Yeroushalaim (ירושלים)

Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Junto aos rios da Babilónia
Nos sentámos e chorámos
Lembrando Sião.
Lá nos salgueiros
Pendurámos nossas liras.

Se de ti me esquecer, ó Jerusalém,
Que mirre a minha mão direita,
Que a minha língua se quebre,
Se de ti me não lembrar,
Se não preferir Jerusalém
À minha maior alegria.

Salmo 137

::PARA OUVIR::
Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Exercícios de memória

“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim

Já não escrevo, decoro. Construo o livro todo na cabeça.”

As palavras são de Antonio Tabucchi, numa conversa deliciosa com Carlos Vaz Marques. Uma entrevista que irá para o ar na TSF de hoje a uma semana, às 19:00h de quinta-feira, dia 18.
Na entrevista, do programa “Pessoal e… transmissível”, Tabucchi relata que o seu último conto foi recentemente remetido à memória no Alentejo. São cinco páginas, ainda inéditas, recitadas para o papel sem apontamentos, sem notas escritas. É um conto sefardita: “Chama-se Yo m’enamori d’un aire e começa com uma canção sefardita, meia portuguesa e meio espanhola, que fala de um homem que está apaixonado por uma rapariga que se desvanece no ar. Isto refere-se às perseguições dos judeus na península Ibérica no princípio do século XVI”, diz Tabucchi. Nele é contada a história de um regresso. Um descendente de judeus portugueses volta a Lisboa, caminha pelo Jardim Botânico e pelo Príncipe Real. Vem de um “sitio muito longínquo” buscando os lugares dos seus antepassados. “Ele não fala a língua dos seus antepassados, nem espanhol nem português, mas lembra-se de uma canção que ouvia cantar quando era criança.” O resto da história pode ser ouvido neste excerto da entrevista gentilmente cedido por Carlos Vaz Marques: Pessoal e… transmissível: Antonio Tabucchi.

::PARA OUVIR::
“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim


A canção em ladino que inspira o conto de Tabucchi

A ENTREVISTA:

::NOTA:: A entrevista completa por ser ouvida também em formato podcasting em TSF Pessoal e… transmissível (feed xml).
Obrigado Carlos por teres permitido aos leitores da Rua da Judiaria a audição antecipada deste excerto da entrevista.

Judeus que escreveram canções de Natal

Os judeus não celebram o Natal nem acreditam na divindade de Jesus Cristo (ele próprio um judeu; ver também O Conceito de Messias no Judaísmo), cujo nascimento é celebrado pelos cristãos a 25 de Dezembro. Mas, paradoxalmente, não deixa de ser irónico que as mais populares canções de Natal tenham sido escritas e compostas por judeus. A maior parte delas vêm dos Estados Unidos, o país onde, tal como hoje o conhecemos, o Natal foi inventado, na cidade de Nova Iorque ao virar de 1900.
Mas tudo começara do outro lado do Atlântico, em meados do século XIX, quando um judeu francês, Adolphe Adam, o compositor do ballet Giselle, escreve Cantique De Noël, também conhecida em inglês como O Holy Night, ainda hoje considerado o hino por excelência do Natal.
Em 1940, Irving Berlin (cujo nome verdadeiro era Israel Isidore Baline), um talentoso judeu russo nascido na Sibéria e emigrado em Nova Iorque, compôs aquela que seria a canção de Natal responsável por moldar o imaginário natalício da América – White Christmas, cantada 14 anos mais tarde no musical homónimo pela voz de Bing Crosby. Musicais da Broadway e o cinema vieram popularizar inúmeras canções de Natal escritas por músicos judeus, entre elas Rudolph the Red Nosed Reindeer, Holly Jolly Christmas e Rockin’ Around The Christmas Tree de Johnny Marks; Let It Snow, Let It Snow, Let It Snow, de Sammy Cahn e Jule Styne; Silver Bells de Jay Livingston e Ray Evans; The Christmas Song (Chestnuts Roasting On An Open Fire), de Mel Tormé.
Apesar de serem das mais conhecidas canções de Natal, as composições natalícias escritas por judeus tendem a ser “laicas” e “seculares”, preferindo celebrar aspectos desta tradição cristã que nada têm a ver com religião propriamente dita, como a reunião das famílias, os presentes e o aconchego a que convida uma manhã nevada de Inverno.

Com votos de Festas Felizes, aqui fica um lote de presentes da Rua da Judiaria

Para ouvir:

Placido Domingo – Cantique De Noël – (Adolphe Adam)

Bing Crosby – White Christmas (Irving Berlin)

Burl Ives – Holly Jolly Christmas (Johnny Marks)

Brenda Lee – Rockin’ Around The Christmas Tree (Johnny Marks)

Diana Krall – Let It Snow (Sammy Cahn and Jule Styne)

Perry Como – Silver Bells (Jay Livingston and Ray Evans)

Nat King Cole – The Christmas Song (Chestnuts Roasting On An Open Fire) (Mel Torme)

Ella Fitzgerald – Rudolph The Red-Nosed Reindeer (Johnny Marks)

South Park – The Lonely Jew On Christmas (Matt Stone)

Silver Jews

Silver Jews – Horseleg Swastikas
Silver Jews – Punks in the Beerlight

Para ouvir:
Horseleg Swastikas – Silver Jews

Punks in the Beerlight – Silver Jews


O poeta David Berman, a alma dos Silver Jews, fotografado por Paul Heartfield.

::A LER:: Forward Newspaper Online: The Silver Jews Return / Silver Jews: Tanglewood Numbers (2005): Reviews / Splendid Magazine reviews Silver Jews: Tanglewood Numbers / PopMatters Music Interview | From a Texaco Sign: An Interview with Silver Jews / VH1.com : The Silver Jews (link para o video “How Can I Love You If You Won’t Lie Down“) / Silver Jews / The Corduroy Suit – a Silver Jews homepage / Silver Jews (vídeo e discografia) / Silver Jews: an interview with David Berman, singer and songwriter / Silver Jews: American Water: Pitchfork Review / Silver Jews: Pitchfork Interview / Amazon.com: Tanglewood Numbers

Canção pela paz

Poema de Yaakov Rotblit

Para ouvir:
Shir La’Shalom (Canção pela Paz) – Miri Aloni

Shalom Haver (Adeus Companheiro) – Arik Einstein

Deixa o sol nascer
E a manhã oferecer a sua luz,
A força da mais pura oração
Não nos trará de volta.
Aquele cuja vela foi apagada,
E foi levado pelo vento,
Uma lágrima amarga não o acordará
E não o trará de volta.
Ninguém nos traz de volta
Da morte ou do sofrimento
Aqui, nem a vitória nos serve.
Nem cantos de salvação nem uma oração
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos

Deixa o sol entranhar as flores,
Não olhes para trás,
Deixa os que partiram.
Enche os olhos de esperança
E não apenas de intenção
Canta uma canção de amor,
E não uma canção de guerras.
Não digas apenas que o dia virá
Traz esse dia,
Porque não é apenas um sonho.
E em todas as praças da cidade
Aclamem a paz.
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos.

Poema de Yaakov Rotblit.

Na noite de 4 de Novembro de 1995, há exactamente 10 anos, minutos depois de cantar esta canção num comício pela paz na praça de Tel Aviv que hoje tem o seu nome, Yitzhak Rabin era assassinado. O papel com a letra da Canção pela Paz, que guardara no bolso do casaco, ficaria manchado com o seu sangue.

Yom Kippur II

Leonard Cohen – Who By Fire

Leonard Cohen


Leonard Cohen, fotografado por David Boswell em Vancouver, a 20 de Outubro de 1978.

Para ouvir:
Leonard Cohen – Who By Fire

O Yom Kippur (dia do perdão ou da expiação), que se inicia hoje ao cair da noite, é a data mais importante do calendário judaico, culminando 10 dias de introspecção iniciados com o Ano Novo (Rosh Hashaná). Com origem na Bíblia Hebraica (ver Levítico 23:26-32), o Yom Kippur é um convite à análise do ano que passou e um apelo a uma transformação espiritual e ética para o futuro. Escrita por Leonard Cohen com base no poema ונתנה תוקף (Unetaneh Tokef), da liturgia judaica do Yom Kippur, “Who by Fire?” é uma composição profundamente influenciada pela oração e pela intensidade do dia.
“Esta canção é inspirada directamente numa oração hebraica, cantada no Yom Kippur. Segundo a tradição, neste dia o Livro da Vida é aberto, e nele estão contidos os nomes de todos os que irão viver e morrer no ano seguinte. A melodia, porém, não é integralmente roubada, mas derivada da melodia que ouvi desde sempre sentado na sinagoga. É claro que o final da minha canção é completamente diferente. “Who shall I say is calling?” é o meu contributo à oração: Quem determina a vida do homem?”, escreveu sobre ela Leonard Cohen.
Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Leonard Cohen foi a Israel e fez uma série de concertos gratuitos para os soldados israelitas. Esta experiência, segundo ele próprio escreveria mais tarde, influenciou também de forma marcada “Who by Fire”. Na década de 90, Leonard Cohen retirou-se para um mosteiro budista situado nos arredores de Los Angeles, dando origem a rumores segundo os quais teria abandonado o judaísmo tornando-se um “jubu” (ou “bujew”), como fizera antes o poeta Allen Ginsberg. Confessadamente fascinado pela espiritualidade e o recolhimento do budismo, no entanto, Cohen continua a sentir-se profundamente judeu, como ele próprio afirmou numa entrevista recente ao The Guardian: “Não busco uma nova religião. Estou bastante satisfeito com a antiga, com o judaísmo.”

Quanta água tem uma lágrima?

Randy Newman – Louisiana 1927

Para ouvir:
Randy Newman – Louisiana 1927 *

Foto de Eric Gay, Associated Press

Quanta água tem uma lágrima,
E quanto tempo leva a secar?
Todo o tempo que houver medo e mágoa
Naquele que a continua a chorar.

Quanta água tem uma enchente
E quanto tempo leva a recuar?
Todo o tempo que levar a restaurar a esperança
Naquele que desesperadamente dela precisar.

Quanta água tem uma tempestade
E quanto tempo leva a passar?
O tempo que levar a reconstruir a casa
E tudo o que é querido restaurar.

Quanta água tem uma cidade
Quando as paredes da barragem se quebram?
Tanta quantas as lágrimas choradas
Quando tantos corações se vergam.

Rabi Zoe Klein
Temple Isaiah, Los Angeles
[poema em homenagem às vítimas do furacão Katrina]

Foto de Ricky Carioli, The Washington Post

Foto M. Scott Mahaskey, Associated Press

Foto de Melissa Phillip, Associated Press

Ajuda às vítimas do furacão Katrina: Hurricane Katrina Recovery on FirstGov.gov / Network for Good :: Hurricane Relief Efforts and Preparedness / American Red Cross – Hurricane 2005 relief / The Salvation Army National Headquarters / Hurricane Katrina — MoveOn.org Housing Offers/Searches / New Orleans Volunteers Classifieds and Want Ads – Craigslist / Ajuda através de Organizações Humanitárias Judaicas: Hurricane Relief – Chabad-Lubavitch of Louisiana / Hurricane Katrina Fund – American Jewish Committee / MAZON – Hurricane Katrina / B’nai B’rith International Disaster Relief / United Jewish Communities- Hurricane Katrina Relief / Orthodox Union: Hurricane Katrina — How You Can Help / United Synagogue of Conserevative Judaism: Hurricane Relief-You Can Help/ Union for Reform Judaism – URJ Disaster Relief Fund / American Jewish World Service.

* Clique no link acima para ouvir a canção de Randy Newman sobre as trágicas inundações que assolaram a Louisiana e o Mississippi em 1927.

Kinky Friedman, o cowboy judeu do Texas

They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore
Ride ’em Jewboy
Ride ’em Jewboy (versão de Willie Nelson)

Músicas da Judiaria X


Em seis dias Deus criou os céus e a terra e todas as maravilhas do universo. Honestamente, acredito que ele devia ter levado um bocadinho mais tempo…”

Para ouvir

They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore

Ride ’em Jewboy

Ride ’em Jewboy (versão de Willie Nelson)

Os críticos chamam-lhe “o Frank Zappa da música country”, mas Kinky Friedman prefere ser conhecido como o cowboy judeu do Texas. Iconoclasta, mordaz, irreverente e “politicamente incorrecto” quando nem sequer havia ainda “politicamente correcto”, Kinky Friedman é, por mérito próprio, um ícone incontestado da música country. Nos seus álbuns, nas décadas de 60, 70 e 80, participaram músicos como Bob Dylan, Tom Waits, Willie Nelson e Ringo Starr (que fez a voz de Jesus Cristo na canção Men’s Room in LA, do álbum Lasso from El Passo de 1976)
A sua mais conhecida canção – uma das duas escolhidas para esta edição das Músicas da Judiaria –, escrita na melhor tradição de “canções-história” cómicas como A Boy Named Sue, de Johnny Cash, chama-se They Ain’t Making Jews Like Jesus Anymore. Na letra, Kinky Friedman relata um episódio da sua vida real, quando num bar do Texas confrontou (… à pancada) um racista antisemita. Kinky é ainda o autor daquela que é a única canção de country western dedicada às vítimas do holocausto nazi: Ride ’em Jewboy, considerada pelos críticos uma das suas mais belas composições (apresentada aqui nas Músicas da Judiaria em duas versões, uma das quais cantada por Willie Nelson).
Richard “Kinky” Friedman nasceu em Chicago, a 31 de Outubro de 1944, mas tinha ainda poucos meses de idade quando a família se mudou para o racho Rio Duckworth, próximo da pequena localidade de Palestine, no Texas. Durante toda a sua carreira, Kinky Friedman fará questão de se apresentar como “o judeu de Palestine”.
Filho de um professor de psicologia da Universidade do Texas, Kinky inicialmente pensou seguir a carreira do pai, mas abandonou a ideia pouco tempo depois de se ter formado. Em 1966, entrou para o Peace Corps e passou dois anos de voluntariado a prestar ajuda humanitária no Borneo onde, segundo ele próprio conta, a sua maior proeza foi a introdução do frisbee junto dos nativos.
Regressado ao Texas, junta-se a um bando de músicos renegados para paradiar a surf music, então em voga, com um conjunto chamado King Arthur & the Carrots, mas sem grande sucesso. Em 1971, Kinky Friedman funda a banda que o acompanha até hoje e que acabaria por tornar-se a sua imagem de marca: Kinky Friedman and the Texas Jewboys, que depressa atingiu um estatuto de culto nas franjas da música country. A sua actuação em Nashville na mítica Grand Ole Opry – a “catedral” da música country –, ficaria lendária depois de Kinky saudar a audiência com um sonoro Shalom!


Kinky Friedman com Bob Dylan à porta do The Troubadour. Los Angeles, 1974

Com o seu amigo Bob Dylan, Kinky e os Texas Jewboys participaram, em 1975 e 76, na mítica digressão pelos EUA que ficaria para a história como The Rolling Thunder Revue, actuando ao lado de Joan Baez, Roger McGuinn, Rambling Jack Elliott, Joni Mitchell, Bob Neuwirth, Allen Ginsberg e, claro, do próprio Dylan (ver On the Road With Bob Dylan).
Musicalmente, Kinky influenciou toda uma nova geração de músicos da chamada zona indy country, de entre os quais se destaca Fred Eaglesmith.
Em 1986 Kinky Friedman escreveu o primeiro do que viria a ser uma série de 20 livros policiais, tornando-se um escritor de enorme sucesso dentro e fora dos EUA. Com títulos como Elvis, Jesus & Coca-Cola (1993), God Bless John Wayne (1995) e Love Song of J. Edgar Hoover (1996), os romances policiais de Kinky Friedman, tal como antes acontecera com os seus poemas e canções, oscilam entre um humor desbragado e uma seriedade capaz de obrigar o leitor a reflectir. O seu último livro, Ten Little New Yorkers, acabou de ser lançado nos EUA.
Hoje, para além da música e da escrita, Kinky Friedman embarcou numa carreira política semi-séria, candidatando-se ao lugar que em tempos pertenceu a George W. Bush, empenhado em tornar-se “o primeiro governador judeu do Texas”. Com o slogan “Why the Hell Not”, a sua candidatura não foi inicialmente levada a sério pelo establishment político texano, mas Kinky provou as suas intenções ao conseguir recolher mais fundos do que o seu opositor directo, o congressista democrata Chris Bell.
Apesar da campanha eleitoral ser a sério, Kinky Friedman não se deixa levar totalmente pela seriedade da política. Numa entrevista recente, um jornalista perguntou-lhe qual será o seu primeiro acto oficial quando for eleito governador. Kinky responde sem hesitar: “A primeira coisa será exigir uma recontagem dos votos.”

::A LER:: Kinky Friedman Official Site / Kinky Friedman’s Blog / The New Yorker: Lone Star / Texas Monthly: Kinky Friedman (colecção de artigos) / Kinky Friedman: a success against all odds (entrevista) / Azeite Farouk-Friedman

::A OUVIR:: Kinky Friedman Speaks Out (entrevista com Ann Devlin sobre o livro The Love Song of J. Edgar Hoover)

::A VER:: KLRU: Texas Monthly Talks > Kinky Friedman