A Memória e o esquecimento


Se existe um único tema que domina todos os meus escritos, todas as minhas obsessões, é a memória – porque tenho tanto medo do esquecimento quando do ódio ou da morte. Esquecer, para um judeu, é negar o seu povo – e tudo o que ele simboliza – e também negar-se a si próprio. Daí o meu desejo de não esquecer nem de onde venho nem o que influenciou as minhas opções: as paisagens assombradas da minha infância; a terra de maldição onde num instante as crianças se transformavam em velhos; as pessoas que conheci ao longo desse caminho.
Lembrar… lembra-te que foste escravo no Egipto. Lembra-te de santificar o Shabbat… Lembra-te de Amalek, que quis aniquilar-te… nenhum outro mandamento bíblico é mais persistente. O judeus vivem e crescem sob o signo da memória. (…) Ser judeu é lembrar – reclamar o nosso direito à memória bem como o dever de a manter viva.
Através do passado recente encontro-me com as minhas origens distantes, retornando a Moisés e Abraão. É também em seu nome que eu comunico a minha busca. Quando um judeu reza, as suas orações enlaçam-se às de David e do Besht. Quando um judeu desespera, é a tristeza de Jeremias que o faz chorar. A memória dos judeus ganha força na memória do seu povo e, para além dela, da humanidade.
Porque a memória é um bem: cria laços em vez de os destruir. Laços entre o presente e o passado, entre indivíduos e grupos. É por me lembrar do nosso princípio comum que me aproximo dos meus semelhantes, de todos os seres humanos. É por me recusar esquecer que o seu futuro é tão importante quanto o meu. Que seria o futuro da humanidade se fosse desprovido de memória?”

Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz, retirado do prefácio do livro “From the Kingdom of Memory”, Summit Books, New York, 1990.

Quando pedi aos meus leitores que fossem ao Rossio para lembrar simbolicamente as quatro mil vítimas do massacre de 19, 20 e 21 de Abril de 1506, nos dias em que passam 500 anos sobre o acontecimento – de forma absolutamente voluntária e desprovida de uma qualquer estrutura ou “organização” – nunca imaginei que poderia ser intimado a explicar-me e a expor as razões subjacentes a tal iniciativa.
Tal como Elie Wiesel, tenho medo do esquecimento. O apelo que fiz aos meus leitores foi desencadeado pela percepção de que a data iria passar completamente despercebida. Que os mortos de há 500 anos iam ser esquecidos. Não há comemorações oficiais; não há lançamento de livros, artigos de jornal ou reportagens de televisão. Confesso que – talvez por ingenuidade minha, talvez por teimar em acreditar na bondade humana – parti do princípio que o meu apelo nada tinha de polémico ou controverso: Exactamente 500 anos depois de 4 mil pessoas terem sido chacinadas em Lisboa, pedi aos meus leitores que as lembrassem acendendo uma vela no Rossio, um dos locais emblemáticos do massacre, onde durante três dias milhares de cadáveres arderam em fogueiras improvisadas. Escrevi: “que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.”
Reparo agora que até a questão das velas foi mal interpretada. Para mim, o significado das velas nunca foi nem o de romaria, cerimónia religiosa, expiação de pecados ou pedido de desculpas. Pode até ser uma questão cultural, reconheço, mas para mim, neste caso, o significado das velas é apenas um: lembrar os mortos. No judaísmo, o aniversário da morte de alguém é recordado anualmente acendendo uma vela em sua memória – em hebraico, a palavra ór (אור) significa simultaneamente luz e chama e, de forma metafórica, também conhecimento e memória. Ao pedir que fossem acesas velas em memória dos mortos de 1506 nunca tive em mente uma cerimónia religiosa – que religiosidade terá o gesto equivalente de colocar flores na campa de alguém? Por isso mesmo, por não considerar as velas como parte de uma celebração religiosa, pedi depois aos meus leitores religiosos (judeus) que recitassem Kaddish, a oração judaica em memória dos mortos.
Para mim, acima de tudo, o importante era não esquecer. O importante era lembrar os três dias que há 500 anos encheram de sangue as ruas de Lisboa. O importante era lembrar as vítimas. Afinal, a habitual leitura “hagiográfica” da História de Portugal tende a simpatizar com os números redondos e gordos que marcam a passagem dos séculos sobre eventos que lhe ditaram o rumo. Ainda assim, os 500 anos do massacre de Lisboa corriam o risco de ser esquecidos. Uma vez mais.
Não tenho ilusões quanto à dimensão do blog. Apesar dos cerca de 1500 leitores diários, este blog não deixa de ser apenas um recanto ínfimo do ciberespaço. Mas também é tendência inata da blogosfera a capacidade de transbordar para fora de si própria – e por isso não me admirei quando comecei a receber emails de jornais, portugueses e estrangeiros, que me pediam comentários sobre a iniciativa e sobre o aniversário do massacre. Nunca foi minha intenção arvorar-me em porta-voz das comunidades judaicas de Lisboa, dos judeus em geral, dos marranos descendentes das vítimas. Nunca reclamei para mim a exclusividade da tentativa de perpetuação da memória. A iniciativa que propus aos meus leitores, pelo menos para mim, sempre foi simples e translúcida: um gesto simbólico e individual, desprovido de qualquer carácter oficial ou de estrutura (religiosa ou política), propositadamente sem uma organização definida. Ninguém é obrigado a acender uma vela, tal como ninguém é obrigado a ler o blog. O desafio, para mim, era um desafio à memória.
No Quase em Português, Lutz Brückelmann propôs um debate sobre a comemoração do massacre e, mais especificamente, sobre a minha proposta. O resultado, a meu ver, foi imensamente triste. Como um pescador sentado à beira de um lago aparentemente calmo, Lutz lançou o isco que provocou um feeding frenzy, um frenesi que trouxe à tona o que se ocultava sob as águas.
Choveram comentários extemporâneos, os odiozinhos do costume, as acusações gratuitas – “eles só se preocupam com os judeus” (não são organizações judaicas que estão hoje à cabeça da tentativa de fazer com que o mundo não esqueça o genocídio em Darfur? Não foram os judeus o único grupo étnico que participou activamente ao lado dos negros durante a luta pelos direitos cívicos nos EUA da década na 60?); “se há coisa que os judeu não têm é autocrítica” (não são judeus Hannah Arendt, Susan Sontag, Norman Mailer, Philip Roth, Benny Morris, e até Noam Chomsky ou mesmo o execrável Norman Finkelstein, cuja obra é leitura obrigatória para qualquer neo-nazi que se preze?)…
Por tudo o que este “debate” encerra, por todo o ódio que pôs a nu, por todas as “teorias de conspiração”, por toda a ignorância, maldade e sobranceria, o maior mérito que teve foi o de mostrar – provar mesmo – a necessidade absoluta e irredutível da memória.
O assinalar do 250o aniversário do terremoto de Lisboa de 1755, em Novembro passado, não levantou em ninguém este tipo de questões (nem devia ter levantado, obviamente). Ninguém correu para os teclados a debitar prosa rancorosa nos comentários dos blogs; ninguém clamou “mas isso foi há tanto tempo, precisamos é esquecer” ou “… e então os terremotos do Irão e da Turquia, o ‘tsunami’ do Sudoeste Asiático ou as vítimas do Katrina?”; ou sequer “é preciso recordar também todas as vítimas de todas as catástrofes naturais ocorridas na história desde os tempos do Dilúvio até à desastrosa resposta da Administração Bush à tragédia do Katrina.” Ninguém se sentiu manipulado. De cabeça, lembro-me que houve extensos artigos na Imprensa, livros, reportagens de televisão, cerimónias oficiais, missas e procissões em memória das vítimas de 1755. Tudo isto sem que o relembrar desta fracção de memória fosse vista como uma qualquer maquiavélica maquinação. Mas uma tentativa semelhante para lembrar os mortos do massacre de 1506, aparentemente e para muitos, terá sempre “outra carga” – mesmo quando a data não é assinalada oficialmente; mesmo que a esmagadora maioria dos portugueses a desconheça; mesmo quando muitos apenas a descobriram recentemente, através da leitura de um notável romance histórico escrito por Richard Zimler, um judeu americano que mora em Portugal.
Em relação ao “debate”, subscrevo inteiramente o que escreveu Francisco José Viegas:

“Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer.
Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo.”

O meu amigo Lutz Brückelmann tem razão e a sua conclusão certeira deixa-me francamente desgostoso (algo que ele também antecipou): nada disto teria acontecido se os mortos não fossem judeus portugueses; se este desafio à lembrança e à preservação da memória não tivesse sido feito por um judeu; caso não tivesse partido de um blog marcadamente judaico escrito por um judeu. Esta “questão” não existiria (nunca!) se eu não fosse quem sou…

::A LER:: posts sobre o tema e a “polémica”: Miniscente (Luís Carmelo) / A Origem das Espécies (Francisco José Viegas) / Adufe (Rui Cerdeira Branco) / Povo de Bahá (Marco Oliveira) / A Memória Inventada (Vasco) / Os Tempos que Correm (Miguel Vale de Almeida) / Renas e Veados (Boss) / O Amigo do Povo (Bruno Cardoso Reis) / O Amigo do Povo (João Miguel Almeida) / O Amigo do Povo (Ana Cláudia Vicente) / Bombyx Mori (Afonso Bivar) / Ma-Schamba (José Pimentel Teixeira) / Água Lisa (João Tunes) / Local & Blogal (António Baeta Oliveira) / Planície Heróica (Francisco Nunes) / Almocreve das Petas (Masson)

…lista ainda em actualização.

500 Anos: O massacre de Lisboa VII

Testemunhos


A perseguição e matança dos hebreus não permite que hesitemos nas fórmulas do carácter fero de D. Manuel, que nem ao menos era fanático: sacrificava à sua luxúria por uma princesa de Castela as vidas dos hebreus, a melhor artéria da riqueza nacional; e, para contemporizar o erário com piedade, deixava matar sumariamente os judeus depois que ele os espoliava.”

Camilo Castelo Branco (1825-1890), in “D. Luiz de Portugal, Neto do Prior do Crato (quadro histórico)”, Porto 1883.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa VI

Testemunhos


Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até ao ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estevão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente. Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações encandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia! O rugido do tigre popular não tardou a ressoar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo. O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito de revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos. A ebreidade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas haviam perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas. Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. (…) À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.”

Alexandre Herculano (1810-1877), historiador, escritor e poeta português, in História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1855).
Com um agradecimento especial a Luís Pedro Schleibinger.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é um dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia 21, sexta-feira (ou quinta-feira à noite), o dia que assinala o fim do massacre, que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

500 Anos: O massacre de Lisboa V

Testemunhos


Antes que el Rei fosse de Lisboa para Almeirim, ordenou Tristão da Cunha à Índia por capitão de uma armada, da qual, e do que nesta viagem se fez se dirá adiante, no ano de mil quinhentos e oito, em que tornou. Pelo que nestes dois capítulos, que são já derradeiros desta primeira parte tratarei de um tumulto, e levantamento, que aos dezanove dias de Abril, deste ano de mil quinhentos e seis, em Domingo de Pascoela fez em Lisboa contra os cristãos-novos, que foi pela maneira seguinte. No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, e os corpos mortos, e os meio vivos lançavam e queimavam em fogueiras que tinham feitas na Ribeira e no Rossio a qual negócio lhes serviam escravos e moços que com muita diligência acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo, no qual Domingo de Pascoela mataram mais de quinhentas pessoas. A esta turma de maus homens, e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos segunda-feira continuaram nesta maldade com maior crueza, e por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram cometer com vaivéns e escadas as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam, e tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. Nas quais cruezas não se esqueceram de meter a saque as casas, e roubar todo o ouro, prata, e enxovais que nelas acharam, vindo o negócio a tanta dissolução que das igrejas tiraram muitos homens, mulheres, moços, moças, destes inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de nosso Senhor, e de nossa Senhora, e outros Santos, com que o medo da morte os tinha abraçado, e dali os tiraram, matando e queimando sem nenhum temor a Deus assim a elas como a eles. Neste dia pereceram mais de mil almas, sem que na cidade alguém ousasse de resistir, pela pouca gente de sorte que nela havia por estarem os mais dos honrados fora, por causa da peste. E se os alcaides, e outras justiças, queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência, que eram forçados a se recolher a parte onde estivessem seguros, de não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos. (…) Passado este dia, que era o segundo desta perseguição, tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.”

Damião de Góis (1502-1574), in “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”, escrito em Lisboa entre 1566 e 1567. Historiador e humanista, Guarda-Mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo, figura central do Renascimento em Portugal – ele próprio acusado mais tarde de “heresia” pela Inquisição por causa das suas simpatias luteranas e da amizade com Erasmo –, Damião de Góis relata com sentida e genuína indignação o massacre de 1506, ao contrário de outros cronistas “cristãos-velhos” que se limitaram posteriormente a fazer um relato desapaixonado e quase burocrático da matança, optando por “branquear” os detalhes mais macabros testemunhados nos escritos de Góis.

500 Anos: O massacre de Lisboa IV

Testemunhos


A Matança de Portugal. Ano 5266 1. Não bastou have-los trazido com tanta sem razão e injustiça à sua fé afastando-os da Lei com que nasceram, mas ainda assim não os deixavam viver quietamente, denostando-os, injuriando-os, abatendo-os, e tratando-os com baixeza e desprezo, e isto não o levaram em paciência, e lhes levantavam aleives e falsos testemunhos para os destruir e arrancar do mundo, pregando os pregadores nos púlpitos, e dizendo os senhores em lugares públicos, e os cidadãos e vilãos nas praças, que qualquer fome, peste ou terremoto que vinha à terra era por não serem bons cristãos: e que secretamente judaizavam; Assim que alcançando alguns intrínsecos amigos a vontade do povo quanto inclinada estava em seu dano, acharam aparelho para meterem em efeito seus maus ânimos, entre os quais ouve dois frades dominicanos que saíram pela cidade de Lisboa com crucifixos às costas amotinando o povo e clamando que viessem todos em sua companhia vingar a morte do seu deus, e com muitos perversos ociosos e briguenta gente que a eles se recolheram, com lanças e espadas nuas em suas mãos arremetendo contra o fraco e desprovido povo dos mal baptizados e novos cristãos mataram quatro mil almas deles, roubando e viando todas aquelas crueldades que em um saque de uma cidade se fazem, atassalhando os homens arremessando as criaturas às paredes e desmembrando-as, desflorando as mulheres e corrompendo as virgens, e sobre isto tirando-lhes a vida. Houve muitas que prenhes as lançaram das janelas sobre as pontas das lanças que já embaixo as estavam esperando, e ali atalhavam o caminho às inocentes criaturas antes que arribassem ao mundo onde o céu piedoso as mandava: entre elas se achou uma que esforçando a muita ira e sua honra a um frade que a queria forçar matou com uma faca que o mesmo frade trazia. Se este assim terrível mal durara daquele ímpeto acabavam todos os novos cristãos que na cidade de Lisboa habitavam, mas provendo a misericórdia divina, com as justiças da terra acudiram, e trás isso el rei que com grande diligência veio a socorro da vila de Abrantes onde então se achava cessou aquela matança tenebrosa.”

Samuel Usque (1492-?), in Consolação às Tribulações de Israel. Historiador e escritor, judeu nascido em Lisboa, Usque era primo do pintor e tipógrafo lisboeta Abraão Usque. Fruto das perseguições de que foram vítimas em Portugal, ambos emigraram com as famílias para Ferrara, em Itália, onde Samuel publica “Consolação…”, em 1533, dedicando-o a Dona Gracia Mendes, a Senhora (a obra seria mais tarde reeditada em Amsterdão, por volta de 1600). Samuel Usque acaba por emigrar definitivamente para Safed, na Galileia, onde vem a morrer em data incerta.


Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Ferrara, Itália, 07/09/1553

1 O ano dado por Samuel Usque, 5266, refere-se ao calendário hebraico – 1506 da Era Comum.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa III

Garcia de Resende

Testemunhos

Vi qẽ em Lixboa se alçaram
Pouo baixo & villãos
Contra os nouos Christãos
Mais de quatro mil matarã
Dos qẽ ouuerão nas mãos.
Hũos delles viuos queimarã
Mininos espedaçarão
Fizerão grandes cruezas
Grandes roubos & vilezas
Em todos quantos acharão.

Estando só ha cidade
Por morrerem muito nella
Se fez esta crueldade
Mas el rey mandou sobrella
Cõ muy grande breuidade
Muitos forão justiçados
Quantos acharão culpados
homẽ baixos & bragantes
& dous frades observãtes
vimos por isso queimados.

El rey teue tanto a mal
Ha cidade tal fazer
Qẽ o titulo natural
De noble & sempre leal
Lhe tirou & fez perder.
Muytos homens castigou
& officios tirou
depois que Lixboa vio
tudo lhe restituyo
& o titulo lhe tornou

Garcia de Resende (1470 – 1536), in Miscellania & Variedades de Histórias, costumes, casos & cousas que em seu tempo aconteceram, escrito entre 1530 e 1533, e publicado após a sua morte, em 1554.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 Anos: O massacre de Lisboa II

Testemunhos


A matança que ocorreu lá, em Lisboa:
Estando eu fora da cidade, contaram-me dias depois ao regressar que os dois não podem ser comparados, tendo em comum apenas a crueldade e a extrema dor1. O que me contou um ancião é o que a seguir relato.
Na noite de Páscoa os cristãos encontraram marranos2 sentados à mesa com pão ázimo e ervas amargas, seguindo os rituais da Páscoa, e trouxeram-nos perante o rei, que ordenou que fossem eles encarcerados na prisão até que a sentença fosse determinada. Naquela altura havia fome e seca pelo reino, e os cristãos juntaram-se e disseram: “Porque faz o Senhor isto a nós e à nossa terra senão por causa da culpa dos judeus?” E as suas palavras foram ouvidas pela Ordem dos Pregadores também chamados Dominicanos, que se concentraram em encontrar um ardil com que ajudar os cristãos. Então um deles levantou-se na sua casa de oração e pregou palavras ásperas e amargas contra a semente de Israel. E eles planearam um artifício e fizeram um crucifixo oco com uma abertura atrás, e vidro na frente, e por lá passavam uma vela, dizendo que a chama emergia do crucifixo, enquanto o povo se prostrava e gritava: “Vede o grande milagre! Este é um sinal de que Deus julga pelo fogo toda a semente de Israel!”
Um marrano foi lá que não ouvira estas palavras e, na sua inocência, disse: “Era melhor que fosse um milagre de água e não de fogo, pois com a seca é de água que precisamos!”
Os cristãos, cujos desígnios eram funestos, levantaram-se e disseram: “Olhai, que zomba ele de nós!” A multidão de imediato o pegou e matou. Quando o seu irmão ouviu, veio e disse: “Infortúnio, ai meu irmão, quem te matou?” E um de entre a multidão ergueu a espada, cortou-lhe a cabeça e a atirou sobre o corpo do irmão. Depois disto todos os frades se levantaram levando consigo os paus de Jesus Cristo3. Foram eles pelas ruas da cidade e proclamaram: “Quem matar algum da semente de Israel terá 100 dias de absolvição no mundo vindouro!” E de entre a multidão surgiram homens armados de espadas e durante três dias mataram quatro mil almas. Arrastavam e traziam para a rua os corpos para os queimar. Mulheres grávidas foram atiradas das janelas, os seus corpos recebidos pelas pontas das lanças, os fetos caindo a muitos pés de distância. E outras crueldades semelhantes e abominações que não quero aqui contar.
Aos magistrados de Lisboa não se pode culpar, nem aos seus nobres e líderes, porque tudo isto foi feito apesar deles. Eles próprios foram tentar salvar judeus, mas por causa do tamanho da multidão não o puderam fazer, pois quase lhes puseram as mãos neles também, e eles tiveram de fugir para salvar as próprias vidas.”

Salomão Ibn Verga, in Sefer Shebet Yehudah (ספר שבט יהודה), Livro do Ceptro de Judá, escrito em Portugal pouco depois do massacre de Lisboa mas publicado apenas em 1550, em Constantinopla, pelo seu filho, Yosef Ibn Verga.

NOTAS:
1 Salomão Ibn Verga alude aqui aos dois massacres: o ocorrido dentro de Lisboa e o subsequente que se alastrou pelas áreas rurais circundantes.
2 “Anussim” (אנוסים) no hebraico original do texto, expressão que literalmente quer dizer “os forçados”. Termo aplicado aos judeus portugueses forçados a converter-se ao catolicismo.
3 (עצי ישו הנוצרי) referência pejorativa aos crucifixos.

(texto traduzido do original hebraico)

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

500 anos: O massacre de Lisboa

1506-2006

Vai fazer exactamente 500 anos, nos dias 19, 20 e 21 de Abril, que um cataclismo se abateu sobre Lisboa. A alma da Capital do Império sofreu um abalo tão grande – senão mesmo maior – quanto aquele que a haveria de destruir em 1755. Durante três dias, em nome de um fanatismo sanguinário, mais de 4 mil pessoas perderam a vida numa matança sem precedentes em Portugal.
Como vozes que teimam em emergir de entre as poeiras da História, cronistas como Damião de Góis e Samuel Usque deixaram relatos detalhados dos motins sangrentos. Contam os testemunhos que tudo terá começado na Baixa, no dia 19 de Abril de 1506, um domingo, na Igreja de São Domingos, quando alguém gritou ter visto o rosto do Cristo crucificado iluminar-se inexplicavelmente no altar. Em redor, gente que rezava pelo fim da seca prolongada que grassava pelo país clamou que era milagre. Entre eles, um judeu convertido à força terá tentado explicar que a luz que emanava do crucifixo era apenas um reflexo de um raio de sol que entrava por uma fresta. Terão sido as suas últimas palavras. Arrastado para a rua, o marrano e um irmão seu foram espancados até à morte. Os seus corpos mutilados foram arrastados para o Rossio e queimados em frente dos Estaus – onde décadas depois foi instalada a Inquisição. Eles eram apenas os primeiros de entre mais de 4 mil mortos – anussim, judeus portugueses, homens, mulheres e crianças, assassinados em três dias sangrentos.
Incitada por frades dominicanos, a multidão que entretanto se aglomerara decide partir em direcção da Judiaria, gritando “morte aos judeus” e “morram os hereges”. As incompreensíveis cenas de violência que se deram a seguir fazem parte de um pedaço da história de Portugal que a História resolveu esquecer. Conto voltar ao tema e às descrições desta tragédia de há 500 anos. Por agora, queria apenas deixar um apelo. Em Portugal comemoram-se há muito os grandes feitos da História, testemunhos quase sebastianistas de uma grandeza perdida. Que não se esqueça também a desgraça que prova ser mito a velha máxima do tal “povo de brandos costumes”.
Aqui fica o desafio: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

ADENDA II: Existe um problema de Halakah do qual não me apercebi no início e para o qual fui alertado por alguns leitores: o dia 19 é dos últimos dias de Pessach, pelo que comemorações deste género estão vedados a judeus observantes. Por isso, em vez de alterar a data, gostaria de pedir aos meus leitores ortodoxos e masorti que passassem pelo Rossio para recitar Kaddish, preferencialmente com Minyan, no dia que coincide também com o dia do Serviço de Izkor de Pessach em Memória dos Mártires.

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden , von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (“Da Contenda Cristã, que Recentemente Teve Lugar em Lisboa, Capital de Portugal, Entre Cristãos e Cristãos-Novos ou Judeus, Por Causa do Deus Crucificado”)

Panfleto anónimo, com apenas seis folhas, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor por uma testemunha ocular. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

(Gravura reproduzida aqui a partir de uma cópia gentilmente cedida pelo Hebrew Union College. O original, encontra-se na Houghton Library, na Universidade de Harvard)

O fantasma do Purim passado

Um artigo de Jeffrey Goldberg
New York Times 14/03/2006



Há três anos, enquanto visitava Teerão, fui apresentado a um homem sem charme chamado Muhammad Ali Samadi que, disseram-me, me iria falar da peculiar leitura que a teocracia iraniana faz do judaísmo e do sionismo. O senhor Samadi dizia que o líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei, não defendia o antisemitismo. Mas, momentos depois, usaria uma metáfora epidemiológica para explicar o papel dos judeus na História. “O homem tem sempre doenças e infecções”, disse ele. “No mundo o Judeu Internacional é uma infecção .”
Um ano depois, o senhor Samadi tornou-se o porta-voz do Esteshadion, ou Aqueles que Buscam o Martírio, um grupo que tem por missão treinar jovens iranianos para matar Salman Rushdie, cometer actos de suicídio terrorista contra americanos no Iraque e fazer explodir judeus por todo o mundo. “Os sionistas devem saber que não estarão a salvo enquanto forem uma afronta a Deus”, disse ele. Perguntei-lhe se esses “sionistas” a que se referia eram israelitas ou, num sentido mais lato, judeus. “Judeus, sionistas, israelitas”, confirmou ele de forma pouco ambígua.
Eu não estava no Irão para recolher os despojos antisemitas de terroristas de segundo plano, apesar de ter comprado uma mochila cheia de panfletos e livros obcecados com os judeus, incluindo uma cópia do “Protocolos dos Sábios de Sião” em persa. Estava no Irão principalmente para atravessar a fronteira para o Iraque, cujo ditador estava à beira de ser deposto pelo exército americano. Saddam Hussein prometera uma vez “fazer fogo para queimar metade de Israel” – o que tentou fazer, sem sucesso, durante a guerra do golfo, em 1991.
Quis o destino que fosse Purim quando tentei atravessar a fronteira do Irão para o Iraque. Purim é uma ruidosa festividade judaica, celebrada hoje, que comemora o facto dos judeus da Pérsia terem escapado por um triz à aniquilação ordenada por Haman, um vizir sanguinário. A história do Purim é contada no Livro de Ester, que foi lido ontem à noite em sinagogas por todo o mundo – incluindo no Irão, que alberga os restos do que em tempos fora uma grande e antiga comunidade judaica. O judaísmo precede o Islão em mais de mil anos.
Purim é o ne plus ultra da velha anedota judaica que resume a história das festividades numa frase: “Tentaram matar-nos, não conseguiram, vamos comer.” O Purim é um dia ruidoso, uma espécie de Carnaval judaico durante o qual até os rabinos devem beber até cair. É possível imaginar, mesmo assim, que os judeus perseguidos do Irão, vivendo hoje sob a alçada de um presidente, Mahmoud Ahmadinejad, que nega a verdade histórica do Holocausto europeu ao mesmo tempo que ameaça com um outro no Médio Oriente, possam ver o Purim não como a história de uma tragédia evitada, mas sim como a de uma tragédia profetizada.
A história do Purim é recheada de suspense, ofensiva, e quase de certeza falsa, uma fantasia de vingança e redenção. Especialistas académicos geralmente concordam que se trata de uma pseudo-história introduzida no judaísmo há cerca de 2400 anos, numa altura em que a memória da conquista de Jerusalém pelos babilónios estava ainda bem viva. Na história, o presunçoso rei Ahasuerus escolhe a linda Ester para ser sua rainha. Ester, que esconde o facto de ser judia, tem um tio, o estóico e corajoso Mordecai, que não esconde a sua fé e que é odiado por Haman por se recusar a curvar perante ele.
Haman, cheio de ódio, decide vingar-se não só em Mordecai mas em toda a sua tribo. “Há um certo povo espalhado e disperso por entre os povos em todas as províncias do Vosso reino”, diz Haman ao rei Ahasuerus. “Não é do beneficio do rei tolerá-los.” O rei concorda em exterminar os seus súbditos judeus.
Para salvar o seu povo, Ester revela ao rei que é judia. Chocado, o rei ordena que Haman seja enforcado, na forca que o próprio Haman erguera para executar Mordecai. Mas o rei não tem poder para reverter o seu édito de genocídio, então, em vez disso, ele permite que os judeus se armem e se defendam contra o extermínio. E assim foi.
É uma história estranha em vários aspectos, um dos quais pelo facto dos antigos reis persas tolerarem outros deuses e os povos que os adoravam. Esta tolerância, deve dizer-se, era um dos principais atributos do politeísmo; os judeus não eram vistos como ameaça à ordem teológica na Pérsia pré-islâmica.
O Médio Oriente muçulmano de hoje, enfim, é um pano de fundo muito mais plausível para o tipo de plano de aniquilação anti-judaico descrito no Livro de Ester do que era a Pérsia antiga, onde a história tem lugar. O regime iraniano, apesar de tudo, faz paradas militares por Teerão com mísseis Shahab-3 envoltos em estandartes onde se pode ler: “Apagaremos Israel do mapa.” O líder de uma das assembleias clericais do país, Hashemi Rafsanjani, disse em Dezembro de 2001 que “a aplicação de uma bomba atómica não deixaria nada de Israel e produziria apenas danos menores no mundo islâmico.” O líder supremo ele próprio, Ayatollah Khamenei, disse de Israel em 2000: “Dissemos repetidamente que este estado é um tumor canceroso e que devia ser removido da região.”
Há aqui múltiplas tragédias. A civilização persa, pré-islâmica ou não, nunca foi muito hostil aos judeus. Na verdade, um dos grandes heróis da História Judaica é Ciro, o rei persa que restaurou os judeus em Israel após a destruição do Primeiro Templo. E a República Islâmica do Irão, embora não seja nenhuma utopia semita, também não tem sido a Polónia. Mesmo hoje, as tiradas febris contra os judeus que se ouvem entre a intelligentsia em Beirute ou no Cairo estão quase totalmente ausentes em Teerão, excepto entre a elite clerical, que compreende a utilidade do antisemitismo no seu esforço de aproximação aos muçulmanos árabes.
O que não quer dizer que os clérigos não acreditam no que dizem. Isto traz-nos de volta à triste metáfora do senhor Samadi. A terminologia da doença infiltra agora o discurso antisemita por todo o Médio Oriente. Há quatro anos, um líder do Hezbollah no Vale de Bekaa, no Líbano, chamado Hussein Haj Hassan disse-me que os judeus são “como parasitas nas nações que os acolhem.” Os líderes do Hamas e da Jihad Islâmica falam da mesma maneira.
Preocupamo-nos em não reagir de forma exagerada, mas este tipo de linguagem ecoa a passagem de Mein Kampf na qual o Haman austríaco compara os judeus a “um bacilo que começa a expandir-se assim que encontra um meio favorável.”
Ainda acredito que os judeus, e o Estado judaico, sobreviverão ao seu encontro com o senhor Ahmadinejad e o Ayatollah Khamenei do Irão. Os líderes do Irão ainda não têm a bomba e, apesar das suas inclinações escatológicas, eles podem não ser totalmente imunes ao charme da lógica da teoria da dissuasão. E, claro, tanto a parábola como a História ensinam que os judeus conseguem sempre sobreviver.
Mesmo assim, muita gente, no Irão e não só, acredita que o Estado judaico é um cancro, e é estúpido pensar que isto é uma ideia sem consequências. Como me disse um líder da Jihad Islâmica não há muito tempo: “Toda a gente sabe a cura para o cancro é a radiação.”

Ilustração de Anthony Russo

Antisemitismo em França

Da edição de hoje do New York Times:

PARIS, 6 de Março – Três ataques contra judeus ocorridos durante o fim-de-semana aumentam o receio da existência de uma onda crescente de antisemitismo entre uma nova geração de franceses nos bairros operários onde residem predominantemente emigrantes.
Segundo a polícia, dois jovens judeus, de 17 e 18 anos, foram espancados na sexta-feira por um grupo de jovens negros e árabes em Sarcelles, um subúrbio localizado a norte de Paris onde reside um número significativo de famílias judias.
No sábado, um judeu de 28 anos foi espancado no mesmo subúrbio por um grupo similar que lhe dirigiu insultos antisemitas. Quatro jovens estão a ser interrogados pelas autoridades enquanto suspeitos no ataque de sábado.
“O antisemitismo está a crescer neste país”, afirmou o deputado socialista Dominique Strauss-Kahn à saída de uma reunião com o ministro do Interior Nicolas Sarkozy.
Na memória dos franceses está ainda bem presente o assassinato de Ilan Halimi, um jovem judeu de 23 anos, raptado, torturado e morto no mês passado.
A morte de Ilan Halimi veio alertar para o virulento antisemitismo que cresce em França desde o início da segunda intifada palestiniana contra Israel. Muitos dos jovens que habitam os subúrbios franceses são muçulmanos e trouxeram o conflito palestiniano para as ruas de França. No seguimento dos ataques do passado fim de semana, a polícia aumentou o patrulhamento em redor das sinagogas localizadas nos subúrbios parisienses.”

NOTA – Um olhar transversal para a História faz-nos ver que o antisemitismo, e os ataques a judeus pelo simples facto de serem judeus, são inevitavelmente um prelúdio para uma generalização da violência. Os judeus, neste caso, funcionam como “balões de ensaio” numa sociedade insensível ao seu sofrimento. São as primeiras vítimas. Foi assim na Idade Média (ver Rua da Judiaria: “Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom”); foi assim com a Inquisição; foi assim na Segunda Guerra Mundial; foi assim com os atentados suicidas terroristas da intifada
Ver ainda: Rua da Judiaria: “Mostrem a estrela amarela com orgulho!” / Rua da Judiaria: Não há Antisemitismo em França? / Rua da Judiaria: Novo Antisemitismo? As Novas Faces do Mais Antigo Ódio do Mundo

Grandes Citações IV


Alguns de nós, judeus de Esquerda, sentimo-nos impedidos de abraçar de forma mais completa a causa palestiniana em virtude dos inegáveis contornos antisemitas dos discursos e escritos pró-palestinianos.”

Pierre Goldman, Libération, 31 de Outubro de 1978.

Judeu francês, jornalista e activista de esquerda (extrema-esquerda, dirão alguns), Goldman foi assassinado por brigadas terroristas de extrema-direita a 20 de Setembro de 1979, meses depois de ter sido ilibado num processo judicial kafkiano que inicialmente o condenara a prisão perpétua. Os seus assassinos nunca foram julgados. (Ver Pierre Goldman : Le dossier.)

Nixon, Watergate e os judeus

Quando as primeiras notícias sobre o escândalo Watergate começaram a ser publicadas pelo Washington Post, Richard Nixon, um homem já de si extremamente paranóico, tentou descortinar quem seria a fonte dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, conhecida durante mais de 30 anos apenas como Garganta Funda. Sabe-se agora que o Garganta Funda foi Mark Felt, então vice-director do FBI, que deu a conhecer a sua participação na revelação do Watergate esta semana à revista Vanity Fair (ver “I’m the Guy They Called Deep Throat”). Ironicamente, Nixon desconfiou dele porque pensou que Felt era judeu. A conversa do então presidente americano com o seu assessor H. R. Haldeman ficaria gravada para a posteridade:

Nixon – Isto veio do FBI… eu juro que mando aquela cambada toda para a rua… terá sido o Felt? Ele é católico?
Haldeman – Não, acho que é judeu.
Nixon – Cristo! O Hoover meteu lá um judeu!?… Pode ser coisa dos judeus. Não sei… é possível.

O assessor de Richard Nixon estava errado, Mark Felt nem era judeu, mas sim um agnóstico descendente de uma família de emigrantes protestantes irlandeses. O episódio, no entanto, vem sublinhar a paranóia de Nixon, que transparecera já em 1996, quando a vinda a público de uma série de gravações, efectuadas na Casa Branca em 1971, revelou o profundo antisemitismo do presidente republicano. A propósito dos financiadores da campanha da oposição democrata, Nixon pede a Haldeman que ponha o fisco à perna “dos judeus” democratas:

Nixon – Por favor tragam-me os nomes dos judeus… você sabe Bob, os judeus graúdos que contribuem para os democratas. Será que não podemos investigar alguns destes filhos da puta?

::A LER:: Deep Throat: Not a Jew / FORWARD : Shocked, Shocked
Allegations of Richard Nixon’s antisemitism, fueled by each new batch of tapes released, should come as no surprise
/ Nixon urged audits of Jewish contributors / Slate – Nixon: I Am Not an Anti-Semite / Tapes reveal Nixon as anti-Semite / TomPaine.com – Nixon: “Maybe I’m Jewish” / Jews repulsed by Nixon’s plans to audit Democrats / Slate – Deep Throat: The Game Is Afoot

O “perigoso” ensino da tolerância

Professores primários do Dubai protestaram junto das autoridades locais contra o facto de uma escola privada estar a usar nas aulas um livro com desenhos de crianças árabes e judias a brincarem juntas. O “polémico” livro, intitulado “Amigos para Sempre”, faz parte do currículo da International School dos Emirados Árabes Unidos e corre agora o risco de ser banido pelas autoridades educativas locais. A notícia integral pode ser lida aqui: Al-Bawaba – Dubai: School book featuring Jewish kids stirs uproar e Khaleej Times – Teachers object to book showing Jewish children (o Khaleej Times é o principal diário de língua inglesa dos Emirados Árabes Unidos). Como contraponto, ler também: Saudi textbooks denounce Jews as wicked.