Hanuká II (חג חנוכה שמח)

2a Noite


Menorah, Iris Gill.

Para ouvir:

Hanukah Song – Adam Sandler

Para ver:

Adam Sandler: The Hannukah Song (vídeo)

::A LER:: Hanucá – Wikipédia (artigo em português) / Judeus em Terras de Algodres: Hanukkah ou Chanuka / History of Hanukkah – History Channel / Hanukkah – Chabad.org / Judaism 101: Chanukkah

Judeus que escreveram canções de Natal

Os judeus não celebram o Natal nem acreditam na divindade de Jesus Cristo (ele próprio um judeu; ver também O Conceito de Messias no Judaísmo), cujo nascimento é celebrado pelos cristãos a 25 de Dezembro. Mas, paradoxalmente, não deixa de ser irónico que as mais populares canções de Natal tenham sido escritas e compostas por judeus. A maior parte delas vêm dos Estados Unidos, o país onde, tal como hoje o conhecemos, o Natal foi inventado, na cidade de Nova Iorque ao virar de 1900.
Mas tudo começara do outro lado do Atlântico, em meados do século XIX, quando um judeu francês, Adolphe Adam, o compositor do ballet Giselle, escreve Cantique De Noël, também conhecida em inglês como O Holy Night, ainda hoje considerado o hino por excelência do Natal.
Em 1940, Irving Berlin (cujo nome verdadeiro era Israel Isidore Baline), um talentoso judeu russo nascido na Sibéria e emigrado em Nova Iorque, compôs aquela que seria a canção de Natal responsável por moldar o imaginário natalício da América – White Christmas, cantada 14 anos mais tarde no musical homónimo pela voz de Bing Crosby. Musicais da Broadway e o cinema vieram popularizar inúmeras canções de Natal escritas por músicos judeus, entre elas Rudolph the Red Nosed Reindeer, Holly Jolly Christmas e Rockin’ Around The Christmas Tree de Johnny Marks; Let It Snow, Let It Snow, Let It Snow, de Sammy Cahn e Jule Styne; Silver Bells de Jay Livingston e Ray Evans; The Christmas Song (Chestnuts Roasting On An Open Fire), de Mel Tormé.
Apesar de serem das mais conhecidas canções de Natal, as composições natalícias escritas por judeus tendem a ser “laicas” e “seculares”, preferindo celebrar aspectos desta tradição cristã que nada têm a ver com religião propriamente dita, como a reunião das famílias, os presentes e o aconchego a que convida uma manhã nevada de Inverno.

Com votos de Festas Felizes, aqui fica um lote de presentes da Rua da Judiaria

Para ouvir:

Placido Domingo – Cantique De Noël – (Adolphe Adam)

Bing Crosby – White Christmas (Irving Berlin)

Burl Ives – Holly Jolly Christmas (Johnny Marks)

Brenda Lee – Rockin’ Around The Christmas Tree (Johnny Marks)

Diana Krall – Let It Snow (Sammy Cahn and Jule Styne)

Perry Como – Silver Bells (Jay Livingston and Ray Evans)

Nat King Cole – The Christmas Song (Chestnuts Roasting On An Open Fire) (Mel Torme)

Ella Fitzgerald – Rudolph The Red-Nosed Reindeer (Johnny Marks)

South Park – The Lonely Jew On Christmas (Matt Stone)

Parábola sobre a parábola


Reinterpretação da Parábola dos Quatro Filhos, Wolloch Haggadá, David Wander, 1988.

Perguntaram uma vez ao Dubner Maggid: “Porque razão têm as parábolas um efeito tão grande nas pessoas?” Ao que o pregador respondeu: “Posso explicar contando uma parábola.”
E foi esta a parábola que contou;
Há muitos, muitos anos, a Verdade caminhava pelas ruas, nua como no dia em que nasceu. O povo recusava deixa-la entrar nas suas casas naquele estado. Qualquer pessoa com quem ela se cruzasse fugia a sete pés. Vagueava a Verdade com grande tristeza quando um dia se cruzou com a Parábola, que se vestia com roupas de esplêndidas cores. A Parábola perguntou-lhe: “Diz-me amiga, o que te faz andar tão triste?” Ao que a Verdade respondeu: “É terrível, minha irmã. Sou muito velha e por isso ninguém me liga.”
“Não é por causa da tua idade que as gentes não gostam de ti. Eu também sou velha, mas quantos mais anos passam mais as pessoas me apreciam. Deixa-me dizer-te um segredo: o povo gosta de adornos e encobrimento. Vou emprestar-te algumas das minhas roupas e verás como o povo também vai gostar de ti.”
E assim foi. A Verdade seguiu o conselho e vestiu as roupas da Parábola. Desde esse dia, a Verdade e a Parábola passaram a andar sempre juntas e o povo gosta das duas.

Rabino Yakov Krantz (1740-1804), conhecido como “o Pregador de Dubno” (Dubner Maggid), Ucrânia.
in Jewish Preaching 1200-1800, Marc Saperstein, Yale University Press, 1989.

Auto-retrato

Moses Mendelssohn

Chamais grande a Demóstenes,
Orador gago da Grécia;
E o corcunda Esopo dizeis sábio;
No vosso círculo, suponho,
Eu serei duplamente sábio e grande.
Pois o que neles separado havia
Em mim encontrais unido, –
Língua pesada e marreca combinadas.

Moses Mendelssohn (1729-1786), filosofo e poeta; judeu alemão, corcunda e gago, era conhecido pelos seus contemporâneos como “o Platão Germânico”.

Johann Philipp Reis

O judeu “português” que inventou o Telefone


Johann Philipp Reis (1834-1874), inventor alemão descendente de judeus portugueses.

Johann Reis nasceu a 7 de Janeiro de 1834 na pequena cidade de Gelnhausen, próximo de Frankfurt, na Alemanha. O seu pai, Segismundo Reis, um padeiro de parcos recursos, era filho de judeus sefarditas portugueses oriundos da Beira Baixa que emigraram para a Alemanha nos finais do século XVIII, juntando-se inicialmente à florescente comunidade de judeus portugueses estabelecidos em Hamburgo.
Órfão de mãe aos 11 meses, Johann Philipp Reis perdeu também o pai quando tinha apenas 10 anos, sendo criado pela avó materna, uma Judia portuguesa extremamente culta e bastante religiosa. Estudante talentoso desde tenra idade, Johann Reis passava horas na biblioteca do colégio, o Instituto Hanssell, lendo tudo o que apanhava sobre as suas disciplinas favoritas: geografia, matemática, física e línguas. Um dos seus tios queria fazer dele um comerciante, profissão tradicional na família, mas Johann tinha outras aspirações. Aos poucos, pagou do seu bolso aulas privadas de matemática e física e em 1858, um ano antes de casar, aceita a posição de professor de matemática e ciências no Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, nos arredores de Frankfurt.
O caminho que o levaria à invenção do telefone teve início acidentalmente, quando Johann Reis investigava a possível construção de uma “orelha artificial” (künstliches ohr) para aliviar a surdez – uma doença que afectava a sua avô beirã, já em idade avançada. Reis começou a trabalhar na “orelha artificial” com apenas 18 anos, em 1852. No laboratório improvisado num barracão nas traseiras da sua casa, Johann Reis construiu o seu primeiro aparelho com componentes inesperados que encontrou quase ao acaso: um violino, uma agulha de malha, uma rolha de cortiça, fio de cobre e uma salsicha. Uma pele de salsicha esticada sobre uma rolha de cortiça oca servia de microfone, unido com cera ao fio de cobre que por sua vez era ligado a uma corda do violino, que funcionada como receptor e caixa acústica. Os resultados não foram muito animadores, mas Reis não desistiu.
Dois anos mais tarde, em 1854, Johann Reis lê um interessante artigo do telegrafista francês Charles Bourseul, publicado na revista L’Illustration de Paris, no qual ele descreve a possibilidade de transmitir sons através de uma corrente eléctrica intermitente. O artigo de Bourseul concedia uma base teórica às experiências de Johann Reis, permitindo-lhe avançar com o seu projecto, ao qual deu o nome de “telefone”, cunhando pela primeira vez o termo que viria a fazer parte do vocabulário de todo o planeta nos séculos que se seguiram.


Esquema do “telefone de Reis”, 1861.

Em 1860, quase dez anos após as suas primeiras experiências, as tentativas de Johann Reis davam frutos significativos, 16 anos antes do escocês Alexander Graham Bell reclamar a sua patente. A primeira frase transmitida pelo telefone de Reis foi “das pferd frisst keinen gurkensalat” (literalmente “o cavalo não come salada de pepino”). A demonstração pública do novo invento foi efectuada perante a Sociedade de Físicos de Frankfurt (Der Physikalische Verein) a 26 de Outubro de 1861. Na altura com apenas 27 anos de idade, Johann Philipp Reis proferiu uma palestra intitulada “Das Telefonieren Durch Galvanischen Strom” (“Telefonia Utilizando Corrente Galvânica”) e transmitiu os versos de uma canção através de um cabo de 100 metros, naquela que seria a primeira exibição pública que provava com sucesso a possibilidade teórica da conversão de variações de corrente eléctrica em ondas sonoras.
Apesar de algum sucesso relativo, o telefone de Reis estava longe de ser perfeito. Construído para converter quebras de corrente eléctrica em som, o aparelho conseguia transmitir música mas tinha dificuldades em reproduzir a voz humana. Por causa disso, a invenção ficaria conhecida na época como “telefone musical”. A palestra de Frankfurt granjeou a Johann Reis alguma fama temporária, fazendo com que modelos do seu invento fossem levados para a Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos e Rússia.
Mesmo assim, a Sociedade de Físicos de Frankfurt voltaria costas ao telefone, com parte da comunidade cientifica alemã a classifica-lo como um mero “brinquedo filosófico”. Confrontado com o antisemitismo de alguns dos membros, Reis abandona a Sociedade de Físicos de Frankfurt em 1867.
Johann Phillipp Reis, o inventor descendente de judeus portugueses, morreu vítima de tuberculose às cinco da tarde do dia 24 de Janeiro de 1874, com apenas 40 anos, sem conhecer o verdadeiro sucesso do seu trabalho mas acreditando nele até ao fim. Pouco antes de morrer, Johann Reis escreveu: “Olhando para a minha vida posso dizer, como na Torá, que tem sido ‘trabalho e sofrimento’. Mas tenho também de agradecer a Deus que me deu a Sua benção na minha carreira e na minha família, e me concedeu mais do que eu alguma vez saberia como pedir-lhe. Hashem ajudou-me até aqui; Ele irá ajudar-me daqui para a frente.”
A 22 de Março de 1876, um editorial do New York Times intitulado “The Telephone” elogiava e enaltecia Johann Phillipp Reis como inventor do novo engenho. O editorial não fazia qualquer menção a Alexander Graham Bell, que poucos meses depois receberia uma patente americana registando “melhoramentos” no telefone. Em 1878, um grupo de físicos da sociedade de Frankfurt mandou erigir um monumento a Phillipp Reis, classificando-o como “o inventor do telefone”. A paternidade do invento foi-lhe igualmente atribuída em inúmeros livros e tratados publicados por toda a Europa. Já no século XX, pelo facto de Johann Reis ser judeu, o regime nazi haveria de expurgar o seu nome dos manuais escolares alemães. Reis seria reabilitado após a Segunda Guerra Mundial, homenageado em 1952 pelo governo alemão numa colecção de selos comemorativa dos 75 anos do serviço telefónico no país – um novo selo, este com uma gravura da sua invenção, seria emitido em 1989 na RDA.
Em 1986 as cidades de Friedrichsdorf e Gelnhausen, em conjunto com a Deutschen Telekom, instituíram o Johann Philipp Reis Preis, uma bolsa anual de 10 mil euros destinada a premiar jovens cientistas que se distingam no campo das telecomunicações.


Selos de homenagem a Johann Philipp Reis emitidos em 1952 e 1989 na RFA e RDA.

::A LER:: BBC – Alemão pode ter inventado telefone antes de Bell / Who Invented the Telephone? / Philipp Reis, a most eminent Telephone Pioneer / Philipp Reis by Phonebook of the World.com / Istituto e Museo di Storia della Scienza – Reis telephone transmitter / Connected Earth: Reis, Philip (1834-1874) : DIY telephone designer / The Reis Telephone Receiver 1862-1872 / The early history of the telephone. / IMSS – Multimedia Catalogue – Instrument – XIV.138 Reis telephone transmitter / Reis’ telephone – Wikipedia / Invention of the telephone – Wikipedia / Rolf Bernzen “Das Telephon von Philipp Reis” / Philipp-Reis-Schule Friedrichsdorf

Noite de Inverno

Boris Pasternak

Nevou e nevou em redor do mundo todo,
Neve varreu a terra de ponta a ponta.
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.

Como os enxames de mosquitos que no Verão
Batiam as asas contra a chama,
No pátio flocos de neve
Batiam na vidraça.

Sombras distorcidas levantavam-se
Sobre o tecto iluminado
Sombras de braços cruzados, de pernas cruzadas –
De destinos cruzados.

Dois sapatos minúsculos
tombaram no chão.
Uma vela na cómoda vazou lágrimas de cera
Sobre um vestido.

Tudo desapareceu na
Branca escuridão nevada.
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.

Uma corrente de ar soprou a vela
E a febre branca da tentação
Levantou suas asas de anjo
Numa sombra cruciforme

Nevou forte até ao mês de
Fevereiro, quase constantemente
Uma vela ardia na mesa;
Uma vela ardeu.

Boris Pasternak (1890-1960), escritor e poeta. Judeu russo.

Ilustração: caricatura de Pasternak da autoria de Vasco.

O ceifeiro ladrão e a sua filha

(um pequeno conto)


Judeus de Tunis: família judaica fotografada durante uma cerimónia de Brit-milá.
Postal francês dos finais do século XIX.

Há muitos, muitos anos, um homem foi ao campo roubar trigo e levou a filha com ele para que ela o ajudasse na tarefa. “Filha”, disse ele, “fica aqui na estrada de guarda para que ninguém me veja.” Mas assim que o homem começou a ceifar a filha gritou-lhe: “Pai, estão a ver-te.” O homem levantou a cabeça e olhou para a esquerda, mas como não viu ninguém continuou a ceifar. “Pai, estão a ver-te”, gritou a criança uma segunda vez. O homem levantou a cabeça e olhou para a direita, como nada viu continuou a ceifar. Passados mais uns minutos a menina gritou uma terceira vez: “Pai, estão a ver-te”. O homem olhou para a frente, mas não viu ninguém e continuou a ceifar. “Pai, estão a ver-te”, gritou a filha pela quarta vez. O homem olhou para trás e como não viu ninguém ficou irritado com a criança: “Então filha?! Dizes que me vêem mas eu já olhei em todas as direcções e não vejo ninguém.”
A filha encolheu os ombros: “Mas pai, estão a ver-te dali”, disse ela apontando para o céu.

Conto tradicional dos judeus da Tunísia, publicado pela primeira vez nos finais do século XIX pelo rabino Abba Shaul Haddad. Este conto é muito semelhante a uma outra história tradicional contada pelos judeus da Índia.

Separação

Israel Zangwill

Outrora, entre nós estava o Atlântico,
Mas eu sentia a tua mão na minha;
Agora sinto a tua mão na minha,
Mas entre nós está o Atlântico.

Israel Zangwill (1864-1926), escritor, dramaturgo e poeta.
Judeu britânico nascido em Londres.

Silver Jews

Silver Jews – Horseleg Swastikas
Silver Jews – Punks in the Beerlight

Para ouvir:
Horseleg Swastikas – Silver Jews

Punks in the Beerlight – Silver Jews


O poeta David Berman, a alma dos Silver Jews, fotografado por Paul Heartfield.

::A LER:: Forward Newspaper Online: The Silver Jews Return / Silver Jews: Tanglewood Numbers (2005): Reviews / Splendid Magazine reviews Silver Jews: Tanglewood Numbers / PopMatters Music Interview | From a Texaco Sign: An Interview with Silver Jews / VH1.com : The Silver Jews (link para o video “How Can I Love You If You Won’t Lie Down“) / Silver Jews / The Corduroy Suit – a Silver Jews homepage / Silver Jews (vídeo e discografia) / Silver Jews: an interview with David Berman, singer and songwriter / Silver Jews: American Water: Pitchfork Review / Silver Jews: Pitchfork Interview / Amazon.com: Tanglewood Numbers

Um bolo eternamente sujo (um pequeno conto)

Um velho rico e avarento andava pela rua com um bolo que acabara de comprar quando este lhe caiu das mãos e rolou pela poeira e lama da estrada. Nessa preciso momento, um pedinte passou por ele e pediu-lhe qualquer coisa para comer. O avaro deu-lhe o bolo sujo sem pensar duas vezes, contente consigo próprio por se ter livrando dele. Nessa noite o rico avarento sonhou que estava sentado num enorme café cheio de gente, com os empregados atarefados a trazer para as mesas as mais preciosas delícias de pastelaria. Mas só ele não era servido. Ele esperou até que se lhe esgotou a paciência e decidiu reclamar. Finalmente, depois de muito esperar, um dos empregados trouxe-lhe um pedaço de bolo, sujo e coberto de lama. “Então, o que é isto? Como se atreve a trazer-me um bolo todo emporcalhado? Sabe quem eu sou? Sou um homem muito rico e por isso não mereço ser tratado desta maneira”, barafustou o velho avarento. O empregado encolheu os ombros: “Desculpe-me, mas o senhor está enganado. Aqui não pode comprar nada com o seu dinheiro. O senhor chegou à Eternidade e só tem aqui direito ao que enviou antecipadamente do Mundo dos Vivos. A única coisa que o senhor mandou foi este bolo sujo e enlameado, por isso será a única coisa que lhe poderei servir.”

História oral tradicional dos judeus da Tunísia, recolhida pelos investigadores do Israel Folktale Archive, na Universidade de Haifa. Existem paralelos deste conto na tradição oral dos judeus da Europa Oriental, Turquia e Pérsia.