500 Anos: O massacre de Lisboa III

Garcia de Resende

Testemunhos

Vi qẽ em Lixboa se alçaram
Pouo baixo & villãos
Contra os nouos Christãos
Mais de quatro mil matarã
Dos qẽ ouuerão nas mãos.
Hũos delles viuos queimarã
Mininos espedaçarão
Fizerão grandes cruezas
Grandes roubos & vilezas
Em todos quantos acharão.

Estando só ha cidade
Por morrerem muito nella
Se fez esta crueldade
Mas el rey mandou sobrella
Cõ muy grande breuidade
Muitos forão justiçados
Quantos acharão culpados
homẽ baixos & bragantes
& dous frades observãtes
vimos por isso queimados.

El rey teue tanto a mal
Ha cidade tal fazer
Qẽ o titulo natural
De noble & sempre leal
Lhe tirou & fez perder.
Muytos homens castigou
& officios tirou
depois que Lixboa vio
tudo lhe restituyo
& o titulo lhe tornou

Garcia de Resende (1470 – 1536), in Miscellania & Variedades de Histórias, costumes, casos & cousas que em seu tempo aconteceram, escrito entre 1530 e 1533, e publicado após a sua morte, em 1554.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa II

Testemunhos


A matança que ocorreu lá, em Lisboa:
Estando eu fora da cidade, contaram-me dias depois ao regressar que os dois não podem ser comparados, tendo em comum apenas a crueldade e a extrema dor1. O que me contou um ancião é o que a seguir relato.
Na noite de Páscoa os cristãos encontraram marranos2 sentados à mesa com pão ázimo e ervas amargas, seguindo os rituais da Páscoa, e trouxeram-nos perante o rei, que ordenou que fossem eles encarcerados na prisão até que a sentença fosse determinada. Naquela altura havia fome e seca pelo reino, e os cristãos juntaram-se e disseram: “Porque faz o Senhor isto a nós e à nossa terra senão por causa da culpa dos judeus?” E as suas palavras foram ouvidas pela Ordem dos Pregadores também chamados Dominicanos, que se concentraram em encontrar um ardil com que ajudar os cristãos. Então um deles levantou-se na sua casa de oração e pregou palavras ásperas e amargas contra a semente de Israel. E eles planearam um artifício e fizeram um crucifixo oco com uma abertura atrás, e vidro na frente, e por lá passavam uma vela, dizendo que a chama emergia do crucifixo, enquanto o povo se prostrava e gritava: “Vede o grande milagre! Este é um sinal de que Deus julga pelo fogo toda a semente de Israel!”
Um marrano foi lá que não ouvira estas palavras e, na sua inocência, disse: “Era melhor que fosse um milagre de água e não de fogo, pois com a seca é de água que precisamos!”
Os cristãos, cujos desígnios eram funestos, levantaram-se e disseram: “Olhai, que zomba ele de nós!” A multidão de imediato o pegou e matou. Quando o seu irmão ouviu, veio e disse: “Infortúnio, ai meu irmão, quem te matou?” E um de entre a multidão ergueu a espada, cortou-lhe a cabeça e a atirou sobre o corpo do irmão. Depois disto todos os frades se levantaram levando consigo os paus de Jesus Cristo3. Foram eles pelas ruas da cidade e proclamaram: “Quem matar algum da semente de Israel terá 100 dias de absolvição no mundo vindouro!” E de entre a multidão surgiram homens armados de espadas e durante três dias mataram quatro mil almas. Arrastavam e traziam para a rua os corpos para os queimar. Mulheres grávidas foram atiradas das janelas, os seus corpos recebidos pelas pontas das lanças, os fetos caindo a muitos pés de distância. E outras crueldades semelhantes e abominações que não quero aqui contar.
Aos magistrados de Lisboa não se pode culpar, nem aos seus nobres e líderes, porque tudo isto foi feito apesar deles. Eles próprios foram tentar salvar judeus, mas por causa do tamanho da multidão não o puderam fazer, pois quase lhes puseram as mãos neles também, e eles tiveram de fugir para salvar as próprias vidas.”

Salomão Ibn Verga, in Sefer Shebet Yehudah (ספר שבט יהודה), Livro do Ceptro de Judá, escrito em Portugal pouco depois do massacre de Lisboa mas publicado apenas em 1550, em Constantinopla, pelo seu filho, Yosef Ibn Verga.

NOTAS:
1 Salomão Ibn Verga alude aqui aos dois massacres: o ocorrido dentro de Lisboa e o subsequente que se alastrou pelas áreas rurais circundantes.
2 “Anussim” (אנוסים) no hebraico original do texto, expressão que literalmente quer dizer “os forçados”. Termo aplicado aos judeus portugueses forçados a converter-se ao catolicismo.
3 (עצי ישו הנוצרי) referência pejorativa aos crucifixos.

(texto traduzido do original hebraico)

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 anos: O massacre de Lisboa

1506-2006

Vai fazer exactamente 500 anos, nos dias 19, 20 e 21 de Abril, que um cataclismo se abateu sobre Lisboa. A alma da Capital do Império sofreu um abalo tão grande – senão mesmo maior – quanto aquele que a haveria de destruir em 1755. Durante três dias, em nome de um fanatismo sanguinário, mais de 4 mil pessoas perderam a vida numa matança sem precedentes em Portugal.
Como vozes que teimam em emergir de entre as poeiras da História, cronistas como Damião de Góis e Samuel Usque deixaram relatos detalhados dos motins sangrentos. Contam os testemunhos que tudo terá começado na Baixa, no dia 19 de Abril de 1506, um domingo, na Igreja de São Domingos, quando alguém gritou ter visto o rosto do Cristo crucificado iluminar-se inexplicavelmente no altar. Em redor, gente que rezava pelo fim da seca prolongada que grassava pelo país clamou que era milagre. Entre eles, um judeu convertido à força terá tentado explicar que a luz que emanava do crucifixo era apenas um reflexo de um raio de sol que entrava por uma fresta. Terão sido as suas últimas palavras. Arrastado para a rua, o marrano e um irmão seu foram espancados até à morte. Os seus corpos mutilados foram arrastados para o Rossio e queimados em frente dos Estaus – onde décadas depois foi instalada a Inquisição. Eles eram apenas os primeiros de entre mais de 4 mil mortos – anussim, judeus portugueses, homens, mulheres e crianças, assassinados em três dias sangrentos.
Incitada por frades dominicanos, a multidão que entretanto se aglomerara decide partir em direcção da Judiaria, gritando “morte aos judeus” e “morram os hereges”. As incompreensíveis cenas de violência que se deram a seguir fazem parte de um pedaço da história de Portugal que a História resolveu esquecer. Conto voltar ao tema e às descrições desta tragédia de há 500 anos. Por agora, queria apenas deixar um apelo. Em Portugal comemoram-se há muito os grandes feitos da História, testemunhos quase sebastianistas de uma grandeza perdida. Que não se esqueça também a desgraça que prova ser mito a velha máxima do tal “povo de brandos costumes”.
Aqui fica o desafio: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (“Da Contenda Cristã, que Recentemente Teve Lugar em Lisboa, Capital de Portugal, Entre Cristãos e Cristãos-Novos ou Judeus, Por Causa do Deus Crucificado”)

Panfleto anónimo, com apenas seis folhas, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor por uma testemunha ocular. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

(Gravura reproduzida aqui a partir de uma cópia gentilmente cedida pelo Hebrew Union College. O original, encontra-se na Houghton Library, na Universidade de Harvard)

Abraham Lopes Cardozo צ”ל


Rabino Abraham Lopes Cardozo (1914-2006), responsável pela preservação da tradição musical dos judeus portugueses, faleceu na terça-feira, em Nova Iorque, aos 91 anos.

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

O rabino Abraham Lopes Cardozo, hazzan emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque e reconhecido pelos seus esforços na preservação da música tradicional dos judeus portugueses da Diáspora, morreu na passada terça-feira, dia 21 de Fevereiro, aos 91 anos de idade. Lopes Cardozo faleceu num hospital de Manhattan, em Nova Iorque. Abraham Lopes Cardoso foi responsável pela condução musical dos serviços litúrgicos da sinagoga portuguesa de Manhattan, Shearith Israel – a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos, fundada em 1654 – entre 1946 e 1984, altura em que se reformou.
Nascido a 27 de Setembro de 1914, o rabino Abraham Lopes Cardozo era descendente de uma longa linha de rabinos e músicos da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. O seu bisavô, o lendário rabino David Lopes Cardozo (1808-1890), foi o último líder espiritual da comunidade de Amsterdão a fazer os sermões de Shabbat integralmente em português. O pai do rabino Abraham, Joseph Lopes Cardozo – morto no campo de concentração de Sobibor em 1943 -, era músico, foi maestro do coro de rapazes da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e cantor durante o Santo Serviço (o nome ainda hoje dado pelos judeus sefarditas holandeses à liturgia de Shabbat).
Abraham Lopes Cardozo prosseguiu a longa tradição rabínica e musical familiar, primeiro na Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e posteriormente na Nederlandsch Portugeesch Israelietsch Gemeente Zedek Ve-Shalom, a congregação de judeus portugueses de Paramaribo, Suriname, nas Antilhas Holandesas, e em Nova Iorque, onde acabou por se fixar em 1946. Grande parte da sua família pereceu no Shoá. Em 1940, quando o exército nazi invadiu a Holanda, Abraham Lopes Cardozo estava já no Suriname. O seu irmão Arie Lopes Cardozo foi capturado em 1941, pouco tempo antes dos seus pais e do seu irmão mais novo, Ies, deportado no dia do seu casamento, a 26 de Maio de 1943. Nenhum deles sobreviveu aos campos de extermínio. Reformado oficialmente desde 1984 das suas funções de hazzan da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque, o rabino Abraham Lopes Cardoso continuou até ao fim da sua vida empenhado em perpetuar a tradição musical dos judeus sefarditas portugueses, compilando várias colecções de edição restrita. Em 2000 foi condecorado pela coroa holandesa com o título de Cavaleiro da Ordem de Oranje Nassau, pelo seu trabalho de preservação cultural. A mesma condecoração tinha sido em tempos conferida ao seu avô.
Em 2004, Abraham Lopes Cardozo gravou em Israel aquele que é considerado o maior registo da tradição musical dos judeus portugueses, num CD intitulado “The Western Sephardi Liturgical Tradition as Sung by Abraham Lopes Cardozo”, editado pelo Centro de Estudos de Música Judaica da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Abraham Lopes Cardozo foi enterrado ontem, dia 22 de Fevereiro, no cemitério da comunidade de judeus portugueses, em Manhattan.

Os assassinos da Memória

Um depoimento de Elie Wiesel


Elie Wiesel fotografado por William Coupon.


(…) Devo dizer desde já que não sinto qualquer ódio pelo acusado. Nunca o conheci; os nossos caminhos nunca se cruzaram. Mas conheci assassinos que, como ele, com ele, escolheram ser inimigos do meu povo e da humanidade. Posso ter conhecido algumas das suas vítimas. Eu assemelho-me a eles, da mesma forma que eles se assemelhavam a mim. Dentro do reino de maldição criado pelo acusado e pelos seus camaradas, todos os prisioneiros judeus, todos os judeus, tinham o mesmo rosto, os mesmos olhos; todos partilhavam o mesmo destino. Às vezes dava a impressão que o mesmo judeu era morto pelo inimigo seis milhões de vezes.
Não, em mim não há ódio: nunca houve ódio. Não é de ódio que se trata aqui – mas de justiça. E de memória. Tentamos fazer justiça à nossa memória.
Aqui vai uma memória: a da Primavera de 1944. Poucos dias antes das festividades pentecostais judaicas – Shavuot. Eu tinha 15 anos. Uma criança profundamente religiosa, eu era movido por sonhos messiânicos e orações. Longe de Jerusalém, eu vivia por Jerusalém e Jerusalém vivia em mim.
Apesar do regime fascista, os judeus da Hungria não tinham sofrido ainda muito. Os meus pais tinham uma loja, as minhas três irmãs iam à escola, o Shabbat envolvia-nos em paz… a guerra? Essa estava à beira do fim. Os Aliados estavam prestes a desembarcar. O Exército Vermelho estava a 20 ou 30 quilómetros. Mas foi então…
Os alemães invadiram a Hungria a 19 de Março de 1944. A partir dai os acontecimento evoluíram a um passo tão rápido que não nos deixou respirar. Uma sucessão de decretos antisemitas foram passados: a proibição de viajar, a confiscação de bens, a obrigatoriedade de usar a estrela amarela, os guetos, as deportações.
Nós olhávamos impotentes à medida que o nosso mundo encolhia sistematicamente. Para os judeus, o país foi limitado a uma cidade, a cidade a um bairro, o bairro a uma rua, a rua a um quarto, o quarto a um vagão selado que de noite atravessava os campos polacos.
Tal como as 44 crianças judias de Izieu (deportadas para Auschwitz em 1944), os adolescentes judeus da minha terra chegaram tarde à estação de Auschwitz. O que era isto? Perguntámo-nos. Ninguém sabia. O nome não evocava em nós qualquer memória. Pouco depois da meia noite o combóio começou a mover-se. Uma mulher no nosso vagão gritou, “vejo fogo, vejo fogo!” Fizeram-na calar. Lembro-me do silêncio no vagão. Lembro-me do resto. As vedações de arame farpado até ao infinito. Os gritos dos prisioneiros cujo dever era dar-nos as “boas-vindas”, os tiros disparados pelas SS, o ladrar dos seus cães. E sobre nós, sobre o próprio planeta, chamas imensas erguiam-se para o céu como se o consumissem.
Desde essa noite, quando olho para o céu vejo-o frequentemente em chamas… mas nessa noite não podia olhar para o céu por muito tempo. Estava ocupado a agarrar-me à minha família. Ouviu-se uma ordem: “Alinhem-se por famílias.” Eram bom, pensei eu, vamos ficar juntos. Passados uns minutos: “Homens para a direita, mulheres para a esquerda.” Choviam pancadas de todos os lados. Não fui capaz de me despedir da minha mãe. Nem da minha avó. Nem de beijar a minha irmã mais nova. Com as minhas duas irmãs mais velhas ela afastava-se, arrastada pela desvairada maré negra…
Esta foi uma separação que cortou a minha família ao meio. Raramente falo dela, quase nunca. Não consigo pensar na minha mãe ou na minha irmã pequena. Com os meus olhos, ainda as procuro. Irei sempre procurá-las. No entanto, eu sei… Eu sei tudo. Não, tudo não… não se pode saber tudo. Podia imaginá-lo, mas não o quero fazer. É preciso saber parar… O meu olhar estanca à entrada das câmaras de gás. Mesmo em pensamento, eu recuso violar a privacidade das vítimas no momento da morte.
O que vi chega-me. Numa pequena floresta algures em Birkenau eu vi crianças serem atiradas vivas para as chamas pelas SS. Às vezes maldigo a capacidade de ver. Devia ter-me deixado sem nunca voltar. Eu devia ter ficado com aqueles pequenos corpos carbonizados… Desde essa noite, eu passei a sentir um profundo e imenso amor pelas crianças e pelos idosos. Cada idoso faz-me lembrar o meu avô, a minha avó, cada criança recorda-me a minha pequena irmã, a irmã das crianças judias mortas de Izieu…
Noite após noite, continuei a interrogar-me – o que significa tudo isto? Qual é o sentido desta indústria assassina? Funcionava perfeitamente. Os assassinos matavam, as vítimas morriam, os fogos ardiam e um povo inteiro ansioso por eternidade transformava-se em cinzas, aniquilado por uma nação que, até então, era considerada a mais instruída, a mais culta do mundo. Diplomados pelas melhores universidades, amantes de música e pintura, médicos, advogados e filósofos participaram na Solução Final e tornaram-se cúmplices da morte. Académicos e engenheiros inventaram métodos mais eficientes para exterminar massas em tempo recorde… Como foi isto possível?
Não sei a resposta. Na sua extensão, no seu aspecto ontológico e nas suas ambições escatológicas, esta tragédia desafia e excede todas as respostas. Se alguém reclamar ter uma resposta, essa só pode ser falsa. Tanto luto, tanta agonia, tantas mortes de um lado e uma simples resposta do outro? Não se pode perceber Auschwitz nem com Deus nem sem Deus. Não se pode perceber nos termos dos homens ou dos céus. Porque havia tanto ódio para com crianças e velhos judeus? Para quê esta crueldade contra um povo cuja memória de sofrimento é a mais antiga do mundo?
(…) Sim, um mundo maldito onde se falava outra linguagem, onde uma nova religião era proclamada: uma religião de crueldade, dominada pela desumanidade; uma sociedade que evoluíra do outro lado da sociedade, do outro lado da vida, do outro lado da morte talvez; um mundo onde um pequeno pedaço de pão valia todos os ideais, onde um adolescente uniformizado tinha poder absoluto sobre milhares de prisioneiros, onde seres humanos pareciam pertencer a outra espécie, tremendo perante a morte, que tinha todos os atributos de Deus…
Como judeu, é impossível para mim não sublinhar o sofrimento do meu povo durante o seu tormento. Peço que não vejam nisto qualquer tentativa de negar ou minimizar o sofrimento das populações dos países ocupados ou a tortura sofrida pelos nossos camaradas, os nossos amigos cristãos ou ateus a quem o inimigo comum puniu com uma brutalidade imperdoável. Como se fossem nossos irmãos? Eles são nossos irmãos.
É impossível para mim, como judeu, deixar de sublinhar que, pela primeira vez, um povo inteiro – do maior ao mais pequeno, do mais rico ao mais pobre – foi condenado à aniquilação. Para o extirpar, para o extrair da história, para o matar na memória matando toda a memória dele: era este o plano do inimigo.
Marcado, isolado, humilhado, espancado, esfomeado, torturado, o judeu foi entregue ao carrasco, não por ter defendido uma qualquer opinião, não por possuir riquezas e tesouros, não por ter adoptado um certo comportamento proibido. O judeu foi condenado à morte simplesmente porque nasceu judeu, porque carregava com ele a memória judaica.
Declarado ser menos que um homem, e por isso sem merecer compaixão ou pena, o judeu nascera apenas para morrer – tal como o assassino nascera apenas para matar. Consequentemente, o assassino não tinha qualquer sentimento de culpa. Um investigador americano colocou a questão nestes termos: o assassino não perdera o sentido de moralidade, mas sim o sentido de realidade.
(…) Auschwitz e Treblinka, Maidanek e Ponar, Belzec e Mathausen, e tantos, tantos outros nomes: o apocalipse estava por todo o lado. Por todo o lado, procissões mudas caminhavam para valas cheias de cadáveres. Poucas lágrimas, muito poucos choravam. Pela sua aparência, resignadas, as vítimas pareciam deixar este mundo sem remorsos. Era como se estes homens e mulheres optassem por não viver numa sociedade desfigurada, desnaturada pelo ódio e pela violência.
Depois da guerra, o sobrevivente tentou contar aquilo, prestar testemunho… mas quem conseguia encontrar palavras para descrever o indiscritível?
O silêncio contemplativo dos velhos que sabiam, das crianças que tinham medo de saber… o horror das mães que enlouqueciam, a aterradora lucidez de gente louca num mundo de delírio… o canto grave do rabino recitando o Kaddish, o murmúrio dos seus seguidores caminhando atrás dele para o fim, para os céus… a criança que despia o irmão pequeno… dizendo-lhe para não ter medo da morte… talvez lhe dissesse para não ter medo dos mortos…
E na cidade, na grande cidade de Kiev, a mãe e os seus dois filhos frente a soldados alemães que riem… tiram-lhe uma das crianças a matam-na à vista da mãe… depois matam a segunda… ela quer morrer; os assassinos deixam-na viva, mas habitada pela morte… depois ela pega nos dois pequenos corpos, abraça-os e chora… como se pode descrever esta mãe? Como pode alguém descrever o seu sofrimento? Nesta tragédia há algo que dói para além da dor – e eu não sei o que é.
Sei que temos que falar. Não sei como. Por este crime ser absoluto, toda a linguagem é imperfeita. É por isso que há no sobrevivente um sentimento de impotência. Era mais fácil para ele imaginar-se livre em Auschwitz do que é imaginar-se em Auschwitz sendo livre. É esse o problema: quem não passou por este acontecimento nunca será capaz de o perceber. Mesmo assim, o sobrevivente tem consciência do seu dever de prestar testemunho. De contar o que viveu. De protestar cada vez que qualquer “revisionista” moralmente perverso ouse negar a morte dos que morreram. E a verdade da memória transmitida pelos sobreviventes.
(…) Pode morrer-se mais do que uma vez? Sim, pode-se. O sobrevivente morre cada vez que se junta, nos seus pensamentos, à procissão nocturna que na realidade nunca deixou. Como pode ele distanciar-se sem os trair? Durante muito tempo ele falou com eles, tal como eu falo com a minha mãe e a minha irmã: vejo-as afastar-se sob o céu em chamas… peço-lhes que me perdoem por não as ter seguido…
É pelos mortos, mas também pelos sobreviventes e pelas crianças deles – e pelas vossas – que este julgamento é importante: ele pesará no futuro. Em nome da Justiça? Em nome da memória. Justiça sem memória é uma justiça incompleta, falsa e injusta. Esquecer seria a injustiça absoluta da mesma forma que Auschwitz foi o crime absoluto. Esquecer seria o triunfo final do inimigo.
Na verdade, o inimigo mata duas vezes – da segunda vez tenta obliterar os vestígios dos seus crimes. Foi por isso que ele empurrou o seu plano atroz e aterrador aos limites da linguagem, e para além dela: “mesmo que sobrevivas, mesmo que contes, ninguém acreditará em ti”, disse um oficial das SS a um jovem judeu algures na Galicia.
Este julgamento contradisse já esse assassino. As testemunhas falaram; as suas verdades entraram na consciência da humanidade. Graças a eles, as crianças judias de Izieu jamais serão esquecidas.
Como guardiões das sepulturas invisíveis, sepulturas de cinzas encrostadas num céu eterno de nevoeiro e chamas, temos de lhes permanecer fiéis. Temos de tentar. Recusar falar, quando se esperam palavras, seria admitir o triunfo último do desespero.
(…) Graças a este julgamento, os sobreviventes têm uma justificação para a sua sobrevivência. O seu testemunho conta, as suas memórias fazem parte da memória colectiva. Claro, nada pode trazer os mortos de volta. Mas por causa deste encontro, por causa das suas palavras, o acusado não será capaz de matar de novo os mortos. Tivesse ele sucesso a culpa não seria dele, mas nossa.
Tendo lugar sob o signo da justiça, este julgamento tem também de honrar a memória.

Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz, sobrevivente dos campos de extermínio de Auschwitz e Buchenwald. Testemunho prestado no Julgamento de Klaus Barbie, em Lyon, a 2 de Junho de 1987. Retirado e traduzido do livro From the Kingdom of Memory, Summit Books, New York, 1990.

Johann Philipp Reis

O judeu “português” que inventou o Telefone


Johann Philipp Reis (1834-1874), inventor alemão descendente de judeus portugueses.

Johann Reis nasceu a 7 de Janeiro de 1834 na pequena cidade de Gelnhausen, próximo de Frankfurt, na Alemanha. O seu pai, Segismundo Reis, um padeiro de parcos recursos, era filho de judeus sefarditas portugueses oriundos da Beira Baixa que emigraram para a Alemanha nos finais do século XVIII, juntando-se inicialmente à florescente comunidade de judeus portugueses estabelecidos em Hamburgo.
Órfão de mãe aos 11 meses, Johann Philipp Reis perdeu também o pai quando tinha apenas 10 anos, sendo criado pela avó materna, uma Judia portuguesa extremamente culta e bastante religiosa. Estudante talentoso desde tenra idade, Johann Reis passava horas na biblioteca do colégio, o Instituto Hanssell, lendo tudo o que apanhava sobre as suas disciplinas favoritas: geografia, matemática, física e línguas. Um dos seus tios queria fazer dele um comerciante, profissão tradicional na família, mas Johann tinha outras aspirações. Aos poucos, pagou do seu bolso aulas privadas de matemática e física e em 1858, um ano antes de casar, aceita a posição de professor de matemática e ciências no Instituto Garnier, em Friedrichsdorf, nos arredores de Frankfurt.
O caminho que o levaria à invenção do telefone teve início acidentalmente, quando Johann Reis investigava a possível construção de uma “orelha artificial” (künstliches ohr) para aliviar a surdez – uma doença que afectava a sua avô beirã, já em idade avançada. Reis começou a trabalhar na “orelha artificial” com apenas 18 anos, em 1852. No laboratório improvisado num barracão nas traseiras da sua casa, Johann Reis construiu o seu primeiro aparelho com componentes inesperados que encontrou quase ao acaso: um violino, uma agulha de malha, uma rolha de cortiça, fio de cobre e uma salsicha. Uma pele de salsicha esticada sobre uma rolha de cortiça oca servia de microfone, unido com cera ao fio de cobre que por sua vez era ligado a uma corda do violino, que funcionada como receptor e caixa acústica. Os resultados não foram muito animadores, mas Reis não desistiu.
Dois anos mais tarde, em 1854, Johann Reis lê um interessante artigo do telegrafista francês Charles Bourseul, publicado na revista L’Illustration de Paris, no qual ele descreve a possibilidade de transmitir sons através de uma corrente eléctrica intermitente. O artigo de Bourseul concedia uma base teórica às experiências de Johann Reis, permitindo-lhe avançar com o seu projecto, ao qual deu o nome de “telefone”, cunhando pela primeira vez o termo que viria a fazer parte do vocabulário de todo o planeta nos séculos que se seguiram.


Esquema do “telefone de Reis”, 1861.

Em 1860, quase dez anos após as suas primeiras experiências, as tentativas de Johann Reis davam frutos significativos, 16 anos antes do escocês Alexander Graham Bell reclamar a sua patente. A primeira frase transmitida pelo telefone de Reis foi “das pferd frisst keinen gurkensalat” (literalmente “o cavalo não come salada de pepino”). A demonstração pública do novo invento foi efectuada perante a Sociedade de Físicos de Frankfurt (Der Physikalische Verein) a 26 de Outubro de 1861. Na altura com apenas 27 anos de idade, Johann Philipp Reis proferiu uma palestra intitulada “Das Telefonieren Durch Galvanischen Strom” (“Telefonia Utilizando Corrente Galvânica”) e transmitiu os versos de uma canção através de um cabo de 100 metros, naquela que seria a primeira exibição pública que provava com sucesso a possibilidade teórica da conversão de variações de corrente eléctrica em ondas sonoras.
Apesar de algum sucesso relativo, o telefone de Reis estava longe de ser perfeito. Construído para converter quebras de corrente eléctrica em som, o aparelho conseguia transmitir música mas tinha dificuldades em reproduzir a voz humana. Por causa disso, a invenção ficaria conhecida na época como “telefone musical”. A palestra de Frankfurt granjeou a Johann Reis alguma fama temporária, fazendo com que modelos do seu invento fossem levados para a Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos e Rússia.
Mesmo assim, a Sociedade de Físicos de Frankfurt voltaria costas ao telefone, com parte da comunidade cientifica alemã a classifica-lo como um mero “brinquedo filosófico”. Confrontado com o antisemitismo de alguns dos membros, Reis abandona a Sociedade de Físicos de Frankfurt em 1867.
Johann Phillipp Reis, o inventor descendente de judeus portugueses, morreu vítima de tuberculose às cinco da tarde do dia 24 de Janeiro de 1874, com apenas 40 anos, sem conhecer o verdadeiro sucesso do seu trabalho mas acreditando nele até ao fim. Pouco antes de morrer, Johann Reis escreveu: “Olhando para a minha vida posso dizer, como na Torá, que tem sido ‘trabalho e sofrimento’. Mas tenho também de agradecer a Deus que me deu a Sua benção na minha carreira e na minha família, e me concedeu mais do que eu alguma vez saberia como pedir-lhe. Hashem ajudou-me até aqui; Ele irá ajudar-me daqui para a frente.”
A 22 de Março de 1876, um editorial do New York Times intitulado “The Telephone” elogiava e enaltecia Johann Phillipp Reis como inventor do novo engenho. O editorial não fazia qualquer menção a Alexander Graham Bell, que poucos meses depois receberia uma patente americana registando “melhoramentos” no telefone. Em 1878, um grupo de físicos da sociedade de Frankfurt mandou erigir um monumento a Phillipp Reis, classificando-o como “o inventor do telefone”. A paternidade do invento foi-lhe igualmente atribuída em inúmeros livros e tratados publicados por toda a Europa. Já no século XX, pelo facto de Johann Reis ser judeu, o regime nazi haveria de expurgar o seu nome dos manuais escolares alemães. Reis seria reabilitado após a Segunda Guerra Mundial, homenageado em 1952 pelo governo alemão numa colecção de selos comemorativa dos 75 anos do serviço telefónico no país – um novo selo, este com uma gravura da sua invenção, seria emitido em 1989 na RDA.
Em 1986 as cidades de Friedrichsdorf e Gelnhausen, em conjunto com a Deutschen Telekom, instituíram o Johann Philipp Reis Preis, uma bolsa anual de 10 mil euros destinada a premiar jovens cientistas que se distingam no campo das telecomunicações.


Selos de homenagem a Johann Philipp Reis emitidos em 1952 e 1989 na RFA e RDA.

::A LER:: BBC – Alemão pode ter inventado telefone antes de Bell / Who Invented the Telephone? / Philipp Reis, a most eminent Telephone Pioneer / Philipp Reis by Phonebook of the World.com / Istituto e Museo di Storia della Scienza – Reis telephone transmitter / Connected Earth: Reis, Philip (1834-1874) : DIY telephone designer / The Reis Telephone Receiver 1862-1872 / The early history of the telephone. / IMSS – Multimedia Catalogue – Instrument – XIV.138 Reis telephone transmitter / Reis’ telephone – Wikipedia / Invention of the telephone – Wikipedia / Rolf Bernzen “Das Telephon von Philipp Reis” / Philipp-Reis-Schule Friedrichsdorf

Camille Pissarro, um pintor “transmontano”


Pissarro, pai do Impressionismo, descendente de judeus portugueses de Trás-os-Montes.

Até há pouco tempo, quando se discutia a paternidade da pintura moderna, o consenso parecia apontar para um único nome: Paul Cézanne. Nas últimas décadas, no entanto, um número crescente de historiadores de arte começou a questionar este pressuposto, olhando antes para Camille Pissarro, amigo e mestre de Cézanne, como o verdadeiro precursor da revolução que transformaria radicalmente a pintura na última metade do século XIX. Jacob Camille Pissarro, de seu nome completo, era filho de Abraham (Frederic) Gabriel Pissarro, um judeu “marrano” português, transmontano de Bragança, que ainda criança (nos finais do século XVIII) emigrara com os pais para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. Camille nasceu a 10 de Julho de 1830 em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, para onde o pai se mudara anos antes para servir de executor do testamento de um tio.
Camille Pissarro era um personagem fascinante. Amigo e mestre de Degas, Cézanne e Gauguin, Camille Pissarro era visto pelos colegas como um “patriarca” – uma figura generosa, amável e profundamente fiel às suas amizades. “Pissarro foi como um pai para mim: era o homem a quem se pediam conselhos, era como le bon Dieu”, escreveu sobre ele Cézanne. Henri Matisse chamou-lhe “o Moisés da pintura contemporânea, aquele que nos dá a Lei”; Cézanne afirmaria categoricamente: “todos nós descendemos de Pissarro.”
Anarquista convicto, Camille Pissarro não era religioso em termos formais mas, mesmo assim, nunca dissimularia o judaísmo herdado dos seus antepassados portugueses. Pelo contrário, Pissarro orgulhava-se de ser judeu.
Durante o Caso Dreyfus – o paradigma do antisemitismo que dividiu a sociedade francesa dos finais do século XIX – Pissarro, ao mesmo tempo que combatia o ódio irracional contra os judeus, sentiria na pele o antisemitismo de alguns dos seus colegas, mesmo vindo de amigos, como Degas e Renoir. Nessa altura, alguns dos seus colegas mais próximos chegariam mesmo a por em causa a sua relação de amizade, temendo “ficar contaminados” por se associarem a um judeu. “Continuar com o israelita Pissarro é ficar manchado com revolução”, escreveu Renoir, com um antisemitismo tristemente típico da época.
Na última edição da revista Commentary, o crítico de arte Dana Gordon escreve um excelente artigo de cinco páginas intitulado Justice to Pissarro, onde defende que a paternidade da pintura moderna deve ser definitivamente atribuída, não a Cézanne, mas a Camille Pissarro, o pintor descendente de judeus sefarditas de Bragança.


Camille Pissarro, L’Ermitage à Pontoise, 1867.


Camille Pissarro, Vue de ma fenêtre, Eragny sur Epte, 1886-88.

[Organizada pelo Museum of Modern Art (MOMA), de Nova Iorque, a exposição Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro pode ser visitada no LACMA, em Los Angeles, até 16 de Janeiro de 2006 e depois, entre 27 de Fevereiro e 28 de Maio no Musée d’Orsay, em Paris.]

::A VER:: Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro / Camille Pissarro The first Impressionist / L’Impressionnisme – Biographie de Camille PISSARRO / WebMuseum: Camille Pissarro / Camille Pissarro Online / Camille Pissarro – Olga’s Gallery / Camille Pissarro ~ The Artist / Camille Pissarro, 1830-1903 – a Political Biography of an Anarchist / Commentary – Justice to Pissarro / CNN.com – arts & style – Pissarro’s art reflects St. Thomas roots – July 17, 2000 / Frederic Bonin Pissarro (pintor, bisneto de Camille Pissarro).