As invenções modernas (um pequeno conto)


Podemos aprender sempre algo com todas as coisas”, disse o rabi de Sagadora a um dos seus alunos. “O mais insignificante dos objectos pode dar-nos uma lição, e não apenas o que foi criado por Deus. As criações do homem podem também ensinar-nos.”
“Que podemos nós aprender com um comboio?”, perguntou-lhe o aluno com desconfiança.
“Que tudo se pode perder num segundo.”
“E com o telégrafo?”
“Que cada palavra é contada e tem o seu preço.”
“E o telefone?”
“Que tudo o que dizemos pode chegar muito longe.”

Rabino Abraham Yaakov de Sadagora (Moldávia, finais do século XIX)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

O Surdo (um pequeno conto)


Violiniste bleu (detalhe), Marc Chagall, 1947

O rabino Moshe Hayim Efraim, o neto do Baal Shem Tov, escreveu:
“Ouvi esta história do meu avô: um dia um violinista tocava na rua uma melodia tão bela e tão doce que todos os que por ele passavam começavam a dançar, até que se juntou em volta dele uma pequena multidão de gente. Todos dançavam. Nesse altura passou pela rua um homem surdo, que nada conhecia de música. Sem poder ouvir a beleza sublime do som do violino, tudo o que ele viu foi gente aos saltos, gesticulando e comportando-se como loucos.”

Pequeno conto da escola mística do rabino Israel Ben Eliezer, conhecido como o Baal Shem Tov (Polónia 1698-1760), o Mestre do Bom Nome, citado em Die Legende des Baal Schem [As Lendas de Baal Shem], Martin Buber, Frankfurt 1908.
Um conto dedicado a Bruno Sena Martins, pelo segundo aniversário do seu excelente Avatares de um Desejo.

Abraão e o tzaddik solitário (um pequeno conto)


Judeus portugueses de Amsterdão celebram o festival de Sukkot,
Bernard Picart, 1728

A princípio, o tzaddik* rabino Pinraz de Koritz era um desconhecido entre as gentes. Mas, aos poucos, a sua reputação foi crescendo e o povo começou a visitá-lo aos magotes, a tal ponto que ele chegou a lamentar todo o tempo que passava a atender os visitantes, que no seu entender o distraiam do estudo da Torá. Foi então que rezou, pedindo que o povo o deixasse de ter em tão alta consideração, para que não o apoquentassem tanto. A oração foi atendida e o rabino passou a viver uma vida solitária.
Na festa de Sukkot, quando é um grande mandamento ter convidados e ser generoso e hospitaleiro, o rabino Pinraz construiu um pequeno tabernáculo em frente do qual se pôs convidando os espíritos dos Patriarcas porque, sendo solitário e retirado do mundo, não queria partilhar refeição nenhuma com os vivos. Foi então que o Patriarca Abraão passou em frente da casa sem entrar. “Abraão, não quereis ser meu convidado? Teria muito gosto que vos juntásseis a mim”, pediu o rabino Pinraz ao espírito do Patriarca. “Meu caro, estudas tanto mas não compreendes nada… eu não posso juntar-me a quem recusa o mundo e enjeita os seus semelhantes”, respondeu-lhe Abraão prosseguindo o seu caminho.
Ao ouvir as palavras do Patriarca, grossas lágrimas escorreram pelo rosto do rabi Pinraz. Finalmente compreendera que a sua vida só fazia sentido se fosse compartilhada e posta ao serviço dos outros. Recolhendo-se no seu quarto, o rabino rezou para que merecesse de novo a estima do povo. Mais uma vez, a oração foi atendida.

Conto tradicional dos judeus da Europa oriental, transcrito por Martin Buber no livro Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), publicado simultaneamente em Jerusalém e Zurique, em 1949.

* Tzaddik (צדיק) – homem justo e honesto. Expressão usada frequentemente para designar os rabinos seguidores do Hassidismo, o movimento místico fundado no século XVIII na Polónia por Baal Shem-Tov (o Mestre do Bom Nome).

A Oferenda (um pequeno conto)


A Cidade de Safed, xilogravura de Harry Fenn (1838-1911)

Nos idos de 1500, um pobre e ingénuo judeu marrano português chamado Josué emigrou com a mulher para a cidade santa de Safed, na Galileia. Fugido da ameaça das fogueiras da inquisição portuguesa, Josué estava radiante por finalmente poder praticar livremente a religião dos seus antepassados.
Já instalado na Terra Santa, anos mais tarde, ouviu o rabino falar na sinagoga sobre os lechem hapanim, os “pães de rosto”1, que eram oferecidos na época do Templo Sagrado todas as sextas-feiras, antes do início do Shabbat. Depois de explicar as várias leis que em tempos antigos governaram estas oferendas, e de expor os seus significados místicos, o rabino suspirou profundamente e lamentou que, por causa dos nossos pecados, já não se podia alegrar Deus com estes pães.
As palavras sentidas do rabino sacudiram a alma do ingénuo marrano português. Quando chegou a casa, Josué contou tudo à mulher, Clara, e pediu-lhe que cozesse duas challot2 – o pão especialmente preparado para o shabbat – na sexta-feira seguinte. Deu-lhe todos os detalhes que se lembrava das palavras do rabino sobre o “pão de rosto”: a farinha, contou ele, devia ser peneirada 13 vezes, amassada ainda em estado de pureza e a massa devia ficar bem cozida no forno. “Deus deve estar cheio de fome, imagina, depois de tantos séculos sem poder comer estes pães! Vamos passar a levar-lhe challot todas as sextas-feiras.”, disse Josué cheio de alegria.
Clara cumpriu a vontade do marido e logo pela manhã da sexta-feira seguinte, quando Josué acordou, dois belos pães arrefeciam já sobre um pano imaculado na mesa da cozinha.
Faltando ainda muitas horas para o início do shabbat, o marrano português correu para a sinagoga, que estava deserta, e abrindo a Santa Arca disse com todo o fervor: “Oh! Senhor dos Céus, da Terra e de todos os seres, tem piedade deste teu filho e recebe esta pobre oferenda! Tomai estes pães e que eles sejam bem recebidos por Ti, como foram as oferendas dos nossos antepassados.”
Com as mãos trémulas, Josué depositou os pães na Santa Arca e, olhando em volta para ter a certeza que ninguém o vira, regressou rapidamente a casa.
Já Josué ia longe quando o shammash (o funcionário da sinagoga) chegou para preparar o shabbat. Ao abrir a Santa Arca para conferir os rolos da Torá, deparou com os dois belos e deliciosos pães e logo imaginou que só podiam ser para si. Algum judeu generoso os deixara em segredo, para não o envergonhar revelando a todos a sua pobreza, pensou ele.
Ao fim dessa mesma tarde, depois dos serviços religiosos, Josué dirigiu-se impacientemente à Arca Sagrada para ver se os pães ainda lá estavam. Quando viu que tinham desaparecido a sua alegria foi imensa. “Deus não desdenhou a nossa singela oferenda”, disse ele, radiante, à mulher.
E assim prosseguiu durante longos anos: sexta-feira de manhã Josué levava os dois pães feitos por Clara à sinagoga; e à tarde o shammash levava-os para casa profundamente agradecido ao seu secreto benfeitor. Ambos se deliciavam e agradeciam a Deus pelo milagre.
Tudo corria bem até que um dia o judeu português se preparava para cumprir o mesmo ritual de sempre quando os seus gestos foram observados pelo rabino, que nessa sexta-feira fora mais cedo para a sinagoga e, a um canto, preparava silenciosamente o sermão do dia seguinte. Intrigado, o rabino ouviu a prece de Josué oferecendo os dois pães a Deus. Primeiro ficou em silêncio, mas assim que compreendeu o que se passava, o rabino ficou irado. Finalmente, não se conseguindo conter por mais tempo, dirigiu-se a Josué: “Seu idiota! Que fazes tu? Por acaso pensas que Deus come e bebe como tu? É um pecado terrível imaginar que Deus tem qualidades físicas como os homens. Pensas mesmo que é Deus quem recebe os teus miseráveis pães? É óbvio que é o shammash que os come!”
O rabino gritava ainda, vermelho de raiva, quando o shammash entrou na sinagoga para cumprir as suas tarefas habituais. O rabino confrontou-o imediatamente: “Vá, diz lá a este pobre idiota quem é que todas as semanas tira os dois pães que ele deixa na Arca?!” O shammash admitiu logo ser ele quem levava os pães, sem compreender porque razão o rabino estava tão irritado.
Com os olhos encharcados em lágrimas, o marrano português contou então ao rabino como o seu sermão o inspirara a trazer os pães para a sinagoga. Acreditava que fazia uma boa acção, mas agora o rabino dizia-lhe que cometera um grande pecado. Desconsolado e sem saber o que dizer à mulher, Josué foi para casa.
Pouco tempo depois, entrou na sinagoga um mensageiro de Ari Ha’Kadosh3 que se dirigiu ao rabino. Em nome do seu mestre, o mensageiro disse ao rabino que fosse para casa, se despedisse da família e se preparasse, porque à hora destinada para o seu sermão de shabbat, na manhã seguinte, a sua alma teria já partido para o descanso eterno. “Assim anunciaram os Céus”, disse o mensageiro.
O rabino não queria acreditar na má notícia que ouvira. Sem perder tempo, foi ter directamente com o Ari Ha’Kadosh tentando saber que pecado fizera ele para merecer tal destino. O Ari confirmou a mensagem, acrescentando da forma mais gentil possível: “Ouvi que foi porque acabaste com um gesto que deleitava o Criador. Desde a destruição do Templo Sagrado que Deus não tinha uma alegria tão grande quanto aquela que lhe dava o gesto do marrano português, oferecendo os seus modestos pães do fundo do seu coração. Ao destruir a sua inocência, selaste o teu destino.”
E assim foi. Inconformado, o rabino dirigiu-se para casa e despediu-se da família. No dia seguinte, a sua alma partiu antes da hora marcada para a prédica de shabbat, tal como anunciara o Ari.

Este história, contada no século XVI no círculo de estudos do rabino Chaim Vital – sucessor de Isaac Luria, o Ari Ha’Kadosh, na liderança do movimento místico dos cabalistas de Safed – foi impressa pela primeira vez em meados do século XVII no livro Mishnat Hachamim, escrito pelo rabino Moshe Hagiz (1572-?), de Jerusalém.

::Notas::
1 Ver Levítico 24:5-9
2 Challot, plural de chalá. Ver Associação da Juventude Israelita Hehaver: Chalá – o que é ?
3 Ari Ha’Kadosh, expressão hebraica que significa “Leão Sagrado”, o cognome do rabino cabalista Isaac Ben Solomon Luria.

O Candelabro (um pequeno conto)

Era uma vez o jovem Moishe, que durante anos viajou por terras distantes à procura de um mestre artesão que lhe pudesse ensinar um ofício. Passado muito tempo, Moishe finalmente regressou a casa e cheio de orgulho contou à família que se tornara um ourives de talento. “A minha habilidade é tão grande que o meu trabalho é melhor do que o do meu mestre”, garantia ele perante o olhar incrédulo dos pais e irmãos. Vendo que a família não acreditava nas suas palavras nem nos seus dotes, Moishe pediu ao pai que chamasse os três ourives da cidade para ouvir o que pensavam eles de uma das suas peças – um candelabro de prata com três braços.
Dois dias depois os ourives foram ver a obra de Moishe. Para surpresa da família os três concordaram que nunca tinham visto tamanha monstruosidade. “Isto é uma vergonha para a nossa profissão. Mas este castiçal aqui está quase perfeito”, disse o primeiro, apontando para um dos braços do candelabro. “Absolutamente horrendo… tirando este outro pedaço, que é francamente bonito”, afirmou o segundo ourives. “Esta coisa devia ser enterrada para que mais ninguém lhe ponha a vista em cima. Mesmo assim, este braço aqui até está muito bem feito”, disse o último.
Depois dos ourives terem saído, Moishe olhou para o pai e exclamou radiante: “Eu não vos disse?! Estão a ver como não exagerei. Sou mesmo o mestre dos mestres!” Mas o pai nem queria acreditar: “Estás louco? Não os ouviste dizer que o teu candelabro era uma monstruosidade?”
Sorrindo, Moishe respondeu: “É verdade pai, ouvi. Mas repararam como cada um dos ourives admirou um dos braços do candelabro, mas nenhum deles gostou do mesmo braço? Pois quando eu era aprendiz estudei cautelosamente o trabalho destes três homens. Por isso decidi fazer um candelabro combinando todas as suas imperfeições. Hoje, cada um dos ourives reconheceu nele os defeitos dos colegas, mas ao olhar para os seus próprios erros nada viram de mal.”

Pequeno conto da tradição oral dos judeus da Europa Oriental, atribuído ao rabino Nachman de Bratslav, Lituânia (1772–1810).

::Ilustração:: O Velho Rabino (detalhe) 1642, Rembrandt van Rijn

A Resposta (um pequeno conto)

Dois estudantes do Maggid de Mezheritz foram ter com o mestre: “Rabi, temos um problema. Está escrito no Talmude que devemos agradecer tanto pelos dias bons como pelos maus. Como pode ser isto possível? Que significado terá a nossa gratidão se ela for igualmente repartida entre o bom e o mau?”
Ao ouvir a interrogação dos seus discípulos, o Maggid respondeu: “Vão até Anapol e procurem o rabino Zusya. Ele terá a resposta que procuram.”
Os estudantes puseram-se a caminho e depois de dois dias de viagem chegaram finalmente a Anapol. Na mais pobre rua da vila, entre duas pequenas casas, encontraram uma modesta cabana praticamente em ruínas. Lá dentro, o rabino Zusya estava sentado à mesa, a ler um livro iluminado por uma nesga de luz que vinha da única janela da habitação. À sua volta não havia praticamente nada além da mesa, três cadeiras e uma estante carregada de livros. Ao ver que tinha visitas, o velho rabino ergueu os olhos: “Sejam bem-vindos! Desculpem eu não me levantar, mas tenho umas dores terríveis nas pernas. Querem comer alguma coisa? Só tenho algum pão… mas também há água…”
“Não. Viemos somente para lhe fazer uma pergunta. O Maggid de Mezheritz disse-nos que o rabi Zusya nos poderia explicar porque razão o Talmude diz que devemos agradecer tanto os dias bons como os maus?”
O velho rabino sorriu e abanou a cabeça com ar intrigado: “Eu? Não faço a mínima ideia porque é que o Maggid de Mezheritz vos mandou vir ter comigo. É que eu nunca tive um dia mau na minha vida. Todos os meus dias são sempre cheios de milagres.”

Baal-Shem-Tov, nome pelo qual ficou conhecido o rabino Israel ben Eliezer (1700-1760), fundador do Hassidismo.

Ilustração: “Oração Matinal”, Kazimierz, o bairro judaico de Cracóvia, Polónia, 1937. Fotografia de Roman Vishniac (1897-1990).

Esta pequena história inaugura uma nova rubrica fixa da Rua da Judiaria dedicada aos contos antigos da tradição judaica. Este primeiro conto, formulado segundo os padrões de uma sensibilidade antiga, escrito pelo seguidor de um homem chamado Baal-Shem-Tov (que quer literalmente dizer Mestre do Bom Nome), sem dúvida um grande nome, é dedicado a José Pacheco Pereira, pelo segundo aniversário do seu Abrupto. Muitos parabéns!