
Shimon Peres (foto de 1943), vice-primeiro ministro de Israel e líder do Partido Trabalhista, e Cosmo Kramer (Michael Richards), vizinho e amigo de Jerry Seinfeld (foto de 2003).
"Quem é sábio? Aquele que aprende com todos!" Ben Zoma, Pirkei Avot

Shimon Peres (foto de 1943), vice-primeiro ministro de Israel e líder do Partido Trabalhista, e Cosmo Kramer (Michael Richards), vizinho e amigo de Jerry Seinfeld (foto de 2003).
Por motivos infinitamente insondáveis, o meu endereço de email parece ter sido relegado para uma qualquer “lista negra” mantida por alguns ISP’s portugueses, que se recusam a encaminhar as minhas mensagens, o que me tem impedido de responder a uma longa lista de emails enviados para o Correio da Judiaria. Para os leitores que escreveram e ficaram sem resposta aqui fica o meu pedido de desculpas. Para contornar o problema, até ele ser resolvido de forma definitiva, sugiro que enviem mensagens a partir de outros servidores (Gmail, Hotmail, etc). As respostas seguirão na volta do correio…
Paul Celan
Acima dos dejectos cinza e negros.
Uma árvore –
elevado pensamento
capta os tons da luz: há ainda
canções para cantar além
da humanidade.
Paul Celan (1920-1970), pseudónimo de Paul Antsche. Poeta, ensaísta e tradutor. Judeu de origem romena.
…verde por fora, vermelho por dentro. Boa sorte Sporting!
(Um desejo que vem bem do fundo de um coração benfiquista)

“Casal sob a Huppá” (1930), Aurel Richter, pintor judeu de origem húngara.
Vladimir praticamente não fala inglês. Professor de Física na extinta União Soviética, reformado e emigrado sob o sol de Los Angeles, o meu vizinho da frente é um velho judeu simpático que sorri sempre que nos cruzamos no corredor. “Pesach… when?” Perguntou-me ele esta tarde, querendo saber o dia da Páscoa judaica. “Saturday”, disse-lhe eu. “You… Seder… with your son?”, perguntei tentando perceber se ele ia passar a Páscoa com o filho. Vladimir abanou a cabeça negativamente, explicando a seguir, num misto de russo, inglês e yiddish que o filho estava fora de Los Angeles.
“Pesach… gefilte fish…”, ao pronunciar estas palavras – evocando a memória de um prato de peixe recheado tradicional da páscoa dos judeus da Europa oriental – o seu sorriso esvai-se. Vladimir volta a cara abanando a cabeça. Olha para mim e pede desculpa. Os seus olhos estão agora vermelhos, jorrando lágrimas. É a primeira Páscoa que Vladimir passa sem a mulher, falecida há duas semanas vítima de um cancro irreversível. Vladimir é um homem profundamente só. Desde que os conhecera, via-os vezes sem conta passear até ao parque ao cair da tarde. Ele empurrando a cadeira de rodas dela, conversando e rindo como se namorassem.
Vê-lo assim provocou em mim um sentimento de tristeza e profunda impotência. Que se pode dizer a um homem quando ele perde o amor da sua vida? Como se consola alguém que tem um vazio imenso dentro de si e dentro da sua própria vida? Os dias de festa – e a lembrança do que esses dias foram no passado – só aumentam mais a dor, como sal numa ferida aberta. A Páscoa é para os judeus o que o Natal é para os cristãos –um dia para passar em família, celebrando com um imenso jantar.
“Come to our house for Seder”, convidei eu. “but… me… no English…”, respondeu Vladimir. Tentei sossegá-lo, dizendo que a minha sogra vai lá estar e que ela fala yiddish. Por breves instantes, o sorriso voltou-lhe. Ficou combinado. O meu velho vizinho acenou com a cabeça, abriu a porta de casa e olhando para mim apontou para o retrato da mulher, pendurado por cima do sofá, logo à entrada. É o retrato de uma mulher jovem e bela, provavelmente tal como ela era há 55 anos, quando se casaram. Uma mulher de quem ele sente agora uma falta impossível de exprimir no curto vocabulário da língua que temos em comum. Vladimir vira-se para a foto e depois para mim. Abana a cabeça com os olhos humedecidos e raiados de um vermelho vivo. “Sorry… sorry… shalom”, despede-se ele pedindo desculpa.
Fechei a porta. Tentando imaginar a inimaginável solidão de Vladimir, fiquei irremediavelmente contagiado pelas suas lágrimas.

Albert Einstein, uma das figuras mais marcantes do século XX, morreu a 18 de Abril de 1955, faz hoje exactamente 50 anos.

Einstein conversa, numa esquina de Bolonha, com o matemático italiano Federigo Enriques, descendente de uma família judaica de origem portuguesa.
::A LER:: Arquivos da Judiaria: Existirá uma mundivisão judaica? Por Albert Einstein
(um imenso obrigado a Rui Curado Silva pela lembrança da data)
Ofra Haza – Chai

Ehud Manor, um dos mais prolíficos poetas israelitas, morreu subitamente na terça-feira, aos 64 anos, vítima de um ataque cardíaco. O seu funeral foi realizado ontem à tarde na pequena cidade de Binyamina, a sua terra natal. Ehud Manor era reconhecido especialmente pelas inúmeras letras que escreveu para canções que se tornariam inesperados êxitos internacionais – entre elas “Aba Ni Bi” e “Chai”, que representaram Israel no Festival Eurovisão da Canção, onde alcançaram o primeiro e segundo lugar, respectivamente.
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(clique na imagem para ouvir a canção)
Vivo (חי)
Oiçam irmãos, estou ainda vivo
E os meus olhos ainda se erguem para a luz
Muitos são os meus espinhos, mas também as minhas flores
E à minha frente estão anos numerosos demais para contar
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda
Um salmo passa de geração em geração
Como uma Primavera antiga, rumando à eternidade
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda
Refrão:
Vivo, vivo, vivo – Sim, estou ainda vivo!
Esta é a canção que o meu avô
Cantou ontem ao meu pai
E hoje eu canto.
Estou vivo, vivo, vivo
O povo de Israel vive
Esta é a canção que o meu avô
Cantou ontem ao meu pai
E hoje eu canto.
Os meus dias e noites estão cheios de vida
E no meu céu o pilar de fogo ainda se ergue
Cantarei eternamente
Abro os meus braços
Aos meus amigos do outro lado do mar
Eu peço e rezo
É bom que a esperança não se perdeu ainda
(Refrão)
Vivo, vivo, vivo (2x)
Vivo, estou ainda vivo!
Com letra de Ehud Manor e música de Avi Toledano, “Chai” foi cantada por Ofra Haza, representando Israel no Festival Eurovisão da Canção de 1983, realizado na Alemanha. O poema original em hebraico pode ser lido aqui: חי
::A LER:: Haaretz – His strength was his simplicity / Haaretz – Happiness in the simple landscapes of childhood / Arutz Sheva – Deputy PM Shimon Peres: Manor Was the Most Beloved of Israel / Jerusalem Post – Thousands mourn at Manor’s funeral / Murió el poeta israelí, Ehud Manor / È morto Ehud Manor / Entrevista a Ehud Manor: Made in Binyamina / המוסיקה של ישראל – אהוד מנור / אהוד מנור – ויקיפדיה / Ynet – אהוד מנור – תרבות ובידור

::A LER:: He Was an American, Quebec-Born – Saul Bellow’s legacy. By Christopher Hitchens / Jerusalem Post – Saul Bellow dies at the age of 89 / Guardian Unlimited Books – Saul Bellow, giant of American literature, dies at 89 / The New York Times – Saul Bellow, Who Breathed Life Into American Novel, Dies at 89 / New York Times – Edward Rothstein talks about Saul Bellow’s Legacy (multimedia) / The New York Times – A Retrospective on Saul Bellow / The New York Times – An Appreciation: Saul Bellow, Poet of Urban America’s Dangling Men / Nobel – Saul Bellow / Saul Bellow – Wikipedia / Books & Writers – Saul Bellow / Guardian Unlimited Books – The joy of texts (entrevista) / Lesson Plans – Herzog, by Saul Bellow / MyJewishLearning.com – Culture: Saul Bellow / Literary Encyclopedia: Bellow, Saul / Britannica – Bellow, Saul / Quartzo, Feldspato & Mica: “Na corda bamba” / A Montanha Mágica: Saul Bellow
Saul Bellow fotografado por Christopher Felver.

“Deus dos nossos pais, que escolheste Abraão e os seus descendentes para trazer o Teu nome às nações: estamos profundamente tristes com o comportamento daqueles que, ao longo do curso da história, causaram sofrimento a estes teus filhos e, pedindo o teu perdão, manifestamos o desejo de nos comprometermos a uma irmandade genuína com o povo do convénio.”
João Paulo II, mensagem deixada entre as pedras do Muro das Lamentações (Kotel), em Jerusalém, a 26 de Março de 2000.
O meu amigo José, autor do Guia dos Perplexos, faz uma excelente reflexão histórica, comentando um post meu sobre o livro Why the jews rejected Jesus, de David Klinghoffer (ver Rua da Judiaria – Jesus, o Judeu: Dois livros a não perder). O post do José intitula-se Reflexões pascais (1) – um exercício especulativo (publicado também na última edição do excelente blog colectivo catolico-ecuménico Terra da Alegria). O José desafia-me a comentar, no seguimento da nossa (minha e dele) tradição de diálogos inter-religiosos. O desafio fica desde já aceite com imenso prazer. Prometo responder-lhe assim que o tempo me permita.

Walter Sobchak: I told those fucks down at the league office a thousand times that I don’t roll on Shabbos*!
Donny: What’s Shabbos?
Walter Sobchak: Saturday, Donny, is Shabbos, the Jewish day of rest. That means that I don’t work, I don’t get in a car, I don’t ride in a car, I don’t pick up the phone, I don’t turn on the oven, and I sure as shit DONT FUCKING ROLL!!! SHOMER SHABBOS!
Diálogo do filme The Big Lebowski (1998), escrito e realizado pelos irmãos Ethan Coen e Joel Coen.
*Shabbos: sábado, Shabbat em yiddish. Este post foi inspirado em dúvidas levantadas por alguns leitores relativas à observância religiosa do Shabbat, suscitadas pela edição desta semana de ShaBot6000.
Muito antes de todos os CSI, do viciante Law & Order, Crossing Jordan ou Monk, o meu “cop show” favorito era NYPD Blue. Ontem à noite, depois de 12 anos no ar (e 261 episódios), a ABC emitiu o último episódio da série. Sim, acabou.
NYPD Blue foi escrita e produzida por Steven Bochco, que desde 1993 deu largas ao que começara uma década antes em Hill Street Blues – a desmistificação dos TV cops enquanto eternos good guys. De todos os seus personagens, Andy Sipowicz foi inegavelmente o mais bem conseguido. Interpretado por Dennis Franz, Sipowicz era à partida o mais improvável herói da história da televisão americana: gordo, careca, alcoólico, violento e racista. Andy evolui com o correr dos anos, gradualmente, semana a semana, à frente dos nossos olhos, devolvendo-nos a capacidade de acreditar que os homens também mudam. Não vou contar o que acontece no último episódio – que vi ontem depois de um interregno de várias temporadas –, digo só que foi bonito.
Os Arquivos das Músicas da Judiaria estão finalmente atestados e a funcionar em pleno. Até agora são sete as canções arquivadas. São também sete estilos diferentes: da música dos judeus negros do Uganda a Bob Dylan, passando pela folk de Shlomo Bar, o fatalismo da canção yiddish, a tradição musical dos judeus portugueses cantada pelo rabino Abraham Lopes Cardozo, a música dos judeus do Iraque e a renascença da musicalidade da língua quase perdida dos judeus ibéricos, o ladino, pela voz magnífica de Suzy. Muito mais virão.
Os Arquivos das Músicas da Judiaria abrem os Arquivos de Temas na coluna da direita.
Fascinante é mesmo a melhor palavra para descrever o disco William Shatner Has Been, que fiquei a conhecer via MacGuffin (que por sua vez foi contagiado pelo Achtung Baby).
Convém recordar que esta não é a primeira vez que Shatner, judeu intergaláctico, grava um disco. No seguimento do seu sucesso na série Star Trek como capitão James Tiberius Kirk, Bill Shatner gravou algumas canções alucinadas acompanhado por Leonard Nimoy – o responsável máximo pela “judaização” da série ao transformar a benção sacerdotal judaica (Birkat ha-Cohanim) na universalmente conhecida saudação vulcana. Live long and prosper.