500 Anos: O massacre de Lisboa VII

Testemunhos


A perseguição e matança dos hebreus não permite que hesitemos nas fórmulas do carácter fero de D. Manuel, que nem ao menos era fanático: sacrificava à sua luxúria por uma princesa de Castela as vidas dos hebreus, a melhor artéria da riqueza nacional; e, para contemporizar o erário com piedade, deixava matar sumariamente os judeus depois que ele os espoliava.”

Camilo Castelo Branco (1825-1890), in “D. Luiz de Portugal, Neto do Prior do Crato (quadro histórico)”, Porto 1883.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa VI

Testemunhos


Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até ao ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estevão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente. Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações encandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia! O rugido do tigre popular não tardou a ressoar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo. O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito de revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos. A ebreidade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas haviam perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas. Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. (…) À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.”

Alexandre Herculano (1810-1877), historiador, escritor e poeta português, in História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1855).
Com um agradecimento especial a Luís Pedro Schleibinger.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia 21, sexta-feira (ou quinta-feira à noite), o dia que assinala o fim do massacre, que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa V

Testemunhos


Antes que el Rei fosse de Lisboa para Almeirim, ordenou Tristão da Cunha à Índia por capitão de uma armada, da qual, e do que nesta viagem se fez se dirá adiante, no ano de mil quinhentos e oito, em que tornou. Pelo que nestes dois capítulos, que são já derradeiros desta primeira parte tratarei de um tumulto, e levantamento, que aos dezanove dias de Abril, deste ano de mil quinhentos e seis, em Domingo de Pascoela fez em Lisboa contra os cristãos-novos, que foi pela maneira seguinte. No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos, e os meio vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio a qual negócio lhes serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo, no qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas. A esta turma de maus homens, e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos segunda-feira continuaram nesta maldade com maior crueza, e por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram cometer com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. Nas quais cruezas não se esqueceram de meter a saque as casas, e roubar todo o ouro, prata, e enxovais que nelas acharam, vindo o negócio a tanta dissolução que das igrejas tiraram muitos homens, mulheres, moços, moças, destes inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de nosso Senhor, e de nossa Senhora, e outros Santos, com que o medo da morte os tinha abraçado, e dali os tiraram, matando e queimando sem nenhum temor a Deus assim a elas como a eles. Neste dia pereceram mais de mil almas, sem que na cidade alguém ousasse de resistir, pela pouca gente de sorte que nela havia por estarem os mais dos honrados fora, por causa da peste. E se os alcaides, e outras justiças, queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência, que eram forçados a se recolher a parte onde estivessem seguros, de não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos. (…) Passado este dia, que era o segundo desta perseguição, tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.”

Damião de Góis (1502-1574), in “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”, escrito em Lisboa entre 1566 e 1567. Historiador e humanista, Guarda-Mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo, figura central do Renascimento em Portugal – ele próprio acusado mais tarde de “heresia” pela Inquisição por causa das suas simpatias luteranas e da amizade com Erasmo –, Damião de Góis relata com sentida e genuína indignação o massacre de 1506, ao contrário de outros cronistas “cristãos-velhos” que se limitaram posteriormente a fazer um relato desapaixonado e quase burocrático da matança, optando por “branquear” os detalhes mais macabros testemunhados nos escritos de Góis.

500 Anos: O massacre de Lisboa IV

Testemunhos


A Matança de Portugal. Ano 5266 1. Não bastou have-los trazido com tanta sem razão e injustiça à sua fé afastando-os da Lei com que nasceram, mas ainda assim não os deixavam viver quietamente, denostando-os, injuriando-os, abatendo-os, e tratando-os com baixeza e desprezo, e isto não o levaram em paciência, e lhes levantavam aleives e falsos testemunhos para os destruir e arrancar do mundo, pregando os pregadores nos púlpitos, e dizendo os senhores em lugares públicos, e os cidadãos e vilãos nas praças, que qualquer fome, peste ou terremoto que vinha à terra era por não serem bons cristãos: e que secretamente judaizavam; Assim que alcançando alguns intrínsecos amigos a vontade do povo quanto inclinada estava em seu dano, acharam aparelho para meterem em efeito seus maus ânimos, entre os quais ouve dois frades dominicanos que saíram pela cidade de Lisboa com crucifixos às costas amotinando o povo e clamando que viessem todos em sua companhia vingar a morte do seu deus, e com muitos perversos ociosos e briguenta gente que a eles se recolheram, com lanças e espadas nuas em suas mãos arremetendo contra o fraco e desprovido povo dos mal baptizados e novos cristãos mataram quatro mil almas deles, roubando e viando todas aquelas crueldades que em um saque de uma cidade se fazem, atassalhando os homens arremessando as criaturas às paredes e desmembrando-as, desflorando as mulheres e corrompendo as virgens, e sobre isto tirando-lhes a vida. Houve muitas que prenhes as lançaram das janelas sobre as pontas das lanças que já embaixo as estavam esperando, e ali atalhavam o caminho às inocentes criaturas antes que arribassem ao mundo onde o céu piedoso as mandava: entre elas se achou uma que esforçando a muita ira e sua honra a um frade que a queria forçar matou com uma faca que o mesmo frade trazia. Se este assim terrível mal durara daquele ímpeto acabavam todos os novos cristãos que na cidade de Lisboa habitavam, mas provendo a misericórdia divina, com as justiças da terra acudiram, e trás isso el rei que com grande diligência veio a socorro da vila de Abrantes onde então se achava cessou aquela matança tenebrosa.”

Samuel Usque (1492-?), in Consolação às Tribulações de Israel. Historiador e escritor, judeu nascido em Lisboa, Usque era primo do pintor e tipógrafo lisboeta Abraão Usque. Fruto das perseguições de que foram vítimas em Portugal, ambos emigraram com as famílias para Ferrara, em Itália, onde Samuel publica “Consolação…”, em 1533, dedicando-o a Dona Gracia Mendes, a Senhora (a obra seria mais tarde reeditada em Amsterdão, por volta de 1600). Samuel Usque acaba por emigrar definitivamente para Safed, na Galileia, onde vem a morrer em data incerta.


Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Ferrara, Itália, 07/09/1553

1 O ano dado por Samuel Usque, 5266, refere-se ao calendário hebraico – 1506 da Era Comum.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa III

Garcia de Resende

Testemunhos

Vi qẽ em Lixboa se alçaram
Pouo baixo & villãos
Contra os nouos Christãos
Mais de quatro mil matarã
Dos qẽ ouuerão nas mãos.
Hũos delles viuos queimarã
Mininos espedaçarão
Fizerão grandes cruezas
Grandes roubos & vilezas
Em todos quantos acharão.

Estando só ha cidade
Por morrerem muito nella
Se fez esta crueldade
Mas el rey mandou sobrella
Cõ muy grande breuidade
Muitos forão justiçados
Quantos acharão culpados
homẽ baixos & bragantes
& dous frades observãtes
vimos por isso queimados.

El rey teue tanto a mal
Ha cidade tal fazer
Qẽ o titulo natural
De noble & sempre leal
Lhe tirou & fez perder.
Muytos homens castigou
& officios tirou
depois que Lixboa vio
tudo lhe restituyo
& o titulo lhe tornou

Garcia de Resende (1470 – 1536), in Miscellania & Variedades de Histórias, costumes, casos & cousas que em seu tempo aconteceram, escrito entre 1530 e 1533, e publicado após a sua morte, em 1554.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa II

Testemunhos


A matança que ocorreu lá, em Lisboa:
Estando eu fora da cidade, contaram-me dias depois ao regressar que os dois não podem ser comparados, tendo em comum apenas a crueldade e a extrema dor1. O que me contou um ancião é o que a seguir relato.
Na noite de Páscoa os cristãos encontraram marranos2 sentados à mesa com pão ázimo e ervas amargas, seguindo os rituais da Páscoa, e trouxeram-nos perante o rei, que ordenou que fossem eles encarcerados na prisão até que a sentença fosse determinada. Naquela altura havia fome e seca pelo reino, e os cristãos juntaram-se e disseram: “Porque faz o Senhor isto a nós e à nossa terra senão por causa da culpa dos judeus?” E as suas palavras foram ouvidas pela Ordem dos Pregadores também chamados Dominicanos, que se concentraram em encontrar um ardil com que ajudar os cristãos. Então um deles levantou-se na sua casa de oração e pregou palavras ásperas e amargas contra a semente de Israel. E eles planearam um artifício e fizeram um crucifixo oco com uma abertura atrás, e vidro na frente, e por lá passavam uma vela, dizendo que a chama emergia do crucifixo, enquanto o povo se prostrava e gritava: “Vede o grande milagre! Este é um sinal de que Deus julga pelo fogo toda a semente de Israel!”
Um marrano foi lá que não ouvira estas palavras e, na sua inocência, disse: “Era melhor que fosse um milagre de água e não de fogo, pois com a seca é de água que precisamos!”
Os cristãos, cujos desígnios eram funestos, levantaram-se e disseram: “Olhai, que zomba ele de nós!” A multidão de imediato o pegou e matou. Quando o seu irmão ouviu, veio e disse: “Infortúnio, ai meu irmão, quem te matou?” E um de entre a multidão ergueu a espada, cortou-lhe a cabeça e a atirou sobre o corpo do irmão. Depois disto todos os frades se levantaram levando consigo os paus de Jesus Cristo3. Foram eles pelas ruas da cidade e proclamaram: “Quem matar algum da semente de Israel terá 100 dias de absolvição no mundo vindouro!” E de entre a multidão surgiram homens armados de espadas e durante três dias mataram quatro mil almas. Arrastavam e traziam para a rua os corpos para os queimar. Mulheres grávidas foram atiradas das janelas, os seus corpos recebidos pelas pontas das lanças, os fetos caindo a muitos pés de distância. E outras crueldades semelhantes e abominações que não quero aqui contar.
Aos magistrados de Lisboa não se pode culpar, nem aos seus nobres e líderes, porque tudo isto foi feito apesar deles. Eles próprios foram tentar salvar judeus, mas por causa do tamanho da multidão não o puderam fazer, pois quase lhes puseram as mãos neles também, e eles tiveram de fugir para salvar as próprias vidas.”

Salomão Ibn Verga, in Sefer Shebet Yehudah (ספר שבט יהודה), Livro do Ceptro de Judá, escrito em Portugal pouco depois do massacre de Lisboa mas publicado apenas em 1550, em Constantinopla, pelo seu filho, Yosef Ibn Verga.

NOTAS:
1 Salomão Ibn Verga alude aqui aos dois massacres: o ocorrido dentro de Lisboa e o subsequente que se alastrou pelas áreas rurais circundantes.
2 “Anussim” (אנוסים) no hebraico original do texto, expressão que literalmente quer dizer “os forçados”. Termo aplicado aos judeus portugueses forçados a converter-se ao catolicismo.
3 (עצי ישו הנוצרי) referência pejorativa aos crucifixos.

(texto traduzido do original hebraico)

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 anos: O massacre de Lisboa

1506-2006

Vai fazer exactamente 500 anos, nos dias 19, 20 e 21 de Abril, que um cataclismo se abateu sobre Lisboa. A alma da Capital do Império sofreu um abalo tão grande – senão mesmo maior – quanto aquele que a haveria de destruir em 1755. Durante três dias, em nome de um fanatismo sanguinário, mais de 4 mil pessoas perderam a vida numa matança sem precedentes em Portugal.
Como vozes que teimam em emergir de entre as poeiras da História, cronistas como Damião de Góis e Samuel Usque deixaram relatos detalhados dos motins sangrentos. Contam os testemunhos que tudo terá começado na Baixa, no dia 19 de Abril de 1506, um domingo, na Igreja de São Domingos, quando alguém gritou ter visto o rosto do Cristo crucificado iluminar-se inexplicavelmente no altar. Em redor, gente que rezava pelo fim da seca prolongada que grassava pelo país clamou que era milagre. Entre eles, um judeu convertido à força terá tentado explicar que a luz que emanava do crucifixo era apenas um reflexo de um raio de sol que entrava por uma fresta. Terão sido as suas últimas palavras. Arrastado para a rua, o marrano e um irmão seu foram espancados até à morte. Os seus corpos mutilados foram arrastados para o Rossio e queimados em frente dos Estaus – onde décadas depois foi instalada a Inquisição. Eles eram apenas os primeiros de entre mais de 4 mil mortos – anussim, judeus portugueses, homens, mulheres e crianças, assassinados em três dias sangrentos.
Incitada por frades dominicanos, a multidão que entretanto se aglomerara decide partir em direcção da Judiaria, gritando “morte aos judeus” e “morram os hereges”. As incompreensíveis cenas de violência que se deram a seguir fazem parte de um pedaço da história de Portugal que a História resolveu esquecer. Conto voltar ao tema e às descrições desta tragédia de há 500 anos. Por agora, queria apenas deixar um apelo. Em Portugal comemoram-se há muito os grandes feitos da História, testemunhos quase sebastianistas de uma grandeza perdida. Que não se esqueça também a desgraça que prova ser mito a velha máxima do tal “povo de brandos costumes”.
Aqui fica o desafio: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (“Da Contenda Cristã, que Recentemente Teve Lugar em Lisboa, Capital de Portugal, Entre Cristãos e Cristãos-Novos ou Judeus, Por Causa do Deus Crucificado”)

Panfleto anónimo, com apenas seis folhas, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor por uma testemunha ocular. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

(Gravura reproduzida aqui a partir de uma cópia gentilmente cedida pelo Hebrew Union College. O original, encontra-se na Houghton Library, na Universidade de Harvard)

O fantasma do Purim passado

Um artigo de Jeffrey Goldberg
New York Times 14/03/2006



Há três anos, enquanto visitava Teerão, fui apresentado a um homem sem charme chamado Muhammad Ali Samadi que, disseram-me, me iria falar da peculiar leitura que a teocracia iraniana faz do judaísmo e do sionismo. O senhor Samadi dizia que o líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei, não defendia o antisemitismo. Mas, momentos depois, usaria uma metáfora epidemiológica para explicar o papel dos judeus na História. “O homem tem sempre doenças e infecções”, disse ele. “No mundo o Judeu Internacional é uma infecção .”
Um ano depois, o senhor Samadi tornou-se o porta-voz do Esteshadion, ou Aqueles que Buscam o Martírio, um grupo que tem por missão treinar jovens iranianos para matar Salman Rushdie, cometer actos de suicídio terrorista contra americanos no Iraque e fazer explodir judeus por todo o mundo. “Os sionistas devem saber que não estarão a salvo enquanto forem uma afronta a Deus”, disse ele. Perguntei-lhe se esses “sionistas” a que se referia eram israelitas ou, num sentido mais lato, judeus. “Judeus, sionistas, israelitas”, confirmou ele de forma pouco ambígua.
Eu não estava no Irão para recolher os despojos antisemitas de terroristas de segundo plano, apesar de ter comprado uma mochila cheia de panfletos e livros obcecados com os judeus, incluindo uma cópia do “Protocolos dos Sábios de Sião” em persa. Estava no Irão principalmente para atravessar a fronteira para o Iraque, cujo ditador estava à beira de ser deposto pelo exército americano. Saddam Hussein prometera uma vez “fazer fogo para queimar metade de Israel” – o que tentou fazer, sem sucesso, durante a guerra do golfo, em 1991.
Quis o destino que fosse Purim quando tentei atravessar a fronteira do Irão para o Iraque. Purim é uma ruidosa festividade judaica, celebrada hoje, que comemora o facto dos judeus da Pérsia terem escapado por um triz à aniquilação ordenada por Haman, um vizir sanguinário. A história do Purim é contada no Livro de Ester, que foi lido ontem à noite em sinagogas por todo o mundo – incluindo no Irão, que alberga os restos do que em tempos fora uma grande e antiga comunidade judaica. O judaísmo precede o Islão em mais de mil anos.
Purim é o ne plus ultra da velha anedota judaica que resume a história das festividades numa frase: “Tentaram matar-nos, não conseguiram, vamos comer.” O Purim é um dia ruidoso, uma espécie de Carnaval judaico durante o qual até os rabinos devem beber até cair. É possível imaginar, mesmo assim, que os judeus perseguidos do Irão, vivendo hoje sob a alçada de um presidente, Mahmoud Ahmadinejad, que nega a verdade histórica do Holocausto europeu ao mesmo tempo que ameaça com um outro no Médio Oriente, possam ver o Purim não como a história de uma tragédia evitada, mas sim como a de uma tragédia profetizada.
A história do Purim é recheada de suspense, ofensiva, e quase de certeza falsa, uma fantasia de vingança e redenção. Especialistas académicos geralmente concordam que se trata de uma pseudo-história introduzida no judaísmo há cerca de 2400 anos, numa altura em que a memória da conquista de Jerusalém pelos babilónios estava ainda bem viva. Na história, o presunçoso rei Ahasuerus escolhe a linda Ester para ser sua rainha. Ester, que esconde o facto de ser judia, tem um tio, o estóico e corajoso Mordecai, que não esconde a sua fé e que é odiado por Haman por se recusar a curvar perante ele.
Haman, cheio de ódio, decide vingar-se não só em Mordecai mas em toda a sua tribo. “Há um certo povo espalhado e disperso por entre os povos em todas as províncias do Vosso reino”, diz Haman ao rei Ahasuerus. “Não é do beneficio do rei tolerá-los.” O rei concorda em exterminar os seus súbditos judeus.
Para salvar o seu povo, Ester revela ao rei que é judia. Chocado, o rei ordena que Haman seja enforcado, na forca que o próprio Haman erguera para executar Mordecai. Mas o rei não tem poder para reverter o seu édito de genocídio, então, em vez disso, ele permite que os judeus se armem e se defendam contra o extermínio. E assim foi.
É uma história estranha em vários aspectos, um dos quais pelo facto dos antigos reis persas tolerarem outros deuses e os povos que os adoravam. Esta tolerância, deve dizer-se, era um dos principais atributos do politeísmo; os judeus não eram vistos como ameaça à ordem teológica na Pérsia pré-islâmica.
O Médio Oriente muçulmano de hoje, enfim, é um pano de fundo muito mais plausível para o tipo de plano de aniquilação anti-judaico descrito no Livro de Ester do que era a Pérsia antiga, onde a história tem lugar. O regime iraniano, apesar de tudo, faz paradas militares por Teerão com mísseis Shahab-3 envoltos em estandartes onde se pode ler: “Apagaremos Israel do mapa.” O líder de uma das assembleias clericais do país, Hashemi Rafsanjani, disse em Dezembro de 2001 que “a aplicação de uma bomba atómica não deixaria nada de Israel e produziria apenas danos menores no mundo islâmico.” O líder supremo ele próprio, Ayatollah Khamenei, disse de Israel em 2000: “Dissemos repetidamente que este estado é um tumor canceroso e que devia ser removido da região.”
Há aqui múltiplas tragédias. A civilização persa, pré-islâmica ou não, nunca foi muito hostil aos judeus. Na verdade, um dos grandes heróis da História Judaica é Ciro, o rei persa que restaurou os judeus em Israel após a destruição do Primeiro Templo. E a República Islâmica do Irão, embora não seja nenhuma utopia semita, também não tem sido a Polónia. Mesmo hoje, as tiradas febris contra os judeus que se ouvem entre a intelligentsia em Beirute ou no Cairo estão quase totalmente ausentes em Teerão, excepto entre a elite clerical, que compreende a utilidade do antisemitismo no seu esforço de aproximação aos muçulmanos árabes.
O que não quer dizer que os clérigos não acreditam no que dizem. Isto traz-nos de volta à triste metáfora do senhor Samadi. A terminologia da doença infiltra agora o discurso antisemita por todo o Médio Oriente. Há quatro anos, um líder do Hezbollah no Vale de Bekaa, no Líbano, chamado Hussein Haj Hassan disse-me que os judeus são “como parasitas nas nações que os acolhem.” Os líderes do Hamas e da Jihad Islâmica falam da mesma maneira.
Preocupamo-nos em não reagir de forma exagerada, mas este tipo de linguagem ecoa a passagem de Mein Kampf na qual o Haman austríaco compara os judeus a “um bacilo que começa a expandir-se assim que encontra um meio favorável.”
Ainda acredito que os judeus, e o Estado judaico, sobreviverão ao seu encontro com o senhor Ahmadinejad e o Ayatollah Khamenei do Irão. Os líderes do Irão ainda não têm a bomba e, apesar das suas inclinações escatológicas, eles podem não ser totalmente imunes ao charme da lógica da teoria da dissuasão. E, claro, tanto a parábola como a História ensinam que os judeus conseguem sempre sobreviver.
Mesmo assim, muita gente, no Irão e não só, acredita que o Estado judaico é um cancro, e é estúpido pensar que isto é uma ideia sem consequências. Como me disse um líder da Jihad Islâmica não há muito tempo: “Toda a gente sabe a cura para o cancro é a radiação.”

Ilustração de Anthony Russo

Os assassinos da Memória

Um depoimento de Elie Wiesel


Elie Wiesel fotografado por William Coupon.


(…) Devo dizer desde já que não sinto qualquer ódio pelo acusado. Nunca o conheci; os nossos caminhos nunca se cruzaram. Mas conheci assassinos que, como ele, com ele, escolheram ser inimigos do meu povo e da humanidade. Posso ter conhecido algumas das suas vítimas. Eu assemelho-me a eles, da mesma forma que eles se assemelhavam a mim. Dentro do reino de maldição criado pelo acusado e pelos seus camaradas, todos os prisioneiros judeus, todos os judeus, tinham o mesmo rosto, os mesmos olhos; todos partilhavam o mesmo destino. Às vezes dava a impressão que o mesmo judeu era morto pelo inimigo seis milhões de vezes.
Não, em mim não há ódio: nunca houve ódio. Não é de ódio que se trata aqui – mas de justiça. E de memória. Tentamos fazer justiça à nossa memória.
Aqui vai uma memória: a da Primavera de 1944. Poucos dias antes das festividades pentecostais judaicas – Shavuot. Eu tinha 15 anos. Uma criança profundamente religiosa, eu era movido por sonhos messiânicos e orações. Longe de Jerusalém, eu vivia por Jerusalém e Jerusalém vivia em mim.
Apesar do regime fascista, os judeus da Hungria não tinham sofrido ainda muito. Os meus pais tinham uma loja, as minhas três irmãs iam à escola, o Shabbat envolvia-nos em paz… a guerra? Essa estava à beira do fim. Os Aliados estavam prestes a desembarcar. O Exército Vermelho estava a 20 ou 30 quilómetros. Mas foi então…
Os alemães invadiram a Hungria a 19 de Março de 1944. A partir dai os acontecimento evoluíram a um passo tão rápido que não nos deixou respirar. Uma sucessão de decretos antisemitas foram passados: a proibição de viajar, a confiscação de bens, a obrigatoriedade de usar a estrela amarela, os guetos, as deportações.
Nós olhávamos impotentes à medida que o nosso mundo encolhia sistematicamente. Para os judeus, o país foi limitado a uma cidade, a cidade a um bairro, o bairro a uma rua, a rua a um quarto, o quarto a um vagão selado que de noite atravessava os campos polacos.
Tal como as 44 crianças judias de Izieu (deportadas para Auschwitz em 1944), os adolescentes judeus da minha terra chegaram tarde à estação de Auschwitz. O que era isto? Perguntámo-nos. Ninguém sabia. O nome não evocava em nós qualquer memória. Pouco depois da meia noite o combóio começou a mover-se. Uma mulher no nosso vagão gritou, “vejo fogo, vejo fogo!” Fizeram-na calar. Lembro-me do silêncio no vagão. Lembro-me do resto. As vedações de arame farpado até ao infinito. Os gritos dos prisioneiros cujo dever era dar-nos as “boas-vindas”, os tiros disparados pelas SS, o ladrar dos seus cães. E sobre nós, sobre o próprio planeta, chamas imensas erguiam-se para o céu como se o consumissem.
Desde essa noite, quando olho para o céu vejo-o frequentemente em chamas… mas nessa noite não podia olhar para o céu por muito tempo. Estava ocupado a agarrar-me à minha família. Ouviu-se uma ordem: “Alinhem-se por famílias.” Eram bom, pensei eu, vamos ficar juntos. Passados uns minutos: “Homens para a direita, mulheres para a esquerda.” Choviam pancadas de todos os lados. Não fui capaz de me despedir da minha mãe. Nem da minha avó. Nem de beijar a minha irmã mais nova. Com as minhas duas irmãs mais velhas ela afastava-se, arrastada pela desvairada maré negra…
Esta foi uma separação que cortou a minha família ao meio. Raramente falo dela, quase nunca. Não consigo pensar na minha mãe ou na minha irmã pequena. Com os meus olhos, ainda as procuro. Irei sempre procurá-las. No entanto, eu sei… Eu sei tudo. Não, tudo não… não se pode saber tudo. Podia imaginá-lo, mas não o quero fazer. É preciso saber parar… O meu olhar estanca à entrada das câmaras de gás. Mesmo em pensamento, eu recuso violar a privacidade das vítimas no momento da morte.
O que vi chega-me. Numa pequena floresta algures em Birkenau eu vi crianças serem atiradas vivas para as chamas pelas SS. Às vezes maldigo a capacidade de ver. Devia ter-me deixado sem nunca voltar. Eu devia ter ficado com aqueles pequenos corpos carbonizados… Desde essa noite, eu passei a sentir um profundo e imenso amor pelas crianças e pelos idosos. Cada idoso faz-me lembrar o meu avô, a minha avó, cada criança recorda-me a minha pequena irmã, a irmã das crianças judias mortas de Izieu…
Noite após noite, continuei a interrogar-me – o que significa tudo isto? Qual é o sentido desta indústria assassina? Funcionava perfeitamente. Os assassinos matavam, as vítimas morriam, os fogos ardiam e um povo inteiro ansioso por eternidade transformava-se em cinzas, aniquilado por uma nação que, até então, era considerada a mais instruída, a mais culta do mundo. Diplomados pelas melhores universidades, amantes de música e pintura, médicos, advogados e filósofos participaram na Solução Final e tornaram-se cúmplices da morte. Académicos e engenheiros inventaram métodos mais eficientes para exterminar massas em tempo recorde… Como foi isto possível?
Não sei a resposta. Na sua extensão, no seu aspecto ontológico e nas suas ambições escatológicas, esta tragédia desafia e excede todas as respostas. Se alguém reclamar ter uma resposta, essa só pode ser falsa. Tanto luto, tanta agonia, tantas mortes de um lado e uma simples resposta do outro? Não se pode perceber Auschwitz nem com Deus nem sem Deus. Não se pode perceber nos termos dos homens ou dos céus. Porque havia tanto ódio para com crianças e velhos judeus? Para quê esta crueldade contra um povo cuja memória de sofrimento é a mais antiga do mundo?
(…) Sim, um mundo maldito onde se falava outra linguagem, onde uma nova religião era proclamada: uma religião de crueldade, dominada pela desumanidade; uma sociedade que evoluíra do outro lado da sociedade, do outro lado da vida, do outro lado da morte talvez; um mundo onde um pequeno pedaço de pão valia todos os ideais, onde um adolescente uniformizado tinha poder absoluto sobre milhares de prisioneiros, onde seres humanos pareciam pertencer a outra espécie, tremendo perante a morte, que tinha todos os atributos de Deus…
Como judeu, é impossível para mim não sublinhar o sofrimento do meu povo durante o seu tormento. Peço que não vejam nisto qualquer tentativa de negar ou minimizar o sofrimento das populações dos países ocupados ou a tortura sofrida pelos nossos camaradas, os nossos amigos cristãos ou ateus a quem o inimigo comum puniu com uma brutalidade imperdoável. Como se fossem nossos irmãos? Eles são nossos irmãos.
É impossível para mim, como judeu, deixar de sublinhar que, pela primeira vez, um povo inteiro – do maior ao mais pequeno, do mais rico ao mais pobre – foi condenado à aniquilação. Para o extirpar, para o extrair da história, para o matar na memória matando toda a memória dele: era este o plano do inimigo.
Marcado, isolado, humilhado, espancado, esfomeado, torturado, o judeu foi entregue ao carrasco, não por ter defendido uma qualquer opinião, não por possuir riquezas e tesouros, não por ter adoptado um certo comportamento proibido. O judeu foi condenado à morte simplesmente porque nasceu judeu, porque carregava com ele a memória judaica.
Declarado ser menos que um homem, e por isso sem merecer compaixão ou pena, o judeu nascera apenas para morrer – tal como o assassino nascera apenas para matar. Consequentemente, o assassino não tinha qualquer sentimento de culpa. Um investigador americano colocou a questão nestes termos: o assassino não perdera o sentido de moralidade, mas sim o sentido de realidade.
(…) Auschwitz e Treblinka, Maidanek e Ponar, Belzec e Mathausen, e tantos, tantos outros nomes: o apocalipse estava por todo o lado. Por todo o lado, procissões mudas caminhavam para valas cheias de cadáveres. Poucas lágrimas, muito poucos choravam. Pela sua aparência, resignadas, as vítimas pareciam deixar este mundo sem remorsos. Era como se estes homens e mulheres optassem por não viver numa sociedade desfigurada, desnaturada pelo ódio e pela violência.
Depois da guerra, o sobrevivente tentou contar aquilo, prestar testemunho… mas quem conseguia encontrar palavras para descrever o indiscritível?
O silêncio contemplativo dos velhos que sabiam, das crianças que tinham medo de saber… o horror das mães que enlouqueciam, a aterradora lucidez de gente louca num mundo de delírio… o canto grave do rabino recitando o Kaddish, o murmúrio dos seus seguidores caminhando atrás dele para o fim, para os céus… a criança que despia o irmão pequeno… dizendo-lhe para não ter medo da morte… talvez lhe dissesse para não ter medo dos mortos…
E na cidade, na grande cidade de Kiev, a mãe e os seus dois filhos frente a soldados alemães que riem… tiram-lhe uma das crianças a matam-na à vista da mãe… depois matam a segunda… ela quer morrer; os assassinos deixam-na viva, mas habitada pela morte… depois ela pega nos dois pequenos corpos, abraça-os e chora… como se pode descrever esta mãe? Como pode alguém descrever o seu sofrimento? Nesta tragédia há algo que dói para além da dor – e eu não sei o que é.
Sei que temos que falar. Não sei como. Por este crime ser absoluto, toda a linguagem é imperfeita. É por isso que há no sobrevivente um sentimento de impotência. Era mais fácil para ele imaginar-se livre em Auschwitz do que é imaginar-se em Auschwitz sendo livre. É esse o problema: quem não passou por este acontecimento nunca será capaz de o perceber. Mesmo assim, o sobrevivente tem consciência do seu dever de prestar testemunho. De contar o que viveu. De protestar cada vez que qualquer “revisionista” moralmente perverso ouse negar a morte dos que morreram. E a verdade da memória transmitida pelos sobreviventes.
(…) Pode morrer-se mais do que uma vez? Sim, pode-se. O sobrevivente morre cada vez que se junta, nos seus pensamentos, à procissão nocturna que na realidade nunca deixou. Como pode ele distanciar-se sem os trair? Durante muito tempo ele falou com eles, tal como eu falo com a minha mãe e a minha irmã: vejo-as afastar-se sob o céu em chamas… peço-lhes que me perdoem por não as ter seguido…
É pelos mortos, mas também pelos sobreviventes e pelas crianças deles – e pelas vossas – que este julgamento é importante: ele pesará no futuro. Em nome da Justiça? Em nome da memória. Justiça sem memória é uma justiça incompleta, falsa e injusta. Esquecer seria a injustiça absoluta da mesma forma que Auschwitz foi o crime absoluto. Esquecer seria o triunfo final do inimigo.
Na verdade, o inimigo mata duas vezes – da segunda vez tenta obliterar os vestígios dos seus crimes. Foi por isso que ele empurrou o seu plano atroz e aterrador aos limites da linguagem, e para além dela: “mesmo que sobrevivas, mesmo que contes, ninguém acreditará em ti”, disse um oficial das SS a um jovem judeu algures na Galicia.
Este julgamento contradisse já esse assassino. As testemunhas falaram; as suas verdades entraram na consciência da humanidade. Graças a eles, as crianças judias de Izieu jamais serão esquecidas.
Como guardiões das sepulturas invisíveis, sepulturas de cinzas encrostadas num céu eterno de nevoeiro e chamas, temos de lhes permanecer fiéis. Temos de tentar. Recusar falar, quando se esperam palavras, seria admitir o triunfo último do desespero.
(…) Graças a este julgamento, os sobreviventes têm uma justificação para a sua sobrevivência. O seu testemunho conta, as suas memórias fazem parte da memória colectiva. Claro, nada pode trazer os mortos de volta. Mas por causa deste encontro, por causa das suas palavras, o acusado não será capaz de matar de novo os mortos. Tivesse ele sucesso a culpa não seria dele, mas nossa.
Tendo lugar sob o signo da justiça, este julgamento tem também de honrar a memória.

Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz, sobrevivente dos campos de extermínio de Auschwitz e Buchenwald. Testemunho prestado no Julgamento de Klaus Barbie, em Lyon, a 2 de Junho de 1987. Retirado e traduzido do livro From the Kingdom of Memory, Summit Books, New York, 1990.

Sinagoga secreta descoberta no Porto


Ekhal, a Arca da Scola Grande Tedesca, na sinagoga de Campo Ghetto Nuovo, Veneza.

Vestígios de uma sinagoga secreta dos finais do século XVI foram recentemente descobertos no Porto, na Rua de S. Miguel, numa casa comprada há quatro anos pelo pároco de Nossa Senhora da Vitória. Encontrado por acidente durante uma obras, um nicho emparedado foi identificado por especialistas como um ekhal (pronunciado “errál”), a reentrância onde eram guardados os rolos da Torá, a parte mais sagrada da sinagoga, também conhecida simplesmente como Arca (aron ha’kodesh – ארון הקדש). Este achado reveste-se de uma importância histórica notável, provando a existência de uma sinagoga secreta no Porto mais de um século após a conversão forçada dos judeus portugueses, decretada por D. Manuel I em 1497. Num trabalho publicado no Jornal de Notícias (ver Jornal de Notícias – Sinagoga descoberta no Porto), assinado pelo jornalista Pedro Olavo Simões, o arqueólogo Mário Jorge Barroca data o ekhal nos finais do século XVI ou princípios do século XVII. A descoberta do que resta de uma sinagoga clandestina naquela localização, segundo afirma a historiadora Elvira Mea também ao Jornal de Notícias, enquadra-se nos relatos do rabino Immanuel Aboab – que nasceu e foi criado no Porto – inscritos no seu livro Nomologia o Discursos Legales, publicado em Amsterdão em 1629. A historiadora diz ainda que contactou o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil, alertando para a necessidade de preservar este raro achado, mas apenas a última instituição terá manifestado algum interesse.

PS – Um muito obrigado a Carlos Romão e Paulo Jorge Santos por me alertarem para a notícia. Francisco José Viegas também escreveu sobre o achado no seu A Origem das Espécies. Já agora acrescento que Elvira Mea, a historiadora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto citada no texto de Pedro Olavo Simões, é responsável pela cadeira Judeus e Cristãos Novos na Cultura Portuguesa. Sobre a história dos judeus no Porto, e com uma breve referência à sinagoga agora descoberta, ver ainda este pequeno artigo da Jewish Encyclopedia, datado de 1905, da autoria do rabino alemão Meyer Kayserling, um dos maiores estudiosos novecentistas da história dos judeus portugueses.

::ADENDA::
Para memória futura, aqui fica a transcrição do trabalho do Jornal de Notícias:

Sinagoga descoberta no Porto

Por Pedro Olavo Simões

Foi descoberta, no Porto, uma sinagoga de finais do século XVI. Por circunstâncias várias, tem enorme importância histórica, mas está numa casa onde a paróquia de Nossa Senhora da Vitória ultima a construção de um lar de idosos, com aval do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR).
A historiadora Elvira Mea, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) , anda há dois anos a lançar alertas para a existência, no nº 9 da Rua de S. Miguel, de um “Ehal” (nicho onde são guardados os rolos da Torah, a Lei atribuída a Moisés), que tem o especial valor de ter sido feito depois da expulsão/conversão forçada dos judeus em 1496/97, por D. Manuel. Trata-se de uma sinagoga clandestina, que constituía “uma afronta total à situação de Contra-Reforma”. Para mais, além da tipologia da casa (uma entrada por trás, discreta, na Rua da Vitória), característica do culto clandestino, a documentação, designadamente da Inquisição, dá conta da existência, nas imediações, de casas de jogo, que os cristãos-novos usavam como elementos distractivos.
Elvira Mea, que diz ter contactado o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil (a única entidade que mostrou interesse), nota, ainda, que o achado faz luz sobre a obra “Nomologia…” (Amsterdão, 1629), de Imanuel Aboab, em que o autor diz ter visto a sinagoga, na sua meninice, algo que a ausência de vestígios materiais tornava duvidoso. A importância do “Ehal” é ainda maior, atendendo à falta de vestígios materiais da presença judaica no Porto, designadamente na zona do Olival, hoje Vitória, onde esteve a última judiaria da cidade. A localização da sinagoga na rua que agora é da Vitória, e não na de S. Miguel, é corroborada por escritos de historiadores como Geraldo Coelho Dias.
O arqueólogo Mário Jorge Barroca, também docente da FLUP, não hesita em afirmar que o “Ehal” é de finais do século XVI ou do início do século XVII, sendo um de quatro exemplares existentes em Portugal, juntamente com os de Castelo de Vide, de Castelo Mendo (que ele próprio identificou) e da Guarda. Apesar de danificado, por obras mais antigas, o “Ehal” constitui oportunidade única para aprofundar e divulgar o conhecimento sobre a cidade.
Agostinho Jardim, pároco de Nossa Senhora da Vitória, comprou a casa em questão há cerca de quatro anos, tendo descoberto o dito “nicho” ao ver que “havia uma parede falsa a tapar qualquer coisa”. O lar, feito ali por ter sido aquela a casa devoluta que apresentava melhores condições, é uma necessidade premente, e a obra está perfeitamente legal, mas o padre Jardim está aberto à procura de uma solução. Já Miguel Rodrigues, da Direcção Regional do Porto do IPPAR, admite a importância do achado e a necessidade de fazer tudo pela preservação, mas nota que, por o edifício não ser do Estado, há que ter em conta “todos os interesses em presença”. Diz ter sabido do caso há 15 dias, desconhecendo os apelos feitos anteriormente.

::ADENDA II::

Ha’aretz (Israel)
12/01/2006
Remains of a Torah ark discovered
during renovations in Portugal

By Amiram Barkat

A group of citizens from the city of Porto in Portugal who view themselves as descendents of Crypto-Jews want to turn a building in which the remains of an ancient synagogue were found into a museum dedicated to the history of the city’s Jews.
In their view, the building, in which a recess of a synagogue ark was discovered by chance, once served as the synagogue of Rabbi Isaac Aboab. However, so far the group’s request has not been acceded to, and it appears unlikely that it will.
Rabbi Aboab, also known as the “last gaon [sage] of Castile,” was the head of the Guadalajara yeshiva and one of the last gaonim of Spain. In March 1492, on the eve of the expulsion of the Jews from Spain, Aboab and a group of Jewish dignitaries managed to obtain political asylum in Portugal.
The rabbi settled in the Judiaria, or Jewish, quarter of Porto along with a few hundred Jewish families. Five years later, the Portuguese authorities forced all the Jews in the country to either convert to Christianity or be expelled.
Many of those forced to convert continued to observe the Jewish commandments in secret. Over the years, the Jews abandoned the Judiaria, and many of its buildings were handed over to the Church or various charity organizations. The synagogue building was handed over to a state charity.
Two years ago, the organization gave the building to a priest named Agostinho Jardim Moreira to establish an old people’s home in it. During renovations on the building, a recess where a synagogue ark once stood, in which the Torah scrolls were kept, was found behind a secret wall.
The niche was identified by historian Elvira Mea, a lecturer at the University of Porto who specializes in Jewish history. She happened to be passing by while guiding a tourist from Israel.
The location of the building precisely matches a description provided by 16th century writer Immanuel Aboab (a great-grandson of Rabbi Aboab), who wrote that the synagogue was located “in the third house along the street counting down from the church.”
Mea, who specializes in the period of the Inquisition, maintains that the synagogue continued to be active even during the period of the Crypto-Jews, who worshiped in it secretly. However, an Israeli journalist of Portuguese extraction, Inacio Steinhardt, who knows Mea personally, disagrees with her.
“It is difficult to believe the Crypto-Jews prayed in a synagogue, because it would have been far too dangerous,” he says. Steinhardt is convinced the Crypto-Jews removed the ark from the synagogue along with its other sacred artifacts and worshiped in their homes.
A group of descendants of Crypto-Jews who heard about the discovery has asked that the building be preserved and turned into a museum dedicated to the history of the city’s Jews. However, Father Moreira has demanded an alternative building as well as compensation for the money that has already been put into the renovations.
Israeli ambassador to Portugal Aaron Ram has appealed to the city of Porto and the local bishop regarding the matter. In addition, the Center for Jewish Art at Hebrew University has asked UNESCO to intervene.
Steinhardt says he is pessimistic regarding the chances of turning the building into a museum because only the Portuguese government is authorized to make any decisions in the matter.

O Terramoto de Lisboa, os judeus e a Inquisição

Às 9h20 da manhã de 1 de Novembro de 1755, há exactamente 250 anos, Lisboa era varrida pelo primeiro de uma série de três violentos abalos sísmicos. Em breves minutos, uma das mais belas capitais europeias ficaria irreconhecível, irremediavelmente destruída por um dos mais devastadores terramotos da História – que, segundo os geólogos modernos, terá atingido uma magnitude de 9 na escala de Richter. Entre 60 a 100 mil pessoas perderam a vida nos escombros (cerca de metade da população da capital portuguesa na época).
Escassos quatro meses após o terramoto de Lisboa, a 11 de Março de 1756, uma quinta-feira (9 de Adar II de 5516, segundo o calendário hebraico, cinco dias antes do festival judaico de Purim), os governadores da congregação sefardita portuguesa e espanhola de Hamburgo – onde na época residiam cerca de 350 judeus portugueses – decretam um dia “jejum geral”, para “orar e suplicar à Divina majestade”. Um panfleto escrito em espanhol circulou pela cidade, anunciando um sermão a cargo do rabino Jacob Bassan (1704-1769), no qual se lia:
Horden de Rogativa y Peticion, para orar y rogar, al Senhor, para tiempo de teramoto, o temblor de tierra, y segun se há oydo, la indignacion de Ds. se experimentó, em Varios lugares, y en diferentes partes, tembló la tierra, por lo que se ajuntaran los Senhores Parnassim, y con la aprovacion del Sr. HH, decretaran um ayuno general, para jueves, siendo 9 del mez de Adar segundo deste anho, para orar e suplicar ala Divina magestad, por nós y por todo Israel nuestros Hermanos los proximos y los remotos, El todo poderozo apiade sobre nós, y sobre todos os lugares de nuestras moradas, y ampare por nos, Amen.
Composto em Lengua Ebrea, y tradizido em Lengua Espanhola por el H.H.R. Jehacob de Abraham Bassan, rav del K.K. Beth Israel en Hamburgo. Estampado por orden de los Senhores Parnassim de dicho Kahal anno 5516. Estampado em Hamburgo, em casa de la Viuda de I.H. [ilegível] Anno 1756.


Esquerda: o panfleto da sinagoga portuguesa e espanhola de Hamburgo anunciando um dia de jejum e oração em memória as vítimas do terramoto de Lisboa (clique para ver uma imagem maior do panfleto). Direita: xilogravura checa sobre o terramoto de Lisboa datada de finais de 1755 (Original do Museu da Biblioteca Nacional da República Checa).

Rezando pela memória das vítimas do terramoto de Lisboa, e pedindo a protecção divina, alguns dos líderes religiosos dos judeus portugueses emigrados em Hamburgo – e também em Amsterdão – viam na catástrofe um “castigo divino” que punia Portugal pelos crimes da Inquisição, em retribuição pelas suas inúmeras vítimas1 (António José da Silva, dramaturgo conhecido como O Judeu, por exemplo, fora executado na fogueira 18 anos antes do terremoto). A mesma leitura seria feita na época um pouco por toda a Europa, onde teólogos protestantes imputavam o Grande Terramoto de Lisboa a uma omnipresente “mão de Deus” que castigava os portugueses pela sede sanguinária e fanática da Inquisição (ver gravura em baixo). Cerca de dois séculos antes, como testemunhou um atónito Gil Vicente, um grupo de frades de Santarém pregava que o terramoto de 26 de Janeiro de 1531 fora “um castigo divino” pela presença dos judeus em Portugal (que por sinal estavam no país há mais de 2500 anos…).
Mas no século XVIII, mesmo aqueles menos dados às coisas da religião não hesitavam em juntar terramoto e Inquisição nas mesmas páginas. Numa carta dirigida a M. Tronchin de Lyons, datada de 24 de Novembro de 1755, redigida pouco tempo depois de receber a notícia da catástrofe de Lisboa, o filósofo iluminista francês Voltaire escrevia: “(…) Que dirão os pregadores – especialmente se o Palácio da Inquisição ainda ficar de pé! Agrada-me a ideia de que esses reverendos padres, os da Inquisição, terão sido esmagados tal como as outras pessoas. Servirá isso para ensinar que homens não devem perseguir outros homens: porque, enquanto beatos hipócritas queimam uns quantos na fogueira, a terra abre-se e engole a todos sem distinção.”
Quatro anos mais tarde, Voltaire tornava a escrever sobre o terramoto de Lisboa, e sobre a Inquisição, no romance burlesco Candide. No capítulo VI de Candide, o filósofo francês coloca os padres da Universidade de Coimbra a proclamarem que “o espectáculo de queimar vivas umas quantas pessoas em fogo lento, e numa grande cerimónia, é um segredo infalível para prevenir que a terra trema”, pelo que se organiza um “grandioso auto-de-fé” no qual serão queimados, entre outros, “dois portugueses que se recusam comer toucinho”. “No mesmo dia”, escreve Voltaire no final do capítulo, “a terra tremeria de novo com um furor implacável.”

1Até aos finais do século XIX, as congregações de judeus portugueses na Diáspora (em Nova Iorque, Filadélfia, Savannah, Newport, Amsterdão, Caraíbas etc.) tinham nos seus livros de oração uma benção, pronunciada diariamente pelos congregantes, onde se lia em português: “Tende na vossa guarda a todos os nossos Irmãos prezos pella Inquisição e a todos os nossos irmãos que andão por caminhos tanto por mar como por terra.


(clique para ampliar)
Gravura britânica, publicada em Londres em 1756. O rei português, D. José I, frente a uma Lisboa em ruínas, pergunta a um padre anglicano quais as causas do terramoto; o sacerdote protestante mostra-lhe um “auto-da-fé”, dizendo que “queimar pessoas provoca a ira divina”. (Jan Kozak Collection, Universidade de Berkeley, Califórnia)

::A LER:: Candide (texto integral em francês) / Candide (texto integral em inglês) / Cândido (texto integral em português) / Voltaire – Poème sur le désastre de Lisbonne / Dialogus – Voltaire – Le tremblement de Lisbonne / Dicionário Histórico de Portugal: Padre Gabriel Malagrida / Pequeno Blogue do Grande Terramoto (um blog de Rui Tavares, historiador, tradutor de Voltaire para português e autor do Pequeno Livro do Grande Terramoto) / Historical Depictions of the 1755 Lisbon Earthquake / Earthquakes Around the World / DivulgandoBD: Terramoto de 1755 na Banda Desenhada

Israel termina a ocupação de Gaza


Foto de Rina Castelnuovo, The New York Times

::A LER:: BBC – Israel desocupa Faixa de Gaza depois de 38 anos / BBC – Israel destrói último posto militar em Gaza / CNN – Israeli flag lowered over Gaza / Haaretz – Analysis: The ‘day after’ the disengagement begins now / Xinhua – Israeli ends military rule in Gaza / Haaretz – Israel News – IDF leaves Gaza after 38 years of military rule / Palestinians assume control of Gaza Strip – The Boston Globe / BBC Israel completes Gaza withdrawal / JTW News – Israel completes Gaza withdrawal / The Scotsman – Gaza synagogues burn as Israel goes / Seattle Post-Intelligencer: Palestinians set fire to empty synagogues

“O Dia da Chegada”

Os judeus portugueses nas Américas

[Este post integra-se num “blogburst” promovido por Jonathan Edelstein, destinado a celebrar Arrival Day, o Dia da Chegada, que assinala o aniversário do desembarque dos primeiros judeus em Nova Iorque, a 7 de Setembro de 1654]


Nova Amsterdão. Gravura da autoria do cartógrafo Peter Schenk.
Atlas Hecatompolis.

Os nomes de família dos primeiros judeus americanos soam estranhamente familiares: Dias, Costa, Cardozo, Faro, Ferreira, Fonseca, Gomes, Lucena, Navarro, Nunes, Henriques, Machado, Maduro, Mendes, Mesquita, Pacheco, Peixotto, Pereira, Pinto, Penha, Seixas… Eram portugueses. Judeus portugueses do século XVII. Muitos deles “cristãos-novos”, que finalmente descartavam a capa que foram obrigados a envergar para escapar às fogueiras inquisitoriais; que ali procuravam abrigo, um refúgio da intolerância que mergulhava Portugal numa histeria de fanatismo sanguinário, que acabou por arrastar o país para um abismo do qual ainda hoje se sentem cicatrizes profundas. Os judeus portugueses chegaram a Nova Iorque a 7 de Setembro de 1654, quando a cidade era holandesa e ainda se chamava Nieuw Amsterdam. Faz hoje 351 anos.
Os primeiros vieram do Brasil, alguns depois de emigrarem primeiro de Lisboa para a Holanda. E tal como já acontecia na Holanda, estes emigrantes judeus de Nova Iorque eram conhecidos como “gente da Nação Portuguesa” (ver Hebrews of the Portuguese Nation). Mas para seguir a génese da comunidade judaica portuguesa em Nova Iorque é necessário primeiro viajar até ao Brasil colonial do século XVII, mais concretamente a Pernambuco, um território de extensão considerável capturado pelos holandeses em 1630.
Os judeus tinham desempenhado o seu papel na descoberta e colonização do Brasil. Desde 1500, quando Pedro Alvares Cabral desembarcou nas Terras de Vera Cruz acompanhado por Gaspar da Gama, um “cristão-novo”, até 1654, altura em que os portugueses expulsaram os holandeses, navegadores, pioneiros e colonos judeus ajudaram a moldar a história do Brasil. A Inquisição não tinha ainda atravessado o Atlântico e a distância emprestava uma ilusão de segurança. Muitos dos que ali chegavam eram deportados, condenados ao degredo por suspeita de judaísmo, transformando o território virtualmente numa colónia penal. Mesmo assim, o espectro inquisitorial pairava ainda na penumbra e sobre os judeus pesava o receio de poderem ser repatriados para Portugal a mando dos tribunais da Inquisição.
Num contraste extremo com o obscurantismo inquisitorial que dominava a península Ibérica, em Pernambuco a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais – responsável pela administração dos territórios da coroa dos Países Baixos nas Américas – proclamara logo de início, de forma inquestionável, a liberdade de consciência e de culto entre as populações das suas colónias:

“A liberdade dos espanhóis, portugueses e nativos, quer sejam [católicos] romanos ou judeus, será respeitada. A ninguém será permitido que os moleste ou os sujeite a inquirições em matéria de consciência ou nas suas casas privadas; e ninguém os ouse inquietar ou perturbar ou causar-lhes dano – sob pena de punição arbitrária ou, dependendo das circunstâncias, de severa e exemplar reprovação.”

in “Leis e Regimentos das Índias Ocidentais”, citada por Arnold Wiznitzer, “The Records of the Earliest Jewish Community in New York” (1957).

Apesar de algumas tentativas por parte de clérigos para restringir estas liberdades (especialmente contra os católicos, tidos como inimigos naturais dos calvinistas), a Companhia Holandesa das índias Ocidentais reafirmaria por várias vezes os princípios de tolerância. Perseguidos pela Inquisição em Portugal, este pedaço de “Brasil Holandês” aparecia aos olhos dos judeus portugueses como um oásis de tolerância, que lhes permitia praticar a sua religião livremente, libertando-os do receio, constante e real, das torturas inquisitoriais ou da morte nas fogueiras dos “autos-de-fé”. E assim foi durante 24 anos. No Pernambuco holandês, sob a administração de João Maurício de Nassau, a comunidade de emigrantes judeus de Portugal floresceu, fundando a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Tzur Israel (Comunidade Rochedo de Israel), em 1637.
A 26 de Janeiro de 1654 as tropas portuguesas reconquistam o Recife com um ataque de proporções épicas, comandadas pelo general luso-brasileiro Francisco Barreto de Menezes – que a partir de então ficaria conhecido como “o restaurador de Pernambuco” –, pondo fim ao domínio holandês naquela região do Brasil.


Fólio do manuscrito de “Regras Benéficas e Restrições” para o governo da Sinagoga Shearith Israel, escrito em português e inglês, lavrado em Nova Iorque, em 1728. (clique na imagem para ampliar)

Os termos da rendição, assinados em Taborda, perto do Recife, são generosos para com os derrotados, dando aos holandeses um prazo de três meses (que seria prorrogado por mais três) para se retirarem do território recém conquistado, período durante o qual, segundo os mesmos termos, “não serão molestados ou vexados e serão tratados com respeito e cortesia.” Surpreendentemente, o general Barreto de Menezes mostra uma tolerância muito pouco habitual ao permitir igualmente (ajudando até) a saída dos judeus portugueses, apesar destes terem passado a ficar sob a alçada da Inquisição, o que lhe teria à partida vedado qualquer possibilidade de clemência. A lei exigia a deportação imediata dos judeus para Portugal.
A 20 de Fevereiro de 1654 os funcionários do tesouro real efectuaram um inventário de todas as casas no Recife e Maurícia anotando os seguintes nomes como “judeus proprietários de casas e lojas”: Jacob Valverde, Moisés Netto, Moisés Zacutto, Jacob Fundão, Moisés Navarro, David Atias, Benjamin de Pina, Abraão de Azevedo, João de Lafaia; Gil Correa, Gabriel Castanha, Gaspar Francisco da Costa, Fernão Martins, Duarte Saraiva e David Brandão. Outras aparecem mencionadas no inventário como “casa de judeus”, mas o nome dos seus proprietários não consta do documento.
Devido à escassez de embarcações holandesas que possibilitassem uma evacuação total, o general Barreto de Menezes ofereceu navios portugueses para transportar os judeus e assim os ajudar a escapar à Inquisição. Este gesto não seria esquecido, e os anais da história judaica portuguesa registam ainda hoje o nome de Francisco Barreto de Menezes, católico e “cristão-velho”, como um homem de nobre carácter – um hassid umot ha’olam (gentio justo e íntegro do mundo.)
Ao todo, 16 navios portugueses foram colocados à disposição dos seus compatriotas judeus pelo general Barreto de Menezes e a esmagadora maioria das cerca de 150 famílias judias do Brasil Holandês partiu em direcção à Holanda. Alguns optaram por ficar nas colónias holandeses nas Caraíbas onde, ainda hoje, a predominância de nomes de família portugueses (e a linguagem litúrgica) entre os judeus sefarditas do Suriname e de Curaçao prova essa ligação ancestral (ver também bloGUSblog: A estrela oculta do sertão, sobre os descendentes dos judeus portugueses que ainda restam no sertão brasileiro.)
Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns deste judeus. Em Amsterdão, o rabino português Saul Levi Morteira – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta dos percalços sofridos por uma destas embarcações no livro Providência de Deus com Israel, um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias:
“O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.”
Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Cetherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Cetherine aporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque. Era o primeiro grupo de judeus a chegar a América do Norte. Faz hoje precisamente 351 anos.
Destas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado.
A princípio, reticente, o governador holandês Peter Stuyvesant opôs-se à permanência dos judeus, escrevendo aos seus superiores argumentando que “se deixamos vir os judeus não tardam a vir os papistas.” O desespero de Stuyvesant aumentaria ainda mais quando os judeus apresentaram uma petição à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais para poder fazer na Nova Amsterdão o que faziam em Pernambuco – viver livremente. A resposta da companhia foi favorável :

“Após muita deliberação, resolvemos dar provimento à petição apresentada por certos mercadores [judeus] da Nação Portuguesa, julgando-a favorável, para que eles possam viajar e comerciar com e na Nova Holanda e viver dentro dos seus limites.”

Em 1664, Nieuw Amsterdam passa para a coroa britânica e muda de nome. Dai para a frente será New York. Por volta de 1695, apesar de algumas restrições, os judeus tinham a sua primeira sinagoga improvisada, e a 8 de Abril de 1730 era dedicada a primeira sinagoga de raiz da comunidade que, logo à chegada, em 1654, escolhera o nome de Shearith Israel (Remanescente de Israel). Até ao final do século XIX tiveram duas línguas “sagradas”, ditadas pelos genes, pela fé e pelo apelo da memória. Faziam-se as orações em hebraico. Em português escreviam-se os documentos.


Dois rabinos da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque: H. Pereira Mendes (séc. XIX) e David de Sola Pool (séc. XX).

::A LER NA JUDIARIA:: Os primeiros judeus nas Américas (o capítulo seguinte…) / Genealogia Judaica Portuguesa / Salomão Nunes Carvalho: Um Judeu Português no “Faroeste Selvagem” / Uriah Levy: O judeu português que salvou Monticello / Emma Lazarus / Sabato Morais: O rabino abolicionista

::PARA OUVIR:: Abraham Lopes Cardozo – Mizmor le-David (Um Salmo cantado pelo rabino emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque).

O rabino abolicionista

“Não são as vitórias da União mas sim as da Liberdade que devemos celebrar, meus amigos. O que é união quando existe degradação humana? Quem ousaria afixar novamente o selo à amarra que consignou milhões ao cativeiro? Não eu, o escravo alforriado de Mizraim [Egipto]. Nem vós, cujo lema é progresso e civilização.” Escrito nas páginas do Philadelphia Inquirer, a 25 de Novembro de 1864, ainda em plena guerra civil americana, este parágrafo em defesa do fim da escravatura definia a essência da visão humanista do seu autor: Sabato Morais, rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, nos Estados Unidos.
Um dos mais influentes rabinos da história do judaísmo americano, Sabato Morais era descendente de judeus “marranos” portugueses forçados ao exílio para escapar à Inquisição. Nascido em Livorno, Itália, na segunda década do século XIX, Sabato era filho de Samuel Morais – um comerciante de parcos meios –, que desde cedo incutiu nos filhos o gosto pela leitura, pelas línguas e pela política. Sabato Morais cresceu a falar e a ler português em casa e italiano, latim e hebraico na escola.
Samuel Morais era um fervoroso militante do movimento republicano e foi preso por diversas vezes por causa das suas opiniões políticas, o que obrigou Sabato, o seu filho mais velho, a contribuir desde muito novo para o sustento da família, dando aulas de hebraico e ensinando outras crianças da sua idade a ler os livros de orações na sinagoga. O expediente que servia para ajudar a renda familiar acabaria por marcar o seu futuro: em 1845, com apenas 22 anos, é ordenado rabino, depois vários anos de treino sob a alçada dos rabis Abraham Baruch Piperno, Abraham Curiat, Isaac Alvarenga e Angiolo Funaro.
Pouco depois da ordenação Sabato Morais opta por abandonar a Itália, viajando até Londres, onde se candidata ao cargo de rabino assistente da Sinagoga Portuguesa Bevis Marks, a maior e mais antiga congregação sefardita britânica. Depois de falhar inicialmente os seus intentos, em parte devido à sua pouca fluência na língua inglesa, Sabato regressaria a Londres um ano depois, em 1846, para ensinar hebraico na Escola dos Órfãos Portugueses, uma instituição ligada à mesma sinagoga. Em Londres, Sabato Morais conhece e torna-se amigo de Sir Moses Montefiore e de Giuseppe Mazzini, o líder republicano italiano (e membro da Carbonária) inspirador de Garibaldi. Partilhando os ideais republicanos do pai, e também a militância maçónica, segundo alguns historiadores, Sabato Morais, terá mesmo emprestado o seu passaporte a Mazzini para ele poder regressar a Itália sem ser preso.
Em 1851, após alguma hesitação, Sabato Morais parte de Londres em direcção aos Estados Unidos para se tornar rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, na época uma das mais influentes congregações do judaísmo americano.

Nos EUA, este descendente de judeus portugueses encontraria um terreno fértil para a luta pelos seus ideais políticos e humanistas. Desde logo junta a sua voz ao coro de intelectuais abolicionistas, exigindo o fim da escravatura. Remando contra a corrente de outros líderes religiosos do seu tempo, Sabato Morais envolveu-se directamente na batalha política em defesa da firme separação entre a religião e o Estado. Enquanto vice-presidente da Alliance Israelite Universelle, teve também um papel activo na resposta à perseguição de judeus em Marrocos, na Roménia e na Rússia e escreveu artigos inflamados contra os célebres raptos de Edgardo Mortara e Joseph Coen, duas crianças judias italianas retiradas aos seus pais e baptizadas à força com o consentimento do Vaticano.
Em paralelo, Sabato Morais prosseguiu uma invejável carreira académica, leccionando no Maimonides College e University of Pennsylvania. O seu nome ficaria também intimamente ligado ao Jewish Theological Seminary, que Sabato Morais fundou com Henry Pereira Mendes, na altura rabino da Shearith Israel, a Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque (a mais antiga sinagoga da América do Norte, fundada em 1654).
Ao contrário da abolição da escravatura, outra causa apadrinhada por Sabato Morais não teve tanto sucesso: a abolição da pena de morte nos Estados Unidos. Sobre isto transcreve o Philadelphia Inquirer de 8 de Dezembro de 1865:

“(…)Mas uma outra lição deverá o mundo receber das nossas mãos; tal como proclamou o antigo sábio hebreu, um tribunal que condena um homem à morte, nem que seja uma vez em setenta anos, merece a nossa reprovação.(…) A civilização apela-vos, como um povo livre, a apagar este vestígio de épocas bárbaras, e a humanidade ecoa esse chamamento. Mais do que a exibição dos colossais poderes, mais do que as proezas dos exércitos, o reconhecimento imortal será adquirido quando à abolição da escravatura se juntar o fim da pena capital.”
Sabato Morais morreu a 12 de Novembro de 1897, aos 74 anos. O seu funeral levou às ruas de Filadélfia dezenas de milhares de pessoas e os jornais da época classificaram-no como “o maior que a cidade alguma vez viu”. Por ocasião da sua morte, o Yudishe Gazeten, o primeiro jornal em língua Yiddish dos EUA, publicou um obituário assinado pelo jornalista e escritor Kasriel Sarasohn, classificando Sabato Morais como “der grester fun ale ortodoksishe rabonim in Amerike . . . on sofek” (“ o maior de todos os rabinos ortodoxos da América… sem nenhuma dúvida”) e o New York Times escreveu na mesma altura: “O doutor Sabato Morais foi o mais eminente rabino deste país e os seus discursos foram sempre um factor de poder e vigor em discussões de vasta importância e interesse para milhões de pessoas; um pensador, escritor e orador destemido, incisivo e profundo.”
No livro United States Jewry 1776-1985, o historiador Jacob Rader Marcus descreve Sabato Morais como “um homem imensamente culto e idealista que deixou uma marca profunda na história tanto do judaísmo americano como da própria América”.


::A LER::
University of Pennsylvania Library Collections – Sabato Morais Ledger / Congregation Mikveh Israel / The Story of Mikveh Israel Cemetery / Mikveh Israel: Philadelphia, PA (postal) / Mikveh Israel / Jewish Theological Seminary