Rabino Abraham Assor זצ”ל

Em Saudosa Memória
(Tânger, 7 de Setembro de 1920 – Lisboa 15 de Outubro de 1993)


Rabino Abraham Assor זצ”ל, fotografado por Yale Strom.


De acordo com a Halakhá (a Lei Judaica), o arrependimento, a providência e a profecia expressam a missão de criar. No Talmude, está escrito que ser judeu é mais uma acção do que uma crença, é mais fazer pelos outros do que ter fé. Modelo de homem judeu, de bondade, de humanidade, de justiça e de tolerância, o rabino Abraham Assor, sempre dedicado à sua comunidade, construiu um exemplo.
Deus permita que o saibamos lembrar.”

Joshua Ruah, ex-presidente da comunidade judaica de Lisboa
Sivan 5760 (Junho de 2000)

Mazel Tov Mr. Pinter!

Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?


Harold Pinter fotografado por Chris Saunders.

O dramaturgo britânico Harold Pinter venceu o Prémio Nobel da Literatura, tornando-se o 13o judeu a ganhar o Nobel nesta categoria, sucedendo à escritora judia austríaca Elfriede Jelinek, vencedora do prémio em 2004.

::ADENDA::
Será Harold Pinter descendente de judeus portugueses?
Esta questão, levantada, entre outros, por Jorge Palinhos (ver BdE – Blogue de Esquerda (II): O Pinto Nobelizado), não tem uma resposta fácil. Pinter acredita que o seu nome de família resulta da anglicização de “Pinto” (ou “Pinta”), um sobrenome generalizado entre as famílias de judeus portugueses da Diáspora (ver JewishEncyclopedia– Pinto Jewish Family Name, Ancestry.com – Pinter e Wikipédia – Isaac de Pinto). Na verdade, era bastante comum aos judeus portugueses emigrados alterar o nome de família como forma de melhor se integrarem nos países de acolhimentos – em França, os descendentes do pedagogo Jacob Rodrigues Pereira, por exemplo, chamam-se hoje “Pereire”, enquanto o ramo americano da mesma família optou por “Perera” (ver National Foundation for Jewish Culture: On Being Sephardic: The Children of the Diaspora, by Victor Perera).
Por outro lado, sabe-se que os judeus portugueses são responsáveis pelo restabelecimento da comunidade judaica em Inglaterra, depois do rabino Menasseh ben Israel (Manuel Dias Soeiro) ter negociado com Oliver Cromwell, no século XVII, a revogação do decreto de expulsão de 1290. Foram os judeus portugueses os primeiros a chegar a Londres (ver JewishEncyclopedia – Bevis Marks Synagogue). Sabe-se também que existiam vários “Pintos” entes estes pioneiros – o rabino português Joseph Jesurun Pinto (1565-1648), por exemplo, viveu em Londres grande parte da sua vida.
A eventual descendência portuguesa de Harold Pinter virá por parte do pai, Jack Haim Pinter, uma vez que a família da mãe, Frances Moskowitz, tem raízes nas comunidades judaicas da Polónia e Ucrânia. Mesmo assim, sem mais elementos factuais – a não ser a palavra do próprio Harold Pinter – é difícil traçar com certezas a sua mais do que provável ancestralidade judaica portuguesa. A pista final é dada pelo facto do pai de Harold Pinter ser sefardita e da esmagadora maioria dos judeus sefarditas britânicos descenderem de judeus portugueses. (Ver ainda New York Times – Harold Pinter.)
Quanto à importância que o facto de ter nascido judeu teve na formação de Pinter, a sua biografia no site oficial da Academia Sueca parece não deixar dúvidas: “Crescendo [em Londres], Pinter foi confrontado com expressões de antisemitismo que, segundo ele próprio indica, foram importantes na sua decisão de tornar-se dramaturgo.”

Yom Kippur II

Leonard Cohen – Who By Fire

Leonard Cohen


Leonard Cohen, fotografado por David Boswell em Vancouver, a 20 de Outubro de 1978.

Para ouvir:
Leonard Cohen – Who By Fire

O Yom Kippur (dia do perdão ou da expiação), que se inicia hoje ao cair da noite, é a data mais importante do calendário judaico, culminando 10 dias de introspecção iniciados com o Ano Novo (Rosh Hashaná). Com origem na Bíblia Hebraica (ver Levítico 23:26-32), o Yom Kippur é um convite à análise do ano que passou e um apelo a uma transformação espiritual e ética para o futuro. Escrita por Leonard Cohen com base no poema ונתנה תוקף (Unetaneh Tokef), da liturgia judaica do Yom Kippur, “Who by Fire?” é uma composição profundamente influenciada pela oração e pela intensidade do dia.
“Esta canção é inspirada directamente numa oração hebraica, cantada no Yom Kippur. Segundo a tradição, neste dia o Livro da Vida é aberto, e nele estão contidos os nomes de todos os que irão viver e morrer no ano seguinte. A melodia, porém, não é integralmente roubada, mas derivada da melodia que ouvi desde sempre sentado na sinagoga. É claro que o final da minha canção é completamente diferente. “Who shall I say is calling?” é o meu contributo à oração: Quem determina a vida do homem?”, escreveu sobre ela Leonard Cohen.
Durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, Leonard Cohen foi a Israel e fez uma série de concertos gratuitos para os soldados israelitas. Esta experiência, segundo ele próprio escreveria mais tarde, influenciou também de forma marcada “Who by Fire”. Na década de 90, Leonard Cohen retirou-se para um mosteiro budista situado nos arredores de Los Angeles, dando origem a rumores segundo os quais teria abandonado o judaísmo tornando-se um “jubu” (ou “bujew”), como fizera antes o poeta Allen Ginsberg. Confessadamente fascinado pela espiritualidade e o recolhimento do budismo, no entanto, Cohen continua a sentir-se profundamente judeu, como ele próprio afirmou numa entrevista recente ao The Guardian: “Não busco uma nova religião. Estou bastante satisfeito com a antiga, com o judaísmo.”

Yom Kippur

N.G.
Los Angeles, 9 de Tishri de 5766 (12 de Outubro de 2005)

Perdoa-me
A insensatez,
A inércia,
As palavras ditas,
As palavras caladas,
A falta de coragem,
A irritação,
A raiva,
A falta de raiva.

Perdoa-me
O dilúvio e a aridez.
Perdoa-me
O calor e o gelo.
Perdoa-me
O ruído e os silêncios.

Perdoa-me
Não ter conseguido ser
Nem mais nem menos
do que eu próprio.
Perdoa-me
Tudo.
Perdoa-me
O sopro,
A respiração,
A vida.

N.G.
Los Angeles, 9 de Tishri de 5766 (12 de Outubro de 2005)

Poemas à Moda da Antologia Grega

Nissim Ezekiel

I
Dos 20 anos aos 30
Ela esperou apaixonadamente por um amante.
Dos 30 aos 40
Tentou diligentemente apanhar um.
Agora é conhecida
Como a virgem viva
Do Centro Nacional de Artes Dramáticas.

II
Ele consagrou a vida à defesa da liberdade.
Todos os que com ele trabalhavam
se ressentiam do seu feitio autoritário.

IX
Ela anunciava-se como pintora,
Incessantemente,
Até ficar conhecida
Pela alcunha de “Eu-sou-pintora”.
Agora que morreu
Enlutam-se os seus amantes,
Aqueles que ficaram em silêncio
Quando ela falava de arte.

X
Porque dizem tantos desses
Poetas de antologias gregas
Que é melhor não nascer
E nascendo, é melhor morrer cedo?

Eu discordo.
É melhor nascer,
E nascendo,
Escrever versos dizendo
Que é melhor não nascer.
Ter uma vida longa
E escrever versos dizendo
Que é melhor morrer cedo.
Porque se não nascemos,
Que podemos dizer?
E se morremos cedo,
Como aprendemos a dize-lo bem?

Nissim Ezekiel (1924-2004), poeta, dramaturgo e critico de arte. Judeu indiano nascido em Bombaim.

Let’s party like it’s 5766

Esta noite e amanhã, no primeiro dia do mês hebraico de Tishri (תשרי), celebra-se o Ano Novo judaico, conhecido como Rosh Hashaná. A todos os leitores da Rua da Judiaria, aqui ficam os desejos de um doce e feliz ano de 5766!

שנה טובה


Rosh Hashaná em Nova Iorque, ano 5672 (22 de Setembro de 1911)

Sinais…

Sami Michael, escritor israelita, nomeado para o Nobel da literature por um académico palestiniano.


Sami Michael, israelita, nomeado para o Nobel da literature por um académico palestiniano

Ahmed Harb, escritor, crítico literário e catedrático palestiniano de Ramallah, propôs oficialmente a nomeação do escritor israelita Sami Michael para o Nobel da Literatura (ver Palestinian writer nominates Sami Michael for Nobel Prize.) Em entrevista ao diário Haaretz, Ahmed Harb diz ter ficado “profundamente impressionado com a escrita de Sami Michael” que, na sua opinião, tem influenciado não só leitores israelitas mas também palestinianos e árabes a compreender o destino que partilham no Médio Oriente. “Com os seus romances, lavrados por um mestre, Sami Michael granjeou uma audiência israelita, palestiniana e internacional. Como escritor palestiniano tenho a honra de recomendar calorosamente Sami Michael para o Nobel da Literatura”, escreveu o professor Ahmed Harb na carta enviada à Academia de Estocolmo. Ainda na entrevista ao Haaretz, Harb adianta: “Para mim, a literatura está acima de qualquer conflito, por mais difícil e complexo que seja. Talvez seja apropriado encarar a minha carta como uma missiva de paz para ambos os lados.”
Confrontado com a sua nomeação para o Nobel feita pelo académico palestiniano, Sami mostrou-se profundamente comovido: “Apetece-me beijá-lo. Ele está a tomar um risco enorme ao fazer esta recomendação. Seres humanos generosos como Harb são a mais importante indicação de que temos aliados do outro lado.”
Judeu nascido em Bagdade, no Iraque, em 1926, Sami Michael é um dos mais conceituados escritores israelitas da actualidade, ao lado de Amos Oz, David Grossman e A.B. Yehoshua – um grupo no qual se integra também no que diz respeito às opções políticas. Na sua obra confluem inevitáveis influências judaicas e árabes, reflectindo as condicionantes da sua própria vida.
Sami fugiu do Iraque para o Irão em 1948, após a polícia secreta ter descoberto o seu envolvimento num grupo de resistência clandestino. Um ano depois, quando o governo iraniano se preparava para o extraditar para Bagdade, Sami consegue escapar para Israel, onde vive desde então. Após cumprir o serviço militar, começou a trabalhar para um semanário árabe de Haifa, onde escrevia a quase totalidade da secção literária. Durante 25 anos trabalhou para o Ministério israelita da Agricultura, fazendo prospecção de reservas naturais de água junto da fronteira com a Síria. Sami Michael estudou literatura árabe e psicologia na Universidade de Haifa e recebeu um doutoramento honorário da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ao todo, escreveu 11 romances em árabe e hebraico – o primeiro dos quais publicado em 1973 –, abordando em todos eles complexas relações interligadas entre judeus e árabes, cristãos e muçulmanos, nacionalistas e comunistas, homens e mulheres, em Bagdade e em Israel.
Politicamente, Sami Michael identifica-se com a ala esquerda do Partido Trabalhista e há décadas que juntou a voz ao grupo de intelectuais israelitas no movimento pela paz. Infelizmente, nenhum dos seus romances foi ainda traduzido para português.

::A LER:: World Conference on Culture at Stockholm – 1998 – The Wish of the Three Prophets, a paper by Sami Michael / Writing for a Jewish Future: About Sami Michael / The outsider — Baghdad-born writer Sami Michael a living conduit between Israel’s Arabs and Jews.

ShaBot6000: O Lençol


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
O buraco no lençol – segundo este mito, os casais de judeus ortodoxos e ultra-ortodoxos apenas teriam relações sexuais separados por um lençol com um buraco. Esta urban legend não podia ser mais falsa (ver Urban Legends Reference Pages: Sheet Dreams Are Made of These), mas mesmo assim continua a encontrar terreno fértil na imaginação popular. Ao contrário do que o mito faz supor, o judaísmo é a menos “puritana” das grandes religiões monoteístas, encarando o sexo conjugal como fonte de prazer essencial para o casal. No século II, o rabino Shimon bar Yochai escreveu que durante o acto sexual o casal “vislumbra momentaneamente as delícias dos céus.” O mito do lençol com buraco foi utilizado magistralmente por Larry David – co-criador de Seinfeld –, ele próprio um judeu, num episódio recente da sua nova série Curb Your Enthusiasm.

Sem Título

Emmanuel Moses

Em 1965 ou 66
no College Sevigné
eles não gostavam de judeus
mas eu gostava de Bianca
a filha do veterinário
tão católica
quanto eu era judeu
apertava-a com força
antes de adormecer
criança-súcuba
que me tirou a bebida e a comida
ninguém compreendia nada
pensavam que estava doente
e de facto
eu estava doente
tal como nos contos de outros tempos
nenhuma poção
nenhum médico
podia fazer nada por mim.

Emmanuel Moses, poeta israelita contemporâneo. Judeu marroquino.
Poema do livro Le Present (1999).

A pergunta (um pequeno conto)


Quando morrer, e a minha alma for convocada diante de Deus, um turbilhão de apoquentações e dúvidas tomará conta de mim. Nessa altura, imaginando o encontro com o Criador, tentarei antecipar as suas interrogações: “Zusya, porque não foste Moisés? Porque não foste Salomão ou David?” Mas, quando Hashem1 aparecer à minha frente, a sua única pergunta será bem mais simples: “Porque não foste Zusya?”

Rabino Zusya de Anapol (Polónia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

1Palavra hebraica, literalmente significa O Nome, sinónimo de Deus no judaísmo.

Dedicado à memória de Simon Wiesenthal (1908-2005), um Homem que viveu além do seu próprio destino.

Sabedoria Antiga I


Le Serment des Horaces” [pormenor] (1784), Jacques-Louis David


Não faças chorar uma mulher, pois Deus conta todas as suas lágrimas. A mulher fez-se da costela do homem, não dos pés para ser espezinhada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, (…) debaixo do braço para ser protegida e perto do coração para ser amada.”

Talmude (tratado Kiddushin), Eretz Israel, século I EC*

*Era Comum

A estalagem

Emmanuel Moses

Um pouco de vinho
nesta ferida funda
que abre à noite
quando carros buzinam lá fora
e pedestres riem
gritando uns para os outros
animados por uma alegria
incompreensível àquele
que os vê por detrás das persianas.

Ele sonha acordado, subitamente na lua,
com a mulher que conheceu dois dias antes
e murmura o seu límpido nome
para o ouvir espalhado pelo quarto.

Sofrimento vem de outro lado,
que importa se é reflectido
em cada palavra
que ele aprendeu um certo número de
coisas
ajudado pela velhice,
especialmente que é necessário amar
quem está connosco, quem vem antes
e espera por nós,
sentado na estalagem nocturna.

Emmanuel Moses, poeta israelita contemporâneo. Judeu marroquino.
Poema do livro Dernières nouvelles de monsieur néant. Moses é casado com a escritora judia alemã Gila Lustiger.

Israel termina a ocupação de Gaza


Foto de Rina Castelnuovo, The New York Times

::A LER:: BBC – Israel desocupa Faixa de Gaza depois de 38 anos / BBC – Israel destrói último posto militar em Gaza / CNN – Israeli flag lowered over Gaza / Haaretz – Analysis: The ‘day after’ the disengagement begins now / Xinhua – Israeli ends military rule in Gaza / Haaretz – Israel News – IDF leaves Gaza after 38 years of military rule / Palestinians assume control of Gaza Strip – The Boston Globe / BBC Israel completes Gaza withdrawal / JTW News – Israel completes Gaza withdrawal / The Scotsman – Gaza synagogues burn as Israel goes / Seattle Post-Intelligencer: Palestinians set fire to empty synagogues