
“Il ne s’agit pas là d’une opinion mais d’un délit.”
Jean-Paul Sartre, escrevendo sobre o antisemitismo, in Réflexions sur la Question Juive, 1946.
"Quem é sábio? Aquele que aprende com todos!" Ben Zoma, Pirkei Avot

“Il ne s’agit pas là d’une opinion mais d’un délit.”
Jean-Paul Sartre, escrevendo sobre o antisemitismo, in Réflexions sur la Question Juive, 1946.
Jonathan Edelstein escreveu um post absolutamente indispensável: On the commonalities of post-genocidal states: a rough sketch, um ensaio onde se estabelecem termos de comparação entre as experiências de Israel, da Arménia e do Ruanda, três estados que vivem com a pesada herança deixada pelo genocídio. No texto, Jonathan Edelstein (que explica as razões para a não inclusão de Timor-Leste neste grupo) desenvolve cinco noções básicas comuns – um forte sentido de pátria e refúgio; uma ética de autodefesa; ligação a um protector; problemas com os países vizinhos; e uma extrema reticência em confiar nas intenções de terceiros.
Escrito com extrema lucidez. Para ler com atenção.

O excêntrico arqueólogo Vendyl Jones: em busca da Arca Perdida
Vendyl Jones é provavelmente o mais excêntrico e polémico arqueólogo da actualidade. Considerado um “génio” por alguns e um charlatão por muitos, Jones afirma ter sido ele a inspiração para o arqueólogo imaginário que o mundo haveria de conhecer como Indiana Jones. Agora, o Jones de carne e osso promete igualar a proeza do seu homónimo cinematográfico, afirmando estar preparado para desvendar até Agosto a localização exacta da Arca do Convénio – o receptáculo construído sob ordens de Moisés para guardar as Tábuas dos Dez Mandamentos, o mais sagrado dos artefactos judaicos desaparecidos – ver Kabbalist Blesses Jones: Now´s the Time to Find Holy Lost Ark.
O trabalho arqueológico Vendyl Jones, segundo ele próprio, baseia-se em grande medida no mais enigmático dos Pergaminhos do Mar Morto, o chamado Manuscrito de Cobre (ver University of Southern California: Copper Scroll). Ao contrário dos restantes 849 documentos, atribuídos aos Essénios, que compõem os pergaminhos encontrados em Qumran, este manuscrito não é uma obra literária ou religiosa, mas uma espécie de mapa de tesouro onde, em linguagem críptica, se descreve a localização de enormes quantidades de ouro, prata e artefactos que alguns historiadores acreditam terem pertencido ao Templo Sagrado de Jerusalém, destruído e saqueado pelos romanos no ano 70. Recorrendo ao Manuscrito de Cobre, Vendyl Jones acredita agora ter descodificado a localização exacta da Arca do Convénio (aron habrit, em hebraico, ארון הברית). Sim… a tal que os nazis buscavam desesperadamente e que Indiana Jones “encontrou” no filme de Stephen Spielberg.
Os especialistas académicos, mais uma vez, torcem o nariz: “Vendyl Jones diz ter sido ele a inspiração para Indiana Jones, o que é bastante apropriado porque os seus planos para encontrar a Arca são tão plausíveis quanto o cenário do Salteadores da Arca Perdida”, escreveu James Davila, professor de Estudos Judaicos da Universidade de St. Andrews, na Escócia, e especialista em Antiguidade Judaica.
Os métodos de Vendyl Jones podem ser pouco ortodoxos, mas a verdade é que os resultados alcançados até agora têm deixado boquiaberta parte da comunidade académica. Em 1988, decifrando o Manuscrito de Cobre, Jones encontrou uma pequena vasilha de barro cujo conteúdo ele afirma ser Shemen Afarshimon, o óleo sagrado do Templo. Análises químicas posteriores parecem dar razão a Vendyl Jones mas, mesmo assim a descoberta foi recebida com enorme cepticismo. Em 1992, Jones diz também ter encontrado cinzas de “incenso do Templo Sagrado” (ketoret), mas os seus críticos garantem que tudo não passa de um embuste. Agora, proclamando revelar ao mundo a Arca do Convénio até Agosto, Jones embarca numa excêntrica e quimérica corrida contra o tempo que poucos acreditam poder vir a correr-lhe de feição.
Tudo isto se passa, é claro, num recanto do mundo onde a arqueologia é arma de arremesso político, utilizada por ambos os lados para fazer valer as suas próprias narrativas da história e invalidar as do outro (ver Temple Mount relics saved from garbage).
::A LER:: Vendyl Jones – Wikipedia / Jewish Herald Voice Newspaper, Houston, TX, May 2000 – Vendyl Jones And The Ark Of The Covenant / Copper Scroll – Wikipedia / Vendyl Jones Research Institute
::A VER:: BBC – Real ‘Raiders of the lost Ark’ (formato RealAudio)

Quando as primeiras notícias sobre o escândalo Watergate começaram a ser publicadas pelo Washington Post, Richard Nixon, um homem já de si extremamente paranóico, tentou descortinar quem seria a fonte dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, conhecida durante mais de 30 anos apenas como Garganta Funda. Sabe-se agora que o Garganta Funda foi Mark Felt, então vice-director do FBI, que deu a conhecer a sua participação na revelação do Watergate esta semana à revista Vanity Fair (ver “I’m the Guy They Called Deep Throat”). Ironicamente, Nixon desconfiou dele porque pensou que Felt era judeu. A conversa do então presidente americano com o seu assessor H. R. Haldeman ficaria gravada para a posteridade:
Nixon – Isto veio do FBI… eu juro que mando aquela cambada toda para a rua… terá sido o Felt? Ele é católico?
Haldeman – Não, acho que é judeu.
Nixon – Cristo! O Hoover meteu lá um judeu!?… Pode ser coisa dos judeus. Não sei… é possível.
O assessor de Richard Nixon estava errado, Mark Felt nem era judeu, mas sim um agnóstico descendente de uma família de emigrantes protestantes irlandeses. O episódio, no entanto, vem sublinhar a paranóia de Nixon, que transparecera já em 1996, quando a vinda a público de uma série de gravações, efectuadas na Casa Branca em 1971, revelou o profundo antisemitismo do presidente republicano. A propósito dos financiadores da campanha da oposição democrata, Nixon pede a Haldeman que ponha o fisco à perna “dos judeus” democratas:
Nixon – Por favor tragam-me os nomes dos judeus… você sabe Bob, os judeus graúdos que contribuem para os democratas. Será que não podemos investigar alguns destes filhos da puta?
::A LER:: Deep Throat: Not a Jew / FORWARD : Shocked, Shocked
Allegations of Richard Nixon’s antisemitism, fueled by each new batch of tapes released, should come as no surprise / Nixon urged audits of Jewish contributors / Slate – Nixon: I Am Not an Anti-Semite / Tapes reveal Nixon as anti-Semite / TomPaine.com – Nixon: “Maybe I’m Jewish” / Jews repulsed by Nixon’s plans to audit Democrats / Slate – Deep Throat: The Game Is Afoot
Luís Henriques
Qu’achaste ó “ahanim”,
que vos assim namorou?
rezar bem o “tafalim”?
ou com que vos “çabacou”?
Eu jurar por minha lei
ou polos dez mandamentos?
ou dizer – viva el-rei!
Como sei
em seus estrevançamentos?
Em rezar o “baracha”
ou de que fôstes contente
ou em ser mui diligente
quando vão a “minaha”.
Em guardar bem o “sabá”
ou cheirar-vos à “defina”?
Como fôstes tam mofina
Katerina
Sobre serdes muito má.
Quando vier comer
que for o partir do pão
dir-vos ha ũ oração
sabê-lhe vós responder:
“Baru ata Adonai Eloheno”
Sam palavras que diz
Amoça “lecha minariz”
lhe respondêres, e peno,
pois meu bem foi tam pequeno.
Luís Henriques (finais do século XV), poeta e fidalgo da Casa de Bragança.
Esta estança, curiosamente recheada de palavras e frases hebraicas, foi escrita após Catarina, a sua amada “cristã-nova”, ter trocado Henriques por um judeu.
in Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516)
Devia ser leitura obrigatória. Acabadinho de chegar às livrarias, chama-se A Viragem Profética e foi escrito por Luís Carmelo na tentativa de desvendar o presente à luz das pegadas deixadas por um passado ibérico rico em literatura profética. No seu blog em inglês, o Luís oferece-nos ainda mais uma achega, para ler aqui: Minion: Prophetic literature and war in pre-modern times (The catastrophe of the Hispanic Moriscos or a Memory without Memory). Para complementar tudo isto, e na mesma linha, regressa-se ao Miniscente para ler um poema delicioso: Crescente poético luso – 1 – As laranjas II (Ibn Sâra de Santarém). Parabéns Luís pelo excelente trabalho!

António José da Silva

Que delito fiz eu para que sinta
o peso desta aspérrima cadeia
nos horrores de um cárcere penoso
em cuja triste, lôbrega morada
habita a confusão e o susto mora?
Mas se acaso, tirana, estrela ímpia,
é culpa o não ter culpa, eu culpa tenho.
Mas se a culpa que tenho não é culpa,
para que me usurpais com impiedade
o crédito, a esposa e a liberdade?
António José da Silva, o Judeu, nascido a 8 de Maio de 1705, há precisamente 300 anos. Poeta escritor e dramaturgo, é considerado o principal responsável pela renovação do teatro português no século XVIII. Preso pela Inquisição a 5 de Outubro de 1737, acusado de praticar o judaísmo, foi executado na fogueira em Lisboa a 18 Outubro de 1739, aos 34 anos, num “auto-de-fé” presidido pelo rei D. João V, “O Magnânimo”. No mesmo dia foram queimados mais dez “judaizantes”.
Ilustração: Tribunal Inquisitorial (pormenor), Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)
António José da Silva dá o sinal
Há recompensa a servir de bálsamo
À ira do teu espírito –
Eles podem ter-te morto, mas foram eles
quem ardeu!
Lestos no cadafalso e no garrote,
Para carne judia e corações judeus
castigar na fé e satisfazer o fogo dos fanáticos.
Que esqueçam as histórias incendiadas,
Que baixe a cortina no tenebroso enredo.
Eles riem agora em Lisboa e em Madrid
Em galas ressuscitadas da tua cómica musa ;
Onde piras carnais se ergueram,
Eles titilam a golpes do florete de teu talento.
Saudações Judeu António, acredito que te sentas
À boca de cena, com irónica expressão, no lugar do ponto.
Poema dedicado à memória de António José da Silva, escrito por Walter Hart Blumenthal, antropólogo e historiador norte-americano, nascido nos finais do século XIX.
::A LER:: Wikipédia – António José da Silva / António José da Silva, o Judeu / Casa de Sarmento – António José da Silva, o Judeu / Jewish Virtual Library – Antonio Jose da Silva
Yehuda Amichai
Depois de Auschwitz, não há teologia:
Das chaminés do Vaticano levanta-se fumo branco –
sinal que os cardeais escolheram um Papa.
Dos crematórios de Auschwitz, levanta-se fumo negro –
sinal que o conclave dos Deuses não escolheu ainda
o seu povo.
Depois de Auschwitz, não há teologia:
os prisioneiros do extermínio têm nos braços
os números de telefone de Deus,
números que não respondem
e que se desligam, um a um.
Depois de Auschwitz, uma nova teologia:
os judeus que morreram no Shoá
são agora semelhantes ao seu Deus,
que não tem imagem ou semelhança e não tem corpo.
Eles não têm imagem ou semelhança e não têm corpo.
Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Imagem: Tatuagem de Auschwitz. Número B-11291, de Henry Oertelt, sobrevivente do Shoá e autor da autobiografia An Unbroken Chain: My Journey Through the Nazi Holocaust. Os números tatuados nos prisioneiros eram também conhecidos como “números de cremação”.
No blog Israelity – Life beyond the conflit, Ari Miller conta a história de um jovem que pediu autorização à avó para tatuar os números dela no seu próprio braço. Para ler aqui.
Hoje 5 de Maio de 2005 (26 de Nisan de 5765 do calendário hebraico), celebra-se o Dia de Lembrança dos Mártires e Heróis do Holocausto. Para que não se esqueça o que aconteceu há 60 anos. Para que o sofrimento inimaginável de tantos milhões não tenha sido em vão. Uma oportunidade também para recordar que o genocídio não é uma coisa do passado: Povo de Bahá – Infância perdida.

O saque de Jerusalém pelos soldados romanos (ano 70), Arco de Tito, Roma.
Aos 33 anos de idade, Yeshua ben Yosef, um pregador da Galileia, cumpriu um ritual que mantinha desde criança – uma tradição, aliás, seguida à risca pela sua família e pela maioria dos habitantes do reino – e deslocou-se a Jerusalém para celebrar a Páscoa, o festival que coincidia com a chegada da Primavera. Se as contas do calendário gregoriano estivessem correctas, na noite de 3 de Abril do ano 34, uma sexta-feira (dia 14 do mês de Nisan do ano 3793 do calendário hebraico), acompanhado por 12 outros judeus seus seguidores, Yeshua participou no que provavelmente terá sido uma refeição ritual – o Seder –, comemorando a libertação do seu povo da escravidão no Egipto. Dias depois, acusado de ser um agitador, o pregador seria morto por ordem do governador romano da Judeia. Esbatidos pelas poeiras da história, alguns destes detalhes foram sendo gradualmente esquecidos. A posteridade recorda apenas Yeshua. O mundo haveria de conhecer este judeu da Galileia através da corruptela grega da tradução do seu nome: Ιησούς – Jesus.
Celebrada pelos cristãos para assinalar a morte de Jesus, a Páscoa cristã – a principal festividade do calendário litúrgico católico –, foi instituída por decisão do Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino, no ano 325, quase três séculos após a crucificação. O nome em si vem do grego pascha, que por sua vez é uma adaptação do termo hebraico para as festividades judaicas que assinalam a libertação do cativeiro do Egipto: pessach.
Apesar da Páscoa cristã não ter hoje nada a ver com a sua ancestral judaica, a oração de proclamação “de glória e ressurreição” contida no hino pascal católico Exsultet orbis gaudiis faz a ligação às raízes judaicas do cristianismo ao evocar nos seus versos “a libertação do povo de Israel da escravidão”. Curiosamente, a Páscoa é a única festividade cristã cuja data não é fixa – uma característica que partilha com algumas festas religiosas do judaísmo –, ocorrendo no primeiro domingo após “a primeira lua nova eclesiástica depois do equinócio de 21 de Março”. Assim, dependendo dos anos, a data da Páscoa cai entre 22 de Março e 25 de Abril.
Os próprios símbolos que nas missas católicas pretendem recordar a última refeição de Jesus e o chamado sacrifício pascal – o pão e o vinho – são retirados directamente do Seder da Páscoa judaica. Ainda hoje, numa tradição que dura há milénios, os judeus celebram a sua Páscoa cumprindo mandamentos estritos que ordenam que se beba vinho e coma pão ázimo em memória da libertação dos israelitas, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto (ver vinho e matzá). Estes dois elementos profundamente judaicos estão na origem da utilização da hóstia e do vinho nas missas católicas, introduzidos nos primeiros séculos, quando ainda todos os seguidores de Jesus eram judeus e o cristianismo era apenas uma denominação sectária do judaísmo.
O relato cristão da história pascal é bem conhecido de todos, no entanto, as narrativas tradicionais da Paixão de Cristo e da Páscoa cristã – descritas pelos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João – são hoje postos em causa por historiadores e académicos, que descrevem os textos sagrados cristãos primariamente como doutrinários e não históricos, contendo entre si inúmeras contradições e inconsistências. Mesmo assim, eles são muitas vezes a única fonte directa de informação. Na verdade, os evangelhos, canonizados como parte integrante da Bíblia cristã no século IV, seriam escritos apenas no século II, cerca de 100 anos decorridos sobre a morte de Jesus – numa altura em que o cristianismo primitivo se debatia com intensas discussões doutrinárias e uma vontade crescente de emancipação em relação ao judaísmo.
Confrontando os escritos da tradição cristã com outras fontes da época, os historiadores rejeitam hoje de forma consensual alguns dos factos narrados nos primeiros livros do Novo Testamento em relação à morte do messias cristão. Um deles, por exemplo, é a libertação de Barrabás em vez de Jesus, a pedido da multidão (descrito em Mateus 27:15 a 21).
Autor do livro The Homeric Epics and the Gospel of Mark, o historiador americano Dennis R. MacDonald, um especialista no Novo Testamento, defende que, para além dos evangelhos, não existe qualquer prova histórica para o alegado costume romano de libertar um prisioneiro a pedido dos judeus. Para mais, acrescenta MacDonald, esta prática seria “simplesmente absurda”, uma vez que os romanos nunca libertariam alguém, por exemplo, acusado de matar soldados seus, como acontece com Barrabás. O historiador argumenta que, um século após os acontecimentos, os evangelistas teriam “criado” o alegado costume como forma de estabelecer termos comparativos entre o Bem (representado por Jesus) e o Mal (Barrabás), demonstrando de forma alegórica a tendência do povo para escolher o mal.
O emblemático “lavar de mãos” de Pilatos em relação a Jesus, na opinião dos historiadores, é também bastante improvável. “As realidades do poder de Roma, bem como o próprio temperamento de Pilatos, fazem com que a teoria da culpa dos judeus pela morte de Jesus seja completamente implausível em termos históricos”, escreve o padre e historiador americano Bruce Chilton no livro Rabbi Jesus – An Intimate Biography, um aprofundado trabalho sobre o Jesus Histórico integrado nas suas raízes judaicas.
Por tudo isto, os relatos evangélicos da relutância de Pilatos em condenar Jesus são lidos pelos historiadores como uma tentativa dos cristãos primitivos de tornar a narrativa da Paixão o menos censurável possível aos olhos dos romanos, no seio dos quais se pretendiam integrar – assumindo-se ao mesmo tempo como uma ruptura com a sinagoga judaica, da qual se queriam agora afastar definitivamente.
Historiadores judeus da época, como Flavius Josephus e Philo de Alexandria, descreveram de forma extensa e detalhada a brutalidade do governador romano da Judeia. Philo chamou-lhe “inflexível, casmurro e cruel”, acusando Pilatos de “incomensuráveis actos de crueldade contra os judeus”, incluindo execuções de prisioneiros sem julgamento. A crucificação, aliás, era uma pena romana aplicada exclusivamente àqueles que não eram cidadãos romanos e aos autores de crimes de insubordinação política. Jesus é crucificado por alegadamente se intitular “o rei dos judeus” – o que Pilatos terá recebido como um insulto à incontestável autoridade romana sobre a província.
Curiosamente, a carreira de Pilatos acabaria em desgraça precisamente por causa da sua brutalidade: no ano 36 é chamado a Roma e demitido pelo imperador Tibério, depois de ter ordenado o massacre de uma multidão de mais de quatro mil seguidores de um profeta samaritano.
Como testemunho histórico da sua violência, só no ano em que Yeshua ben Yosef – Jesus – foi morto (34 da Era Comum), pelo menos 3 mil judeus foram igualmente crucificados em redor de Jerusalém. Durante a ocupação romana da Judeia, recorrendo a relatos da época, os historiadores estimam que os romanos terão ao todo crucificado mais de 250 mil judeus.
[::NOTA:: Este post é uma versão integral e “interactiva” de um trabalho deste vosso escriba publicado na edição desta semana da revista FOCUS, cumprindo a promessa feita aqui.]
Mais dois blogs a acompanhar assiduamente por todos aqueles que se interessam pelas estórias da História: o primeiro é o Curiosities of Literature, dedicado exclusivamente à publicação fascicular do livro homónimo de Isaac D’Israeli (pai do notável Benjamin Disraeli); o outro chama-se Giornale Nuovo, da autoria do mesmo blogger, descrito como “uma acumulação de notícias inconsequentes em forma de web-log”. Já agora, acrescente-se mais um site à lista de favoritos: a página do Centre de Recherche sur la Littérature des Voyages, onde se pode ouvir, entre outras, a gravação de uma conferência (em francês… évidemment) intitulada Civilisations et cités perdues dans la littérature des voyages: Jérusalem des tropiques, l’utopie de l’Eglise primitive dans les écrits missionnaires d’Amérique au XVIe et XVIIe siècles, sobre os missionários jesuítas no Brasil. (via The Rhine River, o blog obrigatório de Nathanael Robinson.)

Acabam de ser lançados dois livros de excelentes autores sobre uma área dos estudos judaicos que me atrai particularmente: o “cristianismo primitivo”; o Jesus indissociavelmente enquadrado nas suas raízes judaicas. O meu interesse, além de académico, tem sido muitas vezes movido por um fascínio especulativo, aquilo que em inglês se designa como counterfactual history – conjecturar como teria sido a História sob circunstâncias diferentes –, neste caso particular, o que teria acontecido se os judeus do primeiro século tivessem aceite Jesus enquanto messias? Um destes novos livros oferece uma resposta perfeitamente plausível.
Em Why the Jews Rejected Jesus: The Turning Point in Western History, David Klinghoffer defende que, perante este cenário, o cristianismo teria permanecido um movimento inteiramente judaico, minoritário no seio do judaísmo como os essénios do Mar Morto ou os saduceus de Jerusalém, e seria, tal como estes, condenado a uma extinção gradual. Escreve ele:
Se os judeus não tivessem rejeitado Jesus, se Paulo não tivesse voltado a liderança da igreja para um novo rumo, a fé embrionária teria provavelmente perecido tal como aconteceu com todas as seitas heterodoxas judaicas que desapareceram após a destruição de Jerusalém e do seu Templo pelos romanos no ano 70 E.C.*, deixando apenas o judaísmo “rabínico” – o judaísmo tradicional dos nossos dias. Não haveria cristianismo, nem Europa cristã ou civilização ocidental tal como a conhecemos.
Muito provavelmente o islão teria aparecido mais ou menos da forma como o fez, outro descendente do judaísmo que também dispensou as complexidades da prática religiosa judaica. Mesmo com o cristianismo como fé unificadora da Europa, o islão quase se espalhou por todo continente. Foi rechaçado apenas pela força, a 150 milhas de Paris, na batalha de Tours em 732. Tivesse o cristianismo morrido enquanto seita judaica falhada no ano 70, a Europa seria hoje certamente muçulmana.*Era Comum
O livro não acaba aqui e nem sequer se restringe apenas à história especulativa, mas a análise não deixa de ser imensamente interessante. Nas restantes 250 páginas, Klinghoffer aborda as razões históricas, teológicas e políticas que obrigaram o judaísmo a rejeitar as reivindicações messiânicas de Yeshua ben Yosef (sobre a visão judaica do messias ver também O Conceito de Messias no Judaísmo, aqui nos arquivos da Judiaria).
O segundo livro, lançado na semana passada no Reino Unido, é The Passion, escrito pelo historiador Geza Vermes, professor emérito de Estudos Judaicos da Universidade Oxford, tido como uma das maiores autoridades académicas no que diz respeito ao “Jesus Histórico”. Este é o seu sexto livro sobre o contexto histórico e o judaísmo de Jesus.
Já o encomendei via Amazon.co.uk, mas ainda vem a caminho. A julgar por aquilo que se escreveu sobre ele (ver esta nota publicada pelo Sunday Times de Londres: Religion: The Passion by Geza Vermes ) Vermes volta a não desiludir. Sobre ele, escreve o professor Jim Davila no seu excelente blog PaleoJudaica :
Vermes tem sempre uma perspectiva interessante, construída sobre uma filtragem crítica do material dos Evangelhos que coloca posteriormente nos respectivos contextos históricos, filosóficos e geográficos.
Tanto Geza Vermes quanto David Klinghoffer são judeus, mas o primeiro tem uma história pessoal bastante curiosa. Húngaro de nascimento, filho de vítimas do Holocausto, Vermes foi padre católico (depois de ter sido convertido ao catolicismo aos sete anos pelos pais, na tentativa de o fazer escapar ao antisemitismo reinante), regressando posteriormente às suas raízes judaicas. Sobre a fascinante história pessoal de Geza Vermes vale a pena ler esta excelente entrevista publicada no Independent: Geza Vermes: A child of his time. E, já agora, sugiro também uma crítica historiográfica ao filme de Mel Gibson, A Paixão do Cristo, assinada por Geza Vermes em Fevereiro do ano passado no Guardian: Celluloid Brutality, by Geza Vermes.
Prometo desde já voltar ao tema, ainda antes de sexta-feira, com um post aprofundado com uma análise histórica e enquadramento judaico dos últimos dias de Jesus.

Erma A. e George G. sobreviveram aos horrores de Auschwitz. A dor das suas memórias, bem viva 60 anos depois, merece ser ouvida na primeira pessoa. Os vídeos estão aqui: Shoah Foundation – Erna A.; Shoah Foundation – George G.
Os seus testemunhos fazem parte dos mais de 52 mil depoimentos de sobreviventes e testemunhas do Holocausto recolhidos pela Survivors of the Shoah Visual History Foundation.
Durante a rodagem de Schindler’s List, em 1992, Steven Speilberg conheceu vários sobreviventes dos campos de concentração. Depois de ouvir as suas histórias, o realizador apercebeu-se da necessidade premente de preservar estes relatos antes que fosse tarde de mais. Foi neste contexto que criou a Survivors of the Shoah Visual History Foundation (um pequeno vídeo sobre os objectivos da fundação, narrado por Morgan Freeman, pode ser visto aqui). O espólio de depoimentos recolhidos destina-se primariamente a servir como ferramenta educativa, na esperança que os testemunhos pessoais do sofrimento sirvam para estimular a tolerância, evitando que a morte, durante o Holocausto, de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e prisioneiros políticos tenha sido completamente em vão. Infelizmente, o caso de Darfur, no Sudão, mostra que o genocídio não é coisa do passado e continua a ser praticado com impunidade nos nossos dias, como prova este vídeo da BBC.
::Vídeos Históricos:: A Libertação de Auschwitz I – As Crianças / A Libertação de Auschwitz II – Relíquias Macabras / A Libertação de Auschwitz III – As Experiências Médicas Nazis / O Ghetto de Varsóvia / O Extermínio e a “Solução Final” / Os julgamentos de Nüremberg / A Vida Antes da Guerra
::Outros Testemunhos:: Edith P. / Rachel G. / Marion P. / Christa M.
::Outros Links:: Auschwitz: Inside the Nazi State (site de um excelente documentário produzido pela BBC) / Holocaust Memorial Museum / Yad Vashem The Holocaust Martyrs’and Heroes’ Remembrance Authority / Museum of Tolerance / Simon Wiesenthal Center / Center for Holocaust and Genocide Studies: Virtual Museum of Holocaust and Genocide Art / Southwest Florida Holocaust Museum / The Holocaust History Project Homepage
Em nome da transparência, convém revelar que a minha mulher trabalha actualmente como investigadora da Shoah Foundation.
Dois quadros do pintor Felix Nussbaum (1904-1944), o primeiro dos quais um auto-retrato. Judeu alemão, Nussbaum morreu com a mulher em Auschwitz, em 1944, a poucos meses da libertação do campo. Outro pintor, o judeu polaco David Olère, sobreviveu ao extermínio de Auschwitz. Algumas das suas obras podem ser vistas nesta exposição online.

Sempre me chocaram as fotografias. Não só as óbvias. Mas também as outras. As fotografias tiradas antes de tudo acontecer. As fotografias onde rostos sorriem sem ter a mínima consciência do que está para vir. Há algo de perverso em olhar hoje para aquelas caras, cheias de esperanças e de futuros, e saber que nenhum dos seus sonhos se realizou; em olhar para aquelas fotografias de tempos felizes – ou pelo menos “normais” – sabendo de antemão o horrível destino daquelas vidas. Quando digo que as fotografias me chocam não falo de sentidos figurados – refiro-me a uma reacção profundamente física: um nó no estômago, um aperto de maxilar na tentativa de conter lágrimas que começam a turvar a vista.
Já aqui escrevi um dia sobre esta sensação. Há quase um ano, em casa dos meus sogros, debruçámo-nos sobre uma pilha de álbuns de família, daqueles com fotos amarelecidas de gente com roupas e penteados de outros tempos. Eram avó, tios, tias, primos, primas e amigos. A maioria sorria invariavelmente para a câmara, com expressões agora suspensas no tempo. Os sorrisos destes rostos do passado mostravam a despreocupação natural de quem tira um retrato de família, inconsciente dos horrores que se aproximam. Judeus polacos, a esmagadora maioria da família dos meus sogros – os que não tinham já conseguido escapar para Israel – morreu no Shoá, em descampados de província na Polónia, frente a pelotões de fuzilamento, ou em lugares com timbre macabro: Auschwitz, Bergen-Belsen, Buchenwald e Dachau. Vítimas no maior acto de genocídio da História humana, deles apenas restam os fantasmas guardados naqueles álbuns de família. E a memória dos que ficaram.
Ilustração: imagem de Daniel Blaufuks, retirada do documentário Sob Céus Estranhos / Under Strange Skies.
De uma forma estritamente pessoal, sem pretender ser um qualquer “porta-voz de todos os judeus”, gostaria mesmo assim de agradecer profundamente a todos quantos usaram hoje os seus blogs para recordar o 60° aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho e os horrores do Holocausto.