Bernard-Henry Lévy

Retratos IV – Judeus na Primeira Pessoa

Bernard-Henry Lévy

Sou judeu por parte da minha mãe e do meu pai. Sou judeu por parte de Lévinas, Buber, Rosenzweig. Sou judeu porque ser judeu significa amar mais a lei do que a terra e a letra tanto quanto o espírito.
Sou judeu em resultado de uma desconfiança, que sempre senti, em relação a estados extáticos e extremos de paixão religiosa.
Sou judeu em resultado da minha rejeição de todas as formas de magia ou mistério: “Cautela”, gritou Lévinas, autor de Difficíle Liberté, Essais sur le Judaïsm, “com todos os falsos profetas que dizem que o homem está ‘mais perto dos deuses quando deixa de pertencer a si próprio’! Em guarda, judeus, contra o esquecimento de que o judaísmo é a única religião no mundo que prega a recusa das forças obscuras – a religião do desencanto, do santo e não do sagrado!” É assim que sou judeu.
Sou judeu porque sou antinaturalista e antimaterialista – sou judeu, por outras palavras, porque me sinto em casa no Livro e entre os homens, mais do que na obscura floresta de símbolos e até na vida.
Sou um judeu do galout (exílio, diáspora); sou um judeu que, há anos e anos, reflecte nesta questão do galout; não propriamente na reabilitação do galout; não, falando correctamente, na metafísica do galout; e, ainda menos, na distância em relação a Israel, que amo do fundo do coração, um amor incondicional; mas a meditação num exílio essencial, sem redenção nem retorno, que para mim parece constituir o que significa ser judeu, tanto no galout como em Israel; o contrário do exílio de Ulisses; a correlação e parte do fascínio, judaico também, com o reino dos céus; não é Judeu o nome, igualmente, do filho de Abraão (o Hebreu) e de Jacob (o Israelita)? Não é a filosofia judaica, indissociavelmente, a filosofia dos reis e dos profetas, de Israel e a da voz que, através de Jeremias, implora ao “resto de Israel” para “fortificar as suas posições no exílio”?
Sou judeu porque não sou um platónico; judeu por causa do que chamarei, para ser sucinto, anti-platonismo coextensivo ao pensamento judaico; uma ética mais do que um ponto de vista; uma relação com os outros homens tanto quanto com Deus ou, mais exactamente, a Deus, sim, mas porque, e somente porque, me traz mais perto do meu semelhante.
Sou judeu como Lévinas quando ele discute a amizade com Buber. Nessa discussão, que é digna, pelos seus termos, da famosa disputa em que Proust, sobre o mesmo tema, acaba por atirar os sapatos à cara de Emmanuel Berl, Lévinas expressa a sua desconfiança das noções buberianas de diálogo e reciprocidade. Sou judeu, sim, na forma como Lévinas declara ser estranha e irrelevante a ideia de uma amizade puramente espiritual, ou “desnervada”, que pode apenas cair em “formalismo”. Ele conclui com estas formulações magníficas, que são parte do meu judaísmo: o Outro necessita mais de “solicitude” do que de “amizade”, porque “vestir os que estão nus e alimentar os que têm fome é o real e concreto acesso ao Outro, mais autêntico do que amizade etérea.”
Sou um judeu que não é realmente um humanista (a palavra perde o sentido para um leitor, mesmo o menos versado, do Maharal de Praga ou do Gaon de Vilna), mas sou consciente de um judaísmo que me faz responsável pelos outros, o seu guardador – um judaísmo que se define, assim, como uma ética e define esta ética como aquela que é estabelecida quando eu resolvo fazer de mim não o igual mas o refém do meu semelhante e que vejo, sobre o meu “eu”, um “Ele” que me domina das sagradas alturas.
Sou um judeu que não é obviamente político (como pode um estudante de Lévinas esquecer o seu Politique Aprés?) mas aberto, por outro lado, ao mundo e a fazer do messianismo a responsabilidade básica do homem, de cada homem, no trabalho de redenção.
Sou um judeu universalista.
Sou um judeu que não se resigna a deixar ao cristianismo o monopólio do universalismo. O “povo escolhido”, tanto para mim como para Lévinas e Albert Cohen, não é um privilégio, mas uma missão. O papel do povo judeu, tanto para mim como para Rosenzweig, é abrir, a todos os povos, as invisíveis e sagradas portas que iluminam a estrela da redenção. É este, aos meus olhos, o significado do mandamento de Deuteronómio: “Não abominarás o idumeu, pois é teu irmão; não abominarás o egípcio”; e também na história de Jonas, a quem Deus diz: “Levanta-te, vai à grande cidade de Ninive e clama”, mesmo quando Ninive é, como ele sabe, o inimigo de Israel, a capital da Assíria, o próprio reino do mal.
Sou um judeu tal como Walter Benjamin quando Benjamin fala da sua “solicitude para com os vencidos e famintos” – sou judeu no sentido de Poésie et Revolution e de Teses Sobre o Conceito da História mostrando que “cada segundo é a porta estreita através da qual pode passar o messias.”
Sou um judeu que acredita, como Benjamin e, de certa forma, Scholem, que o messianismo judaico é a “encarnação de uma história secreta e invisível” que “se contrapõe à história dos fortes e dos poderosos”, que é como quem diz a “história visível” – toda a minha vida acreditei neste judaísmo, e isto é o que tenho praticado.
Fui judeu, por outras palavras, no meu Réflexions sur la Guerre, le Mal e la Fin de l’Histoire. Fui judeu no Burundi, em Angola, e na Bósnia muçulmana. Fui judeu entre os nubios a caminho de serem exterminados no sul do Sudão.
Fui judeu cada vez que, nas mais desoladas zonas do mundo, no coração das suas mais esquecidas guerras, eu aprendi a instrução judaica segundo a qual a mais séria prova da existência de Deus é a existência de rostos – e o sinal do eclipse de Deus é o seu apagamento programado.
Sou judeu porque acredito num Deus que por outra definição é “Não Matarás”.
Sou judeu quando tentei, ao longo de um ano, traçar os passos de Daniel Pearl, e sou judeu quando, à minha maneira, modesta e secular, sim, mas à minha maneira, tento contribuir para a santificação do seu nome.

Bernard-Henry Lévy, filósofo, escritor, jornalista e ensaísta francês. Retirado do livro “I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl”, 2004.

Judeus Secretos e o Aperto de Mão

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”…

Os portugueses têm o estranho costume de não “cruzar” apertos de mão. Isto é, quando quatro pessoas se cumprimentam simultaneamente, tenta evitar-se que os braços se intersectem durante o aperto de mão, formando uma cruz. Quando confrontados por estrangeiros perplexos, desconhecedores do costume, em regra, os portugueses não sabem explicar a razão de ser desta tradição, relegando-a para a vasta categoria das “superstições populares”.
Na verdade, a origem do estranho gesto remonta aos finais do século XV, altura em que os judeus portugueses foram forçados a converter-se ao catolicismo sob pena de morte. Para muitos, a conversão assumiu apenas um aspecto exterior, continuando o judaísmo a ser praticado dentro de casa, de forma secreta e escondida. Vários historiadores compilaram listas de orações criptojudaicas quinhentistas – algumas sobreviveram até aos nossos dias na comunidade de Belmonte – que denotam uma tentativa de manter viva a ligação ao judaísmo. A mais conhecida será a oração dita pelos cristão-novos/criptojudeus ao entrar numa igreja: “Nesta casa entro mas não adoro pau nem pedra mas sim o Deus que tudo governa, Adonai, Deus de Israel” (in Os Criptojudeus da Faixa Fronteiriça Portuguesa, Eduardo Mayone Dias, 1997).
Da mesma forma, outros gestos quotidianos seriam influenciados por esta necessidade de manter afastados os símbolos da religião que lhes fora imposta à força. A cruz (e os crucifixos) era vista pelos cristãos-novos portugueses como um símbolo aziago e, como tal, a evitar a todo o custo. Segundo David M. Gitlitz, professor da University of Rhode Island, no seu livro Secrecy & Deceit: The Religion of the Crypto-Jews, é neste contexto que judeus portugueses forçados ao catolicismo começam a evitar cruzar braços quando apertam a mão a alguém, afirmando que o gesto “dá azar”. O mesmo costume alargou-se também à representação acidental da cruz à mesa, evitando cruzar facas e garfos.
A assimilação dos judeus forçados à conversão, que ocorreu nos séculos posteriores, levou à propagação da prática, tornando-a parte do subconsciente colectivo nacional – chegando mesmo a implantar-se também em algumas regiões do Brasil, onde durante o período colonial existiram comunidades significativas de cripto-judeus, nomeadamente no Recife e na Bahia.
Hoje, ironicamente, o mais católico dos católicos continua a evitar “fazer cruzes” quando aperta mãos, desconhecendo que o gesto surgiu como resistência, e mesmo rejeição, ao catolicismo imposto à força aos judeus portugueses no século XV.

Gershom Sizomu

Retratos III – Judeus na Primeira Pessoa

 Gershom Sizomu

Sou o líder espiritual dos judeus do Uganda (Abayudaya), em África. Somos poucos em número, mas somos uma comunidade judaica forte, espiritual e profundamente religiosa. Somos mais de 600.
Nascido em 1969, tenho 34 anos. Com a minha mulher, Tzipoprah, viajei até Los Angeles, na Califórnia, onde estudo no Colégio Rabínico da University of Judaism. Estamos muito longe da nossa terra.
Quando tinha apenas dois anos, Iddi Amin Dada, lendário pela sua crueldade e corrupção, tomou o poder e a presidência do Uganda pela força das armas. Entre 1971 e 1979, quando finalmente o seu regime foi derrubado, Amin tornou ilegal a nossa observância religiosa e proibiu que nos declarássemos judeus. Deu-nos três alternativas: a conversão ao islão ou ao cristianismo, abjurar por completo ao judaísmo ou a morte.
Enquanto muitos do nosso povo sucumbiram à primeira alternativa convertendo-se, a minha família e outras continuaram a celebrar o Shabbat e outros mitzvot em segredo. Na maior parte das vezes, celebrávamos os serviços religiosos nos quartos, onde podíamos adorar o nosso Deus de forma sussurrada.
Em 1989, aos 20 anos de idade, foi preso conjuntamente com outros três judeus. Fomos apanhados quando mobilizávamos a nossa juventude para aprender a tradição judaica e a língua hebraica, e quando reconstruíamos a nossa sinagoga, destruída durante o regime de Iddi Amin. Sofremos às mãos dos líderes muçulmanos e cristãos locais, que não estavam interessados na existência de uma comunidade judaica.
Para se ser judeu no Uganda é necessário suportar intimidação, opressão e insultos. Debatemo-nos com restrições no acesso a serviços sociais administrados por muçulmanos e cristãos. Mas o Uganda não é um desafio só nosso.
Eu não pareço judeu aos olhos dos outros, mesmo da comunidade judaica internacional, e muitas vezes me perguntam, “como se tornou judeu?” e “quem o converteu?”
Apesar de ter enfrentado situações que colocaram a minha vida em risco durante os meus 34 anos enquanto judeu no Uganda, sou também apenas mais um membro de um povo especial – os judeus – que tem resistido durante muitos séculos de ódio e opressão e continuam a dizer shalom ao mundo.”

Gershom Sizomu, judeu do Uganda, actualmente a estudar na Ziegler School of Rabbinic Studies da University of Judaism, em Los Angeles. Testemunho retirado do livro I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl, 2004.

[A comunidade Abayudaya, de judeus do Uganda, foi fundada em 1919 por Semei Kakungulu. Um tribunal rabínico (beit din), composto por rabinos conservadores, efectuou a “conversão em massa” dos membros da comunidade Abayudaya em Fevereiro de 2002, “legalizando” a situação dos judeus do Uganda aos olhos da comunidade judaica internacional.]

A visitar: A History of the Abuyudaya Jews of Uganda / Kulanu: The genesis of the Abayudaya Community / Kulanu: Visiting the Ugandan Miracle / The Jews of Africa – The Abayudaya of Uganda / Abayudaya: Music from the Jewish People of Uganda / Abayudaya: les juifs noirs de l’Ouganda / Economist.com | Uganda’s Jews / Jewish Post of New York Online – The Jews of Uganda / The Jewish Journal Of Greater Los Angeles – Out of Africa, Into the Valley / Moving Heaven And Earth (documentário).


Fotos de Richard Sobol.

Exílios

A tua imagem está gravada no meu coração e é no meu coração que está também traçado o teu afastamento.
E mais do que ela me reanima, a tua imagem ausente aflige-me.
A tua separação confunde os meus projectos; o teu exílio impede e torna tortuosos os meus caminhos.
É por tua causa que a minha alma foi abatida e o meu orgulho foi humilhado.
A ponto que os sicômoros se levantam acima do meu cipreste e que o arbusto do hisope pareça mais alto que os meus cedros;
Que o morcego ultrapasse o meu abutre e que a mosca voe por cima das asas da minha águia; (…)

Judá Abravanel, conhecido como Leão Hebreu (1465-1535), médico, filósofo e poeta, judeu português nascido em Lisboa, filho de D. Isaac Abravanel.

[fragmento de um poema escrito em Itália, em 1503, dedicado ao filho do autor, Isaac, de 12 anos, que ficara em Lisboa e fora convertido à força ao catolicismo. Escrito originalmente em hebraico, a tradução para o português é citada por Fiama Hasse Pais Brandão num artigo do Jornal de Letras de 26 de Maio de 1981. Uma tradução em inglês do poema completo pode ser encontrada aqui.]

“Eu sou do meu amado e o meu amado é meu”

A frase transcrita acima, retirada do Cântico dos Cânticos (um dos mais belos poemas litúrgicos de que há memória, atribuído ao rei Salomão), simboliza na tradição judaica a união literal de duas metades da mesma alma. Assim fica explicada a prolongada ausência do autor deste blog, casado de fresco, literalmente unido à mais fantástica mulher do mundo. O casamento teve lugar na cidade de Raleigh, na Carolina do Norte, oficiado pelo rabino David Bockman, da Sinagoga Beth Meyer.
Escrevendo sobre a possibilidade de duas almas gémeas se encontrarem, o rabino místico quinhentista Isaac Luria, o Leão Sagrado, disse que esta era uma das mais complexas e difíceis tarefas da evolução espiritual do indivíduo: “Às vezes é preciso atravessar continentes e transpor oceanos.” Comigo foi mesmo assim. Foi necessário atravessar o Atlântico e a América do Norte para que encontrasse Shlomit Keren Stein, hoje a minha mulher e a minha melhor amiga.
Pronto, reconheço e admito a lamechisse destas linhas. Mas há ocasiões em que estas coisas se desculpam. O casamento faz parte desta lista.

PS – Obrigado a todos os que escreveram e enviaram felicitações.

Cenas de um Casamento

O rabino David Bockman explica a Ketubá, o contrato de casamento tradicional, inscrito em aramaico. A nossa foi inspirado na famosa Bíblia de Lisboa, iluminada em 1483 pelo judeu português Samuel Hasofer (fotos em baixo).

Regresso I – A Páscoa


Marranos (judeus secretos de Belmonte, Portugal) celebram a Páscoa judaica no sótão. Foto de Frédéric Brenner (1989)

A justificação da prolongada ausência seguirá dentro de momentos. Por agora, no dia em que o cristianismo inicia a comemoração da sua Páscoa, aqui fica a foto de uma família de cripto-judeus (judeus secretos) de Belmonte preparando-se para celebrar uma outra Páscoa, a judaica. Tirada num sótão anónimo em 1989 por Frédéric Brenner, esta foto está integrada no livro Diaspora: Homelands in Exile, um brilhante ensaio fotográfico sobre a Diáspora judaica. No judaísmo, a Páscoa comemora anualmente a libertação do povo hebreu do cativeiro no Egipto, a passagem da escravidão para a liberdade – a palavra hebraica da qual deriva a nossa “páscoa”, Pesach (פסח – pronunciada péssarr), quer literalmente dizer passagem. A Páscoa judaica é celebrada no dia 15 do mês hebraico de Nissan, que este ano recaiu na segunda e terça-feira passadas (segundo o calendário hebraico, os dias começam ao pôr do sol).

Ética

 Rabino Hillel, Pirke Avot, 2:6“Num lugar sem humanidade,
aspira a ser humano.”

Rabino Hillel, Pirke Avot, 2:6

[NOTA] Lost in Translation: foi este apropriado título que o meu amigo José, autor do excelente blog Guia dos Perplexos, deu a um post onde me chamava a atenção para o facto da tradução inicial desta citação do rabino Hillel ser pouco clara em relação ao espírito do texto original. O José tem toda a razão. A minha primeira tradução limitava-se apenas a transvasar do hebraico para o português, esquecendo que a primeira obrigação de uma tradução eficiente não é a fidelidade cega às palavras, mas sim ao sentido nelas contido. Esta inepta tradução (diga-se em minha defesa, feita ensonadamente quase às três da madrugada) era a seguinte: “Num lugar sem gente, / tenta ser uma pessoa”, o que na prática se resumia a uma tradução palavra por palavra do hebraico à direita (que transliterado para o alfabeto latino dá “b’makom she-ein anashim / histadel lihiyot ish”). Mesmo traduzido desta forma, apesar das óbvias imperfeições linguísticas incapazes de repetir no português o imediatismo interpretativo alcançado no hebraico, a essência das palavras de Hillel continuava a fazer sentido – num espaço vazio, num vácuo ético, sê uma pessoa (com tudo o que isto implica). O hebraico não é das mais fáceis línguas de traduzir… o dicionário, por exemplo, define “ish” (composto pelas letras alef-yud-shin, איש, a última palavra do texto) como “homem, alguém, pessoa, qualquer pessoa”, e neste contexto o seu sentido pode ser ainda mais alargado – aqui o “ish” é o que nós em português designamos como “homem com ‘h’ grande”, aqui na sua significação mais plena no contexto da tradição espiritual do judaísmo: o Homem Ético.
Depois de algumas consultas, optei pela tradução que postei acima, que julgo ser um compromisso razoável entre as palavras do hebraico original e o sentido intrínseco que o rabino Hillel, há mais de dois mil anos, terá tentado com elas transmitir. A hipótese sugerida pelo José, feita a partir de uma tradução inglesa, apesar de estar absolutamente correcta quanto ao sentido, na minha opinião, foge um pouco ao original do texto hebraico pela opção de vocábulos.
Autor de um blog com o nome da obra maior de um dos grandes pensadores judaicos de todo os tempos, o rabino medieval ibérico Moses ben Maimon, (Maimonides), o José, apesar de católico romano, fica desde já promovido a judeu honorário aqui na Judiaria. Obrigado José. Pelas leituras. Pela atenção. E pela tua boa vontade. Shalom chaver!

Contribuições para a História Judaica de Portugal

Aquilino Ribeiro “O declínio do sobrenaturalismo no Ocidente foi obra indirecta dos judeus expulsos e dos da sua progénite. Os títulos que punham aos trabalhos impressos – nada mais que por virtude do contraste que apresentavam em relação às designações de moda, herméticas e estapafurdicamente pedantes: de Amatus Lusitanus, Curationum medicinalium centuriae; de Rodrigo de Castro, De universa mulierum medicina; de Isaque Bem-Solimão, De febris, etc. revelavam eloquentemente pela precisão nas ideias que foram de sempre apanágio da raça hebraica. Estes títulos é quanto basta para nos dar a conhecer a dose de bom senso que tais homens apagados e nómadas acabaram por imprimir ao curso das ciências e das letras na Europa com manifesto eclipse do misticismo milagreiro. Muitos anos andados ainda Bacon trazia a lume o Lião verde, uma das suas obras postas nos cornos da lua sapiente.
Pelo combate que no campo das ciências aplicadas, em particular, davam à superstição e à medicina sobrenatural – como aposição de relíquias e de ferros santos, intercessão de bem-aventurados, a cada um competindo determinada zona anatómica ou espécie zoológica, assim a Cabeça Santa para a raiva, S. Fiacre para as almorreimas, Santa Luzia e Santa Flamínia, ambas concorrentes, para os achaques dos olhos, Santa Apolónia para a dor de dentes, S. Francisco de Paula a bem da sucessão masculina e ainda contra a estiagem, S. Marino para a sarna, Santa Tecla para as queimaduras, Santa Rita para todos os impossíveis do corpo e da alma, reservando-se Santo Antão o privilégio de guardar os porcos ao chambaril, Santa Marta de esconjurar o pulgão e o filoxera das vinhas, S. Pedro Gonçalves a lagarta das hortas e até S. Paulo Mártir de preservar as searas e favais do granizo e das trovoadas – concitavam contra si todos os agentes de rotina e de conservação. Para o vulgo os físicos hebreus eram herejes e sequazes do Diabo, com o qual tinham pacta. Queimava-se no Entrudo o judeu de estopa e alcatrão, como o judeu de carne e osso na Praça da Lã.
Esta perseguição da Igreja romana contra o judaísmo, equivalente dentro da ideia monoteísta, na esfera das reacções, à da pernada contra o tronco, do verbo contra o logos, de Deus Padre contra Jeová, de Cristo contra Moisés, é um dos casos mais estupendos e absurdos da história.”

Aquilino RibeiroPortugueses das Sete Partidas Lisboa: Bertrand, (1950?), p. 235-237

A Noite de Shabbat, ou a Arqueologia das Pequenas Felicidades

Há dias assim, feitos de pequenas felicidades. Há dias em que o acaso nos leva por caminhos inexplicáveis, rumo a descobertas preciosas. Quando isto acontece, o nosso universo quotidiano torna-se ainda mais pequeno, como se o mundo encolhesse e ficasse condensado na pequena descoberta imensamente feliz…

Há dias assim, feitos de pequenas felicidades. Há dias em que o acaso nos leva por caminhos inexplicáveis, rumo a descobertas preciosas. Quando isto acontece, o nosso universo quotidiano torna-se ainda mais pequeno, como se o mundo encolhesse e ficasse condensado na pequena descoberta imensamente feliz.
Hoje encontrei este pequeno livro: A Noite de Shabbath, publicado em 1927, no Porto, pelo capitão Artur Carlos de Barros Basto – uma figura imensa que merecerá em breve um perfil aqui na Judiaria – , Ben Rosh, impulsionador e líder da Obra do Resgate, que na segunda década do século XX acolheu de volta ao judaísmo oficial centenas de cripto-judeus (marranos) portugueses até então votados à clandestinidade. É quase impossível descrever a alegria (escreveria mesmo “emoção” se a palavra não me soasse tão piegas) que senti ao encontrar este livro, uma raridade preciosa. Comprei-o. Não posso deixar de pensar nos caminhos que ele percorreu em 77 anos, até chegar às minhas mãos, aqui em Los Angeles, do outro lado do mundo, numa sexta-feira à tarde. À beira da noite de Shabbat.
Shabbat shalom!

Jacob Rodrigues Pereira

Jacob Rodrigues Pereira – judeu português, pedagogo e investigador pioneiro no estudo da linguagem gestual

Jacob Rodrigues Pereira (1715-1780), pedagogo e investigador, judeu português do século XVIII, foi pioneiro no ensino de surdos mudos e na criação da linguagem gestual. Nascido em Peniche no seio de uma família judia com raízes em Chacim, Macedo de Cavaleiros, emigrou ainda criança para França levado pelos pais, Magalhães Rodrigues Pereira e Abigail Ribea Rodrigues, que tentavam escapar à Inquisição. A família instala-se definitivamente em Bordéus, onde existia já uma considerável comunidade de judeus portugueses. É aqui que Jacob, com seis anos, é submetido ao Brit Milá (circuncisão), um ritual que a Inquisição proibira em Portugal sob pena de morte.
Tido como um dos maiores pedagogos do século XVIII, Jacob Rodrigues Pereira ingressou na Academia, onde veio a ter admiradores e amigos entre as grandes figuras da cultura e das ciências francesas da época, entre os quais se destacam Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788).
O seu estudo “Observations sur les sourds-muets”, publicado em Paris 1762, é considerado o primeiro trabalho científico alguma vez escrito sobre surdos mudos e valeu-lhe uma pensão vitalícia concedida pelo rei Luís XV. Na sequência da sua investigação, Jacob Rodrigues Pereira viria a desenvolver os primeiros esboços da linguagem gestual, permitindo a comunicação com os surdos mudos, até então considerados “doentes mentais” pelas doutrinas dominantes. Jacob Rodrigues Pereira está sepultado no cemitério Judaico de Villette, em Paris.
Tal como outros judeus portugueses forçados ao exílio, o nome de Jacob Rodrigues Pereira é virtualmente desconhecido em Portugal. Isto apesar de ter sido fundado em Lisboa, em 1834, o Instituto Jacob Rodrigues Pereira, pioneiro no ensino de surdos em Portugal e hoje integrado na Casa Pia de Lisboa. Com uma presença na Internet, o Instituto não faz menção alguma ao homem que inspirou a sua criação.
Os descendentes de Jacob Rodrigues Pereira mantiveram-se em França, onde acabariam por afrancesar o nome para Pereire no início do século XIX. Um dos mais conceituados membros desta família de judeus portugueses emigrados foi Jacob Émile Pereire (1800-1875), bisneto de Jacob Rodrigues Pereira, banqueiro e parlamentar nascido em Bordéus. Em 1835 Jacob Émile foi o responsável pela construção do caminho de ferro entre Paris e Saint Germain e mais tarde fundou, com o seu irmão Isaac, a Société Générale de Crédit Mobilier, que haveria de tornar-se a maior instituição bancária de França. Os dois irmão (ver Connaissez-vous vraiment les frères Pereire ?) viriam a criar também, em 1855, a Compagnie Générale Transatlantique (ver também French Line), a primeira empresa marítima francesa a assegurar carreiras de vapores regulares entre Nova Iorque e o Havre. O seu navio Pereire era então o mais rápido do Atlântico, assegurando em 1867 a travessia entre França e os Estados Unidos em oito dias e 16 horas. Quando o Crédit Mobilier entrou em falência, Jacob Émile entregou 16 milhões de dólares do seu próprio bolso para evitar o colapso da instituição. Quando morreu, a fortuna de Jacob Émile Pereire era estimada em mais 60 milhões de dólares.
Uma avenida em Paris (e uma estação de metro), próximo de Champs-Elysées, ostenta hoje o nome da família. Os Pereire converteram-se ao catolicismo nos finais do século XIX, por “questões sociais”, como forma de fazer face ao antisemitismo francês. Mesmo assim, a família continuou a manter laços estreitos com a comunidade judaica francesa.

Praça Jacob Rodrigues Pereira, Peniche (postal ilustrado de 1909)
Praça Jacob Rodrigues Pereira, Peniche (postal ilustrado de 1909)

Boulevard Pereire, em Paris
Boulevard Pereire, em Paris.

Novo Antisemitismo?

As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo

Ilustração Foreign Policy Magazine, edição Novembro/Dezembro de 2003 – The New Face of Anti-Semitism

Como o tema é pesado, comecemos com uma anedota. Esta vem da Hungria: Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, um húngaro encontra um amigo na rua. Vendo-o muito sorridente, pergunta-lhe porque está tão feliz. “Ouvi dizer que os israelitas abateram hoje seis caças MIG de fabrico soviético”, responde o outro. No dia seguinte os dois voltam a encontrar-se, desta vez o amigo está ainda mais radiante: “Os israelitas abateram mais oito MIGs”, conta ele. No terceiro dia o amigo está agora cabisbaixo. “Então? Os israelitas não abateram mais nenhum MIG?”, pergunta o outro tentando perceber a razão da tristeza. “Abateram sim, mas hoje explicaram-me que os israelitas são judeus.”
A anedota, contada num artigo recente por Uri Avnery, jornalista israelita e activista pela paz, parece dizer muito em poucas linhas. Avnery prossegue: “O antisemita odeia judeus por eles serem judeus, independentemente das suas acções. Os judeus são odiados porque são ricos e ostentativos ou porque são pobres e vivem na miséria. Porque desempenharam um papel fundamental na revolução bolchevique ou porque alguns ficaram ricos depois do colapso do regime comunista. Porque crucificaram Jesus ou porque infectaram a cultura ocidental com “a moralidade cristã da compaixão”. Porque não têm pátria ou porque criaram o estado de Israel. Esta é a natureza de todos os tipos de racismo e chauvinismo: odeia-se alguém por ser judeu, árabe, mulher, negro, indiano, muçulmano, hindu. Os seus atributos pessoais, as suas realizações e proezas são irrelevantes. Se alguém pertencer à maldita raça, religião ou sexo será odiado.
No mesmo artigo, Uri Avnery interroga-se: “Será possível que todos os que criticam Israel sejam antisemitas? Absolutamente não.” Eu concordo. Também em absoluto. Só que há antisemitismo e antisemitismo e a definição de Avnery, do chamado “antisemitismo clássico”, fica muito aquém de enquadrar as subtilezas da actual judeofobia. Vou mais longe: muito do discurso de alguns que criticam Israel assenta nos mitos do antisemitismo, moldados agora a uma outra realidade e com outras motivações.
O debate em torno do chamado “novo antisemitismo” é fundamental e recentemente temos assistido a algumas contribuições honestas para a sua fruição. Incluo neste lote o artigo que Vital Moreira escreveu a 24 de Fevereiro no Público, citando um texto de Edgar Morin publicado no Le Monde. Não é a primeira vez que escrevo aqui sobre o antisemitismo, nem sobre a forma como o debate em torno do conflito israelo-palestiniano tem sido enquadrado. Também não é a primeira vez que estabeleço este diálogo com Vital Moreira (ver “Vital Moreira Errou”). Apesar de não concordar com muito do que escreveu no artigo, reconheço em Vital Moreira a honestidade intelectual de quem quer não só debater, mas também encontrar soluções. Mesmo assim, este post não pretende ser uma resposta a Vital Moreira, mas apenas uma contribuição pessoal para este debate. Não reclamo ter todas as respostas. Tenho, isso sim, muitas perguntas.

No passado fim-de-semana o judaísmo celebrou mais uma das suas festas religiosas, o Purim, uma celebração que anualmente reconta a antiguidade do antisemitismo. Resumidamente, o Purim comemora um acontecimento ocorrido na Pérsia, há milhares de anos, quando os judeus escaparam ao extermínio decretado por Haman, um conselheiro do rei Artaxerxes, que reinou entre 484 e 425 antes da Era Comum. O episódio, relatado no Livro de Ester, não explica as razões do ódio que motivara a ordem de extermínio contra os judeus.
Apesar de todas as formas de racismo e xenofobia serem execráveis na essência, infelizmente o antisemitismo não pode ser catalogado como uma simples variante destas aberrações sociológicas.
Num livro em que analisou com acutilante lucidez o antisemitismo entrincheirado na sociedade francesa, (Réflexions sur la Question Juive) Jean-Paul Sartre escreveu: “O que pesava sobre ele [Judeu] originalmente era a acusação de ser o assassino de Cristo. Alguma vez parámos para ponderar a intolerável situação de homens condenados a viver numa sociedade que adora o Deus que eles são acusados de matar? Originalmente, o Judeu era então um assassino ou o filho de um assassino – o que aos olhos de uma sociedade com um conceito pré-lógico de responsabilidade acaba inevitavelmente por ser a mesma coisa – e por isso ele próprio tornou-se um taboo. É evidente que não podemos encontrar aqui a explicação para o antisemitismo moderno; mas se o antisemita escolheu o Judeu enquanto objecto do seu ódio, é por causa do terror religioso que este sempre inspirou.”
Descrito pelos historiadores como “o mais antigo ódio do mundo”, pelas suas raízes históricas, pelas suas consequências práticas ao longo dos séculos – da Inquisição às expulsões, passando pelos pogroms até se chegar ao Shoá –, o antisemitismo infelizmente reveste-se de um carácter singular inegável. É parte integrante do património macabro da humanidade. E no museu de horrores da História possui uma ala própria.
À partida, dizer que o antisemitismo que hoje se vive na Europa deriva exclusivamente do conflito israelo-palestiniano é contar uma meia verdade – é simplificar o monstro. É olhar apenas para uma das suas milhentas cabeças, esquecendo-lhe as mandíbulas e as garras afiadas. Mas é assim que se pretende definir o problema.
“A violência de que os judeus são hoje alvo apresenta-se sempre como solidariedade com a causa palestiniana. Alimenta-se das imagens da intifada”, afirma o filósofo francês Alain Finkelkraut. Mas a questão filosófica que se coloca é bem mais subtil e infinitamente mais complexa: será a causa palestiniana que alimenta o antisemitismo, ou será a causa palestiniana alimentada pelo antisemitismo?
Antes de prosseguir, para evitar mal-entendidos, e especialmente para aqueles que lêem este blog pela primeira vez, gostaria de abrir um breve parêntesis para sublinhar a minha posição pessoal face ao problema: sou a favor da solução normalmente designada “dois povos, dois estados” – uma Palestina livre, democrática, autónoma e economicamente viável, ao lado de um estado de Israel onde a segurança dos seus cidadãos é salvaguardada. Sempre me manifestei contra a ocupação dos territórios, contra a manutenção dos colonatos, contra a política de Ariel Sharon e contra a duplicidade hipócrita de Yasser Arafat. Sou contra a pesada subjugação militar de uma população brutalmente carenciada e sou contra a injustificável violência terrorista dos atentados suicidas. Contraditório? Não. Por tudo isto, gostaria de ressalvar que escrevo aqui sobre o conflito não porque pretenda retirar legitimidade à causa palestiniana, bem pelo contrário, mas apenas porque acho fundamental que se analisem os fenómenos para além das suas superfícies aparentes. Aqui vai a tentativa de fazer isso mesmo.

Desde o colapso do processo de paz de Oslo e do desencadear da intifada de Al-Aqsa, em Setembro de 2000 que o conflito israelo-palestiniano tem gerado opiniões gradualmente mais hostis em relação a Israel. Muitas das criticas centram-se no facto de Israel ser um país desenvolvido, relativamente forte, que usa o seu poderio militar para manter uma ocupação sobre um largo segmento da população palestiniana, politicamente e economicamente desfavorecida. À medida que a violência se torna cada vez mais brutal de ambos os lados, com as assimetrias entre israelitas e palestinianos, aliadas à determinação de Sharon em manter a ocupação, registou-se uma degradação gradual tanto do apoio a Israel na Europa como da própria imagem de Israel no mundo.
Sob este prisma, as críticas a Israel são moralmente justificáveis, perfeitamente aceitáveis e legítimas. Não o serão, a meu ver, numa vertente sociológica, e não moral, tal como esta é definida por Max Weber, quando se coloca em causa a existência do próprio estado de Israel. Mas já lá iremos.
No entanto, há sérias razões para duvidar que a oposição a Israel se deva exclusivamente às políticas do seu governo face aos palestinianos. A atenção que se volta sobre Israel contrasta de forma gritante com a indiferença passada e presente face a atrocidades cometidas por outros países. A oposição da opinião pública europeia face a Israel deve ser contrastada com o seu silêncio perante continuadas violações dos direitos humanos numa escala significativamente mais elevada praticados, por exemplo, pelas campanhas militares de Slobodan Milosevic no Kosovo e antes na Bósnia. O massacre de mais de seis mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, apesar de ter chocado alguns, não motivou manifestações de massas nem levou à “demonização” da Sérvia nem apelos ao boicote de universidades sérvias. Milosevic senta-se agora no banco dos réus em Haia, acusado de crimes de guerra, ao mesmo tempo que a opinião pública europeia, e especialmente a esquerda, permanece maioritariamente indiferente.
Outro exemplo pode ser encontrado no brutal esmagamento da revolta dos separatistas muçulmanos na Chechnya por parte da Rússia, que apenas ocasionalmente tem sido mencionada por grupos de defesa dos Direitos Humanos. A Imprensa europeia dedica um espaço mínimo à Chechnya e a opinião pública dá também mostras de pouco interesse.
Tanto no caso dos Balcãs como no da Chechnya, o nível da violência e as graves violações dos Direitos Humanos têm sido muito maiores do que aquelas geradas pelo conflito israelo-palestiniano.
Então porquê só Israel e não também a Rússia, a Sérvia, ou mesmo a China, a Índia e o Paquistão?
Mais uma vez repito que as críticas e condenações não deixam de ser justificadas. Israel não é, e não poderá nunca ser, imune a críticas. Enquanto tudo isto não pode nunca ser encarado como uma justificação dos actos de Israel nos territórios ocupados, a verdade é que levanta sérias questões quanto aos motivos por detrás da imensa onda de hostilidade face a Israel. Acima de tudo, considero fundamental que seja feito um enquadramento global.
Uma das respostas possíveis passa pelo antisemitismo, esse fenómeno milenar embrenhado no subconsciente colectivo europeu. A importância da judeuofobia europeia neste processo não pode ser minimizada, ao contrário do que defendem alguns.
Acima de tudo, é forçoso acompanhar as morfologias do antisemitismo. Da extrema-direita fascista e ultra-nacionalista, o discurso antisemita, e muitas das suas mitologias, faz agora parte do imaginário do outro lado do espectro político.
“O antisemitismo que hoje prevalece não é o mesmo do passado. Nada tem a ver com o racismo que defendia um qualquer ideal nacionalista. Hoje é um antisemitismo em nome dos oprimidos. Não se trata de um antisemitismo racista, mas sim de um antisemitismo ‘anti-racista’”, defendeu Finkelkraut numa conferência recente.
O judeu enquanto pária social tem sido objecto de inúmeros tratados, ensaios e romances. A sua caracterização cabe aqui como parte da discussão destas raízes. No livro que acima referi, Jean-Paul Sartre refere-se também a essa condição: “Este é talvez um dos significados de O Julgamento de Kafka, ele próprio um judeu. Tal como o herói deste romance, o Judeu está envolvido num longo julgamento. Ele não conhece os seus juizes, raramente os seus próprios advogados; ele não sabe do que é acusado, mas mesmo assim sabe que é considerado culpado; a sentença final é continuamente adiada – por uma, duas semanas – e ele aproveita estes atrasos para melhorar sua posição em milhares de formas possíveis, mas cada precaução tomada ao acaso empurra ainda mais o espectro da culpa. A sua situação externa pode parecer brilhante, mas o julgamento interminável fá-lo definhar, e por vezes acontece, tal com no romance, que homens o carreguem sob a pretensão de que perdeu o caso, e o assassinam num qualquer baldio dos subúrbios.”
Neste debate actual existem duas posições extremadas: os que negam a existência de uma nova forma de antisemitismo e os que consideram antisemitas todas as críticas a Israel. Em pólos opostos, os argumentos deste dois campos falham em ir além da superfície.
“A solução do problema não está em bem intencionadas e ritualizadas condenações do racismo e do antisemitismo. Temos de reconhecer o facto de que muitas pessoas com educação superior não reconhecem o ódio aos judeus a não ser quando este lhes é apresentado vestido com um uniforme nazi. O problema é que a saudação ‘heil Hitler’ já não é o principal critério para medir o antisemitismo”, escreveu, em Junho do ano passado, o professor Robert Wistrich, historiador e director do Vidal Sassoon International Center for the Study of Antisemitism, da Universidade Hebraica de Jerusalém.
A diferença entre o “velho” e o “novo” antisemitismo é que este hoje já não é institucional, como o foi na Europa durante séculos. Agora apresenta-se, acima de tudo, como uma opinião.
As sociedades democráticas ocidentais tendem a acreditar – como matéria probatória da sua própria essência – na obrigatoriedade de aceitar todos os tipos de opinião, ao abrigo dos conceitos de Liberdade de Expressão. Mas será o antisemitismo simplesmente uma opinião? Em Réflexions sur la Question Juive, Sartre responde: “Antisemitismo não se enquadra na categoria de ideias protegidas pelo direito de livre opinião. Na verdade é bem diferente de uma ideia. É antes de mais uma paixão. (…) Longe da experiência produzir esta ‘ideia’ do judeu, é esta que enforma a experiência. Se o judeu não existisse, o antisemita haveria de o inventar.” Mais à frente acrescentaria uma frase emblemática já citada neste blog: “Il ne s’agit pas là d’une opinion mais d’un délit.”
Na prática, e em última análise, o antisemitismo é irracional e desafia qualquer enquadramento lógico. Por isso mesmo desisti há muito de entrar em discussões com antisemitas. Não vale a pena. É uma perda de tempo. Como escreveu Jonathan Swift: “É inútil tentar dissuadir racionalmente um homem de algo que ele não concluiu pela razão.”
A discussão – no sentido construtivo do termo – tem de ser feita e mantida com aqueles que recorrem agora ao imaginário e à mitologia antisemita, muitas vezes, acredito, de forma inconsciente e não deliberada.

[Para quem ainda alimente dúvidas sobre a definição da palavra antisemitismo aconselho a leitura do excelente post Anti-semitismo: o que é?, de R.J. Oliveira no Super Flumina; e ainda este no Crónicas Matinais, de Ana Albergaria. Para evitar qualquer tipo de dúvidas, optei há muito por retirar o hífen quando escrevo antisemitismo.]

Não vou aqui abordar a evolução semântica da palavra sionismo (ficará, provavelmente, para posts futuros), mas o facto da sua conotação negativa actual estar totalmente desenraizada do seu contexto não é alheio à “demonização” de Israel e ao mito da incompatibilidade entre a existência de dois estados, livres e independentes. Como escreveu Miriam Greenspan, “a confluência do antisemitismo e do anti-sionismo gerou o complexo híbrido de Intolerância e fanatismo que hoje emerge”.
Para demonstrar que uma e outra coisa não são incompatíveis, “Sionista e pró-Palestiniano” foi o título escolhido para uma série de conferências efectuadas no ano passado por um grupo de intelectuais judeus franceses, entre eles o acima citado Alain Finkelkraut e Bernard-Henri Lévy. Concordo com o slogan e adopto por inteiro aquilo que ele pretende encapsular: a existência inequívoca do estado de Israel, defendendo ao mesmo tempo o fim da ocupação e a criação de um estado palestiniano independente e viável. Para os que preferem olhar a realidade através de dicotomias simplistas, esta posição parecerá inconciliável.
Mais uma vez, chamo a atenção dos meu leitores para The New Anti-Semitism, um texto notável de Miriam Greenspan, que aqui já citei por várias vezes. A minha posição pessoal identifica-se na totalidade das opiniões por ela expressas.
Nesse artigo (ver The New Anti-Semitism), Miriam Greenspan escreve: “Ao abordar a questão israelo-palestiniana, recordo a velha história de três cegos que apalpam um elefante. Aquele que tacteia a tromba diz que é uma cobra. O que sente só a perna diz que é o tronco de uma árvore. O que toca no dorso diz tratar-se de uma parede. Todos partilhamos a ‘cegueira’ da parcialidade mas mesmo assim falamos como se a verdade, toda a única, nos pertencesse. Quantos dos leitores da The Nation também lêem a Jewish Week? Quantos leitores do jornal oficial da Autoridade Palestiniana também lêem o Ha’Aretz? Qualquer um pode encontrar “factos” para apoiar praticamente qualquer posição acerca de Israel e da Palestina. Os factos, eles próprios, são matéria disputada e nem todos somos especialistas académicos em Médio Oriente. O que decidimos acreditar e qual a “linha” a que aderimos depende muito mais das nossas emoções do que gostaríamos de admitir. E essas emoções podem incluir um preconceito consciente ou inconsciente contra judeus, mas também um preconceito consciente ou inconsciente contra árabes. A história das relações israelo-palestiniana será sempre contestada, escrita tanto pelas nossas não-declaradas paixões primitivas como pelo exercício da nossa colecção de “factos” preferidos. Os mitos históricos tendem a ser imutáveis e inflexíveis – não deixando espaço para contradições desconfortáveis. Eles mantém a sua integridade à custa da supressão de outros factos desconcertantes que podem levantar ansiedades sobre se estamos do lado dos ‘bons’ ou dos ‘maus’ – especialmente em áreas onde existem imperativos morais.”
A leitura de Miriam Greenspan aplica-se a ambas as partes. Aos dois lados do conflito. Lembrei-me disto quando na semana passada assisti a uma acesa polémica sobre os palestinianos com aspas ou sem aspas (que passou pelo Barnabé, pelo Homem a Dias, pelo Aviz, pelo causa nossa e pelo Avatares de um Desejo). Como escreveu Francisco José Viegas: “Nisto, cairíamos na chamada elucubração adversativa, ou seja: nunca citaríamos um argumento sem que o outro dissesse, logo a seguir, “sim, mas o contrário também existe”, e assim por uma larga eternidade, que é o tempo em que já deveríamos ter concluído essa “discussão despreconceituosa do conflito israelo-palestiniano”, como escreve. Não se pode é, creio eu, invocar o mal de um só lado quando se fala deste assunto.”

Um dos grandes problema de discurso é a colagem, generalizada e indiscriminada, de todos os judeus às políticas de Israel – algo que, honestamente, tenho muitas dificuldades em não designar como antisemitismo. Chamo a atenção para uma boa análise sobre isto mesmo feita no blog Pagan Days, num post intitulado “Generalizações”.
À luz disto, o discurso que defende existir uma separação estanque entre justificadas críticas às políticas de Israel e o antisemitismo é demonstrativo, antes de mais, de uma cegueira selectiva.
Quando, em 2002, José Saramago comparou Jenin a Auschwitz falou dos “judeus” como executores de um “novo Holocausto”. “Os judeus”, repare-se. Não os militaristas, os “falcões” de Israel, não a direita de Sharon, mas “os judeus”. Todos. Subitamente os judeus são novamente reduzidos a uma caricatura e mergulhados mais uma vez numa iconografia irreflectida, ruinosa e abismal que deveria arrepiar qualquer mente pensante. Mas não. Aparentemente.
O socialista alemão August Bebel descreveu um dia o antisemitismo como “o socialismo dos tolos”. Não nos podemos esquecer que antes dos comunistas, nas mentes primaristas, eram os judeus quem “comia criancinhas ao pequeno almoço”. E foi assim durante séculos. Mas o que fazer então das críticas, por mais legítimas que sejam, que abraçam os “eternos” mitos propagados há séculos pelos antisemitas?

Cartoon contra a Barreira (ou muro) de Segurança Israelita

Postal de Propaganda Nazi, mostrando ‘o judeu’ como uma cobra

Iconografia Nazi – ‘o judeu’ como ‘ninho de víboras'

Propaganda Nazi: a “cobra judaica ataca a Alemanha

Propaganda Árabe: a ‘cobra’ israelita é degolada pelos árabes

Que diferenças, em termos iconográficos, existem entre a primeira representação (uma imagem publicada recentemente no Blogue de Esquerda) e a segunda (ver especialmente o terceiro postal), ou ainda mais esta?
Obviamente que alguns me dirão que são “muito diferentes”, mas a verdade é que uma discussão intelectual honesta terá de ir além da superfície e reconhecer, admitir mesmo, a essência das “fontes de inspiração”. Durante séculos, a teoria da “semente da serpente” – ainda hoje prevalecente entre “igrejas” e grupos para-religiosos antisemitas e racistas, como a Aryan Nations, a Ku Klux Klan e a World Church of the Creator, entre outras – professou que os judeus são descendentes da “relação adúltera de Eva com o Diabo”, que a terá tentado “em forma de serpente” (ver The “Christian Identity” Movement). Durante toda a Idade Média os judeus na Europa eram habitualmente identificados como “serpentes”, apontados com a progénie do Diabo. A imagem permaneceria adormecida no subconsciente colectivo até ser recuperada novamente pelos nazis. Agora, pelos vistos, volta a reaparecer, aos olhos de todos, como se fosse apenas mais uma “opinião”. Como se fosse inocente e tivesse nascido de geração espontânea. Ou da imaginação de um cartoonista ingénuo. Para uma reflexão interessante aconselho uma passagem, por exemplo, pela página de cartoons do “Movimento Nacional Socialista Chileno”, disponível aqui Dibujos y comics, e depois para ler um pouco mais sobre esta “organização”, clique-se aqui.
Na minha opinião, é necessário e urgente analisar e expurgar estas relações incestuosas, esta promiscuidade entre as posições da nossa esquerda, mesmo quando assumidas em críticas legítimas, e um repugnante subconsciente antisemita que obviamente não só não foi apagado como se vê agora renascido com novas roupagens. E com estranhas e inóspitas alianças.
A recorrente sensibilidade face às minorias, que perpassa o todo do discurso da esquerda, possui hoje uma fronteira rígida no que toca aos judeus. A homogeneização, o tomar o todo pela parte, o recurso ao simbolismo e imaginário do “velho” antisemitismo continuam a prevalecer entre aqueles que dizem defender os direitos humanos, os oprimidos e as minorias. Ao contrário do que muitos afirmam, o único ódio socialmente aceitável na era do politicamente correcto é o ódio ao judeu, ainda que muitas vezes encapotado e dissimulado como “crítica legítima”. Existem milhentas críticas legítimas a Israel, eu – e uma multidão de judeus comigo – serei dos primeiros a reconhecê-lo. Mas existem formas variadas de conceptualizar ideias e críticas, que não têm de passar pelo recurso às antigas e estafadas fórmulas judeofóbicas.
Não deixa de ser curioso, irónico mesmo, que se argumente que hoje em dia “não se pode criticar os judeus”, não se pode “dizer mal de Israel”, que tudo isto é agora “proibido” em nome do politicamente correcto. “É preciso ter coragem e não ter medo” para criticar os judeus, escrevia recentemente o autor anónimo de um blog português. Na realidade, para qualquer observador honesto, o que verdadeiramente se passa é o inverso: politicamente correcto é dizer mal de Israel (muitas vezes apenas com reacções pavlovianas e mal informadas) e meter os judeus todos no mesmo saco. Politicamente incorrecto, infelizmente, é defender o simples direito de Israel existir. Ou falar do antisemitismo. A este respeito aconselho a leitura de um artigo de Melanie Phillips, intitulado Return of the Old Hatred reproduzido no dia 4 de Fevereiro no Contra a Corrente.
Em Fevereiro do ano passado o rabino americano Michael Lerner, director da revista Tikkun e activista pela paz, foi impedido de discursar num comício contra a guerra no Iraque porque um dos grupos organizadores se recusou a aceitá-lo por causa das suas “posições pró-israelitas”. Quem alguma vez leu a revista Tikkun terá obrigatoriamente de ficar, no mínimo, boquiaberto. Acusado por alguma direita israelita – e da Diáspora – de ser um “traidor” por defender o fim da ocupação e o respeito pelos Direitos Humanos do povo palestiniano, Lerner era agora ostracisado também no seio da esquerda e do movimento pacifista americano. O seu “crime”: defender o direito à existência de Israel.
Uma petição em favor do rabino foi publicada em vários jornais americanos, assinada por um grande número de figuras marcantes da esquerda norte-americana, entre eles o historiador Howard Zinn, o sociólogo Maurice Zeitlin; Marc Cooper, editor da revista The Nation, e os escritores Eric Alterman e Mike Davis (ver Let Anti-War Rabbi Michael Lerner Speak). A verdade é que o rabino Michael Lerner não falou no comício (para uma lista de artigos do rabino Michael Lerner ver Beliefnet.com).
Um dos efeitos primários deste novo antisemitismo é precisamente este: o silenciamento e secundarização das opiniões moderadas de judeus e israelitas que não correspondam à “imagem” esteriotípica com que o discurso dominante vai pintando o judeu e o israelita. Em vez de alargar o diálogo e fomentar a discussão séria e honesta, restringe-se o todo a pinceladas de preto e branco sem espaço para as indispensáveis tonalidades intermédias.
O caso do rabino Lerner, a meu ver, é paradigmático quando enquadrado num contexto ainda mais vasto: a “coligação pacifista” – com organizações como a A.N.S.W.E.R. (Act Now to Stop War & End Racism!) – que liderou a oposição nas ruas da América à intervenção militar da Casa Branca no Iraque era composta por grupos que inicialmente se juntaram para organizar manifestações públicas contra a globalização, nomeadamente em Seattle (ver Globalization Foes Plan to Protest WTO’s Seattle Round Trade Talks).
Outro exemplo: o Fórum Social Europeu publicou, em finais de Outubro passado, no seu site na Internet um texto abjecto de Tariq Ramadan, académico e islamista suíço, onde este fazia uma lista de jornalistas e intelectuais judeus franceses acusados de participarem numa “conspiração mundialista” – a sua publicação tinha sido recusada antes pelos jornais Le Monde e Libération (ver Tariq Ramadan accused of antisemitism). Bernard-Henri Lévy, um dos intelectuais visados, responderia em Novembro com um artigo no Le Monde intitulado L’autre visage de Tariq Ramadan.
Anos antes uma lista semelhante com acusações idênticas às agora veiculadas por Ramadan provocara uma intensa onda de polémica em França, merecendo uma condenação unânime da Imprensa, do poder e da comunidade intelectual. O seu autor: Jean-Marie Le Pen.
Considero o texto de Bernard-Henri Lévy fundamental por várias razões – não só por chamar a atenção para o “lado negro” de Ramadan (mitificado pelos media francófonos como um exemplo acabado de “islamista moderado”), mas também pelo alerta que faz às ligações perigosas que se vão tecendo no seio do movimento anti-globalização.
Sob a capa “altermundialista”, de oposição legítima e fundamental à globalização e ao que ela poderá representar, assiste-se hoje a uma mistura de retóricas tradicionalmente de traços antagónicos. Hoje, segundo Alain Finkelkraut, “o discurso do antisemitismo foi absorvido pelo discurso do anti-racismo; o novo antisemitismo cortou com as raízes do antisemitismo clássico e vem agora de pessoas que falam de valores humanistas, do altruísmo e da democracia”.
O novo antisemitismo une hoje “camisas castanhas”, “vermelhos” e “verdes” (a “aliança castanha-vermelha-verde”, como lhe chama o académico francês Roger Cukierman), num caldo até há pouco inconcebível do ponto de vista teórico e prático. Num trabalho intitulado Antiglobalism’s Jewish Problem, publicado numa das últimas edições da revista Foreign Policy (uma versão condensada foi publicada pela Australian Financial Review ), Mark Strauss escreve: “O novo antisemitismo é único porque cose sob uma bandeira comum as várias formas do antigo antisemitismo: o conceito de judeu detido pela extrema-direita (a quinta coluna, leal apenas a si próprio, sabotador da soberania da economia e da cultura nacional), o conceito de judeu detido pela extrema esquerda (capitalista e usurário, controlador do sistema económico internacional) e o antisemitismo histórico e religioso (o do judeu assassino adaptado hoje como opressor colonialista).”
As teorias de conspiração que marcaram o dogma antisemita do século XIX – que acabaria por produzir o tristemente célebre Protocolos dos Sábios de Sião – encontram agora eco entre muitos daqueles que combatem a globalização. A simpatia pela causa palestiniana é um forte elo de ligação entre os “verdes” e os “camisas castanhas”.
“Eles estão a tentar impor um sistema de apartheid nos territórios ocupados”, afirmou o emblemático líder altermundialista francês José Bovè depois de uma visita a Ramallah em 2002.
“Aqui, a questão saliente nem sequer é: o que é que os activistas anti-globalização têm contra Israel? Mas, sim, é importante perguntar: Porquê só Israel? Porque não viajou Bovè até à Rússia para demonstrar a sua solidariedade para com os separatistas muçulmanos chechenos, que lutam a sua própria guerra de libertação? Porque circulam nas universidades petições para que não se invista em companhias com laços com Israel, mas não com a China? Por razão as manifestações que denunciam as tácticas de Israel contra os palestinianos ficam silenciosas em relação aos milhares de muçulmanos mortos em pogroms em Gujarat, na Índia?”, interroga-se ainda Mark Strauss no mesmo artigo.

É verdade, e urge realçar, que muitas NGOs anti-globalização fizeram já soar o alarme, reconhecendo a infiltração de neo-nazis e do ideário antisemita no seio do movimento anti-globalização. Mas como escreve Mark Strauss, o movimento em si não está livre de culpas. “Não sendo intrinsecamente antisemita, mesmo assim tem ajudado os antisemitas ao propagar teorias da conspiração.”
E onde há conspiração há conspiradores – e inevitavelmente, porque assim tem sido ao longo dos séculos, o dedo acusatório antisemita volta-se contra os judeus, os eternos “manipuladores da alta finança”.
Por ser de esquerda (será necessário mostrar aqui o cartão do meu partido?), sinto tudo isto ainda mais de perto. Este “socialismo dos tolos” torna agora real o que muitos consideravam simplesmente inconcebível, juntando do mesmo lado da barricada, por exemplo, algumas posições do Bloco de Esquerda e as opiniões dos skinheads neo-nazis que, em 1992, na Rua da Palma, mataram José Carvalho.
Dirão que estou a exagerar. Deixem-me então levar-vos numa pequena “visita guiada” por este “lado negro” do movimento anti-globalização. Visite-se a página da auto-proclamada Anti-Globalism Action Network (ver Anti-Globalism Action Network – a front for fascists), que se descreve como “um colectivo de activistas anti-globalização que trabalham no sentido de alargar o movimento anti-globalização de forma a incluir vozes divergentes e marginalizadas”. E que vozes são essas? Basta ir à página de links do site. Dos dois links disponíveis, o segundo leva-nos até ao site da National Alliance, a maior organização neo-nazi dos Estados Unidos, que mantém laços com grupos neo-nazis e “supremacistas brancos” de todo o mundo.
Mais uma citação do texto de Mark Strauss: “A oposição às políticas do governo de Israel não transforma automaticamente a esquerda em antisemitas. Mas um movimento em campanha por uma justiça social global arrisca-se a cair no ridículo ao condenar unicamente o estado Judaico. E quando as mentalidades conspiracionistas do movimento anti-globalização se misturam com a retórica anti-Israel, os resultados podem ser muito feios. Bovè, por exemplo, disse a um repórter que a Mossad, os serviços secretos israelitas, eram responsáveis pelos ataques antisemitas em França de forma a distrair as atenções das acções do seu governo nos territórios ocupados. (…) Por todo o mundo, manifestantes carregam placards comparando Sharon a Hitler e acenam bandeiras israelitas onde a estrela de David é substituída pela suástica. Estas manifestações apontam Israel como responsável único pela violência, ignorando centenas de israelitas que morreram vítimas de ataques suicidas e o papel da Autoridade Palestiniana no fomentar do conflito. Para mais, comparar Israel ao Terceiro Reich é a mais básica forma de revisionismo histórico do Holocausto, fazendo passar a mensagem de que a única “solução” para o conflito israelo-palestiniano é a completa destruição do estado Judaico. Naomi Klein, escritora e activista anti-globalização, tem falado publicamente contra estas comparações, mas ela está em franca minoria. Os mesmos movimentos anti-globalização que se orgulham em fazer contra-protestos face aos neo-nazis que infiltram as suas manifestações, dão os braços a manifestantes que exibem suásticas em nome dos direitos dos palestinianos.”
O dualismo simplista vitima/opressor cega agora aqueles que o propagam em relação às atrocidades cometidas pelos oprimidos. E reacende os velhos ódios antisemitas

No Guardian, a colunista Julie Burchill escreveu uma série de dois artigos sobre o antisemitismo (Good, bad and ugly e The hate that shames us), no primeiro pode ler-se: “ataques contra judeus neste país [Reino Unido] subiram em 75% este ano; desde 2000 registou-se um aumento de 400% em ataques a sinagogas.” Os números são oficiais e paralelos ao que se regista em França, na Itália, na Alemanha, na Áustria. Qualquer debate honesto sobre o tema do antisemitismo actual tem de levar isto em conta. Pode de alguma forma a solidariedade para com a causa palestiniana justificar a vandalização de sinagogas e cemitérios judaicos? Podem as acções do governo de Sharon servir de justificação para que qualquer judeu de Paris tema andar de metro, com receio de ser atacado, de lhe cuspirem em cima, de ser insultado? (ver “Mostrem a estrela amarela com orgulho!”)
Este é um dos problemas do argumento dos que afirmam que não existe um novo antisemitismo, ou daqueles que tentam estabelecer fronteiras claras entre uma coisa e outra. Dizer que a culpa do “ressentimento contra os judeus” que actualmente se vive na Europa é de Israel, da miopia política de Ariel Sharon, é simplesmente querer tapar um elefante com um lenço de assoar e fingir que ele não existe. Dizer que “a culpa é de Israel”, sem tentar perceber o que está por detrás desta violência é, no mínimo, irresponsável. Tentar encontrar justificações morais para o ódio, desculpabilizá-lo com racionalizações irreflectidas e pavlovianas, é ainda pior.
A Amnistia Internacional nasceu, em 1961 como consequência de uma notícia lida num jornal britânico pelo advogado Peter Benenson. A notícia falava de dois estudantes portugueses detidos depois de terem brindado à Liberdade (ver Amnesty International – The first 40 years). Como nos sentiríamos nós se todos os portugueses espalhados pelo mundo tivessem sido corresponsabilizados? Será que poderíamos ter minimizado ataques contra emigrantes portugueses em Newark, Pretória, Paris, Londres, Genebra, Bruxelas ou Sidney? E não me venham dizer que a nossa “colonização exemplar” não teria fornecido motivos mais do que equiparáveis. A verdade é que um mal não pode nunca justificar outro.
É esta cegueira selectiva que me assusta. É esta “banalização do mal” que me preocupa. Em 1963, no livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil, Hannah Arendt traçou o perfil original e polémico de Eichmann como um burocrata que cumpriu o seu dever e que seguiu ordens sem reflectir. Para ela, a monstruosidade do comportamento de Eichmann não se deveu a uma vontade sádica. Longe de corporizar um “mal radical”, Eichmann era o paradigma da “banalização do mal”. Esta caracterização do responsável nazi daria origem ao poema All There is to Know About Adolph Eichmann, de Leonard Cohen, (do livro Flowers for Hitler, 1964). Hoje não podemos cair no mesmo erro. Não nos podemos deixar engolir em “espirais justificativas” que não fazem mais do que banalizar e defender o indefensável. E isto, mais uma vez, aplica-se aos dois lados do debate no conflito israelo-palestiniano.

“Muitos argumentam que os judeus, que outrora foram vítimas, se transformaram em vilões no palco mundial, que Israel chamou o novo antisemitismo sobre si própria ao aliar-se aos interesses imperialistas americanos. Que esse ódio de Israel é “justificado”. À parte da perigosa prática corrente de juntar indiscriminadamente os judeus às políticas de Israel, há uma questão lógica que ressalta desta linha de raciocínio: se o ódio dos árabes e muçulmanos em relação a Israel é justificado, então o ódio judeu a árabes e muçulmanos por causa do antisemitismo é também “justificado”? Se isso é verdade, então onde nos leva todo este ódio “justificado”?”, escreve Miriam Greenspan, na revista Tikkun.
Esta citação torna evidente, entre outras coisas, os desníveis deste debate. Mais um exemplo. Quando aqui há algumas semanas escrevi um post sobre o penúltimo atentado em Jerusalém, decidi publicar os nomes das vítimas. Como consequência, foi criticado por ter “uma visão parcial” e “pouco objectiva” ao “esquecer” as vítimas palestinianas do conflito. Resta-me deixar uma pergunta no ar: será que os mesmo que criticaram esta minha “parcialidade” escrevem também para os jornais e para os blogs que incessantemente insistem em ignorar as vítimas israelitas? E ainda outra: Se umas vidas não valem mais do que outras porque razão se continua a insistir num discurso que faz prevalecer esse mito?

Já li em vários lugares, incluindo na blogosfera, que hoje em dia não existe antisemitismo em Portugal e que este debate é perfeitamente supérfluo. Apesar de morar fora do país desde Junho de 1994, tenho sérias dúvidas que esta análise esteja correcta. Infelizmente, tendo a acreditar que a realidade é bem diferente. Será que poderia andar completamente em paz pelas ruas de Lisboa ou do Porto com um kippá na cabeça? Nós portugueses tendemos a olharmo-nos ao espelho das nossas próprias mitologias. A que nos apelida de “povo de brandos costumes”, apesar de errada, prevalece.
Um exemplo rápido e demonstrativo. Depois de ter ler um texto profundamente antisemita deixado por um leitor numa caixa de comentário do blog Cruzes Canhoto, resolvi fazer o que por norma não faço e ripostei com sarcasmo. Horas depois, na mesma caixa de comentários, o autor da prosa que motivara a minha resposta volta à carga: “(…)Quanto a ti Nuninho, (…) sinceramente eu preferia que emigrasses para Israel e tivéssemos todos a sorte de estares dentro de um autocarro durante “o horário de trabalho” da malta do Hamas. Rui Pereira.” Receio que não seja necessário qualquer comentário.
Convém sublinhar que o Cruzes Canhoto nada teve a ver com esta manifestação de ódio primarista, antes pelo contrário. O autor do blog (J.) viria a condená-la fortemente.
Dizer que o antisemitismo não existe em Portugal é, no mínimo, ingénuo. Durante a minha adolescência tive uma alcunha que me acompanharia para sempre. Eu era “o judeu”. Como nunca neguei as minhas raízes e sempre tive orgulho delas, recebi-a inocentemente como um elogio. Mas todos sabemos que “judeu” continua a ser atirado como um insulto. Tal como a própria palavra “judiaria”. Não é necessário ler Freud nem Carl Jung para perceber que estas coisas não se apagam facilmente.

A necessidade da paz entre israelitas e palestinianos é inegável, essencial e urgente. Mas enganam-se os que acreditam que com ela virá também o fim do antisemitismo. O Paquistão serve aqui de exemplo – um país sem judeus, que nunca teve qualquer contacto com judeus, afastado do Médio Oriente, é hoje uma das maiores fontes de propagação do antisemitismo.
Ao mesmo tempo, como Mark Strauss escreve na revista Foreign Policy, quando se chegar a uma paz real, as condições conducentes à propagação do antisemitismo não irão desaparecer de forma milagrosa. Os governos árabes continuam avessos a reformas políticas e económicas sérias no sentido de abrir as suas sociedades e retirar os seus cidadãos da pobreza endémica. E o ódio, esse, dificilmente será extirpado por completo.
À lógica dos conflitos, especialmente neste caso imensamente complexo, não se podem aplicar os mesmo princípios das paixões irracionais que gerem, por exemplo, o clubismo. Isto é verdade especialmente para nós, que estamos de fora.
O diálogo, apesar de fundamental, também nunca será uma solução em si mesmo. Além das palavras são precisos actos. Dentro e fora de Israel. Dentro e fora da Palestina. E depois dos actos, é preciso tempo. Porque, como escreveu o poeta israelita Yehuda Amichai, “história leva anos e anos a fazer”. E a desfazer também.

Notas
Queria terminar com dois links que considero fundamentais. Aconselho o visionamento de duas conferências sobre o antisemitismo realizadas pelo Vidal Sasson International Center for the Study of Antisemitism, da Universidade Hebraica de Jerusalém (formato WindowsMedia). Aqui vão os links:

Reflexions sur l’antisemitisme qui vient, por Alain Finkelkraut

Conferência de Bernard-Henri Lévy

Gostaria de fazer ainda uma breve chamada de atenção para um debate intitulado O anti-semitismo e o Estado de Israel, que se realiza a 23 de Março às 19h30 no Centro de Investigação e Análise em Relações Internacionais (ver o site para mais informações). Nele estará presente, entre outros, Esther Mucznick, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa.

Daniel Blaufuks

Retratos II – Judeus na Primeira Pessoa


Sinto, sem dúvida [a influência do judaísmo]. Sobretudo o facto de os meus avós terem sido perseguidos e de terem sido forçados ao exílio. Acho que isso atravessa a maior parte das coisas que faço. O meu trabalho é feito sobretudo através de errâncias e viagens, de uma constante procura e isso vem do Judaísmo. Nunca me esqueço de uma ideia que o meu avô me passou quanto à definição de Judaísmo. Ele disse-me que as crianças judias, quando fazem uma pergunta, recebem sempre uma resposta. Acho que o judaísmo passa muito por aí, pela educação e não tanto pela religião; por uma educação comum.

Daniel Blaufuks, judeu português, nascido em Lisboa (1963). Fragmento de uma entrevista com Diana Ettner. (Via Comunidade Judaica de Lisboa)

Sexta-feira 13: Azar ou Sorte?

A propósito das superstições ligadas a sexta-feira 13, o Filipe, autor do excelente blog Respublica, desafia-me a comentar a possível conotação aziaga do número na tradição hebraica. Mas, na verdade, ela não existe. Em hebraico, 13 é um número extraordinariamente positivo.
Na língua hebraica os numerais são escritos com as letras do alfabeto (ou alefbet), às quais é atribuído um valor numérico (ver Gematria Hebrew Letter Chart – Introduction to Hebrew Numerology) – um pouco à semelhança da numeração romana. Assim, o número 13 escreve-se com as letras י Yud (10) e ג Gimel (3). Para desvendar as leituras semióticas da numerologia hebraica (gematria), é necessário, antes de mais, analisar o simbolismo dado a cada letra.
O Yud (י) é a primeira letra da palavra yetzer (impulso), denotando a tendência humana tanto para o altruísmo (yetzer hatov, aspecto positivo) como para o egoísmo (yetzer hará, aspecto negativo). Os sábios cabalistas aconselham a meditação na letra Yud como forma de ultrapassar estagnação e inspirar mudança a nível espiritual.
O Gimel (ג), por outro lado, reflecte as qualidades de bondade e crescimento. A expressão gamilut hasidim (boas-obras) traduz a essência de Gimel, a primeira letra também das palavras gadol (grande), guibor (poderoso) e guevurá (coragem). A meditação na letra Gimel desperta a capacidade de crescimento espiritual.
Ao contrário do que acontece no cristianismo, a tradição hebraica reserva ao número 13 uma conotação bastante positiva. Segundo a gematria, 13 é o valor numérico das palavras “amor” e “unidade”, denotando uma ligação intrínseca entre elas. Outro aspecto positivo do número no judaísmo é demonstrado pelo facto de rapazes e raparigas efectuarem os rituais de passagem de bar e bat Mitzvá aos 13 anos de idade, entrando assim na “maturidade religiosa”. Treze são também os atributos de Deus inscritos pelo rabino medieval Moisés ben Maimon (Maimonides) no hino Yigdal.

Imagens da diáspora dos Judeus Portugueses I

Lápide tumular de Clara Ferreira, cemitério judaico da ilha de Rodes, Grécia

“Abençoado seja o Juiz da Verdade. Entoai uma ode de lamento com voz amarga. Como Sara, a sua luz extinguiu-se. Lugar de enterro da honrada e nobre mulher, Clara, o pilar de Abraão Ferreira. Ela foi retirada deste mundo no 12º dia de Elul do ano de 5566 [1806]. Que a sua alma seja eterna.”

Lápide do túmulo de Clara Ferreira, 1806, ilha de Rodes, Grécia.

(Agradecimentos à Rhodes Jewish Historical Foundation)

Jacques Derrida

Retratos I – Judeus na Primeira Pessoa:

Jacques Derrida, 1997


Bon, alors on commence par l’affectif : j’étais un enfant, un petit élève très malheureux, c’est-à-dire que je souffrais beaucoup à l’école… Il faut dire que c’était en Algérie. Je suis entré en maternelle en 34-35 et très vite, c’était la guerre. Une école où les problèmes raciaux étaient déjà très sensibles : il y avait beaucoup de brutalités entre les élèves déjà, des bagarres entre les petits arabes et les petits français… donc une expérience de violence. Je me sentais enfant très exposé qui avait plutôt envie de rentrer chez lui et se protéger contre un univers qui paraissait extrêmement violent. J’étais à l’école primaire ce qu’on appelle un très bon élève, avec un rapport très apeuré devant la machine et dans le milieu des élèves que je sentais comme extrêmement violents. Et très vite, ça s’associe en moi, dans ma mémoire, à la guerre. Le régime vichyste était très marqué en Algérie ; il n’y avait pas d’allemands mais le pétainisme était très pesant, très sensible. Le souvenir des lettres qu’on devait envoyer au maréchal Pétain, et l’antisémitisme… Je suis juif. Et la violence prenait la forme non seulement des bagarres entre élèves, des propos antisémites, mais aussi de ceci : le pétainisme partout, les photos du maréchal partout… Une anecdote est restée gravée dans mon esprit : j’étais le premier de la classe. Cela accordait quelques privilèges. Tous les matins, il y avait une levée du drapeau avec le Maréchal, nous voilà ! Et je me suis aperçu un jour que, bien que premier, parce que juif, on ne me faisait pas lever le drapeau ! Alors que c’était les premiers de la classe qui devaient hisser le drapeau. Et d’un coup, je comprends… sans comprendre ! pourquoi on ne me laissait pas lever le drapeau… Donc bon élève… mais écriture impossible. J’avais une graphie illisible, et qui l’est restée depuis, toujours. Et déjà à ce moment-là, il y avait cette image que je sentais que je donnais de moi à ces bons maîtres : garçon doué mais dont l’écriture est impossible. J’avais un instituteur qui était déjà un ancien prisonnier de guerre libéré, ce devait donc être en 40, et qui était en même temps le chef des scouts de la petite ville de banlieue d’Alger où j’habitais. J’étais louveteau ; il pratiquait le scoutisme dans la classe et la classe était divisée en trois équipes : les hirondelles, les fourmis et les abeilles, et ça, c’était des équipes de scouts ! Avec des compétitions, les notes, dans cette atmosphère, cette idéologie pétainiste, ces équipes structuraient la classe ! Et moi j’étais, en tant que bon élève, le chef des abeilles. Et j’ai très mal supporté, pour les mêmes raisons de difficultés à me socialiser, mon expérience scoute. Je suis resté six mois scout et j’ai été très malheureux ; j’ai donc abandonné. Cet univers me paraissait très oppressif et j’y sentais l’idéologie pétainiste, l’antisémitisme. Je me souviens, pour en revenir à mon écriture, que ce même instituteur, pendant les récréations, me disait : ” Toi, tu remontes dans la classe me refaire ton exercice “, qui était trop mal écrit.

Conversation avec Jacques Derrida, Bernard Defrance