Sinagoga secreta descoberta no Porto


Ekhal, a Arca da Scola Grande Tedesca, na sinagoga de Campo Ghetto Nuovo, Veneza.

Vestígios de uma sinagoga secreta dos finais do século XVI foram recentemente descobertos no Porto, na Rua de S. Miguel, numa casa comprada há quatro anos pelo pároco de Nossa Senhora da Vitória. Encontrado por acidente durante uma obras, um nicho emparedado foi identificado por especialistas como um ekhal (pronunciado “errál”), a reentrância onde eram guardados os rolos da Torá, a parte mais sagrada da sinagoga, também conhecida simplesmente como Arca (aron ha’kodesh – ארון הקדש). Este achado reveste-se de uma importância histórica notável, provando a existência de uma sinagoga secreta no Porto mais de um século após a conversão forçada dos judeus portugueses, decretada por D. Manuel I em 1497. Num trabalho publicado no Jornal de Notícias (ver Jornal de Notícias – Sinagoga descoberta no Porto), assinado pelo jornalista Pedro Olavo Simões, o arqueólogo Mário Jorge Barroca data o ekhal nos finais do século XVI ou princípios do século XVII. A descoberta do que resta de uma sinagoga clandestina naquela localização, segundo afirma a historiadora Elvira Mea também ao Jornal de Notícias, enquadra-se nos relatos do rabino Immanuel Aboab – que nasceu e foi criado no Porto – inscritos no seu livro Nomologia o Discursos Legales, publicado em Amsterdão em 1629. A historiadora diz ainda que contactou o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil, alertando para a necessidade de preservar este raro achado, mas apenas a última instituição terá manifestado algum interesse.

PS – Um muito obrigado a Carlos Romão e Paulo Jorge Santos por me alertarem para a notícia. Francisco José Viegas também escreveu sobre o achado no seu A Origem das Espécies. Já agora acrescento que Elvira Mea, a historiadora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto citada no texto de Pedro Olavo Simões, é responsável pela cadeira Judeus e Cristãos Novos na Cultura Portuguesa. Sobre a história dos judeus no Porto, e com uma breve referência à sinagoga agora descoberta, ver ainda este pequeno artigo da Jewish Encyclopedia, datado de 1905, da autoria do rabino alemão Meyer Kayserling, um dos maiores estudiosos novecentistas da história dos judeus portugueses.

::ADENDA::
Para memória futura, aqui fica a transcrição do trabalho do Jornal de Notícias:

Sinagoga descoberta no Porto

Por Pedro Olavo Simões

Foi descoberta, no Porto, uma sinagoga de finais do século XVI. Por circunstâncias várias, tem enorme importância histórica, mas está numa casa onde a paróquia de Nossa Senhora da Vitória ultima a construção de um lar de idosos, com aval do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR).
A historiadora Elvira Mea, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) , anda há dois anos a lançar alertas para a existência, no nº 9 da Rua de S. Miguel, de um “Ehal” (nicho onde são guardados os rolos da Torah, a Lei atribuída a Moisés), que tem o especial valor de ter sido feito depois da expulsão/conversão forçada dos judeus em 1496/97, por D. Manuel. Trata-se de uma sinagoga clandestina, que constituía “uma afronta total à situação de Contra-Reforma”. Para mais, além da tipologia da casa (uma entrada por trás, discreta, na Rua da Vitória), característica do culto clandestino, a documentação, designadamente da Inquisição, dá conta da existência, nas imediações, de casas de jogo, que os cristãos-novos usavam como elementos distractivos.
Elvira Mea, que diz ter contactado o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil (a única entidade que mostrou interesse), nota, ainda, que o achado faz luz sobre a obra “Nomologia…” (Amsterdão, 1629), de Imanuel Aboab, em que o autor diz ter visto a sinagoga, na sua meninice, algo que a ausência de vestígios materiais tornava duvidoso. A importância do “Ehal” é ainda maior, atendendo à falta de vestígios materiais da presença judaica no Porto, designadamente na zona do Olival, hoje Vitória, onde esteve a última judiaria da cidade. A localização da sinagoga na rua que agora é da Vitória, e não na de S. Miguel, é corroborada por escritos de historiadores como Geraldo Coelho Dias.
O arqueólogo Mário Jorge Barroca, também docente da FLUP, não hesita em afirmar que o “Ehal” é de finais do século XVI ou do início do século XVII, sendo um de quatro exemplares existentes em Portugal, juntamente com os de Castelo de Vide, de Castelo Mendo (que ele próprio identificou) e da Guarda. Apesar de danificado, por obras mais antigas, o “Ehal” constitui oportunidade única para aprofundar e divulgar o conhecimento sobre a cidade.
Agostinho Jardim, pároco de Nossa Senhora da Vitória, comprou a casa em questão há cerca de quatro anos, tendo descoberto o dito “nicho” ao ver que “havia uma parede falsa a tapar qualquer coisa”. O lar, feito ali por ter sido aquela a casa devoluta que apresentava melhores condições, é uma necessidade premente, e a obra está perfeitamente legal, mas o padre Jardim está aberto à procura de uma solução. Já Miguel Rodrigues, da Direcção Regional do Porto do IPPAR, admite a importância do achado e a necessidade de fazer tudo pela preservação, mas nota que, por o edifício não ser do Estado, há que ter em conta “todos os interesses em presença”. Diz ter sabido do caso há 15 dias, desconhecendo os apelos feitos anteriormente.

::ADENDA II::

Ha’aretz (Israel)
12/01/2006
Remains of a Torah ark discovered
during renovations in Portugal

By Amiram Barkat

A group of citizens from the city of Porto in Portugal who view themselves as descendents of Crypto-Jews want to turn a building in which the remains of an ancient synagogue were found into a museum dedicated to the history of the city’s Jews.
In their view, the building, in which a recess of a synagogue ark was discovered by chance, once served as the synagogue of Rabbi Isaac Aboab. However, so far the group’s request has not been acceded to, and it appears unlikely that it will.
Rabbi Aboab, also known as the “last gaon [sage] of Castile,” was the head of the Guadalajara yeshiva and one of the last gaonim of Spain. In March 1492, on the eve of the expulsion of the Jews from Spain, Aboab and a group of Jewish dignitaries managed to obtain political asylum in Portugal.
The rabbi settled in the Judiaria, or Jewish, quarter of Porto along with a few hundred Jewish families. Five years later, the Portuguese authorities forced all the Jews in the country to either convert to Christianity or be expelled.
Many of those forced to convert continued to observe the Jewish commandments in secret. Over the years, the Jews abandoned the Judiaria, and many of its buildings were handed over to the Church or various charity organizations. The synagogue building was handed over to a state charity.
Two years ago, the organization gave the building to a priest named Agostinho Jardim Moreira to establish an old people’s home in it. During renovations on the building, a recess where a synagogue ark once stood, in which the Torah scrolls were kept, was found behind a secret wall.
The niche was identified by historian Elvira Mea, a lecturer at the University of Porto who specializes in Jewish history. She happened to be passing by while guiding a tourist from Israel.
The location of the building precisely matches a description provided by 16th century writer Immanuel Aboab (a great-grandson of Rabbi Aboab), who wrote that the synagogue was located “in the third house along the street counting down from the church.”
Mea, who specializes in the period of the Inquisition, maintains that the synagogue continued to be active even during the period of the Crypto-Jews, who worshiped in it secretly. However, an Israeli journalist of Portuguese extraction, Inacio Steinhardt, who knows Mea personally, disagrees with her.
“It is difficult to believe the Crypto-Jews prayed in a synagogue, because it would have been far too dangerous,” he says. Steinhardt is convinced the Crypto-Jews removed the ark from the synagogue along with its other sacred artifacts and worshiped in their homes.
A group of descendants of Crypto-Jews who heard about the discovery has asked that the building be preserved and turned into a museum dedicated to the history of the city’s Jews. However, Father Moreira has demanded an alternative building as well as compensation for the money that has already been put into the renovations.
Israeli ambassador to Portugal Aaron Ram has appealed to the city of Porto and the local bishop regarding the matter. In addition, the Center for Jewish Art at Hebrew University has asked UNESCO to intervene.
Steinhardt says he is pessimistic regarding the chances of turning the building into a museum because only the Portuguese government is authorized to make any decisions in the matter.

O Terramoto de Lisboa, os judeus e a Inquisição

Às 9h20 da manhã de 1 de Novembro de 1755, há exactamente 250 anos, Lisboa era varrida pelo primeiro de uma série de três violentos abalos sísmicos. Em breves minutos, uma das mais belas capitais europeias ficaria irreconhecível, irremediavelmente destruída por um dos mais devastadores terramotos da História – que, segundo os geólogos modernos, terá atingido uma magnitude de 9 na escala de Richter. Entre 60 a 100 mil pessoas perderam a vida nos escombros (cerca de metade da população da capital portuguesa na época).
Escassos quatro meses após o terramoto de Lisboa, a 11 de Março de 1756, uma quinta-feira (9 de Adar II de 5516, segundo o calendário hebraico, cinco dias antes do festival judaico de Purim), os governadores da congregação sefardita portuguesa e espanhola de Hamburgo – onde na época residiam cerca de 350 judeus portugueses – decretam um dia “jejum geral”, para “orar e suplicar à Divina majestade”. Um panfleto escrito em espanhol circulou pela cidade, anunciando um sermão a cargo do rabino Jacob Bassan (1704-1769), no qual se lia:
Horden de Rogativa y Peticion, para orar y rogar, al Senhor, para tiempo de teramoto, o temblor de tierra, y segun se há oydo, la indignacion de Ds. se experimentó, em Varios lugares, y en diferentes partes, tembló la tierra, por lo que se ajuntaran los Senhores Parnassim, y con la aprovacion del Sr. HH, decretaran um ayuno general, para jueves, siendo 9 del mez de Adar segundo deste anho, para orar e suplicar ala Divina magestad, por nós y por todo Israel nuestros Hermanos los proximos y los remotos, El todo poderozo apiade sobre nós, y sobre todos os lugares de nuestras moradas, y ampare por nos, Amen.
Composto em Lengua Ebrea, y tradizido em Lengua Espanhola por el H.H.R. Jehacob de Abraham Bassan, rav del K.K. Beth Israel en Hamburgo. Estampado por orden de los Senhores Parnassim de dicho Kahal anno 5516. Estampado em Hamburgo, em casa de la Viuda de I.H. [ilegível] Anno 1756.


Esquerda: o panfleto da sinagoga portuguesa e espanhola de Hamburgo anunciando um dia de jejum e oração em memória as vítimas do terramoto de Lisboa (clique para ver uma imagem maior do panfleto). Direita: xilogravura checa sobre o terramoto de Lisboa datada de finais de 1755 (Original do Museu da Biblioteca Nacional da República Checa).

Rezando pela memória das vítimas do terramoto de Lisboa, e pedindo a protecção divina, alguns dos líderes religiosos dos judeus portugueses emigrados em Hamburgo – e também em Amsterdão – viam na catástrofe um “castigo divino” que punia Portugal pelos crimes da Inquisição, em retribuição pelas suas inúmeras vítimas1 (António José da Silva, dramaturgo conhecido como O Judeu, por exemplo, fora executado na fogueira 18 anos antes do terremoto). A mesma leitura seria feita na época um pouco por toda a Europa, onde teólogos protestantes imputavam o Grande Terramoto de Lisboa a uma omnipresente “mão de Deus” que castigava os portugueses pela sede sanguinária e fanática da Inquisição (ver gravura em baixo). Cerca de dois séculos antes, como testemunhou um atónito Gil Vicente, um grupo de frades de Santarém pregava que o terramoto de 26 de Janeiro de 1531 fora “um castigo divino” pela presença dos judeus em Portugal (que por sinal estavam no país há mais de 2500 anos…).
Mas no século XVIII, mesmo aqueles menos dados às coisas da religião não hesitavam em juntar terramoto e Inquisição nas mesmas páginas. Numa carta dirigida a M. Tronchin de Lyons, datada de 24 de Novembro de 1755, redigida pouco tempo depois de receber a notícia da catástrofe de Lisboa, o filósofo iluminista francês Voltaire escrevia: “(…) Que dirão os pregadores – especialmente se o Palácio da Inquisição ainda ficar de pé! Agrada-me a ideia de que esses reverendos padres, os da Inquisição, terão sido esmagados tal como as outras pessoas. Servirá isso para ensinar que homens não devem perseguir outros homens: porque, enquanto beatos hipócritas queimam uns quantos na fogueira, a terra abre-se e engole a todos sem distinção.”
Quatro anos mais tarde, Voltaire tornava a escrever sobre o terramoto de Lisboa, e sobre a Inquisição, no romance burlesco Candide. No capítulo VI de Candide, o filósofo francês coloca os padres da Universidade de Coimbra a proclamarem que “o espectáculo de queimar vivas umas quantas pessoas em fogo lento, e numa grande cerimónia, é um segredo infalível para prevenir que a terra trema”, pelo que se organiza um “grandioso auto-de-fé” no qual serão queimados, entre outros, “dois portugueses que se recusam comer toucinho”. “No mesmo dia”, escreve Voltaire no final do capítulo, “a terra tremeria de novo com um furor implacável.”

1Até aos finais do século XIX, as congregações de judeus portugueses na Diáspora (em Nova Iorque, Filadélfia, Savannah, Newport, Amsterdão, Caraíbas etc.) tinham nos seus livros de oração uma benção, pronunciada diariamente pelos congregantes, onde se lia em português: “Tende na vossa guarda a todos os nossos Irmãos prezos pella Inquisição e a todos os nossos irmãos que andão por caminhos tanto por mar como por terra.


(clique para ampliar)
Gravura britânica, publicada em Londres em 1756. O rei português, D. José I, frente a uma Lisboa em ruínas, pergunta a um padre anglicano quais as causas do terramoto; o sacerdote protestante mostra-lhe um “auto-da-fé”, dizendo que “queimar pessoas provoca a ira divina”. (Jan Kozak Collection, Universidade de Berkeley, Califórnia)

::A LER:: Candide (texto integral em francês) / Candide (texto integral em inglês) / Cândido (texto integral em português) / Voltaire – Poème sur le désastre de Lisbonne / Dialogus – Voltaire – Le tremblement de Lisbonne / Dicionário Histórico de Portugal: Padre Gabriel Malagrida / Pequeno Blogue do Grande Terramoto (um blog de Rui Tavares, historiador, tradutor de Voltaire para português e autor do Pequeno Livro do Grande Terramoto) / Historical Depictions of the 1755 Lisbon Earthquake / Earthquakes Around the World / DivulgandoBD: Terramoto de 1755 na Banda Desenhada

Rabino Abraham Assor זצ”ל

Em Saudosa Memória
(Tânger, 7 de Setembro de 1920 – Lisboa 15 de Outubro de 1993)


Rabino Abraham Assor זצ”ל, fotografado por Yale Strom.


De acordo com a Halakhá (a Lei Judaica), o arrependimento, a providência e a profecia expressam a missão de criar. No Talmude, está escrito que ser judeu é mais uma acção do que uma crença, é mais fazer pelos outros do que ter fé. Modelo de homem judeu, de bondade, de humanidade, de justiça e de tolerância, o rabino Abraham Assor, sempre dedicado à sua comunidade, construiu um exemplo.
Deus permita que o saibamos lembrar.”

Joshua Ruah, ex-presidente da comunidade judaica de Lisboa
Sivan 5760 (Junho de 2000)

Mazel Tov Mr. Pinter!

Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?


Harold Pinter fotografado por Chris Saunders.

O dramaturgo britânico Harold Pinter venceu o Prémio Nobel da Literatura, tornando-se o 13o judeu a ganhar o Nobel nesta categoria, sucedendo à escritora judia austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do prémio em 2004.

::ADENDA::
Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?
Esta questão, levantada, entre outros, por Jorge Palinhos (ver BdE – Blogue de Esquerda (II): O Pinto Nobelizado), não tem uma resposta fácil. Pinter acredita que o seu nome de família resulta da anglicização de “Pinto” (ou “Pinta”), um sobrenome generalizado entre as famílias de judeus portugueses da Diáspora (ver JewishEncyclopedia– Pinto Jewish Family Name, Ancestry.com – Pinter e Wikipédia – Isaac de Pinto). Na verdade, era bastante comum aos judeus portugueses emigrados alterar o nome de família como forma de melhor se integrarem nos países de acolhimentos – em França, os descendentes do pedagogo Jacob Rodrigues Pereira, por exemplo, chamam-se hoje “Pereire”, enquanto o ramo americano da mesma família optou por “Perera” (ver National Foundation for Jewish Culture: On Being Sephardic: The Children of the Diaspora, by Victor Perera).
Por outro lado, sabe-se que os judeus portugueses são responsáveis pelo restabelecimento da comunidade judaica em Inglaterra, depois do rabino Menasseh ben Israel (Manuel Dias Soeiro) ter negociado com Oliver Cromwell, no século XVII, a revogação do decreto de expulsão de 1290. Foram os judeus portugueses os primeiros a chegar a Londres (ver JewishEncyclopedia – Bevis Marks Synagogue). Sabe-se também que existiam vários “Pintos” entes estes pioneiros – o rabino português Joseph Jesurun Pinto (1565-1648), por exemplo, viveu em Londres grande parte da sua vida.
A eventual descendência portuguesa de Harold Pinter virá por parte do pai, Jack Haim Pinter, uma vez que a família da mãe, Frances Moskowitz, tem raízes nas comunidades judaicas da Polónia e Ucrânia. Mesmo assim, sem mais elementos factuais – a não ser a palavra do próprio Harold Pinter – é difícil traçar com certezas a sua mais do que provável ancestralidade judaica portuguesa. A pista final é dada pelo facto do pai de Harold Pinter ser sefardita e da esmagadora maioria dos judeus sefarditas britânicos descenderem de judeus portugueses. (Ver ainda New York Times – Harold Pinter.)
Quanto à importância que o facto de ter nascido judeu teve na formação de Pinter, a sua biografia no site oficial da Academia Sueca parece não deixar dúvidas: “Crescendo [em Londres], Pinter foi confrontado com expressões de antisemitismo que, segundo ele próprio indica, foram importantes na sua decisão de tornar-se dramaturgo.”

Yom Kippur II

Leonard Cohen – Who By Fire

Leonard Cohen


Leonard Cohen, fotografado por David Boswell em Vancouver, a 20 de Outubro de 1978.

Para ouvir:
Leonard Cohen – Who By Fire

O Yom Kippur (dia do perdão ou da expiação), que se inicia hoje ao cair da noite, é a data mais importante do calendário judaico, culminando 10 dias de introspecção iniciados com o Ano Novo (Rosh Hashaná). Com origem na Bíblia Hebraica (ver Levítico 23:26-32), o Yom Kippur é um convite à análise do ano que passou e um apelo a uma transformação espiritual e ética para o futuro. Escrita por Leonard Cohen com base no poema ונתנה תוקף (Unetaneh Tokef), da liturgia judaica do Yom Kippur, “Who by Fire?” é uma composição profundamente influenciada pela oração e pela intensidade do dia.
“Esta canção é inspirada directamente numa oração hebraica, cantada no Yom Kippur. Segundo a tradição, neste dia o Livro da Vida é aberto, e nele estão contidos os nomes de todos os que irão viver e morrer no ano seguinte. A melodia, porém, não é integralmente roubada, mas derivada da melodia que ouvi desde sempre sentado na sinagoga. É claro que o final da minha canção é completamente diferente. “Who shall I say is calling?” é o meu contributo à oração: Quem determina a vida do homem?”, escreveu sobre ela Leonard Cohen.
Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Leonard Cohen foi a Israel e fez uma série de concertos gratuitos para os soldados israelitas. Esta experiência, segundo ele próprio escreveria mais tarde, influenciou também de forma marcada “Who by Fire”. Na década de 90, Leonard Cohen retirou-se para um mosteiro budista situado nos arredores de Los Angeles, dando origem a rumores segundo os quais teria abandonado o judaísmo tornando-se um “jubu” (ou “bujew”), como fizera antes o poeta Allen Ginsberg. Confessadamente fascinado pela espiritualidade e o recolhimento do budismo, no entanto, Cohen continua a sentir-se profundamente judeu, como ele próprio afirmou numa entrevista recente ao The Guardian: “Não busco uma nova religião. Estou bastante satisfeito com a antiga, com o judaísmo.”

Let’s party like it’s 5766

Esta noite e amanhã, no primeiro dia do mês hebraico de Tishri (תשרי), celebra-se o Ano Novo judaico, conhecido como Rosh Hashaná. A todos os leitores da Rua da Judiaria, aqui ficam os desejos de um doce e feliz ano de 5766!

שנה טובה


Rosh Hashaná em Nova Iorque, ano 5672 (22 de Setembro de 1911)

“O Dia da Chegada”

Os judeus portugueses nas Américas

[Este post integra-se num “blogburst” promovido por Jonathan Edelstein, destinado a celebrar Arrival Day, o Dia da Chegada, que assinala o aniversário do desembarque dos primeiros judeus em Nova Iorque, a 7 de Setembro de 1654]


Nova Amsterdão. Gravura da autoria do cartógrafo Peter Schenk.
Atlas Hecatompolis.

Os nomes de família dos primeiros judeus americanos soam estranhamente familiares: Dias, Costa, Cardozo, Faro, Ferreira, Fonseca, Gomes, Lucena, Navarro, Nunes, Henriques, Machado, Maduro, Mendes, Mesquita, Pacheco, Peixotto, Pereira, Pinto, Penha, Seixas… Eram portugueses. Judeus portugueses do século XVII. Muitos deles “cristãos-novos”, que finalmente descartavam a capa que foram obrigados a envergar para escapar às fogueiras inquisitoriais; que ali procuravam abrigo, um refúgio da intolerância que mergulhava Portugal numa histeria de fanatismo sanguinário, que acabou por arrastar o país para um abismo do qual ainda hoje se sentem cicatrizes profundas. Os judeus portugueses chegaram a Nova Iorque a 7 de Setembro de 1654, quando a cidade era holandesa e ainda se chamava Nieuw Amsterdam. Faz hoje 351 anos.
Os primeiros vieram do Brasil, alguns depois de emigrarem primeiro de Lisboa para a Holanda. E tal como já acontecia na Holanda, estes emigrantes judeus de Nova Iorque eram conhecidos como “gente da Nação Portuguesa” (ver Hebrews of the Portuguese Nation). Mas para seguir a génese da comunidade judaica portuguesa em Nova Iorque é necessário primeiro viajar até ao Brasil colonial do século XVII, mais concretamente a Pernambuco, um território de extensão considerável capturado pelos holandeses em 1630.
Os judeus tinham desempenhado o seu papel na descoberta e colonização do Brasil. Desde 1500, quando Pedro Alvares Cabral desembarcou nas Terras de Vera Cruz acompanhado por Gaspar da Gama, um “cristão-novo”, até 1654, altura em que os portugueses expulsaram os holandeses, navegadores, pioneiros e colonos judeus ajudaram a moldar a história do Brasil. A Inquisição não tinha ainda atravessado o Atlântico e a distância emprestava uma ilusão de segurança. Muitos dos que ali chegavam eram deportados, condenados ao degredo por suspeita de judaísmo, transformando o território virtualmente numa colónia penal. Mesmo assim, o espectro inquisitorial pairava ainda na penumbra e sobre os judeus pesava o receio de poderem ser repatriados para Portugal a mando dos tribunais da Inquisição.
Num contraste extremo com o obscurantismo inquisitorial que dominava a península Ibérica, em Pernambuco a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais – responsável pela administração dos territórios da coroa dos Países Baixos nas Américas – proclamara logo de início, de forma inquestionável, a liberdade de consciência e de culto entre as populações das suas colónias:

“A liberdade dos espanhóis, portugueses e nativos, quer sejam [católicos] romanos ou judeus, será respeitada. A ninguém será permitido que os moleste ou os sujeite a inquirições em matéria de consciência ou nas suas casas privadas; e ninguém os ouse inquietar ou perturbar ou causar-lhes dano – sob pena de punição arbitrária ou, dependendo das circunstâncias, de severa e exemplar reprovação.”

in “Leis e Regimentos das Índias Ocidentais”, citada por Arnold Wiznitzer, “The Records of the Earliest Jewish Community in New York” (1957).

Apesar de algumas tentativas por parte de clérigos para restringir estas liberdades (especialmente contra os católicos, tidos como inimigos naturais dos calvinistas), a Companhia Holandesa das índias Ocidentais reafirmaria por várias vezes os princípios de tolerância. Perseguidos pela Inquisição em Portugal, este pedaço de “Brasil Holandês” aparecia aos olhos dos judeus portugueses como um oásis de tolerância, que lhes permitia praticar a sua religião livremente, libertando-os do receio, constante e real, das torturas inquisitoriais ou da morte nas fogueiras dos “autos-de-fé”. E assim foi durante 24 anos. No Pernambuco holandês, sob a administração de João Maurício de Nassau, a comunidade de emigrantes judeus de Portugal floresceu, fundando a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Tzur Israel (Comunidade Rochedo de Israel), em 1637.
A 26 de Janeiro de 1654 as tropas portuguesas reconquistam o Recife com um ataque de proporções épicas, comandadas pelo general luso-brasileiro Francisco Barreto de Menezes – que a partir de então ficaria conhecido como “o restaurador de Pernambuco” –, pondo fim ao domínio holandês naquela região do Brasil.


Fólio do manuscrito de “Regras Benéficas e Restrições” para o governo da Sinagoga Shearith Israel, escrito em português e inglês, lavrado em Nova Iorque, em 1728. (clique na imagem para ampliar)

Os termos da rendição, assinados em Taborda, perto do Recife, são generosos para com os derrotados, dando aos holandeses um prazo de três meses (que seria prorrogado por mais três) para se retirarem do território recém conquistado, período durante o qual, segundo os mesmos termos, “não serão molestados ou vexados e serão tratados com respeito e cortesia.” Surpreendentemente, o general Barreto de Menezes mostra uma tolerância muito pouco habitual ao permitir igualmente (ajudando até) a saída dos judeus portugueses, apesar destes terem passado a ficar sob a alçada da Inquisição, o que lhe teria à partida vedado qualquer possibilidade de clemência. A lei exigia a deportação imediata dos judeus para Portugal.
A 20 de Fevereiro de 1654 os funcionários do tesouro real efectuaram um inventário de todas as casas no Recife e Maurícia anotando os seguintes nomes como “judeus proprietários de casas e lojas”: Jacob Valverde, Moisés Netto, Moisés Zacutto, Jacob Fundão, Moisés Navarro, David Atias, Benjamin de Pina, Abraão de Azevedo, João de Lafaia; Gil Correa, Gabriel Castanha, Gaspar Francisco da Costa, Fernão Martins, Duarte Saraiva e David Brandão. Outras aparecem mencionadas no inventário como “casa de judeus”, mas o nome dos seus proprietários não consta do documento.
Devido à escassez de embarcações holandesas que possibilitassem uma evacuação total, o general Barreto de Menezes ofereceu navios portugueses para transportar os judeus e assim os ajudar a escapar à Inquisição. Este gesto não seria esquecido, e os anais da história judaica portuguesa registam ainda hoje o nome de Francisco Barreto de Menezes, católico e “cristão-velho”, como um homem de nobre carácter – um hassid umot ha’olam (gentio justo e íntegro do mundo.)
Ao todo, 16 navios portugueses foram colocados à disposição dos seus compatriotas judeus pelo general Barreto de Menezes e a esmagadora maioria das cerca de 150 famílias judias do Brasil Holandês partiu em direcção à Holanda. Alguns optaram por ficar nas colónias holandeses nas Caraíbas onde, ainda hoje, a predominância de nomes de família portugueses (e a linguagem litúrgica) entre os judeus sefarditas do Suriname e de Curaçao prova essa ligação ancestral (ver também bloGUSblog: A estrela oculta do sertão, sobre os descendentes dos judeus portugueses que ainda restam no sertão brasileiro.)
Corsários, piratas e a intolerância religiosa ibérica tornariam ainda mais complicada a já difícil viagem de alguns deste judeus. Em Amsterdão, o rabino português Saul Levi Morteira – professor de Baruch Spinoza e mais tarde seu “excomungador” – deu conta dos percalços sofridos por uma destas embarcações no livro Providência de Deus com Israel, um manuscrito não publicado do qual apenas restam seis cópias:
“O navio foi capturado pelos espanhóis, que queriam entregar os pobres judeus à Inquisição. Ainda assim, antes de poderem cumprir os seus ímpios desígnios, o Senhor fez aparecer um navio francês que libertou os judeus dos espanhóis, levando-os depois para África, posto o que chegaram salvos e em paz à Holanda.”
Um outro navio, atacado por piratas ao largo do cabo de Santo António, em Cuba, seria também resgatado por um barco francês – o Sainte Cetherine, comandado pelo capitão Jacques de la Motthe. A 7 de Setembro de 1654, com 23 judeus portugueses a bordo, o Sainte Cetherine aporta a Nieuw Amsterdam, na ilha holandesa de Manhattan, a cidade que mais tarde passaria a ser conhecida como Nova Iorque. Era o primeiro grupo de judeus a chegar a América do Norte. Faz hoje precisamente 351 anos.
Destas vinte e três pessoas – homens, mulheres e crianças – sabe-se hoje muito pouco. São seis famílias, encabeçadas por quatro homens e duas viúvas. Só os seus nomes são mencionados nos registos oficiais. Mesmo assim é fácil adivinhar-lhes a proveniência: Abraão Israel Dias, Moisés Lumbroso, David Israel Faro, Asher Levy, Enrica Nunes e Judite Mercado.
A princípio, reticente, o governador holandês Peter Stuyvesant opôs-se à permanência dos judeus, escrevendo aos seus superiores argumentando que “se deixamos vir os judeus não tardam a vir os papistas.” O desespero de Stuyvesant aumentaria ainda mais quando os judeus apresentaram uma petição à Companhia Holandesa das Índias Ocidentais para poder fazer na Nova Amsterdão o que faziam em Pernambuco – viver livremente. A resposta da companhia foi favorável :

“Após muita deliberação, resolvemos dar provimento à petição apresentada por certos mercadores [judeus] da Nação Portuguesa, julgando-a favorável, para que eles possam viajar e comerciar com e na Nova Holanda e viver dentro dos seus limites.”

Em 1664, Nieuw Amsterdam passa para a coroa britânica e muda de nome. Dai para a frente será New York. Por volta de 1695, apesar de algumas restrições, os judeus tinham a sua primeira sinagoga improvisada, e a 8 de Abril de 1730 era dedicada a primeira sinagoga de raiz da comunidade que, logo à chegada, em 1654, escolhera o nome de Shearith Israel (Remanescente de Israel). Até ao final do século XIX tiveram duas línguas “sagradas”, ditadas pelos genes, pela fé e pelo apelo da memória. Faziam-se as orações em hebraico. Em português escreviam-se os documentos.


Dois rabinos da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque: H. Pereira Mendes (séc. XIX) e David de Sola Pool (séc. XX).

::A LER NA JUDIARIA:: Os primeiros judeus nas Américas (o capítulo seguinte…) / Genealogia Judaica Portuguesa / Salomão Nunes Carvalho: Um Judeu Português no “Faroeste Selvagem” / Uriah Levy: O judeu português que salvou Monticello / Emma Lazarus / Sabato Morais: O rabino abolicionista

::PARA OUVIR:: Abraham Lopes Cardozo – Mizmor le-David (Um Salmo cantado pelo rabino emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque).

Acção de Graças

David Abenatar Melo

No inferno metido,
Da Inquisição dura,
Entre os cruéis leões do capricho,
De ali me redimiste,
Dando a meus males cura,
Só porque arrependido me viste.

David Abenatar Melo (século XVI), poeta, filósofo e teólogo.
Judeu “marrano” português, nascido no Alentejo, em Fronteira, distrito de Portalegre, com o nome de baptismo de Fernão Álvaro Melo. Preso e torturado por diversas vezes pela Inquisição de Évora, foge para a Holanda em 1613, onde anos mais tarde se torna rabino da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão.

O rabino abolicionista

“Não são as vitórias da União mas sim as da Liberdade que devemos celebrar, meus amigos. O que é união quando existe degradação humana? Quem ousaria afixar novamente o selo à amarra que consignou milhões ao cativeiro? Não eu, o escravo alforriado de Mizraim [Egipto]. Nem vós, cujo lema é progresso e civilização.” Escrito nas páginas do Philadelphia Inquirer, a 25 de Novembro de 1864, ainda em plena guerra civil americana, este parágrafo em defesa do fim da escravatura definia a essência da visão humanista do seu autor: Sabato Morais, rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, nos Estados Unidos.
Um dos mais influentes rabinos da história do judaísmo americano, Sabato Morais era descendente de judeus “marranos” portugueses forçados ao exílio para escapar à Inquisição. Nascido em Livorno, Itália, na segunda década do século XIX, Sabato era filho de Samuel Morais – um comerciante de parcos meios –, que desde cedo incutiu nos filhos o gosto pela leitura, pelas línguas e pela política. Sabato Morais cresceu a falar e a ler português em casa e italiano, latim e hebraico na escola.
Samuel Morais era um fervoroso militante do movimento republicano e foi preso por diversas vezes por causa das suas opiniões políticas, o que obrigou Sabato, o seu filho mais velho, a contribuir desde muito novo para o sustento da família, dando aulas de hebraico e ensinando outras crianças da sua idade a ler os livros de orações na sinagoga. O expediente que servia para ajudar a renda familiar acabaria por marcar o seu futuro: em 1845, com apenas 22 anos, é ordenado rabino, depois vários anos de treino sob a alçada dos rabis Abraham Baruch Piperno, Abraham Curiat, Isaac Alvarenga e Angiolo Funaro.
Pouco depois da ordenação Sabato Morais opta por abandonar a Itália, viajando até Londres, onde se candidata ao cargo de rabino assistente da Sinagoga Portuguesa Bevis Marks, a maior e mais antiga congregação sefardita britânica. Depois de falhar inicialmente os seus intentos, em parte devido à sua pouca fluência na língua inglesa, Sabato regressaria a Londres um ano depois, em 1846, para ensinar hebraico na Escola dos Órfãos Portugueses, uma instituição ligada à mesma sinagoga. Em Londres, Sabato Morais conhece e torna-se amigo de Sir Moses Montefiore e de Giuseppe Mazzini, o líder republicano italiano (e membro da Carbonária) inspirador de Garibaldi. Partilhando os ideais republicanos do pai, e também a militância maçónica, segundo alguns historiadores, Sabato Morais, terá mesmo emprestado o seu passaporte a Mazzini para ele poder regressar a Itália sem ser preso.
Em 1851, após alguma hesitação, Sabato Morais parte de Londres em direcção aos Estados Unidos para se tornar rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, na época uma das mais influentes congregações do judaísmo americano.

Nos EUA, este descendente de judeus portugueses encontraria um terreno fértil para a luta pelos seus ideais políticos e humanistas. Desde logo junta a sua voz ao coro de intelectuais abolicionistas, exigindo o fim da escravatura. Remando contra a corrente de outros líderes religiosos do seu tempo, Sabato Morais envolveu-se directamente na batalha política em defesa da firme separação entre a religião e o Estado. Enquanto vice-presidente da Alliance Israelite Universelle, teve também um papel activo na resposta à perseguição de judeus em Marrocos, na Roménia e na Rússia e escreveu artigos inflamados contra os célebres raptos de Edgardo Mortara e Joseph Coen, duas crianças judias italianas retiradas aos seus pais e baptizadas à força com o consentimento do Vaticano.
Em paralelo, Sabato Morais prosseguiu uma invejável carreira académica, leccionando no Maimonides College e University of Pennsylvania. O seu nome ficaria também intimamente ligado ao Jewish Theological Seminary, que Sabato Morais fundou com Henry Pereira Mendes, na altura rabino da Shearith Israel, a Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque (a mais antiga sinagoga da América do Norte, fundada em 1654).
Ao contrário da abolição da escravatura, outra causa apadrinhada por Sabato Morais não teve tanto sucesso: a abolição da pena de morte nos Estados Unidos. Sobre isto transcreve o Philadelphia Inquirer de 8 de Dezembro de 1865:

“(…)Mas uma outra lição deverá o mundo receber das nossas mãos; tal como proclamou o antigo sábio hebreu, um tribunal que condena um homem à morte, nem que seja uma vez em setenta anos, merece a nossa reprovação.(…) A civilização apela-vos, como um povo livre, a apagar este vestígio de épocas bárbaras, e a humanidade ecoa esse chamamento. Mais do que a exibição dos colossais poderes, mais do que as proezas dos exércitos, o reconhecimento imortal será adquirido quando à abolição da escravatura se juntar o fim da pena capital.”
Sabato Morais morreu a 12 de Novembro de 1897, aos 74 anos. O seu funeral levou às ruas de Filadélfia dezenas de milhares de pessoas e os jornais da época classificaram-no como “o maior que a cidade alguma vez viu”. Por ocasião da sua morte, o Yudishe Gazeten, o primeiro jornal em língua Yiddish dos EUA, publicou um obituário assinado pelo jornalista e escritor Kasriel Sarasohn, classificando Sabato Morais como “der grester fun ale ortodoksishe rabonim in Amerike . . . on sofek” (“ o maior de todos os rabinos ortodoxos da América… sem nenhuma dúvida”) e o New York Times escreveu na mesma altura: “O doutor Sabato Morais foi o mais eminente rabino deste país e os seus discursos foram sempre um factor de poder e vigor em discussões de vasta importância e interesse para milhões de pessoas; um pensador, escritor e orador destemido, incisivo e profundo.”
No livro United States Jewry 1776-1985, o historiador Jacob Rader Marcus descreve Sabato Morais como “um homem imensamente culto e idealista que deixou uma marca profunda na história tanto do judaísmo americano como da própria América”.


::A LER::
University of Pennsylvania Library Collections – Sabato Morais Ledger / Congregation Mikveh Israel / The Story of Mikveh Israel Cemetery / Mikveh Israel: Philadelphia, PA (postal) / Mikveh Israel / Jewish Theological Seminary

Julius Lester

Dezembro de 1982
No Inverno de 1974, estava eu num retiro no mosteiro dos Trapistas de Spencer, em Massachusetts, quando um monge me disse: “Quando souberes o nome pelo qual Deus te conhece, saberás quem és.”
Procurei esse nome com a paixão de quem busca a Amada Eterna. Chamei a mim próprio Pai, Escritor, Professor, mas Deus não respondeu.
Agora sei o nome pelo qual Deus me chama. Sou Yaakov Daniel ben Avraham v’Sarah.
Tornei-me aquele que sou. Sou aquele que sempre fui. Já não me deixo enganar pela cara negra que me olha do outro lado do espelho.
Sou um judeu.

Retratos – Judeus na Primeira Pessoa


Dezembro de 1982
No Inverno de 1974, estava eu num retiro no mosteiro dos Trapistas de Spencer, em Massachusetts, quando um monge me disse: “Quando souberes o nome pelo qual Deus te conhece, saberás quem és.”
Procurei esse nome com a paixão de quem busca a Amada Eterna. Chamei a mim próprio Pai, Escritor, Professor, mas Deus não respondeu.
Agora sei o nome pelo qual Deus me chama. Sou Yaakov Daniel ben Avraham v’Sarah.
Tornei-me aquele que sou. Sou aquele que sempre fui. Já não me deixo enganar pela cara negra que me olha do outro lado do espelho.
Sou um judeu.

Julius Lester
, escritor premiado, fotógrafo, catedrático, activista pelos direitos civis da comunidade negra americana. Extraido do livro autobiográfico Lovesong: Becoming A Jew, 1988.

::A LER:: Beth El Synagogue Lay Religious Leader – Julius Lester / University of Massachusetts :: Judaic & Near Eastern Studies – Julius Lester / Downhomebooks.Com Julius Lester interview / BCCB-True Blue Julius Lester / Scholastic.com – Julius Lester’s Biography / Children’s Literature: Julius Lester

Lag ba’Omer


Túmulo do rabino Shimon bar Yochai na cidade de Meron, na Galileia. Foto de autor desconhecido, cerca de 1880.

Celebra-se hoje, dia 18 de Iyyar de 5765, o festival de Lag ba’Omer, que marca o aniversário da morte do rabino talmúdico Shimon Bar Yochai (século II), autor de Sefer Ha’Zohar (ספר הזהרO Livro do Esplendor) o maior tratado místico do judaísmo.

Joshua Benoliel em retrospectiva


Joshua Benoliel – Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres,
Cais de Santa Apolónia, Lisboa, 1917

A edição deste ano da bienal de fotografia LisboaPhoto integra uma notável retrospectiva – a primeira do género – dedicada ao trabalho de Joshua Benoliel, considerado o pai do foto-jornalismo português. Nascido em Lisboa, em 1873, Joshua Benoliel captou com a sua objectiva alguns dos momentos mais marcantes da história portuguesa do início do século XX: do assassinato do rei D. Carlos, em 1908, à participação portuguesa na Grande Guerra de 1914-18, passando pela implantação da república, em 1910, e pela “revolução” de Sidónio Pais, em 1917.
Judeu, membro activo da comunidade judaica de Lisboa e frequentador assíduo dos serviços religiosos da sinagoga Shaaré Tikvá (Portas da Esperança), Joshua Benoliel deixou transparecer na sua obra um fascínio indisfarçável por Lisboa. Sobre esta faceta de Benoliel conta José Pedro de Aboim Borges:

“Sente-se o amor que este homem tinha pela sua cidade e pelas suas gentes, a facilidade com que deambulava pelas ruas mais esconsas, testemunhando a precaridade das situações sociais, numa atitude próxima dos americanos Riis e Hine. É uma postura mais íntima, mais ‘fado’, mais humana.”

Quando o jornalismo português tentava colmatar o atraso que levava em relação à onda de modernização gráfica que varria o mundo – numa altura em que a própria arte da fotografia em Portugal era, ela própria, ainda embrionária – Joshua Benoliel transforma-se no primeiro repórter fotográfico português, produzindo milhares de “clichés” para inúmeras publicações nacionais e estrangeiras. De entre todas destaca-se a Ilustração Portuguesa, que chegou a atingir uma tiragem de 24 mil exemplares em 1908, um feito notável num país que na altura tinha cerca de 5 milhões de habitantes e uma taxa de analfabetismo na ordem dos 80%.
Sobre a copiosa produção de Joshua Benoliel escreve ainda José Pedro de Aboim Borges:

“Benoliel enviava semanalmente mais de 180 fotografias para a Ilustração Portuguesa (placas de vidro, de gelatino-brometo, de formato 9×12 cm). Se acrescentarmos mais umas 50 para as restantes publicações com quem colaborava, obteremos um número próximo das 260 fotografias semanais efectivamente transaccionadas.”

A exposição retrospectiva da obra de Joshua Benoliel, organizada por Emília Tavares, pode ser visitada até 21 de Agosto na Cordoaria Nacional, Torreão Nascente, em Lisboa.


Joshua Benoliel – Postal ilustrado. Sinagoga de Lisboa, inaugurada a 18 de Maio 1904.

::A VER:: Rui Tavares colocou online algumas excelentes fotografias de Joshua Banoliel (e também de Aurélio da Paz dos Reis, outro pioneiro) no Álbum do Barnabé. A merecer uma visita.

António José da Silva, o Judeu – 300 anos

António José da Silva

Que delito fiz eu para que sinta
o peso desta aspérrima cadeia
nos horrores de um cárcere penoso
em cuja triste, lôbrega morada
habita a confusão e o susto mora?
Mas se acaso, tirana, estrela ímpia,
é culpa o não ter culpa, eu culpa tenho.
Mas se a culpa que tenho não é culpa,
para que me usurpais com impiedade
o crédito, a esposa e a liberdade?

António José da Silva, o Judeu, nascido a 8 de Maio de 1705, há precisamente 300 anos. Poeta escritor e dramaturgo, é considerado o principal responsável pela renovação do teatro português no século XVIII. Preso pela Inquisição a 5 de Outubro de 1737, acusado de praticar o judaísmo, foi executado na fogueira em Lisboa a 18 Outubro de 1739, aos 34 anos, num “auto-de-fé” presidido pelo rei D. João V, “O Magnânimo”. No mesmo dia foram queimados mais dez “judaizantes”.

Ilustração: Tribunal Inquisitorial (pormenor), Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)

________________________

António José da Silva dá o sinal

Há recompensa a servir de bálsamo
À ira do teu espírito –
Eles podem ter-te morto, mas foram eles
quem ardeu!
Lestos no cadafalso e no garrote,
Para carne judia e corações judeus
castigar na fé e satisfazer o fogo dos fanáticos.
Que esqueçam as histórias incendiadas,
Que baixe a cortina no tenebroso enredo.

Eles riem agora em Lisboa e em Madrid
Em galas ressuscitadas da tua cómica musa ;
Onde piras carnais se ergueram,
Eles titilam a golpes do florete de teu talento.
Saudações Judeu António, acredito que te sentas
À boca de cena, com irónica expressão, no lugar do ponto.

Poema dedicado à memória de António José da Silva, escrito por Walter Hart Blumenthal, antropólogo e historiador norte-americano, nascido nos finais do século XIX.

::A LER:: Wikipédia – António José da Silva / António José da Silva, o Judeu / Casa de Sarmento – António José da Silva, o Judeu / Jewish Virtual Library – Antonio Jose da Silva