Arthur Miller (1915-2005)

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância…

Arthur Miller

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância. O personagem principal, Lawrence Newman é o director de pessoal de uma empresa que recusa empregar judeus. Ele próprio um antisemita, Lawrence vê a sua vida profundamente transformada quando começa a usar um par de óculos que imediatamente o fazem “parecer judeu” aos olhos dos colegas de trabalho e dos vizinhos. Esta alteração na sua aparência física faz com que Lawrence seja tratado com hostilidade – é despromovido e obrigado a demitir-se. Depois de tentar por todos os meios contestar as suposições erradas sobre a sua pretensa identidade judaica, Lawrence Newman resigna-se. No final do romance, a perseguição fez dele um judeu, convencendo-o ao mesmo tempo da irracionalidade do preconceito e da necessidade de o confrontar e combater.
Focus foi transposto para o cinema em 2001, adaptado por Kendrew Lascelles num filme homónimo realizado por Neal Slavin, com William H. Macy a encarnar Lawrence Newman.
Em 1947, dois anos após a sua publicação, Focus servira já de inspiração ao primeiro filme a confrontar directamente o antisemitismo: Gentleman’s Agreement, realizado por Elia Kazan (o amigo que dez anos mais tarde denunciaria Arthur Miller perante o tristemente célebre House Un-American Activities Committee), com Gregory Peck no principal papel.

::A LER:: CNN.com – Playwright Arthur Miller dead at 89 – Feb 11, 2005 / Arthur Miller – Wikipedia / Arthur Miller: A Life / Arthur Miller – MAJOR WORKS with brief synopses / A Brief Chronology of Arthur Miller’s Life and Works / Houghton Miffilin – Arthur Miller / Arthur Miller and the House of Un-American Activities Committee (HUAC) / Death of a Salesman / BBC – The Marilyn mystery / NNDB: Arthur Miller.

Henrique Canto e Castro (1930-2005)

Nunca tive jeito para obituários. Cada vez que me sinto obrigado a escrever sobre a morte de alguém que me marcou, recordo-me de uma frase escrita por Fernando Assis Pacheco, a propósito do aniversário da morte de Zeca Afonso, no Jornal de Letras em 1992: “(…) não tendo nós o dom da ressurreição, caímos não obstante num discurso tão próximo do evangélico que soa a falso.” Mas com Canto e Castro tenho a obrigação de correr esse risco. Ele foi a primeira personalidade pública que entrevistei.
Lembro-me de estar extraordinariamente nervoso. No agora longínquo Verão de 1986, sentado durante duas horas num minúsculo estúdio de rádio, Canto e Castro fez-me esquecer por completo que outros ouvidos ouviam a conversa. Era um homem que tinha muitas histórias para contar.
Conhecera-o anos antes, por intermédio de Romeu Correia, que por sua vez me aturava por ser doente da minha mãe. Eu tinha uns 12 anos, e confesso que demorei algum tempo até perceber que reconhecia a voz de Canto e Castro porque cresci a ouvi-la transplantada em desenhos animados, da “Abelha Maia” ao “Marco”.
Anos antes, ele estava também em palco na primeira vez que me lembro de ir ao teatro – levaram-me a ver “Tempos Difíceis”, uma peça escrita por Romeu Correia, na Companhia de Teatro de Almada, que durante anos, antes do Teatro Nacional, fora a casa de Canto e Castro.
Com Luís de Sttau Monteiro e Romeu Correia, ele fez parte de um notável grupo de velhos intelectuais marxistas que, com conversas e livros, marcaram profundamente a minha adolescência na Rua da Judiaria, em Almada. Canto e Castro foi um dos melhores actores da sua geração, um homem grande e intensamente generoso. Por natureza uma criatura do palco, fez também muita televisão e cinema, trabalhando com todos os “mestres”, de Manoel de Oliveira a Wim Wenders. No meio disto, conseguiu sempre ser suficientemente despretensioso para se sentar a tomar café, no Central ou no Tic-Tac (na Rua Capitão Leitão, frente à decrépita sede do PC de Almada), e ter paciência para aturar um miúdo que gostava de ouvir histórias e de saber o que liam os mais velhos.
Canto e Castro morreu ontem de madrugada. Deixa muitas saudades.

Parabéns Pai!! (or my very own “Big Fish”)

O reverso da fotografia dizia qualquer coisa como: “Travessia do deserto do Negev, 1973”…

O reverso da fotografia dizia qualquer coisa como: “Travessia do deserto do Negev, 1973”. Só muitos anos mais tarde, já muito mais velho, me apercebi que a foto mostrava um pedaço da ponte sobre o Tejo e uma nesga de Lisboa… afinal, o deserto pode ser onde um homem quiser.
Mil beijos cheios de saudade e muitos parabéns!

Viajar no Tempo

ou Interlúdio de Elogio Familiar

Durante os meus quase 10 anos de vida em Los Angeles dei por mim muitas vezes a questionar a validade desta minha opção. De vez em quando, em conversas com amigos, era frequentemente recordado da frase lapidar de Woody Allen referindo-se a Los Angeles numa cena de Annie Hall: “Porque raio queres tu viver numa cidade cuja única vantagem cultural é poder virar à direita num sinal vermelho?” Woody Allen, um nova-iorquino, fazia por instigar a velha rivalidade entre as costas americanas. Sou obrigado a confessar que na maior parte dos dias Woody até tem razão. Mas dizer mal de Los Angeles é demasiado fácil. Até porque há sempre felizes excepções a esta regra que nem sequer o é.
Sábado à noite foi uma dessas ocasiões – fui até ao Getty Center assistir a um concerto de música antiga perfeitamente delicioso: Elaborate Measures: Performing the Orient. Pode mesmo ser deformação que quem estuda eternamente a História, mas poucas coisas dão mais prazer do que ouvir música escrita há séculos. Sons que ouvidos antigos ouviram. A culpa foi inteiramente do meu cunhado, Avi Stein, brilhante tocador de cravo e membro do La Monica, o ensemble responsável pelo concerto. Enquanto as leis da física continuem a impossibilitar que se viaje no tempo (aparentemente?), aquelas horas foram um substituto quase perfeito.

תודה רבה אבי

PS –By the way, em Los Angeles (e em toda a Califórnia) pode-se mesmo passar um sinal vermelho para virar com o carro à direita. Em Nova Iorque não…


A Invenção do Orientalismo
O Concerto da Concubina do Grão-Turco, Carle Vanloo, 1737.

Will Eisner (1917 – 2005)


:: A LER :: Will Eisner.com / Will Eisner – Wikipedia / The Onion A.V. Club – Interview With the Comics Legend / Will Eisner s’attaque aux “Protocoles des Sages de Sion” / Fagin the Jew / Fagin the Jew (Amazon) / Comic creator: Will Eisner / Profile – Eisner/Miller TPB / Will Eisner and The Spirit – A Biography and History of a Comics Legend / CNN.com – Comic book legend Will Eisner dead – Jan 5, 2005 / Will Eisner Dies; Drew ‘The Spirit’ Comic Strip (washingtonpost.com) / The New York Times > Books > Will Eisner, a Pioneer of Comic Books, Dies at 87 / Will Eisner – a brief look at the creator of The Spirit

Susan Sontag (1933-2004)


Foto da autoria de Annie Leibovitz

::A LER:: Susan Sontag.com / Susan Sontag – Wikipedia / Susan Sontag / The New York Review of Books: Susan Sontag / Salon – The “traitor” fires back / Susan Sontag: “Fascinating Fascism / Online NewsHour: Conversation: Susan Sontag – February 2, 2001 (com video) / New York State Writers Institute – Susan Sontag / Interview with Susan Sontag (com áudio) / TNR Online Trophy as Metaphor by Daniel Halpern / The Guardian – The risk taker / Royce Carlton – Susan Sontag Fiction Writer Cultural Critic / Susan Sontag – political commentary on Sept. 11

Recados

1) Está solucionada a falha técnica das Músicas da Judiaria, que durante os últimos dias impossibilitou o acesso a quem quisesse ouvir a canção de Bob Dylan (ver post Bob Is Back). Obrigado a todos os que enviaram mensagens a alertar para o problema.

2) Estreou ontem em Portugal o último filme de Fernando Fragata, Sorte Nula (ver foto acima), entretanto colocado já entre as “Sugestões da Judiaria”, na coluna da esquerda. O Fernando é um bom amigo – uma das pessoas mais genuínas e generosas que conheço. No cinema, é um iconoclasta: quer fazer filmes portugueses que divirtam e entretenham. Imaginem só a chutzpah do rapaz!
PS [recado directo] Fragata: vê se voltas depressa a Los Angeles. Os empregados do Canter’s e da picanha do Pampas Grill, no Farmer’s Market, estão fartos de perguntar por ti e pela Sandra…

3) Agora faltam os parabéns. Ainda que com um atraso significativo, não posso deixar passar em claro o aniversário do Super Flumina, de Rui Oliveira, um excelente blog agora com nova morada. Desejos atrasados de feliz aniversário (foi no primeiro dia de Hanuká) também para Gus Erlichman, o criador do Pletz.com, o melhor e mais completo site judaico em língua portuguesa, e dinamizador da hiper-activa lista de discussão judaica brasileira Pletz@le – Gus: obrigado por todo o teu trabalho! מזל טוב חבר

Jacques Derrida, 1930-2004

“Les contingences ont fait de moi un juif français d’Algérie de la génération née avant la “guerre d’indépendance”: autant de singularités, même parmi les juifs et même parmi les juifs d’Algérie. J’ai participé à une transformation extraordinaire du judaïsme français d’Algérie: mes arrière-grands-parents étaient encore très proches des Arabes par la langue, les coutumes, etc. Après le décret Crémieux (1870), à la fin du XIXe siècle, la génération suivante s’est embourgeoisée: bien qu’elle se soit mariée presque clandestinement dans l’arrière-cour d’une mairie d’Alger à cause des pogroms (en pleine affaire Dreyfus), ma grand-mère élevait déjà ses filles comme des bourgeoises parisiennes (bonnes manières du 16e arrondissement, leçons de piano…). Puis ce fut la génération de mes parents : peu d’intellectuels, des commerçants surtout, modestes ou non, dont certains exploitaient déjà une situation coloniale en se faisant les représentants exclusifs de grandes marques métropolitaines : avec un petit bureau de 10 mètres carrés et sans secrétaire, on pouvait représenter tout le “savon de Marseille” en Afrique du Nord – je simplifie un peu. Puis ce fut ma génération (une majorité d’intellectuels : professions libérales, enseignement, médecine, droit, etc.). Et presque tout ce monde en France en 1962. Moi, ce fut plus tôt (1949). C’est avec moi, j’exagère à peine, que les mariages “mixtes” ont commencé. De façon quasi tragique, révolutionnaire, rare et risquée.”
Extracto da última entrevista de Derrida: Le Monde, 19/08/2004
[Com um imenso obrigado a Luis Carmelo]
:: A VER :: Derrida Movie Clip

The Genius

(“For you I will be a ghetto Jew …”)

Por tua causa
serei o judeu do ghetto
e danço
e visto meias brancas
nos meus membros retorcidos
e enveneno os poços
da vila

Por tua causa
serei o judeu apóstata
e digo ao padre espanhol
do juramento de sangue
do Talmude
e onde estão escondidos
os ossos da criança

Por tua causa
serei o banqueiro judeu
e arrasto à ruína
um velho rei caçador
e acabo com a dinastia

Por tua causa
serei o judeu da Broadway
e choro nos teatros
pela minha mãe
e vendo pechinchas
por baixo do balcão

Por tua causa
serei o médico judeu
e procuro
prepúcios no lixo
para os coser de novo

Por tua causa
serei o judeu de Dachau
e deito-me em cal
com membros deformados
e uma dor inchada
que mente alguma pode entender.

Leonard Cohen, poeta e cantor. Judeu canadiano.
in The Spice-Box of Earth, 1961.

[Aniversário de L.C. anotado n’A Praia]

Darfur e o Mundo

Pelo delito do silêncio,
Pelo delito da indiferença,
Pela secreta cumplicidade da neutralidade.
Pelo encerramento das fronteiras,
Pelo lavar das mãos,
Pelo crime do silêncio,
Pelo delito da indiferença,
Pelo encerramento das fronteiras,
Por tudo o que foi feito,
Por tudo o que não se fez,
Que não haja esquecimento perante o Trono de Glória;
Que haja memória nos corações dos homens;
E deixai que haja por último perdão
Quando os teus filhos, Ó Deus,
Forem livres e em paz.

in Portais da Contrição, Central Conference of American Rabbis, 1978. Oração judaica.

A Human Rights Watch e a Amnistia Internacional divulgaram ontem dois relatórios exaustivos sobre a situação humanitária em Darfur. As conclusões não surpreendem ninguém: o governo sudanês não está a fazer nada para impedir a continuação do genocídio da população negra. Pior ainda – o governo continua a ajudar os guerrilheiros assassinos Janjaweed na sua horrenda missão. Os factos relatados pelas duas organizações foram também ontem confirmados pelo próprio Gabinete de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (ver Sudan launches fresh helicopter attacks in Darfur). O relatório da Human Rights Watch pode ser lido na íntegra aqui: Darfur: New Atrocities Disprove Khartoum’s Claims (Human Rights Watch, 11-8-2004).
Entretanto, a União Europeia continua a jogar com as semânticas do abismo, negando reconhecer oficialmente que o assassínio em massa, as violações sistemáticas de mulheres e a limpeza étnica em Darfur sejam genocídio. Lavadas as mãos, uma vez mais, a Europa empurra a decisão para a ONU. A explicação para a cobardia é simples e foi recentemente recordada pelo Paulo Gorjão: quem primeiro reconhecer que se trata de genocídio – o primeiro país ou organização de Estados – , segundo os mecanismos da Lei Internacional, será obrigado a intervir defesa da das vítimas de Darfur. Pois
No seu excelente blog, Zackary Sholem Berger chama a atenção para um interessante artigo da revista New Republic, assinado por David Englin, sobre o que deveria ser a anatomia de uma intervenção militar da comunidade internacional em Darfur. Vale bem a pena ler: The New Republic: Plan of Action.

Doações e Activismo: Human Rights Watch – Sudan – Crisis in Darfur / What You Can Do About Darfur? / Save Darfur.org :: Take Action Now / Rua da Judiaria :: Que Fazer com Este Genocídio? ::

A LER: Sudan: The Passion of the Present: blog campaign for Sudan reaches toward a new level of awareness and activism / Who will survive today? / Empty Promises / Financial Express: UNHCR reports increase in rapes in Darfur / Guardian Unlimited Special reports Atrocities ‘continue in Darfur’ / Khartoum Accused Of Making Empty Promises In Darfur / Hear No Evil, See No Evil: THE U.N. SECURITY COUNCIL’S APPROACH TO HUMAN RIGHTS VIOLATIONS IN THE GLOBAL COUNTER-TERRORISM EFFORT / Sudan: The Passion of the Present: The Genocide Bloc / TEMOS DE IMPEDIR A CONTINUAÇÃO DO GENOCÍDIO EM DARFUR (SUDÃO) (deputado Socialista José Leitão, no seu blog Inclusão & Cidadania) / O RONALDO DE DARFUR (bazongadakilumba.blog-city.com)
A VER: HRW vídeo de Darfur (broadband) / HRW vídeo de Darfur (modem) / BBC – “These people are clinging to life” (RealOne)

Amargura

As notícias tristes parecem chegar sempre de madrugada. São quatro e meia da manhã de uma noite em branco. Primeiro leio em inglês: Portuguese Guitar Master Paredes Dies at 79. Depois procuro a consolação da língua pátria vagueando por blogs e sites portugueses. Ponho a tocar baixinho Espelho de Sons, comprado há anos em Sunset Boulevard. Há dias em que a distância dói. A música humedece-me os olhos. Olho para a capa do CD, fixo-me na guitarra e quase juro que uma lágrima negra lhe escorre pela face.


(imagem de Carlos Paredes via Chafarica Iconoclasta)

::A LER:: O Mundo Segundo Carlos Paredes (Introdução de Viriato Teles ao disco Guitarra – O melhor de Carlos Paredes, Edição EMI-Valentim de Carvalho, 1998) / “Guitarra Portugesa” a poem by Michael Spring.
::A OUVIR:: O Mundo Segundo Carlos Paredes: Despertar.

Marlon Brando (1924-2004)


I attended the New School for Social Research for only a year, but what a year it was. The school and New York itself had become a sanctuary for hundreds of extraordinary European Jews who had fled Germany and other countries before and during World War II, and they were enriching the city’s intellectual life with an intensity that has probably never been equaled anywhere during a comparable period of time. I was raised largely by these Jews. I lived in a world of Jews. They were my teachers; they were my employers. They were my friends. They introduced me to a world of books and ideas that I didn’t know existed…”
in Songs My Mother Taught Me (autobiografia), Marlon Brando , p. 72

Larry King: This Yiddish thing, you got a lot of that in New York, right? You’re part Jewish.

Marlon Brando: I… well, technically I’m not a Jew but culturally I am. I spent ten years in New York and that was when New York was New York. The Daily Forward… and Stella very kindly invited me into her home and all of my employers, my teachers, I went to the New School of Social Research which is an extraordinary institution of learning.

Larry King: Still there.

Marlon Brando: And it was at a time when all the people were coming out of this extraordinary academia of Germany, like Hannah Arendt… the list is endless.

Fragmento da última entrevista televisiva de Marlon Brando, conduzida por Larry King, gravada na CNN em 1994. A transcrição integral pode ser lida aqui: CNN.com – Transcripts.