sampaio é, para todos os efeitos, e perante a Halakhah (a Lei Judaica), um judeu, ainda que não se reconheça como tal. Desterrado de Portugal, em terras de Los Angeles, foi com algum orgulho, confesso, que li nas páginas do Jerusalem Post a entrevista a Sampaio. Longe de Portugal, é mais fácil para mim distanciar-me das tricas quotidianas da politiquice nacional. Como judeu, só tenho pena que Sampaio não tenha abraçado na totalidade o seu judaísmo, agnóstico ou não.
A entrevista merece ser lida na integra.

Aqui vai:

Nov. 7, 2003

Portugal’s president:
‘I am proud of my Jewish ancestry’

By MICHAEL FREUND

With its marble floors, ornate furniture, and rare artwork, Lisbon’s Belem Palace could easily compete with some of Europe’s finest museums. Although not a cultural institution per se, the palace does serve a central function in the life of Portugal: It is home to the president of the republic, Dr. Jorge Sampaio.
Sampaio has served as president since 1996, having been re-elected to a second five-year term in 2001. Unlike in Israel, the presidency in Portugal is more than just a ceremonial post. He is commander-in-chief of the armed forces, and has the power to dissolve parliament and call for national elections.
Sampaio would have little difficulty being counted for a minyan: His maternal grandmother was from a Moroccan Jewish family. His cousin is president of the Lisbon Jewish community, and Sampaio has several distant relatives living in Israel.
In an interview with The Jerusalem Post, Sampaio discussed the rising tide of European anti-Semitism, Portuguese-Israeli relations, and his Jewish ancestry.


Mr. President, anti-Semitism is on the rise across Europe. Why does much of the continent seem unable to cure itself of this prejudice?

I have constantly denounced all forms of discrimination and xenophobia, be it of religious, ethnic, cultural, sexual, or any other nature. I obviously condemn any form of anti-Semitism…. The resurgence of anti-Semitism in Europe is a fact – although it is not a pattern – and must also be seen in the framework of the resurgence of other forms of xenophobia and racial hatred. These manifestations do exist and we must fight all of them with the same energy, attacking their causes, and prosecuting those that sow hatred and violence.

Anti-Israel and anti-Zionist sentiments in Europe often seem to be a cover for expressing anti-Semitic feelings under the guise of political opposition to Israeli policies. Why is Europe so critical of Israel? Is anti-Semitism a factor?
I believe that we must be careful with our assertions. I am ready to admit that some criticism of Israel might have some anti-Semitic motivations. But I absolutely reject that all criticism of Israeli policies has such motivations. In fact, many people who criticize such policies have the security of Israel and the well-being of the Israeli people at the core of their motivations, I for one. I do believe that Europe’s position has strived to be fair and balanced, even if, sometimes, we have not managed to make our position sufficiently clear.

The Portuguese Embassy in Israel sits in Tel Aviv, even though Jerusalem is Israel’s capital. Why won’t Portugal recognize Israel’s sovereign right to determine its own capital?
I know how important and sensitive this issue is for Israelis and most Jews. You know the historical context of this situation. We are bound in this matter by the collective decisions of the European Union. But I also want to tell you that my sincere wish would be for our embassy to move to Jerusalem as soon as possible, for that would mean that peace would finally be at hand.

Portugal was once home to a thriving Jewish community, which was cruelly persecuted and forced to convert in 1497. Has Portugal come to terms with what was done to the Jewish people on its soil?
We have come to terms with our own history, with its more brilliant and with its more shady aspects. The difference now is that all periods of our history are being studied and that we have today a much better knowledge of them. The ceremonies which took place on the 500th anniversary of the Decree of Expulsion, over which I presided with the then- speaker of the Knesset are proof of all this.

Five centuries ago, the Catholic Church and the Portuguese monarchy confiscated Jewish property, including synagogues and other communal structures. Shouldn’t they be returned to the Jewish people as an act of historical justice?
We cannot rewrite or relive history. We cannot go back centuries. We cannot today, after 500 years, redress a situation in material terms. I think we have redressed it in an historical perspective, and I think that all Portuguese, including Portuguese citizens that are Jewish, feel comfortable about it.

A growing number of Portuguese descendants of Jews who were forcibly converted to Catholicism during the Inquisition have recently begun to return to Judaism. What do you think of this phenomenon?
We are proud of our history and of our humanistic values, of the multicultural fabric of our society. If people adopt or return to Judaism, it is entirely a personal issue that enriches our cultural dynamics.

I understand that you have Jewish ancestry in your family. What is your personal connection to the Jewish people? Do you consider yourself to be a Jew?
My grandmother belonged to a Jewish family that came from Morocco in the beginning of the 19th century. She married a non-Jewish naval officer who later was Foreign Affairs minister. I am naturally very proud of this ancestry and of all those that I call my “favorite Jewish cousins,” one of whom is the president of the Lisbon Jewish Community, as I am proud of the ancestry on my non-Jewish father’s side. Personally, I am agnostic, and I do not consider myself a Jew; but I am proud, as I said, of my ancestors.

Has your Jewish background ever been an issue for you in politics?
The answer is no. Portugal, as I have said, is a democratic lay state. Issues of religion, culture, or race are not and should not be an issue in the political arena.

You visited Israel twice as mayor of Lisbon, but have yet to do so as the president of Portugal. Do you have any plans to visit Israel soon?
I would very much like to visit Israel again. I have very strong and enriching memories of my previous two visits. I follow closely developments in your country and in the region. The present situation saddens me very much indeed. And my sincere hope is that, amid all the present difficulties, Israelis and Palestinians can find a way by which to build peace and to end this tragedy and all the suffering it has entailed for both peoples.