Das Tuas Mãos

Da gentil taça das tuas mãos
deixa-me beber descanso e conforto
na profunda serenidade da tua voz
deixa-me desnudar o mistério

Paixões queimaram a minha pele e as minhas roupas
em farrapos vagueio através da distância, da luz,
e imploro um fio da seda da tua voz
para coser as feridas dos meus enigmas irresolutos.

Incerteza envolve o mundo
Distorcendo tudo com materialismo.
Quero ler o teu rosto
Como fazem dedos treinados em Braille –
Com os meus lábios.

Da gentil taça das tuas mãos
deixa-me beber descanso e conforto
na profunda serenidade da tua voz
deixa-me desnudar o mistério

Abraham Joshua Heschel, (1907–1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

A.B. Yehoshua nomeado<br> para o Booker Prize International

O escritor israelita A.B. Yehoshua foi nomeado para o prémio Man Booker International, destinado a reconhecer a obra de escritores não anglófonos traduzidos em língua inglesa. A.B. Yehoshua, a par de Amos Oz e David Grossman, é actualmente um dos mais conceituados escritores israelitas e um dos meus favoritos – sobre ele já escrevi aqui na Judiaria (ver Literatura e Realidade).
O prémio literário, a atribuir em Junho, é a primeira edição da versão internacional do famoso Booker Prize, concedido anualmente a escritores e obras de língua inglesa.
Ao receber a notícia da nomeação, entrevistado pela imprensa israelita, A.B. Yehoshua disse ter ficado “muito contente”, apressando-se a acrescentar: “Mas hoje estou ainda mais feliz com a retirada de Gaza do que com a nomeação para o prémio.”
Ao lado de A.B. Yehoshua foi nomeado um diverso leque de escritores, incluindo nomes como García Marquez, Gunter Grass, Kundera, António Tabucchi, Kenzaburo Oe, Philip Roth e John Updike.
No mercado português (ao contrário do Brasil) continua a não haver uma única tradução dos romances de A.B. Yehoshua – será por falta de tradutores de hebraico?

Ao todo são 18 os escritores finalistas. Em Março a lista será reduzida para cinco. Aqui vai a lista completa:

Gunter Grass – Alemanha
Ismail Kadare – Albânia
Tomas Eloy Martinez – Argentina
Margaret Atwood – Canadá
Gabriel García Marquez – Colômbia
Milan Kundera – República Checa
Naguib Mafhouz – Egipto
A.B. Yehoshua – Israel
Antonio Tabucchi – Itália
Kenzaburo Oe – Japão
Stanislaw Lem – Polonia
Muriel Spark – Grã-Bretanha
Doris Lessing – Grã-Bretanha
Ian McEwan – Grã-Bretanha
Philip Roth – EUA
Saul Bellow – EUA
Cynthia Ozick – EUA
John Updike – EUA

Lembrado e Esquecido

Ele fez do caminhar na água uma forma de arte. Raramente se molhava. Partia da velha doca dos pescadores a várias horas do dia, ou antes da aurora romper.
Por vezes voltava passados minutos.
Às vezes só depois das arestas das montanhas orientais ficarem vermelhas com o fogo do pôr-do-sol ou depois do ocidente se transformar em brasas e escuridão.
Ninguém compreendia os seus passeios solitários. Alguns sugeriam que aprendesse a fazer ski aquático. Outros contentavam-se com uma piada ou um encolher de ombros.
Pequenos peixes corriam silenciosamente sob os seus pés, indo à sua vida, sem arriscar opiniões sobre o homem que caminhava sobre as águas.
Os tempos era difíceis, como sempre. Acima de tudo era preciso sobreviver, uma tarefa difícil mesmo para um peixe.
Com anos de seca o nível das águas descera e os pescadores às vezes chegavam a casa sem peixe nas redes que chegasse para as suas famílias, já cansadas do gosto e do fedor do peixe, das escamas secas que enchiam as casas infelizes como agulhas de pinheiro cobrindo o chão da floresta.
Isso era antes. Desde então que ninguém o vê.
Alguns dizem que foi a Jerusalém tratar de importantes questões políticas ou religiosas.
Outros garantem que ele foi chamado a passear com o patrão.
Os peritos do mercado – estão sempre por perto – notaram que ele claramente não caminhou sobre as águas.
Depois de algum tempo foi esquecido. Só os velhos e as mexeriqueiras
ainda falavam do homem que aqui estivera, já lá vai muito tempo, e que até caminhava sobre as águas.
Já não sabiam o seu nome. Nem sabiam, provavelmente nunca o souberam, porque fazia ele o que fez. É assim que acontece com histórias como esta, que circulam e acabam num livro qualquer, ou esquecidas.
Esta história conseguiu ambas as coisas: ele é mencionado em vários guias turísticos
em capítulos sobre folclore.

Natan Zach, poeta israelita contemporâneo
Poema do livro Anti-Mechikon, Hakibbutz Hameuchad, Tel Aviv 1984.

Tenho uma grande constipação

Fernando Pessoa

(Estado em que se encontra este blog…)

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor!
0 que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando,
Não estarei bem se não me deitar na cama
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu… Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirina.

Fernando Pessoa.

Arthur Miller (1915-2005)

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância…

Arthur Miller

Dramaturgo premiado e prolífico, Arthur Miller, hoje falecido, escreveu apenas um romance – Focus, em 1945 –, cujo tema central é o antisemitismo e a intolerância. O personagem principal, Lawrence Newman é o director de pessoal de uma empresa que recusa empregar judeus. Ele próprio um antisemita, Lawrence vê a sua vida profundamente transformada quando começa a usar um par de óculos que imediatamente o fazem “parecer judeu” aos olhos dos colegas de trabalho e dos vizinhos. Esta alteração na sua aparência física faz com que Lawrence seja tratado com hostilidade – é despromovido e obrigado a demitir-se. Depois de tentar por todos os meios contestar as suposições erradas sobre a sua pretensa identidade judaica, Lawrence Newman resigna-se. No final do romance, a perseguição fez dele um judeu, convencendo-o ao mesmo tempo da irracionalidade do preconceito e da necessidade de o confrontar e combater.
Focus foi transposto para o cinema em 2001, adaptado por Kendrew Lascelles num filme homónimo realizado por Neal Slavin, com William H. Macy a encarnar Lawrence Newman.
Em 1947, dois anos após a sua publicação, Focus servira já de inspiração ao primeiro filme a confrontar directamente o antisemitismo: Gentleman’s Agreement, realizado por Elia Kazan (o amigo que dez anos mais tarde denunciaria Arthur Miller perante o tristemente célebre House Un-American Activities Committee), com Gregory Peck no principal papel.

::A LER:: CNN.com – Playwright Arthur Miller dead at 89 – Feb 11, 2005 / Arthur Miller – Wikipedia / Arthur Miller: A Life / Arthur Miller – MAJOR WORKS with brief synopses / A Brief Chronology of Arthur Miller’s Life and Works / Houghton Miffilin – Arthur Miller / Arthur Miller and the House of Un-American Activities Committee (HUAC) / Death of a Salesman / BBC – The Marilyn mystery / NNDB: Arthur Miller.

Sem Título

Abraham Joshua Heschel

As nuvens tornam-se teclas de piano
e mãos como pilares crescem eternamente altas;
parece que na minha imaginação sempre
escalei além de mim mesmo,
sobre o mundo – orgulhoso, como se estivesse num telhado.

E algures eu vivo no mundo como um piano.
Como o seio de mãe compreende a mão de uma criança –
eu entendo confuso, dedos humanos,
e acalmo a quietude sedenta com sons de piano.

Quase não preciso de imagens dos meus olhos
para vidui* ou canções;
quase esqueço a fúria dos sentimentos
presos na jaula das palavras.

Abraham Joshua Heschel, (1907–1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

* וידויConfissão em hebraico

O Cabalista

Tenho uma porta interna na alma: um quarto pequeno,
uma luz concentrada, muitos livros
e uma janela à altura dos ombros…

Barry Goldensohn

Tenho uma porta interna na alma: um quarto pequeno,
uma luz concentrada, muitos livros
e uma janela à altura dos ombros.
Os únicos pedaços de natureza que conheço
são os meus pulsos, as mãos e os dedos:
eles mexem-se, mornos, e mudam
lentamente demais para merecer estudo sério.
Da janela, um mundo largo
cheio de coisas enfileiradas: arbustos,
árvores, rios, vacas em linha.
É um texto entediante, esta rede plana.
Nas minhas estantes mesmo o pior dos livros
recua em profundidade e junta-se aos outros livros,
pétalas em movimento para o centro fértil,
costas com costas por trás de mim
lendo o livro atrás do livro, até que
as flores abrem e formamos o texto,

a alma completa, a ordem única.

Barry Goldensohn. Poeta contemporâneo. Judeu norte-americano.

60 anos da Libertação de Auschwitz I

A Cidade do Massacre
Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios; (…)

Haim Nahman Bialik

Wolloch Haggadah em Memória do Holocausto *
Ilustrador: David Wander
Caligrafia e Micrografia: Yonah Weinrib
Haifa, Galeria de Arte Goldman, 1988

“Em cada geração temos a obrigação de considerar como se nós próprios, pessoalmente, tivéssemos saímos do Egipto.”

* A Haggadah é um livro litúrgico judaico que se lê em família durante o jantar ritual de Seder, da Páscoa, contendo o relato da libertação dos judeus, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto.

___________________________________________________

A Cidade do Massacre

Haim Nahman Bialik

Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios;
Com a tua mão toca,
e com os olhos da tua cara

olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale
os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos.
Vai depois às ruínas, onde
se estendem as paredes fendidas,
onde cresce o vazio e maior cresce a brecha;
Passa sobre a lareira despedaçada,
alcança as paredes quebradas
cujos tijolos queimados e estéreis,
cujas pedras carbonizadas
revelam as bocas abertas dessas feridas,
que nenhum remendo alguma vez remendará,
ou cura curará.
Ali penas afundarão os teus pés, e
tropeçarás em destroços duplamente destroçados,
pergaminhos empilhados em manuscritos.
Fragmentos outra vez fragmentados.

Não pares neste caos; segue o teu caminho.
O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento
e metade das suas flores serão penas,
que exalam o odor do sangue.
E, mortificando-te, estranhos incensos trarão.
Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera,
os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição.
Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos;
O assassino matou, as flores desabrocharam,
e depois veio o tempo ameno e o sol.

Vai depois a um quintal, observa o monte.
Sobre o monte estão dois decepados:
Um judeu e o seu cão de caça.
Golpeados com o mesmo machado, os dois,
arremessados para a mesma pilha
onde porcos buscam estrume.
Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados
para os riachos, e perder-se-ão
em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama.

O seu grito não será ouvido.
E tudo será como sempre foi.

Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos;
Observa a sombra da morte erguida entre as sombras.
Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio,
numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste.
Estas são as almas do espírito dos mártires,
Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis.
O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram
selar com o último olhar, com o último sopro,
a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes.
Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se.
O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam:
Porque razão, Senhor, e porquê?
É um silêncio que só Deus pode suportar.

Levanta então os teus olhos para o tecto;
não há lá nada, a não ser um seguro silêncio
suspenso nas traves.
Interroga a aranha no seu esconderijo.
Os seus olhos viram todas estas coisas;
E com a sua teia ela pode desenrolar um relato
horrendo aos ouvidos dos homens:
uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas,
de crânios e ossos esmagados e derramados.
De homens assassinados pendurados nas traves.
E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe
trespassada por uma lança;
De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança,
ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se.
Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações
do relato que a aranha reconta,
histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam
o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre.
Então vais implorar ao teu espírito –
Pára, chega!
Asfixia a raiva que te sobe a garganta,
enterra estas coisas malditas,
bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure.
Depois deixarás estes lugares e partirás – olha! –
A terra é como era, o sol brilha ainda:
É um dia como qualquer outro.

Desce depois às adegas da cidade,
aqui violaram as virginais filhas das gentes,
onde sete bárbaros se atiraram às mulheres,
a mãe à vista da filha,
a filha à vista da mãe,
antes da matança, durante a matança, depois da matança.
Toca com teus dedos o forro manchado,
sente a almofada ensanguentada,
foi aqui que as bestas selvagens
com machados sangrentos nas patas
obrigaram as tuas filhas a sucumbir…
Esmagadas na vergonha, viram tudo;
Não arrancaram os olhos;
Não esmagaram a cabeça contra paredes.
Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações:
Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia!

Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos,
Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram
os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos,
escondidos e agachados – os filhos dos Macabeus!
A semente de santos, a prole dos leões!
Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação,
tanto santificaram o Meu nome!
Fugiram a fuga dos ratos,
o correr das carochas foi a sua fuga;
morreram como cães e morreram!
E, na manhã seguinte, depois da noite terrível
o filho que não foi morto encontrou no chão
o cadáver desprezado do seu pai.
Porque razão, Senhor, e porquê?

Exausta e gasta, uma escura Shekinah
Corre para cada canto sem encontrar descanso;
Deseja chorar, mas o choro não vêm;
Quer rugir; emudeceu.
Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida
sobre as sombras dos mártires mortos,
as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra.

Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão;
Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue;
Tardando ali serás uno com a dor e a angustia
e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias.
Então, no dia da tua própria desolação
parecerá um refúgio,
pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio,
o assombrar de um pesadelo,
Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo
quererás proclamá-lo, falar dele
mas os teu lábios não encontrarão palavras.

Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério.
Não deixes que homem algum te veja; chega só,
Um lugar de campas santas e pedra-mártir.
Chega-te perto do solo revolvido e fresco.
O silêncio tomará conta de ti,
O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha,
mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos.
Endurecerei o teu coração,
não te permitirei um suspiro.
Olha, vê os bezerros mortos, massacrados;
Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço?
Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre!
Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda.
Quando à minha porta vieres buscar recompensa,
abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios.
Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós.
Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu
sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis;
As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa.

Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te
do cemitério aos teus irmãos vivos,
e virás, com os da tua própria geração,
à sinagoga, e no dia do jejum,
para ouvir o seu grito de agonia,
as suas eternas lágrimas.
A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé,
e serás movido, trémulo, pelo medo.
Assim geme um povo perdido.
Olha nos seus corações – observa o triste vazio
onde nem a vingança consegue crescer,
mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam
altas maldições, ou juramentos de blasfémia.
Fala com eles, implora-lhes raiva!
Deixa que contra mim levante a mão ultrajada,
Deixa que exijam!
Exijam retribuição pelos humilhados
de todos os séculos e todos os tempos!
Que se atirem punhos como pedras
Contra os céus e o Trono celeste!

E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas;
Não deites nem mais uma gota no seu cálice.
Onde tocasses encontrarias uma ferida,
as suas carnes são todas chaga.
Porque com resignação enfrentaram a dor
e com a humilhação fizeram pazes,
de que lhes servirá a tua consolação?
São coitados demais para evocar em ti desprezo.
São arruinados demais para evocar em ti compaixão.
Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição,
enlutados e esmagados sob o peso que os oprime.
Parte então das suas casas e lares
podridão nos ossos, corrupto coração.
E vai até à estrada,
encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa,
suspirando e gemendo, às portas dos ricos
proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte,
A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos,
um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos.
E todos têm olhos que são os olhos de escravos,
Escravos açoitados em frente dos donos;
cada um suplica, cada um deseja:
Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado.
Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado!

E assim compaixão imploram.
Porque és agora o que sempre foste
Como estendeste a mão
assim a estendes,
e como foste desgraçado,
assim desgraçado és.

Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos!
Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda o seu grito amargo à tempestade!

Haim Nahman Bialik (1873-1934). Poeta. Judeu nascido na Rússia. Falecido em Tel Aviv, é conhecido como o Poeta Nacional de Israel.

A Cidade do Massacre” foi escrito por Bialik em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido em 1903. A sua profunda e emotiva descrição de um sofrimento inimaginável torna-o extraordinariamente apropriado para recordar Auschwitz.

[tradução preliminar da chamada “versão curta” do poema]

De um coração para outro

Abraham Joshua Heschel

Tão curta a distância – de um coração para outro.
Se me sinto a mim, aos meus desejos,
porque não a ti e os teus?

Milhões de olhos buscam e não conseguem encontrar o outro.
Cada um evita o outro, como aranhas famintas.
Quem não carrega no seu seio amor, gratidão
a outros?

Deixa-me confessar abertamente o meu desejo por ti!
E como uma ponte abarcando mil terras
que te separam de mim,
deixa-me, eu próprio, deitar-me para te alcançar

Abraham Joshua Heschel, (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

A Judia

(poema de Tomás Ribeiro)

Dormes? eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi:
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme, querida, que eu descanto aqui!

Dorme! eu descanto a acalentar-te os sonhos,
Virgens, risonhos, que te vem dos céus!
Dorme! e não vejas o martírio, as magoas,
Que eu digo às águas e não conto a Deus!

Anjo sem pátria, branca fada errante,
Perto ou distante que de mim tu vás,
Há de seguir-te uma saudade infinda,
Hebrea linda, que dormindo estás!

Onde nasceste? Onde brincaste, oh bela?
Rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? em Malta? em Nazareth? no Egipto?
Mundo infinito, e tu sem berço?! oh! Sim.

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Folha que o vento da fortuna impele!
Vítima imbele que o tufão roubou!
Flor que n’um vaso se alimenta, cresce,
Ri, desaparece, e nunca mais voltou!

Filha dum povo perseguido e nobre,
Que o mundo encobre o seu martírio, e crê!
Sempre Ashevero a percorrer a esfera!
Desgraça austera! Inabalável fé!

Porque há de o lume de teus olhos belos,
Mostrar-me anelos d’infinito ardor?
Porque esta chama a consumir-me o seio?…
Deus de permeio maldiz o amor!…

Peito! meu peito, porque anseias tanto?
Pranto! Meu pranto, basta já, não mais!
É sina, é sina; remador, voltemos;
Não n’a acordemos… para quê, meus ais?…

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Tomás Ribeiro (1831- 1901), poeta português.

Versos adaptados para uma canção popular novecentista, dedicada à “Ex.ma Snr.a D. Anna Adelaide Leite Bastos”, recolhida no “Cancioneiro de Músicas Populares”, da autoria de César das Neves com prefácio de Teófilo Braga; Porto, 1893.
(imagens da Biblioteca Nacional).

O Mar e a Praia

Yehuda Amichai

O mar e a praia estão sempre perto um do outro.
Querem ambos aprender a falar, aprender a dizer
uma única palavra. O mar quer dizer “praia”
e a praia “mar”. Cada vez estão mais próximos
da fala, depois de milhões de anos, de dizerem
aquela palavra solitária. Quando o mar disser “praia”
e a praia “mar”,
a redenção virá ao mundo,
e o mundo retornará ao caos.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.


J. M. W. Turner, Barcos Holandeses na Tempestade (óleo sobre tela, 1801)
National Gallery, Londres

Humores

Leib Kvitko

Quem se mascara por trás do vento?
O que é o vento?
Centenas de milhares de humores
tacteiam cegos,

Apalpam o mundo em todos os sentidos,
ponto por ponto,
procuram a face aberta do mundo,
mas nada encontram.

Vida sim, vida não,
tentam e tentam.
Talvez o mundo não tenha rosto?
Não há resposta.

O velho sentinela – senil,
Nada sabe.
O livro antigo com antigas fábulas
não acreditamos agora nele

Centenas e centenas de humores
tacteiam cegos.
E eu junto-me à procissão,
a minha criança vem atrás.

Leib Kvitko (1893-1952), poeta, judeu russo, morto por ordem de Stalin durante a Noite dos Poetas Assassinados.

[traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês feita por Joseph Leftwich]

::NOTA:: O American Jewish World Service, uma das principais organizações judaicas de ajuda humanitária, está a recolher fundos de emergência para distribuir por 24 ONGs sediadas nos países do Sudoeste Asiático directamente afectados pela catástrofe. As doações podem ser efectuadas directamente na Internet, aqui: American Jewish World Service Tsunami Relief.

Oração para Todos os Governantes

Abraham Joshua Heschel

Não me destines, ó Senhor dos Exércitos
à humilhação – de vitória ou heroísmo.
Humilha-me, se a minha desgraça
for um conforto para os fracos.

Minha alma agita-se teimosamente:
Sim a tudo!
Apenas não à guerra!

E no princípio da guerra
rogo-te,
dai-me derrota!

Meu coração mais facilmente suportaria
as dores do falhanço, da perda
do que o significado de vitória.

Sê o salvador e guardião
da justiça profanada.
Deixa-me estar errado quando sinto triunfo!

Deixa-me levar os orgulhosos troféus
que marcam as alegrias que meus gestos
deixaram em corações humanos.

Não me destines, ó Senhor dos Exércitos
à humilhação – de vitória ou heroísmo.
Humilha-me, se a minha desgraça
for um conforto para os fracos.

Abraham Joshua Heschel, (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]


O rabino Heschel (o segundo a contar da direita) ao lado de Martin Luther King (ao centro) em 1965, na famosa marcha de Selma para Montgomery, Alabama, durante a luta pelos direitos cívicos da minoria negra norte-americana.

Um Supermercado na Califórnia (1955)

Que pensamentos teus tenho esta noite, Walt Whitman, porque
caminhei pelas ruas sob as árvores com uma dor de cabeça
auto-consciente olhando para a lua cheia.
Na minha faminta fadiga, e procurando imagens, entrei
no supermercado de frutos de néon, sonhando com as tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
fazem compras à noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates, bebés nos tomates – e tu, Garcia Lorca, que
fazias tu junto às melancias?

Eu vi-te, Walt Whitman, sem filhos, velho cavador solitário,
apalpando as carnes no frigorífico e olhando os rapazes
do supermercado.
Ouvi-te fazer perguntas a cada um: Quem matou as
costeletas de porco? A como são as bananas? És tu o meu anjo?
Vagueei dentro e fora da brilhante pilha de latas
seguindo-te, e seguido na minha imaginação pelo segurança
da loja.
Caminhámos juntos pelos corredores abertos na nossa
solidão ilustre provando as alcachofras, possuindo todas as delícias
congeladas, sem nunca passar pela caixa.

Onde vamos nós, Walt Whitman? As portas fecham daqui
a uma hora. Em que direcção aponta a tua barba esta noite?
(toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no
supermercado e sinto-me absurdo.)
Caminharemos toda a noite por ruas solitárias? As
árvores juntam sombra a sombras, luzes apagadas nas casas, estaremos ambos
solitários.

Caminharemos sonhando com a América perdida do amor
passando por automóveis azuis à entrada das garagens, em direcção à nossa cabana tranquila?
Ah, querido pai, barba grisalha, velho solitário professor-coragem,
que América tinhas tu quando Caronte deixou de puxar a sua balsa
e tu desceste numa margem fumegante e ficaste a olhar o barco
desaparecendo nas águas negras do Rio do Esquecimento?

Allen Ginsberg (1926 – 1997), poeta, judeu americano.

:: Áudio :: O original deste poema pode ser ouvido aqui na voz do poeta.

No Palácio do Teu Rosto

O teu rosto é o meu palácio,
os teus olhos – azuis, quase –
o travesseiro para a minha alma.

Quando o meu nome repousa no berço
dos teu lábios macios
os meus membros tornam-se luz, tornam-se brilho.

Quando com um sorriso, e um copo de vinho,
dizes l’chayim* ao meu sonho –
a minha fé grisalha rejuvenesce.

Quando com um sorriso, doce selo,
imprimes em ti o meu destino –
o meu coração transforma-se numa escada para os céus.

O teu rosto é o meu palácio,
os teus olhos – azuis, quase–
o travesseiro para a minha alma.

Abraham Joshua Heschel, (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

* Brinde tradicional em hebraico que literalmente significa “à vida!”. Equivalente a “à saúde”, “cheers

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]