Emma Lazarus

O Novo Colosso

O Novo Colosso

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.

Gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, na baía de Nova Iorque, este soneto escrito por Emma Lazarus, a maior poetisa americana do século XIX, era um hino à génese do “sonho americano” e simbolizava também a esperança de liberdade com que os seus antepassados chegaram ao novo mundo.
Filha de Moses e Esther Lazarus, nascida em 1859, Emma orgulhava-se de ser descendente directa de uma das famílias de judeus portugueses que em 1654 desembarcara em Nova Amsterdão, integrada no grupo de 23 refugiados de Pernambuco que fundaram a primeira comunidade judaica da América do Norte. Emma Lazarus era ainda prima direita de Benjamin Cardozo, igualmente descendente de judeus portugueses, juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, ainda hoje tido como um dos mais notáveis e influentes juristas da história do Direito norte-americano.
Educada na Nova Iorque dos meados do século XIX, Emma despertou cedo para a escrita, revelando uma grande sensibilidade e uma enorme aptidão para a poesia. Cedo provaria também que era muito mais do que “uma menina com jeito para fazer versos”, alcançando admiração e amizade entre a elite literária americana da época. Ralph Waldo Emerson foi seu mentor e Henry Wadsworth Longfellow um grande admirador. Mulher e profundamente judia, ao impor-se no panorama cultural americano do século XIX, Emma quebrava duas barreiras que até então pareciam inexpugnáveis.
Aproveitando o sucesso enquanto poeta e escritora, Emma Lazarus expôs os seus leitores às causas que apadrinhava – os Direitos Humanos e a ajuda aos emigrantes, necessitados e indigentes, que diariamente chegavam a Nova Iorque. Como activista de sociedades de beneficência – nomeadamente através da sinagoga dos judeus portugueses Shearith Israel –, ouviu em primeira mão os relatos das perseguições, massacres e pogroms que afligiam os judeus russos e que os empurravam em massa para o estrangeiro (estima-se que entre 1880 e 1920 cerca de 2 milhões de judeus russos tenham emigrado por causa das violentas manifestações de antisemitismo).
Uma década antes do sionismo se tornar um movimento político activo, Emma Lazarus, numa série de 15 artigos escritos para o semanário American Hebrew, intitulados Epistle to the Hebrews – nos quais apelava à unidade contra o antisemitismo –, defendeu a necessidade da criação de uma pátria judaica na terra ancestral de Israel como única forma de fazer face ao antisemitismo:

“(…) Até sermos todos livres, nenhum de nós será livre. Mas deveríamos justificar os insultos dos nossos oponentes, deveríamos tornar-nos “tribais” e judaicos em vez de cosmopolitas como os antisemitas alemães e os perseguidores de judeus da Rússia, ignoramos e repudiamos os nossos infelizes irmãos sem querer ter parte ou porção dos seus infortúnios – até que o cálice de angústia seja erguido também aos nossos lábios.”

Em 1882, no livro Songs of a Semite (Cânticos de um Semita), Emma escreve aquele que os críticos consideram ser o mais “sionista” dos seus poemas: The Banner of the Jew (O Estandarte do Judeu), um apelo épico ao retorno à glória da nação israelita. A sua intransigente defesa dos direitos dos mais desfavorecidos – judeus e não só – fazia dela uma presença constante nas páginas dos jornais da época, entre eles do New York Times (ver Progress and Poverty, NYT 2 de Outubro de 1881).
Inspirada pelos horrores do antisemitismo russo, Emma Lazarus escreveu O Novo Colosso em 1883 para um leilão de recolha de fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade (ver original aqui: The New Colossus, from Emma Lazarus’ Copy Book). O poema foi mais tarde gravado numa placa de bronze e colocado nas paredes desse mesmo pedestal. Emma Lazarus morreu em Nova Iorque, aos 38 anos, a 19 de Novembro de 1887, um ano após a inauguração da Estátua.

::A LER:: Jewish Virtual Library – Emma Lazarus / The Century Illustrated Monthly Magazine The Century Co. New York Vol. 36 (14 New Series), Number 6, October 1888 / The New Colossus (1883) / Poem Hunter – Poems of Emma Lazarus / Emma Lazarus Fund – Who is Emma Lazarus? / Jewish Woman’s Archives – Emma Lazarus Exibit

Yosef Caro: um rabino português no exílio

Dentro de poucos dias, segundo o calendário hebraico, comemora-se o 430° aniversário da morte do rabino quinhentista Yosef Caro (1488–1575), considerado o maior codificador da Lei Judaica. O rabino Yosef ben Ephraim Caro (יוסף בן אפריים קארו), muitas vezes erroneamente identificado como espanhol, nasceu em Portugal em 1488, mas ainda criança foi obrigado a emigrar com a sua família para a Turquia na sequência do Decreto de Expulsão dos Judeus assinado por D. Manuel I em 1497 e das consequentes perseguições inquisitorais. Já adulto, Yosef Caro passaria ainda pela Bulgária e pela Grécia, fixando-se finalmente em Safed, a cidade dos cabalistas, na Galileia, onde faleceria, a 24 de Março de 1575 (13 de Nissan do ano de 5335 no calendário hebraico).
Em Istambul conheceu e ficou amigo de Diogo Pires, um secretário da corte portuguesa, “cristão-novo”, que regressara ao judaísmo adoptando o nome de Salomão Molko (שלמה מולכו). Após o retorno ao judaísmo, Diogo Pires tornou-se um rabino místico com inegáveis poderes de oratória que influenciaria os escritos de sábios cabalistas como os rabinos Isaac Luria e o seu sucessor Hayim Vital. O contacto com Diogo Pires – que acabaria por morrer nas fogueiras da Inquisição em Mantua, em 1532 – teve um profundo impacto na obra de Yosef Caro, que nos últimos anos da sua vida se dedicaria exclusivamente a escrever tratados cabalísticos, entre os quais se destaca o diário místico “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), publicado em Veneza após a sua morte.
Filho de um eminente talmudista, Yosef Caro começou a estudar as escrituras sagradas judaicas ainda criança, desenvolvendo conceitos interpretativos revolucionários. Através da análise metódica das discussões talmúdicas – no Talmude, os rabinos dissecam até à exaustão cada palavra ou frase da Mishná, em busca do seu sentido primordial – Yosef Caro escreve “Shulhan Arukh” (“Mesa Posta”), aquela que ainda hoje é considerada a obra codificadora de referência da Lei Religiosa judaica, a Halakhá (הלכה).
Durante a sua vida Yosef Caro publicou ainda: “Bet Yosef” (Casa de Yosef), em quatro partes (I, II) Veneza, 1550-1551; (III, IV) Sabbionetta, 1553-59; “Shulhan Aruk” (Mesa Posta), em quarto partes, Veneza, 1565; “Kesef Mishneh”, Veneza, 1574-75. Após a sua morte foram ainda publicados: “Bedek ha-Bayit” (Reparar a Casa), suplementos e correcções a “Bet Yosef,” Salónica, 1605; “Kelale ha-Talmud” (Metodologia do Talmude), Salónica, 1598; “Abkat Rokel” (Pó do Mercador), responsa, Salónica, 1597 e 1791; “Maggid Mesharim” (Pregação de Retidão), Veneza, 1654; “Derashot”, Salonica, 1799, na colecção “Oz Tzaddikim” (O Poder dos Justos). O rabino Yosef Caro deixou ainda um vasto lote de comentários da Mishná, bem como outros comentários a escritos de Rashi e Nahmanides ao Pentateuco.

Breve nota sobre a data da Páscoa Judaica

Aos meus caros leitores católicos (e cristãos em geral):
Não, a Páscoa Judaica (Pesach, פסח) não se celebra hoje, domingo da Páscoa Cristã. A Páscoa Judaica é celebrada de acordo com o calendário hebraico, ocorrendo este ano nos dias 23 e 24 de Abril (dias 14 e 15 do mês hebraico de Nisan do ano 5765). Mesmo assim, agradeço os desejos de חג פסח שמח (páscoa feliz) antecipados que muito gentilmente me enviaram.

Albert Einstein (1879-1955)

Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida. O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos. A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos. A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica. (…)

Existirá uma mundivisão judaica?
Por Albert Einstein


Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida.
O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos.
A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos.
A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica.
O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu é uma negação da superstição, um resultado imaginário da sua negação. É também uma tentativa de basear uma lei moral no temor, uma tentativa lamentável. Mas parece-me que a forte tradição moral no povo judeu se soltou largamente deste temor. Também é manifesto que “servir Deus” foi equiparado a “servir o outro”. Para isso lutaram incansavelmente os melhores do povo judeu, especialmente os profetas.
Assim o Judaísmo não é, principalmente, uma religião transcendente, tendo só a ver com a nossa vida experienciada e por assim dizer palpável, e com nenhuma outra coisa. Parece-me por isso duvidoso que possa ser chamado uma “religião” no sentido corrente do termo, ainda porque não é exigido aos judeus nenhuma “fé”, só a santificação da vida no sentido supra-pessoal.
Mas encontra-se ainda algo mais na tradição judaica, que se revela esplendorosamente em alguns salmos, uma espécie de alegria embriagada e um espanto sobre a beleza e incompreensível sublimidade deste mundo, da qual o homem somente consegue alcançar uma fraca noção. É o sentimento de onde também a verdadeira investigação obtém a suas forças, mas que igualmente parece exprimir-se no canto dos pássaros. Isto parece-me ser o conteúdo mais sublime da ideia de Deus.
Será isto característico para o Judaísmo? Vive ele também sob outro nome? De forma pura não vive em nenhum lado, também não no Judaísmo, onde muito culto da letra obscurece a pura doutrina. Mas vejo mesmo assim no Judaísmo uma das suas realizações mais vitais e puras. Isto vale especialmente para o princípio da santificação da vida.
É notável que na oração da santificação do Shabbat também os animais são expressamente incluídos, tanta é a força e a exigência do ideal da solidariedade para com todo o ser vivo. Ainda mais, exprime-se a exigência da solidariedade de todos os homens, e não é um acaso que as doutrinas socialistas tiveram maioritariamente a sua origem em judeus.
O quanto da consciência da santidade da vida está viva no povo judeu, exemplifica-se muito bem numa pequena frase, que Walther Rathenau* uma vez me mencionou em conversa: “Se um judeu diz que vai à caça por prazer, está a mentir.” Não se pode exprimir de forma mais simples a consciência da santidade e solidariedade com a vida.

Albert Einstein (1879-1955), físico, judeu alemão.

Artigo de opinião escrito por Einstein a 3 de Agosto de 1932, traduzido do original alemão por Lutz Brückelmann (a quem agradeço a paciência e imensa gentileza com que atendeu o meu pedido).
O original pode ser visto aqui: página 1 e página 2.
* Sobre Walther Rathenau ver: Walther Rathenau – Wikipedia


Albert Einstein com David Ben Gurion, primeiro-ministro de Israel, em Princeton, 1948.

Ontem, 14 de Março de 2005, passaram 126 anos sobre o nascimento de Albert Einstein, um dos mais notáveis personagens da história humana. Com a tradução deste texto, mostra-se aqui uma das faces menos conhecidas de Einstein – o seu judaísmo muito particular.
Militantemente laico durante a maior parte da sua vida – tal como a esmagadora maioria dos judeus alemães da época –, o cientista sentiu sempre, contudo, uma profunda ligação cultural e emocional ao judaísmo. Nos últimos anos, no entanto, rejeitaria o ateísmo transformando-se em “judeu agnóstico”, admitindo a existência de um Criador que “não joga aos dados com o Universo”.
Sobre o seu judaísmo, Einstein escreveria ainda anos mais tarde: “A busca do conhecimento pelo conhecimento, um quase fanático amor à justiça e o desejo de independência pessoal – estas são as características da tradição judaica que me fazem agradecer às estrelas o facto de eu lhe pertencer.”
Apesar da sua manifesta oposição a qualquer forma de nacionalismo, Albert Einstein participou activamente no movimento sionista e defendeu abertamente a criação de um estado judaico na Palestina, “uma pátria nacional e cultural para o povo judeu onde os direitos dos árabes sejam também respeitados”. Em defesa da criação de Israel, Einstein chegou a depor, em 1946, perante o Comité Anglo-Americano de inquérito sobre a Palestina e quando, dois anos depois, a independência de Israel foi declarada, o cientista saudou-a como a “concretização de um sonho ancestral”.
Desde muito cedo, décadas antes da formação política de Israel, Einstein participou na recolha de fundos para a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém e foi também um dos propulsores da fundação de uma universidade judaica americana, a Brandeis University. Em testamento, Albert Einstein legou todo o seu espólio, bem como os direitos autorais sobre a sua obra e a sua imagem, à Universidade Hebraica de Jerusalém.
Em 1952, três anos antes da sua morte, Albert Einstein foi convidado pelo primeiro-ministro israelita David Ben Gurion a candidatar-se à presidência de Israel. Doente e frágil, Einstein sentiu-se obrigado a rejeitar o convite numa carta onde manifestava sentir-se “extremamente honrado e comovido” com o desafio de Ben Gurion.
Durante todo o ano de 2005, assinalando a passagem do centenário do annus mirabilis de Albert Einstein, durante o qual, com apenas 26 anos, publicou três artigos que mudariam radicalmente o pensamento científico, a comunidade cientifica mundial celebra o Ano Internacional da Física (ver World Year of Physics 2005 e Sociedade Portuguesa de Física).


Albert Einstein em viagem com os líderes sionistas Meachim Usishkin, Chaim Weizman, futuro primeiro presidente de Israel, e Theodor Herzl, o “pai do sionismo”.

::A LER:: אלברט איינשטיין – ויקיפדיה / Albert Einstein Archives Online / Jewish Virtual Library – Albert Einstein / Albert Einstein – Wikipedia (Inglês) / Albert Einstein – Wikipédia (português) / Albert Einstein – Wikipedia (Alemão) / Albert Einstein – Biography (Nobel.com) / Einstein – Image and Impact. AIP History Center exhibit. / Ben Gurion University – Einstein planting a tree in the young town of Migdal in Israel / Medalhas portuguesas comemorativas do centenário de Einstein / Albert Einstein Licensing

::A OUVIR:: Einstein fala sobre o destino dos judeus da Europa, a equivalência energia-massa e armas nucleares e a paz

::A VER:: Albert Einstein em Princeton, fala sobre a Universidade Hebraica de Jerusalém: Vídeo (formato mpg)


Einstein toca violino numa sinagoga de Berlim (1930)

Fascinante

Fascinante é mesmo a melhor palavra para descrever o disco William Shatner Has Been, que fiquei a conhecer via MacGuffin (que por sua vez foi contagiado pelo Achtung Baby).
Convém recordar que esta não é a primeira vez que Shatner, judeu intergaláctico, grava um disco. No seguimento do seu sucesso na série Star Trek como capitão James Tiberius Kirk, Bill Shatner gravou algumas canções alucinadas acompanhado por Leonard Nimoy – o responsável máximo pela “judaização” da série ao transformar a benção sacerdotal judaica (Birkat ha-Cohanim) na universalmente conhecida saudação vulcana. Live long and prosper.

60 anos da Libertação de Auschwitz IV

Erma A. e George G. sobreviveram aos horrores de Auschwitz. A dor das suas memórias, bem viva 60 anos depois, merece ser ouvida na primeira pessoa. Os vídeos estão aqui: Shoah Foundation – Erna A.; Shoah Foundation – George G.
Os seus testemunhos fazem parte dos mais de 52 mil depoimentos de sobreviventes e testemunhas do Holocausto recolhidos pela Survivors of the Shoah Visual History Foundation.
Durante a rodagem de Schindler’s List, em 1992, Steven Speilberg conheceu vários sobreviventes dos campos de concentração. Depois de ouvir as suas histórias, o realizador apercebeu-se da necessidade premente de preservar estes relatos antes que fosse tarde de mais. Foi neste contexto que criou a Survivors of the Shoah Visual History Foundation (um pequeno vídeo sobre os objectivos da fundação, narrado por Morgan Freeman, pode ser visto aqui). O espólio de depoimentos recolhidos destina-se primariamente a servir como ferramenta educativa, na esperança que os testemunhos pessoais do sofrimento sirvam para estimular a tolerância, evitando que a morte, durante o Holocausto, de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová e prisioneiros políticos tenha sido completamente em vão. Infelizmente, o caso de Darfur, no Sudão, mostra que o genocídio não é coisa do passado e continua a ser praticado com impunidade nos nossos dias, como prova este vídeo da BBC.

::Vídeos Históricos:: A Libertação de Auschwitz I – As Crianças / A Libertação de Auschwitz II – Relíquias Macabras / A Libertação de Auschwitz III – As Experiências Médicas Nazis / O Ghetto de Varsóvia / O Extermínio e a “Solução Final” / Os julgamentos de Nüremberg / A Vida Antes da Guerra

::Outros Testemunhos:: Edith P. / Rachel G. / Marion P. / Christa M.

::Outros Links:: Auschwitz: Inside the Nazi State (site de um excelente documentário produzido pela BBC) / Holocaust Memorial Museum / Yad Vashem The Holocaust Martyrs’and Heroes’ Remembrance Authority / Museum of Tolerance / Simon Wiesenthal Center / Center for Holocaust and Genocide Studies: Virtual Museum of Holocaust and Genocide Art / Southwest Florida Holocaust Museum / The Holocaust History Project Homepage

Em nome da transparência, convém revelar que a minha mulher trabalha actualmente como investigadora da Shoah Foundation.

60 anos da Libertação de Auschwitz II

Sempre me chocaram as fotografias. Não só as óbvias. Mas também as outras. As fotografias tiradas antes de tudo acontecer. As fotografias onde rostos sorriem sem ter a mínima consciência do que está para vir. Há algo de perverso em olhar hoje para aquelas caras, cheias de esperanças e de futuros, e saber que nenhum dos seus sonhos se realizou; em olhar para aquelas fotografias de tempos felizes – ou pelo menos “normais” – sabendo de antemão o horrível destino daquelas vidas. Quando digo que as fotografias me chocam não falo de sentidos figurados – refiro-me a uma reacção profundamente física: um nó no estômago, um aperto de maxilar na tentativa de conter lágrimas que começam a turvar a vista.
Já aqui escrevi um dia sobre esta sensação. Há quase um ano, em casa dos meus sogros, debruçámo-nos sobre uma pilha de álbuns de família, daqueles com fotos amarelecidas de gente com roupas e penteados de outros tempos. Eram avó, tios, tias, primos, primas e amigos. A maioria sorria invariavelmente para a câmara, com expressões agora suspensas no tempo. Os sorrisos destes rostos do passado mostravam a despreocupação natural de quem tira um retrato de família, inconsciente dos horrores que se aproximam. Judeus polacos, a esmagadora maioria da família dos meus sogros – os que não tinham já conseguido escapar para Israel – morreu no Shoá, em descampados de província na Polónia, frente a pelotões de fuzilamento, ou em lugares com timbre macabro: Auschwitz, Bergen-Belsen, Buchenwald e Dachau. Vítimas no maior acto de genocídio da História humana, deles apenas restam os fantasmas guardados naqueles álbuns de família. E a memória dos que ficaram.
Ilustração: imagem de Daniel Blaufuks, retirada do documentário Sob Céus Estranhos / Under Strange Skies.

De uma forma estritamente pessoal, sem pretender ser um qualquer “porta-voz de todos os judeus”, gostaria mesmo assim de agradecer profundamente a todos quantos usaram hoje os seus blogs para recordar o 60° aniversário da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho e os horrores do Holocausto.

60 anos da Libertação de Auschwitz I

A Cidade do Massacre
Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios; (…)

Haim Nahman Bialik

Wolloch Haggadah em Memória do Holocausto *
Ilustrador: David Wander
Caligrafia e Micrografia: Yonah Weinrib
Haifa, Galeria de Arte Goldman, 1988

“Em cada geração temos a obrigação de considerar como se nós próprios, pessoalmente, tivéssemos saímos do Egipto.”

* A Haggadah é um livro litúrgico judaico que se lê em família durante o jantar ritual de Seder, da Páscoa, contendo o relato da libertação dos judeus, liderados por Moisés, da escravidão no Egipto.

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A Cidade do Massacre

Haim Nahman Bialik

Levanta-te agora e vai à cidade do massacre;
Passeia pelos seus pátios;
Com a tua mão toca,
e com os olhos da tua cara

olha nas árvores, nas pedras, nos muros, na cale
os pingos de sangue e os miolos secos dos mortos.
Vai depois às ruínas, onde
se estendem as paredes fendidas,
onde cresce o vazio e maior cresce a brecha;
Passa sobre a lareira despedaçada,
alcança as paredes quebradas
cujos tijolos queimados e estéreis,
cujas pedras carbonizadas
revelam as bocas abertas dessas feridas,
que nenhum remendo alguma vez remendará,
ou cura curará.
Ali penas afundarão os teus pés, e
tropeçarás em destroços duplamente destroçados,
pergaminhos empilhados em manuscritos.
Fragmentos outra vez fragmentados.

Não pares neste caos; segue o teu caminho.
O perfume dos rebentos de acácias virá trazido pelo vento
e metade das suas flores serão penas,
que exalam o odor do sangue.
E, mortificando-te, estranhos incensos trarão.
Banindo o teu asco, toda a beleza da Primavera,
os mil raios dourados do sol, descerá sobre a tua maldição.
Porque Deus chamou o Massacre e a Primavera juntos;
O assassino matou, as flores desabrocharam,
e depois veio o tempo ameno e o sol.

Vai depois a um quintal, observa o monte.
Sobre o monte estão dois decepados:
Um judeu e o seu cão de caça.
Golpeados com o mesmo machado, os dois,
arremessados para a mesma pilha
onde porcos buscam estrume.
Amanhã a chuva lavará os seus sangues misturados
para os riachos, e perder-se-ão
em pilhas de lixo, em poças estagnadas, em lama.

O seu grito não será ouvido.
E tudo será como sempre foi.

Sobe até ao sótão, caminha com pés e mãos;
Observa a sombra da morte erguida entre as sombras.
Ali no canto funesto, ali no esconderijo sombrio,
numerosos olhos posarão em ti atravessando o silêncio triste.
Estas são as almas do espírito dos mártires,
Juntas, finalmente, sob estas vigas e dentro destes buracos ignóbeis.
O machado encontrou-as aqui, e para cá vieram
selar com o último olhar, com o último sopro,
a agonia das suas vidas, o terror das suas mortes.
Fantasmas que tombam e tropeçam, vieram aqui encolher-se.
O seu silêncio chora e são os seus olhos que clamam:
Porque razão, Senhor, e porquê?
É um silêncio que só Deus pode suportar.

Levanta então os teus olhos para o tecto;
não há lá nada, a não ser um seguro silêncio
suspenso nas traves.
Interroga a aranha no seu esconderijo.
Os seus olhos viram todas estas coisas;
E com a sua teia ela pode desenrolar um relato
horrendo aos ouvidos dos homens:
uma história de ventres rasgados, de narinas pregadas,
de crânios e ossos esmagados e derramados.
De homens assassinados pendurados nas traves.
E de um recém-nascido arremessado ao lado da mãe
trespassada por uma lança;
De como um punhal cortou ao meio a palavra de uma criança,
ouviu-se ma, mas mamã nunca chegou a formar-se.
Ó, ainda agora os seus olhos me pedem explicações
do relato que a aranha reconta,
histórias que perfuram o cérebro, histórias que te cortam
o corpo, o espírito, a alma, da vida, para sempre.
Então vais implorar ao teu espírito –
Pára, chega!
Asfixia a raiva que te sobe a garganta,
enterra estas coisas malditas,
bem fundo no teu peito, antes que o coração te estoure.
Depois deixarás estes lugares e partirás – olha! –
A terra é como era, o sol brilha ainda:
É um dia como qualquer outro.

Desce depois às adegas da cidade,
aqui violaram as virginais filhas das gentes,
onde sete bárbaros se atiraram às mulheres,
a mãe à vista da filha,
a filha à vista da mãe,
antes da matança, durante a matança, depois da matança.
Toca com teus dedos o forro manchado,
sente a almofada ensanguentada,
foi aqui que as bestas selvagens
com machados sangrentos nas patas
obrigaram as tuas filhas a sucumbir…
Esmagadas na vergonha, viram tudo;
Não arrancaram os olhos;
Não esmagaram a cabeça contra paredes.
Talvez, talvez, as testemunhas buscaram nos corações orações:
Um milagre, Senhor, poupa a minha pele mais um dia!

Vem, agora, levar-te-ei aos seus esconderijos,
Às latrinas e chiqueiros onde se ocultaram
os herdeiros dos Hasmoneanos, com joelhos trémulos,
escondidos e agachados – os filhos dos Macabeus!
A semente de santos, a prole dos leões!
Que, amontoados em multidões nos santuários da humilhação,
tanto santificaram o Meu nome!
Fugiram a fuga dos ratos,
o correr das carochas foi a sua fuga;
morreram como cães e morreram!
E, na manhã seguinte, depois da noite terrível
o filho que não foi morto encontrou no chão
o cadáver desprezado do seu pai.
Porque razão, Senhor, e porquê?

Exausta e gasta, uma escura Shekinah
Corre para cada canto sem encontrar descanso;
Deseja chorar, mas o choro não vêm;
Quer rugir; emudeceu.
Com a cabeça debaixo da asa, a asa estendida
sobre as sombras dos mártires mortos,
as suas lágrimas vertidas em silêncio e penumbra.

Tu, também, filho do homem, fecha agora o portão;
Fecha-te na escuridão, é tua agora esta morgue;
Tardando ali serás uno com a dor e a angustia
e enche de mágoa o teu coração por todos os seus dias.
Então, no dia da tua própria desolação
parecerá um refúgio,
pousado em ti como maldição, uma emboscada de demónio,
o assombrar de um pesadelo,
Ó, arrastando-o no teu coração, pela extensão do mundo
quererás proclamá-lo, falar dele
mas os teu lábios não encontrarão palavras.

Vai além dos subúrbios, chega ao cemitério.
Não deixes que homem algum te veja; chega só,
Um lugar de campas santas e pedra-mártir.
Chega-te perto do solo revolvido e fresco.
O silêncio tomará conta de ti,
O teu coração enfraquecerá com pena e vergonha,
mas não deixarei que uma lágrima caia dos teus olhos.
Endurecerei o teu coração,
não te permitirei um suspiro.
Olha, vê os bezerros mortos, massacrados;
Há algum preço para a sua morte? Como deve ser pago esse preço?
Perdoai, humilhados da terra, o vosso é um Senhor pobre!
Pobre foi Ele em vida, e pobre continua ainda.
Quando à minha porta vieres buscar recompensa,
abri-la-ei de par em par: Vejam, perdi a grandeza dos Meus altos domínios.
Sofro por vós, meus filhos. O meu coração entristece por vós.
Os vossos mortos morreram em vão; e nem eu nem tu
sabemos porque morreste ou porque razão, por quem, ou porque leis;
As tuas mortes são sem razão; as tuas vidas são sem causa.

Volta agora o teu olhar dos mortos, vou guiar-te
do cemitério aos teus irmãos vivos,
e virás, com os da tua própria geração,
à sinagoga, e no dia do jejum,
para ouvir o seu grito de agonia,
as suas eternas lágrimas.
A pele arrefecerá, os cabelos da tua cabeça ficarão de pé,
e serás movido, trémulo, pelo medo.
Assim geme um povo perdido.
Olha nos seus corações – observa o triste vazio
onde nem a vingança consegue crescer,
mas ainda assim, nos seus lábios não se levantam
altas maldições, ou juramentos de blasfémia.
Fala com eles, implora-lhes raiva!
Deixa que contra mim levante a mão ultrajada,
Deixa que exijam!
Exijam retribuição pelos humilhados
de todos os séculos e todos os tempos!
Que se atirem punhos como pedras
Contra os céus e o Trono celeste!

E tu, também, não lhes mostres misericórdia, não lhes toques nas feridas;
Não deites nem mais uma gota no seu cálice.
Onde tocasses encontrarias uma ferida,
as suas carnes são todas chaga.
Porque com resignação enfrentaram a dor
e com a humilhação fizeram pazes,
de que lhes servirá a tua consolação?
São coitados demais para evocar em ti desprezo.
São arruinados demais para evocar em ti compaixão.
Deixa-os ir, então, homens nascidos na aflição,
enlutados e esmagados sob o peso que os oprime.
Parte então das suas casas e lares
podridão nos ossos, corrupto coração.
E vai até à estrada,
encontrarás ai estes homens destroçados pela mágoa,
suspirando e gemendo, às portas dos ricos
proclamando as suas feridas, como mercadoria de pedinte,
A um a cabeça espancada, outro os membros enfermos,
um mostra um braço ferido, outro os ossos partidos.
E todos têm olhos que são os olhos de escravos,
Escravos açoitados em frente dos donos;
cada um suplica, cada um deseja:
Recompensa-me, Senhor, pelo meu crânio quebrado.
Recompensa-me, Senhor, pelo meu pai martirizado!

E assim compaixão imploram.
Porque és agora o que sempre foste
Como estendeste a mão
assim a estendes,
e como foste desgraçado,
assim desgraçado és.

Que fazes aqui, filho do homem?
Levanta-te, foge para o deserto!
Leva para lá contigo o cálice de desgosto!
Levai a sua alma, rasga-a em mil retalhos!
Com raiva impotente, com coração deformado!
Verte a tua lágrima sobre rochas áridas
e manda o seu grito amargo à tempestade!

Haim Nahman Bialik (1873-1934). Poeta. Judeu nascido na Rússia. Falecido em Tel Aviv, é conhecido como o Poeta Nacional de Israel.

A Cidade do Massacre” foi escrito por Bialik em homenagem às vítimas do Pogrom de Kishinev, ocorrido em 1903. A sua profunda e emotiva descrição de um sofrimento inimaginável torna-o extraordinariamente apropriado para recordar Auschwitz.

[tradução preliminar da chamada “versão curta” do poema]

A Judia

(poema de Tomás Ribeiro)

Dormes? eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi:
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme, querida, que eu descanto aqui!

Dorme! eu descanto a acalentar-te os sonhos,
Virgens, risonhos, que te vem dos céus!
Dorme! e não vejas o martírio, as magoas,
Que eu digo às águas e não conto a Deus!

Anjo sem pátria, branca fada errante,
Perto ou distante que de mim tu vás,
Há de seguir-te uma saudade infinda,
Hebrea linda, que dormindo estás!

Onde nasceste? Onde brincaste, oh bela?
Rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? em Malta? em Nazareth? no Egipto?
Mundo infinito, e tu sem berço?! oh! Sim.

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Folha que o vento da fortuna impele!
Vítima imbele que o tufão roubou!
Flor que n’um vaso se alimenta, cresce,
Ri, desaparece, e nunca mais voltou!

Filha dum povo perseguido e nobre,
Que o mundo encobre o seu martírio, e crê!
Sempre Ashevero a percorrer a esfera!
Desgraça austera! Inabalável fé!

Porque há de o lume de teus olhos belos,
Mostrar-me anelos d’infinito ardor?
Porque esta chama a consumir-me o seio?…
Deus de permeio maldiz o amor!…

Peito! meu peito, porque anseias tanto?
Pranto! Meu pranto, basta já, não mais!
É sina, é sina; remador, voltemos;
Não n’a acordemos… para quê, meus ais?…

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Tomás Ribeiro (1831- 1901), poeta português.

Versos adaptados para uma canção popular novecentista, dedicada à “Ex.ma Snr.a D. Anna Adelaide Leite Bastos”, recolhida no “Cancioneiro de Músicas Populares”, da autoria de César das Neves com prefácio de Teófilo Braga; Porto, 1893.
(imagens da Biblioteca Nacional).

Uriah Levy

O judeu português

que salvou Monticello

Quando Uriah Levy visitou pela primeira vez, em 1825, a vasta propriedade na Virgínia que poucos anos antes pertencera a Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano – um homem que ele admirava profundamente –, ficou chocado com o seu estado de degradação. Outrora imponente, Monticello estava virtualmente em ruínas.
Apostado em conservar aquele que considerava ser um marco fundamental da história do país, Uriah comprou Monticello no ano seguinte, restaurando a mansão de Jefferson e abrindo-a ao público. O grande apreço que sentia por Jefferson tinha uma explicação: Uriah Levy era judeu – descendente de judeus portugueses – e a tolerância religiosa que Jefferson imprimira na matriz constitucional americana permitia aos judeus poderem desfrutar na América de uma liberdade que até então nunca tinham alcançado em qualquer outro país.
“Thomas Jefferson foi um dos mais importantes homens da História, que fez tanto para moldar a República de forma a que a religião de um homem não o impedisse de exercer uma carreira pública”, escreveu Uriah Levy.
Considerado um dos mais notáveis heróis dos primórdios da história naval dos Estados Unidos, Uriah Levy tinha sido confrontado durante toda a sua carreira militar – que durou mais de meio século – com um profundo antisemitismo. Quarenta anos antes do oficial do exército francês Alfred Dreyfus ter sido julgado, condenado e eventualmente exonerado em julgamentos que tiveram por base o antisemitismo, Uriah Levy enfrentou perseguições semelhantes nos Estados Unidos. Chamado por seis vezes a responder perante um tribunal militar, foi sempre ilibado, e após o último julgamento foi-lhe concedido o posto de comandante da Frota do Mediterrâneo – a maior da armada americana na época – e elevado ao posto de Comodoro.

Uriah LevyA sua forte personalidade, segundo os seus biógrafos, permitiu-lhe sobreviver ao antisemitismo que na altura reinava na instituição militar. De acordo com os costumes da época, Uriah Levy foi obrigado a defender a sua honra inúmeras vezes, a última das quais em 1816, quando matou em duelo o tenente William Potter por este lhe ter chamado “judeu maldito”. Vitima de antisemitismo durante toda a sua carreira militar, Uriah Levy nunca se cansou de expressar o seu apreço e profunda admiração pelos ideais de liberdade religiosa defendidos por Jefferson.
Casado com Virgínia Lopes, também ela descendente de judeus portugueses, Uriah Levy nasceu em Filadélfia, em 1792, filho de Michael Levy e Raquel Machado – que seria enterrada em Monticello –, pertencendo a uma longa linha de ilustres judeus portugueses foçados a emigrar para os Estados Unidos. A sua avó materna, Rebeca Machado – tida como uma das matriarcas das primeiras comunidades judaicas norte-americanas – era filha de David Mendes Machado, rabino da congregação Shearith Israel, a sinagoga portuguesa de Nova Iorque. O seu primo, Mordecai Manuel Noah, jornalista, escritor, político e juiz, foi o mais conhecido judeu americano do século XIX e um dos percursores do sionismo, defendendo, no folheto Discourse on the Restoration of the Jews, o regresso dos judeus à Terra Santa meio século antes da realização, em 1879, do Primeiro Congresso Sionista, em Basileia.
Uriah Levy era ainda bisneto de Diogo (Samuel) Nunes Ribeiro, um judeu português nascido em Idanha-a-Nova, em 1668, que para escapar à Inquisição – que o prendera duas vezes em Lisboa sob a acusação de “reconverter cristãos-novos ao judaísmo” – emigrou primeiro para Londres e depois para a América, onde se contaria entre os membros fundadores da cidade de Savannah, na Geórgia. Samuel Nunes Ribeiro era tio de António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), um dos mais destacados médicos e cientistas da época, membro do grupo de intelectuais portugueses exilados na Europa habitualmente designado como “estrangeirados”.
Uriah Levy foi também bastante activo no seio da comunidade judaica luso-americana do século XIX, ajudando a fundar e ocupando o cargo de presidente da Washington Hebrew Congregation e, em 1854, apadrinhando o novo seminário do Instituto Educacional Bnai Jesherun, em Nova Iorque.
Na história da marinha norte-americana, o seu nome ficou intimamente associado a uma cruzada pessoal que moveu pela abolição dos castigos corporais na Armada. Escandalizado com barbaridade dos castigos – era comum marinheiros serem chicoteados por delitos menores –, Uriah Levy fez apelos pessoais aos membros do Congresso para que a prática fosse proibida, chegando a enviar-lhes chicotes desafiando-os para que experimentassem “na própria pele”.
Como tributo à sua carreira militar, em 1959, a Marinha dos EUA concedeu o seu nome à sua mais antiga sinagoga, na base naval de Norfolk, na Virgínia. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nome de Uriah Levy foi também dado a um caça-submarinos da Armada americana, o USS LEVY.

Após a sua morte, em 1862, Uriah Levy legou a propriedade de Monticello em testamento “ao povo dos Estados Unidos”.


Raquel Machado (1769-1839), a mãe de Uriah Levy,


O seu primo Mordecai Manuel Noah (1785-1851)


Uriah Levy, jovem capitão da Armada dos EUA


Monticello, a propriedade de Thomas Jefferson
(óleo sobre tela, Jane Pitford B. Peticolas, 1827)

::LER:: Who was Uriah Levy? / Judeus Portugueses na América :: Arquivos da Judiaria / The Levy Stewardship of Monticello / The Papers of Thomas Jefferson – Home Page / Monticello: The Home of Thomas Jefferson

*!חג חנוכה שמח


Além de todos os simbolismos históricos, religiosos e mesmo místicos, os dias de festa judaicos têm em comum um factor fundamental: a comida. Uma velha anedota hebraica resume assim todos os dias de festa do calendário judaico: “tentaram matar-nos, sobrevivemos, agora vamos comer!”
Nas festas que hoje se iniciam, Hanuká, o Festival das Luzes, a tradição manda que se jante bem durante todos os seus oito dias de duração. Entre as delícias tradicionais desta época festiva destacam-se as Sufganiot (סופגנייה), uma espécie de “Bolas de Berlim” recheadas com compota de morango, damasco ou ameixa.
Abrindo uma rubrica que gostaria de tornar permanente aqui na Judiaria, segue a receita de outro dos pratos tradicionais de Hanuká: Latkes.
Elogios, comentários e sugestões podem ser enviados para o Correio da Judiaria (disponível na coluna da esquerda), ao cuidado da responsável desta nova secção de culinária judaica, Shlomit, a magnífica cozinheira cá de casa.

* Feliz Hanuká

לטקעס, לביבות חנוכה של הסבתא שושנה

Latkes

(Panquecas de Batata, receita da avó Shoshana Z”L)
(Serve 4 a 5 pessoas)


4-5 batatas (grandes) raladas e escorridas
4 ovos (batidos)
2 colheres de sopa de natas (opcional)
3-4 colheres de farinha
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de pimenta

Podem ainda ser adicionado os seguintes ingredientes (opcional):
alho francês (cortado em pequenos pedaços)
salsa (cortada em pequenos pedaços)
cebola picada

Misture todos os ingredientes numa tigela de dimensões razoáveis. Tenha em atenção o facto das batatas raladas poderem começar a oxidar caso estejam muito tempo a aguardar preparação. Para evitar que tal aconteça, aconselha-se que esprema sobre elas meio limão.
Com a massa dos ingrediente faça pequenas bolas. Frite-as em óleo quente, virando-as regularmente até ficarem douradas. À medida que for virando as latkes, espalme-as ligeiramente com a espátula.

Opções para servir à mesa:
As Latkes podem ser servidas como aperitivo, acompanhadas com puré de maçã e natas; natas e compota de frutas; ou simples. Podem ainda ser servidas à sobremesa, polvilhadas com açúcar de pasteleiro e canela (mas neste caso aconselha-se que sejam confeccionadas sem alho francês).

Bom apetite!

Mário Alberto Nobre Lopes Soares: 80 anos


Mário Soares, então Presidente da República, apresenta em Belmonte, em 1989, um pedido formal de desculpas à comunidade judaica pelo sofrimento infligindo pela Inquisição e pela monarquia aos judeus portugueses. Na foto, à direita, o então rabino da comunidade de Lisboa, Abraão Assor Z”L, e o presidente da CIL na época, Joshua Ruah, aceitam o gesto simbólico. Dirigindo-se aos judeus de Belmonte – na sua maioria ainda cripto-judeus – Soares afirmaria: “Ergam as vossas cabeças e tenham orgulho nas vossas nobres origens”.

:: Nota :: Achei deveras interessante – demonstrativo, talvez – que a entrada portuguesa sobre Mário Soares na Wikipedia seja muitíssimo menos detalhada do que a versão da mesma em hebraico