As “razões” do terrorismo


Foto de Ahmad Khateib, em Gaza, para o New York Times

Aparentemente, os rockets Qassam usados pelos terroristas do Hamas têm um prazo de validade de seis meses a partir do momento que são fabricados. Para não os “desperdiçar”, o Hamas resolveu agora lançá-los para matar civis israelitas

Um jornalista palestiniano perguntou ontem a um militante armado do Hamas porque razão tinha o grupo subitamente começado a lançar novamente rockets Qassam após dois meses de calma. A resposta dele: “Sabe quantos Qassam temos? O que é que vamos fazer com eles no mês que vem, depois dos israelitas retirarem?”
Diz-se que seis meses após serem manufacturados, os Qassam explodem por si próprios. Se isso é verdade, pode estar explicada a urgência que o Hamas subitamente sentiu em livrar-se deles.

O resto está aqui.

Última hora…

Das agências noticiosas (12/07/2005): “Um atentado suicida frente a um centro comercial da cidade costeira israelita de Netanya matou pelo menos duas pessoas e feriu mais de 40. O grupo terrorista Jihad Islâmica reivindicou o ataque.”

Será que hoje “somos todos israelitas”?


Esquerda: Londres, Reino Unido, 2005. Direita: Haifa, Israel, 2003.

Características comuns em estados pós-genocídio

Jonathan Edelstein escreveu um post absolutamente indispensável: On the commonalities of post-genocidal states: a rough sketch, um ensaio onde se estabelecem termos de comparação entre as experiências de Israel, da Arménia e do Ruanda, três estados que vivem com a pesada herança deixada pelo genocídio. No texto, Jonathan Edelstein (que explica as razões para a não inclusão de Timor-Leste neste grupo) desenvolve cinco noções básicas comuns – um forte sentido de pátria e refúgio; uma ética de autodefesa; ligação a um protector; problemas com os países vizinhos; e uma extrema reticência em confiar nas intenções de terceiros.
Escrito com extrema lucidez. Para ler com atenção.

Borges: A Israel no dia do seu aniversário

Jorge Luis Borges

Israel

Um homem encarcerado e enfeitiçado
um homem condenado a ser serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylok,
um homem que se inclina sobre a terra
e sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de destruir
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Spinoza e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
um homem que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um advogado ou um dentista
que dialogou com Deus na montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que se obstina em ser imortal
e que agora voltou à sua batalha,
à violenta luz da vitória,
formoso como um leão ao meio-dia.

Jorge Luis Borges, Elogio de la sombra (1969)

57 anos da Independência de Israel*

יום העצמאות

::A LER:: The Avalon Project Yale Law School : Declaration of Israel’s Independence 1948 / Declaração de Independência de Israel (resumo em Português) / The Signatories of the Declaration of the Establishment of the State of Israel (breve história do período da independência com notas biográficas dos signatários da declaração) / Jerusalem Post – 57 Years of Independence – Supplement / Haaretz – Independence Day in focus (Supplement) / História de Israel – Destaques / Facts About Israel- History / HISTORY- Biblical Times / HISTORY- The Second Temple / HISTORY- Foreign Domination / HISTORY- The State of Israel / Theodor Herzl, The Jewish State (1896) / The Declaration of the Establishment of the State of Israel – Fascimile

::A VER & OUVIR:: David Ben Gurion lê a Declaração de Independência (áudio, Windows Media) / Israel – 57 anos em 3 minutos (vídeo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel)

*Segundo a data do calendário hebraico: 5 de Iyar de 5708 (14 de Maio de 1948)

מכבי ת”א אלופת אירופה

O Macabi de Tel Aviv é campeão europeu (é o que diz em hebraico o título deste post ) de basquetebol, depois de ter vencido hoje na final, em Moscovo, os espanhóis do TAU Cerámica por um conclusivo 90-78. Este é o segundo título consecutivo alcançado pelo Macabi e a quarta vez que vence a Euroliga de basquetebol desde 1978.

::A LER:: AP – Maccabi Tel Aviv Wins Euroleague Title / El Mundo – Jasikevicius destroza los sueños del Tau / Jerusalem Post Maccabi TA wins back-to-back European Championship titles / Haaretz – Mac TA beats Tau for 2nd Euroleague title in 2 years / Ynetnews – Maccabi Tel Aviv wins Euroleague.

Quando a publicidade fala mais fundo

A publicidade televisiva é talvez a melhor das ferramentas modernas da antropologia cultural. Quem viaja pelo estrangeiro sabe o fascínio que é surfar pelos canais nativos, de controlo remoto na mão, e ver o que interessa às gentes naquela terra. Muitas vezes são superficialidades: apelos mais ou menos encobertos ao sexo, à fama, à ostentação de sinais exteriores de riqueza e abundância ou simples apelos a necessidades mais básicas. Mas há casos que fogem de todo a este molde tradicional, revelando anseios bem mais profundos, mas mesmo assim também eles profundamente básicos. De alguma forma, a publicidade na TV consegue muitas vezes pôr a nu a alma dos povos a que se destina, ao revelar o que verdadeiramente os seduz – porque, afinal, a publicidade é um jogo de sedução. Um apelo aos instintos mais recônditos.
Serve tudo isto para escrever aqui sobre um novo anúncio da companhia telefónica estatal de Israel, a Bezeq, que procura agora cativar novos clientes para o seu serviço de Internet de banda larga. O anúncio da Bezeq (nome que quer dizer “relâmpago” em hebraico), simplesmente fascinante e demonstrativo, intitula-se “Internet: Mais Rápida que a Vida Real” e pode ser visto clicando aqui.
Para os meus leitores que não dominam o hebraico – ou para aqueles que não poderem ver o vídeo – aqui vai uma breve sinopse: um jovem israelita deambula pacatamente pelas ruas de Teerão; passa ao lado de polícias e comerciantes, de mulheres cobertas dos pés à cabeça e de crentes muçulmanos que oram numa mesquita. O jovem israelita – facilmente identificável como tal pela sua t-shirt – acaba por se sentar numa esplanada, olhando para o relógio sob o omnipresente cartaz de um ayatollah. Um muçulmano vem ter com ele. Reconhecem-se e, por entre sorrisos, abraçam-se longamente antes de se sentarem à mesma mesa para jogar uma partida de gamão. No final, à medida que a imagem se afasta dos dois amigos, aparece no ecrã uma frase em hebraico: “Na vida real isto é ainda impossível, mas na Internet ligações como esta acontecem todos os dias.” Uma voz-off acrescenta: “013Barak, a Internet mais rápida do que a vida real.”
Por tudo aquilo que revela, ao apelar ao anseio pela paz e pela tolerância, este é um dos mais tocantes anúncios televisivos que alguma vez vi. Vale mesmo a pena espreitar. É só clicar aqui.

Um imenso obrigado à Rinat e ao Gustavo Erlichman pela preciosa dica.

Mourinho, Israel, Futebol & Karma

José Mourinho passou por Israel esta semana, convidado por Shimon Peres para promover uma iniciativa que põe o futebol ao serviço da paz, na qual crianças israelitas e palestinianas jogam juntas, em equipas mistas, e aprendem a olhar uns para o outros como iguais. Mourinho falou também com treinadores de futebol israelitas e palestinianos. Na capital, Jerusalém, visitou o Kotel (o Muro das Lamentações) e, envergando um kippá, colocou entre as pedras uma oração. Descrito por alguns como “arrogante” e “megalomaníaco”, o actual treinador do Chelsea confessou nunca se ter sentido “tão humilde”.
Por falar em arrogância, do outro lado do espectro, o guarda redes da selecção francesa de futebol, Fabien Barthez, ameaçara não jogar na partida com Israel em protesto contra as acções do exército israelita nos territórios ocupados (ver French goalie refuses to play in Israel), aparentemente sem se deixar influenciar pelos ventos de mudança e paz que começam a soprar na região. Um sentimento diametralmente oposto àquele que fez os israelitas – judeus e árabes – celebrarem sábado à noite o golo de Abbas Suwan, jogador israelita árabe da selecção de Israel, frente à Irlanda.
Dias depois, Barthez voltaria atrás, dizendo que as suas preocupações tinham a ver com a segurança da equipa. Por fim, acabou mesmo por jogar ontem no estádio nacional de Ramat Gan, nos arredores de Tel Aviv, e foi merecidamente vaiado cada vez que tocou na bola. Num golpe de “justiça cósmica” (também conhecida como karma ou תקון – tikun – no judaísmo), Israel empatou com a poderosa França e Barthez teve grandes culpas no golo do meio-campista israelita Walid Badier. A foto acima documenta o momento.
No próximo dia 1 de Junho, curiosamente, a França vai disputar uma partida amigável com a República Popular da China. Barthez irá jogar e, obviamente, nunca lhe terá sequer passado pela cabeça protestar contra as sistemáticas violações de direitos humanos cometidas por Pequim. Nada melhor para complementar a hipocrisia do que o “activismo” selectivo.

:: A LER:: Orthodox Anarchist – אנרכיסט אורתודוקסי – When Nationalism Isn’t A Dirty Word / Povo de Bahá – “Não sou de esquerda, nem de direita; sou do 4-3-3” / Jose never felt so humble / Jerusalem Post – Mourinho lends a helping hand for peace / Haaretz – Under fire at home, Mourinho comes to make peace in Israel / Haaretz – Chelsea coach in Israel to promote peace through sport / Mourinho happy to bridge divide – Times Online / Jerusalem Post – Mourinho impresses local coaches / Ynet – ז’וזה מוריניו: אולי אצרף שחקן ישראלי לצ’לסי – ספורט / Ynet – מוריניו בישראל: אעשה הכל כדי לתרום לשלום – ספורט / התרומה של מוריניו למרכז פרס לשלום – הארץ – מאמר / וואלה! חדשות – ז’וזה המדינה / יצא גדול: על ביקור מוריניו בישראל / התוצאות של ישראל פותחות את העיניים / אני לא עובד יותר מחמש שעות ביום

Desinformação Almofadada

A ideia é simples e ao mesmo tempo estranha: armada com almofadas e travesseiros, uma multidão com mais de 500 pessoas juntou-se, como que instantaneamente, às 8:00h da noite de segunda-feira, na Praça Rabin, no centro de Tel Aviv, para uma batalha campal. O objectivo era desfazer as almofadas, rir alarvemente e descarregar o stress.
[ler ‘Flash Mob’ hits Tel Aviv; JewSchool – Pillow Fight!!; para quem lê hebraico ver também a notícia no Ha’aretz: קרב הכריות ההמוני הראשון הסתיים ללא נפגעים; mais fotos aqui: התמונות: מלחמת הכריות; e o folheto que convocou a gigantesca batalha de almofadas.]
A excentricidade desta festa de rua fez com que ela fosse notícia por todo o mundo. Mas como aconteceu em Israel, a notícia nunca poderia ser assim tão simples, como se pode atestar por um clip hilariante da televisão estatal do Dubai onde, perante a incapacidade de compreender uma flash mob sem quaisquer intuitos políticos, os “jornalistas” insistem que a batalha de almofadas foi “uma manifestação de colonos em protesto contra a decisão de Sharon de retirar de Gaza”. A “reportagem” pode ser vista aqui: Dubai TV Blooper: Report on Tel Aviv Pillow Fight’s Club Street Party. Já agora, atente-se num pormenor: logo no início, recusando mencionar Israel de forma directa, o pivot do noticiário diz que a “manifestação” ocorreu em “Tel Aviv, nas terras árabes ocupadas”.
Organizada pelo Tel Aviv Pillow Fight Club e inspirada nas flash mob, as batalhas de almofadas estão a correr o planeta: além de Tel Aviv, já aconteceram também pelo menos em Londres e Paris. Aqui, presume-se, sem “colonos” nem “protestos”.

Entretanto, outro tipo de multidão protesta agora no Iraque a escolha de um segundo dia de descanso nacional. A juntar à sexta-feira, o tradicional dia de repouso do islão, o governo decidiu que os trabalhadores iraquianos poderiam descansar também ao sábado. Porque protestam então? Porque o sábado é “o dia dos judeus”… e alegadamente a escolha do governo faz parte de uma imensa “conspiração sionista”. Não acreditam? Então vejam isto: LBC TV and Al-Alam – Iraqis Protest the Decision to Make Saturday a Day of Rest.
[ler também BBC NEWS-Iraqis march against Saturday]

Ciclo de Violência?

Há três semanas, o aperto de mãos entre Mahmoud Abbas e Ariel Sharon em Sharm El-Sheik trazia a esperança de que tudo podia mudar. A paz, por muito difícil que pudesse parecer, estaria perto, garantiam as notícias. Hoje, um atentado suicida numa discoteca de Tel Aviv – prontamente reivindicado pelos terroristas das Brigadas dos “Mártires” de al-Aqsa e da Jihad Islâmica – faz reviver o síndroma do Groundhog Day.
Um dos mais propagados mitos sobre o conflito israelo-palestiniano defende que os atentados terroristas são uma “resposta directa” às acções do governo israelita. Uma passagem de olhos pelos títulos das notícias das últimas três semanas é prova suficiente para deitar por terra esta teoria. Senão vejamos:
Sharon assina retirada histórica de Gaza e alteração do traçado da Barreira de Segurança; Israel antecipa retirada de Gaza; Israel reafirma confiança no novo parceiro de paz; Israel liberta 500 prisioneiros palestinianos.
Lidas as notícias, analisado o encaminhamento dado ao processo de paz por Abbas e Sharon, gostaria que me explicassem a que “responde” o atentado de hoje em Tel Aviv? Aos que insistem em acreditar no mito aconselho a leitura de um artigo de Alan Dershowitz intitulado As Causas dos Atentados Suicidas.
Dito isto, penso ser importante sublinhar que acredito no facto da actual liderança da Autoridade Palestiniana (PA) estar honestamente empenhada na construção da paz. Mas também é importante notar que a PA não consegue ter mão nos grupos terroristas que utilizam os atentados, não só contra a população civil de Israel, mas também como “arma política” interna, de forma a mostrar à Autoridade Palestiniana que qualquer negociação com Israel pode ser descarrilada caso as suas exigências não sejam ouvidas.
Meus caros: esta gente, os responsáveis pelo atentado de hoje, não são “militantes” nem sequer “extremistas”. Estes eufemismos apenas mascaram uma realidade bem mais fria e nojenta. A palavra correcta é terroristas – porque sobrevivem apenas num clima de terror. Porque a paz não lhes interessa. Porque se alimentam da violência e do medo. E da resposta à sua violência. Esta gente não precisa de pretextos. As últimas semanas de esperança provam isso mesmo.

A Esperança

A Esperança

Mahmoud Abbas e Ariel Sharon apertaram ontem as mãos em Sharm El-Sheik. É um imenso sinal de esperança. Mas é apenas o princípio – um passo de anão para uma caminhada longa. Tal como Francisco José Viegas, e por mais sinais contraditórios que me atirem para cima, insisto que se sublinhe a esperança. Mas provavelmente tudo isto é mais fácil de longe, uma vez que o cepticismo tem tendência a reduzir-se à razão inversa da distância.
No Aviz, Francisco falava de imagens idênticas vistas noutros tempos, com outros rostos sorridentes, mas a mesma esperança. Allison Kaplan Sommer, uma jornalista residente em Israel, compara Sharm El-Sheik a Groundhog Day, a notável comédia onde Bill Murray é condenado a reviver infinitamente o mesmo dia. Vale a pena ler o que ela escreve para perceber a nesga de cepticismo: An Unsealed Room: Groundhog Day.
Mas enquanto Abbas e Sharon, dois homens com percursos opostos mas finalmente apostados em cessar o ciclo de violência, dão provas de boa vontade no caminho da paz, há ainda quem insista no demente discurso do ódio. No sermão de sexta-feira passada (dia 4 de Fevereiro), o sheik Ibrahim Madiras, um dos mais importantes líderes religiosos palestinianos, falava num retorno às fronteiras de 1967 como “temporário”, insistindo que o objectivo final será sempre “a destruição de Israel”. O sermão poderia ser apenas tomado como o desvario de mais um fanático a espumar pela boca, mas foi transmitido em directo pela PA TV, o canal official de televisão da Autoridade Palestiniana.
Mesmo assim tenho esperança. Quero acreditar que desta vez é que é – que virá a paz para israelitas e palestinianos.
E desta vez não quero acordar como Phil Connors, o personagem de Bill Murray em Groundhog Day: cada dia que nasce apaga o anterior e às seis da manhã o rádio despertador volta a tocar invariavelmente a mesma canção.

::A LER:: CNN.com – Transcript of Ariel Sharon’s speech at Egypt summit – Feb 8, 2005 / CNN.com – Transcript of Mahmoud Abbas’ speech at Egypt summit – Feb 8, 2005.

Mudam-se os tempos…


Durante anos, o meu pai contava ter visto nas paredes da Europa graffiti em alemão, russo e ucraniano que dizia: “Judeus Vão para a Vossa Terra, Judeus para a Palestina”. Décadas mais tarde, já cidadão de Israel, ele haveria de ver novos escritos nas mesmas paredes: “Judeus Fora da Palestina”. A mensagem para os judeus parece ser simples: “Não estejam aqui e não estejam ali. Simplesmente não existam.”

Amos Oz, escritor israelita.
Retirado do livro de memórias “Uma História de Amor e Penumbra” (סיפור על אהבה וחושך), publicado em 2003 (ainda sem tradução portuguesa).

:: A LER :: The New Yorker – Profiles: Amos Oz / O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos :: Arquivos da Judiaria / Fadiga :: Arquivos da Judiaria / Oz em entrevista ao El Mundo :: Arquivos da Judiaria

:: A COMPRAR :: Contra o Fanatismo (Livraria Cultura, Brasil) / O Mesmo Mar (Fnac, Portugal)

:: NOTA :: Obviamente, a ilustração não corresponde a fotografias reais, limitando-se a traduzir graficamente as palavras de Amos Oz.

RTP na Palestina: Os Erros de Paulo Dentinho

Enviado especial da Radio e Televisão de Portugal (RTP) às eleições palestinianas, Paulo Dentinho tem a tendência de repetir os mesmos erros de forma sistemática. Em todas as suas reportagens que vi (as dos dois últimos dias e as do funeral de Arafat, em Novembro), o jornalista da RTP raramente – nunca de forma directa – se referiu aos soldados das Forças de Defesa de Israel (FDI) como “soldados israelitas”, optando invariavelmente por classificá-los como “soldados judaicos”. Dando de barato o erro gramatical da última expressão – o correcto aqui seria “soldados judeus” –, a ininterrupta insistência de Dentinho vai além do erro simples: é uma profunda deturpação recheada de segundos sentidos óbvios.
Antes de mais, convém esclarecer que as Forças Armadas de Israel não são compostas unicamente por judeus. Muitos dos seus soldados – e oficiais – pertencem às várias minorias étnicas e religiosas do país: são também muçulmanos, beduínos, druzos e cristãos, ou simplesmente emigrantes naturalizados chamados ao serviço militar (cidadão israelita, o meu sogro, por exemplo, fez a tropa, entre as décadas de 70 e 80, no mesmo batalhão com um soldado japonês não-judeu que simplesmente emigrara para Israel e se naturalizara). Uma simples busca no Google seria suficiente para corrigir esta deturpação, segundo a qual a expressão “soldado judaico” seria de alguma forma equivalente a “soldado israelita”. Aqui vão os links que provam não ser bem assim:

Haaretz News – Druze soldiers are pampered, their civilians hampered / דרוזים / Israel – The Druze “Sword Battalion” / The Druze in Israel / The Druze / The Bedouin in Israel / Five Bedouin Desert Reconnaissance Battalion Soldiers Killed / For Arab soldiers in Israeli army, fatal attack shows risks / FiftyCrows – Social Change Photography – Israel’s Bedouin

Se for involuntário, o erro repetido de Dentinho deveria ser corrigido prontamente, afinal ele é um jornalista de um canal estatal de televisão que garante primar pelo rigor. Se não for involuntário, as ilações a tirar são óbvias e este erro deve ser catalogado entre os muitos exemplos de jornalismo irresponsável que teima em não saber (ou não querer) distinguir “judeus” e “Israel”. É este tipo de jornalismo irresponsável, muitas vezes simplesmente desleixado e preguiçoso, admito, que vai ateando na Europa as chamas do antisemitismo.
No caso concreto do Telejornal de ontem à noite (sábado), em duas intervenções Paulo Dentinho usou as expressões “soldados judaicos” ou “exército judaico” cinco vezes no espaço de pouco mais de 1 minuto e meio (ver Arquivos da RTP, formato .rm), contra 4 ocorrências semelhantes no Telejornal de domingo. A significação correcta, “soldado israelita”, foi apenas mencionada uma vez, e aqui apenas na tradução directa de uma entrevista a Mahmud Chanti, um fotojornalista palestiniano.
Numa passagem da primeira reportagem, Dentinho chegou a falar do “ponto de vista judaico” (sic.), citando as palavras de um porta-voz do governo israelita, uma classificação que apenas faria sentido caso o responsável israelita tivesse falado sobre questões religiosas relativas ao judaísmo. De uma vez por todas: as palavras “judaico” e “israelita” não são sinónimos equivalentes e cambiáveis!
O erro pode ser comprovado num rápido teste: falando de “livros judaicos” nunca se poderia incluir, por exemplo, uma tradução hebraica ou yiddish da Metamorfose, de Kafka, isto apesar de Kafka ser judeu.
Para alguns, porém, tudo isto não passará de um preciosismo da minha parte. Poderá até parecer irrelevante. Mas só mesmo quem desconhece (ou recusa admitir) as fortes influências da linguística na formação de mentalidades e fenómenos sociológicos poderá pensar assim.
Já escrevi, aqui na Judiaria e noutros lados, sobre o corrente abuso, com sentido depreciativo, de palavras como cabala, judiar ou judiaria. Debati também a necessidade de extirpar o jornalismo irresponsável que vai moldando em Portugal as percepções do conflito israelo-palestiniano (ver Irresponsabilidades, O Diário Digital Errou e Vital Moreira Errou).
Mais uma vez, gostaria de reforçar a minha profunda convicção que um debate honesto sobre o conflito israelo-palestiniano – whatever that means – só pode acontecer quando tiver por base uma cobertura jornalística responsável. Por agora fico-me pela forma, mas pretendo escrever aqui brevemente sobre o conteúdo igualmente questionável dos trabalhos de Paulo Dentinho na Palestina.

:: ADENDA :: A única vez em que as palavras “judeu” e “Israel” são sinónimos perfeitos é quando estas são utilizadas num contexto de abordagem religiosa. Há mais de 3 milénios que os judeus são referidos religiosamente como “filhos de Israel” ou “Israelitas”. É comum também as comunidades judaicas (religiosas) espalhadas pelo mundo se intitularem “comunidades israelitas”. No entanto, parece-me necessário sublinhar uma vez mais que aqui o contexto é sempre religioso e nunca político.

PS – No mesmo Telejornal de sábado à noite referido acima, Judite de Sousa abriu com referências ao maremoto do sudoeste asiático, comentando imagens captadas “num ‘rizorte’ de luxo” (sic.). Uma referência óbvia à palavra inglesa “resort”, que em português se traduz habitualmente como “estância de férias”. Esta foi a primeira ocorrência que ouvi de “emigrantês” típico vinda de uma pessoa que nunca viveu fora de Portugal. Mais um risquinho para as contas dos que continuam a anotar os pontapés na língua que o “tsunami” arrastou.
[Para confirmar basta clicar aqui e esperar uns 45 segundos… Judite de Sousa repete a palavra
“rizorte” meio minuto depois.]

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Resposta de Paulo Dentinho (14/01/2005):

Tem razão, admito que as Forças De Defesa de Israel não são apenas constituídas por judeus e que há também árabes, beduínos, druzos e outros, mas trata-se de um exército destinado a salvaguardar a existência de um estado onde a maioria da população é judaica, condição essencial para a preservação desse estado, no futuro. Se assim não fosse, Israel teria procurado anexar a Cisjordânia, ou se quisermos, a Judeia, a Samaria e a Faixa de Gaza. Não o fez por inúmeras questões, sobretudo porque teria de conceder a nacionalidade israelita aos residentes nessas áreas e, nesse caso, a maioria judaica da população estaria comprometida num prazo não muito longínquo. As regras democráticas do estado de Israel levariam para o parlamento muitos mais deputados árabes. Em de “The Iron Wall”, por exemplo, um olhar sobre a história do conflito israelo-árabe, Avi Shlaim nos dá conta dessas preocupações na mente dos vencedores da guerra de 1967, da qual resultou a conquista daquelas terras à Jordânia e ao Egipto. O processo para anexar Jerusalém Oriental corrobora o que acabo de escrever, pois Israel viu-se na obrigação de conceder direito de cidadania a mais de cem mil residentes palestinianos. Convém ainda recordar que os principais motivos que estiveram na base do movimento sionista, há dois séculos, o antisemitismo e a condição de minoria nacional nos países da diáspora, se traduziu no desejo de uma pátria judaica, estado-nação onde os judeus fossem sempre maioritários em relação a outros povos residentes nesse mesmo território. Por fim, deixo-lhe a morada de um site judaico onde as Forças de Defesa de Israel são referidas como… exército judaico: Ahavat Israel.
Agradeço as suas observações, e não estou a ironizar. Gosto de aprender, sei reconheçer os meus erros. Felizmente não faço parte daqueles que acham que têm todo o saber do mundo, ou dos que, sem opinião, reproduzem permanentemente e de forma acrítica o pensamento alheio. Mas também é verdade que o seu comentário lançou suspeitas de parcialidade sobre o meu trabalho, o que eu lamento, pois procuro sempre dar várias perspectivas sobre a realidade existente naquela zona do mundo.

Cumprimentos.

Paulo Dentinho

Resposta a Paulo Dentinho (14/01/2005):

Caro Paulo,

Antes de mais, deixe-me agradecer-lhe com toda a sinceridade o facto de se ter dado a trabalho de responder às minhas críticas. Acredite que aprecio enormemente este seu gesto.
Os seus argumentos em relação à natureza judaica do estado de Israel estão absolutamente correctos. Não os contesto. Mas Paulo, não é isso que está aqui em causa. Não se trata de uma questão de demografia ou da defesa de demografias, mas tão só de alusões a um exército nacional (ou a um Estado) que, tal como acontece com todos os exércitos nacionais do mundo (e com todos os Estados), deve ser referido jornalisticamente pela sua nacionalidade e não pelas suas condicionantes demográficas, étnicas ou religiosas.
Definir o que significa ‘ser judeu’ ou ‘judaico’, em sentido lato, é uma tarefa deveras complicada porque, para além da religião, implica também conceitos de cultura, etnia e nacionalidade. A definição de ‘israelita’, por outro lado, é suficientemente simples: um israelita é um cidadão de Israel.
Honestamente, compreendo que possa existir uma tendência para confundir as duas expressões, apesar de considerar absolutamente necessário que se reconheçam as diferenças entre uma e outra coisa, especialmente quando é esse o objecto do nosso trabalho. Acredite que não é um simples preciosismo da minha parte.
Quando o Paulo, nas suas reportagens, fala em ‘exército judaico’ a carga da expressão vai além do simples sinónimo eventual de ‘exército israelita’ – ela transforma-se em “o exército dos judeus contra os palestinianos” o que de imediato arrasta um simbolismo no qual todos os judeus são acoplados às políticas de Israel e às acções do exército israelita, uma implicação que não existe normalmente quando se fala em termos estritos de nacionalidade e cidadania. A mesma leitura estaria implícita caso o Paulo alguma vez tivesse referido as autoridades palestinianas como ‘autoridades muçulmanas’ ou ‘islâmicas’.
Quando se fala em ‘exército judaico’ incorre-se ainda, mesmo que seja de forma inconsciente, numa “deslegitimização” do Estado de Israel, reduzindo o conflito a meros contornos étnicos, religiosos, ou se quiser, demográficos. Passa a ser mais um “choque de civilizações” onde é questionada, de forma quase subliminar, a legitimidade de Israel existir.
Desta forma, e mesmo sem o querer, o Paulo estará a contribuir também para propagar a visão segundo a qual todos os judeus incorrem em responsabilidades pelas políticas e acções do estado de Israel. Afinal, que outras razões senão a cobertura mediática levam uma criança judia de 13 ou 14 anos – que nunca sequer pôs os pés em Israel – a ser insultada e cuspida nas ruas de Paris e que lhe gritem aos ouvidos coisas como “judeus fora da Palestina”? Espero que compreenda aqui as minhas profundas reservas, não só enquanto judeu, mas também como forte opositor das políticas do Likud de Ariel Sharon – partido com o qual não tenho o menor ponto de contacto.
Honestamente, acredito que não terá sido esta a sua intenção. Mas Paulo, enquanto jornalistas, ambos sabemos que a leitura que é feita das nossas palavras nem sempre corresponde às nossas intenções primárias.
Em suma, a minha crítica tinha exclusivamente a ver com o contexto da sua utilização da expressão ‘soldados/exército judaico’ e as suas eventuais extrapolações. Não nos podemos alhear do facto do nosso trabalho contribuir sempre, quer queiramos quer não, para a formação de opiniões ou para a perpetuação de estereótipos. E as palavras que escolhemos são de uma importância extrema, especialmente em televisão e na cobertura de acontecimentos tão polarizadores quanto o conflito israelo-palestiniano.
Deixe-me dar mais um exemplo. Na sua reportagem transmitida no Telejornal de domingo, o Paulo referiu-se ainda a prisioneiros palestinianos detidos em “prisões judaicas”. Agora, peço-lhe que se distancie um pouco e analise esta expressão de uma forma fria desapaixonada. Que imagens se conjuram quando falamos em “prisões católicas” ou “prisões islâmicas”? Está a ver onde quero chegar?
Já agora, o site que me indica, onde as Forças de Defesa de Israel são referidos como exército judaico, intitulado “Ahavat Israel” (que literalmente quer dizer: “amor ao povo judeu”), é criado e mantido por uma organização religiosa ultraconservadora cujos critérios de objectividade serão por certo bem diferentes dos de um órgão de informação. O Paulo concordará comigo que será fácil, por exemplo, encontrar um site equivalente nos EUA onde o exército americano seja referido como “exército cristão” (estou a lembrar-me de uma crónica de Ann Coulter, uma colunista de extrema-direita, publicada logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001). Mais uma vez, é tudo uma questão de contexto e enquadramento.
Podemos até eventualmente ter opiniões divergentes em relação ao conflito, mas creio que no fundo ambos desejamos que o seu resultado final seja uma paz duradoura, com dois estados – livres, democráticos, economicamente viáveis – a coexistirem lado a lado.

Com os melhores cumprimentos e um agradecimento sincero pela sua resposta,

Nuno Guerreiro

Em Perspectiva

“Imaginemos que, em vez do “mundo árabe”, existia um “mundo judeu” no meio do qual tentava sobreviver um único estado árabe/muçulmano. Sim, imaginemos que existia uma região do planeta conhecida como “Mundo Judeu”. Centenas e centenas de milhões de judeus espalhados por diversos países de língua hebraica e religião judaica. Incrustado nesse “mundo judeu” há um país árabe. Não seria este país árabe acarinhado pela Comunidade Internacional? Não seria esse pequeno país árabe dotado de meios de defesa, recursos e financiamentos para a sua sobrevivência? Não teriam todos os progressistas do planeta um sem-número de razões para justificar e legitimar a continuidade e prosperidade desta única nação árabe do planeta? Se esta visão, posta nestes termos, parece razoável a todos, então não há justificativa para que a situação inversa não seja igualmente razoável.
De contrário trata-se de hipocrisia. Ou de algo bem pior…”

Miguel Fernandes, jornalista

(em email enviado à lista de discussão do excelente site judaico brasileiro Pletz)