Poema Temporário do meu Tempo

A escrita hebraica e a escrita árabe vão de Oriente para Ocidente,
A escrita latina, de Ocidente para Oriente.
As línguas são como os gatos:
Não se devem acariciar contra a corrente do pelo.
As nuvens vêm do mar, o vento quente do deserto,
As árvores vergam-se ao vento,
E pedras voam aos quatro ventos,
A todos os quatro ventos. Eles atiram pedras,
Atiram esta terra, um ao outro.
Mas a terra sempre cai na terra.
Atiram terra, querem livrar-se dela.
As suas pedras, o seu solo, mas dela não se livram.
Eles atiraram pedras, atiraram-me pedras
Em 1936, 1938, 1948, 1988,
Semitas atiram pedras a semitas e antisemitas a antisemitas,
Homens reles atiram e homens justos atiram,
Pecadores atiram e sedutores atiram,
Geólogos atiram e teólogos atiram,
Arqueólogos atiram e arqui-hooligans atiram,
Rins atiram pedras e bexigas atiram,
Pedras tumulares e pedras tombadas e corações de pedra,
Pedras em forma de uma boca que grita
E pedras que tapam os olhos,
Como um par de óculos.
O passado atira pedras ao futuro
E todos atiram pedras ao presente.
Pedras que choram e gravilha que ri,
Até Deus atirou pedras na Bíblia,
Até se atirou o Urim e Tumim,
Preso no peito da justiça,
E Herodes atirou pedras e delas se fez um Templo.

Ai, o poema de tristeza empedrada
Ai, o poema atirado às pedras
Ai, o poema de pedras atiradas.
Haverá nesta terra
Uma pedra que nunca foi atirada,
E nunca construida e nunca virada
E nunca destapada e nunca descoberta
E nunca gritada numa parede e nunca relegada por pedreiros
E nunca fechada sobre uma campa e nunca posta debaixo de amantes
E nunca transformada em pedra angular?

Por favor, não atirem mais pedras,
Estão a empurrar a terra,
A Santa, toda, e aberta terra,
Estão a empurrar a terra para o mar
E o mar não a quer
O mar diz, não em mim.

Por favor atirem pedras pequenas,
Atirem fósseis de caracóis, atirem cascalho,
Justiça ou injustiça das pedreiras de Migdal Tsedek,
Atirem pedras suaves, atirem nuvens doces,
Atirem pedra calcária, atirem barro,
Atirem areia da praia,
Atirem poeira do deserto, atirem ferrugem,
Atirem solo, atirem vento,
Atirem ar, atirem nada
Até as mãos se cansarem,
Porque a guerra cansa
E até a paz será cansada
e será.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Paz Selvagem

Yehuda Amichai

Não a paz de um cessar-fogo
nem mesmo a visão do lobo e do cordeiro,
Mas antes
como no coração quando acaba a excitação
e não se consegue falar a não ser do susto.
Eu sei que sei matar, isso faz de mim um adulto.
E o meu filho brinca com uma pistola de plástico
e sabe abrir e fechar os olhos e dizer mamã.

Uma paz
sem o grande barulho de fazer das espadas arados
Sem palavras, sem
o ruído surdo de um pesado carimbo:
que seja leve, flutuante, como preguiçosa espuma branca.
Um pequeno descanso para as feridas – quem fala de cura?
(E o grito dos órfãos é passado de uma geração
para outra, como uma corrida de estafetas:
o testemunho nunca cai.)

Deixem-na vir
como flores do campo, selvagens,
abruptamente, porque o campo
precisa delas: paz selvagem.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita que hoje, 6 de Maio de 2004, completaria 80 anos. Um poema aniversariante que a Judiaria dedica ao Abrupto, “o verdadeiro blogue do judeu errante“, que hoje comemora um ano de existência. Parabéns José Pacheco Pereira.

Nota: Anunciando a criação do Prémio de Poesia com o seu nome, o diário israelita Ha’aretz publica na sua edição em hebraico um poema inédito de Amichai, intitulado “Estações”. Dedicado à guerra, um tema recorrente em Amichai, a sua complexidade não permite traduções apressadas, mas prometo uma tentativa assim que o tempo me permitir.

Amor de Jerusalém

Há uma rua onde vendem só carne
E há uma rua onde vendem só roupas e perfumes.
E há dias onde vejo só aleijados e cegos
E aqueles cobertos de lepra,
E aqueles com lábios retorcidos.

Aqui eles constróem uma casa e ali destroem
Aqui eles cavam a terra
E ali cavam os céus
Aqui eles sentam-se e ali eles andam
Aqui eles odeiam e ali eles amam.

Mas aquele que ama Jerusalém
Com o livro turístico ou com o livro de orações
é como o que ama a mulher
com um manual de posições sexuais.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Literatura e Realidade

Caricatura de AB Yehoshua da autoria de David Levine, publicada na New York Review of Books Descrito uma vez por Harold Bloom no New York Times como “uma espécie de Faulkner israelita”, Avraham B. Yehoshua, professor de Literatura Comparada na Universidade de Haifa, é um dos meus escritores contemporâneos preferidos. No seu último livro, A Missão do Homem dos Recursos Humanos – uma Paixão em Três Actos (Shlichuto Shel Ha-Memune Al Mashabei Enosh), acabado de lançar em Israel (e por enquanto apenas disponível em hebraico), A. B. Yehoshua conta a história de um burocrata israelita encarregue de acompanhar o corpo de Yulia Ragayev, uma emigrante russa morta num atentado suicida em Jerusalém.
Em entrevista ao diário israelita Maariv, Yehoshua fala da génese do romance: “Até agora, acredito que em certa medida, os mortos e feridos têm sido encerrados numa caixa, tanto socialmente como de um ponto de vista literário. Eu quis penetrar esta caixa e examinar o ambíguo sentido de culpa que a cobre: a Direita política sente culpa por causa da nossa impossibilidade de defender as nossas crianças, enquanto a Esquerda sente culpa porque interpreta estes atentados como uma punição. Depois há o facto da grande maioria das pessoas mortas ou feridas nos atentados suicidas serem oriundas de classes desfavorecidas – israelitas pobres e trabalhadores imigrantes.”
Na entrevista, Yehoshua admite que escrevera o seu penúltimo romance, A noiva Liberta, com um maior “sentimento de paz interior”.
“Foi uma tentativa de compreender os árabes, mas não a insanidade dos atentados suicidas. Este novo livro nasceu da própria realidade – da necessidade de enfrentar a realidade, mas não de uma forma sentimental. Foi por isso que escolhi uma mulher sem família, que não tinha ninguém que a chorasse, que não tem nada a ver com o conflito político em questão. Mesmo assim, eventualmente este tipo, que faz parte do sistema burocrático, subitamente sente compaixão e mesmo amor por esta mulher que ele nunca conheceu.”
Yehoshua começou a escrever este romance em 2002, e poucas semanas depois um amigo seu morria num atentado em Jerusalém, e outros dois foram feridos num outro ataque suicida num restaurante em Haifa. “Subitamente tudo estava mais perto, invadia a minha vida. Queria uma maior distância da realidade, mas esta continuava a forçar-se sobre mim.” Membro da chamada “esquerda literária” israelita, ao lado de Amos Oz e David Grossman, nas suas últimas intervenções públicas, ao mesmo tempo que continua a condenar os atentados terroristas palestinianos, A.B. Yehoshua tem apelado ao fim da ocupação e ao desmantelamento dos colonatos.

A Visitar: Haaretz – Shadow play in the twilight zone (recensão do livro) / Talkin’ ’bout his generation / Avraham B. Yehoshua (bio) / Yehoshua Interview (Ha’aretz, March 2004) / Abraham B. Yehoshua – Books in Translation / Ideas – A.B. Yehoshua – International Society for the Performing Arts / A.B. Yehoshua: What’s the alternative? :: Middle East Information / A B Yehoshua – The Literature of the Generation of the State / Articles by A. B. Yehoshua / Une interview d’A.B. Yehoshua / The Independent : AB Yehoshua: The border guard / A trajetória sefardita em ‘O Sr. Máni’, de A. B. Yehoshua (Dissertação de Mestrado).

[Em português, existem actualmente apenas dois livros de A.B. Yehoshua no mercado: Shiva e Viagem ao Fim do Milênio, traduzidos por Milton Lando e editados no Brasil pela Companhia das Letras (disponíveis aqui). Em edições agora esgotadas, foram ainda lançados no Brasil os seus romances O Amante (Summus), Senhor Mani (Imago) – o meu favorito – e Cinco Estações (Imago). Em Portugal… nada.]

Credo

Ri, ri de todos os meus sonhos!
O que sonho será realidade!
Ri por eu acreditar nos homens,
E por acreditar em ti.

Minha alma pede ainda uma liberdade,
Que não se troca por bezerros de ouro.
Porque ainda acredito nos homens,
E no seu espírito forte e corajoso.

E no futuro acredito
Que ainda distante, ele virá
Quando nações abençoem outras
E paz por fim a terra encherá.

Shaul Tchernichovsky (1875-1943), médico, poeta e tradutor israelita de origem russa. Poema escrito em 1928.

International Poets Festival, Jerusalém. Poster de Raphie Etgar

A Israel

Quem me dirá se estás neste perdido
Labirinto de rios seculares
Do meu sangue, Israel? Ou os lugares
Que os nossos sangues têm percorrido?
Tanto faz. Sei que moras no sagrado
Livro que abarca o tempo e que essa história
Do rubro Adão redime e na memória
E agonia do Crucificado.
Estás nesse livro, que é sempre o reflexo
De cada rosto que sobre ele se inclina
E do rosto de Deus, que num complexo
E árduo cristal terrível se adivinha.
Salve, Israel, que guardas a muralha,
A de Deus, na paixão dessa batalha.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, 1969.

[via Contra a Corrente.]

::A LER::: Borges judío / Judeidad y Borges / Borges on The Jews / Evelyn Fishburn: Borges, Cabbala and “Creative Misreading” / Editorial Letralia: ” Borges e la Kabbalah / FORWARD : Why Jorge Luis Borges Wished He Was an ‘Israelite’ / Algunas reflexiones sobre el “judaísmo” de Borges” / Literatura e judaísmo: o rosto judeu de Borges, Gerson Roani.

“Porquê?”

Primo Levi

“Levado pela sede, olhei para um pingente de gelo do lado de fora da janela, ao alcance da mão. Abri a janela e parti-o, mas um guarda corpulento e pesado que rondava lá fora tirou-mo da mão abruptamente. “Warum?” Perguntei-lhe no meu mau alemão. “Hier ist kein warum” (aqui não há porquês), respondeu ele, empurrando-me para dentro.”

Se Questo è un Uomo“, Primo Levi (1919-1987); escritor, judeu italiano, sobrevivente de Auschwitz.

[Uma das suas mais paradigmáticas obras, “Se Isto é Um Homem” – escrito apenas um ano depois de ter saído do campo de concentração –, foi reeditado em Portugal há cerca de dois anos na Colecção Mil Folhas, do Público. Existe ainda à venda outra edição da Teorema, que publicou também “A Trégua”, a continuação de “Se Isto é Um Homem”, tido por muitos como a obra maior de Primo Levi.]

La synagogue


Sinagoga Portuguesa de Amsterdão. Foto de Amélia Pais (2004).

Ottomar Scholem et Abraham Loeweren
Coiffés de feutres verts le matin du sabbat
Vont à la synagogue en longeant le Rhin
Et les coteaux où les vignes rougissent là-bas

Ils se disputent et crient des choses qu’on ose à peine traduire
Bâtard conçu pendant les règles ou Que le diable entre dans ton père
Le vieux Rhin soulève sa face ruisselante et se détourne pour sourire
Ottomar Scholem et Abraham Loeweren sont en colère

Parce que pendant le sabbat on ne doit pas fumer
Tandis que les chrétiens passent avec des cigares allumés
Et parce qu’Ottomar et Abraham aiment tous deux
Lia aux yeux de brebis et dont le ventre avance un peu

Pourtant tout à l’heure dans la synagogue l’un après l’autre
Ils baiseront la thora en soulevant leur beau chapeau
Parmi les feuillards de la fête des cabanes
Ottomar en chantant sourira à Abraham

Ils déchanteront sans mesure et les voix graves des hommes
Feront gémir un Léviathan au fond du Rhin comme une voix d’automne
Et dans la synagogue pleine de chapeaux on agitera les loulabim
Hanoten ne Kamoth bagoim tholahoth baleoumim

Guillaume Apollinaire, poeta francês de ascendência judaica.

[via Abrupto, EARLY MORNING BLOGS 189]

Para Cada Pessoa Há um Nome *

Para cada pessoa há um nome
outorgado sobre ela por Deus,
a ela dado pelos seus pais.

Para cada pessoa há um nome
concedido pela sua estatura
e pelo seu sorriso
e pela sua forma de vestir.

Para cada pessoa há um nome
vertido pelas montanhas
e pelas paredes que a circundam.

Para cada pessoa há um nome
dado pela roda da Sorte
ou por aquilo que os vizinhos lhe chamam.

Para cada pessoa há um nome
inscrito pelas suas falhas
ou pelos seus desejos.

Para cada pessoa há um nome
entregue pelos seus inimigos
ou pelo seu amor.

Para cada pessoa há um nome
derivado das suas celebrações
e da sua ocupação.

Para cada pessoa há um nome
apresentado pelas estações
e pela sua cegueira.

Para cada pessoa há um nome
que ela recebe dos mares
e que lhe é dado pela sua morte.

Zelda, poeta israelita falecida em 1984. Este poema, Para Cada Pessoa Há um Nome, tornou-se sinónimo da necessidade de recordar as vítimas do Holocausto e anualmente é recitado em cerimónias oficiais em Israel. Hoje, no 27º dia do mês hebraico de Nisan, comemora-se o Yom HaShoah, o Dia Memorial do Holocausto. Porque não se pode esquecer a História.


Gueto de Varsóvia, 1943
Uma das mais conhecidas imagens do Holocausto. Soldados nazis forçam os judeus a abandonar o gueto de Varsóvia, durante a revolta da resistência, em Abril e Maio de 1943.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau), momentos após a libertação do campo por tropas soviéticas.

Crianças judias no campo de concentração Auschwitz II (Birkenau)
Prisioneiros no campo de concentração de Buchenwald, libertados pelo exército americano em Abril de 1945. O escritor e prémio Nobel Elie Wiesel aparece na foto – Wiesel é o último rosto completo visível, no segundo beliche a contar de baixo. Anos mais tarde Elie Wiesel escreveria: “Ficar em silêncio e indiferente é o maior pecado de todos”.

Crianças sobreviventes no campo de concentração Dachau
Sobreviventes no campo de concentração de Dachau celebram a chegada das tropas americanas.


O oficial das SS Eichelsdoerfer, comandante de Kaufering IV, é fotografado entre os corpos de prisioneiros mortos no seu campo de concentração.

A visitar:
Yom HaShoah Movie / Yad Vashem The Holocaust Martyrs’and Heroes’ Remembrance Authority / Survivors of the Shoah Visual History Foundation / Simon Wiesenthal Center / A Cybrary of the Holocaust, Remember.org / United States Holocaust Memorial Museum/ Ha Shoah / Holocaust (Shoah) Research Resources / The Optimists (The Story of the Rescue of the Bulgarian Jews from the Holocaust) / AMCHA – National Israeli Center for Psychosocial Support of Survivors of the Holocaust and the Second Generation / Anne Frank Center / Yad Layeled France / Center for Jewish History / Gedenkstätten für NS-Opfer in Deutschland (Memorial Museums for Victims of National Socialism in Germay) / The Mechelen Museum of Deportation and the Resistance / Shoah Project Titelseite / Testimonies: David M. Moore, 6th Armored Division

*Em hebraico, a palavra “nome” (shem) possui um simbolismo impar, por ser utilizada no discurso corrente e litúrgico como referência directa a Deus – HaShem, literalmente “O Nome”.

Exílios

A tua imagem está gravada no meu coração e é no meu coração que está também traçado o teu afastamento.
E mais do que ela me reanima, a tua imagem ausente aflige-me.
A tua separação confunde os meus projectos; o teu exílio impede e torna tortuosos os meus caminhos.
É por tua causa que a minha alma foi abatida e o meu orgulho foi humilhado.
A ponto que os sicômoros se levantam acima do meu cipreste e que o arbusto do hisope pareça mais alto que os meus cedros;
Que o morcego ultrapasse o meu abutre e que a mosca voe por cima das asas da minha águia; (…)

Judá Abravanel, conhecido como Leão Hebreu (1465-1535), médico, filósofo e poeta, judeu português nascido em Lisboa, filho de D. Isaac Abravanel.

[fragmento de um poema escrito em Itália, em 1503, dedicado ao filho do autor, Isaac, de 12 anos, que ficara em Lisboa e fora convertido à força ao catolicismo. Escrito originalmente em hebraico, a tradução para o português é citada por Fiama Hasse Pais Brandão num artigo do Jornal de Letras de 26 de Maio de 1981. Uma tradução em inglês do poema completo pode ser encontrada aqui.]

The Whore of Mensa

Woddy Allen
… por falar em judeus nova-iorquinos com um perfeito e exacerbado sentido de timing humorístico, descobri, via My Moleskine, a versão integral de The Whore of Mensa, um dos meus contos favoritos de Woody Allen. Uma delícia:
“It all poured out – the whole story. Central Park West upbringing, Socialist summer camps, Brandeis. She was every dame you saw waiting in line at the Elgin or the Thalia, or penciling the words ‘Yes, very true’ into the margin of some book on Kant. Only somewhere along the line she had made a wrong turn.”
Vá, agora vão ler o resto.

[A Inês (a quem aproveito para dar os parabéns pelo excelente blog) postou aqui um fragmento do conto traduzido por Luísa Costa Gomes, publicado no ano passado em Portugal pela Ficções – revista de contos.]

Ética

 Rabino Hillel, Pirke Avot, 2:6“Num lugar sem humanidade,
aspira a ser humano.”

Rabino Hillel, Pirke Avot, 2:6

[NOTA] Lost in Translation: foi este apropriado título que o meu amigo José, autor do excelente blog Guia dos Perplexos, deu a um post onde me chamava a atenção para o facto da tradução inicial desta citação do rabino Hillel ser pouco clara em relação ao espírito do texto original. O José tem toda a razão. A minha primeira tradução limitava-se apenas a transvasar do hebraico para o português, esquecendo que a primeira obrigação de uma tradução eficiente não é a fidelidade cega às palavras, mas sim ao sentido nelas contido. Esta inepta tradução (diga-se em minha defesa, feita ensonadamente quase às três da madrugada) era a seguinte: “Num lugar sem gente, / tenta ser uma pessoa”, o que na prática se resumia a uma tradução palavra por palavra do hebraico à direita (que transliterado para o alfabeto latino dá “b’makom she-ein anashim / histadel lihiyot ish”). Mesmo traduzido desta forma, apesar das óbvias imperfeições linguísticas incapazes de repetir no português o imediatismo interpretativo alcançado no hebraico, a essência das palavras de Hillel continuava a fazer sentido – num espaço vazio, num vácuo ético, sê uma pessoa (com tudo o que isto implica). O hebraico não é das mais fáceis línguas de traduzir… o dicionário, por exemplo, define “ish” (composto pelas letras alef-yud-shin, איש, a última palavra do texto) como “homem, alguém, pessoa, qualquer pessoa”, e neste contexto o seu sentido pode ser ainda mais alargado – aqui o “ish” é o que nós em português designamos como “homem com ‘h’ grande”, aqui na sua significação mais plena no contexto da tradição espiritual do judaísmo: o Homem Ético.
Depois de algumas consultas, optei pela tradução que postei acima, que julgo ser um compromisso razoável entre as palavras do hebraico original e o sentido intrínseco que o rabino Hillel, há mais de dois mil anos, terá tentado com elas transmitir. A hipótese sugerida pelo José, feita a partir de uma tradução inglesa, apesar de estar absolutamente correcta quanto ao sentido, na minha opinião, foge um pouco ao original do texto hebraico pela opção de vocábulos.
Autor de um blog com o nome da obra maior de um dos grandes pensadores judaicos de todo os tempos, o rabino medieval ibérico Moses ben Maimon, (Maimonides), o José, apesar de católico romano, fica desde já promovido a judeu honorário aqui na Judiaria. Obrigado José. Pelas leituras. Pela atenção. E pela tua boa vontade. Shalom chaver!

Não Podes Mostrar Fraqueza

Não podes mostrar fraqueza
e tens de estar bronzeado.
Mas às vezes sinto-me tal qual os finos véus
das mulheres judias que desmaiam
em casamentos e no Yom Kippur.

Não podes mostrar fraqueza
e tens de fazer uma lista
de todas as coisas que podes levar
num carrinho de bebé sem bebé.

É assim que agora as coisas estão:
se eu destapo o ralo da banheira
depois de tomar banho,
temo que Jerusalém toda, e o mundo inteiro com ela,
seja sugada pela escuridão imensa.

Durante o dia lanço armadilhas para as minhas memórias
e à noite trabalho nas fábricas de Balaam,
transformando maldições em bênçãos e bênçãos em maldições.

E nunca mostres fraqueza.
Às vezes desmorono por dentro
sem que ninguém note. Sou como uma ambulância
em duas pernas, carregando o paciente
dentro de mim para os Últimos Socorros
com o uivo chorado da sirene,
e as pessoas pensam que é linguagem normal.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.


Profeta Jeremias lamenta a destruição de Jerusalém, Rembrandt van Rijn, 1630, Rijksmuseum, Amsterdam

O Diâmetro da Bomba

O diâmetro da bomba era trinta centímetros
e o diâmetro do seu raio efectivo cerca de sete metros,
com quatro mortos e onze feridos.
E em volta deles, num largo círculo
de dor e tempo, espalham-se dois hospitais
e um cemitério. Mas a mulher nova
que foi sepultada na cidade de onde ela veio,
à distância de mais de cem quilómetros,
alarga o círculo consideravelmente,
e o homem solitário chorando a sua morte
na costa distante de um país longínquo
inclui o mundo inteiro no círculo.
E nem menciono o uivo dos órfãos
que alcança além do trono de Deus,
fazendo um círculo sem fim e sem Deus.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Teorias da Conspiração

Serge Gainsbourg

Et si Dieu était juif ça t’inquiéterait petite
Sais-tu que le Nazaréen
N’avait rien d’un Aryen
Et s’il est fils de Dieu comme vous dites
Alors

Dieu est Juif
Juif et Dieu

Le Capital tu as lu de l’Israélite
Karl Marx un beau bouquin
Et le trio bolchevik la troîka des purs eh bien
Tous trois de race sémite
Je te le prouverai tout à l’heure

Dieu est Juif
Juif et Dieu

Grigori Ievseîetch Apfelbaum dit Zionoviev
Lev Borissovitch Rosenfeld dit Kamenev
Lev Davidovitch Bronstein dit Trotsky

Dieu est Juif
Juif et Dieu

Voici le temps de l’antéchrist
La bombe à neutrons hein
Petite fille de papa Einstein
Encore un juif si tu vois ce que je veux dire petite

Dieu est Juif
Juif et Dieu

Serge Gainsbourg, cantor. Judeu francês. Canção Juif et Dieu, do álbum Mauvaises nouvelles des étoiles (1981).