Yitzhak Rabin (יצחק רבין (1922-1995

Segundo o calendário hebraico, comemora-se hoje a passagem do 9° aniversário do assassinato de Yitzhak Rabin, ocorrido no dia 12 do mês de Cheshvan do ano 5756 (4 de Novembro de 1995). Rabin foi abatido por um extremista israelita, momentos depois de ter participado num comício pela paz numa praça de Tel Aviv que hoje ostenta o seu nome. No palco, depois de discursar, o então primeiro-ministro israelita e Prémio Nobel da Paz juntara a sua voz ao imenso coro que entoou a canção שיר לשלום (A Canção da Paz). O papel com a letra da canção, que guardou no bolso, ficaria manchado com o seu sangue.

A não perder…

…a entrevista do escritor israelita Amos Oz à revista de domingo do diário espanhol El Mundo: “Palestinos e israelíes están dispuestos a crear dos estados. Lo que ocurre es que Sharon y Arafat son unos cobardes”. A reler também o artigo assinado por Oz há dois anos no New York Times, intitulado O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos.

“A Circulação da Informação” …ou a Arte das Manipulações

As forças armadas israelitas (FDI) reconheceram ontem que erraram ao acusar a ONU de auxiliar grupos terroristas por alegadamente transportar lança-rockets nas suas ambulâncias (ver notícia completa no Ha’aretz). Um avião não-pilotado, vulgo drone, captara há semanas imagens aéreas de um homem a carregar um longo objecto tubular para dentro de uma ambulância da ONU. O formato e as dimensões do objecto levantaram suspeitas e as FDI apressaram-se a acusar a ONU. Agora, ficou provado que o tal “objecto suspeito” não passava de uma simples maca. O blog Not a Fish posta uma foto retirada do diário Yediot Aharonot (ידיעות אחרונות), na qual um funcionário das Nações Unidas demonstra como as autoridades militares israelitas foram induzidas em erro pela aparência de uma maca dobrada.
No Terras do Nunca, João Morgado Fernandes, com a sua ironia habitual, escreve um post intitulado “a circulação da informação” que merece ser lido com atenção. Digo isto porque o João não é um blogger qualquer. É um jornalista com responsabilidades na secção Internacional de um dos diários portugueses “de referência”.
No seu post, João Morgado Fernandes ridiculariza as acusações e receios israelitas (entretanto já desmentidos), esquecendo que nem tudo é a preto e branco no conflito israelo-palestiniano. A verdade é que a utilização de ambulâncias das Nações Unidas por membros armados do Hamas não é novidade e foi já documentada por diversas vezes.
A foto de cima, que ilustra este post, é retirada de imagens recolhidas nos territórios ocupados por um repórter da agência Reuters a 11 de Maio passado, mostrando um grupo de palestinianos armados a fugir numa ambulância da ONU. Curiosamente, ou talvez não, a notícia na altura não chegou à Europa e o próprio responsável máximo da UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East) chegou a reconhecer que era “perfeitamente natural” que a agência da ONU empregasse militantes do Hamas, uma organização terrorista responsável pela morte de centenas de civis. O vídeo da Reuters pode ser visto na íntegra clicando aqui (formato Windows Media).
Como é fácil comprovar, as acusações israelitas das últimas semanas em relação à UNRWA, apesar de se provarem agora infundadas, não apareciam de geração espontânea e eram fundamentadas na experiência de um passado bem recente.
A “circulação da informação”, como lhe chama o João, tem tendência a funcionar em sentido inverso. Basta recordar a forma absolutamente irresponsável como alguma imprensa europeia cobriu o célebre “massacre” de Jenin. O “massacre” nunca existiu, mas dele ficou o mito, atirado desde então como argumento em debates sucessivos sobre o Médio Oriente. Alguns jornais mais responsáveis, como o Guardian, deram-se ao trabalho de tentar perceber a origem do erro e dos preconceitos. Para que se aprenda com o passado, é um texto velho de dois anos que vale bem a pena ler: Guardian.co.uk – How Jenin battle became a “massacre”.

Vozes do Conflito I: Erro e Queda de Arafat

“Quando os Palestinianos se mostram empenhados no processo de paz, um dos seus maiores aliados é a opinião pública israelita. Desfazer esta preciosa aliança foi um dos maiores erros de Arafat.”

Dennis Ross, negociador americano do processo de paz israelo-palestiniano entre 1988 e 2001 e autor do recente livro “The Missing Peace: The Inside Story of the Fight for Middle East Peace”.

A discussão em torno do conflito israelo-palestiniano, para quem está longe do seu epicentro – em Portugal ou no Brasil, como a maioria dos meus leitores, por exemplo –, é muitas vezes enformada por noções preconcebidas e reacções pavlovianas distanciadas. Essa distância, que não é só geográfica, é adensada por coberturas noticiosas que reflectem muitas vezes esses mesmos preconceitos, eternizando um ciclo irreflectido. De fora tendem a ficar as vozes dos que vivem o conflito no seu dia-a-dia. E, com frequência, essas vozes não escutadas são israelitas.
Por isso mesmo, e movido também em parte pela inesperada popularidade deste blog, vou tentar trazer periodicamente à Rua da Judiaria algumas dessas vozes. A primeira é Imshin, o pseudónimo da autora de um blog israelita, reflectido e bem escrito, chamado Not a Fish (provincially speaking). No post que aqui se transcreve, Imshin traduz um sentimento de frustração e impotência que é comum aos israelitas que acreditaram em Oslo e pressionaram o governo no caminho da paz com manifestações de rua constantes. Os que então se manifestaram nas ruas de Tel Aviv sentem-se hoje traídos. Traídos, acima de tudo, por Arafat. Traídos por terem um dia acreditado que o líder da Autoridade Palestiniana estaria de facto interessado em assinar a paz com o seu punho. Os analistas políticos israelitas colocam sob os ombros de Yasser Arafat o ónus do descalabro eleitoral da Esquerda israelita – aqueles que foram os seus parceiros de diálogo.

Orgulho e Preconceito
por Imshin, em Israel

Vi hoje, num canal de satélite de Israel, Casamento Fictício (נישואים פיקטיביים), um filme israelita feito nos anos 80. Somos uma “sociedade racista”, e por isso mesmo vemos regularmente nos nossos canais de televisão filmes israelitas que contam as histórias do sofrimento palestiniano, especialmente em canais subsidiados pelo estado. O filme transportou-me a uma época em que, pelo menos para mim, nós estávamos do lado errado; quando os palestinianos eram parte integrante das nossas vidas quotidianas e nós os tratávamos mal.
A situação, tal como é descrita no filme, e os sentimentos de culpa de muitos judeus israelitas, incluindo eu própria, levou-nos às ruas em massa, exigindo mudança. A pressão pública, aliada à segunda intifada (a primeira intifada, na minha opinião, ocorreu entre 1936 e 1939, contra o Mandato Britânico, o actual conflito, esse, não é intifada, é guerra) resultou nos Acordos de Paz de Oslo, e na cedência de uma larga porção dos territórios a uma administração sob Arafat, no caminho para a independência e a criação do estado palestiniano (“sociedade racista”, lembram-se?).
Ao ver o filme pude recordar os sentimentos e identificar-me com a mensagem. Pude também perceber a diferença na actual situação dos palestinianos. Eles tiveram uma maravilhosa oportunidade para construir uma vida melhor e pura e simplesmente desperdiçaram-na. Pegaram na nossa boa vontade a atiraram-na às nossas caras, “seus idiotas”.
Hoje eles já não fazem parte das nossas vidas da forma como antes o fizeram. Terroristas sanguinários, de um tipo nunca antes visto, filhos bastardos dos mesmos Acordos de Oslo que supostamente deveriam ter resolvido o problema, forçam-nos a ignorar a maioria dos palestinianos. Outros ocupam agora os empregos que em tempos lhes pertenceram. Não podem já meter-se nos seus Peugeot 404 (o último carro construído para durar uma vida inteira) e ir de Han Younis a Rishon Letzion. Na vida real, os filhos dos trabalhadores de Gaza do filme Casamento Fictício provavelmente nunca viram os novos arranha-céus de Tel Aviv.
Mesmo a prosperidade que os palestinianos viveram durante os anos de Oslo, quando israelitas afluíam em peso à Cisjordânia para comprar tudo, desde mobílias a tratamentos dentários, há muito que se perdeu e ficou esquecida. Desapareceu do dia para a noite, quando decidiram renegar as promessas de abandonar o caminho da violência, atacando Israel no Verão de 2000 na esperança de extorquir assim dividendos mais proveitosos.
Mas eles, estes filhos de Oslo e do terrorismo, possuem algo que os seus pais nunca tiveram. Eles já não são invisíveis. Podem ser vistos como “o inimigo”, mas isso mesmo é um sinal de respeito, não é? E pelo que lhes falta, por razões óbvias, ódio é bem melhor do que escárnio, ou pior, do que indiferença.
E pensado nisto, sou capaz de perceber porque razão os palestinianos preferem a Direita à Esquerda israelita, não importa o que possam dizer frente às câmaras ou aos pálidos europeus idiotas de sandálias Birkenstock que frequentam Jenin e Ramallah. Porque a Direita israelita os encara como adversários, enquanto a Esquerda os vê como miskenim (pobres coitados).
A Esquerda Israelita é motivada por um sentimento de culpa e por pena, e não há nada mais degradante do que ser alvo de pena. Eu também preferiria ser odiada ou temida.

Traduzido e adaptado de um post homónimo de Imshin, autora do blog israelita Not a Fish (provincially speaking).

:: NOTA :: Apesar de pessoalmente não concordar com tudo o que Imshin escreve neste post, acredito que o testemunho é representativo e vale por si próprio. Mais leituras:ima edição da revista de fim-de-semana do New York Times, o jornalista James Bennet, assina um excelente trabalho de capa, intitulado Sharon’s Wars. Numa amostra do que pode, e deve, ser o jornalismo feito para a Internet, o New York Times tem ainda disponível uma notável reportagem multimédia bastante aprofundada sobre as complexidades e desafios da sociedade palestiniana, um trabalho francamente bem feito a não perder, igualmente da autoria de James Bennet.

Theodor Herzl – תיאודור הרצל

(2 de Maio de 1860 – 3 de Julho de 1904)

::A LER:: Theodor Herzl – Wikipedia / Theodor Herzl – Jewish Virtual Library / Theodor Herzl, The Jewish State, 1896 (edição integral do livro on-line) / E-Notes: Theodor Herzl: An Appreciation – FPRI / Centenary of the Death of Theodor Herzl / Theodor Herzl Books and Articles – Questia Online Library / Resources and Articles by Theodor Herzl / The Dreyfus Affair, and The Rise of Political Zionism / Beyond the Pale: The Dreyfus Affair / Alfred Dreyfus and “The Affair” – Jewish Virtual Library / “The Dreyfus Affair” / J’Accuse…! – Émile Zola / J’Accuse…! (versão inglesa anotada) / “J’ACCUSE …!” EMILE ZOLA, ALFRED DREYFUS, AND THE GREATEST NEWSPAPER ARTICLE IN HISTORY / 1893-1895 – Rui Barbosa e Dreyfus / HISTÓRIA – O Caso Dreyfus – Os Intelectuais e os Direitos do Homem / Crónicas – O centenário do ‘Caso-Dreifus – José Silveira / Haaretz – Was Herzl mistaken?

Paz – שלום

שלום

Sábado à noite, em Tel Aviv, cerca de 200 mil pessoas manifestaram-se em nome da paz, a favor da retirada dos territórios ocupados. Na mesma praça onde Yitzhak Rabin foi assassinado, em 1995. As últimas sondagens, mesmo as de jornais conservadores como o Maariv, mostram que 80% dos israelitas querem o fim da ocupação e o reatar das conversações de paz. Não se queimaram bandeiras. Não se pediu a morte de ninguém. Não se viram armas no ar. שלום. Simplesmente שלום.

שלוםשלום

שלוםשלום

שלום

A Ler: Maariv International – Over 150,000 call for Gaza withdrawal / NPR Audio: Israelis Call for Gaza Pullout at Peace March / Haaretz – Over 150,000 attend rally calling for Gaza withdrawal / Haaretz – `The majority’ is waking up / Jerusalem Post – Peres: We must not support gov’t that follows the Right / Haaretz – The left won t be held hostage by the Likud / Jerusalem Post – Katsav: Majority supports Gaza withdrawal / New York Times News Services – Israelis rally for pullout from Gaza / swisspolitics.org Israelis rally for Gaza pullout / Reuters News – Gaza Pullout Rally Draws Tens of Thousands in Israel CBS News Mass Israeli Rally For Gaza Exit / Maariv International – 79 percent of Israelis want to withdraw from Gaza / The Guardian – 100,000 tell Sharon to get out of Gaza / The New York Times > Opinion – Tyranny of the Minorities

A Paz

“A maioria dos conflitos – tanto individuais como internacionais ou intercomunais – não se resolvem; desvanecem-se por fadiga e exaustão – não quando uma das partes abre os olhos e se apercebe dos erros e abraça o outro dizendo, “ó irmão, ó irmã, o que é que eu te fiz? Será que me podes perdoar? Toma lá a terra, quero lá saber da terra. Dá-me antes o teu amor.” Nada disto. Fadiga, exaustão, cada uma das partes ainda defende que estava certa e a outra errada, mas, mesmo assim, estão pelos cabelos e aprendem a coexistir.”

Amos Oz, escritor israelita, em entrevista ao programa NewsHour, da cadeia pública de televisão americana PBS, em Janeiro de 2002.

O Novo Rosto do Terrorismo?

Sharmute!

Abdallah Koran

Esta criança recebeu 5 shekels (menos de 1 euro) para transportar uma mochila com 10 quilos de explosivos perto da cidade de Nablus. Os 5 shekels foram pagos ao pequeno Abdallah Qar’an, contam as notícias, por dois tanzim, membros das “Brigadas dos Mártires de Al Aqsa”. A criança desconhecia o conteúdo da mochila e acreditava tratar-se de “peças de automóvel”. Desde o início da segunda intifada, em Setembro de 2000, 29 atentados suicidas foram cometidos por menores, alguns deles usados pelos grupos terroristas sem noção do que faziam. Ontem, no seu Guia dos Perplexos, José citava o comunicado que reivindicou a matança em Madrid: “‘vocês amam a vida e nós amamos a morte’. Deve ser aqui que se passa ao choque de civilizações.”

:: A LER:: Terror Friends try to Turn Boy Into Bomb / Detention of Palestinian boy draws attention to use of youths by militants / IOL : ‘Militants wanted to blow up 10-year-old boy’ / The sixth-grade Shahid / BBC NEWS | Middle East | Israel arrests boy with bomb / B’Tselem – Press Releases – 16 March 2004: Using Children in Combat – A War Crime

Novo Antisemitismo?

As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo

Ilustração Foreign Policy Magazine, edição Novembro/Dezembro de 2003 – The New Face of Anti-Semitism

Como o tema é pesado, comecemos com uma anedota. Esta vem da Hungria: Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, um húngaro encontra um amigo na rua. Vendo-o muito sorridente, pergunta-lhe porque está tão feliz. “Ouvi dizer que os israelitas abateram hoje seis caças MIG de fabrico soviético”, responde o outro. No dia seguinte os dois voltam a encontrar-se, desta vez o amigo está ainda mais radiante: “Os israelitas abateram mais oito MIGs”, conta ele. No terceiro dia o amigo está agora cabisbaixo. “Então? Os israelitas não abateram mais nenhum MIG?”, pergunta o outro tentando perceber a razão da tristeza. “Abateram sim, mas hoje explicaram-me que os israelitas são judeus.”
A anedota, contada num artigo recente por Uri Avnery, jornalista israelita e activista pela paz, parece dizer muito em poucas linhas. Avnery prossegue: “O antisemita odeia judeus por eles serem judeus, independentemente das suas acções. Os judeus são odiados porque são ricos e ostentativos ou porque são pobres e vivem na miséria. Porque desempenharam um papel fundamental na revolução bolchevique ou porque alguns ficaram ricos depois do colapso do regime comunista. Porque crucificaram Jesus ou porque infectaram a cultura ocidental com “a moralidade cristã da compaixão”. Porque não têm pátria ou porque criaram o estado de Israel. Esta é a natureza de todos os tipos de racismo e chauvinismo: odeia-se alguém por ser judeu, árabe, mulher, negro, indiano, muçulmano, hindu. Os seus atributos pessoais, as suas realizações e proezas são irrelevantes. Se alguém pertencer à maldita raça, religião ou sexo será odiado.
No mesmo artigo, Uri Avnery interroga-se: “Será possível que todos os que criticam Israel sejam antisemitas? Absolutamente não.” Eu concordo. Também em absoluto. Só que há antisemitismo e antisemitismo e a definição de Avnery, do chamado “antisemitismo clássico”, fica muito aquém de enquadrar as subtilezas da actual judeofobia. Vou mais longe: muito do discurso de alguns que criticam Israel assenta nos mitos do antisemitismo, moldados agora a uma outra realidade e com outras motivações.
O debate em torno do chamado “novo antisemitismo” é fundamental e recentemente temos assistido a algumas contribuições honestas para a sua fruição. Incluo neste lote o artigo que Vital Moreira escreveu a 24 de Fevereiro no Público, citando um texto de Edgar Morin publicado no Le Monde. Não é a primeira vez que escrevo aqui sobre o antisemitismo, nem sobre a forma como o debate em torno do conflito israelo-palestiniano tem sido enquadrado. Também não é a primeira vez que estabeleço este diálogo com Vital Moreira (ver “Vital Moreira Errou”). Apesar de não concordar com muito do que escreveu no artigo, reconheço em Vital Moreira a honestidade intelectual de quem quer não só debater, mas também encontrar soluções. Mesmo assim, este post não pretende ser uma resposta a Vital Moreira, mas apenas uma contribuição pessoal para este debate. Não reclamo ter todas as respostas. Tenho, isso sim, muitas perguntas.

No passado fim-de-semana o judaísmo celebrou mais uma das suas festas religiosas, o Purim, uma celebração que anualmente reconta a antiguidade do antisemitismo. Resumidamente, o Purim comemora um acontecimento ocorrido na Pérsia, há milhares de anos, quando os judeus escaparam ao extermínio decretado por Haman, um conselheiro do rei Artaxerxes, que reinou entre 484 e 425 antes da Era Comum. O episódio, relatado no Livro de Ester, não explica as razões do ódio que motivara a ordem de extermínio contra os judeus.
Apesar de todas as formas de racismo e xenofobia serem execráveis na essência, infelizmente o antisemitismo não pode ser catalogado como uma simples variante destas aberrações sociológicas.
Num livro em que analisou com acutilante lucidez o antisemitismo entrincheirado na sociedade francesa, (Réflexions sur la Question Juive) Jean-Paul Sartre escreveu: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa – e por isso ele próprio tornou-se um taboo. É evidente que não podemos encontrar aqui a explicação para o antisemitismo moderno; mas se o antisemita escolheu o Judeu enquanto objecto do seu ódio, é por causa do terror religioso que este sempre inspirou.”
Descrito pelos historiadores como “o mais antigo ódio do mundo”, pelas suas raízes históricas, pelas suas consequências práticas ao longo dos séculos – da Inquisição às expulsões, passando pelos pogroms até se chegar ao Shoá –, o antisemitismo infelizmente reveste-se de um carácter singular inegável. É parte integrante do património macabro da humanidade. E no museu de horrores da História possui uma ala própria.
À partida, dizer que o antisemitismo que hoje se vive na Europa deriva exclusivamente do conflito israelo-palestiniano é contar uma meia verdade – é simplificar o monstro. É olhar apenas para uma das suas milhentas cabeças, esquecendo-lhe as mandíbulas e as garras afiadas. Mas é assim que se pretende definir o problema.
“A violência de que os judeus são hoje alvo apresenta-se sempre como solidariedade com a causa palestiniana. Alimenta-se das imagens da intifada”, afirma o filósofo francês Alain Finkelkraut. Mas a questão filosófica que se coloca é bem mais subtil e infinitamente mais complexa: será a causa palestiniana que alimenta o antisemitismo, ou será a causa palestiniana alimentada pelo antisemitismo?
Antes de prosseguir, para evitar mal-entendidos, e especialmente para aqueles que lêem este blog pela primeira vez, gostaria de abrir um breve parêntesis para sublinhar a minha posição pessoal face ao problema: sou a favor da solução normalmente designada “dois povos, dois estados” – uma Palestina livre, democrática, autónoma e economicamente viável, ao lado de um estado de Israel onde a segurança dos seus cidadãos é salvaguardada. Sempre me manifestei contra a ocupação dos territórios, contra a manutenção dos colonatos, contra a política de Ariel Sharon e contra a duplicidade hipócrita de Yasser Arafat. Sou contra a pesada subjugação militar de uma população brutalmente carenciada e sou contra a injustificável violência terrorista dos atentados suicidas. Contraditório? Não. Por tudo isto, gostaria de ressalvar que escrevo aqui sobre o conflito não porque pretenda retirar legitimidade à causa palestiniana, bem pelo contrário, mas apenas porque acho fundamental que se analisem os fenómenos para além das suas superfícies aparentes. Aqui vai a tentativa de fazer isso mesmo.

Desde o colapso do processo de paz de Oslo e do desencadear da intifada de Al-Aqsa, em Setembro de 2000 que o conflito israelo-palestiniano tem gerado opiniões gradualmente mais hostis em relação a Israel. Muitas das criticas centram-se no facto de Israel ser um país desenvolvido, relativamente forte, que usa o seu poderio militar para manter uma ocupação sobre um largo segmento da população palestiniana, politicamente e economicamente desfavorecida. À medida que a violência se torna cada vez mais brutal de ambos os lados, com as assimetrias entre israelitas e palestinianos, aliadas à determinação de Sharon em manter a ocupação, registou-se uma degradação gradual tanto do apoio a Israel na Europa como da própria imagem de Israel no mundo.
Sob este prisma, as críticas a Israel são moralmente justificáveis, perfeitamente aceitáveis e legítimas. Não o serão, a meu ver, numa vertente sociológica, e não moral, tal como esta é definida por Max Weber, quando se coloca em causa a existência do próprio estado de Israel. Mas já lá iremos.
No entanto, há sérias razões para duvidar que a oposição a Israel se deva exclusivamente às políticas do seu governo face aos palestinianos. A atenção que se volta sobre Israel contrasta de forma gritante com a indiferença passada e presente face a atrocidades cometidas por outros países. A oposição da opinião pública europeia face a Israel deve ser contrastada com o seu silêncio perante continuadas violações dos direitos humanos numa escala significativamente mais elevada praticados, por exemplo, pelas campanhas militares de Slobodan Milosevic no Kosovo e antes na Bósnia. O massacre de mais de seis mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, apesar de ter chocado alguns, não motivou manifestações de massas nem levou à “demonização” da Sérvia nem apelos ao boicote de universidades sérvias. Milosevic senta-se agora no banco dos réus em Haia, acusado de crimes de guerra, ao mesmo tempo que a opinião pública europeia, e especialmente a esquerda, permanece maioritariamente indiferente.
Outro exemplo pode ser encontrado no brutal esmagamento da revolta dos separatistas muçulmanos na Chechnya por parte da Rússia, que apenas ocasionalmente tem sido mencionada por grupos de defesa dos Direitos Humanos. A Imprensa europeia dedica um espaço mínimo à Chechnya e a opinião pública dá também mostras de pouco interesse.
Tanto no caso dos Balcãs como no da Chechnya, o nível da violência e as graves violações dos Direitos Humanos têm sido muito maiores do que aquelas geradas pelo conflito israelo-palestiniano.
Então porquê só Israel e não também a Rússia, a Sérvia, ou mesmo a China, a Índia e o Paquistão?
Mais uma vez repito que as críticas e condenações não deixam de ser justificadas. Israel não é, e não poderá nunca ser, imune a críticas. Enquanto tudo isto não pode nunca ser encarado como uma justificação dos actos de Israel nos territórios ocupados, a verdade é que levanta sérias questões quanto aos motivos por detrás da imensa onda de hostilidade face a Israel. Acima de tudo, considero fundamental que seja feito um enquadramento global.
Uma das respostas possíveis passa pelo antisemitismo, esse fenómeno milenar embrenhado no subconsciente colectivo europeu. A importância da judeuofobia europeia neste processo não pode ser minimizada, ao contrário do que defendem alguns.
Acima de tudo, é forçoso acompanhar as morfologias do antisemitismo. Da extrema-direita fascista e ultra-nacionalista, o discurso antisemita, e muitas das suas mitologias, faz agora parte do imaginário do outro lado do espectro político.
“O antisemitismo que hoje prevalece não é o mesmo do passado. Nada tem a ver com o racismo que defendia um qualquer ideal nacionalista. Hoje é um antisemitismo em nome dos oprimidos. Não se trata de um antisemitismo racista, mas sim de um antisemitismo ‘anti-racista’”, defendeu Finkelkraut numa conferência recente.
O judeu enquanto pária social tem sido objecto de inúmeros tratados, ensaios e romances. A sua caracterização cabe aqui como parte da discussão destas raízes. No livro que acima referi, Jean-Paul Sartre refere-se também a essa condição: “Este é talvez um dos significados de O Julgamento de Kafka, ele próprio um judeu. Tal como o herói deste romance, o Judeu está envolvido num longo julgamento. Ele não conhece os seus juizes, raramente os seus próprios advogados; ele não sabe do que é acusado, mas mesmo assim sabe que é considerado culpado; a sentença final é continuamente adiada – por uma, duas semanas – e ele aproveita estes atrasos para melhorar sua posição em milhares de formas possíveis, mas cada precaução tomada ao acaso empurra ainda mais o espectro da culpa. A sua situação externa pode parecer brilhante, mas o julgamento interminável fá-lo definhar, e por vezes acontece, tal com no romance, que homens o carreguem sob a pretensão de que perdeu o caso, e o assassinam num qualquer baldio dos subúrbios.”
Neste debate actual existem duas posições extremadas: os que negam a existência de uma nova forma de antisemitismo e os que consideram antisemitas todas as críticas a Israel. Em pólos opostos, os argumentos deste dois campos falham em ir além da superfície.
“A solução do problema não está em bem intencionadas e ritualizadas condenações do racismo e do antisemitismo. Temos de reconhecer o facto de que muitas pessoas com educação superior não reconhecem o ódio aos judeus a não ser quando este lhes é apresentado vestido com um uniforme nazi. O problema é que a saudação ‘heil Hitler’ já não é o principal critério para medir o antisemitismo”, escreveu, em Junho do ano passado, o professor Robert Wistrich, historiador e director do Vidal Sassoon International Center for the Study of Antisemitism, da Universidade Hebraica de Jerusalém.
A diferença entre o “velho” e o “novo” antisemitismo é que este hoje já não é institucional, como o foi na Europa durante séculos. Agora apresenta-se, acima de tudo, como uma opinião.
As sociedades democráticas ocidentais tendem a acreditar – como matéria probatória da sua própria essência – na obrigatoriedade de aceitar todos os tipos de opinião, ao abrigo dos conceitos de Liberdade de Expressão. Mas será o antisemitismo simplesmente uma opinião? Em Réflexions sur la Question Juive, Sartre responde: “Antisemitismo não se enquadra na categoria de ideias protegidas pelo direito de livre opinião. Na verdade é bem diferente de uma ideia. É antes de mais uma paixão. (…) Longe da experiência produzir esta ‘ideia’ do judeu, é esta que enforma a experiência. Se o judeu não existisse, o antisemita haveria de o inventar.” Mais à frente acrescentaria uma frase emblemática já citada neste blog: “Il ne s’agit pas là d’une opinion mais d’un délit.”
Na prática, e em última análise, o antisemitismo é irracional e desafia qualquer enquadramento lógico. Por isso mesmo desisti há muito de entrar em discussões com antisemitas. Não vale a pena. É uma perda de tempo. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar dissuadir racionalmente um homem de algo que ele não concluiu pela razão.”
A discussão – no sentido construtivo do termo – tem de ser feita e mantida com aqueles que recorrem agora ao imaginário e à mitologia antisemita, muitas vezes, acredito, de forma inconsciente e não deliberada.

[Para quem ainda alimente dúvidas sobre a definição da palavra antisemitismo aconselho a leitura do excelente post Anti-semitismo: o que é?, de R.J. Oliveira no Super Flumina; e ainda este no Crónicas Matinais, de Ana Albergaria. Para evitar qualquer tipo de dúvidas, optei há muito por retirar o hífen quando escrevo antisemitismo.]

Não vou aqui abordar a evolução semântica da palavra sionismo (ficará, provavelmente, para posts futuros), mas o facto da sua conotação negativa actual estar totalmente desenraizada do seu contexto não é alheio à “demonização” de Israel e ao mito da incompatibilidade entre a existência de dois estados, livres e independentes. Como escreveu Miriam Greenspan, “a confluência do antisemitismo e do anti-sionismo gerou o complexo híbrido de Intolerância e fanatismo que hoje emerge”.
Para demonstrar que uma e outra coisa não são incompatíveis, “Sionista e pró-Palestiniano” foi o título escolhido para uma série de conferências efectuadas no ano passado por um grupo de intelectuais judeus franceses, entre eles o acima citado Alain Finkelkraut e Bernard-Henri Lévy. Concordo com o slogan e adopto por inteiro aquilo que ele pretende encapsular: a existência inequívoca do estado de Israel, defendendo ao mesmo tempo o fim da ocupação e a criação de um estado palestiniano independente e viável. Para os que preferem olhar a realidade através de dicotomias simplistas, esta posição parecerá inconciliável.
Mais uma vez, chamo a atenção dos meu leitores para The New Anti-Semitism, um texto notável de Miriam Greenspan, que aqui já citei por várias vezes. A minha posição pessoal identifica-se na totalidade das opiniões por ela expressas.
Nesse artigo (ver The New Anti-Semitism), Miriam Greenspan escreve: “Ao abordar a questão israelo-palestiniana, recordo a velha história de três cegos que apalpam um elefante. Aquele que tacteia a tromba diz que é uma cobra. O que sente só a perna diz que é o tronco de uma árvore. O que toca no dorso diz tratar-se de uma parede. Todos partilhamos a ‘cegueira’ da parcialidade mas mesmo assim falamos como se a verdade, toda a única, nos pertencesse. Quantos dos leitores da The Nation também lêem a Jewish Week? Quantos leitores do jornal oficial da Autoridade Palestiniana também lêem o Ha’Aretz? Qualquer um pode encontrar “factos” para apoiar praticamente qualquer posição acerca de Israel e da Palestina. Os factos, eles próprios, são matéria disputada e nem todos somos especialistas académicos em Médio Oriente. O que decidimos acreditar e qual a “linha” a que aderimos depende muito mais das nossas emoções do que gostaríamos de admitir. E essas emoções podem incluir um preconceito consciente ou inconsciente contra judeus, mas também um preconceito consciente ou inconsciente contra árabes. A história das relações israelo-palestiniana será sempre contestada, escrita tanto pelas nossas não-declaradas paixões primitivas como pelo exercício da nossa colecção de “factos” preferidos. Os mitos históricos tendem a ser imutáveis e inflexíveis – não deixando espaço para contradições desconfortáveis. Eles mantém a sua integridade à custa da supressão de outros factos desconcertantes que podem levantar ansiedades sobre se estamos do lado dos ‘bons’ ou dos ‘maus’ – especialmente em áreas onde existem imperativos morais.”
A leitura de Miriam Greenspan aplica-se a ambas as partes. Aos dois lados do conflito. Lembrei-me disto quando na semana passada assisti a uma acesa polémica sobre os palestinianos com aspas ou sem aspas (que passou pelo Barnabé, pelo Homem a Dias, pelo Aviz, pelo causa nossa e pelo Avatares de um Desejo). Como escreveu Francisco José Viegas: “Nisto, cairíamos na chamada elucubração adversativa, ou seja: nunca citaríamos um argumento sem que o outro dissesse, logo a seguir, “sim, mas o contrário também existe”, e assim por uma larga eternidade, que é o tempo em que já deveríamos ter concluído essa “discussão despreconceituosa do conflito israelo-palestiniano”, como escreve. Não se pode é, creio eu, invocar o mal de um só lado quando se fala deste assunto.”

Um dos grandes problema de discurso é a colagem, generalizada e indiscriminada, de todos os judeus às políticas de Israel – algo que, honestamente, tenho muitas dificuldades em não designar como antisemitismo. Chamo a atenção para uma boa análise sobre isto mesmo feita no blog Pagan Days, num post intitulado “Generalizações”.
À luz disto, o discurso que defende existir uma separação estanque entre justificadas críticas às políticas de Israel e o antisemitismo é demonstrativo, antes de mais, de uma cegueira selectiva.
Quando, em 2002, José Saramago comparou Jenin a Auschwitz falou dos “judeus” como executores de um “novo Holocausto”. “Os judeus”, repare-se. Não os militaristas, os “falcões” de Israel, não a direita de Sharon, mas “os judeus”. Todos. Subitamente os judeus são novamente reduzidos a uma caricatura e mergulhados mais uma vez numa iconografia irreflectida, ruinosa e abismal que deveria arrepiar qualquer mente pensante. Mas não. Aparentemente.
O socialista alemão August Bebel descreveu um dia o antisemitismo como “o socialismo dos tolos”. Não nos podemos esquecer que antes dos comunistas, nas mentes primaristas, eram os judeus quem “comia criancinhas ao pequeno almoço”. E foi assim durante séculos. Mas o que fazer então das críticas, por mais legítimas que sejam, que abraçam os “eternos” mitos propagados há séculos pelos antisemitas?

Cartoon contra a Barreira (ou muro) de Segurança Israelita

Postal de Propaganda Nazi, mostrando ‘o judeu’ como uma cobra

Iconografia Nazi – ‘o judeu’ como ‘ninho de víboras'

Propaganda Nazi: a “cobra judaica ataca a Alemanha

Propaganda Árabe: a ‘cobra’ israelita é degolada pelos árabes

Que diferenças, em termos iconográficos, existem entre a primeira representação (uma imagem publicada recentemente no Blogue de Esquerda) e a segunda (ver especialmente o terceiro postal), ou ainda mais esta?
Obviamente que alguns me dirão que são “muito diferentes”, mas a verdade é que uma discussão intelectual honesta terá de ir além da superfície e reconhecer, admitir mesmo, a essência das “fontes de inspiração”. Durante séculos, a teoria da “semente da serpente” – ainda hoje prevalecente entre “igrejas” e grupos para-religiosos antisemitas e racistas, como a Aryan Nations, a Ku Klux Klan e a World Church of the Creator, entre outras – professou que os judeus são descendentes da “relação adúltera de Eva com o Diabo”, que a terá tentado “em forma de serpente” (ver The “Christian Identity” Movement). Durante toda a Idade Média os judeus na Europa eram habitualmente identificados como “serpentes”, apontados com a progénie do Diabo. A imagem permaneceria adormecida no subconsciente colectivo até ser recuperada novamente pelos nazis. Agora, pelos vistos, volta a reaparecer, aos olhos de todos, como se fosse apenas mais uma “opinião”. Como se fosse inocente e tivesse nascido de geração espontânea. Ou da imaginação de um cartoonista ingénuo. Para uma reflexão interessante aconselho uma passagem, por exemplo, pela página de cartoons do “Movimento Nacional Socialista Chileno”, disponível aqui Dibujos y comics, e depois para ler um pouco mais sobre esta “organização”, clique-se aqui.
Na minha opinião, é necessário e urgente analisar e expurgar estas relações incestuosas, esta promiscuidade entre as posições da nossa esquerda, mesmo quando assumidas em críticas legítimas, e um repugnante subconsciente antisemita que obviamente não só não foi apagado como se vê agora renascido com novas roupagens. E com estranhas e inóspitas alianças.
A recorrente sensibilidade face às minorias, que perpassa o todo do discurso da esquerda, possui hoje uma fronteira rígida no que toca aos judeus. A homogeneização, o tomar o todo pela parte, o recurso ao simbolismo e imaginário do “velho” antisemitismo continuam a prevalecer entre aqueles que dizem defender os direitos humanos, os oprimidos e as minorias. Ao contrário do que muitos afirmam, o único ódio socialmente aceitável na era do politicamente correcto é o ódio ao judeu, ainda que muitas vezes encapotado e dissimulado como “crítica legítima”. Existem milhentas críticas legítimas a Israel, eu – e uma multidão de judeus comigo – serei dos primeiros a reconhecê-lo. Mas existem formas variadas de conceptualizar ideias e críticas, que não têm de passar pelo recurso às antigas e estafadas fórmulas judeofóbicas.
Não deixa de ser curioso, irónico mesmo, que se argumente que hoje em dia “não se pode criticar os judeus”, não se pode “dizer mal de Israel”, que tudo isto é agora “proibido” em nome do politicamente correcto. “É preciso ter coragem e não ter medo” para criticar os judeus, escrevia recentemente o autor anónimo de um blog português. Na realidade, para qualquer observador honesto, o que verdadeiramente se passa é o inverso: politicamente correcto é dizer mal de Israel (muitas vezes apenas com reacções pavlovianas e mal informadas) e meter os judeus todos no mesmo saco. Politicamente incorrecto, infelizmente, é defender o simples direito de Israel existir. Ou falar do antisemitismo. A este respeito aconselho a leitura de um artigo de Melanie Phillips, intitulado Return of the Old Hatred reproduzido no dia 4 de Fevereiro no Contra a Corrente.
Em Fevereiro do ano passado o rabino americano Michael Lerner, director da revista Tikkun e activista pela paz, foi impedido de discursar num comício contra a guerra no Iraque porque um dos grupos organizadores se recusou a aceitá-lo por causa das suas “posições pró-israelitas”. Quem alguma vez leu a revista Tikkun terá obrigatoriamente de ficar, no mínimo, boquiaberto. Acusado por alguma direita israelita – e da Diáspora – de ser um “traidor” por defender o fim da ocupação e o respeito pelos Direitos Humanos do povo palestiniano, Lerner era agora ostracisado também no seio da esquerda e do movimento pacifista americano. O seu “crime”: defender o direito à existência de Israel.
Uma petição em favor do rabino foi publicada em vários jornais americanos, assinada por um grande número de figuras marcantes da esquerda norte-americana, entre eles o historiador Howard Zinn, o sociólogo Maurice Zeitlin; Marc Cooper, editor da revista The Nation, e os escritores Eric Alterman e Mike Davis (ver Let Anti-War Rabbi Michael Lerner Speak). A verdade é que o rabino Michael Lerner não falou no comício (para uma lista de artigos do rabino Michael Lerner ver Beliefnet.com).
Um dos efeitos primários deste novo antisemitismo é precisamente este: o silenciamento e secundarização das opiniões moderadas de judeus e israelitas que não correspondam à “imagem” esteriotípica com que o discurso dominante vai pintando o judeu e o israelita. Em vez de alargar o diálogo e fomentar a discussão séria e honesta, restringe-se o todo a pinceladas de preto e branco sem espaço para as indispensáveis tonalidades intermédias.
O caso do rabino Lerner, a meu ver, é paradigmático quando enquadrado num contexto ainda mais vasto: a “coligação pacifista” – com organizações como a A.N.S.W.E.R. (Act Now to Stop War & End Racism!) – que liderou a oposição nas ruas da América à intervenção militar da Casa Branca no Iraque era composta por grupos que inicialmente se juntaram para organizar manifestações públicas contra a globalização, nomeadamente em Seattle (ver Globalization Foes Plan to Protest WTO’s Seattle Round Trade Talks).
Outro exemplo: o Fórum Social Europeu publicou, em finais de Outubro passado, no seu site na Internet um texto abjecto de Tariq Ramadan, académico e islamista suíço, onde este fazia uma lista de jornalistas e intelectuais judeus franceses acusados de participarem numa “conspiração mundialista” – a sua publicação tinha sido recusada antes pelos jornais Le Monde e Libération (ver Tariq Ramadan accused of antisemitism). Bernard-Henri Lévy, um dos intelectuais visados, responderia em Novembro com um artigo no Le Monde intitulado L’autre visage de Tariq Ramadan.
Anos antes uma lista semelhante com acusações idênticas às agora veiculadas por Ramadan provocara uma intensa onda de polémica em França, merecendo uma condenação unânime da Imprensa, do poder e da comunidade intelectual. O seu autor: Jean-Marie Le Pen.
Considero o texto de Bernard-Henri Lévy fundamental por várias razões – não só por chamar a atenção para o “lado negro” de Ramadan (mitificado pelos media francófonos como um exemplo acabado de “islamista moderado”), mas também pelo alerta que faz às ligações perigosas que se vão tecendo no seio do movimento anti-globalização.
Sob a capa “altermundialista”, de oposição legítima e fundamental à globalização e ao que ela poderá representar, assiste-se hoje a uma mistura de retóricas tradicionalmente de traços antagónicos. Hoje, segundo Alain Finkelkraut, “o discurso do antisemitismo foi absorvido pelo discurso do anti-racismo; o novo antisemitismo cortou com as raízes do antisemitismo clássico e vem agora de pessoas que falam de valores humanistas, do altruísmo e da democracia”.
O novo antisemitismo une hoje “camisas castanhas”, “vermelhos” e “verdes” (a “aliança castanha-vermelha-verde”, como lhe chama o académico francês Roger Cukierman), num caldo até há pouco inconcebível do ponto de vista teórico e prático. Num trabalho intitulado Antiglobalism’s Jewish Problem, publicado numa das últimas edições da revista Foreign Policy (uma versão condensada foi publicada pela Australian Financial Review ), Mark Strauss escreve: “O novo antisemitismo é único porque cose sob uma bandeira comum as várias formas do antigo antisemitismo: o conceito de judeu detido pela extrema-direita (a quinta coluna, leal apenas a si próprio, sabotador da soberania da economia e da cultura nacional), o conceito de judeu detido pela extrema esquerda (capitalista e usurário, controlador do sistema económico internacional) e o antisemitismo histórico e religioso (o do judeu assassino adaptado hoje como opressor colonialista).”
As teorias de conspiração que marcaram o dogma antisemita do século XIX – que acabaria por produzir o tristemente célebre Protocolos dos Sábios de Sião – encontram agora eco entre muitos daqueles que combatem a globalização. A simpatia pela causa palestiniana é um forte elo de ligação entre os “verdes” e os “camisas castanhas”.
“Eles estão a tentar impor um sistema de apartheid nos territórios ocupados”, afirmou o emblemático líder altermundialista francês José Bovè depois de uma visita a Ramallah em 2002.
“Aqui, a questão saliente nem sequer é: o que é que os activistas anti-globalização têm contra Israel? Mas, sim, é importante perguntar: Porquê só Israel? Porque não viajou Bovè até à Rússia para demonstrar a sua solidariedade para com os separatistas muçulmanos chechenos, que lutam a sua própria guerra de libertação? Porque circulam nas universidades petições para que não se invista em companhias com laços com Israel, mas não com a China? Por razão as manifestações que denunciam as tácticas de Israel contra os palestinianos ficam silenciosas em relação aos milhares de muçulmanos mortos em pogroms em Gujarat, na Índia?”, interroga-se ainda Mark Strauss no mesmo artigo.

É verdade, e urge realçar, que muitas NGOs anti-globalização fizeram já soar o alarme, reconhecendo a infiltração de neo-nazis e do ideário antisemita no seio do movimento anti-globalização. Mas como escreve Mark Strauss, o movimento em si não está livre de culpas. “Não sendo intrinsecamente antisemita, mesmo assim tem ajudado os antisemitas ao propagar teorias da conspiração.”
E onde há conspiração há conspiradores – e inevitavelmente, porque assim tem sido ao longo dos séculos, o dedo acusatório antisemita volta-se contra os judeus, os eternos “manipuladores da alta finança”.
Por ser de esquerda (será necessário mostrar aqui o cartão do meu partido?), sinto tudo isto ainda mais de perto. Este “socialismo dos tolos” torna agora real o que muitos consideravam simplesmente inconcebível, juntando do mesmo lado da barricada, por exemplo, algumas posições do Bloco de Esquerda e as opiniões dos skinheads neo-nazis que, em 1992, na Rua da Palma, mataram José Carvalho.
Dirão que estou a exagerar. Deixem-me então levar-vos numa pequena “visita guiada” por este “lado negro” do movimento anti-globalização. Visite-se a página da auto-proclamada Anti-Globalism Action Network (ver Anti-Globalism Action Network – a front for fascists), que se descreve como “um colectivo de activistas anti-globalização que trabalham no sentido de alargar o movimento anti-globalização de forma a incluir vozes divergentes e marginalizadas”. E que vozes são essas? Basta ir à página de links do site. Dos dois links disponíveis, o segundo leva-nos até ao site da National Alliance, a maior organização neo-nazi dos Estados Unidos, que mantém laços com grupos neo-nazis e “supremacistas brancos” de todo o mundo.
Mais uma citação do texto de Mark Strauss: “A oposição às políticas do governo de Israel não transforma automaticamente a esquerda em antisemitas. Mas um movimento em campanha por uma justiça social global arrisca-se a cair no ridículo ao condenar unicamente o estado Judaico. E quando as mentalidades conspiracionistas do movimento anti-globalização se misturam com a retórica anti-Israel, os resultados podem ser muito feios. Bovè, por exemplo, disse a um repórter que a Mossad, os serviços secretos israelitas, eram responsáveis pelos ataques antisemitas em França de forma a distrair as atenções das acções do seu governo nos territórios ocupados. (…) Por todo o mundo, manifestantes carregam placards comparando Sharon a Hitler e acenam bandeiras israelitas onde a estrela de David é substituída pela suástica. Estas manifestações apontam Israel como responsável único pela violência, ignorando centenas de israelitas que morreram vítimas de ataques suicidas e o papel da Autoridade Palestiniana no fomentar do conflito. Para mais, comparar Israel ao Terceiro Reich é a mais básica forma de revisionismo histórico do Holocausto, fazendo passar a mensagem de que a única “solução” para o conflito israelo-palestiniano é a completa destruição do estado Judaico. Naomi Klein, escritora e activista anti-globalização, tem falado publicamente contra estas comparações, mas ela está em franca minoria. Os mesmos movimentos anti-globalização que se orgulham em fazer contra-protestos face aos neo-nazis que infiltram as suas manifestações, dão os braços a manifestantes que exibem suásticas em nome dos direitos dos palestinianos.”
O dualismo simplista vitima/opressor cega agora aqueles que o propagam em relação às atrocidades cometidas pelos oprimidos. E reacende os velhos ódios antisemitas

No Guardian, a colunista Julie Burchill escreveu uma série de dois artigos sobre o antisemitismo (Good, bad and ugly e The hate that shames us), no primeiro pode ler-se: “ataques contra judeus neste país [Reino Unido] subiram em 75% este ano; desde 2000 registou-se um aumento de 400% em ataques a sinagogas.” Os números são oficiais e paralelos ao que se regista em França, na Itália, na Alemanha, na Áustria. Qualquer debate honesto sobre o tema do antisemitismo actual tem de levar isto em conta. Pode de alguma forma a solidariedade para com a causa palestiniana justificar a vandalização de sinagogas e cemitérios judaicos? Podem as acções do governo de Sharon servir de justificação para que qualquer judeu de Paris tema andar de metro, com receio de ser atacado, de lhe cuspirem em cima, de ser insultado? (ver “Mostrem a estrela amarela com orgulho!”)
Este é um dos problemas do argumento dos que afirmam que não existe um novo antisemitismo, ou daqueles que tentam estabelecer fronteiras claras entre uma coisa e outra. Dizer que a culpa do “ressentimento contra os judeus” que actualmente se vive na Europa é de Israel, da miopia política de Ariel Sharon, é simplesmente querer tapar um elefante com um lenço de assoar e fingir que ele não existe. Dizer que “a culpa é de Israel”, sem tentar perceber o que está por detrás desta violência é, no mínimo, irresponsável. Tentar encontrar justificações morais para o ódio, desculpabilizá-lo com racionalizações irreflectidas e pavlovianas, é ainda pior.
A Amnistia Internacional nasceu, em 1961 como consequência de uma notícia lida num jornal britânico pelo advogado Peter Benenson. A notícia falava de dois estudantes portugueses detidos depois de terem brindado à Liberdade (ver Amnesty International – The first 40 years). Como nos sentiríamos nós se todos os portugueses espalhados pelo mundo tivessem sido corresponsabilizados? Será que poderíamos ter minimizado ataques contra emigrantes portugueses em Newark, Pretória, Paris, Londres, Genebra, Bruxelas ou Sidney? E não me venham dizer que a nossa “colonização exemplar” não teria fornecido motivos mais do que equiparáveis. A verdade é que um mal não pode nunca justificar outro.
É esta cegueira selectiva que me assusta. É esta “banalização do mal” que me preocupa. Em 1963, no livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil, Hannah Arendt traçou o perfil original e polémico de Eichmann como um burocrata que cumpriu o seu dever e que seguiu ordens sem reflectir. Para ela, a monstruosidade do comportamento de Eichmann não se deveu a uma vontade sádica. Longe de corporizar um “mal radical”, Eichmann era o paradigma da “banalização do mal”. Esta caracterização do responsável nazi daria origem ao poema All There is to Know About Adolph Eichmann, de Leonard Cohen, (do livro Flowers for Hitler, 1964). Hoje não podemos cair no mesmo erro. Não nos podemos deixar engolir em “espirais justificativas” que não fazem mais do que banalizar e defender o indefensável. E isto, mais uma vez, aplica-se aos dois lados do debate no conflito israelo-palestiniano.

“Muitos argumentam que os judeus, que outrora foram vítimas, se transformaram em vilões no palco mundial, que Israel chamou o novo antisemitismo sobre si própria ao aliar-se aos interesses imperialistas americanos. Que esse ódio de Israel é “justificado”. À parte da perigosa prática corrente de juntar indiscriminadamente os judeus às políticas de Israel, há uma questão lógica que ressalta desta linha de raciocínio: se o ódio dos árabes e muçulmanos em relação a Israel é justificado, então o ódio judeu a árabes e muçulmanos por causa do antisemitismo é também “justificado”? Se isso é verdade, então onde nos leva todo este ódio “justificado”?”, escreve Miriam Greenspan, na revista Tikkun.
Esta citação torna evidente, entre outras coisas, os desníveis deste debate. Mais um exemplo. Quando aqui há algumas semanas escrevi um post sobre o penúltimo atentado em Jerusalém, decidi publicar os nomes das vítimas. Como consequência, foi criticado por ter “uma visão parcial” e “pouco objectiva” ao “esquecer” as vítimas palestinianas do conflito. Resta-me deixar uma pergunta no ar: será que os mesmo que criticaram esta minha “parcialidade” escrevem também para os jornais e para os blogs que incessantemente insistem em ignorar as vítimas israelitas? E ainda outra: Se umas vidas não valem mais do que outras porque razão se continua a insistir num discurso que faz prevalecer esse mito?

Já li em vários lugares, incluindo na blogosfera, que hoje em dia não existe antisemitismo em Portugal e que este debate é perfeitamente supérfluo. Apesar de morar fora do país desde Junho de 1994, tenho sérias dúvidas que esta análise esteja correcta. Infelizmente, tendo a acreditar que a realidade é bem diferente. Será que poderia andar completamente em paz pelas ruas de Lisboa ou do Porto com um kippá na cabeça? Nós portugueses tendemos a olharmo-nos ao espelho das nossas próprias mitologias. A que nos apelida de “povo de brandos costumes”, apesar de errada, prevalece.
Um exemplo rápido e demonstrativo. Depois de ter ler um texto profundamente antisemita deixado por um leitor numa caixa de comentário do blog Cruzes Canhoto, resolvi fazer o que por norma não faço e ripostei com sarcasmo. Horas depois, na mesma caixa de comentários, o autor da prosa que motivara a minha resposta volta à carga: “(…)Quanto a ti Nuninho, (…) sinceramente eu preferia que emigrasses para Israel e tivéssemos todos a sorte de estares dentro de um autocarro durante “o horário de trabalho” da malta do Hamas. Rui Pereira.” Receio que não seja necessário qualquer comentário.
Convém sublinhar que o Cruzes Canhoto nada teve a ver com esta manifestação de ódio primarista, antes pelo contrário. O autor do blog (J.) viria a condená-la fortemente.
Dizer que o antisemitismo não existe em Portugal é, no mínimo, ingénuo. Durante a minha adolescência tive uma alcunha que me acompanharia para sempre. Eu era “o judeu”. Como nunca neguei as minhas raízes e sempre tive orgulho delas, recebi-a inocentemente como um elogio. Mas todos sabemos que “judeu” continua a ser atirado como um insulto. Tal como a própria palavra “judiaria”. Não é necessário ler Freud nem Carl Jung para perceber que estas coisas não se apagam facilmente.

A necessidade da paz entre israelitas e palestinianos é inegável, essencial e urgente. Mas enganam-se os que acreditam que com ela virá também o fim do antisemitismo. O Paquistão serve aqui de exemplo – um país sem judeus, que nunca teve qualquer contacto com judeus, afastado do Médio Oriente, é hoje uma das maiores fontes de propagação do antisemitismo.
Ao mesmo tempo, como Mark Strauss escreve na revista Foreign Policy, quando se chegar a uma paz real, as condições conducentes à propagação do antisemitismo não irão desaparecer de forma milagrosa. Os governos árabes continuam avessos a reformas políticas e económicas sérias no sentido de abrir as suas sociedades e retirar os seus cidadãos da pobreza endémica. E o ódio, esse, dificilmente será extirpado por completo.
À lógica dos conflitos, especialmente neste caso imensamente complexo, não se podem aplicar os mesmo princípios das paixões irracionais que gerem, por exemplo, o clubismo. Isto é verdade especialmente para nós, que estamos de fora.
O diálogo, apesar de fundamental, também nunca será uma solução em si mesmo. Além das palavras são precisos actos. Dentro e fora de Israel. Dentro e fora da Palestina. E depois dos actos, é preciso tempo. Porque, como escreveu o poeta israelita Yehuda Amichai, “história leva anos e anos a fazer”. E a desfazer também.

Notas
Queria terminar com dois links que considero fundamentais. Aconselho o visionamento de duas conferências sobre o antisemitismo realizadas pelo Vidal Sasson International Center for the Study of Antisemitism, da Universidade Hebraica de Jerusalém (formato WindowsMedia). Aqui vão os links:

Reflexions sur l’antisemitisme qui vient, por Alain Finkelkraut

Conferência de Bernard-Henri Lévy

Gostaria de fazer ainda uma breve chamada de atenção para um debate intitulado O anti-semitismo e o Estado de Israel, que se realiza a 23 de Março às 19h30 no Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais (ver o site para mais informações). Nele estará presente, entre outros, Esther Mucznick, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.

Morrer em Diferido

Ninguém escreveu sobre os seus sorrisos. Ninguém lhes apontou as qualidades ou os defeitos. Não se reclamou contra a mediatização das suas mortes. Faltaram as câmaras em directo. Vítimas da banalização do sofrimento, no país que chorou Miklós Fehér, os dez mortos de Jerusalém recebem um encolher de ombros, como se o destino de morrer no autocarro 19, ontem antes das nove da manhã, na esquina das ruas Gaza e Arlozorov, lhes tivesse sido ditado justamente. Como se o ódio podesse alguma vez ser razão alguma. Como se a causa justa de um povo se podesse construir com alicerces assentes em eviscerados corpos inocentes.

Kadish
Avraham (Albert) Balhasan, 28 anos; Rose Boneh, 39; Chana Bunder, 38; Anat Darom, 23; Octavian Floresco, 42; Natalia Gamril, 53; Baruch Hondiashvili, 38; Dana Itach, 24; Eli Zfira, 48; e Yehezkel Goldberg, 41.

Para que a memória não apague estas imagens.

NOTA: o vídeo a que este link se refere (gravado momentos após o atentado) contém imagens verdadeiramente chocantes, não aconselháveis a pessoas mais sensíveis.

Citações & Recortes Blogosféricos I

No Contra a Corrente, Carlos MacGuffin escreve hoje:

Três pequenas observações
Hoje de manhã, ouvi na rádio (Antena 1) as declarações de um palestiniano que vive na Faixa de Gaza, sobre o mais recente atentado em Israel. Ahmed comentava a decisão israelita de fechar as fronteiras da Faixa de Gaza por tempo indeterminado. Considera a decisão como uma medida grave, já que a mesma impedirá que cerca de 25.000 palestinianos possam cruzar a fronteira para trabalhar.

Observação n.º 1: milhares e milhares de palestinianos trabalham em Israel, com direitos e garantias asseguradas. E, pasme-se, em paz.

Ahmed prossegue, dizendo que o recente atentado do Hamas, que ceifou a vida a quatro israelitas, foi perpetrado por uma mulher palestiniana que vivia sem perspectivas de futuro. É o desespero que provoca este tipo de acções. É a falta de perspectivas que corrói o espírito dos jovens palestinianos.

Observação n.º 2: há atentados em Israel, onde são ceifadas vidas humanas, quase sempre civis. Há incursões do exército israelita que acabam na morte de palestinianos. Mas, do ponto de vista da comunicação social, existe um pendor pró-palestiniano (admito que não totalmente consciente) que leva a que se procurem ouvir as razões ou justificações de um lado, mas raramente as razões do outro.

Contudo, Ahmed acrescentou que esse tipo de desespero, aliado à descrença em relação ao futuro, está presente em todas as sociedades, inclusive na europeia. O problema, diz Ahmed, é que na Palestina existem grupos políticos armados que fazem uso desse desespero para fins terroristas, envolvendo o assassinato de civis israelitas.

Observação n.º 3: os suicidas palestinianos não são meros civis que, face às dificuldades, decidiram um dia, por livre iniciativa, rebentar-se a si próprios e ao maior número de israelitas. Se assim fosse, Africa e outros pontos negros do planeta seriam locais preferenciais para que este tipo de acções florescesse. Os atentados terroristas palestinianos têm uma marca política. São alvo de organização e de uma propaganda que incita à morte e ao ódio pelo seu semelhante. Eis um aspecto que ainda não entrou na cabeça de muito gente.

Este post (retirado do blog Contra a Corrente) traz-me à memória um brilhante artigo assinado por Miriam Greenspan na edição de Dezembro da revista Tikkun. Sobre o ódio, e a fundamental necessidade de o irradicar, o texto terminava assim:

“Renouncing hatred, in all its forms, is the only thing that will save us—Israeli, Palestinian, Tutsi, Hutu, Croat, Serb, Muslim, Christian, Jew, Hindu, Buddhist, Kurd, man, woman, and child. Are Palestinians “justified” in nursing their rage at Occupation until it becomes a deadly hatred of Jews? Are Jews “justified” in turning their fear of annihilation and their anger at Arab terrorism into a blind and spiteful Occupation? Where will this get us? Will it bring back the dead on both sides? Will Arab mothers be able to lift their children in their arms in a free society rather than send them to their deaths in order to take down another Jew? Will Jewish mothers be able to put their children on a bus without fear that they will never see them again except, if they are lucky, at the morgue? Will hatred bring about two states in Israel and Palestine? Will it bring justice? Will it bring peace? Will it do anything at all except spill more innocent blood and poison the soul of the hater? To paraphrase a forgotten 1960’s anti-war song: When will we ever learn? When will we ever learn?”

Vital Moreira Errou!

No Causa Nossa, Vital Moreira escreveu uma entrada sobre o conflito israelo-palestiniano intitulada Crimes de Guerra, baseada integralmente – acredito que de forma totalmente inadvertida – numa notícia falsa.
Para ancorar o seu post, Vital Moreira cita esta notícia do Diário Digital – que na essência é um exemplo acabado de jornalismo vesgo e absolutamente incompetente. Um exercício de “pick and choose” com uma péssima tradução de um telex. Para comprovar o erro crasso da “notícia” citada basta ir aqui e ler a versão de um telex da AFP reproduzido pelo Khaleej Times, um jornal dos Emirados Árabes Unidos (que pode ser acusado de tudo menos de fazer favores a Israel). O Diário Digital traduz “the troops opened fire” por “soldados israelitas incendeiam campo de refugiados em Rafah”… O erro pode ser confirmado com a leitura de outra notícia sobre o mesmo caso (Israel troops kills Palestinian in Rafah) no HiPakistan.com, um site paquistanês. “Fazer fogo” e “lançar fogo” não são, nunca foram e nunca serão a mesma coisa.
Além de totalmente incompetente na tradução, o(a) jornalista do Diário Digital revela-se também desleixado(a) com os factos envolventes: “According to the sources, the man was killed during an exchange of fire between IDF troops and armed militants in the Tel Sultan neighborhood close to the Egyptian border”, lê-se ainda no diário israelita Ha’aretz.
A morte de alguém, ainda por cima nestas circunstâncias, é sempre um acontecimento arrepiante e aterrador e nunca pode ser minimizada. Mas o que estou aqui a discutir são os factos, o mau jornalismo e a diferença entre dois “fogos” semanticamente inconciliáveis.
A ocupação e as suas nefastas consequências – no que toca aos direitos humanos e não só – são factos inegáveis que, por isso mesmo, merecem ser discutidos e analisados com base num jornalismo responsável.
Para que conste, acredito plenamente que Vital Moreira errou sem a mínima noção de que o fazia. Aliás, admiro-o por ser um homem frontal, com quem tendo a concordar quase por regra – como aconteceu nos últimos dias com a polémica que tem travado em torno dos véus islâmicos em França (ver o meu post sobre o tema, O Véu, o Kippah e a Cruz, de 12 de Dezembro).
Resta dizer que não sou um “fã de Sharon“, bem longe disso, e não estou com isto a defender o que sempre achei, e continuarei a achar, indefensável. Basta uma passagem de pelos links à esquerda, e pelos posts passados, para perceber de que lado está o autor deste blog. Sou de Esquerda. Nunca o escondi. E de Esquerda sou também na questão do conflito israelo-palestiniano. É por isso que me custa profundamente que a Esquerda europeia prefira elogiar a “obra social” do Hamas a apoiar abertamente – com palavras e actos – a Esquerda israelita (e não estou a falar apenas dos Trabalhistas), num jogo de manicaismos, silêncios e ataques que solidifica a cada passo a posição de Ariel Sharon. Como nós portugueses sabemos bem por causa própria (e nossa), o grito de “orgulhosamente sós” sempre funcionou como arma eficaz de propaganda.

::ADENDA:: Na sequência deste post recebemos o seguinte e-mail de Vital Moreira:

“Prezado Nuno Guerreiro,
Tem toda a razão. Errei, embora sem intenção, tendo confiado no Diário Digital, sem controlo da fonte (mas já vi que devia tê-lo feito…).
Já fiz a correcção do Causa Nossa. Obrigado pela sua pertinente observação e pelo tom do seu post.
As melhores saudações
Vital Moreira”

A rectificação pode ser encontrada no post seguinte do Causa Nossa, um blog que começa a ser uma referência na blogosfera lusa. Incontornável e, fica agora provado, dialogante.

Novo Plano de Paz

Não é oficial e Sharon avisou já Washington que seria um “erro grave” se Colin Powell se avistassem com aqueles que o elaboraram. Por isto e por muito mais, vale a pena saber mais sobre o Acordo de Genebra, uma iniciativa não-governamental de paz que está a ser muito bem recebida por vários líderes mundiais. A iniciativa, oficialmente lançada esta segunda-feira em Genebra entre muita circunstância e alguma pompa, é o produto de dois anos de negociações semi-secretas entre representantes dos sectores moderados de Israel e da Autoridade Palestiniana – coordenados pelo ex-ministro trabalhista israelita da Justiça Yossi Beilin e o ex-ministro palestiniano da Informação Yasser Abed Rabbo. O objectivo, na prática, é inverter a pirâmide habitual da diplomacia, e fazer com que a opinião pública mundial pressione os governos de Israel e da Autoridade Palestiniana a aceitarem termos de paz “impostos pelas bases”.
O Acordo de Genebra vai além dos acordos de Oslo – dos quais Yossi Beilin foi um dos arquitectos – ao prever o desmantelamento da maioria dos colonatos existentes na Margem Ocidental, a divisão de Jerusalém em duas capitais distintas e a criação de um estado palestiniano.
É fundamental que a opinião pública mundial pressione as duas partes a aceitar os termos do acordo, que garantem ao mesmo tempo a segurança dos israelitas e a legítima autodeterminação palestiniana. Quem quiser pode passar por aqui para assinar uma petição internacional a favor da iniciativa do Acordo de Genebra. O link permite ainda ler o texto integral do acordo. Uma versão em hebraico do documento pode ser encontrada aqui.

Big Brother em Israel

A jornalista israelo-americana Allison Kaplan Sommer (que chegou a trabalhar para a CNN) admite no seu blog que um dos seus últimos prazeres quase inconfessáveis foi assistir na TV ao desenrolar da versão israelita do Big Brother, chamado Project Y.
O concurso acabou na quarta-feira, com a inesperada vitória de Firas Houri, um israelita árabe. Escreve Allison: “Acredito que escolherem Firas Houri foi a maneira que os espectadores encontraram de mostrar o seu apreço pela forma como ele, enquanto israelita árabe, encara a vida, estendendo-lhe em resposta uma mão amiga. O próprio Firas disse que a sua vitória mostrava ‘que ainda há esperança’. Numa entrevista ao diário israelita Ma’ariv Firas Houri disse: ‘Para mim, a minha vitória demonstra que as pessoas estão a olhar umas para as outras enquanto seres humanos, tal como eles são. Os espectadores que seguiram o programa viram-me de uma forma objectiva.”
Honestamente, nunca pensei que se podesse alguma vez a escrever “Big Brother” e “esperança” no mesmo parágrafo, e que, ainda por cima, tudo fizesse sentido. Mas faz.