Relativismo moral e “A Mighty Heart”

Um artigo de Judea Pearl *


Angelina Jolie e Dan Futterman nos papéis de Marianne e Daniel Pearl

Acreditei em tempos que o mundo estava basicamente dividido entre dois tipos de pessoas: aqueles que eram de um modo geral tolerantes e os que se sentiam ameaçados pela diferença. Se as forças da tolerância conseguissem vencer as forças da intolerância, pensava eu, o mundo poderia finalmente conhecer alguma paz.
Mas havia um problema com a minha teoria, e nunca tal fora tão claro como numa conversa com um amigo paquistanês que me disse que abominava pessoas como o Presidente Bush, que insistia em dividir o mundo entre “nós” e “eles”. O meu amigo, é claro, tomava uma posição inocente contra a intolerância e não percebeu que, ao fazê-lo, ele próprio estava também a dividir o mundo entre “nós” e “eles”, caindo exactamente no campo das pessoas que dizia abominar.
Esta é a versão política de um famoso paradoxo formulado por Bertrand Russell em 1901, que na época abanou os alicerces lógicos das matemáticas. Qualquer pessoa que diz ser tolerante naturalmente se define a si própria em oposição àqueles que são intolerantes. Mas isso faz com que essa mesma pessoa seja intolerante em relação a certas pessoas – o que acaba por invalidar a afirmação de tolerância.
A lição política do paradoxo de Russell é que não existe tolerância absoluta. No fim de contas, é necessário poder ser intolerante em relação a certos grupos ou ideologias sem renunciar à superioridade moral normalmente ligada à tolerância e à inclusão. Deve-se, na verdade, condenar e resistir a doutrinas políticas que advogam o assassínio de inocentes, que minam as normas básicas da civilização, ou que tentam tornar impossível o pluralismo. Não pode haver equivalência moral entre aqueles que procuram – mesmo por vezes desajeitadamente – construir um mundo mais livre e tolerante, e aqueles que defendem a aniquilação de outras religiões, culturas ou estados.
Tudo isto vem a propósito do meu filho, Daniel Pearl. Graças à estreia do filme A Mighty Heart, o filme baseado no livro homónimo de Mariane Pearl, o legado de Danny está novamente a merecer atenção. É claro, nenhum filme poderia captar exactamente o que fazia de Danny uma pessoa especial – o seu sentido de humor, a sua integridade, o seu amor pela humanidade – ou por que razão ele era admirado por tantos. Para os jornalistas, Danny representa a coragem e a nobreza inerentes à sua profissão. Para os americanos, Danny é o símbolo de um dos melhores instintos nacionais: o desejo de estender uma mão de amizade e diálogo a gentes de terras distantes. E para quem tenha orgulho nas suas origens e na sua fé, as últimas palavras de Danny, “eu sou judeu”, mostraram que é possível encontrar dignidade na nossa identidade, mesmo nos momentos mais negros. Traços destas ideias são certamente evidentes em A Mighty Heart, e espero que os espectadores saiam dos cinemas sentindo-se inspirados por elas.
Ao mesmo tempo, preocupa-me que A Mighty Heart possa cair numa armadilha que Bertrand Russell teria reconhecido: o paradoxo da equivalência moral, da tentativa de esticar demasiado a lógica da tolerância. Podem ver-se traços desta lógica nas comparações feitas pelo filme entre o rapto de Danny e Guantánamo – o filme abre com imagens da prisão – e com as suas comparações entre os terroristas da al-Qaeda e os agentes da CIA. Podem ainda ler-se nos comentários do realizador do filme, Michael Winterbottom, que escreveu no site do Washington Post que A Mighty Heart e o seu filme anterior Road To Guantanamo eram “muito semelhantes. Ambos contam histórias de pessoas vítimas de um crescendo de violência de ambos os lados. Há extremistas em ambos os lados que pretendem aumentar o clima de violência e centenas de milhares de pessoas morreram por causa disso.”
Estabelecer comparações entre o assassínio de Danny e os suspeitos detidos em Guantánamo é precisamente o que os assassinos queriam, tal como o expressaram nos seus emails e no vídeo do assassínio. Obviamente, Winterbottom não quis fazer eco destes sentimentos, nem certamente justificar as suas exigências nem os seus actos. Mesmo assim, preocupa-me que aspectos deste filme possam fazer o jogo dos profissionais da ofuscação da clareza moral.
Na verdade, após um visionamento antecipado de A Mighty Heart, um representante do Council on American-Islamic Relations alegadamente afirmou: “Precisamos acabar com a cultura das bombas, da tortura, da ocupação e da violência. Esta é a mensagem que sobressai do filme.”
A mensagem passada a jovens inflamados é infeliz: Todas as formas de violência são más; então, enquanto uma persistir, as outras não podem ser postas de parte. Esta é precisamente a lógica utilizada por Mohammed Siddiqui Khan, um dos bombistas suicidas de Londres, na sua mensagem transmitida pela Al Jazeera. “O vosso governo democraticamente eleito”, disse ele aos seus compatriotas, “continua a perpetrar atrocidades contra o meu povo… nós não vamos parar.”
A tragédia de Danny exige um fim para esta lógica. Não pode haver comparações entre aqueles que têm orgulho em matar um jornalista desarmado e aqueles que fazem votos de acabar com actos semelhantes – sem apelo nem agravo. O relativismo moral morreu com Daniel Pearl, em Carachi, a 31 de Janeiro de 2002.
Tempos houve em que traçar simetrias morais entre dois lados de qualquer conflito era a marca d’água do pensamento original. Hoje, com os intelectuais ocidentais a traçarem equivalências de forma absurda e negligente, reflecte apenas um preguiçoso conformismo. O que é necessário agora aos intelectuais, realizadores de cinema e a todos nós é resistir a esta perigosa moda e traçar distinções legítimas sempre que essas distinções se justifiquem.
O meu filho Danny teve a coragem de examinar todos os lados. Ele era também um ouvinte atento e um campeão do diálogo. Mas ele tinha também princípios e linhas que não ultrapassava. Ele foi tolerante mas não o foi de forma irresponsável. Espero que os espectadores se lembrem disto quando forem ao cinema ver A Mighty Heart.


Marianne e Daniel Pearl na vida real

* Judea Pearl, matemático e professor universitário, é pai de Daniel Pearl, o jornalista do Wall Street Journal assassinado brutalmente pela al-Qaeda no Paquistão, em Janeiro de 2002. Este artigo foi publicado na edição impressa desta semana da revista The New Republic.
O filme, que está em fase de lançamento nos Estados Unidos, estreará em Portugal em meados de Setembro próximo.

Este Holocausto será diferente

um ensaio de Benny Morris

O segundo holocausto não será como o primeiro.
Os nazis industrializaram o massacre, claro. Mas, mesmo assim, eram obrigados a ter contacto com as vítimas. Antes de as matarem de forma efectiva, podem tê-las desumanizado nas suas mentes ao longo de meses e anos com recurso a humilhações terríveis, mas, mesmo assim, tinham com as suas vítimas um contacto visual e auditivo, e alguns mesmo táctil.
Os alemães, e os seus ajudantes não germânicos, tiveram de tirar de suas casas homens, mulheres e crianças; tiveram de os arrastar e de lhes bater pelas ruas e de os ceifar em bosques circundantes, ou empurrá-los para vagões de gado que comboios transportariam para campos, onde “o trabalho liberta”, separando os sãos dos completamente inúteis que colocavam sob “chuveiros”, matavam com gás e depois retiravam os corpos para a carrada que se seguia.
O segundo holocausto será bastante diferente. Numa radiante manhã, daqui a cinco ou dez anos, talvez durante uma crise regional, talvez sem qualquer motivo aparente, um dia ou um ano ou cinco anos após o Irão ter obtido a Bomba, os Mullahs de Qom reunirão numa sessão secreta, sob um retrato do Ayatollah Khomeini com olhar severo, e darão a luz verde ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, então no seu segundo ou terceiro mandato.
As ordens serão dadas e mísseis Shihab III e IV serão lançados contra Tel Aviv, Bersheva, Haifa e Jerusalém e provavelmente contra alvos militares, incluindo meia dúzia de bases aéreas israelitas e (alegadas) bases de mísseis nucleares. Alguns dos Shihab terão ogivas nucleares. Outros serão meros engodos, carregados com agentes químicos e biológicos, ou simplesmente com jornais velhos, destinados a confundir as bateiras antimísseis israelitas.
Para um país com o tamanho e a forma de Israel (20 mil quilómetros quadrados alongados), provavelmente quatro ou cinco ataques serão suficientes. Adeus Israel. Um milhão ou mais de israelitas nas áreas metropolitanas de Jerusalém, Tel Aviv e Haifa morrerá imediatamente. Milhões sofrerão os graves efeitos da radiação. Israel tem cerca de sete milhões de habitantes. Nenhum iraniano irá ver ou tocar um único israelita. Tudo será bastante impessoal.
Alguns dos mortos inevitavelmente serão árabes – cerca de 1,3 milhões dos cidadãos de Israel são árabes e outros 3,5 milhões vive no território semi-ocupado da Cisjordânia [Judeia e Samaria] e na Faixa de Gaza. Jerusalém, Tel Aviv-Jaffa e Haifa possuem igualmente minorias árabes substanciais. Existem igualmente grandes concentrações de populações árabes em torno de Jerusalém (em Ramallah-Al Bireh, Bir Zeit, Bethlehem) e nos arredores de Haifa.
Aqui também, muitos morrerão, imediatamente ou aos poucos.
É duvidoso que um tão grande massacre de muçulmanos perturbe Ahmadinejad e os Mullahs. Os iranianos não gostam particularmente de árabes, especialmente de árabes sunitas, com quem têm guerreado intermitentemente desde há séculos. E eles têm um desprezo particular para com os (sunitas) palestinianos que, apesar de tudo, mesmo sendo inicialmente em número dez vezes mais do que os judeus, não conseguiram impedir durante o longo conflito que eles criassem o seu próprio estado ou controlassem toda a Palestina.
Além de tudo isso, a liderança iraniana encara a destruição de Israel como um supremo mandamento divino, tal como um sinal da segunda vinda, e as muitas vítimas colaterais muçulmanas serão sempre encaradas como mártires na nobre causa. De qualquer forma, os palestinianos, muitos deles dispersos por todo o mundo, sobreviverão enquanto povo, tal como o fará a grande Nação Árabe da qual fazem parte. E, com toda a certeza, para se livrarem do Estado judaico, os árabes estarão dispostos a fazer alguns sacrifícios. No saldo cósmico das coisas, valerá a pena.

UMA QUESTÃO pode mesmo assim levantar-se nos concílios iranianos: E Jerusalém? Afinal, a cidade alberga os terceiros mais sagrados lugares de culto do islamismo (depois de Meca e Medina): a mesquita de Al Aksa e a Mesquita de Omar. Mas Ali Khamenei, o líder espiritual supremo, e Ahmadinejad muito provavelmente responderiam da mesma forma que o fariam em relação à questão mais lata de destruir e poluir de forma radioactiva a Palestina inteira. A cidade, tal como a terra, pela graça de Deus, em 20 ou 30 anos irá recuperar. E será restaurada para o Islão (e para os árabes). E a outra poluição mais profunda terá sido erradicada.
A julgar pelas referências contínuas de Ahmadinejad à Palestina e à necessidade de destruir Israel, e à sua negação do primeiro Holocausto, ele é um homem obcecado. E partilha a obsessão com os Mullahs: todos eles criados sob os ensinamentos de Khomeini, um prolífico antisemita que frequentemente proferia sentenças contra “o pequeno satã”. A julgar pelo facto de Ahmadinejad ter organizado um concurso de cartoons sobre o Holocausto e uma conferência para negar o Holocausto, os ódios do presidente iraniano são profundos (e, claro, descarados).
Ele está disposto a pôr em jogo o futuro do Irão, ou mesmo o do Médio Oriente inteiro, em troca da destruição de Israel. Sem dúvida que ele acredita que Allah irá proteger o Irão, de alguma forma, de uma resposta nuclear israelita ou de uma contra-ofensiva americana. Mas, Allah à parte, ele pode muito bem acreditar que os seus mísseis pulverizarão o estado Judaico, destruindo a sua liderança e as suas bases nucleares terrestres, desmoralizando e confundindo de tal forma os comandantes dos seus submarinos nucleares que estes serão incapazes de responder. E, com o seu profundo desprezo pela indecisão frouxa do Ocidente, não levará a sério a ameaça de uma retaliação nuclear americana. Ou poderá muito bem achar, de uma forma irracional (para nós), que uma contra-ofensiva é um preço que está disposto a pagar. Tal como o seu mentor, Khomeini, disse num discurso em Qom em 1980: “Nós não adoramos o Irão, adoramos Allah… que esta terra [Irão] arda. Que esta terra desapareça em fumo desde que o Islão saia triunfante…”
Para estes adoradores do culto da morte, mesmo o sacrifício literal da pátria é aceitável se dai sair o fim de Israel.

O VICE-MINISTRO israelita da Defesa, Ephraim Sneh, sugeriu que o Irão nem sequer tem de utilizar a Bomba para destruir Israel. A simples nuclearização do Irão poderá intimidar e deprimir os israelitas de tal maneira que eles perderão a esperança, emigrando gradualmente; com investidores e imigrantes a evitarem o estado Judaico ameaçado de destruição. Conjugados, estes factores contribuiriam para o fim de Israel.
Mas sinto que Ahmadinejad e os seus aliados não têm a paciência necessária para esperar pelo lento desenrolar desta hipótese; eles procuram a aniquilação de Israel aqui e agora, no futuro imediato, durante as suas vidas. Eles não querem deixar nada à mercê dos vagos ventos da História.
Tal como durante o primeiro, o segundo holocausto será precedido por décadas de preparação de corações e mentes, tanto pelos líderes iranianos e árabes, como por intelectuais e órgãos de comunicação social ocidentais. Diferentes mensagens foram dirigidas a diferentes audiências, mas todas (de forma concreta) têm servido o mesmo objectivo – a demonização de Israel. Muçulmanos em todo o mundo têm sido ensinados que “os sionistas/judeus são a personificação do mal” e que “Israel tem de ser destruído.”
De forma mais subtil, o mundo ocidental foi ensinado que “Israel é um estado opressor racista” e que “Israel, nesta época de multiculturalismo, é um anacronismo supérfluo”. Gerações de muçulmanos, e pelo menos uma geração no Ocidente, têm sido criados com estes catecismos.

O CRESCENDO para o segundo Holocausto (que, curiosamente, irá provavelmente ter sensivelmente o mesmo número de vítimas que o primeiro) tem sido acompanhado por uma comunidade internacional fragmentada e conduzida pelos seus próprios apetites egoístas – a Rússia e a China obcecadas com os mercados muçulmanos; a França com o petróleo árabe; e os Estados Unidos, empurrados a um isolacionismo mais profundo pelo descalabro no Iraque. O Irão tem tido liberdade para prosseguir os seus sonhos nucleares, e Israel e o Irão foram deixados sós para se enfrentarem.
Mas Israel, basicamente isolada, não estará à altura da tarefa, tal como um coelho encadeado pelos faróis de um carro que corre contra ele. No Verão passado, liderado por um primeiro-ministro incompetente e por um sindicalista a fingir de ministro da Defesa, utilizando tropas treinadas para dominar gangues de palestiniano mal armados e pior treinados e demasiado preocupados em não sofrer ou infligir baixas, Israel falhou numa mini-guerra de 34 dias contra um pequeno exército de guerrilha financiado pelos iranianos (ainda que bem treinado e bem armado). Essa mini-guerra desmoralizou totalmente as lideranças política e militar de Israel.
Desde então, ministros e generais, tal como os seus homólogos ocidentais, limitam-se a observar taciturnamente à medida que os patronos do Hizbullah constróem os arsenais do Apocalipse. De forma perversa, os líderes israelitas podem até ter ficado satisfeitos com as pressões ocidentais a apelar à contenção. Muito provavelmente, eles querem acreditar de forma profunda nas garantias ocidentais de que alguém – a ONU, o G-8 – irá tirar do lume a batata quente radioactiva. Há mesmo quem tivesse acreditado na bizarra ideia de que uma mudança de regime em Teerão, conduzida por uma classe-média laica, acabaria por parar os loucos Mullahs.
Mas de forma ainda mais concreta, o programa iraniano apresentava um complexo desafio para um país com um número limitado de recursos militares tradicionais. Aprendendo com a experiência do sucesso da destruição pela Força Aérea israelita do reactor nuclear iraquiano de Osirak em 1981, os iranianos duplicaram e dispersaram as suas instalações, enterrando-as em bunkers profundos. Para atacar as instalações nucleares iranianas com armas convencionais seria necessário uma força aérea do tamanho da americana, trabalhando 24 horas por dia durante mais de um mês.
Na melhor das hipóteses, a força aérea israelita, os comandos e a marinha, podiam almejar a atingir apenas um dos componentes do projecto iraniano. Mas, no fim de contas, ele continuaria substancialmente intacto – e os iranianos ainda mais determinados (se tal for possível) a alcançar a Bomba o quanto antes. Ao mesmo tempo, sem qualquer dúvida, seria gerada também uma campanha mundial de terrorismo islâmico contra Israel (e possivelmente contra os seus aliados ocidentais) e, claro, uma campanha quase universal de vilipêndio. Orquestrados por Ahmadinejad, todos clamariam que o programa nuclear iraniano se destinava a propósitos pacíficos. Na melhor das hipóteses, um ataque convencional de Israel poderia apenas atrasar os iranianos em cerca de dois anos.

IMEDIATAMENTE, a liderança incompetente de Jerusalém enfrentaria um cenário catastrófico, quer fosse depois do lançamento de uma ofensiva convencional ou, em vez dela, lançando um ataque nuclear preemptivo e antecipado contra o programa nuclear iraniano, que tem algumas das suas instalações em torno de grandes cidades. Teriam eles estômago para isso? Estaria a sua determinação em salvar Israel alargada à eventualidade de matar milhões de iranianos e, na verdade, destruir o Irão? Este dilema foi há muito definido de forma certeira por um sábio general: o arsenal nuclear de Israel é inutilizável. Apenas pode ser usado demasiado cedo ou demasiado tarde. Nunca haverá uma altura “certa”. Usado “cedo demais”, quer dizer antes do Irão adquirir armas nucleares similares, Israel será investida no papel de pária internacional, alvo de um ataque muçulmano universal, sem um amigo no mundo; “tarde demais” quererá dizer que os iranianos já atacaram. Que vantagem tem?
Então os líderes israelitas cerrarão os dentes na esperança de que tudo corra pelo melhor. Talvez, depois de terem a Bomba, os iranianos se portem de forma “racional”?

MAS OS IRANIANOS são motivados por uma lógica mais elevada. E lançarão os seus mísseis. E, tal como no primeiro Holocausto, a comunidade internacional nada fará. Tudo acabará, para Israel, em poucos minutos – não como na década de 1940, quando o mundo teve cinco longos anos para cruzar os braços e nada fazer. Depois dos Shihabs caírem, o mundo enviará navios de salvamento e ajuda médica para os levemente carbonizados. Não atacará o Irão com armas nucleares. Com que objectivo e com que custos? Uma resposta nuclear americana alienaria de forma permanente o mundo muçulmano, aprofundando e universalizando o actual choque de civilizações. E, claro, não traria Israel de volta. (Enforcar um criminoso devolve à vida as suas vítimas?)

Então qual seria o propósito?
Ainda assim, o segundo holocausto será diferente no sentido em que Ahmadinejad não verá nem tocará aqueles que deseja ver mortos. Na verdade não haverá cenas como a seguinte, citada no recente livro de Daniel Mendelsohn, The Lost, A Search for Six of Six Million, na qual é descrita a segunda acção nazi em Bolechow, na Polónia, em 1942:

Um episódio terrível aconteceu com a senhora Grynberg. Os ucranianos e os alemães irromperam pela sua casa e encontraram-na prestes a dar à luz. As lágrimas e as súplicas dos familiares não ajudaram e ela foi levada de casa em camisa de noite e arrastada para a praça em frente da Câmara Municipal.
Ali ela foi arrastada para um contentor de lixo no pátio da Câmara, onde a multidão de ucranianos presentes dizia piadas e ria das suas dores de parto, até que ela deu à luz. A criança foi imediatamente arrancada dos seus braços, ainda com o cordão umbilical, e atirada ao ar – foi espezinhada pela multidão e ela ficou de pé à medida que sangue escorria do seu corpo, com pedaços pendurados a sangrar, e permaneceu desta forma algumas horas encostada à parede da Câmara Municipal. Depois foi com todos os outros para a estação de caminho de ferro de onde foi levada de comboio para Belzec.

No próximo holocausto não haverá cenas destas de cortar o coração, de criminosos e vítimas ensopados em sangue.
Mas será na mesma um holocausto.

Benny Morris é professor de História do Médio Oriente na Universidade Ben-Gurion e um dos mais marcantes representantes da esquerda académica israelita. Este ensaio foi publicado em Janeiro de 2007 no Jerusalem Post.

Aborto: uma perspectiva judaica

Exactamente com este título, publiquei aqui há quase três anos um texto do rabino Abraão Assor Z’L, líder espiritual da comunidade judaica de Lisboa entre 1941 a 1993. Na altura, as posições defendidas no texto foram bastante comentadas na blogosfera, especialmente pelo facto de, pela sua abertura, elas constituírem um dado completamente inesperado no campo religioso.

A poucos dias do referendo em Portugal, vale a pena reler esta contribuição para o debate público do tema:

Aborto: Uma Perspectiva Judaica

Judeus votam à esquerda nas eleições americanas

“Os judeus norte-americanos votaram de forma esmagadora no Partido Democrata. Os democratas alcançaram 87% do voto judaico, contra apenas 10% para os republicanos, segundo revelam os resultados de uma sondagem à boca das urnas realizada pela Edison Media Research para a CNN.
Em contraste, 55% da totalidade do eleitorado americano votou no Partido Democrata e 44% nos candidatos republicanos. De entre todos os grupos religiosos, os judeus foram aqueles que percentualmente mais votaram no Partido Democrata.”

Fontes: Jewish Telegraphic Agency e CNN.com – Elections 2006 Exit Polls

O mundo permanece em silêncio II

Os refugiados


Shaar Aliyah, 1950. Campo de refugiados judeus Rosh Hay’n, Haifa. Foto de Robert Capa

Na primeira parte desta série de artigos publicados no Ma’ariv, Ben Dror Yemini analisou a ausência de reacção mundial face aos massacres de árabes e muçulmanos, geralmente perpetrados por árabes e muçulmanos. O silêncio do mundo tem um significado especial devido à intensa exposição mediática e académica do conflito entre Israel e os palestinianos, com milhares de publicações a acusarem Israel de cometer um “genocídio” que não existe. Na verdade, tal como foi amplamente demonstrado, o conflito israelo-palestiniano provocou um número de vítimas mínimo quando comparado com conflitos similares no resto do mundo.
Neste capítulo, Ben Dror Yemini analisa o problema dos refugiados de uma forma global, com destaque especial para a relação de dualidade da ONU e da comunidade internacional para com o problema dos refugiados em geral, e dos refugiados palestinianos em particular. O original em hebraico pode ser lido aqui: והעולם משקר

um artigo de Ben Dror Yemini

Começo com uma história que, à partida, parece bastante familiar. Num certo Estado, que em tempos pertencera ao Império Otomano, havia uma vasta minoria muçulmana. A maioria não muçulmana e a minoria muçulmana não morrem de amores uma pela outra. A minoria e a maioria têm uma história triste entre si, repleta de actos de hostilidade mútua. Numa certa etapa do conflito entre os dois grupos, a maioria forçou uma parte considerável da minoria muçulmana a abandonar este Estado, e a emigrar para um país onde a minoria faz parte da maioria, em termos religiosos, étnicos e nacionais.

Continue reading “O mundo permanece em silêncio II”

O mundo permanece em silêncio

Este extenso artigo foi publicado na edição de sexta-feira passada (22/09/2006) do diário israelita Ma’ariv. O seu autor, Ben Dror Yemini, um comentador de centro-esquerda, é editor das páginas de opinião do jornal. O artigo original em hebraico pode ser lido aqui: והעולם שותק. Optei por traduzir o texto e publicá-lo aqui porque Dror Yemini levanta várias questões pertinentes e apresenta factos que merecem uma reflexão aprofundada. Para ler atentamente.


Foto de Enric Marti, Associated Press. 2 de Fevereiro de 2004

um artigo de Ben Dror Yemini

Facto número 1: Desde o estabelecimento do Estado de Israel, um genocídio cruel é perpetrado contra muçulmanos e árabes. Facto número 2: O conflito no Médio Oriente entre israelitas e árabes no seu todo, e contra os palestinianos em particular, é considerado o conflito central do mundo actual. Facto número 3: Segundo sondagens levadas a cabo na União Europeia, Israel é considerada “a maior ameaça à paz mundial”. Na Holanda, por exemplo, 74% da população defende este ponto de vista. Não o Irão. Não a Coreia do Norte. Israel.
A ligação entre estes factos criou a maior fraude dos nossos tempos: Israel é encarado como o país responsável por todas as calamidades, desgraças e sofrimentos. Representa um perigo à paz mundial, e não apenas para o mundo árabe ou islâmico.

Como funciona a fraude

O dedo é habilmente apontado. É difícil culpabilizar Israel pelo genocídio no Sudão ou pela guerra civil na Argélia. Como é que isto é feito?

Continue reading “O mundo permanece em silêncio”

“Torres irão desmoronar… e cair nesse dia”


“E queimará torres (…) torres irão desmoronar… e cair nesse dia.”


“(…) Qual é o seu nome? B’ladan é o seu nome, e ele não é um ser humano (…)”

ספר הזוהר, Sefer Ha’Zohar (O Livro do Esplendor), Rabino Shimon Bar Yohai, Jerusalém, século II E.C. (volumes I e XV, Parshat Shemot)

Neighborhood Bully

Bob Dylan Neighborhood Bully

Escrita por Bob Dylan pouco depois do bombardeamento do reactor nuclear iraquiano de Osirak, em 1981, Neighborhood Bully é um manifesto irónico no qual a guerra das últimas semanas instila uma actualidade incontornável. Vale a pena ouvir Bob Dylan, o sionista. Com atenção.

::PARA OUVIR::
Bob Dylan Neighborhood Bully

Neighborhood Bully
Bob Dylan

Well, the neighborhood bully, he’s just one man,
His enemies say he’s on their land.
They got him outnumbered about a million to one,
He got no place to escape to, no place to run.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully just lives to survive,
He’s criticized and condemned for being alive.
He’s not supposed to fight back, he’s supposed to have thick skin,
He’s supposed to lay down and die when his door is kicked in.
He’s the neighborhood bully.

The neighborhood bully been driven out of every land,
He’s wandered the earth an exiled man.
Seen his family scattered, his people hounded and torn,
He’s always on trial for just being born.
He’s the neighborhood bully.

Well, he knocked out a lynch mob, he was criticized,
Old women condemned him, said he should apologize.
Then he destroyed a bomb factory, nobody was glad.
The bombs were meant for him.
He was supposed to feel bad.
He’s the neighborhood bully.

Well, the chances are against it and the odds are slim
That he’ll live by the rules that the world makes for him,
‘Cause there’s a noose at his neck and a gun at his back
And a license to kill him is given out to every maniac.
He’s the neighborhood bully.

He got no allies to really speak of.
What he gets he must pay for, he don’t get it out of love.
He buys obsolete weapons and he won’t be denied
But no one sends flesh and blood to fight by his side.
He’s the neighborhood bully.

Well, he’s surrounded by pacifists who all want peace,
They pray for it nightly that the bloodshed must cease.
Now, they wouldn’t hurt a fly.
To hurt one they would weep.
They lay and they wait for this bully to fall asleep.
He’s the neighborhood bully.

Every empire that’s enslaved him is gone,
Egypt and Rome, even the great Babylon.
He’s made a garden of paradise in the desert sand,
In bed with nobody, under no one’s command.
He’s the neighborhood bully.

Now his holiest books have been trampled upon,
No contract he signed was worth what it was written on.
He took the crumbs of the world and he turned it into wealth,
Took sickness and disease and he turned it into health.
He’s the neighborhood bully.

What’s anybody indebted to him for?
Nothin’, they say.
He just likes to cause war.
Pride and prejudice and superstition indeed,
They wait for this bully like a dog waits to feed.
He’s the neighborhood bully.

What has he done to wear so many scars?
Does he change the course of rivers?
Does he pollute the moon and stars?
Neighborhood bully, standing on the hill,
Running out the clock, time standing still,
Neighborhood bully.

In Bob Dylan: Infidels, 1983

A guerra VIII

Uri Grossman

Um dos 25 soldados israelitas mortos ontem em combate no sul do Líbano – naquela que poderá muito bem ter sido a última batalha desta guerra – chamava-se Uri Grossman. Era filho de David Grossman, um dos mais notáveis escritores israelitas.
Na quinta-feira passada, ladeado pelos escritores Amos Oz e A.B. Yehoshua , David Grossman apelara ao fim da guerra. Antes, os três tinham defendido a ofensiva militar israelita, argumentando que esta se tratava de um acto legítimo de autodefesa, mas agora apelavam a que o governo de Jerusalém aceitasse a proposta de cessar-fogo avançada pelo primeiro-ministro libanês Fuad Saniora (que acabaria por estar na origem da resolução aprovada posteriormente pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas). “Esta solução é a vitória que Israel pretendia”, afirmou Grossman, reiterando que o intensificar dos ataques acabaria por provocar o colapso do governo de Fuad Saniora levando, ao mesmo tempo, a um fortalecimento dos terroristas do Hezbollah.
No domingo, Grossman recebeu um telefonema que o informava da morte do filho. Uri Grossman tinha 20 anos. Acabava o serviço militar em Novembro e planeava a seguir viajar pelo mundo antes de entrar na universidade para estudar teatro.
O filho de David Grossman tinha o mesmo nome que o personagem principal do seu romance O Sorriso do Cordeiro (חיוך הגדי), escrito em 1983: Uri. No livro Uri é um jovem e idealista soldado israelita, a cumprir o serviço militar na pequena aldeia palestiniana de Andal, nos territórios ocupados, que trava amizade com Khilmi, um velho palestiniano contador de histórias.

::PARA OUVIR:: Uma excelente entrevista a David Grossman conduzida por Carlos Vaz Marques para o programa Pessoal e Transmissível, da TSF (em três partes): Parte I / Parte II / Parte III

::PARA LER:: Ynet בנו של הסופר דויד גרוסמן נהרג בלבנון – חדשות / David Grossman (bio-biblio) / Books & Writers – David Grossman (bio) / PBS – NOW. Bill Moyers Interviews David Grossman / Fora do Mundo: O ÚNICO SÍTIO DA TERRA, Pedro Mexia / Guardian Where death is a way of life, David Grossman / Israel Culture & Arts.

A guerra VII

Outras Guerras


Grozny, na Chechnya, cidade virtualmente arrasada pelos bombardeamentos russos

Desde o colapso do processo de paz de Oslo e do desencadear da intifada de Al-Aqsa, em Setembro de 2000 que o conflito israelo-palestiniano tem gerado opiniões gradualmente mais hostis em relação a Israel. Muitas das criticas centram-se no facto de Israel ser um país desenvolvido, relativamente forte, que usa o seu poderio militar para manter uma ocupação sobre um largo segmento da população palestiniana, politicamente e economicamente desfavorecida. À medida que a violência se torna cada vez mais brutal de ambos os lados, com as assimetrias entre israelitas e palestinianos, registou-se uma degradação gradual tanto do apoio a Israel na Europa como da própria imagem de Israel no mundo.
Sob este prisma, as críticas a Israel são moralmente justificáveis, perfeitamente aceitáveis e legítimas. No entanto, há sérias razões para duvidar que a oposição a Israel se deva exclusivamente às políticas do seu governo face aos palestinianos. A atenção que se volta sobre Israel contrasta de forma gritante com a indiferença passada e presente face a atrocidades cometidas por outros países. A oposição da opinião pública europeia face a Israel deve ser contrastada com o seu silêncio perante continuadas violações dos direitos humanos numa escala significativamente mais elevada praticados, por exemplo, pelas campanhas militares de Slobodan Milosevic no Kosovo e antes na Bósnia. O massacre de mais de seis mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, apesar de ter chocado alguns, não motivou manifestações de massas nem levou à “demonização” da Sérvia nem apelos ao boicote de universidades sérvias. Milosevic sentou-se no banco dos réus em Haia, acusado de crimes de guerra, ao mesmo tempo que a opinião pública europeia, e especialmente a esquerda, permaneceu maioritariamente indiferente.
Outro exemplo pode ser encontrado no brutal esmagamento da revolta dos separatistas muçulmanos na Chechnya por parte da Rússia, que apenas ocasionalmente tem sido mencionada por grupos de defesa dos Direitos Humanos. A Imprensa europeia dedica um espaço mínimo à Chechnya e a opinião pública dá também mostras de pouco interesse.
Tanto no caso dos Balcãs como no da Chechnya, o nível da violência e as graves violações dos Direitos Humanos têm sido muito maiores do que aquelas geradas pelo conflito israelo-palestiniano. Mas há mais exemplos.
Entre 1999 e 2005 a guerra na Chechnya provocou a morte de 250 mil civis e 50 mil soldados russos. Das vítimas civis, segundo as estimativas de organizações humanitárias, 40% eram crianças. Em Darfur, no Sudão, milícias árabes apoiadas pelo governo, conhecidas como Janjaweed, massacraram mais de 400 mil pessoas em acções de limpeza étnica e genocídio desde Fevereiro de 2003.
Então porquê só Israel e não também a Rússia, a Sérvia, o Sudão ou mesmo a China, a Índia e o Paquistão?

Excerto do meu ensaio Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo, publicado na Rua da Judiaria a 8 de Março de 2004.

::A LER:: Kontratempos: O anti-semitismo depois do anti-semitismo (um excelente texto de Tiago Barbosa Ribeiro) / O Jansenista: O anti-semitismo e a direita / Blasfémias: A Permanente Encenação / Água Lisa: As Costas LArgas do Anti-Sionismo (João Tunes)

A guerra VI

As Causas

um post de Luís Januário


(…) A selvajaria do ataque, a barbaridade do morticínio, não invalidam que na Segunda Guerra Mundial, os valores da democracia, da liberdade de expressão, do convívio entre povos e nações, da igualdade das raças e etnias, estivesse do lado dos britânicos. Condenamos os crimes cometidos pelos Aliados mas saudamos a sua vitória. Ora o que alguma esquerda faz é acumular os relatos parciais da guerra do Líbano para não discutir a natureza da guerra, as suas causas e objectivos. Israel é o agressor. Um bombardeamento é um bombardeamento. A razão está sempre do lado dos bombardeados, mesmo que seja uma rampa de lançamentos de mísseis, um campo de treino de suicidas, uma estação de espionagem. Identificado o agressor, o resto vem por si. A opinião pública europeia, sensível às causas, exigirá a paz, o desarmamento, a reposição do estado anterior à guerra.”

Para ler na íntegra: A Natureza do Mal: Isabel do Carmo e a guerra

A guerra V

Crimes de Guerra

artigo de Mounir Herzallah, médico libanês emigrado na Alemanha


Até 2002 vivi numa pequena cidade no sul do Líbano, perto de Mardshajun, cujos habitantes eram na maioria xiitas, tal como eu. Depois de Israel ter abandonado o Líbano, não demorou muito para que o Hezbollah controlasse a nossa cidade, tal como todas as outras. Recebidos como lutadores vitoriosos da resistência, apareceram armados até aos dentes e, também na nossa cidade, escavaram bunkers para armazenar os seus arsenais de mísseis. A “obra social” do Hezbollah resumiu-se a construir uma escola e um prédio de habitação sobre esses bunkers! Um sheikh local explicou-me sorrindo que os judeus ficavam a perder de qualquer maneira, porque os mísseis ou seriam disparados contra eles ou, se eles atacassem os arsenais, seriam condenados pela opinião pública mundial por causa dos mortos civis. Esta gente não quer saber da população do Líbano, eles usam-na primeiro como escudos e, depois de mortos, como propaganda. Enquanto eles continuarem a existir, não haverá paz nem tranquilidade.”

Carta publicada na edição de 30 de Julho de 2006 do jornal alemão Der Tagesspiegel

A guerra IV

Israel e a Lei Internacional

artigo de Matthew Omolesky , especialista em Direito Internacional


(…) É decididamente irónico que o Presidente francês Jacques Chirac condene Israel por uma resposta desproporcionada face aos acontecimentos de há menos de dois anos ocorridos na Costa do Marfim. A 5 de Novembro de 2004, helicópteros do governo da Costa do Marfim bombardearam uma aldeia rebelde, matando acidentalmente nove soldados francesas das tropas de manutenção de paz. Aderiu a França ao princípio de Naulilaa [ver The Naulilaa Case ] e efectuou exigências que, sem resposta, resultariam numa resposta proporcional? Não. A França retaliou destruindo por inteiro a Força Aérea da Costa do Marfim, gerando extensos protestos e violência popular nas ruas de Abidjan. Não me recordo neste caso de uma única declaração dos membros da comunidade internacional em relação ao uso desproporcionado da força pelas Forças Armadas franceses, mas as acções de Israel, provocadas por enormidades cometidas por poderosos organismos terroristas não governamentais no seu território, e justificadas pela Regra de Grotius, pela Regra da Caroline, pela Regra de Naulilaa e pela corrente Lei Internacional, é condenada da forma mais áspera. Os comentários recentes feitos por vários governos nacionais e por organizações internacionais em relação à “forma desproporcionada” da resposta militar de Israel representam um exemplo perturbante de falsas invocações da Lei Internacional para apoiar tendências políticas e preconceitos, e devem ser rejeitados como tal.”

A guerra III

Ataques do Hezbollah unificam israelitas

artigo de Amos Oz


No passado, o movimento israelita pela paz tem criticado inúmeras vezes as operações militares de Israel. Desta vez não. Desta vez não se trata de expansão ou colonização israelitas. Não há território libanês ocupado por Israel. Não há disputas territoriais de qualquer dos lados.
O Hezbollah lançou um ataque, malicioso e não provocado, em território Israelita. Foi também um ataque à autoridade e integridade do governo libanês eleito porque, ao atacar Israel, o Hezbollah sequestrou a prerrogativa do governo libanês de controlar o seu território e de tomar decisões de guerra e paz.
O movimento israelita pela paz opõe-se à ocupação e colonização da Cisjordânia. Opôs-se à invasão israelita do Líbano em 1982 porque ela se destinou a distrair o mundo do problema palestiniano. Desta vez, Israel não está a invadir o Líbano. Está a defender-se de tormentos e bombardeamentos diários a dezenas das nossas cidades e vilas, tentando esmagar o Hezbollah onde quer que ele se esconda.
O movimento israelita pela paz deve apoiar a tentativa de autodefesa de Israel, pura e simplesmente, enquanto o alvo desta operação for o Hezbollah e ela poupar, o quanto for possível, a vida de civis libaneses (o que não é uma tarefa fácil, porque os lança mísseis do Hezbollah usam muitas vezes os civis como escudos de protecção).
Não pode haver uma equivalência moral entre o Hezbollah e Israel. Os alvos do Hezbollah são civis israelitas, onde quer que eles se encontrem, enquanto o alvo de Israel é o Hezbollah. Os mísseis do Hezbollah são fornecidos pelo Irão e pela Síria, inimigos jurados de todas as iniciativas de paz para o Médio Oriente.
A verdadeira batalha devastadora destes dias não é entre Beirute e Haifa, mas entre uma coligação de países que procuram a paz – Israel, Líbano, Egipto, Jordânia e até a Arábia Saudita – e um islamismo fanático alimentado pelo Irão e pela Síria.
Se, como todos nós esperamos – “falcões” e “pombas” israelitas da mesma forma – o Hezbollah for derrotado em breve, Israel e o Líbano serão os vencedores. Além do mais, a derrota de uma organização fundamentalista islâmica apostada no terror pode aumentar grandemente as possibilidades de paz para a região.

Amos Oz é um dos escritores israelitas mais reconhecidos internacionalmente e uma das mais influentes vozes do movimento israelita pela paz

A guerra II

Jogar o jogo do Hamas

Editorial do New York Times


Com o círculo de violência no Médio Oriente a expandir-se de forma alarmante, é importante que fique claro não só quem são os responsáveis pela recente erupção, mas quem também tem mais a ganhar com a sua escalada continuada.
Ambas as questões têm a mesma resposta: o Hamas e o Hezbollah. E Israel precisa de ter cuidado para que as suas respostas militares, moral e legalmente justificadas, não acabem por fazer avançar a agenda política que o Hamas e o Hezbollah tinham em mente quando executaram os raptos dos soldados israelitas que detonaram os combates.
A Autoridade Palestiniana, que o Hamas controla, e o governo libanês, no qual o Hezbollah tem uma participação minoritária, falharam de forma inescusável na prevenção destes incidentes. O Irão, que arma e financia o Hezbollah, e a Síria, que dá guarida à ala mais violenta do Hamas, também partilham responsabilidades.
Israel tem profundas justificações para tratar estes dois incidentes como inaceitáveis actos de guerra. Mas precisa adaptar os seus métodos de resposta às situações que agora enfrenta. O objectivo é enfraquecer e isolar o Hamas e o Hezbollah e, ao mesmo tempo, negar-lhes a oportunidade de congregarem um apoio árabe mais amplo.
Com este fim em vista, Israel tem de direccionar os seus objectivos militares aos líderes e aos guerrilheiros destes dois grupos, e fazer mais para minimizar os danos aos civis circunstantes.
A razão é esta: os caciques militares do Hamas e do Hezbollah sabem perfeitamente que as suas milícias primitivamente armadas com mísseis de alcance limitado não se podem comparar com as forças armadas israelitas. Quando desencadeiam acções de provocação, como os recentes raptos de soldados israelitas ou bombardeamento de cidades em Israel, eles não esperam ganhar nenhum tipo de vitória militar tradicional.
O que eles esperam de forma mais realista é que a inevitável devastadora resposta militar israelita lhes dê a oportunidade de radicalizar a política árabe e assim pressionar líderes árabes moderados a distanciarem-se de Israel e a apoiar a causa terrorista. Esta é a táctica que grupos palestinianos seculares como a Fatah iniciaram há décadas, e que grupos fundamentalistas islâmicos como o Hamas e o Hezbollah utilizam agora com os mesmos fins.
Esta dinâmica perversa está outra vez em jogo depois dos ataques de Israel em Gaza e no Líbano. A maioria dos árabes não culpa o Hamas e o Hezbollah por provocar estas respostas israelitas. Culpabilizam Israel por as executar.
Esta reacção não é justa. Mas é desta forma que as coisas funcionam, e os instigadores do Hamas e do Hezbollah e os seus aliados em Damasco e Teerão sabem como usar esta técnica para seu proveito a longo prazo. Os líderes políticos e militares israelitas precisam de perceber isso mesmo e não se deixarem enredar no jogo dos instigadores.”