Barreira de Segurança III (O Outro Lado do Muro)

A oposição europeia à construção da barreira de segurança israelita – vulgo “Muro da Cisjordânia” – tem sido, na sua esmagadora maioria, conduzida de forma pueril. A contestação é, em regra, formulada em torno de uma simplista “aversão a muros”. Acredito na necessidade da construção da barreira por ser uma solução defensiva contra os atentados terroristas, com a vantagem acrescida de acelerar a retirada da presença militar israelita dos territórios ocupados. A minha discordância pessoal resume-se ao traçado escolhido pelo gabinete de Ariel Sharon. Que se conteste o traçado, que se exija a sua construção nas fronteiras pré-1967, mas uma contestação circunscrita a uma qualquer “murofobia”, neste caso particular, é perfeitamente irrelevante. Pessoalmente, ao discordar do traçado actual, discordo também que a barreira, tal como ela actualmente se apresenta, possa vir a ser usada como demarcação permanente ou como linha de fronteira. Mas até a própria Direita israelita reconhece isto mesmo. Num artigo de opinião publicado na semana passada no New York Times (ver The New York Times – Opinion: Why Israel Needs a Fence), Benjamin Netanyahu escreveu:

“(…) A fence can always be moved. Recently, Israel removed 12 miles of the fence to ease Palestinian daily life.”

E aqui as instituições israelitas têm funcionado – o Supremo Tribunal de Israel, por exemplo, decretou recentemente que o traçado do muro em diversos pontos (inclusive em Jerusalém) era ilegal, ordenando que futuros traçados tenham em conta primariamente aspectos humanitários e de qualidade de vida da população palestiniana.
É preciso também esclarecer que a barreira de segurança não é uma invenção da Direita e de Sharon. A sua construção é apoiada de forma quase generalizada também por partidos à esquerda dos trabalhistas (העבודה), como por exemplo o Meretz (מרצ) – ligado ao movimento pacifista Paz Agora (ver Peace Now Positions – In Favor of a Fence on the Green Line – Against Sharon’s Fence) – e por personalidades emblemáticas da Esquerda israelita, como Yossi Belin, um dos arquitectos da iniciativa de paz de Genebra. A grande diferença de opinião entre a Esquerda e a Direita israelitas não tem a ver com a construção ou não do muro, mas sim com o seu traçado. Na minha opinião é aqui que a contestação internacional devia ser centrada – e de uma forma construtiva.
Uma das mais potentes armas de propaganda que Ariel Sharon possui em termos domésticos é uma versão do nosso bem conhecido “orgulhosamente sós”. Uma espécie de “ninguém quer saber de nós, ninguém se importa que nos matem” – um discurso que justifica medidas que de outra forma seriam injustificáveis. E decisões como a do Tribunal Internacional ou moções como a de ontem adoptada pela Assembleia Geral da ONU servem apenas para reforçar essa percepção de isolamento (basta ler a reacção no Maariv International).
Esta lógica de oposição, o “contra o muro pelo muro”, é absolutamente contraproducente. Acima de tudo, é prejudicial para os palestinianos, porque legitima a narrativa da Direita israelita, a da lógica “securitária” centrada unicamente no terrorismo, o que lhes permite minimizar o sofrimento palestiniano. Neste quadro, é o terrorismo palestiniano que se torna central do ponto de vista israelita, não os territórios, os desalojados, os postos de controlo, o desemprego.
A barreira de segurança demonstrou já possuir a capacidade de bloquear a livre circulação de terroristas. E se os israelitas não estão sob o estado de choque de atentados constantes nas ruas, nos autocarros e nos cafés, ser-lhes-à impossível ignorar por muito mais tempo as terríveis condições em que os palestinianos são obrigados a viver sob a ocupação militar. Uma imensa manifestação em Tel Aviv realizada em Maio passado, que juntou 200 mil israelitas em nome da paz, prova esta tese.
Mais uma vez no caso do conflito israelo-palestiniano, as percepções da opinião pública europeia são novamente guiadas maioritariamente por um jornalismo irresponsável e preguiçoso. A imagem do “muro” (aqui insisto nas aspas), é dada por inúmeras fotografias de uma imensa barreira de betão, isto apesar da “imensa barreira de betão” constituir apenas uma ínfima parcela da barreira de segurança – a maior parte da qual é constituída por uma cerca simplificada, com portões que permitem a circulação em ambas as direcções. Apesar de tudo, prevalece a imagem do muro de betão, construído apenas em zonas urbanas.


As duas faces do “Muro da Cisjordânia”. Apenas uma prevalece nos media europeus.

Quando acima referi que, em vez de pontificar com medidas não vinculativas e condenações de circunstância de cariz marcadamente político, que acabam por fortalecer o complexo isolacionista de Sharon, a comunidade internacional deveria agir “de forma construtiva”, queria com isto dizer que se deviam apresentar contrapropostas concretas. A ONU, ou mesmo a União Europeia, poderia, por exemplo, propor custear parcialmente a construção da barreira de segurança israelita ao longo de um traçado internacionalmente acordado, que poderia muito bem ser o grosso da fronteira pré-1967 (ver Six-Day War – Wikipedia), com algumas alterações demográficas que não colidissem com as pretensões territoriais palestinianas.
Outra medida construtiva seria congregar países vizinhos com responsabilidades históricas, como a Jordânia e o Egipto, em programas de assistência às populações de Gaza e da Margem Ocidental – tanto no campo da segurança como da educação e saúde.
Muitos têm comparado a barreira de segurança de Israel ao Muro de Berlim. Mas o contraste não podia ser maior. Em Berlim, o muro foi construído em 1961 como barreira repressiva, para restringir os movimentos dos cidadãos da parte oriental da cidade e impedir saídas e deserções. Em Israel, a barreira é agora construída para servir de defesa à infiltração de terroristas – e não para impedir saídas, como refere o meu amigo José no seu Guia dos Perplexos.
Podem continuar a chamar-lhe muro, mas acredito que uma comparação mais ajustada pode ser encontrada com um recuo na história. Muralha – e não muro – será a palavra mais adequada. Muralha, tal como a Grande Muralha da China. E tal como a Muralha de Jericó, poderá também um dia ser derrubada. Não por armas nem pelo som estridente do shofar, mas simplesmente quando sararem as feridas e as memórias se diluirem. Mas, para já, a separação pode muito bem ser a única solução viável para a existência de dois estados livres, independentes e seguros.
Como escreveu David Makovsky, director do Project on the Middle East Peace Process (ver A Defensible Fence: Fighting Terror and Enabling a Two-State Solution), do Washington Institute for Near East Policy: “Israelitas e palestinianos terão de se sentar à mesa das negociações para resolver os seus problemas. Uma vez que essas negociações são improváveis por enquanto, todavia, uma barreira bem construída poderá servir como medida temporária. Dados os traumas que ambos os povos têm sofrido, especialmente nos últimos três anos, separar agora israelitas e palestinianos é a única forma de os aproximar no futuro”.

::A LER:: Haaretz – Israel News – The separation fence / PESC-IL-PeaceNow / שלום עכשיו / Peace Now / שיר לשלום – A Song for Peace / Meretz – Wikipedia / Yachad – Wikipedia / Geneva Accord – Wikipedia / Israel Security Fence – Ministry of Defense / Seattle Post-Intelligencer – Arab bomb victim backs West Bank barrier / A Defensible Fence: Fighting Terror and Enabling a Two-State Solution.

Barreira de Segurança II (Ainda o Caso de Ceuta)

No Causa Nossa, Vital Moreira contestou o meu post Barreira de Segurança I (Outros Muros), alegando “não haver comparação” possível entre a barreira de segurança israelita e os outros muros mencionados.
Escreve Vital Moreira: “A diferença essencial entre o muro israelita na Palestina e os outros muros que refere é que estes estão construídos na fronteira dos respectivos territórios, enquanto o muro israelita está construído na sua maior parte em território alheio(…)”
A razão que me levou a realçar o caso praticamente desconhecido do muro erigido em torno de Ceuta (Sebta, em árabe transliterado) tem precisamente a ver com isso. Ceuta e Melilla, apesar de toda a retórica espanhola, são vistas pelo governo de Marrocos como “territórios ocupados”. Se existe uma disputa – mesmo que Espanha recuse sequer colocar a hipótese de negociar a devolução das duas cidades –, o muro de Ceuta foi efectivamente construído em território alheio.
Vamos aos factos.
Quando há exactamente dois anos Espanha e Marrocos se envolveram em disputas territoriais em torno da ilha desabitada de Perejil, o primeiro-ministro marroquino, Abderrahmane Youssoufi, afirmou que Rabat pretendia “recuperar todas as suas regiões e acabar com a ocupação das cidades de Ceuta e Melilla e ilhas circundantes saqueadas. O actual estado de coisas não pode continuar por muito mais tempo”.
Historicamente, desde a independência de Marrocos, em 1956, que os marroquinos têm tentado negociar com Espanha o retorno dos dois enclaves. Como afirmou um dia o próprio rei Hassan: “Só um cego negaria a Marrocos direitos sobre Ceuta e Melilla; só um tolo obstinado o questionaria.”
O seu filho, o actual monarca de Marrocos, o rei Mohammed VI, reafirmou já por várias vezes as mesmas pretensões. Em 1999, pouco depois de ter ascendido ao trono, Mohammed VI recebeu o então presidente do governo espanhol, José Maria Aznar, numa sala do seu palácio onde numa das paredes pontificava um mapa de Marrocos com os dois enclaves claramente marcados como território marroquino.
Rabat sugeriu a criação de uma comissão bilateral para discutir o futuro de Ceuta e Melilla. Mas Espanha recusou prestar qualquer atenção às pretensões marroquinas.
A actual bandeira de Ceuta (representada na imagem que ilustra este post) relembra ainda um passado colonial distante em que a cidade desempenhou o papel de peão ibérico.
O Direito Internacional define disputa territorial como “divergência sobre a posse ou controlo de terra entre dois ou mais estados”. No caso de Ceuta e Melilla, segundo esta definição, parece ter ficado provado que existe uma inquestionável disputa territorial, o que torna o muro de oito metros de altura construído com fundos comunitários em redor de Ceuta legitimamente comparável ao muro israelita – pelo menos no que diz respeito à maneira como os seus críticos tentam enformar uma das vertentes do debate.
(Continua)

::A LER:: Ciudad Autónoma de Ceuta / Morocco claims Ceuta and Melilla / Guardian Unlimited Special reports Morocco draws new territories into Parsley row / Middle East Online – Zapatero calls for respect, dialogue with Morocco / CNN.com – Spain, Morocco strike island deal – July 20, 2002 / European Press Review – Morocco Has Chosen the Path of Confrontation, Says Spain’s El Mundo / Islam Online- Spain Increases Military Presence in Moroccan Enclaves / Telegraph News Morocco stands ground in island row.

Barreira de Segurança I (Outros Muros)

Sobre o muro de Israel, e as minhas posições pessoais sobre o tema, falarei num post seguinte. Por agora, penso ser importante dar a conhecer aos meus leitores outros “muros” – ou barreiras de separação – cuja existência tem passado largamente despercebida.
Vamos aos recortes.


O texto completo pode ser encontrado aqui, embora os números estejam já um pouco desactualizados. A barreira espanhola – ou o “muro de Ceuta” – tem agora oito metros de altura e custou 60 milhões de euros, com a sua construção a ser custeada parcialmente com fundos comunitários.
Mas esta não é única.


Esta notícia, datada de Janeiro passado e apenas disponível em telex, recebeu também pouca ou nenhuma cobertura por parte dos media europeus.
Para além de Espanha e do Kuwait, também a Índia, a Tailândia, o Botswana, o Uzbequistão e a Arábia Saudita possuem ou estão a construir barreiras de segurança nas suas linhas de fronteira.
Em relação à barreira espanhola em redor de Ceuta, o diário conservador israelita Maariv não resistiu à comparação: “Aparentemente, segundo o ponto de vista europeu, os aspectos éticos de uma barreira de separação resumem-se a uma mera questão de geografia”, escreve o colunista Gad Shimron. Apesar das minhas leituras do Maariv serem sempre feitas com algumas reservas, a equiparação aqui parece-me inevitável. Ceuta e Melilla são dois enclaves espanhóis em território marroquino. Desde a independência de Marrocos, em 1956, que estas duas cidades são encaradas por Rabat como “quasi-colonatos” estrangeiros no seu território nacional.
(continua)

100 anos de Neruda

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.”

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche esta estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque este sea el ultimo dolor que ella me causa,
y estos sean los ultimos versos que yo le escribo.

in “Veinte Poemas de Amor” (1924)

Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto (12 de Julho de 1904 – 23 de Setembro de 1973), poeta chileno de origem judaica, conhecido como Pablo Neruda, o pseudónimo que escolheu como homenagem ao poeta checo Jan Neruda.

Um poema para um país em crise

A Verdade Morreu

A Verdade morreu
Não se estima a piedade,
A infâmia e o erro
São fortes e poderosos,
Não há quem busque ser
Virtuoso e humilde,
E o respeito de Deus
Foi esquecido.
Ninguém sente desgraça
Em ser pedinte,
Grande é a vergonha,
As almas são pequenas face à culpa.
Em vez de amigos
Há inimigos.
Na companhia
Há inveja,
E amor fraternal
É um engano.
Honra
Não mais existe.
Dinheiro é a Palavra –
E quem o tem é senhor.
Todos fazem dele discussão.
Meu Deus, o que será de nós!

Ulma Seligman (séculos XVI e XVII), poeta judeu alemão. Poema extraído do livro “Der Zuchtspiegel” (O Espelho da Virtude), publicado em 1610.
[N.T. –Traduzido para português com base na tradução do yiddish original para o hebraico feita por Joseph Leftwich.]

A Tradição Musical dos Judeus Portugueses

Músicas da Judiaria V

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

A edição n° 5 das Músicas da Judiaria é dedicada à tradição musical da liturgia dos judeus portugueses. Apesar de totalmente extinta em Portugal pela perda de continuidade gerada com as perseguições quinhentistas, a liturgia segundo os ritos dos judeus portugueses continuou a ser praticada na Diáspora, especialmente em Amsterdão, Nova Iorque, Londres, Bordéus, Hamburgo e Curaçao (Antilhas Holandesas) – onde existiram (e ainda existem) as mais representativas comunidades de judeus lusitanos emigrados.
Nesta edição dá-se aqui a conhecer a melodia do Salmo 29, cantado pelo rabino Abraham Lopes Cardozo, descendente de judeus portugueses nascido na Holanda, em 1914, bisneto de David Lopes Cardozo (1808-1890), rabino-chefe da comunidade portuguesa de Amsterdão – o último rabino da cidade holandesa a fazer os seus sermões de Shabbat em português.
Um verdadeiro achado de etnomusicologia, a canção desta edição das Músicas da Judiaria é retirada do CD The Western Sephardi Liturgical Tradition, as sung by Abraham Lopes Cardozo, recentemente editado pelo Jewish Music Research Center, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

::Ilustração:: “Vista da Sinagoga dos Judeus Portugueses em Amsterdão”, gravura holandesa do século XVII

Pouca Sorte

Planeta aziago por certo
governava os céus quando nasci –
Almejei fama e fortuna
Só tenho ruína e desdém.

Um destino perverso segue meus passos
com incansável maldade cruel;
Vendesse eu lanternas e velas,
Toda a noite o sol haveria de brilhar.

Não posso, não consigo, prosperar
Não importa o quanto tento –
Fosse meu negócio mortalhas vender
Homem nenhum haveria de morrer!

Abraham ibn Ezra (1092 – 1167), poeta e filósofo, judeu de Toledo.

Portugal Visto de fora I

“Os maiores defeitos da moderna prosa portuguesa são a sua vaga pomposidade e a incapacidade de usar duas palavras quando é possível usar dez – por exemplo, número transforma-se em designação numérica.”

in Studies in Portuguese Literature, Aubrey F. G. Bell, Oxford, 1914.

Maestro Álvaro Cassuto

O Completar do Círculo

Álvaro Cassuto, um dos mais conceituados maestros portugueses da actualidade, é dos poucos judeus portugueses que se pode gabar de ter completado um ciclo de história familiar iniciado com a saída ancestral da sua família de Portugal, em meados do século XVI.
Movida pelo antisemitismo institucional que vigorava em Portugal – exacerbado pelo decreto de conversão forçada, de 1497, e posteriormente pelas perseguições inquisitoriais –, a família Cassuto seguiu as pisadas de um grande número de outros judeus lusitanos e fixou-se primeiro em Livorno, em Itália, e depois em Amsterdão, que na época contava já com uma florescente comunidade de judeus portugueses. Amsterdão seria durante mais dois séculos o destino natural dos judeus (e “cristãos-novos” convertidos à força) que abandonavam Portugal em busca de uma segurança que a sua terra natal teimava em negar-lhes.
No início do século XIX, a família Cassuto vai viver para Hamburgo, na Alemanha, onde se integra na comunidade de judeus portugueses ali radicada. Aos poucos, os Cassuto começam a aparecer ligados à vida espiritual e cultural dos judeus portugueses de Hamburgo – Jehuda Cassuto assume as funções de hazzan (condutor da liturgia) na sinagoga da comunidade, enquanto o seu filho, Issac (bisavô do maestro Álvaro Cassuto), se dedica a escrever e traduzir tratados sobre a história da diáspora dos judeus portugueses.
A 1 de Abril de 1933, no mesmo dia em que o recém eleito regime germânico nazi decreta o boicote ao comércio detido por judeus, a família Cassuto abandona a Alemanha e, depois de uma breve passagem por Amsterdão, regressa a Portugal, a sua terra ancestral. O maestro Álvaro Cassuto nasce no Porto, em 1939. O seu pai, Alfonso Cassuto (1910–1990), historiógrafo apaixonado e ávido coleccionador de manuscritos antigos, estuda e escreve sobre a herança histórica e cultural dos judeus portugueses.
Álvaro Cassuto estudou direcção de orquestra com os mestres Pedro Freitas Branco, Herbert von Karajan, Franco Ferrara e Obi Kapellmeister. Em 1969 foi o vencedor do galardão Koussevitzky, tido como o mais importante prémio internacional para jovens maestros. Entre 1970 e 1992 dirigiu a Orquestra Sinfónica da RDP, posto o que fundou a Nova Filarmónica Portuguesa, em 1993. Entre 1993 e 1999 dirigiu ainda a Orquestra Sinfónica Portuguesa e actualmente é o maestro titular da Orquestra do Algarve. Álvaro Cassuto viveu ainda 18 anos nos Estados Unidos, onde foi professor de música na Universidade da Califórnia e director musical da Rhode Island Philharmonic e da National Orchestra of New York, antes de regressar definitivamente a Portugal em 1986. Entre outras, o maestro Álvaro Cassuto conduziu a Orquestra Sinfónica de Jerusalém e a Ra’anana Symphonette de Israel.
Durante toda a sua carreira, o maestro Álvaro Cassuto tem sido um dos principais divulgadores da obra do compositor português Joly Braga Santos, seu amigo e colega.


Isaac Cassuto (1848-1923), bisavô do maestro Álvaro Cassuto (foto à esquerda)
Rosy e Jehuda Leon Cassuto, (foto à direita) “regressam” a Portugal em 1933.


Pedra tumular da sepultura de Alfonso Cassuto (1910-1990),
pai do maestro Álvaro Cassuto. Cemitério Judaico de Lisboa.

Marlon Brando (1924-2004)


I attended the New School for Social Research for only a year, but what a year it was. The school and New York itself had become a sanctuary for hundreds of extraordinary European Jews who had fled Germany and other countries before and during World War II, and they were enriching the city’s intellectual life with an intensity that has probably never been equaled anywhere during a comparable period of time. I was raised largely by these Jews. I lived in a world of Jews. They were my teachers; they were my employers. They were my friends. They introduced me to a world of books and ideas that I didn’t know existed…”
in Songs My Mother Taught Me (autobiografia), Marlon Brando , p. 72

Larry King: This Yiddish thing, you got a lot of that in New York, right? You’re part Jewish.

Marlon Brando: I… well, technically I’m not a Jew but culturally I am. I spent ten years in New York and that was when New York was New York. The Daily Forward… and Stella very kindly invited me into her home and all of my employers, my teachers, I went to the New School of Social Research which is an extraordinary institution of learning.

Larry King: Still there.

Marlon Brando: And it was at a time when all the people were coming out of this extraordinary academia of Germany, like Hannah Arendt… the list is endless.

Fragmento da última entrevista televisiva de Marlon Brando, conduzida por Larry King, gravada na CNN em 1994. A transcrição integral pode ser lida aqui: CNN.com – Transcripts.

Um Ano de Adufe

“Informação literária e iconográfica testemunha que o “tambor quadrado” [Adufe], que consiste num pedaço de pele curtida esticado sobre uma moldura quadrada, era um instrumento bastante popular entre mulheres trovadoras das comunidades judaicas e islâmicas da península Ibérica medieval. Devido ao facto do instrumento ser associado às mulheres e às culturas semitas “infiéis”, a sua representação em bíblias e portais de catedrais ibéricas dos séculos XII e XIII era, dependendo do contexto, invariavelmente associada ao judaísmo, ao “Outro” pagão ou ao simbolismo messiânico. A representação do instrumento na iconografia cristã medieval é produto de uma prática artística anterior de modernizar e secularizar os instrumentos musicais mencionados nas escrituras. Uma vez que o adufe era tocado por mulheres e judeus resolveu-se o problema de representar um tambor descrito na Torá, um instrumento tocado maioritariamente por mulheres chamado tof (traduzido na Vulgata como tympanum). Assim, em manuscritos como a Bíblia de Pamplona, ele é representado na adoração do bezerro dourado e na “fornicação” das mulheres moabitas, enquanto o portal da catedral de Burgos o mostra nas mãos de um dos profetas do Antigo Testamento.”

in “The square drum as a Semitic and messianic symbol in medieval Spanish iconography”, Mauricio Molina, City University of New York. Trabalho apresentado na conferência “Music in Art: Iconography as a Source for Music History”. Dedicado ao Rui M. Cerdeira Branco. Parabéns!

Violino de Palmo e Meio

Sento-me no jardim onde brinquei em criança.
A criança brinca ainda na areia. As suas mãos fazem ainda
pat-pat, depois cavam a destroem,
depois outra vez pat-pat.

Entre as árvores a pequena casa está ainda de pé
onde a alta voltagem zumbe e ameaça.
Na porta de ferro a caveira é
outra conhecida de infância.

Quando tinha nove anos deram-me
um violino de palmo e meio
e palmo e meio de emoções.

Às vezes sou ainda assaltado por orgulho
e alegria: Já me sei vestir e despir
sozinho.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Ilustração: “Violin on Wall”, óleo sobre tela de Alexandre Zlotnik.