António José da Silva, o Judeu – 300 anos

António José da Silva

Que delito fiz eu para que sinta
o peso desta aspérrima cadeia
nos horrores de um cárcere penoso
em cuja triste, lôbrega morada
habita a confusão e o susto mora?
Mas se acaso, tirana, estrela ímpia,
é culpa o não ter culpa, eu culpa tenho.
Mas se a culpa que tenho não é culpa,
para que me usurpais com impiedade
o crédito, a esposa e a liberdade?

António José da Silva, o Judeu, nascido a 8 de Maio de 1705, há precisamente 300 anos. Poeta escritor e dramaturgo, é considerado o principal responsável pela renovação do teatro português no século XVIII. Preso pela Inquisição a 5 de Outubro de 1737, acusado de praticar o judaísmo, foi executado na fogueira em Lisboa a 18 Outubro de 1739, aos 34 anos, num “auto-de-fé” presidido pelo rei D. João V, “O Magnânimo”. No mesmo dia foram queimados mais dez “judaizantes”.

Ilustração: Tribunal Inquisitorial (pormenor), Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)

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António José da Silva dá o sinal

Há recompensa a servir de bálsamo
À ira do teu espírito –
Eles podem ter-te morto, mas foram eles
quem ardeu!
Lestos no cadafalso e no garrote,
Para carne judia e corações judeus
castigar na fé e satisfazer o fogo dos fanáticos.
Que esqueçam as histórias incendiadas,
Que baixe a cortina no tenebroso enredo.

Eles riem agora em Lisboa e em Madrid
Em galas ressuscitadas da tua cómica musa ;
Onde piras carnais se ergueram,
Eles titilam a golpes do florete de teu talento.
Saudações Judeu António, acredito que te sentas
À boca de cena, com irónica expressão, no lugar do ponto.

Poema dedicado à memória de António José da Silva, escrito por Walter Hart Blumenthal, antropólogo e historiador norte-americano, nascido nos finais do século XIX.

::A LER:: Wikipédia – António José da Silva / António José da Silva, o Judeu / Casa de Sarmento – António José da Silva, o Judeu / Jewish Virtual Library – Antonio Jose da Silva

Depois de Auschwitz

Yehuda Amichai

Depois de Auschwitz, não há teologia:
Das chaminés do Vaticano levanta-se fumo branco –
sinal que os cardeais escolheram um Papa.
Dos crematórios de Auschwitz, levanta-se fumo negro –
sinal que o conclave dos Deuses não escolheu ainda
o seu povo.
Depois de Auschwitz, não há teologia:
os prisioneiros do extermínio têm nos braços
os números de telefone de Deus,
números que não respondem
e que se desligam, um a um.

Depois de Auschwitz, uma nova teologia:
os judeus que morreram no Shoá
são agora semelhantes ao seu Deus,
que não tem imagem ou semelhança e não tem corpo.
Eles não têm imagem ou semelhança e não têm corpo.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.


Imagem: Tatuagem de Auschwitz. Número B-11291, de Henry Oertelt, sobrevivente do Shoá e autor da autobiografia An Unbroken Chain: My Journey Through the Nazi Holocaust. Os números tatuados nos prisioneiros eram também conhecidos como “números de cremação”.
No blog Israelity – Life beyond the conflit, Ari Miller conta a história de um jovem que pediu autorização à avó para tatuar os números dela no seu próprio braço. Para ler aqui.
Hoje 5 de Maio de 2005 (26 de Nisan de 5765 do calendário hebraico), celebra-se o Dia de Lembrança dos Mártires e Heróis do Holocausto. Para que não se esqueça o que aconteceu há 60 anos. Para que o sofrimento inimaginável de tantos milhões não tenha sido em vão. Uma oportunidade também para recordar que o genocídio não é uma coisa do passado: Povo de Bahá – Infância perdida.

Emma Lazarus

O Novo Colosso

O Novo Colosso

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.

Gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, na baía de Nova Iorque, este soneto escrito por Emma Lazarus, a maior poetisa americana do século XIX, era um hino à génese do “sonho americano” e simbolizava também a esperança de liberdade com que os seus antepassados chegaram ao novo mundo.
Filha de Moses e Esther Lazarus, nascida em 1859, Emma orgulhava-se de ser descendente directa de uma das famílias de judeus portugueses que em 1654 desembarcara em Nova Amsterdão, integrada no grupo de 23 refugiados de Pernambuco que fundaram a primeira comunidade judaica da América do Norte. Emma Lazarus era ainda prima direita de Benjamin Cardozo, igualmente descendente de judeus portugueses, juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, ainda hoje tido como um dos mais notáveis e influentes juristas da história do Direito norte-americano.
Educada na Nova Iorque dos meados do século XIX, Emma despertou cedo para a escrita, revelando uma grande sensibilidade e uma enorme aptidão para a poesia. Cedo provaria também que era muito mais do que “uma menina com jeito para fazer versos”, alcançando admiração e amizade entre a elite literária americana da época. Ralph Waldo Emerson foi seu mentor e Henry Wadsworth Longfellow um grande admirador. Mulher e profundamente judia, ao impor-se no panorama cultural americano do século XIX, Emma quebrava duas barreiras que até então pareciam inexpugnáveis.
Aproveitando o sucesso enquanto poeta e escritora, Emma Lazarus expôs os seus leitores às causas que apadrinhava – os Direitos Humanos e a ajuda aos emigrantes, necessitados e indigentes, que diariamente chegavam a Nova Iorque. Como activista de sociedades de beneficência – nomeadamente através da sinagoga dos judeus portugueses Shearith Israel –, ouviu em primeira mão os relatos das perseguições, massacres e pogroms que afligiam os judeus russos e que os empurravam em massa para o estrangeiro (estima-se que entre 1880 e 1920 cerca de 2 milhões de judeus russos tenham emigrado por causa das violentas manifestações de antisemitismo).
Uma década antes do sionismo se tornar um movimento político activo, Emma Lazarus, numa série de 15 artigos escritos para o semanário American Hebrew, intitulados Epistle to the Hebrews – nos quais apelava à unidade contra o antisemitismo –, defendeu a necessidade da criação de uma pátria judaica na terra ancestral de Israel como única forma de fazer face ao antisemitismo:

“(…) Até sermos todos livres, nenhum de nós será livre. Mas deveríamos justificar os insultos dos nossos oponentes, deveríamos tornar-nos “tribais” e judaicos em vez de cosmopolitas como os antisemitas alemães e os perseguidores de judeus da Rússia, ignoramos e repudiamos os nossos infelizes irmãos sem querer ter parte ou porção dos seus infortúnios – até que o cálice de angústia seja erguido também aos nossos lábios.”

Em 1882, no livro Songs of a Semite (Cânticos de um Semita), Emma escreve aquele que os críticos consideram ser o mais “sionista” dos seus poemas: The Banner of the Jew (O Estandarte do Judeu), um apelo épico ao retorno à glória da nação israelita. A sua intransigente defesa dos direitos dos mais desfavorecidos – judeus e não só – fazia dela uma presença constante nas páginas dos jornais da época, entre eles do New York Times (ver Progress and Poverty, NYT 2 de Outubro de 1881).
Inspirada pelos horrores do antisemitismo russo, Emma Lazarus escreveu O Novo Colosso em 1883 para um leilão de recolha de fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade (ver original aqui: The New Colossus, from Emma Lazarus’ Copy Book). O poema foi mais tarde gravado numa placa de bronze e colocado nas paredes desse mesmo pedestal. Emma Lazarus morreu em Nova Iorque, aos 38 anos, a 19 de Novembro de 1887, um ano após a inauguração da Estátua.

::A LER:: Jewish Virtual Library – Emma Lazarus / The Century Illustrated Monthly Magazine The Century Co. New York Vol. 36 (14 New Series), Number 6, October 1888 / The New Colossus (1883) / Poem Hunter – Poems of Emma Lazarus / Emma Lazarus Fund – Who is Emma Lazarus? / Jewish Woman’s Archives – Emma Lazarus Exibit

Paul Auster em Lisboa

Percebo agora que devo ter sido um mau filho. Ou se não fui exactamente mau fui uma desilusão, uma fonte de confusão e tristeza. Não fazia qualquer sentido para ele [meu pai] ter produzido um filho poeta. Nem ele percebia porque razão um jovem com dois diplomas da Universidade de Columbia tinha arranjado um emprego de marinheiro num petroleiro no Golfo do México e depois, também sem razão nenhuma, se escapara para Paris onde passou quatro anos a viver miseravelmente.
A mais frequente descrição que ele fazia de mim era que eu tinha “a cabeça nas nuvens”, ou que não tinha “os pés na terra”. De qualquer forma, para ele não devo ter parecido nada substancial, como se fosse uma espécie de vapor ou uma pessoa não totalmente deste mundo. Aos seus olhos, fazia-se parte do mundo trabalhando. Por definição trabalho era qualquer coisa com a qual se ganhava dinheiro. Se não se ganhasse dinheiro não era trabalho. Escrever, por isso, não era trabalho, especialmente a escrita de poesia. Na melhor das hipóteses era uma actividade de recreio, uma forma agradável de passar o tempo entre coisas que realmente tivessem importância. O meu pai pensava que eu estava a desperdiçar os meu dotes, que recusava crescer.
Mesmo assim, uma espécie de ligação persistiu entre nós. Não éramos chegados, mas mantivemos o contacto. Um telefonema por mês, talvez três ou quatro visitas por ano. Cada vez que um livro de poemas meu era publicado eu mandava-lhe diligentemente um exemplar, e ele telefonava sempre a agradecer. Sempre que escrevia um artigo para uma revista eu guardava um exemplar para lhe dar da próxima vez que o visse. The New York Review of Books não lhe dizia nada, mas as minhas peças na Commentary impressionaram-no. Ele sentia que se os judeus publicavam o que eu escrevia era porque eu deveria valer alguma coisa.

Paul Auster, in “The Invention of Solitude” (p.61)

Paul Auster, poeta e escritor americano, judeu magnífico, está em Lisboa. O Leonel Vicente promete relatar as suas conversas com os leitores portugueses. A primeira parte já está aqui: Memória Virtual: Paul Auster na Culturgest

Receita para um poema

Tristan Tzara

Para fazer um poema dadá
Pega num jornal.
Pega numa tesoura.
Escolhe um artigo do tamanho pretendido para o poema.
Recorta o artigo.
Recorta depois cada uma das palavras do artigo e coloca-as num saco.
Sacode suavemente.
Retira então os recortes um atrás do outro.
Copia escrupulosamente na ordem em que saíram do saco.
O poema será como tu.

Tristan Tzara, pseudónimo de Samuel Rosenstock (1896-1963), judeu francês de origem romena, fundador do Dadaísmo.

Leituras: um inquérito

Desafiado por Vit Webb e Bruno Sena Martins, autores de dois dos meus blogs favoritos, aqui vai a minha resposta ao questionário que ameaça transformar-se num dos memes mais interessantes e persistentes da blogosfera.

1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Sem pestanejar: A edição dos 23 volumes de Sefer Ha’Zohar (ספר הזהרO Livro do Esplendor), em aramaico, do rabino Shimon bar Yochai, com tradução e comentário hebraico de Rav Yehuda Ashlag (Baal Ha’Sulam). Os cabalistas acreditam que o estudo deste tratado pode precipitar a “era messiânica” – a redenção da humanidade – e trazer a paz universal.

2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Quando tinha 12 anos li All Creatures Great and Small (já não me lembro do título em português…), de James Harriot, e por causa dele durante anos tive o inconfessado sonho de ser veterinário.

3- O último livro que compraste?
Longe de Manaus, de Francisco José Viegas (porque tenho imensas saudades de Jaime Ramos). Ainda vem a caminho…

4- Os últimos livros que leste?
A Journey to the End of the Millennium – A Novel of the Middle Ages, de A.B. Yehoshua; The Future of Freedom, de Fareed Zacaria; The Case For Democracy: The Power of Freedom to Overcome Tyranny and Terror, de Natan Sharansky; The Plot Against America, de Philip Roth; e Rembrandt’s Jews, de Steven Nadler (um retrato extraordinário da comunidade de judeus portugueses emigrados na Amsterdão do século XVII).

5- Que livros estás a ler?
Sigmund Freud and the Jewish Mystical Tradition, de David Bakan; Selected Writings of Philo of Alexandria, editado por Hans Lewy; The God of Small Things, um romance absolutamente brilhante de Arundhati Roy.

6- Que livros que levarias para uma ilha deserta?
Os seis volumes de À la Recherche du Temps Perdu, de Marcel Proust; Brave New World, de Aldous Huxley; Sybil, de Benjamin Disraeli; A trilogia U.S.A., de John Dos Passos; Herzog, de Saul Bellow; Musa Irregular, de Fernando Assis Pacheco; Os Passos em Volta, de Herberto Helder; e No Reino da Dinamarca, de Alexandre O’Neill

7 – Quatro pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?

A Francisco José Viegas (porque o quero ver a blogar novamente), a José Mário Silva (porque se a escrita dele inspira, as leituras não devem ficar atrás), a Alexandre Soares Silva (porque me delicio sempre com o seu humor iconoclasta) e Nathanael Robinson (porque sei que ele lê livros interessantes – by the way Nathanael, if you have trouble with the Portuguese you can find an English version of this questionnaire here: vitriolica webb’s ite: a gentle, interesting way to network… BOOKS!).

O cabelo branco

Judá Halevi

Um cabelo branco um dia na minha cabeça vi crescer;
E, ao arrancá-lo bruscamente, disse-me ele:
“Podeis sorrir, se quiserdes, da forma como me tratais,
mas uma multidão de meus irmãos virá em breve
zombar de vós.”

Judá Halevi (1085-1140), poeta e filósofo, judeu de Toledo.

[tradução preliminar]

Saul Bellow (1915-2005)

::A LER:: He Was an American, Quebec-Born – Saul Bellow’s legacy. By Christopher Hitchens / Jerusalem Post – Saul Bellow dies at the age of 89 / Guardian Unlimited Books – Saul Bellow, giant of American literature, dies at 89 / The New York Times – Saul Bellow, Who Breathed Life Into American Novel, Dies at 89 / New York Times – Edward Rothstein talks about Saul Bellow’s Legacy (multimedia) / The New York Times – A Retrospective on Saul Bellow / The New York Times – An Appreciation: Saul Bellow, Poet of Urban America’s Dangling Men / Nobel – Saul Bellow / Saul Bellow – Wikipedia / Books & Writers – Saul Bellow / Guardian Unlimited Books – The joy of texts (entrevista) / Lesson Plans – Herzog, by Saul Bellow / MyJewishLearning.com – Culture: Saul Bellow / Literary Encyclopedia: Bellow, Saul / Britannica – Bellow, Saul / Quartzo, Feldspato & Mica: “Na corda bamba” / A Montanha Mágica: Saul Bellow

Saul Bellow fotografado por Christopher Felver.

Baruch Spinoza

Jorge Luis Borges

Bruma de ouro, o ocidente ilumina
A janela. O manuscrito assíduo
Aguarda, carregado de infinito.
Alguém constrói Deus. É um judeu
De tristes olhos e pele citrina;
Leva-o o tempo como leva o rio
Uma folha na água que declina.
Não importa. O mago insiste e lavra
Deus com geometria delicada;
Da sua enfermidade, do seu nada,
Continua erigindo Deus com a palavra.
O mais prodigioso amor lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Jorge Luis Borges
in La Moneda de Hierro (1976)

[Tradução preliminar]

Ainda o Dia Mundial da Poesia


Micrografia: imagem de uma pomba desenhada com as palavras hebraicas da Oração dos Viajantes.

Para mais sobre a complexa arte da micrografia hebraica ver: Micrography: The Hebrew Word as Art / Hebrew Letters – Micrography / The Word Became An Image / An Introduction to Hebrew Manuscripts.

Que tipo de pessoa

Yehuda Amichai

“Que tipo de pessoa és tu?”, ouvi-os perguntar.
Sou uma pessoa com uma complexa canalização da alma,
Sofisticados instrumentos de sentir e um sistema
De memória controlada nos finais do século XX.
Mas com um velho corpo de tempos antigos
E um Deus ainda mais velho que o meu corpo.

Sou uma pessoa para a superfície da terra.
Lugares baixos, cavernas e poços
Assustam-me. Cumes de montanha
E prédio altos apavoram-me.
Não sou como um garfo espetado,
Nem como uma faca de cortar, nem como uma colher presa.

Não sou plano nem astuto
Como uma espátula vinda de baixo.
Na melhor das hipóteses sou um pesado e desajeitado pilão
Amassando bem e mal juntos
Para um pouco de gosto
Para um pouco de aroma.

Setas não me encaminham. Conduzo
Os meus negócios cuidadosa e serenamente
Como um longo testamento que começou a ser escrito
no momento em que nasci.

Agora estou de pé ao lado da estrada
Fatigado, encostado a um parquímetro.
Posso aqui estar sem pagar, de graça.

Não sou um carro, sou uma pessoa,
Um homem-deus, um deus-homem
Que tem os dias contados. Aleluia.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Um novo poeta

Linda Pastan

Encontrar um novo poeta
é como encontrar uma nova flor silvestre
na floresta. Não vemos

o seu nome nos livro de botânica, e
ninguém, quando lhes contamos, acredita
na sua estranha cor ou na forma como

as suas folhas crescem em filas inclinadas
descendo a largura inteira da página. Na verdade
a própria página cheira a vinho

derramado e ao aroma do mar
num dia enevoado – o odor de verdade
e de mentir.

E as palavras são tão familiares,
tão estranhamente novas, palavras
que quase escrevemos nós próprios, se por acaso

nos nossos sonhos existisse um lápis
ou uma caneta ou até um pincel,
se por acaso existisse uma flor.

Linda Pastan, poeta contemporânea, judia norte-americana. Poema do livro Heroes in Disguise.

O homem que descalçou os sapatos

Levantei-me e os meus dois olhos viram isto:
Não sabia quem era o homem,
o seu nome, ou a sua complicada história.

Era uma manhã toda de ouro,
e este homem marchou até ao poste eléctrico
como se caminhasse para uma fronteira,
e ali descalçou os sapatos,
e deixando-os para trás, como num limiar,
começou a andar descalço,
algures para além deste ponto final,
em direcção a um princípio sem fim, lá longe:
sem casa, ou cama, ou seio:
sem um pão ou um jarro de água…
leve e de mãos vazias.

Vi os seus ombros largos,
a sua alta estatura, os seus viris passos
indo embora, indo daqui para as suas distâncias,
sem a memória dos seus sapatos,
que esperam por ele.

Uri Zvi Greenberg, (1896-1981), poeta israelita.

Borges dito por Borges

Inspirado pelo magnífico presente com que a Carla Hilário de Almeida Quevedo nos brindou ontem (ver e ouvir aqui: Ouvir Jorge Luis Borges. Borges e yo, de El Hacedor, 1960), vasculhei os arquivos da Judiaria e desencantei um post, que escrevi em Junho do ano passado, sobre o “judaísmo” de Borges.
Encontrei também umas gravações que resolvi colocar no server para partilhar com os leitores da Judiaria. São quatro poemas pela voz do próprio Mestre.

Borges dito (e comentado) por Borges: Fundación mítica de Buenos Aires / El General Quiroga va en coche al muere / Milonga de dos hermanos / Everness
(paciência, paciência… os ficheiros são grandes mas a recompensa é imensa)