Leonard Nimoy

Retratos V – Judeus na Primeira Pessoa


Desde criança que me recordo de uma benção específica praticada regularmente na nossa sinagoga. Os dedos de cada mão eram separados para recriar o shin [ש], a letra hebraica que representa Shad-ai, um dos nomes divinos. Quando criámos a série Star Trek precisávamos desesperadamente de uma saudação única para o meu personagem. Lembrei-me daquele gesto ancestral e propus que o usássemos. O resto, como se costuma dizer, faz parte da história.
Porque me lembrei daquele gesto? Os actores tentam incutir algo de pessoal nos papéis que encarnam. Provavelmente, então, foi a convergência das minhas existências: espiritual e profissional. Provavelmente, posso chamar àquela saudação o meu shalom vulcano, a minha saudação de paz, a minha ânsia pela benção da paz: a busca ancestral do povo judeu, o meu povo.

Leonard Nimoy, actor, escritor e fotógrafo. Testemunho publicado na revista de domingo do New York Times, a 22 de Dezembro de 1996.

O Judaísmo do Dr. Spock
A benção judaica popularizada por Leonard Nimoy (o Dr. Spock) em Star Trek chama-se Birkat ha-Cohanim (Benção Sacerdotal), constituída por três versículos da Torá (Bamidbar [Números] 6:24-26), recitada de forma cadenciada pelos cohanim (descendentes directos de Aarão, irmão de Moisés, habitualmente reconhecíveis pelo sobrenome – Cohen, Kohen, Konn, Kahn, Kane, Coen, Sacerdote, Kaplan, Papp etc.):

O Senhor te abençoe e guarde. O Senhor faça resplandecer a sua presença sobre ti, e tenha misericórdia de ti. O Senhor sobre ti levante a sua providência, e te dê a paz.

יְבָרֶכְךָ יְהוָה, וְיִשְׁמְרֶךָ
יָאֵר יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וִיחֻנֶּךָּ
יִשָּׂא יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וְיָשֵׂם לְךָ שָׁלוֹם

Na Diáspora, a benção é administrada nos dias santos, à excepção do Purim e Hanuká. Em Israel, é recitada diariamente. O gesto sacerdotal, que para além da letra shin (ש) representa cabalisticamente as três colunas sefiróticas da Árvore da Vida, é tradicionalmente inscrito também nas pedras tumulares dos cohanim.

Spock e a benção dos Cohanim Pedra tumular da campa de um cohen

Campa de um Cohen

::A LER::
Leonard Nimoy: Leonard Nimoy Photography / Leonard Nimoy Gallery: Photos / Leonard Nimoy: Internet Movie Database / Spock Sings: The Ballad of Bilbo Baggins (vídeo) / The Leonard Nimoy Album Page / Fascinating – the Leonard Nimoy fanlisting / Leonard Nimoy: His Fabulous Music and Poetry / I Am Spock / Spaced Out – The Very Best of William Shatner & Leonard Nimoy / Shekhina (livro de fotografia)

A genética e os Cohanim: Science News – The Priests’ Chromosomes – DNA Analysis Supports the Biblical Story of the Jewish Priesthood / Tracing the Cohanim / Jewish Genes / Jewish Priests / Revista Morashá – O DNA dos Cohen

Reconstrução de Identidades

Numa instalação disponível online, o fotógrafo chileno Rafael Goldchain tenta resgatar as suas raízes perdidas na memória, encarnando e reconstruindo os seus antepassados – judeus polacos – numa série de auto-retratos. A exposição intitula-se El Terreno Familiar a vale bem a pena ser visitada. [A dica veio de Alberto Lyra, autor do excelente Letteri Café]
Nascido em Santiago do Chile, em 1953, Rafael Goldchain emigrou para Israel nos anos 70 e actualmente vive e trabalha em Toronto, no Canadá.

Rafael Goldchain - El Terreno Familiar

Rafael Goldchain - El Terreno Familiar

Rafael Goldchain - El Terreno Familiar

 Rafael Goldchain - El Terreno Familiar

::A VER:: El Terreno Familiar / RafaelGoldchain.com / Rafael Goldchain – Portraits from Latin America / Les oeuvres de Rafael Goldchain / Faculty of Fine Arts Success Stories / EXHIBITION: Nostalgia for an Unknown Land:Photographs by Rafael Goldchain / The Leopold Godowsky Jr. Color Photography Awards, 1989: Rafael Goldchain / NOW Online Edition

Não como um Cipreste

Não como um cipreste,
não todos ao mesmo tempo, não todo de mim,
mas como a erva, em milhares de cautelosos fios verdes,
escondidos como muitas crianças
enquanto outra as procura.

E não como o homem só,
como Saul, que a multidão encontrou
e fez rei.

Mas como a chuva em muitos lugares,
de muitas nuvens, para ser absorvida, para ser bebida
por muitas bocas, para ser respirada
como o ar de todo o ano
e espalhada como rebentos de primavera.

Não a campainha aguda que acorda
o médico guardando o paciente,
mas o toque leve, em muitas pequenas janelas,
com o bater de muitos corações.

E depois da suave saída, como fumo
sem o som estridente do shofar, um estadista demite-se,
crianças cansam-se de brincar,
uma pedra pára de rolar
numa inclinada colina, no lugar
onde começa a planície das grande renúncias,
de onde, como orações respondidas,
se levanta poeira numa miríade de grãos.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Richard Kaplan – A Música dos Judeus do Iraque

Músicas da Judiaria III

 Richard Kaplan


Hallelu Avdey Adonai

Foi hoje actualizada a canção das Músicas da Judiaria, uma rubrica permanente já na sua terceira edição. Esta semana, os leitores da Judiaria podem ouvir Richard Kaplan (na foto), um etnomusicólogo que dedicou a sua carreira a estudar e interpretar a música tradicional dos judeus da Diáspora. A canção escolhida é Hallelu Avdey Adonai (Adorai, Servos do Senhor), uma composição litúrgica tradicional dos judeus iraquianos – uma canção responsorial que segue a ordem crescente do alfabeto hebraico na enumeração dos atributos do Criador: “Bendito dos Benditos”, “Antigo dos Antigos”, “Santo dos Santos”. O refrão é retirado da primeira linha do Salmo 113.

Edições anteriores das Músicas da Judiaria:
I – Shlomo Bar e os Habrera Hativeet (canção: “Yeladim Ze Simcha” / II – Suzy (Herencia (canção: “Mar de Leche”)

Os Judeus do Iraque

Hallelu Avdey Adonai, da edição desta semana das Cantigas da Judiaria, pertence à tradição litúrgica dos judeus do Iraque, uma comunidade milenar, cuja origem remonta à deportação das “Dez Tribos” que habitavam o Reino do Norte de Israel, no século VIII AEC*. A população judaica da Babilónia – terra natal do Patriarca Abraão – sofreu um aumento significativo, após a destruição do Primeiro Templo por Nabucodonosor, com a deportação forçada de centenas de milhar de judeus, em 586 AEC. Mais tarde, a mesma comunidade receberia novos influxos de refugiados, especialmente após a Judeia ter deixado de ser um estado independente, sob o braço de ferro de Vespasiano e Tito, no ano 70, e depois do esmagamento da revolta de Bar-Kochba, no ano 135.
Devido às condições de tolerância relativa em que viviam os judeus na Babilónia, a comunidade prosperou e por alturas da destruição do Segundo Templo era já composta por cerca de um milhão de pessoas.
Culturalmente, os judeus da Babilónia rapidamente ultrapassaram os seus congéneres que permaneceram na terra natal da Judeia. O Talmude da Babilónia (distinguindo-se do Talmude de Jerusalém) foi composto no seio desta comunidade e continuamente ensinado em academias judaicas em Sura, Pumbeditha e Nehardea. Os judeus da Babilónia dominaram cultural e religiosamente o mundo judaico até ao século XI, altura em que a comunidade começou a entrar em declínio, eclipsada agora pelos judeus da península Ibérica.
A partir do século XVIII, os judeus de Bagdade, e de toda a Mesopotâmia, começaram a ser vítimas de uma repressão crescente por parte dos líderes islâmicos. No início do século XIX, muitos judeus iraquianos emigraram para a Índia, para a China e para a Europa Ocidental.
Após a criação do estado de Israel, os judeus iraquianos sofreram novas perseguições e pogroms, uma situação que deu origem, em 1951, a uma gigantesca “ponte aérea” de emigração para Israel (ver Operations Ezra & Nechemia: The Aliyah of Iraqi Jews). De um total de mais de 150 mil em 1948, actualmente residem ainda no Iraque apenas 34 judeus.

* Antes da Era Comum, designação “religiosamente neutra” adoptada pelos historiadores em detrimento de “Antes de Cristo”

 Escrituras sagradas judaicas em Bagdade após a invasão
Escrituras sagradas judaicas recuperadas em Bagdade, em finais de 2003, após os motins e pilhagens que marcaram as semanas seguintes à queda do regime de Saddam Hussein.

A LER: The Scribe – Journal of Babylonian Jewry / Iraqi Jews fight for Independence in the Arab Revolt of 1916-18 / The Search for a Talmud in Baghdad / The Few Remaining Jews in Baghdad / Baghdadi Jews in Shanghai / Reason: Babylonian Hostility: In Iraq, the Jews – and anti-Semitism – are everywhere / From the Kitchen of Babylonian Jews.

A Matemática Sagrada do Judaísmo

“Pobre daquele que olha para a Torá e apenas lhe vê histórias.”
Rabino Shimon Bar Yochai (século I)

KabbalahDesde os tempos mais remotos que os místicos judaicos buscaram nos textos sagrados interpretações para além do simples literalismo. Para os sábios ancestrais do judaísmo, as escrituras encerram códigos imperceptíveis aos que as lêem de forma literal. Uma das mais fascinantes disciplinas do judaísmo, feita de uma confluência notável de conceitos pitagóricos e espiritualidade mística, faz a leitura dos códigos embutidos nas escrituras recorrendo às matemáticas.
No hebraico a cada letra corresponde um valor numérico (ver Gematria Hebrew Letter Chart) – um pouco à semelhança do que acontece, por via latina, com a numeração romana. O estudo da correlação entre as letras do alfabeto hebraico, a numerologia e a leitura de significados não literais nas escrituras assenta nas raízes tradicionais do misticismo judaico – a Cabalá (ou Kabbalah), uma palavra hebraica que literalmente significa “tradição recebida”.
Considerado o mais antigo, e enigmático, tratado cabalístico, Sefer Yetzira, O Livro da Criação, atribuído ao patriarca Abraão, nas suas 32 páginas é demonstrativo da importância intrínseca do alfabeto hebraico e da gematria na construção da tradição mística judaica.
Assim, para o judaísmo, um dos grandes problemas decorrentes de qualquer tradução da Torá (conhecida pelos cristãos como Antigo Testamento) é a perda do significado místico contido na escrita hebraica. Ficam as “histórias”, mas desaparecem os códigos que elas “escondem”.
Recentemente, os códigos cabalísticos da Torá encontraram uma nova audiência mundial depois de Michael Drosnin, jornalista do Wall Street Jounal e do New York Times, ter escrito, em finais de 1997, o bestseller The Bible Code (Os Códigos da Bíblia), baseado integralmente no trabalho do matemático israelita Elyahu Rips.
Aqui na Judiaria já se escreveu também sobre numerologia judaica, a propósito da alegada conotação aziaga do número 13 (ver 13: Azar ou Sorte?).
Depois do desejo manifestado por um número significativo de leitores no sentido de poder ler mais sobre guimátria (ou gematria, segundo a transliteração anglofona, habitualmente mais utilizada) e numerologia hebraica, convidei o professor David Zumerkorn – um conceituado matemático brasileiro e estudioso do misticismo judaico – a escrever um pequeno ensaio em exclusivo para a Rua da Judiaria.
O resultado é um texto fascinante intitulado “MatemaTORAH – Os Códigos da Torah e a Numerologia Judaica .
David Zumerkorn é doutorado em Engenharia Mecânica e professor de Matemáticas Aplicadas e Cálculo Integral e Diferencial da Universidade de São Paulo. Judeu brasileiro (Baal Teshuvah) oriundo de uma família religiosa tradicional, é hoje um dos mais conceituados conferencistas mundiais de Numerologia Judaica, com trabalhos publicados tanto na Imprensa generalista como em publicações académicas. David Zumerkorn é também um estudioso ávido do misticismo judaico, disciplina que investiga seguindo o processo tradicional de acompanhamento rabínico, aplicando aqui às ricas tradições judaicas os seus profundos conhecimentos matemáticos. Na prática, pode dizer-se com toda a propriedade que David Zumerkorn é um “cientista da Torá”.
De forma a manter a integridade gráfica do original (tanto no hebraico transcrito como nas tabelas apresentadas), o texto do professor Zumerkorn é apresentado aqui na Rua da Judiaria em formato Adobe PDF .
David Zumerkorn é ainda o autor do livro Numerologia Judaica e os Mistérios da Bíblia, recentemente lançado em Portugal e no Brasil – a primeira obra sobre gematria originalmente escrita em português em mais de 500 anos.
Um livro a não perder, que pode ser encontrado aqui:
Numerologia Judaica e os Mistérios da Bíblia (Edição Portuguesa) / Numerologia Judaica e seus Mistérios (Edição Brasileira, disponível também aqui, via Fnac Brasil)

De Clemencia

Levántese la veda.
Proclámese la perfectibilidad del número ocho.
Convóquense cuatro parejas de recientes antepasados
al pie del tabernáculo.
Alcen la vista.
Llámenme que vendré de la veda vendré
de la risa dando vueltas (tiovivo) número ocho.
Den orden de presencias en este instante preciso
la bruma se alce transverbere la llamarada
los gorriones anuncien la llegada del
Arcángel estén al fiel las balanzas.
Campanilla de plata (dos) cedro del Líbano
la taracea cortina de terciopelo escarlata en oro
la sagrada inscripción: alcen las cuatro parejas
inmaculadas la voz.
Edad: treinta y cinco años. El Berith.
Una tiara de catarinas gualda rubí en la frente.
Vestidos estampados. Pantalón negro camisa
blanca de algodón botones de nácar. Los
rostros cera alabastro ocho pares de ojos zarcos.
Jerusalén.
Jerusalén Celeste.
Doce veces del subsuelo peldaños labrados
(saron) (Toráh) a las alturas Jerusalén Celeste.
A Jerusalén la Magnífica invocad al unísono
ojos en alto enajenados a toda condición:
en devoción una (única) los rostros cubiertos
(tapad) (tapad) manto de las devociones:
adentro la mirada en alto asidos a la gargantilla
(zafiros) zarcillos (ópalos) alianzas (platino):
inscripción del nombre sagrado del ignoto
nombre.
Parajes.
Puerta una (única) el borbotón instantáneo de la luz.
Treinta y cinco años.
En los parajes convocados a la intemperie creced
a la muerte corresponded a la muerte
labrad de la oscura letra inerte la ignota letra
del ignoto nombre.
Alabad alabad el Desconocimiento.
Salmos de oscuridad. Responde el progenitor. Acata acata acata.
Su esclavitud somete
al estiércol. Árbitro del Universo, acata. Blanca
doncella de banquetes pestilentes lo convoca.
Es momentáneo (instantáneo): nec metu.
Yo soy el hijo saltimbanqui (congregado).
Abro la boca (canto) (bailo) de Sidón al Tabor
a las llanuras de Sarón a Jerusalén.
Celeste Jerusalén.
A Jerusalén la Magnífica invoco
pasto de llamas verdugones enrarecido aliento
ojos pitañosos la cáscara
del rostro de gorriones
picoteada.
Soy el noveno de hinojos, en la hilera
(arrecife poroso el esqueleto): calvo mantillo
avispero celdilla hormiguero sudario azul.
Carne lechal.

José Kozer, poeta, judeu cubano, vencedor do Prémio Gulbenkian de Poesia em 1967.

A Diáspora – Judeus Portugueses na Noruega


No site oficial da comunidade judaica de Oslo (Det Mosaiske Trossamfund i Oslo) conta-se a curiosa história da presença dos judeus na Noruega. Num país onde desde o ano 1000 o rei Olav den Hellige (conhecido como São Olavo) proibira a residência a todos os que não professassem a religião cristã, os primeiros não-cristãos a instalarem-se no país, por volta do século XVI, foram judeus portugueses (portugiserjøder). Os judeus portugueses, alguns deles emigrados já na Holanda, foram autorizados a entrar e a estabelecer-se no reino da Noruega pelo rei Christian IV, um beneplácito que continuou a ser negado durante algumas décadas às restantes comunidades judaicas europeias.
Os judeus portugueses fixaram-se inicialmente no ducado de Schleswig-Holstein, hoje parte da Alemanha. Ao contrário do que acontecia na maioria dos países europeus, os portugueses encontraram na Noruega alguma liberdade – não foram forçados a viver em guetos ou judiarias e nem a usar roupas ou dísticos que os destinguissem como judeus aos olhos da restante população. Em 1641 o rei alargaria a sua protecção também aos judeus da Europa Central e de Leste.
Lê-se ainda no site Det Mosaiske Trossamfund i Oslo: “O sucessor de Christian IV, o rei Fredrik III, não foi tão liberal quanto o seu predecessor e durante o seu reinado os judeus viveram sob grandes restrições. Não lhes era permitido viver no reino sem um visto especial. Em 1687, quando a Noruega e a Dinamarca foram unificadas sob legislação do rei Christian V, foi reinstituída a proibição dos judeus entrarem no reino. Havia uma pesada multa para quem violasse a lei e uma recompensa para os que denunciassem judeus. Cerca de 150 anos mais tarde, em 1830, a atitude oficial face aos judeus tornou-se mais branda e em 1844 o Ministério da Justiça decidiu que os “judeus portugueses (portugiserjøder)” poderiam entrar livremente no país.”

O “senhor Sharafat”: dois homens teimosos e muitos mortos

Amos OzArad, Israel — No sábado à noite, uma bebé israelita de nove meses foi assassinada em Natania por um grupo de palestinianos armados. Poucos dias antes, uma outra criança, palestiniana, morreu vítima da explosão de uma bomba israelita. Civis inocentes morrem, assassinados nos dois campos, praticamente todos os dias. Morrem, não porque não existe uma forma de resolver a crise. Antes pelo contrário.
Cada israelita nas ruas sabe qual é a solução, da mesma forma que cada palestiniano também a conhece. Mesmo Ariel Sharon e Yasser Arafat sabem qual é a solução: paz entre dois estados, fundamentada sobre a partilha da terra com base na realidade demográfica e nas fronteiras de Israel pré-1967.
Durante um longo período de insónias, às vezes penso que gostava de acreditar em fantasmas. Dou voltas na cama e imagino que sou capaz de conjurar os fantasmas de todas as crianças mortas, israelitas e palestinianas, para assombrarem o senhor Sharon e o senhor Arafat. Imagino que sou capaz de juntar estes inocentes em volta das camas dos dois líderes; dois homens, ambos com mais de 70 anos, um prisioneiros do outro, um à mercê do outro. Cada um pronto para agir diariamente exactamente como prevê o adversário, a atirar mais combustível às chamas, a derramar ainda mais sangue.
Às vezes, nestas noites sem dormir eu vejo os dois homens condensados na personagem única de um Nero perverso, que se diverte brincando com o fogo, rindo selvaticamente enquanto abana as chamas. Durante estas noites problemáticas, acabo também por desejar o oposto – que Sharon e Arafat não sejam assombrados pelos fantasmas das crianças mortas, mas em vez disso sejam levados para dormir longe, durante semanas e meses, acordando apenas depois da assinatura de um tratado de paz.
A História jamais esquecerá as suas ofensas. As suas culpas. Porque a solução existe. Está aqui, visível e manifesta em frente de todos nós. Todos os israelitas e todos os palestinianos sabem que esta terra será dividida em duas nações soberanas, transformando-se em duas casas geminadas onde moram duas famílias. Mesmo aqueles que abominam este futuro já sabem, no fundo dos seus corações, que tudo isto é inevitável.
Suspeito que mesmo os dois irmãos siameses Sharon e Arafat – eu agora chamo-lhes “Senhor Sharafat” – sabem que será assim. Mas são sufocados pelo medo e a estagnação. Vivem dominados por um passado manchado de sangue. São reféns um do outro, tanto quanto a dinâmica histórica do conflito do Médio Oriente se tornou refém dos seus medos, da sua imobilidade.
Um dia, quando se alcançar um tratado de paz, e o embaixador palestiniano apresentar as suas credenciais ao presidente de Israel na secção ocidental de Jerusalém, enquanto o embaixador israelita as apresenta ao presidente palestiniano em Jerusalém oriental, seremos todos obrigados a rir da estupidez do nosso passado. Mas, mesmo por entre esse riso, seremos obrigados a responder por tanto sangue inocente derramado. As mães e os pais dos mortos não rirão connosco.”

Amos Oz, escritor israelita e activista pela paz. Artigo publicado no New York Times a 12 de Março de 2002.

NOTA – Sobre o último romance de Amos Oz publicado em Portugal, O Mesmo Mar (Edições Asa), José Mário Silva, do BdE – Blogue de Esquerda (II), escreve uma muito boa recensão na edição de hoje do Diário de Notícias, sob o título Cantata para cinco vozes perdidas e muitas sombras. Vale a pena ler. O romance e o que sobre ele escreveu José Mário Silva.

Poema Temporário do meu Tempo

A escrita hebraica e a escrita árabe vão de Oriente para Ocidente,
A escrita latina, de Ocidente para Oriente.
As línguas são como os gatos:
Não se devem acariciar contra a corrente do pelo.
As nuvens vêm do mar, o vento quente do deserto,
As árvores vergam-se ao vento,
E pedras voam aos quatro ventos,
A todos os quatro ventos. Eles atiram pedras,
Atiram esta terra, um ao outro.
Mas a terra sempre cai na terra.
Atiram terra, querem livrar-se dela.
As suas pedras, o seu solo, mas dela não se livram.
Eles atiraram pedras, atiraram-me pedras
Em 1936, 1938, 1948, 1988,
Semitas atiram pedras a semitas e antisemitas a antisemitas,
Homens reles atiram e homens justos atiram,
Pecadores atiram e sedutores atiram,
Geólogos atiram e teólogos atiram,
Arqueólogos atiram e arqui-hooligans atiram,
Rins atiram pedras e bexigas atiram,
Pedras tumulares e pedras tombadas e corações de pedra,
Pedras em forma de uma boca que grita
E pedras que tapam os olhos,
Como um par de óculos.
O passado atira pedras ao futuro
E todos atiram pedras ao presente.
Pedras que choram e gravilha que ri,
Até Deus atirou pedras na Bíblia,
Até se atirou o Urim e Tumim,
Preso no peito da justiça,
E Herodes atirou pedras e delas se fez um Templo.

Ai, o poema de tristeza empedrada
Ai, o poema atirado às pedras
Ai, o poema de pedras atiradas.
Haverá nesta terra
Uma pedra que nunca foi atirada,
E nunca construida e nunca virada
E nunca destapada e nunca descoberta
E nunca gritada numa parede e nunca relegada por pedreiros
E nunca fechada sobre uma campa e nunca posta debaixo de amantes
E nunca transformada em pedra angular?

Por favor, não atirem mais pedras,
Estão a empurrar a terra,
A Santa, toda, e aberta terra,
Estão a empurrar a terra para o mar
E o mar não a quer
O mar diz, não em mim.

Por favor atirem pedras pequenas,
Atirem fósseis de caracóis, atirem cascalho,
Justiça ou injustiça das pedreiras de Migdal Tsedek,
Atirem pedras suaves, atirem nuvens doces,
Atirem pedra calcária, atirem barro,
Atirem areia da praia,
Atirem poeira do deserto, atirem ferrugem,
Atirem solo, atirem vento,
Atirem ar, atirem nada
Até as mãos se cansarem,
Porque a guerra cansa
E até a paz será cansada
e será.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Paz – שלום

שלום

Sábado à noite, em Tel Aviv, cerca de 200 mil pessoas manifestaram-se em nome da paz, a favor da retirada dos territórios ocupados. Na mesma praça onde Yitzhak Rabin foi assassinado, em 1995. As últimas sondagens, mesmo as de jornais conservadores como o Maariv, mostram que 80% dos israelitas querem o fim da ocupação e o reatar das conversações de paz. Não se queimaram bandeiras. Não se pediu a morte de ninguém. Não se viram armas no ar. שלום. Simplesmente שלום.

שלוםשלום

שלוםשלום

שלום

A Ler: Maariv International – Over 150,000 call for Gaza withdrawal / NPR Audio: Israelis Call for Gaza Pullout at Peace March / Haaretz – Over 150,000 attend rally calling for Gaza withdrawal / Haaretz – `The majority’ is waking up / Jerusalem Post – Peres: We must not support gov’t that follows the Right / Haaretz – The left won t be held hostage by the Likud / Jerusalem Post – Katsav: Majority supports Gaza withdrawal / New York Times News Services – Israelis rally for pullout from Gaza / swisspolitics.org Israelis rally for Gaza pullout / Reuters News – Gaza Pullout Rally Draws Tens of Thousands in Israel CBS News Mass Israeli Rally For Gaza Exit / Maariv International – 79 percent of Israelis want to withdraw from Gaza / The Guardian – 100,000 tell Sharon to get out of Gaza / The New York Times > Opinion – Tyranny of the Minorities

Suzy

Músicas da Judiaria II

Suzy, a nova estrela da música em Ladino


(clique para ouvir a canção)

Tal como prometido, foi actualizada a canção das Músicas da Judiaria, uma nova secção com direito a link arquivo permanente na coluna da direita. Depois de Shlomo Bar, cabe esta semana a vez de Suzy, uma cantora israelita nascida na Turquia que mantém vivas as tradições melódicas dos judeus ibéricos expulsos de Portugal e Espanha nos finais do século XV. A canção é Mar de Leche, uma cantiga tradicional em ladino cantada há mais de 500 anos por judeus da Diáspora sefarditas.

Si la mar era de leche
Yo me aria un pescador
Pescaria mis dolores
Con palavricas d’amor
Dame la mano, palomba
Pora suvir al tu nido
Maldicha que durmes sola
Vengo a durmir contiyo

Para mais sobre o ladino – a língua mesclada feita de espanhol e português medievais falada pelos antigos judeus ibéricos – é só clicar no link das Músicas da Judiaria e seguir as sugestões propostas.

Bernard-Henry Lévy

Retratos IV – Judeus na Primeira Pessoa

Bernard-Henry Lévy

Sou judeu por parte da minha mãe e do meu pai. Sou judeu por parte de Lévinas, Buber, Rosenzweig. Sou judeu porque ser judeu significa amar mais a lei do que a terra e a letra tanto quanto o espírito.
Sou judeu em resultado de uma desconfiança, que sempre senti, em relação a estados extáticos e extremos de paixão religiosa.
Sou judeu em resultado da minha rejeição de todas as formas de magia ou mistério: “Cautela”, gritou Lévinas, autor de Difficíle Liberté, Essais sur le Judaïsm, “com todos os falsos profetas que dizem que o homem está ‘mais perto dos deuses quando deixa de pertencer a si próprio’! Em guarda, judeus, contra o esquecimento de que o judaísmo é a única religião no mundo que prega a recusa das forças obscuras – a religião do desencanto, do santo e não do sagrado!” É assim que sou judeu.
Sou judeu porque sou antinaturalista e antimaterialista – sou judeu, por outras palavras, porque me sinto em casa no Livro e entre os homens, mais do que na obscura floresta de símbolos e até na vida.
Sou um judeu do galout (exílio, diáspora); sou um judeu que, há anos e anos, reflecte nesta questão do galout; não propriamente na reabilitação do galout; não, falando correctamente, na metafísica do galout; e, ainda menos, na distância em relação a Israel, que amo do fundo do coração, um amor incondicional; mas a meditação num exílio essencial, sem redenção nem retorno, que para mim parece constituir o que significa ser judeu, tanto no galout como em Israel; o contrário do exílio de Ulisses; a correlação e parte do fascínio, judaico também, com o reino dos céus; não é Judeu o nome, igualmente, do filho de Abraão (o Hebreu) e de Jacob (o Israelita)? Não é a filosofia judaica, indissociavelmente, a filosofia dos reis e dos profetas, de Israel e a da voz que, através de Jeremias, implora ao “resto de Israel” para “fortificar as suas posições no exílio”?
Sou judeu porque não sou um platónico; judeu por causa do que chamarei, para ser sucinto, anti-platonismo coextensivo ao pensamento judaico; uma ética mais do que um ponto de vista; uma relação com os outros homens tanto quanto com Deus ou, mais exactamente, a Deus, sim, mas porque, e somente porque, me traz mais perto do meu semelhante.
Sou judeu como Lévinas quando ele discute a amizade com Buber. Nessa discussão, que é digna, pelos seus termos, da famosa disputa em que Proust, sobre o mesmo tema, acaba por atirar os sapatos à cara de Emmanuel Berl, Lévinas expressa a sua desconfiança das noções buberianas de diálogo e reciprocidade. Sou judeu, sim, na forma como Lévinas declara ser estranha e irrelevante a ideia de uma amizade puramente espiritual, ou “desnervada”, que pode apenas cair em “formalismo”. Ele conclui com estas formulações magníficas, que são parte do meu judaísmo: o Outro necessita mais de “solicitude” do que de “amizade”, porque “vestir os que estão nus e alimentar os que têm fome é o real e concreto acesso ao Outro, mais autêntico do que amizade etérea.”
Sou um judeu que não é realmente um humanista (a palavra perde o sentido para um leitor, mesmo o menos versado, do Maharal de Praga ou do Gaon de Vilna), mas sou consciente de um judaísmo que me faz responsável pelos outros, o seu guardador – um judaísmo que se define, assim, como uma ética e define esta ética como aquela que é estabelecida quando eu resolvo fazer de mim não o igual mas o refém do meu semelhante e que vejo, sobre o meu “eu”, um “Ele” que me domina das sagradas alturas.
Sou um judeu que não é obviamente político (como pode um estudante de Lévinas esquecer o seu Politique Aprés?) mas aberto, por outro lado, ao mundo e a fazer do messianismo a responsabilidade básica do homem, de cada homem, no trabalho de redenção.
Sou um judeu universalista.
Sou um judeu que não se resigna a deixar ao cristianismo o monopólio do universalismo. O “povo escolhido”, tanto para mim como para Lévinas e Albert Cohen, não é um privilégio, mas uma missão. O papel do povo judeu, tanto para mim como para Rosenzweig, é abrir, a todos os povos, as invisíveis e sagradas portas que iluminam a estrela da redenção. É este, aos meus olhos, o significado do mandamento de Deuteronómio: “Não abominarás o idumeu, pois é teu irmão; não abominarás o egípcio”; e também na história de Jonas, a quem Deus diz: “Levanta-te, vai à grande cidade de Ninive e clama”, mesmo quando Ninive é, como ele sabe, o inimigo de Israel, a capital da Assíria, o próprio reino do mal.
Sou um judeu tal como Walter Benjamin quando Benjamin fala da sua “solicitude para com os vencidos e famintos” – sou judeu no sentido de Poésie et Revolution e de Teses Sobre o Conceito da História mostrando que “cada segundo é a porta estreita através da qual pode passar o messias.”
Sou um judeu que acredita, como Benjamin e, de certa forma, Scholem, que o messianismo judaico é a “encarnação de uma história secreta e invisível” que “se contrapõe à história dos fortes e dos poderosos”, que é como quem diz a “história visível” – toda a minha vida acreditei neste judaísmo, e isto é o que tenho praticado.
Fui judeu, por outras palavras, no meu Réflexions sur la Guerre, le Mal e la Fin de l’Histoire. Fui judeu no Burundi, em Angola, e na Bósnia muçulmana. Fui judeu entre os nubios a caminho de serem exterminados no sul do Sudão.
Fui judeu cada vez que, nas mais desoladas zonas do mundo, no coração das suas mais esquecidas guerras, eu aprendi a instrução judaica segundo a qual a mais séria prova da existência de Deus é a existência de rostos – e o sinal do eclipse de Deus é o seu apagamento programado.
Sou judeu porque acredito num Deus que por outra definição é “Não Matarás”.
Sou judeu quando tentei, ao longo de um ano, traçar os passos de Daniel Pearl, e sou judeu quando, à minha maneira, modesta e secular, sim, mas à minha maneira, tento contribuir para a santificação do seu nome.

Bernard-Henry Lévy, filósofo, escritor, jornalista e ensaísta francês. Retirado do livro “I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl”, 2004.

Tortura, Humilhação e Ódio

Tortura, Humilhação e Morte

Há 10 anos, sentado no chão da mesquita de Regent’s Park, em Londres, assisti a várias reuniões de extremistas islâmicos, resultado de um trabalho que haveria de escrever para a Grande Reportagem. Depois de meses de aproximação e conversas, Farid Kassim, um dos líderes britânicos do Hizb ut-Tahrir – e homem-de-mão do sheikh Omar Bakri Muhammad, o auto-proclamado “porta-voz” de Osama bin Laden no Reino Unido –, confiara em mim o suficiente para me deixar entrar e fotografar “círculos de discussão”, uma espécie de reuniões fundamentalistas de recrutamento organizadas na mesquita pelo Hizb ut-Tahrir, logo a seguir às orações de sexta-feira.
Farid Kassim, com pouco mais de 30 anos na altura, falou comigo sentado numa cadeira de rodas pintada de um vermelho vivo. Os seus olhos azuis, claros, uma herança britânica por parte da mãe, eram intensos e provocavam em mim um inexplicável sentimento de desconforto.
“O Islão não é uma religião de paz. O Corão tem centenas de versículos que apelam à guerra e à vingança”, disse-me ele com um sorriso, acrescentando um chorrilho de frases que destilavam um ódio primário contra os judeus. Anos mais tarde, em Los Angeles, Haidar, um amigo sufi (صوف), havia de me mostrar o oposto – um Islão de paz e contemplação, de respeito pelo outro e pela vida. Pessoalmente, confio muito mais em Haidar do que em Farid Kassim. Mas é a visão deste último que prevalece nas notícias e nas imagens cruéis que me entram agora pela casa dentro.
Hoje, a 10 anos de distância, é impossível olhar para as tardes que passei na mesquita de Regent’s Park com Farid Kassim, e com o vespeiro de terroristas do Hizb ut-Tahrir, sem que me sinta invadido por um intenso sentimento de impotência e angústia.
Abu Musab al-Zarqawi – braço direito de Osama bin Laden no Iraque –, o alegado carrasco que degolou e decapitou Nick Berg, foi originalmente membro do Hizb ut-Tahrir na Jordânia. Khalid Sheikh Mohammed, o número dois da al-Qaeda, foi também membro do Hizb ut-Tahrir no Egipto, tal como Omar Ahmad Saeed Sheikh, o responsável pela morte do jornalista Daniel Pearl, há dois anos, no Paquistão.
Tal como Daniel Pearl, Nick Berg era judeu. Teria o seu judaísmo – provavelmente mais do que a cidadania americana – alguma coisa a ver com a morte brutal sofrida às mãos de al-Zarqawi? A semântica destes ódios parece fornecer uma resposta insofismável.
Muito se tem falado da divulgação de imagens chocantes e dos fins que estas servem. É certo que há diferenças.
As da prisão de Abu Ghraib, degradantes e nojentas, desencantadas pelo brilhante trabalho jornalístico de Seymour Hersh, provocam investigações e debates inquestionavelmente necessários no seio de uma sociedade que há muito se habituou a esmiuçar os seus lados negros. Uma sociedade onde há muito existem também consequências para os que transgridem.
As outras, da decapitação de Nick Berg, são divulgadas para promoção de ódio e vingança (tal como estas), por quem recusa assumir responsabilidades, para quem a culpa é sempre do “outro”, seja ele quem for. Estas imagens são agora recebidas por alguns com pitadas de “relativismo moral”. O mal justificado pelo mal. O “é horrível, mas…”. O argumento utilizado pelos terroristas é assimilado por um discurso que, de certa forma, o legitimiza. Abu Ghraib compensado pela cabeça decepada de Nick Berg erguida frente às câmaras. A lógica do abismo.