Muito se tem escrito nos últimos dias sobre a falta de inspiração e paciência que por vezes afecta os nossos blogistas. Uma solução para as “brancas”, quando se sente vontade de escrever mas nada sai, pode ser encontrada no The Apathetic Online Journal Entry Generator, um gerador automático de entradas apáticas para blogs. Os resultados são divertidos e satisfatoriamente inócuos. E para aqueles que acham que escrevem blogs pouco interessantes, aconselho uma passagem pelo The Dullest Blog in the World, um exercício prodigioso em monotonia e aborrecimento.
Author: Nuno Guerreiro Josué
Ainda a Polémica do Relatório Sobre o Antisemitismo
“Il ne s’agit pas là d’une opinion mais d’un délit.”
Jean Paul Sartre, Réflexions sur la Question Juive, 1946, escrevendo sobre o antisemitismo.
O relatório sobre o antisemitismo na Europa, suprimido pelo European Monitoring Center on Racism and Xenophobia, voltou a dar que falar na blogosfera. O Terras do Nunca reagiu e criticou a forma como o relatório foi aqui referido. O Francisco José Viegas respondeu, e de forma brilhante, no Aviz.
Como a reacção do João no Terras do Nunca parece indiciar, o antisemitismo – a palavra em si – tornou-se um tabu. “Sinceramente, não percebo porque se está a tentar fazer uma tempestade num copo de água”, escreve ele, dizendo que depois de ler o relatório acha justificada a sua não publicação, isto porque cometia um “erro” de fundo: “a sistemática confusão entre anti-semitismo e anti-Israel (e, quando falo de anti-Israel, falo de oposição a políticas concretas do estado de Israel e não de oposição ao Estado de Israel)”, diz o Terras do Nunca. Mas não é isto que o relatório conta. Antes pelo contrário.
“In the public domain in Spain, France, Italy and Sweden, sections of the political left and Arab-Muslim groups unified to stage pro-Palestinian demonstrations. While the right to demonstrate is of course a civil right, and these demonstrations are not intrinsically anti-Semitic, at some of these, anti-Semitic slogans could be heard and placards seen; and some demonstrations resulted in attacks upon Jews or Jewish institutions. In the Netherlands pro-Palestine demonstrators of Moroccan origin used anti-Semitic symbols and slogans. In Finland however, pro-Palestinian demonstrations passed without any anti-Semitic incidents. In Germany, and less so in Austria, public political discourse was dominated by a debate on the link between Israeli policy in the Middle East conflict and anti-Semitism, a debate in which the cultural and political elite were involved.”
Esta citação é extraída do ”Executive Summary” do relatório a que o João se refere. Quando realmente se lê o relatório, o argumento do João esfuma-se, transformando-se em pouco mais do que um reflexo condicionado aparentemente gerado pela discussão levantada em torno do que é ou não é o antisemitismo.
Ao contrário do que o João infere no post do Terras do Nunca, a esmagadora maioria dos casos de antisemitismo referenciados no relatório nada tem a ver com uma eventual confusão com “oposição a políticas concretas do estado de Israel”.
Physical attacks on Jews and the desecration and destruction of synagogues were acts often committed by young Muslim perpetrators in the monitoring period. Many of these attacks occurred either during or after pro-Palestinian demonstrations, which were also used by radical Islamists for hurling verbal abuse. In addition, radical Islamist circles were responsible for placing anti-Semitic propaganda on the Internet and in Arab-language media.
Nada disto me parece uma mera confusão entre “antisemitismo e oposição a políticas concretas do estado de Israel”. Uma coisa são legítimas manifestações contra a situação em que vive o povo palestiniano – e para que conste, aqui fica escrito que apoio e sempre apoiei a criação de um estado palestiniano –, outra é quando algumas destas manifestações descambam em quasi-pogroms. Quando isto acontece, o visado não é o estado de Israel mas sim pessoas, homens e mulheres – cidadãos da Europa – , que são insultados por causa da sua aparência exterior religiosa, que vêem os seus lugares de culto vandalizados e as sepulturas dos seus cemitérios profanadas. Que tem isto a ver com um conflito político ou com a luta pela libertação de um povo? Nada, digo eu.
Mas o relatório dá ainda conta de casos concretos que não têm nada a ver com o conflito israelo-palestiniano:
Desecration of synagogues, cemeteries, swastika graffiti, threatening and insulting mail as well as the denial of the Holocaust as a theme, particularly on the Internet. These are the forms of action to be primarily assigned to the far-right.
Não quero transformar esta prosa num texto laudatório em relação relatório, até porque ele pouco ou nada traz de novo em relação ao que já se sabia. Também não pretendo que isto seja interpretado como um ataque ao Terras do Nunca, um blog que leio regularmente e com o qual, em regra, até tendo a concordar. Leiam-no apenas por aquilo que pretende ser: uma contribuição para um debate que merece espaço.
Tal como Francisco José Viegas referiu já vezes sem conta no Aviz, importa, de facto, fazer uma distinção concreta entre o antisemitismo e as críticas a Israel. Totalmente de acordo. Mas, como ele próprio também já escreveu – e como de alguma forma transparece também no relatório acima mencionado –, a linguagem de uma e outra coisa tende por vezes a fundir-se num perigoso cocktail. O problema aqui é de discurso. De semântica e semiótica. Desde já prometo voltar aqui a abordar a “linguagem” do conflito israelo-palestiniano e as implícitas nesgas de antisemitismo que por vezes dela transpiram.
Mas, acima de tudo, partilho com o Francisco a preocupação face à indiferença com que o fenómeno continua a ser visto na Europa. Na minha opinião, é neste contexto que a recusa do European Monitoring Center on Racism and Xenophobia em publicar este relatório deve ser lida.
Durme
Cantiga de embalar tradicional em Ladino
Durme, durme
mi alma donzella
durme, durme
sin ansia y dolor
durme, durme
sin ansia y dolor.
Heq tu sclavo tanto dezea
ver tu sueño con grande amor
ver tu sueño con grande amor.
Hay dos años que sufre mi alma
por ti, joya, mi linda dama
por ti, joya, mi linda dama.
Siente, siente al son de mi guitarra
siente, hermosa, mis males cantar
siente, hermosa, mis males cantar
Cantiga de embalar tradicional, em Ladino, dos judeus portugueses e espanhóis (século XIV).
Ainda o Relatório sobre o Antisemitismo
O Congresso Judaico Europeu decidiu (e muito bem) divulgar o “polémico” relatório sobre o antisemitismo na Europa (o tal que o European Monitoring Center on Racism and Xenophobia, um organismo da UE, decidida arquivar por ser “politicamente incorrecto”). Escreve-se no relatório:
“No campo da esquerda, declarações antisemitas foram encontradas maioritariamente no contexto de manifestações e comícios pró-palestinianos e anti-globalização, bem como em artigos de jornal utilizando estereótipos antisemitas para criticar Israel. (…) isto gerou uma combinação de pontos de vista anti-sionistas e anti-americanos que se transformaria num elemento importante na emergência de um sentimento antisemita na Europa.”
O relatório aponta ainda para a crescente popularidade de livros e manifestos antisemitas – como o Mein Kampf, de Hitler, ou os Protocolos dos Sábios de Sião, forjados pela corte czarista no final do século XIX.
No relatório encontra-se uma entrada específica para Portugal, onde se dá conta dos (poucos) incidentes antisemitas ocorridos no nosso país.
Os judeus europeus, ainda de acordo com o relatório, transformaram-se em reféns das políticas de Israel, uma identificação que, por si só, é um sinal flagrante de antisemitismo – afinal nunca se ouviu falar, por exemplo, de um “sentimento anti-russo” por causa da guerra na Chechnya.
Novo Plano de Paz

Não é oficial e Sharon avisou já Washington que seria um “erro grave” se Colin Powell se avistassem com aqueles que o elaboraram. Por isto e por muito mais, vale a pena saber mais sobre o Acordo de Genebra, uma iniciativa não-governamental de paz que está a ser muito bem recebida por vários líderes mundiais. A iniciativa, oficialmente lançada esta segunda-feira em Genebra entre muita circunstância e alguma pompa, é o produto de dois anos de negociações semi-secretas entre representantes dos sectores moderados de Israel e da Autoridade Palestiniana – coordenados pelo ex-ministro trabalhista israelita da Justiça Yossi Beilin e o ex-ministro palestiniano da Informação Yasser Abed Rabbo. O objectivo, na prática, é inverter a pirâmide habitual da diplomacia, e fazer com que a opinião pública mundial pressione os governos de Israel e da Autoridade Palestiniana a aceitarem termos de paz “impostos pelas bases”.
O Acordo de Genebra vai além dos acordos de Oslo – dos quais Yossi Beilin foi um dos arquitectos – ao prever o desmantelamento da maioria dos colonatos existentes na Margem Ocidental, a divisão de Jerusalém em duas capitais distintas e a criação de um estado palestiniano.
É fundamental que a opinião pública mundial pressione as duas partes a aceitar os termos do acordo, que garantem ao mesmo tempo a segurança dos israelitas e a legítima autodeterminação palestiniana. Quem quiser pode passar por aqui para assinar uma petição internacional a favor da iniciativa do Acordo de Genebra. O link permite ainda ler o texto integral do acordo. Uma versão em hebraico do documento pode ser encontrada aqui.
O primeiro livro impresso em Portugal
O primeiro livro impresso em Portugal saiu das oficinas tipográficas de D. Samuel Porteiro, um judeu de Faro, em 1487. Sensivelmente 30 anos após Johannes Gutenberg ter espantado o mundo ao imprimir em Mainz a sua famosa Bíblia, o primeiro livro a sair de uma tipografia portuguesa foi igualmente uma edição das escrituras sagradas… mas em hebraico. O Pentateuco – os cinco livros de Moisés que compõem a Torá, foi impresso recorrendo já a avanços em relação à tecnologia inventada por Gutenberg, entre os quais a utilização de caracteres metálicos móveis. O único exemplar conhecido desta edição ainda em existência encontra-se na colecção permanente da British Library, em Londres, que detém ainda outra obra pioneira em termos nacionais: o Comentário ao Pentateuco, do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nachmanides), o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, editado por Eliezer Toledano em 1487.
D. Samuel Porteiro imprimiu ainda em Faro, em 1488, uma edição de 22 volumes do Talmude do qual restam apenas fragmentos, uma vez que a Inquisição ordenou a sua destruição depois de D. Manuel ter decretado a expulsão dos judeus do reino de Portugal (e consequente conversão forçada ao Catolicismo), em 1497.

A Eternidade de Fernando Assis Pacheco no Aniversário da Sua Morte
Estava em Londres a 30 de Novembro de 1995. Liguei para a redacção a avisar que a prosa da semana ia já a caminho. Foi então que me deram a notícia: Fernando Assis Pacheco tinha morrido. Mudara-me para Londres meses antes e ainda sentia na pele o peso da distância de Lisboa. A notícia da morte de Assis Pacheco deixou-me ainda mais só. Já lá vão oito anos.
“Estas efemérides são muito chatas porque, não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso.” – escreveu Assis sobre o aniversário da morte de Zeca Afonso no Jornal de Letras a 25 de Fevereiro de 1992. Agora, perante a possibilidade de fazer o mesmo, não lhe podia dar mais razão.
Conheci-o na redacção d’O Jornal no início da década de 90. Eu um novato. Ele um jornalista lendário. Tive a sorte de crescer no jornalismo com ele ao lado. E de lhe ouvir as histórias que contava ao fim do dia no seu pequeno cubículo da redacção na Avenida da Liberdade.
É quase irónico estar agora a escrever sobre ele, aqui do outro lado do mundo, num computador. Assis nunca usou o computador. Escrevia as melhores prosas de cada edição numa máquina de escrever manual, que acariciava com a mão esquerda enquanto o indicador direito matraqueava letra a letra.
Os antigos sábios judaicos escreveram no Talmude e no Zohar que quando morre um homem singular, a data da sua morte abre ciclicamente um alçapão cósmico que nos permite aspirar a imitar as suas qualidades. E o Assis tinha muito que imitar.
Fernando Assis Pacheco morreu como gostariam de morrer muitos escritores: numa livraria. Na Bucholz, em Lisboa. Já lá vão oito anos.

Fernando Assis Pacheco (1937-1995)
COMO UM RELÂMPAGO VERDE
Nesse ano e mês chamaram de Lisboa
era o pai de meu pai
morrendo velozmente ao telefone
eu ouvia os gritos baterem
nas portas da cristaleira
quis chamar Deus para convencê-lo
a suspender o voo
mas já ia longe para lá de Alfeizerão (1)
espero agora que a monotonia e a chuva
tornem à minha vida
um pouco é de supor mais intrigante
(1) à velocidade soube depois
de 1.500 Mach
como um relâmpago verde
Fernando Assis Pacheco, Variações em Sousa
Shabbat Shalom! (II)
Esta sábado será lida nas sinagogas a Parshat Toldot. Segundo a Cabala, a leitura da Torá desta semana realça a nossa tendência natural para criar amizades e estabelecer empatias com pessoas com opiniões e modos de vida semelhantes aos nossos. Em contraste, temos uma tendência inata para nos afastarmos e para julgar os que não concordam connosco. De acordo com os cabalistas, a leitura da parshat Toldot estabelece uma ligação mística que enfraquece esta predisposição negativa, de forma a podermos viver sob a regra estabelecida 200 anos antes da era cristã pelo rabi Hillel de Jerusalém: “Ama o próximo como a ti mesmo.” Shabbat Shalom e uma boa semana!
Big Brother em Israel
A jornalista israelo-americana Allison Kaplan Sommer (que chegou a trabalhar para a CNN) admite no seu blog que um dos seus últimos prazeres quase inconfessáveis foi assistir na TV ao desenrolar da versão israelita do Big Brother, chamado Project Y.
O concurso acabou na quarta-feira, com a inesperada vitória de Firas Houri, um israelita árabe. Escreve Allison: “Acredito que escolherem Firas Houri foi a maneira que os espectadores encontraram de mostrar o seu apreço pela forma como ele, enquanto israelita árabe, encara a vida, estendendo-lhe em resposta uma mão amiga. O próprio Firas disse que a sua vitória mostrava ‘que ainda há esperança’. Numa entrevista ao diário israelita Ma’ariv Firas Houri disse: ‘Para mim, a minha vitória demonstra que as pessoas estão a olhar umas para as outras enquanto seres humanos, tal como eles são. Os espectadores que seguiram o programa viram-me de uma forma objectiva.”
Honestamente, nunca pensei que se podesse alguma vez a escrever “Big Brother” e “esperança” no mesmo parágrafo, e que, ainda por cima, tudo fizesse sentido. Mas faz.
Ainda a Europa e o Antisemitismo
Pelos menos três dos nossos blogs (Aviz, Homem a Dias e Miniscente) apanharam a notícia do Público sobre o relatório do antisemitismo metido na euro-gaveta por razões “politicamente correctas”. Vale a pena ler também esta notícia sobre o mesmo assunto. De facto, como escrevia Francisco José Viegas, “nunca deixes que os factos estraguem uma ‘boa ideia’”.
Poesia Matinal
Yehuda Amichai
Conheço um homem
que fotografou a vista que viu
da janela do quarto onde fez amor
mas não o rosto da mulher que ali amou.
Yehuda Amichai, poeta israelita.
“Mostrem a estrela amarela com orgulho!”

Foi este o título que o líder judeu alemão Robert Weltsch deu a um editorial escrito a 4 Abril de 1933 em resposta ao boicote às lojas judias decretado pelos nazis assim que Hitler tomou o poder.
Quando a Estrela de David era imposta pelos nazis como forma de humilhação, o editorial de Weltsch no Juedische Rundschau apelava aos judeus para terem orgulho no seu judaísmo, em vez de se deixarem vencer pela perseguição. Na opinião de muitos, a exortação de Robert Weltsch contribuiu para elevar a moral da debilitada comunidade judaica alemã. Anos mais tarde, já após o final da guerra, Weltsch confessaria que se arrependia amargamente de ter escrito aquelas famosas palavras. Em vez de lutar para que os judeus conservassem o seu orgulho, disse ele, deveria tê-los encorajado a deixar a Alemanha.
Serve esta entrada para voltar ao tema dos kippot, desaconselhados pelo rabinato de Paris por serem visíveis “sinais exteriores de judaísmo”, isto numa altura em que o antisemitismo vai crescendo em França.
Devem os judeus procurar ocultar o mais possível a sua identidade ou, como exortava Robert Weltsch em 1933, mostrar o kippah “com orgulho”?
Primeiro as citações:
No Aviz de referência obrigatória escreve Francisco José Viegas: “(…) tenho dúvidas sobre a declaração do rabino-chefe de Paris; por um lado, alerta para um perigo real de que há provas substanciais; por outro, fomenta o desejo de vitimização e aceita a intimidação. Não sei, não sei.”
No Crónicas Matinais, Ana Albergaria conta a sua experiência no terreno – que sendo judia e morando em Paris se traduz num registo imensamente pessoal e comovente. Escreve a Ana: “Mas mais importante que isso, muito, mas muito mais importante, é o facto de assistir – cada vez mais – a esses actos locais de anti-semitismo. Ainda a semana passada, no comboio, vinham dois senhores com o Kippah, a ler muito sossegados, e um grupo de marginais começou a insultá-los. Um deles cuspiu mesmo ao mais novo dos dois. Eles não abriram a boca. Nem eu. Não vale a pena, isto é diário. Em todos os comboios. Em qualquer lado. Perante a indiferença dos restantes passageiros. Ficaram eles, e eu, com os olhos húmidos. Senti-me muito cobarde, mas acho que não sou. Nem eu nem aqueles meus dois irmãos judeus. Apenas realistas.”
A Ana conta mais episódios chocantes vividos na primeira pessoa. Vale bem a pena ler as Crónicas Matinais.
Francisco José Viegas tem razão quanto à dificuldade que a questão coloca, quanto mais não seja em termos quotidianos. A fuga e a quase constante necessidade de se diluir no colectivo, seja ele qual for, está quase gravada no código genético do povo judeu. Isto é verdade na história da minha família em Portugal, obrigada a fingir-se católica durante quinhentos anos enquanto o judaísmo continuava vivo na alma e dentro de casa. É também verdade na família de judeus polacos e ucranianos da minha namorada, onde desde pequeno se era educado a ter apenas quanta roupa e livros coubessem numa mala, não fosse surgir a qualquer momento a necessidade de ter de escapar a um qualquer pogrom.
Por tudo isto, o caso presente é uma questão que transcende os limites restritos da comunidade judaica francesa. O antisemitismo tem de ser assumido pela Europa global – como noutro contexto referia ontem o sempre atento Homem a Dias.
Jean-Paul Sartre, que não era judeu, traçou em 1946 um retrato perfeito do antisemitismo – e em particular do caso francês. Num livro intitulado Réflexions sur la Question Juive Sartre concluía (vão-me perdoar mas vou citar a edição que tenho… a americana da Random House.. é um pouco extenso mas vale a pena):
“Antisemitism is a problem that affects us all directly; we are all bound to the Jew, because antisemitism leads straight to National Socialism. And if we do not respect the person of the Israelite, who will respect us? If we are conscious of these dangers, if we have lived in shame because of our involuntary complicity with the antisemites, who have made hangman of us all, perhaps we shall begin to understand that we must fight for the Jew, no more and no less then for ourselves.
I am told that a Jewish league against antisemitism has just been constituted. I am delighted; that proves that the sense of authenticity is developing among the Jews. But can such league be really effective? Many Jews, and some of the best among them, hesitate to participate because of a sort of modesty: ‘That’s biting off too much”, one of them said to me recently. And he added, rather clumsily but with undoubted sincerity and modesty: ‘Antisemitism and persecution are not important.’
It is easy enough to understand this repugnance. But we who are not Jews, should we share it? Richard Wright, the Negro writer, said recently: ’There is no Negro problem in the United States, there is only a White problem.’ In the same way we must say that antisemitism is not a Jewish problem; it is our problem. Since we are not guilty and yet run the risk of being it’s victims – yes, we too – we must be very blind indeed not to see that is our concern in the highest degree. It is not up to the Jews first of all to form a league against antisemitism; it is up to us.
(…)The cause of the Jews would have been half won if only their friends brought to their defense a little of the passion and the perseverance their enemies use to bring them down.
(…)What must be done is to point out to each one that the fate of the Jews is his fate. Not one Frenchman will be free so long as the Jews do not enjoy the fullness of their rights. Not one Frenchman will be secure so long as a single Jew – in France and in the world at large – can fear for his life.”
A minha referência de domingo tinha a ver com isto mesmo. Se serve para figurar no Tratado Constitucional Europeu, o tal mito da tradição judaico-cristã, da tal interligação de culturas e povos, não deveria antes servir para defender pessoas de carne e osso quando elas precisam de ser defendidas?
A Ana Albergaria, no pedaço de texto que citei, diz que se sentiu cobarde. Ela não tem nada que se sentir cobarde. A cobardia é da França em peso. Os homens franceses deviam andar hoje todos de kippot na cabeça!
*Citação do Dia*
“Primeiro vieram prender os comunistas, e eu não levantei a minha voz porque não era comunista. Depois vieram prender os sindicalistas e os socialistas, e eu não levantei a minha voz porque não era nem uma coisa nem outra. Depois vieram prender os judeus, e eu não levantei a minha voz porque não era judeu. Depois vieram prender-me e já não restava ninguém para levantar a voz por mim.”
Excerto de um sermão do pastor Luterano alemão Martin Niemöller, preso a 1 de Julho de 1937 pelas autoridades nazis e posteriormente enviado para os campo de concentração de Sachsenhausen e Dachau. Sobrevivendo aos horrores da guerra, Niemoller morreu, aos 92 anos, em Wiesbaden, na então R.F.A., a 6 de Março de 1984.
Notas de início de semana
A primavera quase eterna de Los Angeles prossegue inalterada. O sol inunda as paredes de domingo e um imenso céu azul estende-se pelo horizonte. Visto daqui, o mundo parece doce. Quase bucólico.
Raivinhas de estimação (I)
A expressão ”tradição judaico-cristã” e as tentativas de a referenciar no Tratado Constitucional Europeu: Ao pretender amalgamar duas mundividências radicalmente distintas, esta expressão tenta juntar o incompatível. Não existe nenhuma “tradição judaico-cristã”! Paulo de Tarso deixou isso bem claro quando transformou em religião distinta o que então era uma seita judaica. O mito da “tradição judaico-cristã” nasceu no seio do protestantismo liberal americano do século XIX e nada tem a ver com valores ou tradições europeias.
a) Sobre este mito escreveu o conceituado historiador e rabino Jacob Neusner: “A tradição judaico-cristã é algo que não existe, quer de um ponto de vista histórico ou mesmo teológico. Não é mais do um mito secular.”
b) Joshua Jehouda, refuta ainda mais: A expressão judaico-cristão é um erro que tem alterado a história universal pela confusão que lançou na mente dos homens, se por ela se faz crer na origem Judaica do Cristianismo(…). O termo ‘judaico-cristão’ é baseado numa ‘contradictio in abjecto’ que tem levado os caminhos da história pelo lado errado. Liga num fôlego duas ideias que são completamente irreconciliáveis, procura demonstrar que não existe diferença entre dia e noite, entre quente e frio ou preto e branco, introduzindo assim um elemento fatal de confusão numa base sobre a qual, mesmo assim, alguns se lançam a construir uma civilização.”
(l’Antisemitisme Miroir du Monde pp. 135-6)
Sinais exteriores de Judaísmo
O crescendo de antisemitismo em França leva o rabino chefe da comunidade de Paris a desaconselhar o uso de kippot nas ruas. Onde está afinal a tradição judaico-cristã quando é precisa?
O primeiro Shabbat
Amanhã celebra-se o primeiro Shabbat aqui na Rua da Judiaria. Esta semana, em todas as sinagogas do mundo será lida a Parshat Chayei Sara. Para uma perspectiva cabalística, podemos também ler o que diz o Zohar acerca desta parshat. Shabbat Shalom!
RTP Internacional e a frustração de quem mora longe
Primeiro a confissão: a regular leitura de blogs contribuiu para me aproximar ainda mais de pessoas com quem mantinha laços de amizade e cumplicidades, mas também ajudou a mudar ideias feitas que tinha sobre outros com quem nunca tinha convivido e de quem conhecia apenas a persona mediática. Nesta última categoria encontra-se J. Pacheco Pereira. O seu ABRUPTO permitiu-me encontrar um JPP que desconhecia por completo. No blog encontrei um homem que aprendi a admirar, apesar de politicamente termos do mundo uma visão oposta.
Dito isto, leio no ABRUPTO um comentário de JPP com o qual não podia estar mais de acordo. Escreve ele sobre a RTP Internacional e a total ausência de senso comum e sentido de serviço público que presidem à sua programação:
“Volto à pátria por via televisiva. Procuro notícias, o telejornal, encontro um programa da RTP Internacional ainda mais bizarro do que o costume. Um filme português do tempo do PREC, que apanho no fim, numa cópia de tão má qualidade que quase nada se via no ecrã. Depois uma sucessão caótica de pequenos filmes sem nexo: uma Contra-Informação, uns spots musicais, um do Luís Represas, uns filmes turísticos sobre Portugal profundo, uns reclames repetidos n vezes sobre como era boa a televisão pública, outros sobre o “futebol de interesse público”, quatro vezes o anúncio do programa do Francisco José Viegas. Parecia que alguém tinha deixado bocados de filme em piloto automático durante quase três horas. Nem uma palavra sobre quando é que passaria o telejornal, nem o que se passava com a programação. De repente, out of the blue, às 23,53, o telejornal.
Vim depois a saber que a RTP estava a transmitir um jogo de futebol, o enésimo, para Portugal, e a RTPI enchia o espaço com o que algum funcionário preguiçoso encontrava em arquivo. Nenhuma explicação, nenhum texto dizendo a que horas haveria programação normal, o que se estava a passar. O jogo, por sua vez, entre Portugal e França, era invisível aos emigrantes portugueses em França – eis o “futebol de interesse público”. A completa falta de respeito da televisão pública para com os emigrantes. Inimaginável.”
Há quase 10 anos que deixei Portugal. Morando actualmente em Los Angeles, na Califórnia, confesso, recorro de quando em vez à RTP Internacional em busca de um cordão umbilical à pátria. Mas, como escreve JPP, “voltar à pátria por via televisiva” acarreta elevados custos. Imagine-se o que é procurar a nossa “inner-portugalidade”, da única forma audiovisual possível a esta distância, e deparar com chorrilhos de pimbalhice e remakes portuguesas abastardadas de sitcoms americanas dos anos 50 e 60. Para já não falar das constantes alterações de programação, feitas sem que o espectador tenha a mínima ideia do que aconteceu ao programa que estava à espera de encontrar quando ligou a TV.
Seriam precisos megabytes e megabytes de blog para exemplificar a falta de estratégia programática da RTPI e a sua total falta de sensibilidade quanto às necessidades dos seus utentes televisivos. É claro que muito disto tem a ver com o sentimento há muito enraizado de preconceito em relação aos emigrantes reduzido ao silogismo “emigrante logo pimba”. Durante muito tempo, isto fez da RTPI uma versão televisiva das cassetes pirata vendidas nas feiras de província. A RTPI, durante os últimos anos, também pouco mais foi do que uma versão “digest” da RTP nacional, de onde o sentido de serviço público andou sempre arredado.
É certo que as coisas começaram a mudar de há uns meses para cá. Hoje são exibidos magazines temáticos sobre várias comunidades emigrantes (Canadá, África do Sul, etc.), mas será mesmo isso que os portugueses que estão no estrangeiro precisam de ver na versão internacional da televisão estatal? Na verdade muitas destas comunidades têm acesso fácil a meios de comunicação locais (jornais, rádios, mesmo televisão) onde publicitam e noticiam as suas actividades.
Confesso que pertenço ao grupo de ingénuos que acredita na função pedagógica da televisão, especialmente de uma televisão de serviço público de alcance internacional. Como pode, por exemplo, a actual RTPI cativar a atenção dos luso-descendentes californianos, alguns de segunda ou terceira geração, que apesar de sentirem uma ligação a Portugal não falam uma palavra de português? Não deveria ser essa uma das vocações da RTPI? Promover a extensão do sentido de portugalidade e a imagem de Portugal deviam ser objectivos orientadores da RTPI, mas basta olhar para a sua programação actual para ver que se está bem longe disso.
Será que os responsáveis pela nossa RTPI não olharam nunca para o que fazem os canais internacionais das suas congéneres europeias? TVE, TV5, etc.?
E depois há o eterno problema colocado por JPP no seu blog: os programas mudados à pressa e que raramente são emitidos às horas anunciadas.
Às vezes penso que sou eu que estou mal habituado, pelo menos no que toca ao respeito pelos espectadores. Com todos os defeitos que a televisão americana pode ter (e acreditem que a lista seria bastante longa), a forte competição entre estações criou regras rígidas destinadas a criar hábitos definidos entre aqueles que escolhem a estação. Uma delas é a rotina. Não é preciso ser um génio para perceber que a rotina é a primeira regra de fidelização dos espectadores. Saber que o programa “X” passa às tantas horas faz mais pelas audiências do que milhões em publicidade. Por aqui, os espectadores habituaram-se a ver os programas começados apenas às horas certas (20:00h; 22:00h, etc.) e às meias horas (20:30h, 22:30h, etc.), o que por si só é infinitamente melhor do que ter de memorizar que um programa começa às 18:34h…
Já desisti de ficar frustrado com a RTPI, mas ainda me irrito sempre que a minha tentativa de “voltar à pátria por via televisiva” não é correspondida. “Porque raio estás tu a ver televisão mexicana?”, perguntou-me há algum tempo a minha amada e futura mulher, que não fala português, quando me apanhou a meio de um pretenso programa cómico da RTPI onde a ideia de comédia era transmitida aos gritos e por “laugh tracks” despropositadas.
No final. Com um suspiro intermitente, pego no controlo remoto e mudo para o canal 764 que a Adelphia de West Hollywood me concede. Finalmente volto “à Europa por via televisiva”… graças à TV5. Merci!