Aborto: Uma Perspectiva Judaica

“Por motivos diferentes, muitas mulheres optam por interromper a gravidez, abortando o feto que têm em seu ventre. Há certas ocasiões em que as razões que as levam a esta decisão são de carácter económico, porque o casal, ou a pessoa, considera que não tem os meios necessários para manter a criança que iria nascer, tomando em conta as exigentes necessidades que a nossa sociedade impõe aos seus membros. Outras pessoas optam pelo aborto porque consideram que emocionalmente não podem enfrentar todas as implicações que significa trazer um ser humano a este mundo. Certas sociedades modernas estimulam o controlo da natalidade por considerarem que não podem solucionar os problemas que um aumento de população representa. Um dos métodos de controlo é o aborto.
Toda a mulher deve poder decidir por si própria o que deseja fazer com o seu corpo. O Talmude afirma: “Úbar yérej imó”, que significa que o feto faz parte do corpo da mulher e por isso carece de individualidade própria. Por exemplo, no caso da conversão de uma mulher grávida ao judaísmo, a conversão é igualmente válida para o bebé quando nasce.
O Talmude considera também o facto do feto poder ameaçar a vida da mãe. Em tal eventualidade, interrompemos a gravidez para salvar a vida da mãe. Rambam [rabino Moshe ben Maimon, conhecido como Maimonides (1135-1204)] menciona que o feto pode ser considerado como rodef (perseguidor) nos casos em que ponha em perigo a vida da mãe. Segundo outras apreciações [outros comentadores e talmudistas] se conclui que não se pode qualificar o feto de rodef por este carecer de vontade própria e não ter a faculdade de poder escolher livremente a sua conduta.
Agora, podemos afirmar que o feto é uma criatura à parte e independente da sua mãe? Ou talvez considerar o feto, antes do seu nascimento, como uma espécie de órgão adicional da mãe. O Talmude ensina que se lhe proporciona uma alma ao embrião no momento da concepção. É claro que, segundo o Talmude, o feto possui individualidade e, por isso, é um ser aparte da mãe, e não pode ser considerado como um outro órgão da mesma forma. O Talmude refere-se ao embrião durante os primeiros quarenta dias de gestação como mayá beamá, que quer dizer “simplesmente água’. Podemos deduzir que até este momento não se considera o embrião como um ser humano em todo o sentido. Mas tão pouco se implica que deixemos de apreciar que estamos frente a uma vida humana em potência.
O factor determinante é sem dúvida a saúde e o bem estar da mãe.
Nos casos em que o feto tem deficiências genéticas a nossa tradição desaconselha o aborto porque não existe a certeza da falha que se aprecia não pode ser corrigida no futuro. E que diferença terá para nós o conceito de vida de um ser que tem deficiências com um que não tem?
Teremos sempre em conta os efeitos negativos que um bebé nestas circunstâncias pode trazer para à mãe, se a mãe afirma e decide que não quer dar à luz um filho com sérias deficiências mentais ou físicas e isso será motivo para o seu desespero, aqui se pode pensar na possibilidade de fazer um aborto, pois a nossa responsabilidade primária tem a ver com a saúde e o bem estar do ser humano integro, que neste caso é a mãe.”

In “Reflexões Sobre o Aborto” (1991), Luz – Textos e Depoimentos (Âncora, 2001), uma recolha de escritos de Abraão Assor, rabino da comunidade judaica de Lisboa de 1941 a 1993.

Em termos gerais, tal como escreveu o saudoso rabino Abraão Assor neste texto que transcrevemos, a Halacha (Lei Judaica) não só permite o aborto, como em algumas circunstância exige a interrupção da gravidez. Acima de tudo, norteada pelo princípio da responsabilização individual – um princípio central do judaísmo –, a tradição judaica coloca a decisão na esfera familiar e, por vezes, comunitária.
Historicamente, nos países onde a interrupção voluntária da gravidez se tem assumido como tema político de clivagem – especialmente nos EUA –, as comunidades judaicas têm manifestado uma oposição unânime à restrição do aborto por via legislativa. Os três principais ramos do judaísmo moderno (ortodoxo, conservador e reformado) defendem que a discussão do aborto pertence apenas e exclusivamente às mulheres e famílias afectadas, e não deve ser motivo de regulamentação legislativa ou demagogia política.
Mesmo assim, nos últimos anos, surgiram algumas correntes anti-aborto no seio de movimentos judaicos ultra-ortodoxos, influenciados em grande medida pela forma como o tema tem elevado a importância política de movimentos idênticos na direita cristã. A pressão de alguns partidos religiosos ultra-ortodoxos em Israel, por exemplo, fez com que as dificuldades económicas deixassem de constar da lista de razões legalmente reconhecidas para que uma mulher podesse recorrer ao sistema nacional de saúde para abortar. Ainda assim, em Israel a interrupção voluntária da gravidez continua a ser legal – gratuita ou com custos moderados –, com algumas restrições consideradas “meramente formais” (ver Abortion in Israel: Terms of Termination).

Não há Antisemitismo em França?

1 de Maio, Créteil: São arremessadas pedras contra a sinagoga local (Synagogue du 8 Mai 1945). Um rabino que se dirigia à sinagoga acompanhado do seu filho menor é atacado por dois homens. Chamam-lhe “judeu sujo” e espancam-no com golpes na cara e no estômago. / 4 De Maio, Metz: Dois jovens judeus são atacados por cinco jovens de origem magrebina quando regressavam de um jogo de futebol. São alvo de insultos antisemitas e espancados com uma barra de ferro. Dois dos atacantes são detidos pela polícia. Um deles é libertado poucas horas depois. / 8 de Maio, Paris, 10° Arrondissement, Rue Saint-Martin: Um jovem de origem magrebina grita insultos antisemitas a pessoas que entram numa sinagoga e lança uma garrafa de cerveja, ferindo na cabeça um judeu de idade avançada. / 10 de Maio, Metro de Paris: A inscrição “Judeus – Criminosos – Nazis” é pintada nas paredes de um túnel. / 22 de Maio, Aubervilliers: Dois irmãos judeus são agredidos e insultados no parque de estacionamento do escritório onde um deles trabalhava. Chamando-lhes “porcos judeus”, o agressor ameaçou voltar com “50 amigos” : “Juro pelo Corão de Meca que te vou matar.” / 15 de Maio, Yerres: A inscrição “Morte aos Judeus” foi pintada num carro pertencente a um judeu. O carro tem sido regularmente vandalizado na garagem do prédio onde a vítima reside. / 27 de Maio, Paris, 19° Arrondissement: duas raparigas judias foram cercadas, insultadas e agredidas por um grupo de 14 rapazes e raparigas de origem magrebina. / 30 de Maio, Boulogne-Billancourt: Um adolescente judeu, de 16 anos, filho de um rabino é atacado e insultado por um grupo de 5 homens. Agredido violentamente, o jovem sofre contusões múltiplas e parte uma costela. / 4 de Junho, Epinay-sur-Seine: Um jovem judeu é esfaqueado momentos depois de ter saído de uma Yeshiva (academia religiosa judaica). O agressor grita “Allah Ouakbar” (“Deus é Grande” em árabe) enquanto o esfaqueia. / 6 de Junho, Paris, 19° Arrondissement: uma mulher sentada numa esplanada é agredida por um homem que lhe chama “porca judia”. Esmurra-a na cara e parte-lhe o nariz. / 6 de Junho, Paris, 17° Arrondissement: Uma mulher de 20 anos caminhava para uma estação de metro quando é cercada por 7 jovens de origem magrebina. Chamam-lhe “porca judia”, cospem-lhe na cara e atiram-lhe pedras à cabeça. Ela consegue escapar, mas tem medo de apresentar uma queixa formal à polícia. / 7 de Junho, Charenton-le-Pont: As portas de vários apartamentos pertencentes a judeus são vandalizadas com graffiti antisemita: suásticas, “morte aos judeus”, “matem os judeus” e “vamos matar a vossa raça”. / 19 de Junho, Saint-Ouen: Jovens de origem magrebina insultam uma rapariga judia que caminhava ao lado do irmão. Quando o irmão a tenta defender, chamam-lhe “porco judeu” e agridem-no com uma paulada na cabeça. Um dos agressores é condenado a seis dias de prisão. / 27 de Junho, Avenue Jean Jaures, 19° Arrondissement: Dois judeus religiosos e uma criança de 8 anos são atacados por dois homens de origem magrebina numa moto. A criança é atropelada e sofre ferimentos graves no rosto e no peito. / 29 de Junho, Paris, Rue de Flandres, 19° Arrondissement: Um grupo de jovens é atacado por homens que lhes cortam o caminho com um carro. A maioria dos jovens consegue fugir, mas um deles é violentamente agredidos à paulada. Os agressores gritam “porco judeu”. O jovem fica inconsciente. / 1 de Julho, Amiens: Dez suásticas são pintadas nas paredes da Rue des Juifs, no bairro de Arquèves. / 1 de Julho, Rue de Buisson, 20° Arrondissement: A parede exterior de um edifício de habitação é vandalizada com a inscrição “porcos judeus: o prédio inteiro quer que se vão embora”. / 7 de Julho, Bordéus: a frase “Morte aos Judeus” é inscrita na parede de uma loja propriedade de uma família judia. / 11 de Julho, Paris, 20° Arrondissement: Vândalos pintam uma suástica no centro de uma Estrela de David num parque de estacionamento residencial. / 10 de Agosto, Lyon: O cemitério judaico é vandalizado, com cerca de 60 campas pintadas com suásticas. Esta foi a terceira vez que o cemitério foi vandalizado desde Maio passado.

FONTES: Agence France Press, United Press International e Associated Press. Período de Pesquisa: entre 1 de Maio e 10 de Agosto de 2004. (mas continua…)

Mesmo assim, depois de tudo isto, para alguns o antisemitismo em França não passa de um “mito útil”.

:: A LER :: Rua da Judiaria – Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo

Vozes do Conflito I: Erro e Queda de Arafat

“Quando os Palestinianos se mostram empenhados no processo de paz, um dos seus maiores aliados é a opinião pública israelita. Desfazer esta preciosa aliança foi um dos maiores erros de Arafat.”

Dennis Ross, negociador americano do processo de paz israelo-palestiniano entre 1988 e 2001 e autor do recente livro “The Missing Peace: The Inside Story of the Fight for Middle East Peace”.

A discussão em torno do conflito israelo-palestiniano, para quem está longe do seu epicentro – em Portugal ou no Brasil, como a maioria dos meus leitores, por exemplo –, é muitas vezes enformada por noções preconcebidas e reacções pavlovianas distanciadas. Essa distância, que não é só geográfica, é adensada por coberturas noticiosas que reflectem muitas vezes esses mesmos preconceitos, eternizando um ciclo irreflectido. De fora tendem a ficar as vozes dos que vivem o conflito no seu dia-a-dia. E, com frequência, essas vozes não escutadas são israelitas.
Por isso mesmo, e movido também em parte pela inesperada popularidade deste blog, vou tentar trazer periodicamente à Rua da Judiaria algumas dessas vozes. A primeira é Imshin, o pseudónimo da autora de um blog israelita, reflectido e bem escrito, chamado Not a Fish (provincially speaking). No post que aqui se transcreve, Imshin traduz um sentimento de frustração e impotência que é comum aos israelitas que acreditaram em Oslo e pressionaram o governo no caminho da paz com manifestações de rua constantes. Os que então se manifestaram nas ruas de Tel Aviv sentem-se hoje traídos. Traídos, acima de tudo, por Arafat. Traídos por terem um dia acreditado que o líder da Autoridade Palestiniana estaria de facto interessado em assinar a paz com o seu punho. Os analistas políticos israelitas colocam sob os ombros de Yasser Arafat o ónus do descalabro eleitoral da Esquerda israelita – aqueles que foram os seus parceiros de diálogo.

Orgulho e Preconceito
por Imshin, em Israel

Vi hoje, num canal de satélite de Israel, Casamento Fictício (נישואים פיקטיביים), um filme israelita feito nos anos 80. Somos uma “sociedade racista”, e por isso mesmo vemos regularmente nos nossos canais de televisão filmes israelitas que contam as histórias do sofrimento palestiniano, especialmente em canais subsidiados pelo estado. O filme transportou-me a uma época em que, pelo menos para mim, nós estávamos do lado errado; quando os palestinianos eram parte integrante das nossas vidas quotidianas e nós os tratávamos mal.
A situação, tal como é descrita no filme, e os sentimentos de culpa de muitos judeus israelitas, incluindo eu própria, levou-nos às ruas em massa, exigindo mudança. A pressão pública, aliada à segunda intifada (a primeira intifada, na minha opinião, ocorreu entre 1936 e 1939, contra o Mandato Britânico, o actual conflito, esse, não é intifada, é guerra) resultou nos Acordos de Paz de Oslo, e na cedência de uma larga porção dos territórios a uma administração sob Arafat, no caminho para a independência e a criação do estado palestiniano (“sociedade racista”, lembram-se?).
Ao ver o filme pude recordar os sentimentos e identificar-me com a mensagem. Pude também perceber a diferença na actual situação dos palestinianos. Eles tiveram uma maravilhosa oportunidade para construir uma vida melhor e pura e simplesmente desperdiçaram-na. Pegaram na nossa boa vontade a atiraram-na às nossas caras, “seus idiotas”.
Hoje eles já não fazem parte das nossas vidas da forma como antes o fizeram. Terroristas sanguinários, de um tipo nunca antes visto, filhos bastardos dos mesmos Acordos de Oslo que supostamente deveriam ter resolvido o problema, forçam-nos a ignorar a maioria dos palestinianos. Outros ocupam agora os empregos que em tempos lhes pertenceram. Não podem já meter-se nos seus Peugeot 404 (o último carro construído para durar uma vida inteira) e ir de Han Younis a Rishon Letzion. Na vida real, os filhos dos trabalhadores de Gaza do filme Casamento Fictício provavelmente nunca viram os novos arranha-céus de Tel Aviv.
Mesmo a prosperidade que os palestinianos viveram durante os anos de Oslo, quando israelitas afluíam em peso à Cisjordânia para comprar tudo, desde mobílias a tratamentos dentários, há muito que se perdeu e ficou esquecida. Desapareceu do dia para a noite, quando decidiram renegar as promessas de abandonar o caminho da violência, atacando Israel no Verão de 2000 na esperança de extorquir assim dividendos mais proveitosos.
Mas eles, estes filhos de Oslo e do terrorismo, possuem algo que os seus pais nunca tiveram. Eles já não são invisíveis. Podem ser vistos como “o inimigo”, mas isso mesmo é um sinal de respeito, não é? E pelo que lhes falta, por razões óbvias, ódio é bem melhor do que escárnio, ou pior, do que indiferença.
E pensado nisto, sou capaz de perceber porque razão os palestinianos preferem a Direita à Esquerda israelita, não importa o que possam dizer frente às câmaras ou aos pálidos europeus idiotas de sandálias Birkenstock que frequentam Jenin e Ramallah. Porque a Direita israelita os encara como adversários, enquanto a Esquerda os vê como miskenim (pobres coitados).
A Esquerda Israelita é motivada por um sentimento de culpa e por pena, e não há nada mais degradante do que ser alvo de pena. Eu também preferiria ser odiada ou temida.

Traduzido e adaptado de um post homónimo de Imshin, autora do blog israelita Not a Fish (provincially speaking).

:: NOTA :: Apesar de pessoalmente não concordar com tudo o que Imshin escreve neste post, acredito que o testemunho é representativo e vale por si próprio. Mais leituras:ima edição da revista de fim-de-semana do New York Times, o jornalista James Bennet, assina um excelente trabalho de capa, intitulado Sharon’s Wars. Numa amostra do que pode, e deve, ser o jornalismo feito para a Internet, o New York Times tem ainda disponível uma notável reportagem multimédia bastante aprofundada sobre as complexidades e desafios da sociedade palestiniana, um trabalho francamente bem feito a não perder, igualmente da autoria de James Bennet.

A Noite dos Poetas Assassinados

Morte Russa

Morte russa
É todas as mortes.

Dor russa
É todas as dores.

Como está agora o coração do mundo?
E a sua ferida purulenta?

Pergunta a uma criança.
Pergunta a uma criança judia.

Leyb Kvitko, 1919

[a partir da tradução do Yiddish original para o inglês, da autoria de Zackary Sholem Berger]

Pelo menos 15 escritores e poetas judeus russos de língua Yiddish foram executados por ordem de Stalin a 12 de Agosto de 1952, nos calabouços da infame prisão da praça Lubyanka, entre eles Peretz Markish, Leyb Kvitko, Dovid Hofshteyn, Itsik Fefer, Dovid Bergelson e Der Nister.

(via Zackary Sholem Berger )

Darfur e o Mundo

Pelo delito do silêncio,
Pelo delito da indiferença,
Pela secreta cumplicidade da neutralidade.
Pelo encerramento das fronteiras,
Pelo lavar das mãos,
Pelo crime do silêncio,
Pelo delito da indiferença,
Pelo encerramento das fronteiras,
Por tudo o que foi feito,
Por tudo o que não se fez,
Que não haja esquecimento perante o Trono de Glória;
Que haja memória nos corações dos homens;
E deixai que haja por último perdão
Quando os teus filhos, Ó Deus,
Forem livres e em paz.

in Portais da Contrição, Central Conference of American Rabbis, 1978. Oração judaica.

A Human Rights Watch e a Amnistia Internacional divulgaram ontem dois relatórios exaustivos sobre a situação humanitária em Darfur. As conclusões não surpreendem ninguém: o governo sudanês não está a fazer nada para impedir a continuação do genocídio da população negra. Pior ainda – o governo continua a ajudar os guerrilheiros assassinos Janjaweed na sua horrenda missão. Os factos relatados pelas duas organizações foram também ontem confirmados pelo próprio Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (ver Sudan launches fresh helicopter attacks in Darfur). O relatório da Human Rights Watch pode ser lido na íntegra aqui: Darfur: New Atrocities Disprove Khartoum’s Claims (Human Rights Watch, 11-8-2004).
Entretanto, a União Europeia continua a jogar com as semânticas do abismo, negando reconhecer oficialmente que o assassínio em massa, as violações sistemáticas de mulheres e a limpeza étnica em Darfur sejam genocídio. Lavadas as mãos, uma vez mais, a Europa empurra a decisão para a ONU. A explicação para a cobardia é simples e foi recentemente recordada pelo Paulo Gorjão: quem primeiro reconhecer que se trata de genocídio – o primeiro país ou organização de Estados – , segundo os mecanismos da Lei Internacional, será obrigado a intervir defesa da das vítimas de Darfur. Pois
No seu excelente blog, Zackary Sholem Berger chama a atenção para um interessante artigo da revista New Republic, assinado por David Englin, sobre o que deveria ser a anatomia de uma intervenção militar da comunidade internacional em Darfur. Vale bem a pena ler: The New Republic: Plan of Action.

Doações e Activismo: Human Rights Watch – Sudan – Crisis in Darfur / What You Can Do About Darfur? / Save Darfur.org :: Take Action Now / Rua da Judiaria :: Que Fazer com Este Genocídio? ::

A LER: Sudan: The Passion of the Present: blog campaign for Sudan reaches toward a new level of awareness and activism / Who will survive today? / Empty Promises / Financial Express: UNHCR reports increase in rapes in Darfur / Guardian Unlimited Special reports Atrocities ‘continue in Darfur’ / Khartoum Accused Of Making Empty Promises In Darfur / Hear No Evil, See No Evil: THE U.N. SECURITY COUNCIL’S APPROACH TO HUMAN RIGHTS VIOLATIONS IN THE GLOBAL COUNTER-TERRORISM EFFORT / Sudan: The Passion of the Present: The Genocide Bloc / TEMOS DE IMPEDIR A CONTINUAÇÃO DO GENOCÍDIO EM DARFUR (SUDÃO) (deputado Socialista José Leitão, no seu blog Inclusão & Cidadania) / O RONALDO DE DARFUR (bazongadakilumba.blog-city.com)
A VER: HRW vídeo de Darfur (broadband) / HRW vídeo de Darfur (modem) / BBC – “These people are clinging to life” (RealOne)

As Causas dos Atentados Suicidas

Um artigo de Alan Dershowitz

Com os atentados suicidas a aumentarem no Iraque, na Arábia Saudita, e em Israel, um número crescente de pessoas acredita agora que esta é uma táctica resultante do desespero. Segundo estes, existe uma ligação directa entre opressão, a ocupação, a pobreza e a humilhação, por um lado, e a disposição para cometer atentados suicidas em nome de uma causa comum, por outro. Segundo este raciocínio, a solução óbvia para o problema passa por resolver a sua causa de raiz – a opressão.
Mas esta premissa é falsa: esta relação histórica ou de facto não existe. Os atentados suicidas são uma táctica escolhida por elitistas abastados, privilegiados, com educação superior, porque esta se tem provado eficaz.
Alguns dos bombistas suicidas desafiam mesmo o estereotipo das vítimas empobrecidas da ocupação, levados a medidas desesperadas pela opressão americana ou israelita. Lembrem-se dos autores dos atentados de 11 de Setembro, alguns deles estudantes universitários e nenhum deles oprimido pelos Estados Unidos. O seu líder era um multimilionário saudita chamado Osama bin Laden.
Bin Laden tornou-se um herói para muitos membros da classe “média-alta” saudita, que agora se oferecem como shahids (“mártires”) no Iraque, em Israel, e noutras partes do mundo.
Majid al-Enizi, um estudante saudita que sonhava ser técnico de informática, recentemente alterou os seus planos de carreira para se tornar um mártir; viajou para o Iraque, onde acabou por morrer. O seu irmão Abdullah congratulou-se com a decisão: “Recebemos telefonemas de pessoas que nos felicitam, chorando de alegria e inveja. Há muitos jovens que desejam ir para o Iraque, mas não conseguem lá chegar. Graças a Deus que ele conseguiu.”
Estes meninos ricos glorificam uma cultura do suicídio, mesmo em lugares distantes. Tuffull al-Oqbi, estudante na prestigiada King Saud University, conta que jovens estão agora a usar t-shirts estampadas com a fotografia de bin Laden da forma como a minha geração usou camisolas com Che Guevara. Segundo notícias recentes, jovens mulheres oriundas de famílias abastadas usam t-shirts com bin Laden debaixo das suas abayas para demonstrar o seu apoio aos apelos de resistência contra os Estados Unidos.
Que razão leva estes jovens, rapazes e raparigas, privilegiados economicamente e com formação superior a apoiarem esta cultura da morte, enquanto povos empobrecidos e oprimidos como os tibetanos continuam a celebrar a vida apesar de ocupados pela China há mais de meio século?
Porque razão outros povos oprimidos ao longo da história nunca recorreram a atentados suicidas e ao terrorismo? A resposta reside nas diferenças existentes entre as elites de liderança dos diversos grupos e causas. Os líderes da causa radical islâmica, em especial os wahabitas, advogam e incitam o terrorismo suicida, enquanto os líderes de outras causas defendem outros métodos.
Basta recordar Mahatma Gandhi e Martin Luther King, líderes de povos verdadeiramente oprimidos que sempre defenderam meios não-violentos de resistência. São os líderes quem escolhe os atentados e envia os suicidas. Nenhum bombista suicida decide cometer um atentado por iniciativa própria.
Os suicidas aceitam a morte porque são incitados num frenesim de ódio por imams que pregam “morte aos infiéis”. O Sheikh Muhammad Sayed Tantawi, professor de Estudos Islâmicos da prestigiada Universidade Al-Azhar, do Cairo (uma cidade que não está “sob ocupação”), declarou que as “operações de martírio” – ou seja os atentados suicidas – são a mais elevada forma de jihad e por isso um mandamento islâmico.
Mesmo “modelos moderados”, como a mulher de Yasser Arafat, que mora numa mansão milionária em Paris, disse que se tivesse um filho queria que ele se tornasse um bombista suicida, porque não existe honra maior do que ser um mártir.
Crianças e jovens, alguns com 12 ou 13 anos, são incitados e seduzidos a colocarem coletes com bombas no corpo por estas elites dirigentes, mais velhas e melhor instruídas. Às crianças prometem-se virgens no céu, elogios e dinheiro para as suas famílias, e posters que os celebram como se fossem estrelas de rock. É uma combinação irresistível para alguns, e a culpa assenta unicamente nos elitistas que os exploram, que os usam, e que eventualmente os matam.
Não existe qualquer tipo de provas que apoie a existência de uma relação directa entre ocupação e atentados suicidas. Na realidade, qualquer ocupação torna mais difícil a tarefa de orquestrar esses ataques. Não digo isto para defender a ocupação, mas unicamente para separar os argumentos daqueles que afirmam que é a ocupação, e a subsequente repressão, que causa os atentados suicidas.
Na verdade, se Israel terminasse a ocupação de Gaza e da Margem Ocidental (como eu há muito tenho defendido), é provável que os actos de terrorismo aumentassem, à medida que os comandantes terroristas alcançam mais liberdade para planear e executar acções terroristas. O mesmo poderá ser verdade no caso do Iraque, caso os Estados Unidos retirassem intempestivamente.
Chegou a altura de fazer frente às reais causas de raiz dos atentados suicidas: o incitamento elitista por parte de certos líderes religiosos e políticos, que estão a criar uma cultura da morte e exploram ensinamentos ambíguos de uma importante religião.
Abu Hamza recentemente exortou uma larga multidão em Londres a “abraçar a morte”. Jovens islâmicos estão enamorados pela morte, defendem alguns influentes imams; mas são estes lideres quem está a “arranjar casamentos” entre as crianças e os coletes com bombas.
Talvez agora, que os bombistas suicidas atacam a Arábia Saudita, líderes islâmicos responsáveis perceberão que é o seu povo quem acaba por ser a maior vítima desta cultura da morte tacitamente imposta.

Alan Dershowitz, professor de Direito da Universidade de Harvard e autor do livro Why Terrorism Works: Understanding the Threat, Responding to the Challenge. Este artigo foi publicado recentemente no Guardian e na última edição impressa do semanário Jerusalem Post.

NOTA: Ao contrário do que à primeira vista possa parecer, especialmente aos olhos dos que lerem este artigo à luz de noções estereotipadas, Alan Dershowitz não é “neoconservador”, apoiante de Bush ou de Sharon. Tido como um dos mais conceituados constitucionalistas americanos, Dershowitz é membro da “ala esquerda” do Partido Democrata e foi apoiante activo da candidatura de Al Gore em 2000. Durante os últimos anos tem sido um opositor incondicional das políticas de restrição dos direitos cívicos impostas por George W. Bush nos EUA, nomeadamente através do Patriot Act. Sobre este tema, aconselho a leitura do artigo Assault on Liberty: Military Justice Is to Justice as Military Music Is to Music, publicado por Alan Dershowitz no semanário nova-iorquino Village Voice.

“It’s the Stupid, Stupid!” *

“Our enemies are innovative and resourceful, and so are we. They never stop thinking about new ways to harm our country and our people, and neither do we.”

George W. Bush, Washington, 5 de Agosto de 2004.

Tradução apressada: “Os nossos inimigos são inovadores e cheios de expedientes, e nós também. Eles não se cansam de conceber novas formas para prejudicar o nosso país e o nosso povo, e nós também não.”

*Variante irónica do célebre slogan de Bill Clinton em 1992, “It’s the economy, stupid”, cada vez mais popular em autocolantes colados nos pára-choques dos carros com que me cruzo aqui em Los Angeles.

Que Fazer com Este Genocídio?

Estrelas Mortas
Estrelas amortecem nos céus,
aqui na terra morre gente.
O destino dá luz a uns,
e a outros trevas.

Rios unem-se a rios
e juntos vazam no mar.
Mas vidas humanas
extinguem-se em solidão,
sofrimento e amarga tristeza.

Quando uma estrela tomba nos céus,
o seu caminho é resplandecente.
Mas vidas humanas apagam-se
na penumbra da noite.

Peretz Hirshbein (1880-1948), poeta e dramaturgo, judeu russo.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou hoje uma versão diluída de uma resolução que dá 30 dias ao Sudão para agir contra as milícias Janjuweed . O texto final (que pode ser lido na íntegra aqui: U.N. Security Council resolution on Sudan) não fala de genocídio e mesmo a branda ameaça de sanções foi retirada para não ferir susceptibilidades. Tudo em nome de um “consenso” que acaba por tornar-se praticamente inócuo. Mais uma vez, a ONU parece demonstrar a sua incapacidade de agir quando devia – quando estão em jogo centenas de milhar de vidas humanas, gente que morre diariamente, hora a hora. Regressam os tristes fantasmas de um passado recente, feito de hesitações, compromissos e pura e simples indiferença.
Num brilhante texto recentemente postado no Aviz, Francisco José Viegas comentava a forma amorfa como a “comunidade internacional” tende a agir em situações similares: “No caso do Sudão, tal como no do Ruanda (e como, será no Zimbabwe, quando a «linha da frente» deixar de apoiar o nazi de Harare) só dez anos depois, ou mais, a ONU revelará a «real dimensão da tragédia», num dos seus relatórios contemporizadores, antes de aceitar que a Síria, Cuba, a Líbia ou talvez o Paquistão presidam à comissão de direitos humanos como moeda de troca. A «real dimensão da tragédia» está ali, em dois milhões de mortos contados no ano passado.
Mais recentemente, num post absolutamente indispensável, o Francisco acrescentava: “A UE salvará a honra, chorará convenientemente, a imprensa lamentará, e a ONU poderá ajudar a enterrar os mortos. A raiva que nos dá.
Reagir à posteriori parece ser uma prerrogativa da ONU. E o remorso tardio parece ser o seu sentimento de eleição.
A 6 de Maio de 1998, em Kigali, a capital do Ruanda, o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan reconheceu inacção do mundo perante o genocídio que em 100 dias vitimou 800 mil pessoas: “[…]O mundo deve arrepender-se profundamente perante este fracasso. A tragédia do Ruanda era a tragédia do mundo. Todos nós que nos preocupamos com o Ruanda, todos nós que testemunhámos o sofrimento, desejamos ardentemente ter podido prevenir o genocídio. Olhando agora para trás, vemos sinais que na altura não reconhecemos. Agora sabemos que os nosso actos não foram nem de perto suficientes para salvar o Ruanda de si mesmo, não foram suficientes para honrar os ideais pelos quais as Nações Unidas existem. Não negaremos que, na hora em que mais precisavam, o mundo ignorou o povo do Ruanda […]” (o texto completo pode ser lido aqui: We Will Not Deny That, in Their Greatest Hour of Need, The World Failed the People of Rwanda).
Bill Clinton, então Presidente dos Estados Unidos, foi também a Kigali pedir desculpas: “[…]A comunidade internacional, juntamente com as nações de África, tem de reconhecer a sua parte de responsabilidade pela tragédia. Não agimos de forma suficientemente rápida assim que as matanças começaram. Não devíamos ter permitido que os campos de refugiados se tornassem abrigos para os assassinos. Não chamamos imediatamente estes crimes pelo seu nome verdadeiro: genocídio. Não podemos mudar o passado. Mas podemos e devemos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para vos ajudar a construir um futuro sem medo e cheio de esperança[…]” (texto completo: Clinton Presidential Center: “Speech by President to Genocide Survivors”).
Confrontados agora em Darfur com a repetição de um triste, e vergonhoso, ciclo da história recente, qual é o nosso papel – nós, cidadãos anónimos de um planeta cada vez mais interdependente?
Num email que enviei esta semana a centenas de bloggers, apelei à publicação de posts sobre a catástrofe humanitária e o genocídio que decorre no Sudão. A resposta superou, pela positiva, todas as minhas expectativas, traduzindo a existência de um sentimento comum que ultrapassa (na maior parte dos casos, com algumas notórias excepções, é certo) as habituais fronteiras de divisão política e mesmo geográfica. Nesse email, escrevi: “Pode ser muito pouco, pode até ser verdade que individualmente todos os nossos esforços possam valer quase nada. Mas o preço do silêncio é demasiado elevado quando temos diante de nós um meio de comunicação com um potencial tão elevado.
O progressivo aumentar de visibilidade da situação em Darfur junto da opinião pública é um primeiro passo que considero fundamental. Mas é preciso mais.
Recebi várias sugestões acerca do que poderíamos fazer agora com esta nova consciência colectiva.
Marco Oliveira, do excelente Povo de Bahá, propõe o envio de emails em massa. Primeiro aos nossos amigos. Depois aos responsáveis políticos. Este princípio não é novo e tem vindo a ser utilizado há mais de 40 anos pela Amnistia Internacional – curiosamente a Amnistia Internacional nasceu, em 1961, como consequência de uma notícia lida num jornal britânico pelo advogado Peter Benenson. A notícia falava de dois estudantes portugueses detidos em Lisboa depois de terem brindado à Liberdade.
Aqui vai a proposta de texto apresentada pelo Marco Oliveira:

A maioria de vocês talvez se recorde que quando se deram os massacres em Timor os nosso emails entupiram o servidor da Casa Branca, contribuindo de alguma forma para resolver essa crise. Neste momento há outra crise ainda mais grave e para a qual podemos contribuir.
Está a acontecer um genocídio no Sudão. As milícias Janjuweed, apoiadas pelo governo sudanês, têm bombardeado e massacrado as populações negras do Darfur. Destruíram colheitas e envenenaram poços. Agora impedem o fornecimento de ajuda humanitária.
Cerca de 130 países (incluindo Brasil e Portugal) assinaram uma Convenção Internacional em que se comprometem a agir para impedir actos de genocídio em qualquer parte do mundo. Por este motivo hesitam agora em usar a palavra “genocídio” neste caso.
Cerca de 1000 pessoas morrem todos os dias no Dafur; o número total de mortos poderá atingir 1 milhão. O tempo é o nosso pior inimigo. Dentro de alguns meses a doença e a morte terão feito o seu trabalho. Temos de agir agora.
Apenas uma intervenção internacional para proteger civis e assegurar a distribuição da ajuda humanitária poderá salvar o povo do Dafur. Por este motivo, e à semelhança do que se fez no caso de Timor, sugiro que se envie o seguinte email aos nosso políticos instando-os a tomar posição.
Por este motivo, sugiro que enviemos aos nossos dirigentes políticos o seguinte email:

Venho por este meio apelar a Vossa Excelência para que encoraje todos os governos europeus e as Nações Unidas a intervir imediatamente no Darfur (Sudão) com o objectivo de proteger os civis e garantir a distribuição de ajuda humanitária naquela província.
Neste planeta somos um só povo, e a vida de cada ser humano tem o mesmo valor. O extermínio em massa de seres humanos é um crime contra a Humanidade. A Comunidade Internacional tem a responsabilidade de proteger os direitos fundamentais de todas as pessoas. Quando um governo massacra parte da sua população, então a Comunidade Internacional tem o dever e a obrigação de intervir.
Durante muito tempo, permitiu-se que estes crimes ficassem impunes. Há cerca de 10 anos não houve uma acção atempada para impedir o genocídio no Ruanda. Agora, no Dafur, ainda estamos a tempo de impedir uma tragédia maior. Mas a acção tem de ser imediata.

Agradeço desde já as suas acções e iniciativas sobre este assunto.

(Para quem preferir uma versão menos uniforme, ou em inglês, um guia para redacção de cartas aos políticos pode ser encontrado aqui – Letter writing guide – Amnesty International)
Alguns contactos para onde este email pode ser copiado e enviado:

Portugal
Correio Electrónico para o Presidente da República / Governo / Assembleia da República: Contactos dos Deputados

União Europeia
Gabinete da Presidência da Comissão Europeia – Romano Prodi/José Manuel (Durão) Barroso / Contacto da Presidência Holandesa / High Representative for the Common Foreign and Security Policy (CFSP) Javier Solana – (assistentes/ porta-voz: Luís Amorim e Cristina Gallach) / EUROPA – ECHO – Contact us (Gabinete de Ajuda Humanitária) / Group of Policy Advisers – Foreign Policy / Comissão Europeia – Representação em Portugal / EUROPA – Europe Direct

Brasil
Presidência da República (escrever ao cuidado do Presidente) / Governo / Fale com o Governo / Ministério das Relações Exteriores, Divisão da África – II / Ministério das Relações Exteriores, Divisão da África – I

Angola
Ministério das Relações Exteriores (escrever ao cuidado de Sua Ex.a João Bernardo de Miranda) / Presidência da República de Moçambique, Gabinete de Imprensa / Ministro da Comunicação Social (escrever ao cuidado de Sua Ex.a Pedro Hendrick Vaal Neto)

Cabo Verde
Gabinete de Imprensa do Primeiro Ministro

Timor Leste
Gabinete do Presidente / Gabinete do Primeiro-Ministro / Ministério dos Negócios Estrangeiros

A LER: The New York Review of Books: Disaster in Darfur / Zackary Sholem Berger – “The UN and Darfur” / Darfur conflict – Wikipedia / Ambassador Danforth: Statement on the Situation in Sudan, July 30, 2004 / Sudan: The Passion of the Present: Sudan rejects UN resolution / Sudan: The Passion of the Present: The closed society of Sudan breeds terrorism as well as genocide.

“Mas nunca esqueçam (…), podemos então dizer ao povo do mundo inteiro, quer estejam em África, na Europa Central, ou em qualquer outra parte do mundo, se alguém perseguir civis inocentes e os tentar matar por causa da sua raça, da sua etnia ou da sua religião, e se estiver ao nosso alcance, nós iremos em sua defesa.”

Discurso de William J. Clinton, Presidente dos Estados Unidos da América, às tropas da KFOR, Macedónia, 22 de Junho de 1999 (texto completo; Remarks by the President to KFOR Troops in Macedonia)

Ainda o Genocídio em Darfur

“– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… […]”

Estilo, Herberto Helder.

Estou completamente imerso em trabalho, por causa da Convenção do Partido Democrata, mas não queria deixar de agradecer a resposta da blogosfera ao meu apelo. Num email com múltiplos destinatários, pedi posts sobre Darfur. Eles apareceram às centenas. Agora, é necessário pensar no passo seguinte. Já me chegaram várias sugestões através do Correio da Judiaria. Que venham mais.

Nunca Mais!

Em 1915, Henry Morgenthau, embaixador dos Estados Unidos em Constantinopla, respondeu às deportações e massacres da minoria arménia turca apelando a Washington para que condenasse oficialmente a Turquia e pressionasse a Alemanha, então aliada aos turcos. Morgenthau desafiou ainda as tradições diplomáticas protestando em nome pessoal contra as atrocidades, denunciando o regime turco e recolhendo fundos para ajuda humanitária às vítimas. A ele juntou-se o ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que foi mesmo mais longe, apelando à Administração de Woodrow Wilson para entrar na Primeira Guerra Mundial e por cobro aos massacres pela força. Mas os Estados Unidos apegaram-se à sua neutralidade e insistiram que as questões internas da Turquia não lhe diziam respeito. Cerca de um milhão de arménios foram assassinados ou morreram de doença ou fome durante o genocídio.
Raphael Lemkin, um judeu polaco especialista em Direito Internacional, avisou o mundo das intenções de Hitler na década de 1930, mas foi ridicularizado. Depois de encontrar refúgio nos Estados Unidos em 1941, não conseguiu encontrar apoio para medidas diplomáticas que protegessem os judeus em perigo.
Sem se deixar desencorajar, Lemkin inventou a palavra “genocídio” e assegurou a aprovação do primeiro tratado sobre direitos humanos das Nações Unidas, dedicado a banir o novo crime. Tristemente, ele viveria para ver a convenção sobre o genocídio ser recusada pelo Senado dos EUA. William Proxmire, um quixotesco senador americano do estado do Wisconsin, assumiu a causa de Raphael Lemkin e efectuou 3211 discursos no plenário do Senado apelando à ratificação do tratado da ONU. Após 19 anos de monólogos diários, Proxmire conseguiu que o Senado aceitasse aprovar a convenção sobre o genocídio, mas a ratificação americana continha tantas cautelas que a sua força era praticamente nula
.”
Retirado do prefácio do livro “A Problem From Hell – America and the Age of Genocide”, de Samantha Power.

Ao anunciar a solução final aos seus oficiais, assegurando que no futuro ninguém se recordaria dos judeus, Hitler terá dito: “Quem se lembra hoje do que aconteceu aos arménios?”.
A memória colectiva tende a ser demasiado curta em alturas cruciais. Já depois da ONU ter reconhecido oficialmente o genocídio como crime contra a Humanidade, o mundo voltou a repetir o colectivo encolher de ombros face ao Camboja – onde os Khmer Vermelhos de Pol Pot mataram mais de dois milhões de pessoas em dois anos –, a Timor Leste, à Bósnia e ao Ruanda. Agora, a História volta a repetir-se em África com a tragédia de Darfur.
Sobre Darfur, Samantha Power escreveu no início de Junho: “Cerca de 30 mil pessoas foram já assassinadas, e perto de milhão e meio foram vítimas de limpeza étnica, afastados das suas aldeias e terras de cultivo. Centenas de milhar foram encurraladas em campos de concentração, patrulhados por milícias janjaweed, apoiadas pelo governo, que violam mulheres e matam os homens que tentam sair em busca de comida para as suas famílias. Outros vagueiam pela região sem alimentos nem água. Entretanto, Khartoum tem bloqueado e manipulado a ajuda alimentar internacional.”
A crise humanitária de Darfur – o genocídio e a limpeza étnica que vitima a sua população negra– tem sido amplamente documentada (ver Darfur Humanitarian Emergency – Satellite Images), mas a reacção lenta e parcimoniosa da comunidade internacional parece provar uma vez mais o absoluto fracasso das suas instituições – especialmente daquelas criadas para evitar situações assim.
Ironicamente, os Estados Unidos foram o primeiro país a reagir aos acontecimentos, tentando por em marcha as pesadas roldanas da burocracia diplomática da ONU. Mas é claro, depois do fiasco do Iraque, das armas de destruição maciça que nunca existiram, do unilateralismo de Bush, da arrogância de Rumsfeld, ninguém lhes deu ouvidos. Só agora se começa a acordar.
Na semana passada, na campanha presidencial americana, John Kerry não mediu palavras em relação aos eventos de Darfur: “Esta Administração tem de se deixar de ambiguidades. Estas atrocidades apoiadas pelo governo sudanês têm de ser classificadas pela sua designação correcta – genocídio. O governo do Sudão e o povo de Darfur têm de perceber que os Estados Unidos estão prontos a agir, em harmonia com os nossos aliados e a ONU.”
No que diz respeito à opinião pública, a maior crise humanitária da actualidade continua ignorada. Na blogosfera portuguesa, Francisco José Viegas, no Aviz, e Bruno Sena Martins, no Avatares de um Desejo têm rompido o silêncio, chamando a atenção para a catástrofe com posts bem reflectidos. Mas é preciso mais.
Há poucos meses, em casa dos meus sogros, a família debruçou-se em redor de uma pilha de álbuns, daqueles com fotos amarelecidas de gente com roupas e penteados de outros tempos. Eram avós, tios, tias, primos e primas. A maioria sorria invariavelmente para a câmara, com expressões agora suspensas no tempo. Os sorrisos destes rostos do passado mostravam a despreocupação natural de quem tira um retrato de família, inconsciente dos horrores que se aproximam. Judeus polacos, a esmagadora maioria da família dos meus sogros – os que não tinham já escapado para Israel – morreu no Shoá, em lugares com timbre macabro: Auschwitz, Bergen-Belsen, Buchenwald e Dachau. Vítimas no maior acto de genocídio da História humana, deles apenas restam os fantasmas guardados naqueles álbuns de família. E a memória dos que ficaram. Porque a História, não se devia repetir. Nunca mais!

A LER: Samantha Power: Break Through to Darfur: Combine leverage, internationalism and aid to stop the killing in Sudan / Human Rights Watch – Sudan: Darfur Destroyed / Latest News From Sudan At Sudan.Net / Mathaba News Service – Sudan’s Ravines of Death / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – Ethnic Cleansing in Sudan Is Still Genocide / Jewish Coalition for Disaster Relief – Sudan Relief / UJA-Federation of New York: Sudan Becoming a Jewish Issue (JTA) / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – U.N. Failing in Conflict-Resolution Role / Mathaba News Service – Sudan Government Genocide Exposed / allAfrica.com: Sudan [press release]: UK Holocaust Centre Halts For Darfur / In Sudan, Death and Denial (washingtonpost.com) / The New York Times > Opinion > Op-Ed Columnist: Magboula’s Brush With Genocide / Activist sees plight of Sudanese refugees / World turns attention to Darfur / Darfur starvation will be televised … eventually / Muslim killing Muslim in Sudan / A conspiracy of silence on Darfur … in Beirut / Poynter Online – Sudan: The Untold Story / Estupro é arma de guerra no Sudão / A Problem from Hell: America and the Age of Genocide. A OUVIR: On The Media: Samantha Power on Darfur (formato RealAudio). Aconselho também uma visita diária ao blog Sudan: The Passion of the Present.

Amargura

As notícias tristes parecem chegar sempre de madrugada. São quatro e meia da manhã de uma noite em branco. Primeiro leio em inglês: Portuguese Guitar Master Paredes Dies at 79. Depois procuro a consolação da língua pátria vagueando por blogs e sites portugueses. Ponho a tocar baixinho Espelho de Sons, comprado há anos em Sunset Boulevard. Há dias em que a distância dói. A música humedece-me os olhos. Olho para a capa do CD, fixo-me na guitarra e quase juro que uma lágrima negra lhe escorre pela face.


(imagem de Carlos Paredes via Chafarica Iconoclasta)

::A LER:: O Mundo Segundo Carlos Paredes (Introdução de Viriato Teles ao disco Guitarra – O melhor de Carlos Paredes, Edição EMI-Valentim de Carvalho, 1998) / “Guitarra Portugesa” a poem by Michael Spring.
::A OUVIR:: O Mundo Segundo Carlos Paredes: Despertar.