David Grossman

Retratos VI – Judeus na Primeira Pessoa



Para mim, ser judeu é ser um estranho.
Um estranho em relação a situações humanas em que se forma um colectivo de qualquer espécie, composto por muitos que falam (ou urram) com uma voz única; um estranho com uma leve suspeita sobre o que torna aquele colectivo possível; com a solidão que toma conta do indivíduo na presença de um colectivo daqueles, mesmo que ele não queira – ou seja incapaz – de fazer parte dele; com o sentido de singularidade que acompanha aquela solidão; com aquela marca (não inteiramente compreensível) de orgulho que acompanha estes sentimentos, afligido incessantemente pelo facto dessa singularidade colocar uma barreira invisível, mas real, entre ele e os outros; com o constante cepticismo que repousa dentro desses sentimentos, porque frequentemente parece que estes sentimentos não são mais do que uma crosta formada sobre a ferida da solidão, da trágica distinção dos Judeus – e quem sabe se foi imposta desde o início aos judeus pelos outros ou se os judeus a escolheram e refinaram – transformou “O Judeu” num símbolo quase universal do estrangeiro absoluto; com a dor do facto desta atitude ter transformado o Judeu e a sua História, aos olhos da humanidade, numa história maior do que a própria vida, e logo em algo que não é parte da própria vida, algo despegado do curso da natureza e da História experimentado por outras nações.
A isto tenho de juntar o profundo e instintivo sentimento de identificação familiar que sinto em relação aos judeus de todas as gerações. Partilho os seus destinos, as suas formas de pensar, a sua cultura, a sua linguagem e o seu humor. Mas talvez, aquilo com que realmente me identifico, mais do que qualquer outra coisa, é precisamente com esse sentido de solidão, ferida e perseguição, esse sentimento de ser estrangeiro neste mundo, sempre angustiado pela delicadeza da existência.
Mas sempre que sinto isto ao identificar-me desta forma como judeu, passo a fazer parte deste colectivo particular, o colectivo judaico, dou um passo atrás, e tenho sérias (e muito judaicas) dúvidas acerca de lhe pertencer.

David Grossman, jornalista e escritor israelita. Retirado do livro “I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl”, 2004.

::A LER:: David Grossman (bio-biblio) / Books & Writers – David Grossman (bio) / PBS – NOW. Bill Moyers Interviews David Grossman / Público Online “Israel é um milagre e estamos a desperdiçá-lo” / Fora do Mundo: O ÚNICO SÍTIO DA TERRA, Pedro Mexia / Guardian Where death is a way of life, David Grossman / Israel Culture & Arts.

::A OUVIR:: TSF: Pessoal… e Transmissível – David Grossman , uma excelente entrevista conduzida por Carlos Vaz Marques / NPR – David Grossman on Israel in Crisis (formato RealAudio)

Cabala – as Morfologias de um Velho Ódio

“Os seres humanos esparramam ao vento, premeditada ou inadvertidamente, abundantes palavras em incontáveis combinações, porém são muito poucos os que sabem que aspectos tinham essas palavras em seus dias de grandeza. Algumas chegaram ao mundo depois de uma grande e difícil viagem através das gerações; outras brilharam como relâmpagos e iluminaram repentina e momentaneamente o mundo inteiro, algumas passaram várias transmutações, deixando atrás de si sua estrela e aroma, outras mais serviram de vasilhas para complexos mecanismos de pensamentos profundos e sentimentos exaltados em maravilhosas permutas.”

In “Lo Revelado y lo Encubierto en la Lenguaje”, Haim Nahman Bialik (1873 – 1934), poeta israelita de origem russa.

Confesso que já há algum tempo que estava para escrever este post. Talvez mesmo desde o princípio deste blog. Depois de muito adiar (já lá vai quase um ano que comecei aqui a escrever), não consegui resistir ao desafio lançado por José Teixeira, no seu Ma-Schamba. Sou obrigado a admitir que sempre me perturbou a utilização que na política portuguesa – e no jornalismo, já agora – se faz da palavra cabala. Se à primeira vista este abuso do termo revela, por si só, algumas das piores características da “alma colectiva” portuguesa – entre elas a aparente incapacidade de assumir responsabilidades e a eterna maquinação de conspirações –, uma análise mais aprofundada escava algo bem mais triste.
A palavra cabala é um dos vocábulos da língua portuguesa onde a linguística e a filologia se intersectam com o fanatismo histórico e a intolerância. E com o antisemitismo institucional que durante séculos vigorou em Portugal graças à Inquisição.
Bem distanciada da definição que lhe é dada pelo português corrente, na sua raiz cabala é uma palavra hebraica (קבלה – pronunciada cabalá), habitualmente transliterada também como kabbalah, que significa literalmente “tradição recebida” e, na prática, traduz o conceito místico no judaísmo.

É impossível traçar as origens da cabala com precisão histórica – “monstros sagrados” das religiões comparadas, como Mircea Eliade e Gershom Scholem nunca chegaram a acordo –, mas o seu primeiro marco definitivo é o Livro da Formação (ספר יצירה), uma composição mística com pouco mais de 32 páginas atribuída pela tradição judaica ao patriarca Abraão e alegadamente redigida há mais de 3700 anos. Há cerca de dois mil anos, ainda durante o período mishnaico do judaísmo, o rabino Shimon bar Yohai viria a compor o Livro do Esplendor (ספר הזהר), um tratado de 20 volumes de interpretação da Torá (תורה), escrito em aramaico, que acabaria por se assumir como a obra central da cabala.
Peço desculpa a José Teixeira por transgredir por completo as suas exigências de um post “resumido e fácil”, mas definir a cabala em poucas linhas é uma tarefa absolutamente impossível. Como escreveu Gershom Scholem: “A Cabala não é um sistema único com princípios básicos que possam ser explicados de uma forma simples e directa, mas é antes composta por uma multiplicidade de metodologias diversas, amplamente separadas umas das outras e por vezes completamente contraditórias.” (On the Kabbalah and Its Symbolism, Keter House, Jerusalém, 1965).
Agora, para perceber a metamorfose da palavra no vocabulário português – de definição de um sistema religioso/espiritual do judaísmo até ao actual sinónimo de conspiração, intriga e trama usado na política e no futebol – é necessário mergulhar no universo histórico do Portugal quinhentista.
A Inquisição Portuguesa é decretada oficialmente pelo papa Clemente VII em 1531, iniciando um regime de terror e obscurantismo que viria a subjugar o país até ser finalmente abolida, em 22 de Abril de 1821 (ver A Inquisição e o Declínio do Império Português – Arquivos da Judiaria). Os judeus portugueses seriam os seus alvos primários, a esmagadora maioria dos quais convertidos à força ao catolicismo no seguimento do decreto de expulsão assinado pelo rei Manuel I a 5 de Dezembro de 1496.
Já de si, mesmo nos círculos judaicos tradicionais, a cabala era algo envolto numa aura de mistério, da qual muitos ouviam falar mas poucos sabiam exactamente o que significava. Até ao início do século XX, a esmagadora maioria dos rabinos defendia que o estudo da cabala podia apenas ser desenvolvido por homens casados, versados no Talmude e na Torá, e só depois de completarem 40 anos de idade. No Portugal quinhentista, onde o judaísmo era praticado em segredo e sob o espectro permanente das fogueiras da Inquisição, o secretisimo era ainda mais exacerbado.
Este período da história portuguesa é marcado por um antisemitismo religioso sem paralelo. Para tentar perceber o que isto poderia significar, Jean-Paul Sartre escreveu em Réflexions sur la Question Juive: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa.”
Vistos como párias sociais, os judeus são alvo de uma campanha de vilificação sem tréguas. Palavras como “judeu”, “judiaria” e “judiar” passam a ser usadas em sentido pejorativo, como insulto ou sinónimo de crueldade – quando os judeus eram, eles sim, as vítimas das prisões, torturas e fogueiras inquisitoriais. O mesmo aconteceu com a palavra cabala. Associada à mística judaica, misteriosa aos olhos dos não-iniciados, cabala passa igualmente a partir daí a ter uma conotação negativa, ela própria associada ao secretismo e à conspiração, num sentido lato e sinistro.
Marca visível de um fanatismo e de uma intolerância históricas inegáveis, a versão deturpada destas palavras entrou na linguagem corrente por via da propaganda inquisitorial. E permaneceu através dos séculos.
Agora, 183 anos depois do fim da Inquisição, a palavra cabala jorra das bocas de ministros e dirigentes desportivos, transformada num tributo inconsciente e póstumo à obra daquela que foi a mais nefasta instituição da história portuguesa. Não é preciso um doutoramento em linguística ou semiótica para compreender a importância do vocabulário na moldagem das mentalidades. Basta ler George Orwell ou Aldous Huxley.

Um Judeu Português no “Faroeste Selvagem”


Salomão Nunes Carvalho, auto-retrato daguerreotipo não datado.

Salomão [Solomon] Nunes Carvalho, um descendente de judeus portugueses nascido na cidade de Charleston, na Carolina do Sul, foi o primeiro fotógrafo a atravessar os Estados Unidos da América e a registar com a sua objectiva as paisagens e as gentes do longínquo e mítico Oeste americano.
Integrado na quinta expedição do coronel John Charles Frémont, destinada a explorar traçados possíveis para o caminho de ferro entre o rio Mississippi e a costa do Pacífico, Nunes Carvalho tirou mais de 300 fotografias (daguerreotipos) da expedição, muitas delas em condições de extrema dificuldade.
O coronel John Charles Frémont tentara recolher registos fotográficos das suas viagens anteriores, chegando mesmo a tentar ele próprio a complexa arte do daguerreotipo, mas sem qualquer tipo de sucesso. É a sua reputação que faz com que Frémont convide Nunes Carvalho para acompanhar a expedição.
Considerado um dos melhores daguerreotipistas americanos da época, Salomão Nunes Carvalho tinha um estúdio na cidade de Baltimore e era reconhecido também como retratista e pintor. Alguns dos seus desenhos chegaram a figurar nas notas de um dólar da Reserva Federal.
Salomão Nunes Carvalho nasceu a 27 de Abril de 1815 no seio de uma família judaica de tradição e ascendência portuguesa. O seu pai, David Nunes Carvalho, fora um dos principais impulsionadores do movimento de reforma litúrgica judaica nos EUA, defendendo a tradução dos livros de orações e a introdução de sermões em Inglês nas sinagogas, chegando a ser um dos fundadores da Reformed Society of Israelites de Charleston, a primeira congregação americana do judaísmo reformado. O tio de Salomão, Emanuel Nunes Carvalho, mais tradicionalista, era hazzan (condutor da liturgia) da comunidade de judeus portugueses de Barbados, emigrando depois para os EUA, onde exerceria as mesmas funções nas sinagogas portuguesas de Charleston e Filadélfia. Em 1815, o ano em que Salomão nasceu, o seu tio publicou o primeiro livro de gramática hebraica escrito por um judeu nas Américas.
Criado no seio de uma família onde o judaísmo fazia parte do quotidiano – das orações às restrições alimentares impostas pelas regras de kashrut –, uma longa e perigosa viagem por montanhas e florestas representou um desafio acrescido para o fotografo da expedição do coronel Frémont.
Em várias ocasiões, a falta de mantimentos obrigou Nunes Carvalho a quebrar as duras regras diatéticas do judaísmo. Nos rigores do Inverno do Colorado, conta Salomão no seu diário de viagem, durante um nevão que durou quase uma semana, os exploradores foram obrigados a comer uma das mulas.
A aventura de Salomão Nunes Carvalho, iniciada a 22 de Agosto de 1853, demorou mais de um ano. De Kansas City a Los Angeles, o fotógrafo descendente de judeus portugueses transpôs as montanhas Rochosas, passou pelo Lago Salgado, pelo Grand Canyon e atravessou os desertos de Mojave e Death Valley.
Os mais de 300 daguerreotipos com que Nunes Carvalho registou a sua expedição perderam-se irremediavelmente no incêndio de um armazém em Nova Iorque, em 1881. Recentemente, o fotografo norte-americano Robert Shlaer decidiu reconstituir o registo fotográfico perdido da aventura de Salomão Nunes Carvalho. Utilizando as mesmas técnicas fotográficas e recorrendo ao diário do fotógrafo novecentista, Shlaer reconstituiu parte da viagem no livro Sights Once Seen: Daguerreotyping Frémont’s Last Expedition Through the Rockies, lançado dos EUA em 2000.
Em Portugal, o país de onde emigraram os seus pais, o nome de Salomão Nunes Carvalho é totalmente desconhecido.


Anúncio de jornal: publicidade ao estúdio fotográfico
de Salomão Nunes Carvalho

Os filhos de Nunes Carvalho, David e Charity.
Auto-retrato “já avançado nos anos”.


Aldeia Cheyenne. Provavelmente o único daguerreotipo
da expedição de Nunes Carvalho que sobreviveu ao incêndio de 1881.
:: A LER :: Incidents of Travel and Adventure, edição on-line do livro de Salomão Nunes Carvalho baseado nos seus diários de viagem / Route of 1853 railroad / Early California Jewish Biographies / Collected Works Bookstore – Jews Among the Indians:: A VER :: Auto-retrato de Salomão Nunes Carvalho (Library of Congress Daguerreotype Collection) / Daguerreotype Portraits and Views, 1839-1862 (Library of Congress Daguerreotype Collection)

Um Doce Ano Novo

Esta noite, vira-se uma página no calendário hebraico. Com o pôr do sol entra-se a 1 de Tishrei, o primeiro dia do ano 5765. Estamos na noite de Ano Novo – Rosh Hashana.
Como escreveu hoje a Ana no seu Crónicas Matinais, o Ano Novo no judaísmo é bastante diferente do que a maioria de nós pode estar habituado. Mais do que uma festa de exteriorização e alegria por nos livrar-nos do “ano velho”, Rosh Hashana marca o início de um período introspectivo de dez dias, em que somos convidados a analisar os nossos actos no ano que passou. Em vez de nos livrar-mos do ano que passa, temos a obrigação de olhar para trás e encarar os nossos erros, enfrentar as nossas falhas. Reconhecer e rectificar. Os 10 dias que agora se iniciam culminarão no Yom Kippur (Dia do Perdão), o dia mais sagrado do calendário judaico.
Símbolo ancestral da transição litúrgica do Ano Novo judaico, o soar do shofar (o instrumento que figura na ilustração deste post. Sobre o instrumento propriamente dito ver também esta página) estilhaça os klipot e prepara-nos para o ano que chega.

Em hebraico, este novo ano escreve-se com as letras tav, shin, samech e hei, o que equivale a 765 (em hebraico os algarismos escrevem-se com as letras do alfabeto, à semelhança da numeração romana). Segundo a gematria – a tradição da numerologia judaica –, 765 é o valor numérico conjugado das palavras:

אהבהahavá (“amor”, que começa com a letra alef)=13
מצווהmitzvá (“mandamento”, que começa com a letra mem)=141
תורהTorá (“instrução”, que começa com a letra tav)=611

As iniciais destas três palavras (alef, mem e tav) formam ainda a palavra אמת emet (“verdade”).
Cabalisticamente, começa hoje então um ano que promete.
A terminar, aqui ficam os votos tradicionais judaicos para este dia, que dedico aos leitores da Rua da Judiaria: Que possam ser inscritos no Livro da Vida e selados para um ano doce e cheio de paz.

! שנה טובה

100 anos

A Comunidade Judaica de Lisboa celebra esta semana o centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança). Menos de um século decorrido sobre o fim da Inquisição, 50 anos depois do retorno dos primeiro judeus ao país, os judeus portugueses começavam a voltar as páginas de um passado feito de perseguições, massacres e tribulações.
Em 1904, a abertura da Sinagoga de Lisboa simbolizava um “regresso formal” dos judeus a Portugal, depois da “expulsão” de 1497 e da consequente conversão forçada ao catolicismo. Antes da agora centenária Shaaré Tikvá, a última sinagoga construída em Portugal fora a Sinagoga de Gouveia, inaugurada a 9 de Setembro de 1496, o dia de Rosh Hashana – o ano novo judaico –, poucos meses antes de D. Manuel promulgar o decreto de expulsão, a 5 de Dezembro do mesmo ano. Descoberta acidentalmente em 1967, uma pedra de granito da velha sinagoga enunciava em hebraico:

A glória desta casa última será maior do que a antiga / disse Adonai [Senhor] dos Exércitos; terminada foi a nossa santa e gloriosa casa neste ano: e os resgatados do Senhor voltarão a Sião com alegria.”

A última palavra hebraica desta inscrição – be-riná (com alegria) – dá-nos a data segundo a fórmula judaica tradicional, através do valor numérico das letras: o ano 5257 do calendário judaico (1496). A pedra de granito da Sinagoga de Gouveia, que em tempos encimara a ombreira da sua porta, fora ao mesmo tempo um epitáfio e uma profecia. Uma profecia que os judeus portugueses cumpririam 408 anos mais tarde, inaugurando em Lisboa a Sinagoga Shaaré Tikvá.

::Ilustração:: Postal mostrando o interior da Sinagoga Shaaré Tikvá (cerca de 1910), impresso e distribuído por Cohen & Cª, da Rua do Arsenal, em Lisboa. A fotografia é da autoria de um judeu português: Joshua Benoliel (1873-1932), conhecido como o “pai” do fotojornalismo em Portugal. Joshua Benoliel será um dos homenageados nas cerimónias oficiais da comemoração do centenário.

Aborto: Uma Perspectiva Judaica

“Por motivos diferentes, muitas mulheres optam por interromper a gravidez, abortando o feto que têm em seu ventre. Há certas ocasiões em que as razões que as levam a esta decisão são de carácter económico, porque o casal, ou a pessoa, considera que não tem os meios necessários para manter a criança que iria nascer, tomando em conta as exigentes necessidades que a nossa sociedade impõe aos seus membros. Outras pessoas optam pelo aborto porque consideram que emocionalmente não podem enfrentar todas as implicações que significa trazer um ser humano a este mundo. Certas sociedades modernas estimulam o controlo da natalidade por considerarem que não podem solucionar os problemas que um aumento de população representa. Um dos métodos de controlo é o aborto.
Toda a mulher deve poder decidir por si própria o que deseja fazer com o seu corpo. O Talmude afirma: “Úbar yérej imó”, que significa que o feto faz parte do corpo da mulher e por isso carece de individualidade própria. Por exemplo, no caso da conversão de uma mulher grávida ao judaísmo, a conversão é igualmente válida para o bebé quando nasce.
O Talmude considera também o facto do feto poder ameaçar a vida da mãe. Em tal eventualidade, interrompemos a gravidez para salvar a vida da mãe. Rambam [rabino Moshe ben Maimon, conhecido como Maimonides (1135-1204)] menciona que o feto pode ser considerado como rodef (perseguidor) nos casos em que ponha em perigo a vida da mãe. Segundo outras apreciações [outros comentadores e talmudistas] se conclui que não se pode qualificar o feto de rodef por este carecer de vontade própria e não ter a faculdade de poder escolher livremente a sua conduta.
Agora, podemos afirmar que o feto é uma criatura à parte e independente da sua mãe? Ou talvez considerar o feto, antes do seu nascimento, como uma espécie de órgão adicional da mãe. O Talmude ensina que se lhe proporciona uma alma ao embrião no momento da concepção. É claro que, segundo o Talmude, o feto possui individualidade e, por isso, é um ser aparte da mãe, e não pode ser considerado como um outro órgão da mesma forma. O Talmude refere-se ao embrião durante os primeiros quarenta dias de gestação como mayá beamá, que quer dizer “simplesmente água’. Podemos deduzir que até este momento não se considera o embrião como um ser humano em todo o sentido. Mas tão pouco se implica que deixemos de apreciar que estamos frente a uma vida humana em potência.
O factor determinante é sem dúvida a saúde e o bem estar da mãe.
Nos casos em que o feto tem deficiências genéticas a nossa tradição desaconselha o aborto porque não existe a certeza da falha que se aprecia não pode ser corrigida no futuro. E que diferença terá para nós o conceito de vida de um ser que tem deficiências com um que não tem?
Teremos sempre em conta os efeitos negativos que um bebé nestas circunstâncias pode trazer para à mãe, se a mãe afirma e decide que não quer dar à luz um filho com sérias deficiências mentais ou físicas e isso será motivo para o seu desespero, aqui se pode pensar na possibilidade de fazer um aborto, pois a nossa responsabilidade primária tem a ver com a saúde e o bem estar do ser humano integro, que neste caso é a mãe.”

In “Reflexões Sobre o Aborto” (1991), Luz – Textos e Depoimentos (Âncora, 2001), uma recolha de escritos de Abraão Assor, rabino da comunidade judaica de Lisboa de 1941 a 1993.

Em termos gerais, tal como escreveu o saudoso rabino Abraão Assor neste texto que transcrevemos, a Halacha (Lei Judaica) não só permite o aborto, como em algumas circunstância exige a interrupção da gravidez. Acima de tudo, norteada pelo princípio da responsabilização individual – um princípio central do judaísmo –, a tradição judaica coloca a decisão na esfera familiar e, por vezes, comunitária.
Historicamente, nos países onde a interrupção voluntária da gravidez se tem assumido como tema político de clivagem – especialmente nos EUA –, as comunidades judaicas têm manifestado uma oposição unânime à restrição do aborto por via legislativa. Os três principais ramos do judaísmo moderno (ortodoxo, conservador e reformado) defendem que a discussão do aborto pertence apenas e exclusivamente às mulheres e famílias afectadas, e não deve ser motivo de regulamentação legislativa ou demagogia política.
Mesmo assim, nos últimos anos, surgiram algumas correntes anti-aborto no seio de movimentos judaicos ultra-ortodoxos, influenciados em grande medida pela forma como o tema tem elevado a importância política de movimentos idênticos na direita cristã. A pressão de alguns partidos religiosos ultra-ortodoxos em Israel, por exemplo, fez com que as dificuldades económicas deixassem de constar da lista de razões legalmente reconhecidas para que uma mulher podesse recorrer ao sistema nacional de saúde para abortar. Ainda assim, em Israel a interrupção voluntária da gravidez continua a ser legal – gratuita ou com custos moderados –, com algumas restrições consideradas “meramente formais” (ver Abortion in Israel: Terms of Termination).

A Tradição Musical dos Judeus Portugueses

Músicas da Judiaria V

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

A edição n° 5 das Músicas da Judiaria é dedicada à tradição musical da liturgia dos judeus portugueses. Apesar de totalmente extinta em Portugal pela perda de continuidade gerada com as perseguições quinhentistas, a liturgia segundo os ritos dos judeus portugueses continuou a ser praticada na Diáspora, especialmente em Amsterdão, Nova Iorque, Londres, Bordéus, Hamburgo e Curaçao (Antilhas Holandesas) – onde existiram (e ainda existem) as mais representativas comunidades de judeus lusitanos emigrados.
Nesta edição dá-se aqui a conhecer a melodia do Salmo 29, cantado pelo rabino Abraham Lopes Cardozo, descendente de judeus portugueses nascido na Holanda, em 1914, bisneto de David Lopes Cardozo (1808-1890), rabino-chefe da comunidade portuguesa de Amsterdão – o último rabino da cidade holandesa a fazer os seus sermões de Shabbat em português.
Um verdadeiro achado de etnomusicologia, a canção desta edição das Músicas da Judiaria é retirada do CD The Western Sephardi Liturgical Tradition, as sung by Abraham Lopes Cardozo, recentemente editado pelo Jewish Music Research Center, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

::Ilustração:: “Vista da Sinagoga dos Judeus Portugueses em Amsterdão”, gravura holandesa do século XVII

Maestro Álvaro Cassuto

O Completar do Círculo

Álvaro Cassuto, um dos mais conceituados maestros portugueses da actualidade, é dos poucos judeus portugueses que se pode gabar de ter completado um ciclo de história familiar iniciado com a saída ancestral da sua família de Portugal, em meados do século XVI.
Movida pelo antisemitismo institucional que vigorava em Portugal – exacerbado pelo decreto de conversão forçada, de 1497, e posteriormente pelas perseguições inquisitoriais –, a família Cassuto seguiu as pisadas de um grande número de outros judeus lusitanos e fixou-se primeiro em Livorno, em Itália, e depois em Amsterdão, que na época contava já com uma florescente comunidade de judeus portugueses. Amsterdão seria durante mais dois séculos o destino natural dos judeus (e “cristãos-novos” convertidos à força) que abandonavam Portugal em busca de uma segurança que a sua terra natal teimava em negar-lhes.
No início do século XIX, a família Cassuto vai viver para Hamburgo, na Alemanha, onde se integra na comunidade de judeus portugueses ali radicada. Aos poucos, os Cassuto começam a aparecer ligados à vida espiritual e cultural dos judeus portugueses de Hamburgo – Jehuda Cassuto assume as funções de hazzan (condutor da liturgia) na sinagoga da comunidade, enquanto o seu filho, Issac (bisavô do maestro Álvaro Cassuto), se dedica a escrever e traduzir tratados sobre a história da diáspora dos judeus portugueses.
A 1 de Abril de 1933, no mesmo dia em que o recém eleito regime germânico nazi decreta o boicote ao comércio detido por judeus, a família Cassuto abandona a Alemanha e, depois de uma breve passagem por Amsterdão, regressa a Portugal, a sua terra ancestral. O maestro Álvaro Cassuto nasce no Porto, em 1939. O seu pai, Alfonso Cassuto (1910–1990), historiógrafo apaixonado e ávido coleccionador de manuscritos antigos, estuda e escreve sobre a herança histórica e cultural dos judeus portugueses.
Álvaro Cassuto estudou direcção de orquestra com os mestres Pedro Freitas Branco, Herbert von Karajan, Franco Ferrara e Obi Kapellmeister. Em 1969 foi o vencedor do galardão Koussevitzky, tido como o mais importante prémio internacional para jovens maestros. Entre 1970 e 1992 dirigiu a Orquestra Sinfónica da RDP, posto o que fundou a Nova Filarmónica Portuguesa, em 1993. Entre 1993 e 1999 dirigiu ainda a Orquestra Sinfónica Portuguesa e actualmente é o maestro titular da Orquestra do Algarve. Álvaro Cassuto viveu ainda 18 anos nos Estados Unidos, onde foi professor de música na Universidade da Califórnia e director musical da Rhode Island Philharmonic e da National Orchestra of New York, antes de regressar definitivamente a Portugal em 1986. Entre outras, o maestro Álvaro Cassuto conduziu a Orquestra Sinfónica de Jerusalém e a Ra’anana Symphonette de Israel.
Durante toda a sua carreira, o maestro Álvaro Cassuto tem sido um dos principais divulgadores da obra do compositor português Joly Braga Santos, seu amigo e colega.


Isaac Cassuto (1848-1923), bisavô do maestro Álvaro Cassuto (foto à esquerda)
Rosy e Jehuda Leon Cassuto, (foto à direita) “regressam” a Portugal em 1933.


Pedra tumular da sepultura de Alfonso Cassuto (1910-1990),
pai do maestro Álvaro Cassuto. Cemitério Judaico de Lisboa.

João Pinto Delgado, Poeta Marrano

Apesar de virtualmente desconhecido e ignorado em Portugal, João Pinto Delgado é considerado o maior poeta marrano* do século XVII – equiparado a Luis de León, Garcilaso de la Vega e outros nomes grandes da Época Dourada. Nascido em Portimão, em 1580 – o ano provável da morte de Luís de Camões –, era o mais velho dos três filhos de Gonçalo Delgado e neto de um poeta menor igualmente chamado João Pinto Delgado – com quem seria muitas vezes confundido. Aos 20 anos deixa o Algarve e muda-se com a família para Lisboa, com o objectivo de estudar e prosseguir as suas ambições literárias. É na capital – entretanto já sob o domínio espanhol da dinastia Filipina – que toma contacto pela primeira vez com as obras de Jorge Manrique, Garcilaso, Herrera, Góngora e Luis de León, que na época circulavam sob a forma de manuscritos. Apesar de existirem alguns poemas seus em português, o grosso da sua obra foi originalmente escrito em espanhol.
Em 1624, João Pinto Delgado parte para Ruão para se juntar aos seus pais, que entretanto tinham escapado à Inquisição portuguesa. É nesta cidade francesa – onde o seu pai é um dos líderes da comunidade marrana ibérica ali radicada – que publica uma colecção de poemas que viria a cimentar a sua reputação literária: Poema de la Reyna Ester. Lamentaciones del Profeta Ieremias. Historia de Rut, y varias Poesias.
Pouco depois da Inquisição espanhola ter enviado um emissário a Ruão para investigar os cripto-judeus em França, a família de João Pinto Delgado parte para Antuérpia e logo a seguir para Amsterdão. Aqui, perante a relativa tolerância religiosa holandesa, passa a praticar o judaísmo de forma aberta e livre pela primeira vez, e João passa a chamar-se Moshe (Moisés) Pinto Delgado. Entre 1636 e 1640 torna-se um dos sete parnasim (governadores) da Yeshiva (seminário religioso) Talmude Torá de Amsterdão, onde na altura estudava o pequeno Baruch (Bento) Spinoza.
Na sua obra poética, João Pinto Delgado busca os seus temas frequentemente na Bíblia Hebraica, uma tendência que partilha com os poetas marranos da época. Tem uma atracção particular por histórias que relatam o poder de Deus para resgatar Israel em tempos de sofrimento, tal como o demonstram as narrativas de Ester e do Êxodo, ambos por ele adaptadas poeticamente.
Em Lamentaciones del Profeta Ieremias, João Pinto Delgado discorre sobre as tragédias da história de Israel, apresentando a visão de que o povo é responsável pelo seu sofrimento por ter falhado aderir por completo à Lei de Moisés. Este é um tema recorrente da literatura marrana, derivado em grande medida de sentimento de culpa em relação à sua própria observância religiosa judaica, disfarçada sob a falsa capa do omnipresente catolicismo.
Na poesia de João Pinto Delgado transparece a sua noção de que a Inquisição seria um instrumento de Deus para trazer os marranos de volta ao judaísmo, acordando neles a firme noção das suas origens. João Pinto Delgado morreu em Amsterdão, a 23 de Dezembro de 1653.

Publica-se hoje aqui na Rua da Judiaria a primeira de três partes de La Salida de Lisboa, um dos raros poemas autobiográficos de João Pinto Delgado, retirado de um manuscrito da colecção Etz Haim, de Amsterdão, publicado pela primeira vez por pelo historiador I.S. Révah no artigo “Autobiographie d’un Marrane” (Revue des Études Juives, 1961).

*Marrano é o termo pelo qual habitualmente se designam os judeus portugueses e espanhóis (e os seus descendentes) forçados a converter-se ao catolicismo para salvar as suas vidas. Durante séculos, o termo foi considerado pejorativo, acreditando-se que derivava da palavra espanhola para porco (marrã em português arcaico). No entanto, actualmente existe uma corrente de linguistas e historiadores que defendem uma outra proveniência para o termo: marrano terá surgido da contracção das palavras hebraicas márr (amargo) e anússe (forçado). Assim, marranos quererá dizer “aqueles forçados à amargura”. Na liturgia da Páscoa Judaica, por exemplo, são utilizadas “ervas amargas” (márrór), para recordar a amargura da escravidão no Egipto. Em hebraico, os marranos são simplesmente designados como anussim – os forçados.
Entre os mais célebres marranos portugueses sobressai, obviamente, o nome de Baruch (Bento) Spinoza (ver Benedict De Spinoza [Internet Encyclopedia of Philosophy]).

La Salida de Lisboa (Parte I)

Aquí está la infame puerta,
la del olivo y la espada,
Para salir tan cerrada,
Y para entrar tan abierta.

Si en ti la paz se destierra,
no eres del ramo capaz,
Porque uno promete paz
y el outro la guerra.

Recoge, o nave, a Sodoma;
sólo a su cómplice embarca,
que, como no eres el Arca,
no hay que esperar la paloma.

Mancha tu cuchillo fiero
y queda pendiente aquí:
quedará la insignia en ti
como blasón verdadero.

Y tú, el más fiero león,
que matas quien no te ofende,
por mano de quien te entiende
tendrás la satisfacción.

Y aunque nace tu alegría
viendo a tantos perecer,
si a muchos lo hiciste ver,
también has de ver tu dia.

Si nuestro pecado obliga
a sufrir tanto rigor,
considera que el Señor,
si disimula, castiga.

Si parece que se olvida
de castigar su enemigo,
es sólo porque el castigo
ha de ser más que en la vida.

Porque el cielo más se indine,
fabricaste tu palacio
donde diste um breve espacio
para que el cuerpo se incline.

La doncella, entre el tormento,
estando en la vida incierta,
medio viva e medio muerta,
responde a tu pensamiento.

Y entre penas y entre engaños,
su temor no perdonó
al padre que la engendró,
cuanto y más a los extraños.

Niegas la vida a quein niega,
y el que confiessa y se olvida,
si ver remedio, su vida
entre las llamas entrega.

No basta ver que sudó
el pobre com lo que vives,
pues lo que ganó recibes
e coges lo que él sembró.

João Pinto Delgado (1580-1653)
(Continua…)

Herança Judaica Portuguesa em Selos

Selo Comemorativo da Herança Judaica Portuguesa

Os CTT – Correios de Portugal acabam de emitir uma série de selos comemorativa da presença judaica em Portugal. “Eduyot Leyahadut be’Portugal” é o título escrito em hebraico nos selos, o que traduzido literalmente dá qualquer coisa como “Testemunhos do Judaísmo em Portugal”. Por detrás da imagem principal conseguem ainda ler-se algumas palavras hebraicas, entre elas “consolação” e “oculta”. Um acaso feliz quando se pretende celebrar uma tradição desprezada e apagada da História oficial portuguesa.
A gravura escolhida para o selo aqui representado [imagem à esquerda], desenhado por José Brandão e Teresa Cabral, é retirada de uma iluminura do livro Mishná Torá [imagem à direita], um dos mais representativos símbolos da tradição cultural e artística dos judeus portugueses. Os dois volumes de Mishná Torá (ou Mishneh Torah, segundo a mais comum transliteração inglesa) de Maimonides, elaborados em Lisboa em 1472, são considerados a maior obra prima da escola de iluminura portuguesa do século XV, desenvolvida, em grande medida, em manuscritos sefarditas decorados com as primeiras influências da Renascença. Esta escola portuguesa de iluminura viria a ter um fim abrupto com a conversão forçada imposta aos judeus portugueses, em 1497.
A Inquisição, apostada em apagar todos os vestígios da cultura judaica portuguesa, destruiria a esmagadora maioria dos livros hebraicos produzidos no país – incluindo o primeiro livro impresso em Portugal, uma edição do Pentateuco em hebraico de D. Samuel Porteiro, um judeu de Faro, datada de 1487, e o Comentário ao Pentateuco, do rabino medieval espanhol Moisés ben Nahman (Nachmanides), o primeiro livro impresso em Lisboa, igualmente em hebraico, editado por Eliezer Toledano. A inquisição queimou também uma edição impressa em 1488 dos 22 volumes do Talmude, por Samuel Porteiro, da qual restam apenas fragmentos.
O manuscrito que serve de inspiração ao selo representado acima faz hoje parte da colecção permanente de Manuscritos Hebraicos da British Library. Uma parte dessa colecção pode ser visitada aqui: The British Library Hebrew Collections.

A VISITAR: CTT Correios / The British Library Hebrew Collections / O Primeiro Livro Impresso em Portugal / Judaic Treasures of the Library of Congress: Lisbon’s First Book.

O mesmo manuscrito iluminado foi utilizado aqui na Rua da Judiaria, em Janeiro, para ilustrar um poema de Solomon Ibn Gabirol. Este post ficaria incompleto sem um imenso agradecimento ao Boss, do Renas e Veados, que me alertou por email para o lançamento dos selos comemorativos.

ADENDA: Esta série de selos dos CTT insere-se nas comemorações oficiais do centenário da Sinagoga Shaaré Tikvá (Porta da Esperança), de Lisboa, que se celebra este ano (ver Centenário da Sinagoga).

Leonard Nimoy

Retratos V – Judeus na Primeira Pessoa


Desde criança que me recordo de uma benção específica praticada regularmente na nossa sinagoga. Os dedos de cada mão eram separados para recriar o shin [ש], a letra hebraica que representa Shad-ai, um dos nomes divinos. Quando criámos a série Star Trek precisávamos desesperadamente de uma saudação única para o meu personagem. Lembrei-me daquele gesto ancestral e propus que o usássemos. O resto, como se costuma dizer, faz parte da história.
Porque me lembrei daquele gesto? Os actores tentam incutir algo de pessoal nos papéis que encarnam. Provavelmente, então, foi a convergência das minhas existências: espiritual e profissional. Provavelmente, posso chamar àquela saudação o meu shalom vulcano, a minha saudação de paz, a minha ânsia pela benção da paz: a busca ancestral do povo judeu, o meu povo.

Leonard Nimoy, actor, escritor e fotógrafo. Testemunho publicado na revista de domingo do New York Times, a 22 de Dezembro de 1996.

O Judaísmo do Dr. Spock
A benção judaica popularizada por Leonard Nimoy (o Dr. Spock) em Star Trek chama-se Birkat ha-Cohanim (Benção Sacerdotal), constituída por três versículos da Torá (Bamidbar [Números] 6:24-26), recitada de forma cadenciada pelos cohanim (descendentes directos de Aarão, irmão de Moisés, habitualmente reconhecíveis pelo sobrenome – Cohen, Kohen, Konn, Kahn, Kane, Coen, Sacerdote, Kaplan, Papp etc.):

O Senhor te abençoe e guarde. O Senhor faça resplandecer a sua presença sobre ti, e tenha misericórdia de ti. O Senhor sobre ti levante a sua providência, e te dê a paz.

יְבָרֶכְךָ יְהוָה, וְיִשְׁמְרֶךָ
יָאֵר יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וִיחֻנֶּךָּ
יִשָּׂא יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וְיָשֵׂם לְךָ שָׁלוֹם

Na Diáspora, a benção é administrada nos dias santos, à excepção do Purim e Hanuká. Em Israel, é recitada diariamente. O gesto sacerdotal, que para além da letra shin (ש) representa cabalisticamente as três colunas sefiróticas da Árvore da Vida, é tradicionalmente inscrito também nas pedras tumulares dos cohanim.

Spock e a benção dos Cohanim Pedra tumular da campa de um cohen

Campa de um Cohen

::A LER::
Leonard Nimoy: Leonard Nimoy Photography / Leonard Nimoy Gallery: Photos / Leonard Nimoy: Internet Movie Database / Spock Sings: The Ballad of Bilbo Baggins (vídeo) / The Leonard Nimoy Album Page / Fascinating – the Leonard Nimoy fanlisting / Leonard Nimoy: His Fabulous Music and Poetry / I Am Spock / Spaced Out – The Very Best of William Shatner & Leonard Nimoy / Shekhina (livro de fotografia)

A genética e os Cohanim: Science News – The Priests’ Chromosomes – DNA Analysis Supports the Biblical Story of the Jewish Priesthood / Tracing the Cohanim / Jewish Genes / Jewish Priests / Revista Morashá – O DNA dos Cohen

Richard Kaplan – A Música dos Judeus do Iraque

Músicas da Judiaria III

 Richard Kaplan


Hallelu Avdey Adonai

Foi hoje actualizada a canção das Músicas da Judiaria, uma rubrica permanente já na sua terceira edição. Esta semana, os leitores da Judiaria podem ouvir Richard Kaplan (na foto), um etnomusicólogo que dedicou a sua carreira a estudar e interpretar a música tradicional dos judeus da Diáspora. A canção escolhida é Hallelu Avdey Adonai (Adorai, Servos do Senhor), uma composição litúrgica tradicional dos judeus iraquianos – uma canção responsorial que segue a ordem crescente do alfabeto hebraico na enumeração dos atributos do Criador: “Bendito dos Benditos”, “Antigo dos Antigos”, “Santo dos Santos”. O refrão é retirado da primeira linha do Salmo 113.

Edições anteriores das Músicas da Judiaria:
I – Shlomo Bar e os Habrera Hativeet (canção: “Yeladim Ze Simcha” / II – Suzy (Herencia (canção: “Mar de Leche”)

Os Judeus do Iraque

Hallelu Avdey Adonai, da edição desta semana das Cantigas da Judiaria, pertence à tradição litúrgica dos judeus do Iraque, uma comunidade milenar, cuja origem remonta à deportação das “Dez Tribos” que habitavam o Reino do Norte de Israel, no século VIII AEC*. A população judaica da Babilónia – terra natal do Patriarca Abraão – sofreu um aumento significativo, após a destruição do Primeiro Templo por Nabucodonosor, com a deportação forçada de centenas de milhar de judeus, em 586 AEC. Mais tarde, a mesma comunidade receberia novos influxos de refugiados, especialmente após a Judeia ter deixado de ser um estado independente, sob o braço de ferro de Vespasiano e Tito, no ano 70, e depois do esmagamento da revolta de Bar-Kochba, no ano 135.
Devido às condições de tolerância relativa em que viviam os judeus na Babilónia, a comunidade prosperou e por alturas da destruição do Segundo Templo era já composta por cerca de um milhão de pessoas.
Culturalmente, os judeus da Babilónia rapidamente ultrapassaram os seus congéneres que permaneceram na terra natal da Judeia. O Talmude da Babilónia (distinguindo-se do Talmude de Jerusalém) foi composto no seio desta comunidade e continuamente ensinado em academias judaicas em Sura, Pumbeditha e Nehardea. Os judeus da Babilónia dominaram cultural e religiosamente o mundo judaico até ao século XI, altura em que a comunidade começou a entrar em declínio, eclipsada agora pelos judeus da península Ibérica.
A partir do século XVIII, os judeus de Bagdade, e de toda a Mesopotâmia, começaram a ser vítimas de uma repressão crescente por parte dos líderes islâmicos. No início do século XIX, muitos judeus iraquianos emigraram para a Índia, para a China e para a Europa Ocidental.
Após a criação do estado de Israel, os judeus iraquianos sofreram novas perseguições e pogroms, uma situação que deu origem, em 1951, a uma gigantesca “ponte aérea” de emigração para Israel (ver Operations Ezra & Nechemia: The Aliyah of Iraqi Jews). De um total de mais de 150 mil em 1948, actualmente residem ainda no Iraque apenas 34 judeus.

* Antes da Era Comum, designação “religiosamente neutra” adoptada pelos historiadores em detrimento de “Antes de Cristo”

 Escrituras sagradas judaicas em Bagdade após a invasão
Escrituras sagradas judaicas recuperadas em Bagdade, em finais de 2003, após os motins e pilhagens que marcaram as semanas seguintes à queda do regime de Saddam Hussein.

A LER: The Scribe – Journal of Babylonian Jewry / Iraqi Jews fight for Independence in the Arab Revolt of 1916-18 / The Search for a Talmud in Baghdad / The Few Remaining Jews in Baghdad / Baghdadi Jews in Shanghai / Reason: Babylonian Hostility: In Iraq, the Jews – and anti-Semitism – are everywhere / From the Kitchen of Babylonian Jews.

A Matemática Sagrada do Judaísmo

“Pobre daquele que olha para a Torá e apenas lhe vê histórias.”
Rabino Shimon Bar Yochai (século I)

KabbalahDesde os tempos mais remotos que os místicos judaicos buscaram nos textos sagrados interpretações para além do simples literalismo. Para os sábios ancestrais do judaísmo, as escrituras encerram códigos imperceptíveis aos que as lêem de forma literal. Uma das mais fascinantes disciplinas do judaísmo, feita de uma confluência notável de conceitos pitagóricos e espiritualidade mística, faz a leitura dos códigos embutidos nas escrituras recorrendo às matemáticas.
No hebraico a cada letra corresponde um valor numérico (ver Gematria Hebrew Letter Chart) – um pouco à semelhança do que acontece, por via latina, com a numeração romana. O estudo da correlação entre as letras do alfabeto hebraico, a numerologia e a leitura de significados não literais nas escrituras assenta nas raízes tradicionais do misticismo judaico – a Cabalá (ou Kabbalah), uma palavra hebraica que literalmente significa “tradição recebida”.
Considerado o mais antigo, e enigmático, tratado cabalístico, Sefer Yetzira, O Livro da Criação, atribuído ao patriarca Abraão, nas suas 32 páginas é demonstrativo da importância intrínseca do alfabeto hebraico e da gematria na construção da tradição mística judaica.
Assim, para o judaísmo, um dos grandes problemas decorrentes de qualquer tradução da Torá (conhecida pelos cristãos como Antigo Testamento) é a perda do significado místico contido na escrita hebraica. Ficam as “histórias”, mas desaparecem os códigos que elas “escondem”.
Recentemente, os códigos cabalísticos da Torá encontraram uma nova audiência mundial depois de Michael Drosnin, jornalista do Wall Street Jounal e do New York Times, ter escrito, em finais de 1997, o bestseller The Bible Code (Os Códigos da Bíblia), baseado integralmente no trabalho do matemático israelita Elyahu Rips.
Aqui na Judiaria já se escreveu também sobre numerologia judaica, a propósito da alegada conotação aziaga do número 13 (ver 13: Azar ou Sorte?).
Depois do desejo manifestado por um número significativo de leitores no sentido de poder ler mais sobre guimátria (ou gematria, segundo a transliteração anglofona, habitualmente mais utilizada) e numerologia hebraica, convidei o professor David Zumerkorn – um conceituado matemático brasileiro e estudioso do misticismo judaico – a escrever um pequeno ensaio em exclusivo para a Rua da Judiaria.
O resultado é um texto fascinante intitulado “MatemaTORAH – Os Códigos da Torah e a Numerologia Judaica .
David Zumerkorn é doutorado em Engenharia Mecânica e professor de Matemáticas Aplicadas e Cálculo Integral e Diferencial da Universidade de São Paulo. Judeu brasileiro (Baal Teshuvah) oriundo de uma família religiosa tradicional, é hoje um dos mais conceituados conferencistas mundiais de Numerologia Judaica, com trabalhos publicados tanto na Imprensa generalista como em publicações académicas. David Zumerkorn é também um estudioso ávido do misticismo judaico, disciplina que investiga seguindo o processo tradicional de acompanhamento rabínico, aplicando aqui às ricas tradições judaicas os seus profundos conhecimentos matemáticos. Na prática, pode dizer-se com toda a propriedade que David Zumerkorn é um “cientista da Torá”.
De forma a manter a integridade gráfica do original (tanto no hebraico transcrito como nas tabelas apresentadas), o texto do professor Zumerkorn é apresentado aqui na Rua da Judiaria em formato Adobe PDF .
David Zumerkorn é ainda o autor do livro Numerologia Judaica e os Mistérios da Bíblia, recentemente lançado em Portugal e no Brasil – a primeira obra sobre gematria originalmente escrita em português em mais de 500 anos.
Um livro a não perder, que pode ser encontrado aqui:
Numerologia Judaica e os Mistérios da Bíblia (Edição Portuguesa) / Numerologia Judaica e seus Mistérios (Edição Brasileira, disponível também aqui, via Fnac Brasil)

A Diáspora – Judeus Portugueses na Noruega


No site oficial da comunidade judaica de Oslo (Det Mosaiske Trossamfund i Oslo) conta-se a curiosa história da presença dos judeus na Noruega. Num país onde desde o ano 1000 o rei Olav den Hellige (conhecido como São Olavo) proibira a residência a todos os que não professassem a religião cristã, os primeiros não-cristãos a instalarem-se no país, por volta do século XVI, foram judeus portugueses (portugiserjøder). Os judeus portugueses, alguns deles emigrados já na Holanda, foram autorizados a entrar e a estabelecer-se no reino da Noruega pelo rei Christian IV, um beneplácito que continuou a ser negado durante algumas décadas às restantes comunidades judaicas europeias.
Os judeus portugueses fixaram-se inicialmente no ducado de Schleswig-Holstein, hoje parte da Alemanha. Ao contrário do que acontecia na maioria dos países europeus, os portugueses encontraram na Noruega alguma liberdade – não foram forçados a viver em guetos ou judiarias e nem a usar roupas ou dísticos que os destinguissem como judeus aos olhos da restante população. Em 1641 o rei alargaria a sua protecção também aos judeus da Europa Central e de Leste.
Lê-se ainda no site Det Mosaiske Trossamfund i Oslo: “O sucessor de Christian IV, o rei Fredrik III, não foi tão liberal quanto o seu predecessor e durante o seu reinado os judeus viveram sob grandes restrições. Não lhes era permitido viver no reino sem um visto especial. Em 1687, quando a Noruega e a Dinamarca foram unificadas sob legislação do rei Christian V, foi reinstituída a proibição dos judeus entrarem no reino. Havia uma pesada multa para quem violasse a lei e uma recompensa para os que denunciassem judeus. Cerca de 150 anos mais tarde, em 1830, a atitude oficial face aos judeus tornou-se mais branda e em 1844 o Ministério da Justiça decidiu que os “judeus portugueses (portugiserjøder)” poderiam entrar livremente no país.”