Tenho uma grande constipação

Fernando Pessoa

(Estado em que se encontra este blog…)

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor!
0 que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando,
Não estarei bem se não me deitar na cama
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu… Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirina.

Fernando Pessoa.

Fascinante

Fascinante é mesmo a melhor palavra para descrever o disco William Shatner Has Been, que fiquei a conhecer via MacGuffin (que por sua vez foi contagiado pelo Achtung Baby).
Convém recordar que esta não é a primeira vez que Shatner, judeu intergaláctico, grava um disco. No seguimento do seu sucesso na série Star Trek como capitão James Tiberius Kirk, Bill Shatner gravou algumas canções alucinadas acompanhado por Leonard Nimoy – o responsável máximo pela “judaização” da série ao transformar a benção sacerdotal judaica (Birkat ha-Cohanim) na universalmente conhecida saudação vulcana. Live long and prosper.

Arthur Miller (1915-2005)

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância…

Arthur Miller

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância. O personagem principal, Lawrence Newman é o director de pessoal de uma empresa que recusa empregar judeus. Ele próprio um antisemita, Lawrence vê a sua vida profundamente transformada quando começa a usar um par de óculos que imediatamente o fazem “parecer judeu” aos olhos dos colegas de trabalho e dos vizinhos. Esta alteração na sua aparência física faz com que Lawrence seja tratado com hostilidade – é despromovido e obrigado a demitir-se. Depois de tentar por todos os meios contestar as suposições erradas sobre a sua pretensa identidade judaica, Lawrence Newman resigna-se. No final do romance, a perseguição fez dele um judeu, convencendo-o ao mesmo tempo da irracionalidade do preconceito e da necessidade de o confrontar e combater.
Focus foi transposto para o cinema em 2001, adaptado por Kendrew Lascelles num filme homónimo realizado por Neal Slavin, com William H. Macy a encarnar Lawrence Newman.
Em 1947, dois anos após a sua publicação, Focus servira já de inspiração ao primeiro filme a confrontar directamente o antisemitismo: Gentleman’s Agreement, realizado por Elia Kazan (o amigo que dez anos mais tarde denunciaria Arthur Miller perante o tristemente célebre House Un-American Activities Committee), com Gregory Peck no principal papel.

::A LER:: CNN.com – Playwright Arthur Miller dead at 89 – Feb 11, 2005 / Arthur Miller – Wikipedia / Arthur Miller: A Life / Arthur Miller – MAJOR WORKS with brief synopses / A Brief Chronology of Arthur Miller’s Life and Works / Houghton Miffilin – Arthur Miller / Arthur Miller and the House of Un-American Activities Committee (HUAC) / Death of a Salesman / BBC – The Marilyn mystery / NNDB: Arthur Miller.

Sem Título

Abraham Joshua Heschel

As nuvens tornam-se teclas de piano
e mãos como pilares crescem eternamente altas;
parece que na minha imaginação sempre
escalei além de mim mesmo,
sobre o mundo – orgulhoso, como se estivesse num telhado.

E algures eu vivo no mundo como um piano.
Como o seio de mãe compreende a mão de uma criança –
eu entendo confuso, dedos humanos,
e acalmo a quietude sedenta com sons de piano.

Quase não preciso de imagens dos meus olhos
para vidui* ou canções;
quase esqueço a fúria dos sentimentos
presos na jaula das palavras.

Abraham Joshua Heschel, (1907–1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

* וידויConfissão em hebraico

A Esperança

A Esperança

Mahmoud Abbas e Ariel Sharon apertaram ontem as mãos em Sharm El-Sheik. É um imenso sinal de esperança. Mas é apenas o princípio – um passo de anão para uma caminhada longa. Tal como Francisco José Viegas, e por mais sinais contraditórios que me atirem para cima, insisto que se sublinhe a esperança. Mas provavelmente tudo isto é mais fácil de longe, uma vez que o cepticismo tem tendência a reduzir-se à razão inversa da distância.
No Aviz, Francisco falava de imagens idênticas vistas noutros tempos, com outros rostos sorridentes, mas a mesma esperança. Allison Kaplan Sommer, uma jornalista residente em Israel, compara Sharm El-Sheik a Groundhog Day, a notável comédia onde Bill Murray é condenado a reviver infinitamente o mesmo dia. Vale a pena ler o que ela escreve para perceber a nesga de cepticismo: An Unsealed Room: Groundhog Day.
Mas enquanto Abbas e Sharon, dois homens com percursos opostos mas finalmente apostados em cessar o ciclo de violência, dão provas de boa vontade no caminho da paz, há ainda quem insista no demente discurso do ódio. No sermão de sexta-feira passada (dia 4 de Fevereiro), o sheik Ibrahim Madiras, um dos mais importantes líderes religiosos palestinianos, falava num retorno às fronteiras de 1967 como “temporário”, insistindo que o objectivo final será sempre “a destruição de Israel”. O sermão poderia ser apenas tomado como o desvario de mais um fanático a espumar pela boca, mas foi transmitido em directo pela PA TV, o canal official de televisão da Autoridade Palestiniana.
Mesmo assim tenho esperança. Quero acreditar que desta vez é que é – que virá a paz para israelitas e palestinianos.
E desta vez não quero acordar como Phil Connors, o personagem de Bill Murray em Groundhog Day: cada dia que nasce apaga o anterior e às seis da manhã o rádio despertador volta a tocar invariavelmente a mesma canção.

::A LER:: CNN.com – Transcript of Ariel Sharon’s speech at Egypt summit – Feb 8, 2005 / CNN.com – Transcript of Mahmoud Abbas’ speech at Egypt summit – Feb 8, 2005.

A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (II)

“Jogo Sujo”, ou a Má Influência Americana

Não me proponho fazer uma análise à campanha – há muita gente a fazê-lo diariamente na blogosfera muito melhor do que eu –, ou sequer ao debate de ontem à noite entre Santana Lopes e José Sócrates, mas como jornalista a viver há 10 anos nos EUA e a acompanhar diariamente a realidade política americana, admito que fiquei bastante surpreendido com a crescente americanização da política portuguesa. O mimetismo é inescapável.
Não estou aqui a falar do formato civilizado – a expressão não é minha – do debate, mas da forma como a campanha propriamente dita está a ser gerida. Os rumores e boatos, os ataques pessoais feitos por interposta pessoa, enfim toda a “campanha negativa”, são marcas inequívocas de uma importação do que de pior se faz na política americana. Exagero? Acredito que não.
O próprio Pedro Santana Lopes admitiu isso mesmo ontem à noite durante o debate quando confrontado directamente por Sócrates em relação ao célebre cartaz da JSD: “As campanhas em que se fala dos adversários são hábito em todas as democracias, nomeadamente, na americana”, respondeu o ainda primeiro-ministro. Mas esta admissão é apenas a ponta do véu. Sócrates tem razão num ponto – nunca se assistira em Portugal a uma campanha de ataque sistemático ao adversário, onde mais de metade do esforço de propaganda do partido do governo faz referência directa às posições da oposição em vez de veicular as suas próprias ideias.
É certo que as americanices não são novidade nas campanhas políticas portuguesas. Dos chapéus de palha da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, em 1986, aos aventais de Paulo Portas, há muito que os políticos portugueses se inspiravam nas campanhas eleitorais americanas. A novidade é a importação das tácticas da “campanha suja”.
Pode ser apenas por estar a acompanhar esta campanha eleitoral com óculos americanos, mas acredito que Santana Lopes – e os seus assessores – está a copiar ao milímetro as tácticas usadas pelo actual presidente americano em 2000 e 2004, acreditando que foram elas que deram a vitória a George W. Bush – ele próprio um político algo impopular, acusado de incompetência e com uma imagem pública não muito favorável. Santana acredita que pode fazer em Portugal o decalque de uma campanha eleitoral americana. Vamos aos exemplos:

Boatos e Rumores – Em 2000, depois do senador John McCain ter vencido folgadamente as primárias republicanas em New Hampshire, a “máquina venenosa” montada por Karl Rove – o “arquitecto” das campanhas de Bush – avançou em força para a Carolina do Sul, onde as sondagens apontavam para mais uma derrota quase certa. Anúncios televisivos da candidatura de Bush atacavam McCain directamente. Mas isso não chegava. De uma forma consistente e misteriosa, começaram a circular entre o eleitorado republicano fotocópias de uma fotografia de família de McCain, onde o senador aparecia abraçado à mulher e ao seu filho adoptivo vietnamita. A insinuação era clara: num estado sulista onde a guerra civil americana ainda é referida como “a guerra de agressão nortenha”, onde o racismo ainda marca a vida quotidiana, a imagem de McCain abraçado a um adolescente de pele escura valia mais que mil palavras (ver Slate – Instant Analysis by Jacob Weisberg e BBC – Republican’s negative campaign row).
Convém dizer que John McCain é um dos mais emblemáticos políticos americanos – um republicano moderado que sempre se recusou curvar à chamada “direita religiosa” e que assina propostas legislativas ao lado dos democratas.
Mas Rove não se deu por satisfeito. Paralelamente à fotocópia da foto de família, surgiu um rumor segundo o qual John McCain teria problemas de estabilidade mental e emocional como consequência de ter passado cinco anos da sua vida como prisioneiro de guerra no Vietname. Ao mesmo tempo, alistou a “direita religiosa” para atacar também John McCain – ver Reverend Pat Robertson attacks McCain.
Os golpes contra McCain resultariam e George W. Bush ganhou as primárias na Carolina do Sul, uma vitória que abriria caminho para a disputa da Casa Branca (ver For ‘Gutter Politics,’ Look to the Bush Camp).
É verdade que sempre existiram boatos e rumores na política eleitoral portuguesa. Mas é também verdade que estes nunca tinham sido utilizados de forma tão deliberada e sistemática pela máquina de um partido.

Ataques Indirectos – O célebre cartaz da JSD contra José Sócrates é o anúncio dos “swift boat veterans” de Pedro Santana Lopes. A sua responsabilidade é atribuída à JSD, ilibando o ainda primeiro-ministro de qualquer tipo de responsabilidades no ataque pessoal e nas insinuações, da mesma forma que George W. Bush lavou as mãos do anúncio televisivo que questionava o serviço militar de John Kerry no Vietname. Curiosamente, o republicano John McCain, que em 2000 sofrera na pele os efeitos da “máquina venenosa” de Bush, veio de imediato a público classificar os ataques como deploráveis e desonestos, tal como alguns destacados militantes do PSD criticam agora a estratégia de ataque sem precedentes claramente escolhida por Santana Lopes. Mas, tal como McCain o fez em 2004, também eles ainda assim vão votar no candidato que desprezam.
A vantagem política dos rumores, boatos e ataques indirectos é o facto de ser impossível combatê-los de forma eficaz. Responder a insinuações nem sempre é uma manobra inteligente. E, por vezes, não contestar ainda é pior (Kerry esperou três semanas até responder às acusações dos swift boat vets, numa estratégia que tentava ignorar os insultos mas que acabaria por lhe sair pela culatra dado o impacto que o anúncio teve junto do eleitorado – ver JS Online: Swift boat ad has outsize impact).

Há mais exemplos de estratégias simétricas entre a campanha de Santana Lopes e a arquitectura desenhada por Karl Rove para as candidaturas de George W. Bush – a insistência em “issue politics”, ou política de “causas”, é outro, mas ficará para um post futuro.
Mas outros paralelos existem. Para muitos, tal como John Kerry face a George W. Bush, José Sócrates é também o não-Santana. Tal como Kerry, Sócrates é monocórdico, desprovido de carisma, quase robótico (usando uma expressão de Luís Osório). Pedro Santana Lopes, tal como Bush, transpira uma imagem de incompetência e não se importa de jogar sujo, de chafurdar na lama, se pensar que com isso poderá continuar a seguir em frente.
Mas, depois de tudo isto, Pedro Santana Lopes e os assessores que o aconselham a enveredar pela “campanha suja” decalcada da campanha eleitoral americana esquecem-se de um pequeno pormenor: Portugal não é os Estados Unidos e a realidade – e as tradições – políticas e sociais dos dois países tornam a transposição pura e simples de estratégias simplesmente risível. Para mais, a juntar às diferenças, George W. Bush teve Karl Rove e um partido unido em peso atrás de si. Pedro Santana Lopes não tem ninguém equiparável a Rove e o PSD, por sua causa, enfrenta uma profunda crise de identidade.

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“Campanhas sujas” e a História Americana

As campanhas eleitorais americanas foram sempre marcadas por intensos ataques pessoais. Segundo os historiadores, a mais “suja” campanha de sempre decorreu em 1828, entre Andrew Jackson e John Quincy Adams – que, em 1796, chegou a ser ministro plenipotenciário dos Estados Unidos em Portugal. A candidatura de Jackson chamava a Adams “O Chulo”, enquanto um jornal favorável a Adams acusava a mãe de Jackson de ser “uma vulgar prostituta trazida pelos soldados ingleses”. Mas as calúnias não se ficaram por aqui: adúltero, dono de escravos, bêbado, analfabeto, briguento e ateu foram alguns dos insultos trocados entre dois candidatos. E quando deixaram de ter nomes para chamar um ao outro, Jackson e Quincy Adams voltaram-se para as mulheres do adversário. Estava dado o mote para um futuro promissor que atravessa agora o Atlântico com quase dois séculos de atraso.

A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (I)

1. Dois posts para ponderar: Em quem vou votar?, de Paulo Gorjão, e o voto em branco, de João Miranda.

2. O facto de Paulo Portas (ainda Ministro da Defesa) ter aproveitado as bases de dados pessoais do seu ministério para fazer campanha eleitoral ultrapassa tudo o que pode ser admissível em democracia. Num post intitulado A Fina Linha, Luís G. Rodrigues, autor do excelente Random Precision, conta que o líder do CDS/PP enviou uma carta de propaganda eleitoral – assinada também por Bagão Felix – a 400 mil antigos combatentes, recorrendo às moradas que constam nos arquivos à guarda do Ministério da Defesa. “Violação da lei de protecção de dados informáticos”, “utilização de recursos do Estado para a prossecução de interesses eleitorais partidários” e “falta de ética política e intelectual” – é assim que Luís G. Rodrigues classifica este golpe francamente baixo de Portas.

::ADENDA:: Um exemplar da carta recebida pelos ex-combatentes nos últimos dias, datada de “Dezembro de 2004”, pode ser visto no des-Encantos. O Victor, um dos visados pela missiva, comenta-a aqui.

Henrique Canto e Castro (1930-2005)

Nunca tive jeito para obituários. Cada vez que me sinto obrigado a escrever sobre a morte de alguém que me marcou, recordo-me de uma frase escrita por Fernando Assis Pacheco, a propósito do aniversário da morte de Zeca Afonso, no Jornal de Letras em 1992: “(…) não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso.” Mas com Canto e Castro tenho a obrigação de correr esse risco. Ele foi a primeira personalidade pública que entrevistei.
Lembro-me de estar extraordinariamente nervoso. No agora longínquo Verão de 1986, sentado durante duas horas num minúsculo estúdio de rádio, Canto e Castro fez-me esquecer por completo que outros ouvidos ouviam a conversa. Era um homem que tinha muitas histórias para contar.
Conhecera-o anos antes, por intermédio de Romeu Correia, que por sua vez me aturava por ser doente da minha mãe. Eu tinha uns 12 anos, e confesso que demorei algum tempo até perceber que reconhecia a voz de Canto e Castro porque cresci a ouvi-la transplantada em desenhos animados, da “Abelha Maia” ao “Marco”.
Anos antes, ele estava também em palco na primeira vez que me lembro de ir ao teatro – levaram-me a ver “Tempos Difíceis”, uma peça escrita por Romeu Correia, na Companhia de Teatro de Almada, que durante anos, antes do Teatro Nacional, fora a casa de Canto e Castro.
Com Luís de Sttau Monteiro e Romeu Correia, ele fez parte de um notável grupo de velhos intelectuais marxistas que, com conversas e livros, marcaram profundamente a minha adolescência na Rua da Judiaria, em Almada. Canto e Castro foi um dos melhores actores da sua geração, um homem grande e intensamente generoso. Por natureza uma criatura do palco, fez também muita televisão e cinema, trabalhando com todos os “mestres”, de Manoel de Oliveira a Wim Wenders. No meio disto, conseguiu sempre ser suficientemente despretensioso para se sentar a tomar café, no Central ou no Tic-Tac (na Rua Capitão Leitão, frente à decrépita sede do PC de Almada), e ter paciência para aturar um miúdo que gostava de ouvir histórias e de saber o que liam os mais velhos.
Canto e Castro morreu ontem de madrugada. Deixa muitas saudades.

O Cabalista

Tenho uma porta interna na alma: um quarto pequeno,
uma luz concentrada, muitos livros
e uma janela à altura dos ombros…

Barry Goldensohn

Tenho uma porta interna na alma: um quarto pequeno,
uma luz concentrada, muitos livros
e uma janela à altura dos ombros.
Os únicos pedaços de natureza que conheço
são os meus pulsos, as mãos e os dedos:
eles mexem-se, mornos, e mudam
lentamente demais para merecer estudo sério.
Da janela, um mundo largo
cheio de coisas enfileiradas: arbustos,
árvores, rios, vacas em linha.
É um texto entediante, esta rede plana.
Nas minhas estantes mesmo o pior dos livros
recua em profundidade e junta-se aos outros livros,
pétalas em movimento para o centro fértil,
costas com costas por trás de mim
lendo o livro atrás do livro, até que
as flores abrem e formamos o texto,

a alma completa, a ordem única.

Barry Goldensohn. Poeta contemporâneo. Judeu norte-americano.

Parabéns Pai!! (or my very own “Big Fish”)

O reverso da fotografia dizia qualquer coisa como: “Travessia do deserto do Negev, 1973”…

O reverso da fotografia dizia qualquer coisa como: “Travessia do deserto do Negev, 1973”. Só muitos anos mais tarde, já muito mais velho, me apercebi que a foto mostrava um pedaço da ponte sobre o Tejo e uma nesga de Lisboa… afinal, o deserto pode ser onde um homem quiser.
Mil beijos cheios de saudade e muitos parabéns!

60 anos da Libertação de Auschwitz IV

Erma A. e George G. sobreviveram aos horrores de Auschwitz. A dor das suas memórias, bem viva 60 anos depois, merece ser ouvida na primeira pessoa. Os vídeos estão aqui: Shoah Foundation – Erna A.; Shoah Foundation – George G.
Os seus testemunhos fazem parte dos mais de 52 mil depoimentos de sobreviventes e testemunhas do Holocausto recolhidos pela Survivors of the Shoah Visual History Foundation.
Durante a rodagem de Schindler’s List, em 1992, Steven Speilberg conheceu vários sobreviventes dos campos de concentração. Depois de ouvir as suas histórias, o realizador apercebeu-se da necessidade premente de preservar estes relatos antes que fosse tarde de mais. Foi neste contexto que criou a Survivors of the Shoah Visual History Foundation (um pequeno vídeo sobre os objectivos da fundação, narrado por Morgan Freeman, pode ser visto aqui). O espólio de depoimentos recolhidos destina-se primariamente a servir como ferramenta educativa, na esperança que os testemunhos pessoais do sofrimento sirvam para estimular a tolerância, evitando que a morte, durante o Holocausto, de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e prisioneiros políticos tenha sido completamente em vão. Infelizmente, o caso de Darfur, no Sudão, mostra que o genocídio não é coisa do passado e continua a ser praticado com impunidade nos nossos dias, como prova este vídeo da BBC.

::Vídeos Históricos:: A Libertação de Auschwitz I – As Crianças / A Libertação de Auschwitz II – Relíquias Macabras / A Libertação de Auschwitz III – As Experiências Médicas Nazis / O Ghetto de Varsóvia / O Extermínio e a “Solução Final” / Os julgamentos de Nüremberg / A Vida Antes da Guerra

::Outros Testemunhos:: Edith P. / Rachel G. / Marion P. / Christa M.

::Outros Links:: Auschwitz: Inside the Nazi State (site de um excelente documentário produzido pela BBC) / Holocaust Memorial Museum / Yad Vashem The Holocaust Martyrs’and Heroes’ Remembrance Authority / Museum of Tolerance / Simon Wiesenthal Center / Center for Holocaust and Genocide Studies: Virtual Museum of Holocaust and Genocide Art / Southwest Florida Holocaust Museum / The Holocaust History Project Homepage

Em nome da transparência, convém revelar que a minha mulher trabalha actualmente como investigadora da Shoah Foundation.