“O Dia da Chegada”

Os judeus portugueses nas Américas

[Este post integra-se num “blogburst” promovido por Jonathan Edelstein, destinado a celebrar Arrival Day, o Dia da Chegada, que assinala o aniversário do desembarque dos primeiros judeus em Nova Iorque, a 7 de Setembro de 1654]


Nova Amsterdão. Gravura da autoria do cartógrafo Peter Schenk.
Atlas Hecatompolis.

Os nomes de família dos primeiros judeus americanos soam estranhamente familiares: Dias, Costa, Cardozo, Faro, Ferreira, Fonseca, Gomes, Lucena, Navarro, Nunes, Henriques, Machado, Maduro, Mendes, Mesquita, Pacheco, Peixotto, Pereira, Pinto, Penha, Seixas… Eram portugueses. Judeus portugueses do século XVII. Muitos deles “cristãos-novos”, que finalmente descartavam a capa que foram obrigados a envergar para escapar às fogueiras inquisitoriais; que ali procuravam abrigo, um refúgio da intolerância que mergulhava Portugal numa histeria de fanatismo sanguinário, que acabou por arrastar o país para um abismo do qual ainda hoje se sentem cicatrizes profundas. Os judeus portugueses chegaram a Nova Iorque a 7 de Setembro de 1654, quando a cidade era holandesa e ainda se chamava Nieuw Amsterdam. Faz hoje 351 anos.
Os primeiros vieram do Brasil, alguns depois de emigrarem primeiro de Lisboa para a Holanda. E tal como já acontecia na Holanda, estes emigrantes judeus de Nova Iorque eram conhecidos como “gente da Nação Portuguesa” (ver Hebrews of the Portuguese Nation). Mas para seguir a génese da comunidade judaica portuguesa em Nova Iorque é necessário primeiro viajar até ao Brasil colonial do século XVII, mais concretamente a Pernambuco, um território de extensão considerável capturado pelos holandeses em 1630.
Os judeus tinham desempenhado o seu papel na descoberta e colonização do Brasil. Desde 1500, quando Pedro Alvares Cabral desembarcou nas Terras de Vera Cruz acompanhado por Gaspar da Gama, um “cristão-novo”, até 1654, altura em que os portugueses expulsaram os holandeses, navegadores, pioneiros e colonos judeus ajudaram a moldar a história do Brasil. A Inquisição não tinha ainda atravessado o Atlântico e a distância emprestava uma ilusão de segurança. Muitos dos que ali chegavam eram deportados, condenados ao degredo por suspeita de judaísmo, transformando o território virtualmente numa colónia penal. Mesmo assim, o espectro inquisitorial pairava ainda na penumbra e sobre os judeus pesava o receio de poderem ser repatriados para Portugal a mando dos tribunais da Inquisição.
Num contraste extremo com o obscurantismo inquisitorial que dominava a península Ibérica, em Pernambuco a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais – responsável pela administração dos territórios da coroa dos Países Baixos nas Américas – proclamara logo de início, de forma inquestionável, a liberdade de consciência e de culto entre as populações das suas colónias:

“A liberdade dos espanhóis, portugueses e nativos, quer sejam [católicos] romanos ou judeus, será respeitada. A ninguém será permitido que os moleste ou os sujeite a inquirições em matéria de consciência ou nas suas casas privadas; e ninguém os ouse inquietar ou perturbar ou causar-lhes dano – sob pena de punição arbitrária ou, dependendo das circunstâncias, de severa e exemplar reprovação.”

in “Leis e Regimentos das Índias Ocidentais”, citada por Arnold Wiznitzer, “The Records of the Earliest Jewish Community in New York” (1957).

Apesar de algumas tentativas por parte de clérigos para restringir estas liberdades (especialmente contra os católicos, tidos como inimigos naturais dos calvinistas), a Companhia Holandesa das índias Ocidentais reafirmaria por várias vezes os princípios de tolerância. Perseguidos pela Inquisição em Portugal, este pedaço de “Brasil Holandês” aparecia aos olhos dos judeus portugueses como um oásis de tolerância, que lhes permitia praticar a sua religião livremente, libertando-os do receio, constante e real, das torturas inquisitoriais ou da morte nas fogueiras dos “autos-de-fé”. E assim foi durante 24 anos. No Pernambuco holandês, sob a administração de João Maurício de Nassau, a comunidade de emigrantes judeus de Portugal floresceu, fundando a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Tzur Israel (Comunidade Rochedo de Israel), em 1637.
A 26 de Janeiro de 1654 as tropas portuguesas reconquistam o Recife com um ataque de proporções épicas, comandadas pelo general luso-brasileiro Francisco Barreto de Menezes – que a partir de então ficaria conhecido como “o restaurador de Pernambuco” –, pondo fim ao domínio holandês naquela região do Brasil.


Fólio do manuscrito de “Regras Benéficas e Restrições” para o governo da Sinagoga Shearith Israel, escrito em português e inglês, lavrado em Nova Iorque, em 1728. (clique na imagem para ampliar)

Os termos da rendição, assinados em Taborda, perto do Recife, são generosos para com os derrotados, dando aos holandeses um prazo de três meses (que seria prorrogado por mais três) para se retirarem do território recém conquistado, período durante o qual, segundo os mesmos termos, “não serão molestados ou vexados e serão tratados com respeito e cortesia.” Surpreendentemente, o general Barreto de Menezes mostra uma tolerância muito pouco habitual ao permitir igualmente (ajudando até) a saída dos judeus portugueses, apesar destes terem passado a ficar sob a alçada da Inquisição, o que lhe teria à partida vedado qualquer possibilidade de clemência. A lei exigia a deportação imediata dos judeus para Portugal.
A 20 de Fevereiro de 1654 os funcionários do tesouro real efectuaram um inventário de todas as casas no Recife e Maurícia anotando os seguintes nomes como “judeus proprietários de casas e lojas”: Jacob Valverde, Moisés Netto, Moisés Zacutto, Jacob Fundão, Moisés Navarro, David Atias, Benjamin de Pina, Abraão de Azevedo, João de Lafaia; Gil Correa, Gabriel Castanha, Gaspar Francisco da Costa, Fernão Martins, Duarte Saraiva e David Brandão. Outras aparecem mencionadas no inventário como “casa de judeus”, mas o nome dos seus proprietários não consta do documento.
Devido à escassez de embarcações holandesas que possibilitassem uma evacuação total, o general Barreto de Menezes ofereceu navios portugueses para transportar os judeus e assim os ajudar a escapar à Inquisição. Este gesto não seria esquecido, e os anais da história judaica portuguesa registam ainda hoje o nome de Francisco Barreto de Menezes, católico e “cristão-velho”, como um homem de nobre carácter – um hassid umot ha’olam (gentio justo e íntegro do mundo.)
Ao todo, 16 navios portugueses foram colocados à disposição dos seus compatriotas judeus pelo general Barreto de Menezes e a esmagadora maioria das cerca de 150 famílias judias do Brasil Holandês partiu em direcção à Holanda. Alguns optaram por ficar nas colónias holandeses nas Caraíbas onde, ainda hoje, a predominância de nomes de família portugueses (e a linguagem litúrgica) entre os judeus sefarditas do Suriname e de Curaçao prova essa ligação ancestral (ver também bloGUSblog: A estrela oculta do sertão, sobre os descendentes dos judeus portugueses que ainda restam no sertão brasileiro.)
Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns deste judeus. Em Amsterdão, o rabino português Saul Levi Morteira – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta dos percalços sofridos por uma destas embarcações no livro Providência de Deus com Israel, um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias:
“O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.”
Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Cetherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Cetherine aporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque. Era o primeiro grupo de judeus a chegar a América do Norte. Faz hoje precisamente 351 anos.
Destas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado.
A princípio, reticente, o governador holandês Peter Stuyvesant opôs-se à permanência dos judeus, escrevendo aos seus superiores argumentando que “se deixamos vir os judeus não tardam a vir os papistas.” O desespero de Stuyvesant aumentaria ainda mais quando os judeus apresentaram uma petição à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais para poder fazer na Nova Amsterdão o que faziam em Pernambuco – viver livremente. A resposta da companhia foi favorável :

“Após muita deliberação, resolvemos dar provimento à petição apresentada por certos mercadores [judeus] da Nação Portuguesa, julgando-a favorável, para que eles possam viajar e comerciar com e na Nova Holanda e viver dentro dos seus limites.”

Em 1664, Nieuw Amsterdam passa para a coroa britânica e muda de nome. Dai para a frente será New York. Por volta de 1695, apesar de algumas restrições, os judeus tinham a sua primeira sinagoga improvisada, e a 8 de Abril de 1730 era dedicada a primeira sinagoga de raiz da comunidade que, logo à chegada, em 1654, escolhera o nome de Shearith Israel (Remanescente de Israel). Até ao final do século XIX tiveram duas línguas “sagradas”, ditadas pelos genes, pela fé e pelo apelo da memória. Faziam-se as orações em hebraico. Em português escreviam-se os documentos.


Dois rabinos da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque: H. Pereira Mendes (séc. XIX) e David de Sola Pool (séc. XX).

::A LER NA JUDIARIA:: Os primeiros judeus nas Américas (o capítulo seguinte…) / Genealogia Judaica Portuguesa / Salomão Nunes Carvalho: Um Judeu Português no “Faroeste Selvagem” / Uriah Levy: O judeu português que salvou Monticello / Emma Lazarus / Sabato Morais: O rabino abolicionista

::PARA OUVIR:: Abraham Lopes Cardozo – Mizmor le-David (Um Salmo cantado pelo rabino emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque).

Acção de Graças

David Abenatar Melo

No inferno metido,
Da Inquisição dura,
Entre os cruéis leões do capricho,
De ali me redimiste,
Dando a meus males cura,
Só porque arrependido me viste.

David Abenatar Melo (século XVI), poeta, filósofo e teólogo.
Judeu “marrano” português, nascido no Alentejo, em Fronteira, distrito de Portalegre, com o nome de baptismo de Fernão Álvaro Melo. Preso e torturado por diversas vezes pela Inquisição de Évora, foge para a Holanda em 1613, onde anos mais tarde se torna rabino da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão.

O rabino abolicionista

“Não são as vitórias da União mas sim as da Liberdade que devemos celebrar, meus amigos. O que é união quando existe degradação humana? Quem ousaria afixar novamente o selo à amarra que consignou milhões ao cativeiro? Não eu, o escravo alforriado de Mizraim [Egipto]. Nem vós, cujo lema é progresso e civilização.” Escrito nas páginas do Philadelphia Inquirer, a 25 de Novembro de 1864, ainda em plena guerra civil americana, este parágrafo em defesa do fim da escravatura definia a essência da visão humanista do seu autor: Sabato Morais, rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, nos Estados Unidos.
Um dos mais influentes rabinos da história do judaísmo americano, Sabato Morais era descendente de judeus “marranos” portugueses forçados ao exílio para escapar à Inquisição. Nascido em Livorno, Itália, na segunda década do século XIX, Sabato era filho de Samuel Morais – um comerciante de parcos meios –, que desde cedo incutiu nos filhos o gosto pela leitura, pelas línguas e pela política. Sabato Morais cresceu a falar e a ler português em casa e italiano, latim e hebraico na escola.
Samuel Morais era um fervoroso militante do movimento republicano e foi preso por diversas vezes por causa das suas opiniões políticas, o que obrigou Sabato, o seu filho mais velho, a contribuir desde muito novo para o sustento da família, dando aulas de hebraico e ensinando outras crianças da sua idade a ler os livros de orações na sinagoga. O expediente que servia para ajudar a renda familiar acabaria por marcar o seu futuro: em 1845, com apenas 22 anos, é ordenado rabino, depois vários anos de treino sob a alçada dos rabis Abraham Baruch Piperno, Abraham Curiat, Isaac Alvarenga e Angiolo Funaro.
Pouco depois da ordenação Sabato Morais opta por abandonar a Itália, viajando até Londres, onde se candidata ao cargo de rabino assistente da Sinagoga Portuguesa Bevis Marks, a maior e mais antiga congregação sefardita britânica. Depois de falhar inicialmente os seus intentos, em parte devido à sua pouca fluência na língua inglesa, Sabato regressaria a Londres um ano depois, em 1846, para ensinar hebraico na Escola dos Órfãos Portugueses, uma instituição ligada à mesma sinagoga. Em Londres, Sabato Morais conhece e torna-se amigo de Sir Moses Montefiore e de Giuseppe Mazzini, o líder republicano italiano (e membro da Carbonária) inspirador de Garibaldi. Partilhando os ideais republicanos do pai, e também a militância maçónica, segundo alguns historiadores, Sabato Morais, terá mesmo emprestado o seu passaporte a Mazzini para ele poder regressar a Itália sem ser preso.
Em 1851, após alguma hesitação, Sabato Morais parte de Londres em direcção aos Estados Unidos para se tornar rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, na época uma das mais influentes congregações do judaísmo americano.

Nos EUA, este descendente de judeus portugueses encontraria um terreno fértil para a luta pelos seus ideais políticos e humanistas. Desde logo junta a sua voz ao coro de intelectuais abolicionistas, exigindo o fim da escravatura. Remando contra a corrente de outros líderes religiosos do seu tempo, Sabato Morais envolveu-se directamente na batalha política em defesa da firme separação entre a religião e o Estado. Enquanto vice-presidente da Alliance Israelite Universelle, teve também um papel activo na resposta à perseguição de judeus em Marrocos, na Roménia e na Rússia e escreveu artigos inflamados contra os célebres raptos de Edgardo Mortara e Joseph Coen, duas crianças judias italianas retiradas aos seus pais e baptizadas à força com o consentimento do Vaticano.
Em paralelo, Sabato Morais prosseguiu uma invejável carreira académica, leccionando no Maimonides College e University of Pennsylvania. O seu nome ficaria também intimamente ligado ao Jewish Theological Seminary, que Sabato Morais fundou com Henry Pereira Mendes, na altura rabino da Shearith Israel, a Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque (a mais antiga sinagoga da América do Norte, fundada em 1654).
Ao contrário da abolição da escravatura, outra causa apadrinhada por Sabato Morais não teve tanto sucesso: a abolição da pena de morte nos Estados Unidos. Sobre isto transcreve o Philadelphia Inquirer de 8 de Dezembro de 1865:

“(…)Mas uma outra lição deverá o mundo receber das nossas mãos; tal como proclamou o antigo sábio hebreu, um tribunal que condena um homem à morte, nem que seja uma vez em setenta anos, merece a nossa reprovação.(…) A civilização apela-vos, como um povo livre, a apagar este vestígio de épocas bárbaras, e a humanidade ecoa esse chamamento. Mais do que a exibição dos colossais poderes, mais do que as proezas dos exércitos, o reconhecimento imortal será adquirido quando à abolição da escravatura se juntar o fim da pena capital.”
Sabato Morais morreu a 12 de Novembro de 1897, aos 74 anos. O seu funeral levou às ruas de Filadélfia dezenas de milhares de pessoas e os jornais da época classificaram-no como “o maior que a cidade alguma vez viu”. Por ocasião da sua morte, o Yudishe Gazeten, o primeiro jornal em língua Yiddish dos EUA, publicou um obituário assinado pelo jornalista e escritor Kasriel Sarasohn, classificando Sabato Morais como “der grester fun ale ortodoksishe rabonim in Amerike . . . on sofek” (“ o maior de todos os rabinos ortodoxos da América… sem nenhuma dúvida”) e o New York Times escreveu na mesma altura: “O doutor Sabato Morais foi o mais eminente rabino deste país e os seus discursos foram sempre um factor de poder e vigor em discussões de vasta importância e interesse para milhões de pessoas; um pensador, escritor e orador destemido, incisivo e profundo.”
No livro United States Jewry 1776-1985, o historiador Jacob Rader Marcus descreve Sabato Morais como “um homem imensamente culto e idealista que deixou uma marca profunda na história tanto do judaísmo americano como da própria América”.


::A LER::
University of Pennsylvania Library Collections – Sabato Morais Ledger / Congregation Mikveh Israel / The Story of Mikveh Israel Cemetery / Mikveh Israel: Philadelphia, PA (postal) / Mikveh Israel / Jewish Theological Seminary

Joshua Benoliel em retrospectiva


Joshua Benoliel – Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres,
Cais de Santa Apolónia, Lisboa, 1917

A edição deste ano da bienal de fotografia LisboaPhoto integra uma notável retrospectiva – a primeira do género – dedicada ao trabalho de Joshua Benoliel, considerado o pai do foto-jornalismo português. Nascido em Lisboa, em 1873, Joshua Benoliel captou com a sua objectiva alguns dos momentos mais marcantes da história portuguesa do início do século XX: do assassinato do rei D. Carlos, em 1908, à participação portuguesa na Grande Guerra de 1914-18, passando pela implantação da república, em 1910, e pela “revolução” de Sidónio Pais, em 1917.
Judeu, membro activo da comunidade judaica de Lisboa e frequentador assíduo dos serviços religiosos da sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança), Joshua Benoliel deixou transparecer na sua obra um fascínio indisfarçável por Lisboa. Sobre esta faceta de Benoliel conta José Pedro de Aboim Borges:

“Sente-se o amor que este homem tinha pela sua cidade e pelas suas gentes, a facilidade com que deambulava pelas ruas mais esconsas, testemunhando a precaridade das situações sociais, numa atitude próxima dos americanos Riis e Hine. É uma postura mais íntima, mais ‘fado’, mais humana.”

Quando o jornalismo português tentava colmatar o atraso que levava em relação à onda de modernização gráfica que varria o mundo – numa altura em que a própria arte da fotografia em Portugal era, ela própria, ainda embrionária – Joshua Benoliel transforma-se no primeiro repórter fotográfico português, produzindo milhares de “clichés” para inúmeras publicações nacionais e estrangeiras. De entre todas destaca-se a Ilustração Portuguesa, que chegou a atingir uma tiragem de 24 mil exemplares em 1908, um feito notável num país que na altura tinha cerca de 5 milhões de habitantes e uma taxa de analfabetismo na ordem dos 80%.
Sobre a copiosa produção de Joshua Benoliel escreve ainda José Pedro de Aboim Borges:

“Benoliel enviava semanalmente mais de 180 fotografias para a Ilustração Portuguesa (placas de vidro, de gelatino-brometo, de formato 9×12 cm). Se acrescentarmos mais umas 50 para as restantes publicações com quem colaborava, obteremos um número próximo das 260 fotografias semanais efectivamente transaccionadas.”

A exposição retrospectiva da obra de Joshua Benoliel, organizada por Emília Tavares, pode ser visitada até 21 de Agosto na Cordoaria Nacional, Torreão Nascente, em Lisboa.


Joshua Benoliel – Postal ilustrado. Sinagoga de Lisboa, inaugurada a 18 de Maio 1904.

::A VER:: Rui Tavares colocou online algumas excelentes fotografias de Joshua Banoliel (e também de Aurélio da Paz dos Reis, outro pioneiro) no Álbum do Barnabé. A merecer uma visita.

António José da Silva, o Judeu – 300 anos

António José da Silva

Que delito fiz eu para que sinta
o peso desta aspérrima cadeia
nos horrores de um cárcere penoso
em cuja triste, lôbrega morada
habita a confusão e o susto mora?
Mas se acaso, tirana, estrela ímpia,
é culpa o não ter culpa, eu culpa tenho.
Mas se a culpa que tenho não é culpa,
para que me usurpais com impiedade
o crédito, a esposa e a liberdade?

António José da Silva, o Judeu, nascido a 8 de Maio de 1705, há precisamente 300 anos. Poeta escritor e dramaturgo, é considerado o principal responsável pela renovação do teatro português no século XVIII. Preso pela Inquisição a 5 de Outubro de 1737, acusado de praticar o judaísmo, foi executado na fogueira em Lisboa a 18 Outubro de 1739, aos 34 anos, num “auto-de-fé” presidido pelo rei D. João V, “O Magnânimo”. No mesmo dia foram queimados mais dez “judaizantes”.

Ilustração: Tribunal Inquisitorial (pormenor), Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)

________________________

António José da Silva dá o sinal

Há recompensa a servir de bálsamo
À ira do teu espírito –
Eles podem ter-te morto, mas foram eles
quem ardeu!
Lestos no cadafalso e no garrote,
Para carne judia e corações judeus
castigar na fé e satisfazer o fogo dos fanáticos.
Que esqueçam as histórias incendiadas,
Que baixe a cortina no tenebroso enredo.

Eles riem agora em Lisboa e em Madrid
Em galas ressuscitadas da tua cómica musa ;
Onde piras carnais se ergueram,
Eles titilam a golpes do florete de teu talento.
Saudações Judeu António, acredito que te sentas
À boca de cena, com irónica expressão, no lugar do ponto.

Poema dedicado à memória de António José da Silva, escrito por Walter Hart Blumenthal, antropólogo e historiador norte-americano, nascido nos finais do século XIX.

::A LER:: Wikipédia – António José da Silva / António José da Silva, o Judeu / Casa de Sarmento – António José da Silva, o Judeu / Jewish Virtual Library – Antonio Jose da Silva

Emma Lazarus

O Novo Colosso

O Novo Colosso

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.

Gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, na baía de Nova Iorque, este soneto escrito por Emma Lazarus, a maior poetisa americana do século XIX, era um hino à génese do “sonho americano” e simbolizava também a esperança de liberdade com que os seus antepassados chegaram ao novo mundo.
Filha de Moses e Esther Lazarus, nascida em 1859, Emma orgulhava-se de ser descendente directa de uma das famílias de judeus portugueses que em 1654 desembarcara em Nova Amsterdão, integrada no grupo de 23 refugiados de Pernambuco que fundaram a primeira comunidade judaica da América do Norte. Emma Lazarus era ainda prima direita de Benjamin Cardozo, igualmente descendente de judeus portugueses, juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, ainda hoje tido como um dos mais notáveis e influentes juristas da história do Direito norte-americano.
Educada na Nova Iorque dos meados do século XIX, Emma despertou cedo para a escrita, revelando uma grande sensibilidade e uma enorme aptidão para a poesia. Cedo provaria também que era muito mais do que “uma menina com jeito para fazer versos”, alcançando admiração e amizade entre a elite literária americana da época. Ralph Waldo Emerson foi seu mentor e Henry Wadsworth Longfellow um grande admirador. Mulher e profundamente judia, ao impor-se no panorama cultural americano do século XIX, Emma quebrava duas barreiras que até então pareciam inexpugnáveis.
Aproveitando o sucesso enquanto poeta e escritora, Emma Lazarus expôs os seus leitores às causas que apadrinhava – os Direitos Humanos e a ajuda aos emigrantes, necessitados e indigentes, que diariamente chegavam a Nova Iorque. Como activista de sociedades de beneficência – nomeadamente através da sinagoga dos judeus portugueses Shearith Israel –, ouviu em primeira mão os relatos das perseguições, massacres e pogroms que afligiam os judeus russos e que os empurravam em massa para o estrangeiro (estima-se que entre 1880 e 1920 cerca de 2 milhões de judeus russos tenham emigrado por causa das violentas manifestações de antisemitismo).
Uma década antes do sionismo se tornar um movimento político activo, Emma Lazarus, numa série de 15 artigos escritos para o semanário American Hebrew, intitulados Epistle to the Hebrews – nos quais apelava à unidade contra o antisemitismo –, defendeu a necessidade da criação de uma pátria judaica na terra ancestral de Israel como única forma de fazer face ao antisemitismo:

“(…) Até sermos todos livres, nenhum de nós será livre. Mas deveríamos justificar os insultos dos nossos oponentes, deveríamos tornar-nos “tribais” e judaicos em vez de cosmopolitas como os antisemitas alemães e os perseguidores de judeus da Rússia, ignoramos e repudiamos os nossos infelizes irmãos sem querer ter parte ou porção dos seus infortúnios – até que o cálice de angústia seja erguido também aos nossos lábios.”

Em 1882, no livro Songs of a Semite (Cânticos de um Semita), Emma escreve aquele que os críticos consideram ser o mais “sionista” dos seus poemas: The Banner of the Jew (O Estandarte do Judeu), um apelo épico ao retorno à glória da nação israelita. A sua intransigente defesa dos direitos dos mais desfavorecidos – judeus e não só – fazia dela uma presença constante nas páginas dos jornais da época, entre eles do New York Times (ver Progress and Poverty, NYT 2 de Outubro de 1881).
Inspirada pelos horrores do antisemitismo russo, Emma Lazarus escreveu O Novo Colosso em 1883 para um leilão de recolha de fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade (ver original aqui: The New Colossus, from Emma Lazarus’ Copy Book). O poema foi mais tarde gravado numa placa de bronze e colocado nas paredes desse mesmo pedestal. Emma Lazarus morreu em Nova Iorque, aos 38 anos, a 19 de Novembro de 1887, um ano após a inauguração da Estátua.

::A LER:: Jewish Virtual Library – Emma Lazarus / The Century Illustrated Monthly Magazine The Century Co. New York Vol. 36 (14 New Series), Number 6, October 1888 / The New Colossus (1883) / Poem Hunter – Poems of Emma Lazarus / Emma Lazarus Fund – Who is Emma Lazarus? / Jewish Woman’s Archives – Emma Lazarus Exibit

Yosef Caro: um rabino português no exílio

Dentro de poucos dias, segundo o calendário hebraico, comemora-se o 430° aniversário da morte do rabino quinhentista Yosef Caro (1488–1575), considerado o maior codificador da Lei Judaica. O rabino Yosef ben Ephraim Caro (יוסף בן אפריים קארו), muitas vezes erroneamente identificado como espanhol, nasceu em Portugal em 1488, mas ainda criança foi obrigado a emigrar com a sua família para a Turquia na sequência do Decreto de Expulsão dos Judeus assinado por D. Manuel I em 1497 e das consequentes perseguições inquisitorais. Já adulto, Yosef Caro passaria ainda pela Bulgária e pela Grécia, fixando-se finalmente em Safed, a cidade dos cabalistas, na Galileia, onde faleceria, a 24 de Março de 1575 (13 de Nissan do ano de 5335 no calendário hebraico).
Em Istambul conheceu e ficou amigo de Diogo Pires, um secretário da corte portuguesa, “cristão-novo”, que regressara ao judaísmo adoptando o nome de Salomão Molko (שלמה מולכו). Após o retorno ao judaísmo, Diogo Pires tornou-se um rabino místico com inegáveis poderes de oratória que influenciaria os escritos de sábios cabalistas como os rabinos Isaac Luria e o seu sucessor Hayim Vital. O contacto com Diogo Pires – que acabaria por morrer nas fogueiras da Inquisição em Mantua, em 1532 – teve um profundo impacto na obra de Yosef Caro, que nos últimos anos da sua vida se dedicaria exclusivamente a escrever tratados cabalísticos, entre os quais se destaca o diário místico “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), publicado em Veneza após a sua morte.
Filho de um eminente talmudista, Yosef Caro começou a estudar as escrituras sagradas judaicas ainda criança, desenvolvendo conceitos interpretativos revolucionários. Através da análise metódica das discussões talmúdicas – no Talmude, os rabinos dissecam até à exaustão cada palavra ou frase da Mishná, em busca do seu sentido primordial – Yosef Caro escreve “Shulhan Arukh” (“Mesa Posta”), aquela que ainda hoje é considerada a obra codificadora de referência da Lei Religiosa judaica, a Halakhá (הלכה).
Durante a sua vida Yosef Caro publicou ainda: “Bet Yosef” (Casa de Yosef), em quatro partes (I, II) Veneza, 1550-1551; (III, IV) Sabbionetta, 1553-59; “Shulhan Aruk” (Mesa Posta), em quarto partes, Veneza, 1565; “Kesef Mishneh”, Veneza, 1574-75. Após a sua morte foram ainda publicados: “Bedek ha-Bayit” (Reparar a Casa), suplementos e correcções a “Bet Yosef,” Salónica, 1605; “Kelale ha-Talmud” (Metodologia do Talmude), Salónica, 1598; “Abkat Rokel” (Pó do Mercador), responsa, Salónica, 1597 e 1791; “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), Veneza, 1654; “Derashot”, Salonica, 1799, na colecção “Oz Tzaddikim” (O Poder dos Justos). O rabino Yosef Caro deixou ainda um vasto lote de comentários da Mishná, bem como outros comentários a escritos de Rashi e Nahmanides ao Pentateuco.

A Judia

(poema de Tomás Ribeiro)

Dormes? eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi:
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme, querida, que eu descanto aqui!

Dorme! eu descanto a acalentar-te os sonhos,
Virgens, risonhos, que te vem dos céus!
Dorme! e não vejas o martírio, as magoas,
Que eu digo às águas e não conto a Deus!

Anjo sem pátria, branca fada errante,
Perto ou distante que de mim tu vás,
Há de seguir-te uma saudade infinda,
Hebrea linda, que dormindo estás!

Onde nasceste? Onde brincaste, oh bela?
Rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? em Malta? em Nazareth? no Egipto?
Mundo infinito, e tu sem berço?! oh! Sim.

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Folha que o vento da fortuna impele!
Vítima imbele que o tufão roubou!
Flor que n’um vaso se alimenta, cresce,
Ri, desaparece, e nunca mais voltou!

Filha dum povo perseguido e nobre,
Que o mundo encobre o seu martírio, e crê!
Sempre Ashevero a percorrer a esfera!
Desgraça austera! Inabalável fé!

Porque há de o lume de teus olhos belos,
Mostrar-me anelos d’infinito ardor?
Porque esta chama a consumir-me o seio?…
Deus de permeio maldiz o amor!…

Peito! meu peito, porque anseias tanto?
Pranto! Meu pranto, basta já, não mais!
É sina, é sina; remador, voltemos;
Não n’a acordemos… para quê, meus ais?…

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Tomás Ribeiro (1831- 1901), poeta português.

Versos adaptados para uma canção popular novecentista, dedicada à “Ex.ma Snr.a D. Anna Adelaide Leite Bastos”, recolhida no “Cancioneiro de Músicas Populares”, da autoria de César das Neves com prefácio de Teófilo Braga; Porto, 1893.
(imagens da Biblioteca Nacional).

Uriah Levy

O judeu português

que salvou Monticello

Quando Uriah Levy visitou pela primeira vez, em 1825, a vasta propriedade na Virgínia que poucos anos antes pertencera a Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano – um homem que ele admirava profundamente –, ficou chocado com o seu estado de degradação. Outrora imponente, Monticello estava virtualmente em ruínas.
Apostado em conservar aquele que considerava ser um marco fundamental da história do país, Uriah comprou Monticello no ano seguinte, restaurando a mansão de Jefferson e abrindo-a ao público. O grande apreço que sentia por Jefferson tinha uma explicação: Uriah Levy era judeu – descendente de judeus portugueses – e a tolerância religiosa que Jefferson imprimira na matriz constitucional americana permitia aos judeus poderem desfrutar na América de uma liberdade que até então nunca tinham alcançado em qualquer outro país.
“Thomas Jefferson foi um dos mais importantes homens da História, que fez tanto para moldar a República de forma a que a religião de um homem não o impedisse de exercer uma carreira pública”, escreveu Uriah Levy.
Considerado um dos mais notáveis heróis dos primórdios da história naval dos Estados Unidos, Uriah Levy tinha sido confrontado durante toda a sua carreira militar – que durou mais de meio século – com um profundo antisemitismo. Quarenta anos antes do oficial do exército francês Alfred Dreyfus ter sido julgado, condenado e eventualmente exonerado em julgamentos que tiveram por base o antisemitismo, Uriah Levy enfrentou perseguições semelhantes nos Estados Unidos. Chamado por seis vezes a responder perante um tribunal militar, foi sempre ilibado, e após o último julgamento foi-lhe concedido o posto de comandante da Frota do Mediterrâneo – a maior da armada americana na época – e elevado ao posto de Comodoro.

Uriah LevyA sua forte personalidade, segundo os seus biógrafos, permitiu-lhe sobreviver ao antisemitismo que na altura reinava na instituição militar. De acordo com os costumes da época, Uriah Levy foi obrigado a defender a sua honra inúmeras vezes, a última das quais em 1816, quando matou em duelo o tenente William Potter por este lhe ter chamado “judeu maldito”. Vitima de antisemitismo durante toda a sua carreira militar, Uriah Levy nunca se cansou de expressar o seu apreço e profunda admiração pelos ideais de liberdade religiosa defendidos por Jefferson.
Casado com Virgínia Lopes, também ela descendente de judeus portugueses, Uriah Levy nasceu em Filadélfia, em 1792, filho de Michael Levy e Raquel Machado – que seria enterrada em Monticello –, pertencendo a uma longa linha de ilustres judeus portugueses foçados a emigrar para os Estados Unidos. A sua avó materna, Rebeca Machado – tida como uma das matriarcas das primeiras comunidades judaicas norte-americanas – era filha de David Mendes Machado, rabino da congregação Shearith Israel, a sinagoga portuguesa de Nova Iorque. O seu primo, Mordecai Manuel Noah, jornalista, escritor, político e juiz, foi o mais conhecido judeu americano do século XIX e um dos percursores do sionismo, defendendo, no folheto Discourse on the Restoration of the Jews, o regresso dos judeus à Terra Santa meio século antes da realização, em 1879, do Primeiro Congresso Sionista, em Basileia.
Uriah Levy era ainda bisneto de Diogo (Samuel) Nunes Ribeiro, um judeu português nascido em Idanha-a-Nova, em 1668, que para escapar à Inquisição – que o prendera duas vezes em Lisboa sob a acusação de “reconverter cristãos-novos ao judaísmo” – emigrou primeiro para Londres e depois para a América, onde se contaria entre os membros fundadores da cidade de Savannah, na Geórgia. Samuel Nunes Ribeiro era tio de António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), um dos mais destacados médicos e cientistas da época, membro do grupo de intelectuais portugueses exilados na Europa habitualmente designado como “estrangeirados”.
Uriah Levy foi também bastante activo no seio da comunidade judaica luso-americana do século XIX, ajudando a fundar e ocupando o cargo de presidente da Washington Hebrew Congregation e, em 1854, apadrinhando o novo seminário do Instituto Educacional Bnai Jesherun, em Nova Iorque.
Na história da marinha norte-americana, o seu nome ficou intimamente associado a uma cruzada pessoal que moveu pela abolição dos castigos corporais na Armada. Escandalizado com barbaridade dos castigos – era comum marinheiros serem chicoteados por delitos menores –, Uriah Levy fez apelos pessoais aos membros do Congresso para que a prática fosse proibida, chegando a enviar-lhes chicotes desafiando-os para que experimentassem “na própria pele”.
Como tributo à sua carreira militar, em 1959, a Marinha dos EUA concedeu o seu nome à sua mais antiga sinagoga, na base naval de Norfolk, na Virgínia. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nome de Uriah Levy foi também dado a um caça-submarinos da Armada americana, o USS LEVY.

Após a sua morte, em 1862, Uriah Levy legou a propriedade de Monticello em testamento “ao povo dos Estados Unidos”.


Raquel Machado (1769-1839), a mãe de Uriah Levy,


O seu primo Mordecai Manuel Noah (1785-1851)


Uriah Levy, jovem capitão da Armada dos EUA


Monticello, a propriedade de Thomas Jefferson
(óleo sobre tela, Jane Pitford B. Peticolas, 1827)

::LER:: Who was Uriah Levy? / Judeus Portugueses na América :: Arquivos da Judiaria / The Levy Stewardship of Monticello / The Papers of Thomas Jefferson – Home Page / Monticello: The Home of Thomas Jefferson

Mário Alberto Nobre Lopes Soares: 80 anos


Mário Soares, então Presidente da República, apresenta em Belmonte, em 1989, um pedido formal de desculpas à comunidade judaica pelo sofrimento infligindo pela Inquisição e pela monarquia aos judeus portugueses. Na foto, à direita, o então rabino da comunidade de Lisboa, Abraão Assor Z”L, e o presidente da CIL na época, Joshua Ruah, aceitam o gesto simbólico. Dirigindo-se aos judeus de Belmonte – na sua maioria ainda cripto-judeus – Soares afirmaria: “Ergam as vossas cabeças e tenham orgulho nas vossas nobres origens”.

:: Nota :: Achei deveras interessante – demonstrativo, talvez – que a entrada portuguesa sobre Mário Soares na Wikipedia seja muitíssimo menos detalhada do que a versão da mesma em hebraico

Um Judeu Português no “Faroeste Selvagem”


Salomão Nunes Carvalho, auto-retrato daguerreotipo não datado.

Salomão [Solomon] Nunes Carvalho, um descendente de judeus portugueses nascido na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, foi o primeiro fotógrafo a atravessar os Estados Unidos da América e a registar com a sua objectiva as paisagens e as gentes do longínquo e mítico Oeste americano.
Integrado na quinta expedição do coronel John Charles Frémont, destinada a explorar traçados possíveis para o caminho de ferro entre o rio Mississippi e a costa do Pacífico, Nunes Carvalho tirou mais de 300 fotografias (daguerreotipos) da expedição, muitas delas em condições de extrema dificuldade.
O coronel John Charles Frémont tentara recolher registos fotográficos das suas viagens anteriores, chegando mesmo a tentar ele próprio a complexa arte do daguerreotipo, mas sem qualquer tipo de sucesso. É a sua reputação que faz com que Frémont convide Nunes Carvalho para acompanhar a expedição.
Considerado um dos melhores daguerreotipistas americanos da época, Salomão Nunes Carvalho tinha um estúdio na cidade de Baltimore e era reconhecido também como retratista e pintor. Alguns dos seus desenhos chegaram a figurar nas notas de um dólar da Reserva Federal.
Salomão Nunes Carvalho nasceu a 27 de Abril de 1815 no seio de uma família judaica de tradição e ascendência portuguesa. O seu pai, David Nunes Carvalho, fora um dos principais impulsionadores do movimento de reforma litúrgica judaica nos EUA, defendendo a tradução dos livros de orações e a introdução de sermões em Inglês nas sinagogas, chegando a ser um dos fundadores da Reformed Society of Israelites de Charleston, a primeira congregação americana do judaísmo reformado. O tio de Salomão, Emanuel Nunes Carvalho, mais tradicionalista, era hazzan (condutor da liturgia) da comunidade de judeus portugueses de Barbados, emigrando depois para os EUA, onde exerceria as mesmas funções nas sinagogas portuguesas de Charleston e Filadélfia. Em 1815, o ano em que Salomão nasceu, o seu tio publicou o primeiro livro de gramática hebraica escrito por um judeu nas Américas.
Criado no seio de uma família onde o judaísmo fazia parte do quotidiano – das orações às restrições alimentares impostas pelas regras de kashrut –, uma longa e perigosa viagem por montanhas e florestas representou um desafio acrescido para o fotografo da expedição do coronel Frémont.
Em várias ocasiões, a falta de mantimentos obrigou Nunes Carvalho a quebrar as duras regras diatéticas do judaísmo. Nos rigores do Inverno do Colorado, conta Salomão no seu diário de viagem, durante um nevão que durou quase uma semana, os exploradores foram obrigados a comer uma das mulas.
A aventura de Salomão Nunes Carvalho, iniciada a 22 de Agosto de 1853, demorou mais de um ano. De Kansas City a Los Angeles, o fotógrafo descendente de judeus portugueses transpôs as montanhas Rochosas, passou pelo Lago Salgado, pelo Grand Canyon e atravessou os desertos de Mojave e Death Valley.
Os mais de 300 daguerreotipos com que Nunes Carvalho registou a sua expedição perderam-se irremediavelmente no incêndio de um armazém em Nova Iorque, em 1881. Recentemente, o fotografo norte-americano Robert Shlaer decidiu reconstituir o registo fotográfico perdido da aventura de Salomão Nunes Carvalho. Utilizando as mesmas técnicas fotográficas e recorrendo ao diário do fotógrafo novecentista, Shlaer reconstituiu parte da viagem no livro Sights Once Seen: Daguerreotyping Frémont’s Last Expedition Through the Rockies, lançado dos EUA em 2000.
Em Portugal, o país de onde emigraram os seus pais, o nome de Salomão Nunes Carvalho é totalmente desconhecido.


Anúncio de jornal: publicidade ao estúdio fotográfico
de Salomão Nunes Carvalho

Os filhos de Nunes Carvalho, David e Charity.
Auto-retrato “já avançado nos anos”.


Aldeia Cheyenne. Provavelmente o único daguerreotipo
da expedição de Nunes Carvalho que sobreviveu ao incêndio de 1881.
:: A LER :: Incidents of Travel and Adventure, edição on-line do livro de Salomão Nunes Carvalho baseado nos seus diários de viagem / Route of 1853 railroad / Early California Jewish Biographies / Collected Works Bookstore – Jews Among the Indians:: A VER :: Auto-retrato de Salomão Nunes Carvalho (Library of Congress Daguerreotype Collection) / Daguerreotype Portraits and Views, 1839-1862 (Library of Congress Daguerreotype Collection)

100 anos

A Comunidade Judaica de Lisboa celebra esta semana o centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança). Menos de um século decorrido sobre o fim da Inquisição, 50 anos depois do retorno dos primeiro judeus ao país, os judeus portugueses começavam a voltar as páginas de um passado feito de perseguições, massacres e tribulações.
Em 1904, a abertura da Sinagoga de Lisboa simbolizava um “regresso formal” dos judeus a Portugal, depois da “expulsão” de 1497 e da consequente conversão forçada ao catolicismo. Antes da agora centenária Shaaré Tikvá, a última sinagoga construída em Portugal fora a Sinagoga de Gouveia, inaugurada a 9 de Setembro de 1496, o dia de Rosh Hashana – o ano novo judaico –, poucos meses antes de D. Manuel promulgar o decreto de expulsão, a 5 de Dezembro do mesmo ano. Descoberta acidentalmente em 1967, uma pedra de granito da velha sinagoga enunciava em hebraico:

A glória desta casa última será maior do que a antiga / disse Adonai [Senhor] dos Exércitos; terminada foi a nossa santa e gloriosa casa neste ano: e os resgatados do Senhor voltarão a Sião com alegria.”

A última palavra hebraica desta inscrição – be-riná (com alegria) – dá-nos a data segundo a fórmula judaica tradicional, através do valor numérico das letras: o ano 5257 do calendário judaico (1496). A pedra de granito da Sinagoga de Gouveia, que em tempos encimara a ombreira da sua porta, fora ao mesmo tempo um epitáfio e uma profecia. Uma profecia que os judeus portugueses cumpririam 408 anos mais tarde, inaugurando em Lisboa a Sinagoga Shaaré Tikvá.

::Ilustração:: Postal mostrando o interior da Sinagoga Shaaré Tikvá (cerca de 1910), impresso e distribuído por Cohen & Cª, da Rua do Arsenal, em Lisboa. A fotografia é da autoria de um judeu português: Joshua Benoliel (1873-1932), conhecido como o “pai” do fotojornalismo em Portugal. Joshua Benoliel será um dos homenageados nas cerimónias oficiais da comemoração do centenário.

A Tradição Musical dos Judeus Portugueses

Músicas da Judiaria V

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

A edição n° 5 das Músicas da Judiaria é dedicada à tradição musical da liturgia dos judeus portugueses. Apesar de totalmente extinta em Portugal pela perda de continuidade gerada com as perseguições quinhentistas, a liturgia segundo os ritos dos judeus portugueses continuou a ser praticada na Diáspora, especialmente em Amsterdão, Nova Iorque, Londres, Bordéus, Hamburgo e Curaçao (Antilhas Holandesas) – onde existiram (e ainda existem) as mais representativas comunidades de judeus lusitanos emigrados.
Nesta edição dá-se aqui a conhecer a melodia do Salmo 29, cantado pelo rabino Abraham Lopes Cardozo, descendente de judeus portugueses nascido na Holanda, em 1914, bisneto de David Lopes Cardozo (1808-1890), rabino-chefe da comunidade portuguesa de Amsterdão – o último rabino da cidade holandesa a fazer os seus sermões de Shabbat em português.
Um verdadeiro achado de etnomusicologia, a canção desta edição das Músicas da Judiaria é retirada do CD The Western Sephardi Liturgical Tradition, as sung by Abraham Lopes Cardozo, recentemente editado pelo Jewish Music Research Center, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

::Ilustração:: “Vista da Sinagoga dos Judeus Portugueses em Amsterdão”, gravura holandesa do século XVII