RTP na Palestina: Os Erros de Paulo Dentinho

Enviado especial da Radio e Televisão de Portugal (RTP) às eleições palestinianas, Paulo Dentinho tem a tendência de repetir os mesmos erros de forma sistemática. Em todas as suas reportagens que vi (as dos dois últimos dias e as do funeral de Arafat, em Novembro), o jornalista da RTP raramente – nunca de forma directa – se referiu aos soldados das Forças de Defesa de Israel (FDI) como “soldados israelitas”, optando invariavelmente por classificá-los como “soldados judaicos”. Dando de barato o erro gramatical da última expressão – o correcto aqui seria “soldados judeus” –, a ininterrupta insistência de Dentinho vai além do erro simples: é uma profunda deturpação recheada de segundos sentidos óbvios.
Antes de mais, convém esclarecer que as Forças Armadas de Israel não são compostas unicamente por judeus. Muitos dos seus soldados – e oficiais – pertencem às várias minorias étnicas e religiosas do país: são também muçulmanos, beduínos, druzos e cristãos, ou simplesmente emigrantes naturalizados chamados ao serviço militar (cidadão israelita, o meu sogro, por exemplo, fez a tropa, entre as décadas de 70 e 80, no mesmo batalhão com um soldado japonês não-judeu que simplesmente emigrara para Israel e se naturalizara). Uma simples busca no Google seria suficiente para corrigir esta deturpação, segundo a qual a expressão “soldado judaico” seria de alguma forma equivalente a “soldado israelita”. Aqui vão os links que provam não ser bem assim:

Haaretz News – Druze soldiers are pampered, their civilians hampered / דרוזים / Israel – The Druze “Sword Battalion” / The Druze in Israel / The Druze / The Bedouin in Israel / Five Bedouin Desert Reconnaissance Battalion Soldiers Killed / For Arab soldiers in Israeli army, fatal attack shows risks / FiftyCrows – Social Change Photography – Israel’s Bedouin

Se for involuntário, o erro repetido de Dentinho deveria ser corrigido prontamente, afinal ele é um jornalista de um canal estatal de televisão que garante primar pelo rigor. Se não for involuntário, as ilações a tirar são óbvias e este erro deve ser catalogado entre os muitos exemplos de jornalismo irresponsável que teima em não saber (ou não querer) distinguir “judeus” e “Israel”. É este tipo de jornalismo irresponsável, muitas vezes simplesmente desleixado e preguiçoso, admito, que vai ateando na Europa as chamas do antisemitismo.
No caso concreto do Telejornal de ontem à noite (sábado), em duas intervenções Paulo Dentinho usou as expressões “soldados judaicos” ou “exército judaico” cinco vezes no espaço de pouco mais de 1 minuto e meio (ver Arquivos da RTP, formato .rm), contra 4 ocorrências semelhantes no Telejornal de domingo. A significação correcta, “soldado israelita”, foi apenas mencionada uma vez, e aqui apenas na tradução directa de uma entrevista a Mahmud Chanti, um fotojornalista palestiniano.
Numa passagem da primeira reportagem, Dentinho chegou a falar do “ponto de vista judaico” (sic.), citando as palavras de um porta-voz do governo israelita, uma classificação que apenas faria sentido caso o responsável israelita tivesse falado sobre questões religiosas relativas ao judaísmo. De uma vez por todas: as palavras “judaico” e “israelita” não são sinónimos equivalentes e cambiáveis!
O erro pode ser comprovado num rápido teste: falando de “livros judaicos” nunca se poderia incluir, por exemplo, uma tradução hebraica ou yiddish da Metamorfose, de Kafka, isto apesar de Kafka ser judeu.
Para alguns, porém, tudo isto não passará de um preciosismo da minha parte. Poderá até parecer irrelevante. Mas só mesmo quem desconhece (ou recusa admitir) as fortes influências da linguística na formação de mentalidades e fenómenos sociológicos poderá pensar assim.
Já escrevi, aqui na Judiaria e noutros lados, sobre o corrente abuso, com sentido depreciativo, de palavras como cabala, judiar ou judiaria. Debati também a necessidade de extirpar o jornalismo irresponsável que vai moldando em Portugal as percepções do conflito israelo-palestiniano (ver Irresponsabilidades, O Diário Digital Errou e Vital Moreira Errou).
Mais uma vez, gostaria de reforçar a minha profunda convicção que um debate honesto sobre o conflito israelo-palestiniano – whatever that means – só pode acontecer quando tiver por base uma cobertura jornalística responsável. Por agora fico-me pela forma, mas pretendo escrever aqui brevemente sobre o conteúdo igualmente questionável dos trabalhos de Paulo Dentinho na Palestina.

:: ADENDA :: A única vez em que as palavras “judeu” e “Israel” são sinónimos perfeitos é quando estas são utilizadas num contexto de abordagem religiosa. Há mais de 3 milénios que os judeus são referidos religiosamente como “filhos de Israel” ou “Israelitas”. É comum também as comunidades judaicas (religiosas) espalhadas pelo mundo se intitularem “comunidades israelitas”. No entanto, parece-me necessário sublinhar uma vez mais que aqui o contexto é sempre religioso e nunca político.

PS – No mesmo Telejornal de sábado à noite referido acima, Judite de Sousa abriu com referências ao maremoto do sudoeste asiático, comentando imagens captadas “num ‘rizorte’ de luxo” (sic.). Uma referência óbvia à palavra inglesa “resort”, que em português se traduz habitualmente como “estância de férias”. Esta foi a primeira ocorrência que ouvi de “emigrantês” típico vinda de uma pessoa que nunca viveu fora de Portugal. Mais um risquinho para as contas dos que continuam a anotar os pontapés na língua que o “tsunami” arrastou.
[Para confirmar basta clicar aqui e esperar uns 45 segundos… Judite de Sousa repete a palavra
“rizorte” meio minuto depois.]

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Resposta de Paulo Dentinho (14/01/2005):

Tem razão, admito que as Forças De Defesa de Israel não são apenas constituídas por judeus e que há também árabes, beduínos, druzos e outros, mas trata-se de um exército destinado a salvaguardar a existência de um estado onde a maioria da população é judaica, condição essencial para a preservação desse estado, no futuro. Se assim não fosse, Israel teria procurado anexar a Cisjordânia, ou se quisermos, a Judeia, a Samaria e a Faixa de Gaza. Não o fez por inúmeras questões, sobretudo porque teria de conceder a nacionalidade israelita aos residentes nessas áreas e, nesse caso, a maioria judaica da população estaria comprometida num prazo não muito longínquo. As regras democráticas do estado de Israel levariam para o parlamento muitos mais deputados árabes. Em de “The Iron Wall”, por exemplo, um olhar sobre a história do conflito israelo-árabe, Avi Shlaim nos dá conta dessas preocupações na mente dos vencedores da guerra de 1967, da qual resultou a conquista daquelas terras à Jordânia e ao Egipto. O processo para anexar Jerusalém Oriental corrobora o que acabo de escrever, pois Israel viu-se na obrigação de conceder direito de cidadania a mais de cem mil residentes palestinianos. Convém ainda recordar que os principais motivos que estiveram na base do movimento sionista, há dois séculos, o antisemitismo e a condição de minoria nacional nos países da diáspora, se traduziu no desejo de uma pátria judaica, estado-nação onde os judeus fossem sempre maioritários em relação a outros povos residentes nesse mesmo território. Por fim, deixo-lhe a morada de um site judaico onde as Forças de Defesa de Israel são referidas como… exército judaico: Ahavat Israel.
Agradeço as suas observações, e não estou a ironizar. Gosto de aprender, sei reconheçer os meus erros. Felizmente não faço parte daqueles que acham que têm todo o saber do mundo, ou dos que, sem opinião, reproduzem permanentemente e de forma acrítica o pensamento alheio. Mas também é verdade que o seu comentário lançou suspeitas de parcialidade sobre o meu trabalho, o que eu lamento, pois procuro sempre dar várias perspectivas sobre a realidade existente naquela zona do mundo.

Cumprimentos.

Paulo Dentinho

Resposta a Paulo Dentinho (14/01/2005):

Caro Paulo,

Antes de mais, deixe-me agradecer-lhe com toda a sinceridade o facto de se ter dado a trabalho de responder às minhas críticas. Acredite que aprecio enormemente este seu gesto.
Os seus argumentos em relação à natureza judaica do estado de Israel estão absolutamente correctos. Não os contesto. Mas Paulo, não é isso que está aqui em causa. Não se trata de uma questão de demografia ou da defesa de demografias, mas tão só de alusões a um exército nacional (ou a um Estado) que, tal como acontece com todos os exércitos nacionais do mundo (e com todos os Estados), deve ser referido jornalisticamente pela sua nacionalidade e não pelas suas condicionantes demográficas, étnicas ou religiosas.
Definir o que significa ‘ser judeu’ ou ‘judaico’, em sentido lato, é uma tarefa deveras complicada porque, para além da religião, implica também conceitos de cultura, etnia e nacionalidade. A definição de ‘israelita’, por outro lado, é suficientemente simples: um israelita é um cidadão de Israel.
Honestamente, compreendo que possa existir uma tendência para confundir as duas expressões, apesar de considerar absolutamente necessário que se reconheçam as diferenças entre uma e outra coisa, especialmente quando é esse o objecto do nosso trabalho. Acredite que não é um simples preciosismo da minha parte.
Quando o Paulo, nas suas reportagens, fala em ‘exército judaico’ a carga da expressão vai além do simples sinónimo eventual de ‘exército israelita’ – ela transforma-se em “o exército dos judeus contra os palestinianos” o que de imediato arrasta um simbolismo no qual todos os judeus são acoplados às políticas de Israel e às acções do exército israelita, uma implicação que não existe normalmente quando se fala em termos estritos de nacionalidade e cidadania. A mesma leitura estaria implícita caso o Paulo alguma vez tivesse referido as autoridades palestinianas como ‘autoridades muçulmanas’ ou ‘islâmicas’.
Quando se fala em ‘exército judaico’ incorre-se ainda, mesmo que seja de forma inconsciente, numa “deslegitimização” do Estado de Israel, reduzindo o conflito a meros contornos étnicos, religiosos, ou se quiser, demográficos. Passa a ser mais um “choque de civilizações” onde é questionada, de forma quase subliminar, a legitimidade de Israel existir.
Desta forma, e mesmo sem o querer, o Paulo estará a contribuir também para propagar a visão segundo a qual todos os judeus incorrem em responsabilidades pelas políticas e acções do estado de Israel. Afinal, que outras razões senão a cobertura mediática levam uma criança judia de 13 ou 14 anos – que nunca sequer pôs os pés em Israel – a ser insultada e cuspida nas ruas de Paris e que lhe gritem aos ouvidos coisas como “judeus fora da Palestina”? Espero que compreenda aqui as minhas profundas reservas, não só enquanto judeu, mas também como forte opositor das políticas do Likud de Ariel Sharon – partido com o qual não tenho o menor ponto de contacto.
Honestamente, acredito que não terá sido esta a sua intenção. Mas Paulo, enquanto jornalistas, ambos sabemos que a leitura que é feita das nossas palavras nem sempre corresponde às nossas intenções primárias.
Em suma, a minha crítica tinha exclusivamente a ver com o contexto da sua utilização da expressão ‘soldados/exército judaico’ e as suas eventuais extrapolações. Não nos podemos alhear do facto do nosso trabalho contribuir sempre, quer queiramos quer não, para a formação de opiniões ou para a perpetuação de estereótipos. E as palavras que escolhemos são de uma importância extrema, especialmente em televisão e na cobertura de acontecimentos tão polarizadores quanto o conflito israelo-palestiniano.
Deixe-me dar mais um exemplo. Na sua reportagem transmitida no Telejornal de domingo, o Paulo referiu-se ainda a prisioneiros palestinianos detidos em “prisões judaicas”. Agora, peço-lhe que se distancie um pouco e analise esta expressão de uma forma fria desapaixonada. Que imagens se conjuram quando falamos em “prisões católicas” ou “prisões islâmicas”? Está a ver onde quero chegar?
Já agora, o site que me indica, onde as Forças de Defesa de Israel são referidos como exército judaico, intitulado “Ahavat Israel” (que literalmente quer dizer: “amor ao povo judeu”), é criado e mantido por uma organização religiosa ultraconservadora cujos critérios de objectividade serão por certo bem diferentes dos de um órgão de informação. O Paulo concordará comigo que será fácil, por exemplo, encontrar um site equivalente nos EUA onde o exército americano seja referido como “exército cristão” (estou a lembrar-me de uma crónica de Ann Coulter, uma colunista de extrema-direita, publicada logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001). Mais uma vez, é tudo uma questão de contexto e enquadramento.
Podemos até eventualmente ter opiniões divergentes em relação ao conflito, mas creio que no fundo ambos desejamos que o seu resultado final seja uma paz duradoura, com dois estados – livres, democráticos, economicamente viáveis – a coexistirem lado a lado.

Com os melhores cumprimentos e um agradecimento sincero pela sua resposta,

Nuno Guerreiro

A Greve

Nova Iorque, 1 de Maio de 1909: Manifestação sindical contra o trabalho infantil na indústria têxtil americana – que na época empregava maioritariamente mulheres judias recém chegadas da Europa de Leste. As duas jovens envergam faixas a favor da abolição da “escravatura infantil”, em inglês e yiddish.
Foto: Library of Congress, George Grantham Bain Collection. (Clique na foto para ampliar)

A Judia

(poema de Tomás Ribeiro)

Dormes? eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi:
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme, querida, que eu descanto aqui!

Dorme! eu descanto a acalentar-te os sonhos,
Virgens, risonhos, que te vem dos céus!
Dorme! e não vejas o martírio, as magoas,
Que eu digo às águas e não conto a Deus!

Anjo sem pátria, branca fada errante,
Perto ou distante que de mim tu vás,
Há de seguir-te uma saudade infinda,
Hebrea linda, que dormindo estás!

Onde nasceste? Onde brincaste, oh bela?
Rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? em Malta? em Nazareth? no Egipto?
Mundo infinito, e tu sem berço?! oh! Sim.

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Folha que o vento da fortuna impele!
Vítima imbele que o tufão roubou!
Flor que n’um vaso se alimenta, cresce,
Ri, desaparece, e nunca mais voltou!

Filha dum povo perseguido e nobre,
Que o mundo encobre o seu martírio, e crê!
Sempre Ashevero a percorrer a esfera!
Desgraça austera! Inabalável fé!

Porque há de o lume de teus olhos belos,
Mostrar-me anelos d’infinito ardor?
Porque esta chama a consumir-me o seio?…
Deus de permeio maldiz o amor!…

Peito! meu peito, porque anseias tanto?
Pranto! Meu pranto, basta já, não mais!
É sina, é sina; remador, voltemos;
Não n’a acordemos… para quê, meus ais?…

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Tomás Ribeiro (1831- 1901), poeta português.

Versos adaptados para uma canção popular novecentista, dedicada à “Ex.ma Snr.a D. Anna Adelaide Leite Bastos”, recolhida no “Cancioneiro de Músicas Populares”, da autoria de César das Neves com prefácio de Teófilo Braga; Porto, 1893.
(imagens da Biblioteca Nacional).

Oito Dias Depois

A Circuncisão de Cristo, pormenor do Breviário de Martin d’Aragão (séc. XIV).

Se os cálculos do calendário gregoriano estivessem correctos, ontem teriam passado 2005 anos sobre o dia em que Yeshua ben Yosef (ישו בן יוסף) recebeu o nome e foi submetido ao ritual judaico da circuncisão, exactamente oito dias após o seu nascimento, cumprindo à risca os preceitos da Lei Judaica (ver Lucas 2:21). O mundo haveria de conhecer este judeu da Galileia através da corruptela grega do seu nome: Ιησούς Jesus.

… Mas as Crianças, Senhor? *

O controverso papa Pio XII (na foto à esquerda), terá ordenado à Igreja Católica francesa que não devolvesse crianças judias aos seus pais ou a instituições judaicas caso estas tivessem sido baptizadas para ocultar a sua verdadeira identidade durante a ocupação nazi. A revelação é feita numa das últimas edições do diário italiano Corriere Della Sera, de Milão, num texto assinado pelo historiador Alberto Melloni, professor de história religiosa da Universidade de Bolonha e um dos maiores especialistas mundiais em história cristã.
Sob o título Pio XII a Roncalli: non restituite i bimbi ebrei (Pio XII a Roncalli: não se restituam as crianças hebreias), Melloni defende que Pio XII instruíra pessoalmente as instituições da Igreja em França a fazer tudo para negar a restituição de crianças judias confiadas à sua guarda.
O diário milanês publica ainda a carta na íntegra, datada de 20 de Outubro de 1946, enviada pelo Santo Ofício (actual Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé) ao núncio apostólico em Paris, que mais tarde se tornaria papa com o cognome de João XXIII. Aqui segue a tradução do documento:

“A respeito das crianças judias que, durante a ocupação alemã, foram entregues a famílias e instituições católicas e que agora são pedidas de volta pelas instituições judaicas, a Congregação do Santo Ofício tomou as decisões que a seguir se dão conta:

1) Evitar, na medida do possível, responder por escrito às autoridades judaicas, fazendo-o apenas oralmente.
2) Nos casos que seja necessário responder, bastará dizer que a Igreja terá de fazer as suas indagações para estudar casos particulares.
3) As crianças que foram baptizadas não poderão ser entregues às instituições [judaicas] que não possam assegurar a sua educação cristã.
4) Às crianças que não têm pais e que se encontram a cargo da Igreja, não é conveniente que sejam abandonadas pela Igreja ou entregues a pessoas que sobre elas não têm direitos, uma vez que não podem decidir por elas próprias. Isto é evidentemente para as crianças que não foram baptizadas
5) Se as crianças foram entregues à guarda da Igreja pelos seus pais e se os seus pais agora as reclamam, elas podem ser devolvidas, assumindo que as mesmas crianças não tenham recebido o baptismo

Note-se que esta decisão da Congregação do Santo Ofício foi aprovada pelo Santo Padre.”

[a tradução italiana do documento original pode ser lida aqui: I piccoli giudei, se battezzati, devono ricevere uneducazione cristiana]

Com a descoberta deste documento, torna-se bem mais complexa a defesa intransigente de Pio XII a que alguns católicos se vão dedicando com zelo. O papa, cujo pontificado atravessou uma era de genocídio desabrido, não só fechou os olhos como fez por perpetuar, desta forma absolutamente repugnante, séculos de crimes do catolicismo contra os judeus.
A um historiador é impossível não comparar esta recusa do Vaticano em entregar as crianças judias, sob o pretexto da necessidade de lhes dar uma educação cristã, com incidentes semelhantes ocorridos no passado. Na península Ibérica, séculos antes da formação política de Portugal, os reis visigóticos foram os primeiros a usar os mesmos métodos. Depois de várias leis antisemitas decretadas após a conversão ao catolicismo do rei Recaredo, em 586, o rei Sisebuto ordenou a conversão forçada de todos os judeus do seu reino. Para assegurar que os descendentes destes judeus convertidos seriam cristãos verdadeiros, ordenou que todas as crianças judias com menos de 12 anos fossem retiradas aos seus pais, confiando-as à guarda de famílias católicas. O sequestro de crianças judias como política de estado prosseguiria de forma intermitente até ao reinado de Roderico, o “último dos visigodos”. Mas a medida não surtiria os efeitos desejados, em parte por causa da afortunada desorganização que caracterizou os reinos visigóticos na península Ibérica. A prova disso foi dada com o elevado número de judeus existentes por altura da invasão árabe de 711.
No final do século XV, D. Manuel I repetiria o gesto, raptando mais de 2000 crianças judias portuguesas às suas famílias, enviando-as em seguida para “povoar e embranquecer a raça” (sic.) da ilha de São Tomé. O historiador britânico Cecil Roth conta a propósito: “Um grande número de crianças foi brutalmente retirada dos braços dos seus pais, levadas para povoar a insalubre ilha de São Tomé, onde a vasta maioria acabaria por morrer.” Um ano após a deportação, apenas 600 crianças sobreviviam. [Ver também The Jews of Africa – Sao Tome and Principe e Judaic Research in Balearic Islands and Sao Tome]
Também aqui a medida extrema acabaria por falhar e muitas das crianças raptadas continuaram a praticar a religião dos seus pais. Disto mesmo dão conta várias cartas assinadas por D. Pedro da Cunha Lobo, nomeado bispo de São Tomé em 1616. Um judeu português, Samuel Usque, escreveria sobre estas crianças na sua obra maior, “Consolação às Tribulações de Israel” (publicada em Ferrara em 1553).
A descoberta agora deste novo documento do pontificado de Pio XII, datado de 1946, trás à tona memórias de um passado que muitos querem fazer por esquecer. Mas dentro destas maquinações do Santo Oficio, tão ao jeito das suas obras do passado, reside uma suprema ironia: uma dessas crianças, Aaron Jean-Marie Lustiger, com a mãe morta em Auschwitz, e baptizado aos 14 anos, é agora um dos Príncipes da Igreja, arcebispo de Paris, apontado como um dos prováveis sucessores de João Paulo II na cadeira de São Pedro.
O cardeal Lustiger (na foto à direita) continua a considerar-se profundamente judeu — uma afinidade, afinal, que partilha com o messias cristão — chegando a afirmar: “Nasci judeu e assim continuo, mesmo que tal seja inaceitável para muitos. Para mim, a vocação de Israel é trazer a luz aos goyim **. Esta é a minha esperança e acredito que a cristandade é a forma de alcançar este propósito.”
As suas palavras tendem a ser habitualmente polémicas, tanto junto dos católicos como dos judeus. Mas à luz da Lei Judaica (Halakhá), Aaron Lustiger continua a ser um judeu, para todos os efeitos, apesar da sua apostasia.
Em relação às acusações normalmente proferidas contra Pio XII – colaboracionismo com a Alemanha nazi e indiferença perante o genocídio e sofrimento continuado de dezenas de milhões de pessoas na Europa – ver uma excelente recolha de documentação dos dois lados da discussão elaborada pela Jewish Virtual Library: Pope Pius XII Table of Contents

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* do poema “Balada da Neve“, de Augusto Gil
** a palavra hebraica goy,
גוי (ou goyim no plural), traduzida habitualmente como gentio quer dizer literalmente estrangeiro

O Mar e a Praia

Yehuda Amichai

O mar e a praia estão sempre perto um do outro.
Querem ambos aprender a falar, aprender a dizer
uma única palavra. O mar quer dizer “praia”
e a praia “mar”. Cada vez estão mais próximos
da fala, depois de milhões de anos, de dizerem
aquela palavra solitária. Quando o mar disser “praia”
e a praia “mar”,
a redenção virá ao mundo,
e o mundo retornará ao caos.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.


J. M. W. Turner, Barcos Holandeses na Tempestade (óleo sobre tela, 1801)
National Gallery, Londres

A Tristeza II – Palavras Para Quê?

O diário palestiniano de língua árabe al-Quds al-Arabi, publicado em Londres, comentou a recusa do Sri Lanka em receber a delegação israelita de pessoal de emergência – médicos, enfermeiros, paramédicos e equipas de salvamento – (ver Triste… Muito Triste) – num inenarrável editorial intitulado “Uma Lição aos Árabes Dada pelo Sri Lanka”. Escreve o jornal na sua edição de hoje: “é um paradoxo que o governo do Sri Lanka insista em ser mais árabe do que os árabes, voltando as costas à normalização de relações com o Estado judaico.” O editorialista prossegue traçando uma comparação com a recente digressão pelo Golfo do presidente egípcio, Hosni Mubarak, a quem acusa de pressionar os estados árabes da região a estabelecer relações diplomáticas com Israel.
Ainda segundo o al-Quds al-Arabi, “enquanto o Sri Lanka recusa a ajuda humanitária israelita, o futuro presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, declarou ontem que o povo palestiniano deve abandonar a resistência armada, e que os palestinianos não podem derrotar Israel militarmente, defendendo o regresso às negociações porque esta seria a única forma de resgatar os seus direitos e um estado independente.”
No final, o diário palestiniano agradece ao “governo e ao povo do Sri Lanka”, afirmando que, ao recusar a ajuda de Israel, “fizeram lembrar a todos nós que existem países que possuem ainda os genes da dignidade e humanidade que os nossos governos árabes parecem ter esquecido, incluindo a maioria da nossa nova liderança palestiniana.”

(via United Press International, Review of Arab Press – os destaques são da minha exclusiva responsabilidade)

Presumo que qualquer tipo de comentário se afigura de todo desnecessário perante a eloquência desta prosa do al-Quds al-Arabi. Gostaria apenas de sugerir uma vez mais a leitura de um artigo escrito há um ano por Dennis Prager, comentando a recusa do Irão em aceitar ajuda humanitária israelita no seguimento do terremoto de Bam. O artigo de Dennis Prager intitula-se Iran Clarifies the Middle East. E explica muita coisa.


Entretanto, para os meus leitores que dominem o árabe e se queiram dar ao trabalho, o artigo original está aqui: al-Quds al-Arabi – درس للعرب من سيريلانكا (A versão pdf da primeira página do jornal pode ainda ser lida aqui, o editorial encontra-se a duas colunas na margem esquerda, no canto assinalado na imagem pelo círculo vermelho)

Susan Sontag (1933-2004)


Foto da autoria de Annie Leibovitz

::A LER:: Susan Sontag.com / Susan Sontag – Wikipedia / Susan Sontag / The New York Review of Books: Susan Sontag / Salon – The “traitor” fires back / Susan Sontag: “Fascinating Fascism / Online NewsHour: Conversation: Susan Sontag – February 2, 2001 (com video) / New York State Writers Institute – Susan Sontag / Interview with Susan Sontag (com áudio) / TNR Online Trophy as Metaphor by Daniel Halpern / The Guardian – The risk taker / Royce Carlton – Susan Sontag Fiction Writer Cultural Critic / Susan Sontag – political commentary on Sept. 11

Triste… Muito Triste

Em momentos de tragédia e necessidade, habitualmente os países colocam de lado as divergências e congregam esforços para a ajuda humanitária. Israel, por exemplo, esteve entre os primeiros a oferecer auxílio aos países do sudoeste asiático afectados pelo terremoto e maremoto de segunda-feira.
Mas é também hábito que estas coisas nunca sejam assim tão simples. O Sri Lanka, provavelmente o país mais afectado, recusou a oferta do governo israelita (ver também BBC – Sri Lanka rejects Israel rescuers), que se disponibilizara para enviar uma equipa de 150 especialistas preparada para montar hospitais móveis, equipados com unidades de emergência, pediatria, radiologia e laboratórios. Convém acrescentar que – pela mais triste das razões que advêm da experiência própria – Israel possui os mais especializados técnicos de salvamento do mundo. Entre 90 a 100 cidadãos israelitas, na sua maioria turistas, continuam desaparecidos na região.
A situação é profundamente triste, mas nada disto é novidade. Há exactamente um ano, quando um terremoto de grande escala matou cerca de 20 mil pessoas em Bam, no Irão, grupos humanitários israelitas contaram-se entre os primeiros a oferecer ajuda. Mas o governo iraniano, abrindo os braços perante a gratidão do mundo, anunciou de imediato que estava pronto a receber ajuda humanitária de todos os países – mas que era melhor os seus cidadãos morrem nos escombros do que serem salvos por judeus.
Nada é mais triste do que ver o ódio sobrepor-se à necessidade. Uma vez mais.

::ADENDA I:: Numa completa inversão da verdade, o diário oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, criticou fortemente (!?!) Israel na sua edição de terça-feira (link para ficheiro .pdf), acusando o governo de Jerusalém de ter “recusado um pedido de ajuda humanitária efectuado pelo Sri Lanka” (ver também Catholic World News : L’Osservatore raps Israel for declining disaster relief). O jornal católico corrigiria o erro, mas sem nunca o admitir verdadeiramente, na sua edição de quarta-feira (ver L’Osservatore Romano 29-12-2004, formato .pdf).

::ADENDA II:: O blog American Amnesia coligiu uma interessante lista parcial dos montantes da ajuda de emergência doados por vários países. De notar especialmente o montante da ajuda francesa, uma quantia verdadeiramente insignificante quando comparada com as de economias equivalentes.

EUA – $15.000.000
Austrália – $10,000,000
Emirados Árabes Unidos – $2.000.000
Canadá – $1.000.000
Alemanha – €1,000,000
Kuwait – $1.000.000
Japão – $370.000
França – €100.000

[Ver também A Tristeza II – Palavras Para Quê?]

Humores

Leib Kvitko

Quem se mascara por trás do vento?
O que é o vento?
Centenas de milhares de humores
tacteiam cegos,

Apalpam o mundo em todos os sentidos,
ponto por ponto,
procuram a face aberta do mundo,
mas nada encontram.

Vida sim, vida não,
tentam e tentam.
Talvez o mundo não tenha rosto?
Não há resposta.

O velho sentinela – senil,
Nada sabe.
O livro antigo com antigas fábulas
não acreditamos agora nele

Centenas e centenas de humores
tacteiam cegos.
E eu junto-me à procissão,
a minha criança vem atrás.

Leib Kvitko (1893-1952), poeta, judeu russo, morto por ordem de Stalin durante a Noite dos Poetas Assassinados.

[traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês feita por Joseph Leftwich]

::NOTA:: O American Jewish World Service, uma das principais organizações judaicas de ajuda humanitária, está a recolher fundos de emergência para distribuir por 24 ONGs sediadas nos países do Sudoeste Asiático directamente afectados pela catástrofe. As doações podem ser efectuadas directamente na Internet, aqui: American Jewish World Service Tsunami Relief.

Magen David’Ouro – Os Melhores Blogs de 2004

Prometera a mim próprio não fazer balanços do ano na Judiaria, especialmente porque aqui já se vai no ano 5765, e esse começou a 15 de Setembro passado… mas, depois de alguma ponderação, achei que valia a pena dar a conhecer aqueles que pessoalmente considero serem os melhores blogs de 2004, uma distinção norteada por critérios da mais completa subjectividade. Vale apenas pelo que vale: a garantia das minhas continuadas visitas diárias.

Portugueses (ordem mais ou menos alfabética):
Aviz / Abrupto / Adufe.pt / Afixe / Almocreve das Petas / Avatares de um Desejo / Babugem / A Barriga de um Arquitecto / Bloguitica / …Blogo Existo / Bomba Inteligente / A Bordo / A Causa Foi Modificada / O Céu Sobre Lisboa / Contra a Corrente / Desassossegada / Desnorte / Fora do Mundo / Homem a Dias / O Intermitente / O Jumento / Klepsýdra / Ma-Schamba / A Memória Inventada / Memória Virtual / A Minha Jornada / Miniscente / O Observador / Povo de Bahá / Professorices / A Praia / Pula Pula Pulga / Quartzo, Feldspato & Mica / Quase em Português / Super Flumina / Tradução Simultânea / Tugir

Judaicos e/ou de Israel (סדר אלפביתי):
An Unsealed Room / Balagan in Jerusalem / The Head Heeb / Not a Fish (provincially speaking) / Jewlicious / JeW*SCHooL / JRants.com (agregador) / Mystical Politics / PaleoJudaica.com / Sha! / Zackary Sholem Berger

Internacionais (ordem alfabética / alphabetical order):
Alexandre Soares Silva (Brasil) / Alto Volta (Brasil) / American Amnesia (EUA) / Blogico (Brasil) / Crooked Timber (EUA-UK) / Días Estranhos (Galiza) / Filisteu (Brasil) / Letteri Café (Brasil) / Marc Cooper (EUA) / Oficina de Objetos Perdidos (Espanha) / Peter Levine’s Weblog (EUA) / Pointblog.com (França) / Prosa Caotica (Brasil) / The Rhine River (EUA) / Sudan: The Passion of the Present (EUA) / Velho do Farol (Brasil)

Presenças individuais em blogs colectivos:
Daniel Oliveira / Filipe Nunes / João Pedro Henriques / Jorge Palinhos / Vital Moreira

Post do Ano:
As Notícias que Nunca Saem na Primeira Página (Jaquinzinhos)

::ADENDA:: 26/12/2004 – Gostaria de abrir um parêntesis para manifestar a minha mais profunda gratidão aos bloguistas que insistiram em colocar a Rua da Judiaria entre as suas escolhas de 2004. Obrigado Francisco José Viegas, Alberto Gonçalves, Ricardo Gross, Carlos “MacGuffin”, Walter Rodrigues, Paulo Pinto Mascarenhas, André Abrantes Amaral e José Flávio.

Oração para Todos os Governantes

Abraham Joshua Heschel

Não me destines, ó Senhor dos Exércitos
à humilhação – de vitória ou heroísmo.
Humilha-me, se a minha desgraça
for um conforto para os fracos.

Minha alma agita-se teimosamente:
Sim a tudo!
Apenas não à guerra!

E no princípio da guerra
rogo-te,
dai-me derrota!

Meu coração mais facilmente suportaria
as dores do falhanço, da perda
do que o significado de vitória.

Sê o salvador e guardião
da justiça profanada.
Deixa-me estar errado quando sinto triunfo!

Deixa-me levar os orgulhosos troféus
que marcam as alegrias que meus gestos
deixaram em corações humanos.

Não me destines, ó Senhor dos Exércitos
à humilhação – de vitória ou heroísmo.
Humilha-me, se a minha desgraça
for um conforto para os fracos.

Abraham Joshua Heschel, (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]


O rabino Heschel (o segundo a contar da direita) ao lado de Martin Luther King (ao centro) em 1965, na famosa marcha de Selma para Montgomery, Alabama, durante a luta pelos direitos cívicos da minoria negra norte-americana.