Maestro Álvaro Cassuto

O Completar do Círculo

Álvaro Cassuto, um dos mais conceituados maestros portugueses da actualidade, é dos poucos judeus portugueses que se pode gabar de ter completado um ciclo de história familiar iniciado com a saída ancestral da sua família de Portugal, em meados do século XVI.
Movida pelo antisemitismo institucional que vigorava em Portugal – exacerbado pelo decreto de conversão forçada, de 1497, e posteriormente pelas perseguições inquisitoriais –, a família Cassuto seguiu as pisadas de um grande número de outros judeus lusitanos e fixou-se primeiro em Livorno, em Itália, e depois em Amsterdão, que na época contava já com uma florescente comunidade de judeus portugueses. Amsterdão seria durante mais dois séculos o destino natural dos judeus (e “cristãos-novos” convertidos à força) que abandonavam Portugal em busca de uma segurança que a sua terra natal teimava em negar-lhes.
No início do século XIX, a família Cassuto vai viver para Hamburgo, na Alemanha, onde se integra na comunidade de judeus portugueses ali radicada. Aos poucos, os Cassuto começam a aparecer ligados à vida espiritual e cultural dos judeus portugueses de Hamburgo – Jehuda Cassuto assume as funções de hazzan (condutor da liturgia) na sinagoga da comunidade, enquanto o seu filho, Issac (bisavô do maestro Álvaro Cassuto), se dedica a escrever e traduzir tratados sobre a história da diáspora dos judeus portugueses.
A 1 de Abril de 1933, no mesmo dia em que o recém eleito regime germânico nazi decreta o boicote ao comércio detido por judeus, a família Cassuto abandona a Alemanha e, depois de uma breve passagem por Amsterdão, regressa a Portugal, a sua terra ancestral. O maestro Álvaro Cassuto nasce no Porto, em 1939. O seu pai, Alfonso Cassuto (1910–1990), historiógrafo apaixonado e ávido coleccionador de manuscritos antigos, estuda e escreve sobre a herança histórica e cultural dos judeus portugueses.
Álvaro Cassuto estudou direcção de orquestra com os mestres Pedro Freitas Branco, Herbert von Karajan, Franco Ferrara e Obi Kapellmeister. Em 1969 foi o vencedor do galardão Koussevitzky, tido como o mais importante prémio internacional para jovens maestros. Entre 1970 e 1992 dirigiu a Orquestra Sinfónica da RDP, posto o que fundou a Nova Filarmónica Portuguesa, em 1993. Entre 1993 e 1999 dirigiu ainda a Orquestra Sinfónica Portuguesa e actualmente é o maestro titular da Orquestra do Algarve. Álvaro Cassuto viveu ainda 18 anos nos Estados Unidos, onde foi professor de música na Universidade da Califórnia e director musical da Rhode Island Philharmonic e da National Orchestra of New York, antes de regressar definitivamente a Portugal em 1986. Entre outras, o maestro Álvaro Cassuto conduziu a Orquestra Sinfónica de Jerusalém e a Ra’anana Symphonette de Israel.
Durante toda a sua carreira, o maestro Álvaro Cassuto tem sido um dos principais divulgadores da obra do compositor português Joly Braga Santos, seu amigo e colega.


Isaac Cassuto (1848-1923), bisavô do maestro Álvaro Cassuto (foto à esquerda)
Rosy e Jehuda Leon Cassuto, (foto à direita) “regressam” a Portugal em 1933.


Pedra tumular da sepultura de Alfonso Cassuto (1910-1990),
pai do maestro Álvaro Cassuto. Cemitério Judaico de Lisboa.

João Pinto Delgado, Poeta Marrano

Apesar de virtualmente desconhecido e ignorado em Portugal, João Pinto Delgado é considerado o maior poeta marrano* do século XVII – equiparado a Luis de León, Garcilaso de la Vega e outros nomes grandes da Época Dourada. Nascido em Portimão, em 1580 – o ano provável da morte de Luís de Camões –, era o mais velho dos três filhos de Gonçalo Delgado e neto de um poeta menor igualmente chamado João Pinto Delgado – com quem seria muitas vezes confundido. Aos 20 anos deixa o Algarve e muda-se com a família para Lisboa, com o objectivo de estudar e prosseguir as suas ambições literárias. É na capital – entretanto já sob o domínio espanhol da dinastia Filipina – que toma contacto pela primeira vez com as obras de Jorge Manrique, Garcilaso, Herrera, Góngora e Luis de León, que na época circulavam sob a forma de manuscritos. Apesar de existirem alguns poemas seus em português, o grosso da sua obra foi originalmente escrito em espanhol.
Em 1624, João Pinto Delgado parte para Ruão para se juntar aos seus pais, que entretanto tinham escapado à Inquisição portuguesa. É nesta cidade francesa – onde o seu pai é um dos líderes da comunidade marrana ibérica ali radicada – que publica uma colecção de poemas que viria a cimentar a sua reputação literária: Poema de la Reyna Ester. Lamentaciones del Profeta Ieremias. Historia de Rut, y varias Poesias.
Pouco depois da Inquisição espanhola ter enviado um emissário a Ruão para investigar os cripto-judeus em França, a família de João Pinto Delgado parte para Antuérpia e logo a seguir para Amsterdão. Aqui, perante a relativa tolerância religiosa holandesa, passa a praticar o judaísmo de forma aberta e livre pela primeira vez, e João passa a chamar-se Moshe (Moisés) Pinto Delgado. Entre 1636 e 1640 torna-se um dos sete parnasim (governadores) da Yeshiva (seminário religioso) Talmude Torá de Amsterdão, onde na altura estudava o pequeno Baruch (Bento) Spinoza.
Na sua obra poética, João Pinto Delgado busca os seus temas frequentemente na Bíblia Hebraica, uma tendência que partilha com os poetas marranos da época. Tem uma atracção particular por histórias que relatam o poder de Deus para resgatar Israel em tempos de sofrimento, tal como o demonstram as narrativas de Ester e do Êxodo, ambos por ele adaptadas poeticamente.
Em Lamentaciones del Profeta Ieremias, João Pinto Delgado discorre sobre as tragédias da história de Israel, apresentando a visão de que o povo é responsável pelo seu sofrimento por ter falhado aderir por completo à Lei de Moisés. Este é um tema recorrente da literatura marrana, derivado em grande medida de sentimento de culpa em relação à sua própria observância religiosa judaica, disfarçada sob a falsa capa do omnipresente catolicismo.
Na poesia de João Pinto Delgado transparece a sua noção de que a Inquisição seria um instrumento de Deus para trazer os marranos de volta ao judaísmo, acordando neles a firme noção das suas origens. João Pinto Delgado morreu em Amsterdão, a 23 de Dezembro de 1653.

Publica-se hoje aqui na Rua da Judiaria a primeira de três partes de La Salida de Lisboa, um dos raros poemas autobiográficos de João Pinto Delgado, retirado de um manuscrito da colecção Etz Haim, de Amsterdão, publicado pela primeira vez por pelo historiador I.S. Révah no artigo “Autobiographie d’un Marrane” (Revue des Études Juives, 1961).

*Marrano é o termo pelo qual habitualmente se designam os judeus portugueses e espanhóis (e os seus descendentes) forçados a converter-se ao catolicismo para salvar as suas vidas. Durante séculos, o termo foi considerado pejorativo, acreditando-se que derivava da palavra espanhola para porco (marrã em português arcaico). No entanto, actualmente existe uma corrente de linguistas e historiadores que defendem uma outra proveniência para o termo: marrano terá surgido da contracção das palavras hebraicas márr (amargo) e anússe (forçado). Assim, marranos quererá dizer “aqueles forçados à amargura”. Na liturgia da Páscoa Judaica, por exemplo, são utilizadas “ervas amargas” (márrór), para recordar a amargura da escravidão no Egipto. Em hebraico, os marranos são simplesmente designados como anussim – os forçados.
Entre os mais célebres marranos portugueses sobressai, obviamente, o nome de Baruch (Bento) Spinoza (ver Benedict De Spinoza [Internet Encyclopedia of Philosophy]).

La Salida de Lisboa (Parte I)

Aquí está la infame puerta,
la del olivo y la espada,
Para salir tan cerrada,
Y para entrar tan abierta.

Si en ti la paz se destierra,
no eres del ramo capaz,
Porque uno promete paz
y el outro la guerra.

Recoge, o nave, a Sodoma;
sólo a su cómplice embarca,
que, como no eres el Arca,
no hay que esperar la paloma.

Mancha tu cuchillo fiero
y queda pendiente aquí:
quedará la insignia en ti
como blasón verdadero.

Y tú, el más fiero león,
que matas quien no te ofende,
por mano de quien te entiende
tendrás la satisfacción.

Y aunque nace tu alegría
viendo a tantos perecer,
si a muchos lo hiciste ver,
también has de ver tu dia.

Si nuestro pecado obliga
a sufrir tanto rigor,
considera que el Señor,
si disimula, castiga.

Si parece que se olvida
de castigar su enemigo,
es sólo porque el castigo
ha de ser más que en la vida.

Porque el cielo más se indine,
fabricaste tu palacio
donde diste um breve espacio
para que el cuerpo se incline.

La doncella, entre el tormento,
estando en la vida incierta,
medio viva e medio muerta,
responde a tu pensamiento.

Y entre penas y entre engaños,
su temor no perdonó
al padre que la engendró,
cuanto y más a los extraños.

Niegas la vida a quein niega,
y el que confiessa y se olvida,
si ver remedio, su vida
entre las llamas entrega.

No basta ver que sudó
el pobre com lo que vives,
pues lo que ganó recibes
e coges lo que él sembró.

João Pinto Delgado (1580-1653)
(Continua…)

Herança Judaica Portuguesa em Selos

Selo Comemorativo da Herança Judaica Portuguesa

Os CTT – Correios de Portugal acabam de emitir uma série de selos comemorativa da presença judaica em Portugal. “Eduyot Leyahadut be’Portugal” é o título escrito em hebraico nos selos, o que traduzido literalmente dá qualquer coisa como “Testemunhos do Judaísmo em Portugal”. Por detrás da imagem principal conseguem ainda ler-se algumas palavras hebraicas, entre elas “consolação” e “oculta”. Um acaso feliz quando se pretende celebrar uma tradição desprezada e apagada da História oficial portuguesa.
A gravura escolhida para o selo aqui representado [imagem à esquerda], desenhado por José Brandão e Teresa Cabral, é retirada de uma iluminura do livro Mishná Torá [imagem à direita], um dos mais representativos símbolos da tradição cultural e artística dos judeus portugueses. Os dois volumes de Mishná Torá (ou Mishneh Torah, segundo a mais comum transliteração inglesa) de Maimonides, elaborados em Lisboa em 1472, são considerados a maior obra prima da escola de iluminura portuguesa do século XV, desenvolvida, em grande medida, em manuscritos sefarditas decorados com as primeiras influências da Renascença. Esta escola portuguesa de iluminura viria a ter um fim abrupto com a conversão forçada imposta aos judeus portugueses, em 1497.
A Inquisição, apostada em apagar todos os vestígios da cultura judaica portuguesa, destruiria a esmagadora maioria dos livros hebraicos produzidos no país – incluindo o primeiro livro impresso em Portugal, uma edição do Pentateuco em hebraico de D. Samuel Porteiro, um judeu de Faro, datada de 1487, e o Comentário ao Pentateuco, do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nachmanides), o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, editado por Eliezer Toledano. A inquisição queimou também uma edição impressa em 1488 dos 22 volumes do Talmude, por Samuel Porteiro, da qual restam apenas fragmentos.
O manuscrito que serve de inspiração ao selo representado acima faz hoje parte da colecção permanente de Manuscritos Hebraicos da British Library. Uma parte dessa colecção pode ser visitada aqui: The British Library Hebrew Collections.

A VISITAR: CTT Correios / The British Library Hebrew Collections / O Primeiro Livro Impresso em Portugal / Judaic Treasures of the Library of Congress: Lisbon’s First Book.

O mesmo manuscrito iluminado foi utilizado aqui na Rua da Judiaria, em Janeiro, para ilustrar um poema de Solomon Ibn Gabirol. Este post ficaria incompleto sem um imenso agradecimento ao Boss, do Renas e Veados, que me alertou por email para o lançamento dos selos comemorativos.

ADENDA: Esta série de selos dos CTT insere-se nas comemorações oficiais do centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá (Porta da Esperança), de Lisboa, que se celebra este ano (ver Centenário da Sinagoga).

A Diáspora – Judeus Portugueses na Noruega


No site oficial da comunidade judaica de Oslo (Det Mosaiske Trossamfund i Oslo) conta-se a curiosa história da presença dos judeus na Noruega. Num país onde desde o ano 1000 o rei Olav den Hellige (conhecido como São Olavo) proibira a residência a todos os que não professassem a religião cristã, os primeiros não-cristãos a instalarem-se no país, por volta do século XVI, foram judeus portugueses (portugiserjøder). Os judeus portugueses, alguns deles emigrados já na Holanda, foram autorizados a entrar e a estabelecer-se no reino da Noruega pelo rei Christian IV, um beneplácito que continuou a ser negado durante algumas décadas às restantes comunidades judaicas europeias.
Os judeus portugueses fixaram-se inicialmente no ducado de Schleswig-Holstein, hoje parte da Alemanha. Ao contrário do que acontecia na maioria dos países europeus, os portugueses encontraram na Noruega alguma liberdade – não foram forçados a viver em guetos ou judiarias e nem a usar roupas ou dísticos que os destinguissem como judeus aos olhos da restante população. Em 1641 o rei alargaria a sua protecção também aos judeus da Europa Central e de Leste.
Lê-se ainda no site Det Mosaiske Trossamfund i Oslo: “O sucessor de Christian IV, o rei Fredrik III, não foi tão liberal quanto o seu predecessor e durante o seu reinado os judeus viveram sob grandes restrições. Não lhes era permitido viver no reino sem um visto especial. Em 1687, quando a Noruega e a Dinamarca foram unificadas sob legislação do rei Christian V, foi reinstituída a proibição dos judeus entrarem no reino. Havia uma pesada multa para quem violasse a lei e uma recompensa para os que denunciassem judeus. Cerca de 150 anos mais tarde, em 1830, a atitude oficial face aos judeus tornou-se mais branda e em 1844 o Ministério da Justiça decidiu que os “judeus portugueses (portugiserjøder)” poderiam entrar livremente no país.”

Judeus Secretos e o Aperto de Mão

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”…

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”.
Na verdade, a origem do estranho gesto remonta aos finais do século XV, altura em que os judeus portugueses foram forçados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte. Para muitos, a conversão assumiu apenas um aspecto exterior, continuando o judaísmo a ser praticado dentro de casa, de forma secreta e escondida. Vários historiadores compilaram listas de orações criptojudaicas quinhentistas – algumas sobreviveram até aos nossos dias na comunidade de Belmonte – que denotam uma tentativa de manter viva a ligação ao judaísmo. A mais conhecida será a oração dita pelos cristão-novos/criptojudeus ao entrar numa igreja: “Nesta casa entro mas não adoro pau nem pedra mas sim o Deus que tudo governa, Adonai, Deus de Israel” (in Os Criptojudeus da Faixa Fronteiriça Portuguesa, Eduardo Mayone Dias, 1997).
Da mesma forma, outros gestos quotidianos seriam influenciados por esta necessidade de manter afastados os símbolos da religião que lhes fora imposta à força. A cruz (e os crucifixos) era vista pelos cristãos-novos portugueses como um símbolo aziago e, como tal, a evitar a todo o custo. Segundo David M. Gitlitz, professor da University of Rhode Island, no seu livro Secrecy & Deceit: The Religion of the Crypto-Jews, é neste contexto que judeus portugueses forçados ao catolicismo começam a evitar cruzar braços quando apertam a mão a alguém, afirmando que o gesto “dá azar”. O mesmo costume alargou-se também à representação acidental da cruz à mesa, evitando cruzar facas e garfos.
A assimilação dos judeus forçados à conversão, que ocorreu nos séculos posteriores, levou à propagação da prática, tornando-a parte do subconsciente colectivo nacional – chegando mesmo a implantar-se também em algumas regiões do Brasil, onde durante o período colonial existiram comunidades significativas de cripto-judeus, nomeadamente no Recife e na Bahia.
Hoje, ironicamente, o mais católico dos católicos continua a evitar “fazer cruzes” quando aperta mãos, desconhecendo que o gesto surgiu como resistência, e mesmo rejeição, ao catolicismo imposto à força aos judeus portugueses no século XV.

Exílios

A tua imagem está gravada no meu coração e é no meu coração que está também traçado o teu afastamento.
E mais do que ela me reanima, a tua imagem ausente aflige-me.
A tua separação confunde os meus projectos; o teu exílio impede e torna tortuosos os meus caminhos.
É por tua causa que a minha alma foi abatida e o meu orgulho foi humilhado.
A ponto que os sicômoros se levantam acima do meu cipreste e que o arbusto do hisope pareça mais alto que os meus cedros;
Que o morcego ultrapasse o meu abutre e que a mosca voe por cima das asas da minha águia; (…)

Judá Abravanel, conhecido como Leão Hebreu (1465-1535), médico, filósofo e poeta, judeu português nascido em Lisboa, filho de D. Isaac Abravanel.

[fragmento de um poema escrito em Itália, em 1503, dedicado ao filho do autor, Isaac, de 12 anos, que ficara em Lisboa e fora convertido à força ao catolicismo. Escrito originalmente em hebraico, a tradução para o português é citada por Fiama Hasse Pais Brandão num artigo do Jornal de Letras de 26 de Maio de 1981. Uma tradução em inglês do poema completo pode ser encontrada aqui.]

Regresso I – A Páscoa


Marranos (judeus secretos de Belmonte, Portugal) celebram a Páscoa judaica no sótão. Foto de Frédéric Brenner (1989)

A justificação da prolongada ausência seguirá dentro de momentos. Por agora, no dia em que o cristianismo inicia a comemoração da sua Páscoa, aqui fica a foto de uma família de cripto-judeus (judeus secretos) de Belmonte preparando-se para celebrar uma outra Páscoa, a judaica. Tirada num sótão anónimo em 1989 por Frédéric Brenner, esta foto está integrada no livro Diaspora: Homelands in Exile, um brilhante ensaio fotográfico sobre a Diáspora judaica. No judaísmo, a Páscoa comemora anualmente a libertação do povo hebreu do cativeiro no Egipto, a passagem da escravidão para a liberdade – a palavra hebraica da qual deriva a nossa “páscoa”, Pesach (פסח – pronunciada péssarr), quer literalmente dizer passagem. A Páscoa judaica é celebrada no dia 15 do mês hebraico de Nissan, que este ano recaiu na segunda e terça-feira passadas (segundo o calendário hebraico, os dias começam ao pôr do sol).

Contribuições para a História Judaica de Portugal

Aquilino Ribeiro “O declínio do sobrenaturalismo no Ocidente foi obra indirecta dos judeus expulsos e dos da sua progénite. Os títulos que punham aos trabalhos impressos – nada mais que por virtude do contraste que apresentavam em relação às designações de moda, herméticas e estapafurdicamente pedantes: de Amatus Lusitanus, Curationum medicinalium centuriae; de Rodrigo de Castro, De universa mulierum medicina; de Isaque Bem-Solimão, De febris, etc. revelavam eloquentemente pela precisão nas ideias que foram de sempre apanágio da raça hebraica. Estes títulos é quanto basta para nos dar a conhecer a dose de bom senso que tais homens apagados e nómadas acabaram por imprimir ao curso das ciências e das letras na Europa com manifesto eclipse do misticismo milagreiro. Muitos anos andados ainda Bacon trazia a lume o Lião verde, uma das suas obras postas nos cornos da lua sapiente.
Pelo combate que no campo das ciências aplicadas, em particular, davam à superstição e à medicina sobrenatural – como aposição de relíquias e de ferros santos, intercessão de bem-aventurados, a cada um competindo determinada zona anatómica ou espécie zoológica, assim a Cabeça Santa para a raiva, S. Fiacre para as almorreimas, Santa Luzia e Santa Flamínia, ambas concorrentes, para os achaques dos olhos, Santa Apolónia para a dor de dentes, S. Francisco de Paula a bem da sucessão masculina e ainda contra a estiagem, S. Marino para a sarna, Santa Tecla para as queimaduras, Santa Rita para todos os impossíveis do corpo e da alma, reservando-se Santo Antão o privilégio de guardar os porcos ao chambaril, Santa Marta de esconjurar o pulgão e o filoxera das vinhas, S. Pedro Gonçalves a lagarta das hortas e até S. Paulo Mártir de preservar as searas e favais do granizo e das trovoadas – concitavam contra si todos os agentes de rotina e de conservação. Para o vulgo os físicos hebreus eram herejes e sequazes do Diabo, com o qual tinham pacta. Queimava-se no Entrudo o judeu de estopa e alcatrão, como o judeu de carne e osso na Praça da Lã.
Esta perseguição da Igreja romana contra o judaísmo, equivalente dentro da ideia monoteísta, na esfera das reacções, à da pernada contra o tronco, do verbo contra o logos, de Deus Padre contra Jeová, de Cristo contra Moisés, é um dos casos mais estupendos e absurdos da história.”

Aquilino RibeiroPortugueses das Sete Partidas Lisboa: Bertrand, (1950?), p. 235-237

A Noite de Shabbat, ou a Arqueologia das Pequenas Felicidades

Há dias assim, feitos de pequenas felicidades. Há dias em que o acaso nos leva por caminhos inexplicáveis, rumo a descobertas preciosas. Quando isto acontece, o nosso universo quotidiano torna-se ainda mais pequeno, como se o mundo encolhesse e ficasse condensado na pequena descoberta imensamente feliz…

Há dias assim, feitos de pequenas felicidades. Há dias em que o acaso nos leva por caminhos inexplicáveis, rumo a descobertas preciosas. Quando isto acontece, o nosso universo quotidiano torna-se ainda mais pequeno, como se o mundo encolhesse e ficasse condensado na pequena descoberta imensamente feliz.
Hoje encontrei este pequeno livro: A Noite de Shabbath, publicado em 1927, no Porto, pelo capitão Artur Carlos de Barros Basto – uma figura imensa que merecerá em breve um perfil aqui na Judiaria – , Ben Rosh, impulsionador e líder da Obra do Resgate, que na segunda década do século XX acolheu de volta ao judaísmo oficial centenas de cripto-judeus (marranos) portugueses até então votados à clandestinidade. É quase impossível descrever a alegria (escreveria mesmo “emoção” se a palavra não me soasse tão piegas) que senti ao encontrar este livro, uma raridade preciosa. Comprei-o. Não posso deixar de pensar nos caminhos que ele percorreu em 77 anos, até chegar às minhas mãos, aqui em Los Angeles, do outro lado do mundo, numa sexta-feira à tarde. À beira da noite de Shabbat.
Shabbat shalom!

Jacob Rodrigues Pereira

Jacob Rodrigues Pereira – judeu português, pedagogo e investigador pioneiro no estudo da linguagem gestual

Jacob Rodrigues Pereira (1715-1780), pedagogo e investigador, judeu português do século XVIII, foi pioneiro no ensino de surdos mudos e na criação da linguagem gestual. Nascido em Peniche no seio de uma família judia com raízes em Chacim, Macedo de Cavaleiros, emigrou ainda criança para França levado pelos pais, Magalhães Rodrigues Pereira e Abigail Ribea Rodrigues, que tentavam escapar à Inquisição. A família instala-se definitivamente em Bordéus, onde existia já uma considerável comunidade de judeus portugueses. É aqui que Jacob, com seis anos, é submetido ao Brit Milá (circuncisão), um ritual que a Inquisição proibira em Portugal sob pena de morte.
Tido como um dos maiores pedagogos do século XVIII, Jacob Rodrigues Pereira ingressou na Academia, onde veio a ter admiradores e amigos entre as grandes figuras da cultura e das ciências francesas da época, entre os quais se destacam Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788).
O seu estudo “Observations sur les sourds-muets”, publicado em Paris 1762, é considerado o primeiro trabalho científico alguma vez escrito sobre surdos mudos e valeu-lhe uma pensão vitalícia concedida pelo rei Luís XV. Na sequência da sua investigação, Jacob Rodrigues Pereira viria a desenvolver os primeiros esboços da linguagem gestual, permitindo a comunicação com os surdos mudos, até então considerados “doentes mentais” pelas doutrinas dominantes. Jacob Rodrigues Pereira está sepultado no cemitério Judaico de Villette, em Paris.
Tal como outros judeus portugueses forçados ao exílio, o nome de Jacob Rodrigues Pereira é virtualmente desconhecido em Portugal. Isto apesar de ter sido fundado em Lisboa, em 1834, o Instituto Jacob Rodrigues Pereira, pioneiro no ensino de surdos em Portugal e hoje integrado na Casa Pia de Lisboa. Com uma presença na Internet, o Instituto não faz menção alguma ao homem que inspirou a sua criação.
Os descendentes de Jacob Rodrigues Pereira mantiveram-se em França, onde acabariam por afrancesar o nome para Pereire no início do século XIX. Um dos mais conceituados membros desta família de judeus portugueses emigrados foi Jacob Émile Pereire (1800-1875), bisneto de Jacob Rodrigues Pereira, banqueiro e parlamentar nascido em Bordéus. Em 1835 Jacob Émile foi o responsável pela construção do caminho de ferro entre Paris e Saint Germain e mais tarde fundou, com o seu irmão Isaac, a Société Générale de Crédit Mobilier, que haveria de tornar-se a maior instituição bancária de França. Os dois irmão (ver Connaissez-vous vraiment les frères Pereire ?) viriam a criar também, em 1855, a Compagnie Générale Transatlantique (ver também French Line), a primeira empresa marítima francesa a assegurar carreiras de vapores regulares entre Nova Iorque e o Havre. O seu navio Pereire era então o mais rápido do Atlântico, assegurando em 1867 a travessia entre França e os Estados Unidos em oito dias e 16 horas. Quando o Crédit Mobilier entrou em falência, Jacob Émile entregou 16 milhões de dólares do seu próprio bolso para evitar o colapso da instituição. Quando morreu, a fortuna de Jacob Émile Pereire era estimada em mais 60 milhões de dólares.
Uma avenida em Paris (e uma estação de metro), próximo de Champs-Elysées, ostenta hoje o nome da família. Os Pereire converteram-se ao catolicismo nos finais do século XIX, por “questões sociais”, como forma de fazer face ao antisemitismo francês. Mesmo assim, a família continuou a manter laços estreitos com a comunidade judaica francesa.

Praça Jacob Rodrigues Pereira, Peniche (postal ilustrado de 1909)
Praça Jacob Rodrigues Pereira, Peniche (postal ilustrado de 1909)

Boulevard Pereire, em Paris
Boulevard Pereire, em Paris.

Imagens da diáspora dos Judeus Portugueses I

Lápide tumular de Clara Ferreira, cemitério judaico da ilha de Rodes, Grécia

“Abençoado seja o Juiz da Verdade. Entoai uma ode de lamento com voz amarga. Como Sara, a sua luz extinguiu-se. Lugar de enterro da honrada e nobre mulher, Clara, o pilar de Abraão Ferreira. Ela foi retirada deste mundo no 12º dia de Elul do ano de 5566 [1806]. Que a sua alma seja eterna.”

Lápide do túmulo de Clara Ferreira, 1806, ilha de Rodes, Grécia.

(Agradecimentos à Rhodes Jewish Historical Foundation)

O Judeu nos Painéis de São Vicente

Paineis de São Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves

Escondido no último retábulo da mais conhecida obra da pintura portuguesa quinhentista, Os Painéis de São Vicente, atribuída ao pintor Nuno Gonçalves, encontra-se uma figura que tem despertado a curiosidade dos historiadores.Painel da Relíquia ou Alegoria do Comando Virtuoso, um dos poucos registos iconográficos de judeus portugueses quinhentistas que ainda restam.
No Painel da Relíquia, também conhecido como “Alegoria do Comando Virtuoso”, envergando um manto negro e um barrete, um homem robusto segura nas mãos um livro com caracteres indecifráveis. Uma análise detalhada do retábulo não deixa dúvidas: a misteriosa figura é uma das poucas representações iconográficas que restam de um judeu português quinhentista.
Além do livro com caracteres que imitam o hebraico, a figura ostenta no peito uma estranha insígnia de seis pontas, interpretada por alguns como uma representação oculta remanescente da estrela de David. No entanto, a insígnia não é mais do que o sinal que os judeus portugueses eram obrigados a usar nas suas roupas, decretado no texto das Ordenações Afonsinas – livro II, título 86 –, onde a lei Joanina de 1429 prescreve a utilização obrigatória de “sinais vermelhos de seis pernas cada um, no peito, acima da boca do estômago, (…) pois os judeus não traziam quais sinais que deviam trazer e esses que traziam eram tão pequenos que não se pareciam, e outros os traziam de duas e três pernas e mais não.
Mas a chave central para decifrar o judaísmo desta figura integrada numa das maiores obras primas da pintura europeia quinhentista, acima de tudo, é o livro que tem nas mãos. Acerca da representação do livro, e mais especificamente da forma como ele é manuseado, António Salvador Marques, no seu Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização, escreve que a intenção do pintor em transmitir o judaísmo do personagem foi mais do que premeditada:

Livro em “hebraico” ilegível (clicar para uma versão ampliada da imagem)

O livro encontra-se nas mãos de uma figura com aspecto severo, marcada por um sinal vermelho de seis pontas na indumentária, cujo gesto denuncia a intenção de mostrar que as páginas se voltam da esquerda para a direita, isto é, no sentido contrário ao habitual. Se o leitor reproduzir o gesto defronte de um espelho, aperceber-se-á da forma como o posicionamento dos dedos no acto de passagem da página é significativo de uma tal intenção, muito mais que da exibição de algum trecho específico de livro conhecido.

Os livros hebraicos são abertos da esquerda para a direita e lidos em ordem inversa. Ainda na opinião de António Salvador Marques, o facto da escrita reproduzida pelo pintor ser constituída por caracteres “fantasiosos e ilegíveis” pode também ser demonstrativo:

A conotação judaica não é dada só pela forma como as páginas são voltadas, mas também pelo aparecimento de caracteres ilegíveis que poderiam sugerir a escrita hebraica aos olhos dos não conhecedores, como se interessasse apenas a compreensão de que se trata de um livro hebraico, e não a leitura de um qualquer trecho bem determinado mas irrelevante para os fins em vista. A figuração de comentários ao longo das margens parece sugerir a prática talmúdica de interpretação e comentário da escritura, e reforça ainda mais a conotação judaica. A presença expressa de numerosas anotações marginais num livro ilegível não parece fazer sentido em qualquer outro contexto.

Última parte do tríptico temporal, na “Alegoria do Comando Virtuoso” o judeu português quinhentista representa a virtude do rigor, ladeado pela penitência e pelo sacrifício.
Antes do restauro dos painéis, Joaquim de Vasconcellos, n’O Comércio do Porto de 28 de Julho de 1895, percebeu essa parte da alegoria, transmitindo-a numa prosa encharcada de preconceitos antisemitas: “aponta com gesto arrogante, todo ele vaidoso, enfatuado na sua sabedoria de rabino, para um livro de confusos caracteres fantasiados. É bem o tipo da sinagoga militante (…) por detrás do rabino dois clérigos de alva, esculturais, profundamente característicos, postos de sentinela ao bilioso sectário.” (via “Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização”).
Os historiadores brasileiros Guilherme Faiguenboim, Paulo Valadares e Anna Rosa Campagnano, no recém editado “Dicionário Sefaradi de Sobrenomes” (Frahia, São Paulo 2003), vão mais longe e afirmam que este judeu nos painéis de Nuno Gonçalves pode muito bem ser D. Isaac Abravanel, um dos mais ilustres judeus portugueses do século XV – estadista, líder da comunidade judaica ibérica, filósofo e rabino cabalista nascido em Lisboa, cujos escritos são ainda hoje estudados – especialmente a sua interpretação do código de ética Pirkei Avot (A Ética dos Pais). Curiosamente, como comentam os autores, Isaac Abravanel é “o 15º avô do empresário e apresentador de TV [brasileiro] Sílvio Santos”, Senor Abravanel de seu nome verdadeiro.
Aos que quiserem saber mais sobre os painéis de Nuno Gonçalves, descritos pelo Museu Nacional de Arte Antiga, seu actual repositório, como “um dos mais notáveis retratos colectivos da pintura europeia”, aconselha-se uma passagem pela versão on-line do excelente trabalho de António Salvador Marques, intitulado Painéis de S. Vicente de Fora – Modo de Utilização.

Citações & Recortes Blogosféricos II

A propósito do meu post sobre o aniversário da chegada dos primeiros emigrantes judeus portugueses a Nova Iorque, em 1654 (ver Os primeiros judeus nas Américas), o escritor Luís Carmelo, no seu blog Miniscente, escreveu uma entrada intitulada Tragédia de um Esquecimentor aqui reproduzida. Às questões levantadas, que responda quem sabe.

“Lembra o blogue Rua da Judiaria que, em 2004, se celebram 350 anos “sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque)”. Tratou-se, na altura, de um contingente de 23 emigrantes judeus fugidos à Inquisição do Recife, no Brasil. De facto, um certo mutismo português adora esquecer os labirintos judaicos de Amesterdão, de Antuérpia, de Istambul ou do Recife que, afinal, lhe saíram da sua própria carne. Por que razão será muda a história oficial portuguesa acerca da implosão judaica de finais de século XV e inícios do século XVI?
Independentemente de tal mudez, a verdade é que não há português que não traga consigo um pouco de Israel e, no entanto, parece disfarçá-lo com uma leviana saudade da escuridão, com uma timidez pessoana e quase mitológica, com uma ignorância tétrica e, às vezes, com uma apaixonada tentação pela erradicação memorial (tantas vezes pressionada pelos fluxos ideológicos de conjuntura).
É como se, na frente de um Portugal marmóreo e cristalizado, apenas ficasse o mar e as suas lendas a sós, apenas ficasse a imagem passada de um século de ouro, apenas ficasse a euforia das Europálias, das Expos, das Décimas sétimas, das N Capitais da cultura e das várias Exposições do mundo português. É como se, em todas estas cenografias da exaltação lusa, nada sobrasse do vestígio da alma judaica arrancada à nossa própria alma. Que auto-imagem celebrará tal amputação, ou tal compaixão desprovida de rosto?(…).”

Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe em 1675 (Gans Collection, CRDJ)

Gravura da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão por Romeijn de Hooghe, 1675 (Gans Collection, CRDJ)

Os primeiros judeus nas Américas


Gershom Mendes Seixas (1745-1816), o primeiro rabino de Nova Iorque.

Em 2004 celebram-se 350 anos sobre a chegada dos primeiros emigrantes judeus à colónia holandesa de Nova Amsterdão, na ilha de Manhattan (actual Nova Iorque). Fugidos da Inquisição no Brasil (Recife), os primeiros 23 emigrantes judeus a chegar à América eram portugueses.
Apesar da oposição inicial do governador Peter Stuyvesant, o governo holandês contrariou-o e concedeu aos judeus portugueses permissão para se instalarem na colónia. A primeira sinagoga construída na parte norte do “novo mundo” foi a Shearith Israel (meados do século XVIII), de Nova Iorque, que ainda hoje existe e mantém a designação de “Sinagoga Portuguesa e Espanhola“.
A comunidade floresceu com o correr dos anos e a aparente tolerância religiosa das Américas continuou a atrair judeus de todo o mundo, incluindo muitas famílias portuguesas que entretanto tinham emigrado para Inglaterra, Holanda e Brasil.
Apesar de pouco divulgada entre nós, a presença dos judeus portugueses na América deixaria uma marca indelével na história do país.
Entre os judeus portugueses que ascenderam à notoriedade em terras americanas destaca-se a família Mendes Seixas, levada de Lisboa para Nova Iorque pela mão do patriarca Isaac Mendes Seixas em 1730.
O filho mais velho, Gershom Mendes Seixas (1745-1816), conhecido como o “primeiro rabino da América do Norte”, era amigo pessoal de George Washington e foi um dos três representantes do clero presentes na cerimónia de tomada de posse do primeiro presidente americano, em 1787.
Quando o rabino Gershom morreu, a Câmara de Nova Iorque decretou luto municipal e o conselho de reitores da Universidade de Columbia abriu concurso público para que se fizesse uma medalha comemorativa com o seu busto. Tido como um exemplo de tolerância – contava com amigos entre os mais respeitados pastores protestantes da cidade – e serviço público, a American Jewish Historical Society considera ainda hoje Gershom “um modelo para os rabinos americanos contemporâneos”.
Além de Gershom, outros Mendes Seixas viram os seus nomes elevados a figuras de relevo da História americana: Abraão Mendes Seixas (1751-99) foi oficial no exército revolucionário de Washington; Benjamin Mendes Seixas (1748-1817) foi um dos fundadores da Bolsa de Valores de Nova Iorque – ao lado Isaac Gomes, outro judeu português –; Moisés Mendes Seixas (1744-1809) tornou-se um dos organizadores do Banco de Rhode Island – percursor da actual Reserva Federal – e presidente da histórica sinagoga de Newport. O filho de Gershom, David Mendes Seixas fundou o Instituto de Surdos Mudos de Filadélfia e foi um inventor prolífico, descobrindo, entre outras, formas mais eficientes de queimar carvão mineral.
A História americana destaca também o nome de Aaron Lopes, um judeu português de origem cripto-judaica (conhecido em Portugal como D. Duarte Lopes) nascido em Lisboa em 1731 que ainda criança viajara com a família para a América. Armador estabelecido na cidade de Newport, em Rhode Island, Aaron Lopes era dono de 30 navios transatlânticos e 100 embarcações costeiras que permitiram abastecer o exército revolucionário de George Washington, apesar da enorme pressão da coroa britânica.
Francis Salvador e Benjamin Nunes, outros dois judeus de ascendência portuguesa, foram de Inglaterra e França, respectivamente, para lutar ao lado das tropas revolucionárias. Francis Salvador seria mais tarde escolhido para integrar o Congresso Provisório da Carolina do Sul, em 1774, e foi também o primeiro patriota morto pelas tropas britânicas. Benjamin Nunes, que durante a guerra ascendera ao cargo de major, tornou-se membro da Câmara dos Representantes do recém formado país. Entre os judeus portugueses que combateram ao lado dos revolucionários americanos contam-se ainda os irmãos Jacob e Salomão Pinto, que em 1750 se estabeleceram na cidade de New Haven.
Por alturas da Guerra de Independência, estima-se que existissem já largas centenas de emigrantes portugueses na colónia, a esmagadora maioria destes de origem judaica. Cerca de 20% dos marinheiros do primeiro navio de guerra a hastear a bandeira americana, o Bonhomme Richard, capitaneado por John Paul Jones, eram portugueses.
O aniversário da chegada, em 1654, dos primeiros judeus portugueses à América vai ser assinalado este ano nos EUA pelo semanário Forward, de Nova Iorque. Na última edição é de ler um artigo assinado pela juíza do Supremo Tribunal de Justiça Ruth Bader Ginsburg, intitulado Recordando os Cinco Juizes Judeus do Supremo. Entre os nomes citados encontra-se outro descendente de judeus portugueses: Benjamin Cardozo, nomeado pelo presidente Hebert Hoover em 1932.

O Que é a Saudade?

É assim que o dicionário define a palavra:

“do ant. soedade, soidade, suidade < Lat. solitate, com influência de saudar; s. f., Lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.”

Durante séculos, aprendemos a olhar para a Saudade como património exclusivo da língua portuguesa. Ausência, distância, melancolia, estado de alma permanente e perpétuo da nação. Crescemos a aprender que a palavra Saudade não tinha tradução em qualquer outra língua do mundo. Mas tem. Em hebraico existe um equivalente preciso da nossa saudade: Ergá – ערגה.
Usada durante milénios por rabinos, filósofos e poetas judeus para traduzir os mesmos estados de alma, ergá é indubitavelmente a saudade hebraica. E depois, claro, há a música. Aqui pode ouvir-se um excerto de uma melodia judaica da Europa de Leste intitulada “Ergá” (em formato RealOne).
Há mesmo quem sugira que a saudade entranhou a alma lusa por via judaica, e que uma das suas maiores manifestações colectivas, o Sebastianismo, poderá muito bem ser uma transmutação do messianismo dos judeus e cristãos-novos portugueses do século XVI.