Outono

As folhas caem, caem como se viessem de longe,
como criaturas murchas de jardins
nas profundezas dos céus;
elas caem com gestos de renúncia.

E, noite dentro, a pesada terra
cai também,
cai das estrelas
para a solidão.

Todos caímos. Esta mão terá de cair.
Olhem em redor: é o destino de todos.

Ainda assim, há quem nos ampara a queda
eternamente na ternura das suas mãos.

Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta austríaco de ascendência judaica.

[NT – a partir da tradução do alemão para o inglês da autoria de C.F. MacIntyre]

Jerusalém

Num terraço da Cidade Velha
há roupa estendida à luz do fim de tarde:
o lençol branco de uma mulher que me odeia,
a toalha de um homem que me odeia,
que ele usa para limpar o suor do rosto.

Nos céus da Cidade Velha
um papagaio de papel.
No outro lado do cordel,
uma criança
que não consigo ver
por causa do muro.

Içamos muitas bandeiras,
eles içam muitas bandeiras.
Para nos fazer acreditar que são felizes.
Para os fazer acreditar que somos felizes.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita. Do livro Poemas, 1948-1962.


Ilustração: ירושלים (Yerushalayim), litografia de Victor Shrem.

A Escrita de Outono

Com a tinta dos seus aguaceiros,
com a pena dos seus reluzentes relâmpagos,
e a mão das suas nuvens,
o Outono escreveu uma carta no jardim,
em púrpura e azul.
Nenhum artista conseguiria conceber tais coisas.
E por isso a terra,
invejosa dos céus,
bordou estrelas nas bordas dos canteiros.

Solomon Ibn Gabirol (1021-1058), poeta e filósofo. Judeu de Cordova.

Nota de Tradução – No original hebraico, o ritmo e a cadência das palavras de Gabirol evoca de uma forma marcante os ritmos da própria chuva, criando um efeito poético notável, mas impossível de trasladar eficazmente para o português.

Sem os Meus Amigos…

Que mal fiz eu às estrelas?
Nas noites em que meus amigos a mim se juntam,
Elas voam depressa, como pássaros, da face dos céus;
Mas nas noites em que me sento em solidão,
Elas mancam, como se estivessem enfraquecidas.
Sem os meus amigos os dias são sombrios,
Mas com a sua companhia, a noite ilumina-se.

Moses Ibn Ezra (1070-1138), poeta, judeu de Granada.

Ilustração: Marc Chagall (מארק שאגאל), Lamentações de Jeremias, litografia, 1956

Sem os Meus Amigos…

Que mal fiz eu às estrelas?
Nas noites em que meus amigos a mim se juntam,
Elas voam depressa, como pássaros, da face dos céus;
Mas nas noites em que me sento em solidão,
Elas mancam, como se estivessem enfraquecidas.
Sem os meus amigos os dias são sombrios,
Mas com a sua companhia, a noite ilumina-se.

Moses Ibn Ezra (1070-1138), poeta, judeu de Granada. < Ilustração: Marc Chagall (מארק שאגאל), Lamentações de Jeremias, litografia, 1956

Oração da Meia-Noite

Na escuridão da noite, o vento derrama
baldes de chuva no rosto da aldeia;
A pobre terra, afundada em lama,
salpicos e repouso, descansa.

As ruas calaram-se, apenas se ouve
o crepitar do cair da chuva.
Em redor, as casas humildes
projectam-se, aqui e ali, da escuridão.

Como órfãos que boa gente esqueceu
de vestir antes do soprar dos ventos frios,
as barracas de telhados nus
agacham-se procurando abrigo.

Será que sonhos medonhos inquietam o seu descanso?
Será que visões abomináveis se colam em seu redor?
Erguendo os punhos no ar,
parecem tremer e protestar.

Os pingos de chuva escorrem nas paredes
e com o som de choro enchem os ouvidos,
os telhados encharcados balançam, soltos.
A pequena aldeia cobre-se de lágrimas.

Nem uma estrela penetra a escuridão,
densa, suspensa sobre nós,
uma janela apenas revela uma centelha:
Um judeu acordou para orar à meia-noite.

Haim Nahman Bialik (1873 – 1934), poeta israelita de origem russa.


Marc Chagall (מארק שאגאל), Solidão (Solitude).

Os Olhos Esperam

Os olhos das gentes esperam por mim
Como pavios de velas por uma luz.

Irmãos humilhados imploram ajuda,
Irmãs enganadas sonham com consolação

E eu, com teimosa audácia, prometi
Acrescentar ternura ao mundo.

E parece que irei, com tempo,
Passar por esta terra
Com o brilho de todas as estrelas
Nos meus olhos

Abraham Joshua Heschel (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

:: NOTA :: Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam agora pela primeira vez em inglês 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.

O Sonho Teológico

Não vejo hoje, nas cores do céu, esse azul que,
por vezes, se encontra nos horizontes de setembro. E
se a manhã nasceu enevoada, obrigando cada um a
olhar para dentro de si, é porque também o espírito
sente a opressão obscura do infinito. Com efeito,
o que ultrapassa os limites do conhecimento
pode obrigar-nos a não ver as cores mais puras;
e uma análise atenta da matéria leva-nos ao coração
da sombra, como se estivesse aí o segredo
do ser. Porém, há sempre alguma coisa que
nos lembra que as nuvens podem passar; e que,
para lá das impressões de hoje, o sol irá
voltar ao centro do universo. Então, mesmo que
se trate de uma ilusão de óptica, e que para lá
de nós outras galáxias nos afastem do sonho
da eternidade, ao menos por um instante
teremos saboreado um gosto divino.

Nuno Júdice (poema inédito)

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Na Hora da Morte*

A morte veio ao meu encontro
num centro comercial, disse-lhe
espera por mim em casa, não
me leves daqui como se fosse
uma mercadoria, e a morte
assim fez e não estando eu
em casa à hora marcada
partiu de mãos vazias. Depois
foi numa igreja, invoquei
sacrilégio e foi-se embora,
mais tarde numa praça e aleguei
vergonha pública, e num
café pedi para terminar o lanche,
até que a morte me visitou
no meu quarto e eu disse esta
é a casa de meus pais.

*(a partir de um conto talmúdico)

Pedro Mexia (poema inédito)

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13 de Setembro. Variações

em s. joão de acre
no calor das três da tarde
no passeio entre o cais
e os muros dos cruzados

uma mulher sorria
brincando com a filha
brincava alegremente:
podia ser judia

ou palestiniana
ou cristã ou arménia
ou bósnia ou angolana

foi em s. joão de acre
não há uma semana

Vasco Graça Moura (poema inédito)

[Ver nota neste post]

Salmo

quem às portas do deserto
se confia à imagem que lhe queima os olhos?

vigia a vida frágil o fogo e a suspeita
nem às portas do indemne nos confiamos
o sangue que tingia a soleira da porta
deixou de nos proteger do Anjo vingador

o dia não é dia a noite não é noite
o veneno do ódio obscureceu o céu

restam-nos as sombras de um deus decepado
num teatro de sombras nos movemos
sabendo que um mundo sem Nome
é insuportável

no niilismo presente revê-se o tohu bohu originário
o vazio absoluto que precedia o mundo

um Deus ex Machina
ronda agora a casa em que a carne e o diabo
nos vigiam, os dentes afiados

retirou-se “Aquele que diz basta”
para não obturar o espaço da liberdade
e de Caim
que continua a descriar o mundo

a que porta encostar a esperança
quando o desastre sufoca’
o instante em que o grito mesmo se abole e precipita?

quando os espelhos se quebram
que deus resiste ainda?

virá o Messias
quando tivermos desesperado da sua vinda
quando a esperança for arrancada ao branco do desejo
para a entregar ao puro possível?

guardarei o nome secreto que meus pais me deram
para a passagem do Anjo

estou sentado sobre um dicionário
a folhear o teu Nome
“abrigo-me à sombra das tuas asas
até que passe a tormenta”

José Augusto Mourão, op (poema inédito)

[Ver nota neste post]

Chegar até onde a luz se põe sem querer

chegar até onde a luz se põe sem querer
saber porque se põe (ser do céu uma das
cores) e/ou pertencer ao quente ar do
crepúsculo sentindo que nenhum outro

exacto momento se repete assim. depois:
deixar sair os olhos em contínuos voos
espirais como aves de mar a cair na espera

ondulante das águas e acreditar nas leis do
pensamento como quem mais não pode
que aceitar porque o homem é breve ainda
para se conseguir compreender. eis que tudo

quanto é sonho se torna real tudo quanto é
temporal ocorre agora dissipando eventuais
porquês perante a real forma das coisas

João Luís Barreto Guimarães (poema inédito)

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The Genius

(“For you I will be a ghetto Jew …”)

Por tua causa
serei o judeu do ghetto
e danço
e visto meias brancas
nos meus membros retorcidos
e enveneno os poços
da vila

Por tua causa
serei o judeu apóstata
e digo ao padre espanhol
do juramento de sangue
do Talmude
e onde estão escondidos
os ossos da criança

Por tua causa
serei o banqueiro judeu
e arrasto à ruína
um velho rei caçador
e acabo com a dinastia

Por tua causa
serei o judeu da Broadway
e choro nos teatros
pela minha mãe
e vendo pechinchas
por baixo do balcão

Por tua causa
serei o médico judeu
e procuro
prepúcios no lixo
para os coser de novo

Por tua causa
serei o judeu de Dachau
e deito-me em cal
com membros deformados
e uma dor inchada
que mente alguma pode entender.

Leonard Cohen, poeta e cantor. Judeu canadiano.
in The Spice-Box of Earth, 1961.

[Aniversário de L.C. anotado n’A Praia]

Shaare Tikvah

O chão tremeu – mas quem bateu
na rocha com a solene vara?
Que voz se ouviu por entre
o ruído da gente e o dos carros
sobre os negríssimos fumos

sobre a lida agora iluminada?
Que se passou enfim
quando um raio abriu ao lado do bulício
uma porta interstício
uma gruta menor
um som sem sino
nem idade
um pequenino
abrasador
tenaz lugar de fidelidade?

Pedro Tamen (poema inédito)

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Moises ben Maimon

Os perplexos têm o seu Livro, mas porque não hão-de
eles colocar o kippah ou adornarem-se com os tefillin?
Não lhes chegam o livro nem a fé, porque as areias
do deserto se confundem umas com as outras, basta

chegar uma tempestade, um vento mais forte passar
entre os cedros ou os pomares. Em alguma coisa se
distinguem e por isso os expulsaram ou escolheram.
Rezam numa língua antiga, os perplexos, e esperam.

No mundo, servem o mundo. Mas o coração, fechado
como uma concha, aberto como os muros de Jerusalém,
é um terreno para os enigmas, a perturbação, a sede,

o que fica por dizer. Será tudo tão exacto, tão claro
como nas linhas do Livro? Olham as árvores, perplexos
da sua culpa, guardando a sua alegria, o seu exílio.

Francisco José Viegas (poema inédito)

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