Jesus, o Judeu:
Dois livros a não perder

Acabam de ser lançados dois livros de excelentes autores sobre uma área dos estudos judaicos que me atrai particularmente: o “cristianismo primitivo”; o Jesus indissociavelmente enquadrado nas suas raízes judaicas. O meu interesse, além de académico, tem sido muitas vezes movido por um fascínio especulativo, aquilo que em inglês se designa como counterfactual history – conjecturar como teria sido a História sob circunstâncias diferentes –, neste caso particular, o que teria acontecido se os judeus do primeiro século tivessem aceite Jesus enquanto messias? Um destes novos livros oferece uma resposta perfeitamente plausível.
Em Why the Jews Rejected Jesus: The Turning Point in Western History, David Klinghoffer defende que, perante este cenário, o cristianismo teria permanecido um movimento inteiramente judaico, minoritário no seio do judaísmo como os essénios do Mar Morto ou os saduceus de Jerusalém, e seria, tal como estes, condenado a uma extinção gradual. Escreve ele:

Se os judeus não tivessem rejeitado Jesus, se Paulo não tivesse voltado a liderança da igreja para um novo rumo, a fé embrionária teria provavelmente perecido tal como aconteceu com todas as seitas heterodoxas judaicas que desapareceram após a destruição de Jerusalém e do seu Templo pelos romanos no ano 70 E.C.*, deixando apenas o judaísmo “rabínico” – o judaísmo tradicional dos nossos dias. Não haveria cristianismo, nem Europa cristã ou civilização ocidental tal como a conhecemos.
Muito provavelmente o islão teria aparecido mais ou menos da forma como o fez, outro descendente do judaísmo que também dispensou as complexidades da prática religiosa judaica. Mesmo com o cristianismo como fé unificadora da Europa, o islão quase se espalhou por todo continente. Foi rechaçado apenas pela força, a 150 milhas de Paris, na batalha de Tours em 732. Tivesse o cristianismo morrido enquanto seita judaica falhada no ano 70, a Europa seria hoje certamente muçulmana.

*Era Comum

O livro não acaba aqui e nem sequer se restringe apenas à história especulativa, mas a análise não deixa de ser imensamente interessante. Nas restantes 250 páginas, Klinghoffer aborda as razões históricas, teológicas e políticas que obrigaram o judaísmo a rejeitar as reivindicações messiânicas de Yeshua ben Yosef (sobre a visão judaica do messias ver também O Conceito de Messias no Judaísmo, aqui nos arquivos da Judiaria).
O segundo livro, lançado na semana passada no Reino Unido, é The Passion, escrito pelo historiador Geza Vermes, professor emérito de Estudos Judaicos da Universidade Oxford, tido como uma das maiores autoridades académicas no que diz respeito ao “Jesus Histórico”. Este é o seu sexto livro sobre o contexto histórico e o judaísmo de Jesus.
Já o encomendei via Amazon.co.uk, mas ainda vem a caminho. A julgar por aquilo que se escreveu sobre ele (ver esta nota publicada pelo Sunday Times de Londres: Religion: The Passion by Geza Vermes ) Vermes volta a não desiludir. Sobre ele, escreve o professor Jim Davila no seu excelente blog PaleoJudaica :

Vermes tem sempre uma perspectiva interessante, construída sobre uma filtragem crítica do material dos Evangelhos que coloca posteriormente nos respectivos contextos históricos, filosóficos e geográficos.

Tanto Geza Vermes quanto David Klinghoffer são judeus, mas o primeiro tem uma história pessoal bastante curiosa. Húngaro de nascimento, filho de vítimas do Holocausto, Vermes foi padre católico (depois de ter sido convertido ao catolicismo aos sete anos pelos pais, na tentativa de o fazer escapar ao antisemitismo reinante), regressando posteriormente às suas raízes judaicas. Sobre a fascinante história pessoal de Geza Vermes vale a pena ler esta excelente entrevista publicada no Independent: Geza Vermes: A child of his time. E, já agora, sugiro também uma crítica historiográfica ao filme de Mel Gibson, A Paixão do Cristo, assinada por Geza Vermes em Fevereiro do ano passado no Guardian: Celluloid Brutality, by Geza Vermes.
Prometo desde já voltar ao tema, ainda antes de sexta-feira, com um post aprofundado com uma análise histórica e enquadramento judaico dos últimos dias de Jesus.

Que tipo de pessoa

Yehuda Amichai

“Que tipo de pessoa és tu?”, ouvi-os perguntar.
Sou uma pessoa com uma complexa canalização da alma,
Sofisticados instrumentos de sentir e um sistema
De memória controlada nos finais do século XX.
Mas com um velho corpo de tempos antigos
E um Deus ainda mais velho que o meu corpo.

Sou uma pessoa para a superfície da terra.
Lugares baixos, cavernas e poços
Assustam-me. Cumes de montanha
E prédio altos apavoram-me.
Não sou como um garfo espetado,
Nem como uma faca de cortar, nem como uma colher presa.

Não sou plano nem astuto
Como uma espátula vinda de baixo.
Na melhor das hipóteses sou um pesado e desajeitado pilão
Amassando bem e mal juntos
Para um pouco de gosto
Para um pouco de aroma.

Setas não me encaminham. Conduzo
Os meus negócios cuidadosa e serenamente
Como um longo testamento que começou a ser escrito
no momento em que nasci.

Agora estou de pé ao lado da estrada
Fatigado, encostado a um parquímetro.
Posso aqui estar sem pagar, de graça.

Não sou um carro, sou uma pessoa,
Um homem-deus, um deus-homem
Que tem os dias contados. Aleluia.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Shabbat Shalom!

Walter Sobchak: I told those fucks down at the league office a thousand times that I don’t roll on Shabbos*!

Donny: What’s Shabbos?

Walter Sobchak: Saturday, Donny, is Shabbos, the Jewish day of rest. That means that I don’t work, I don’t get in a car, I don’t ride in a car, I don’t pick up the phone, I don’t turn on the oven, and I sure as shit DONT FUCKING ROLL!!! SHOMER SHABBOS!

Diálogo do filme The Big Lebowski (1998), escrito e realizado pelos irmãos Ethan Coen e Joel Coen.

*Shabbos: sábado, Shabbat em yiddish. Este post foi inspirado em dúvidas levantadas por alguns leitores relativas à observância religiosa do Shabbat, suscitadas pela edição desta semana de ShaBot6000.

Um novo poeta

Linda Pastan

Encontrar um novo poeta
é como encontrar uma nova flor silvestre
na floresta. Não vemos

o seu nome nos livro de botânica, e
ninguém, quando lhes contamos, acredita
na sua estranha cor ou na forma como

as suas folhas crescem em filas inclinadas
descendo a largura inteira da página. Na verdade
a própria página cheira a vinho

derramado e ao aroma do mar
num dia enevoado – o odor de verdade
e de mentir.

E as palavras são tão familiares,
tão estranhamente novas, palavras
que quase escrevemos nós próprios, se por acaso

nos nossos sonhos existisse um lápis
ou uma caneta ou até um pincel,
se por acaso existisse uma flor.

Linda Pastan, poeta contemporânea, judia norte-americana. Poema do livro Heroes in Disguise.

ShaBot6000: A Net


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Shabbat – Sábado, o dia de descanso semanal do judaísmo, durante o qual os judeus que cumprem escrupulosamente as leis religiosas estão proibidos de trabalhar ou de “fazer lume”. Modernas interpretações rabínicas equiparam a electricidade (e os motores de combustão, por exemplo – carros, etc.) ao fogo, vedando também a sua utilização durante o Shabbat.

Albert Einstein (1879-1955)

Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida. O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos. A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos. A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica. (…)

Existirá uma mundivisão judaica?
Por Albert Einstein


Uma mundivisão judaica, no sentido filosófico, no meu entender não existe. O Judaísmo, penso eu, refere-se quase exclusivamente a uma postura moral perante a vida.
O Judaísmo parece-me ser mais a essência da atitude perante a vida que reside no povo judeu do que a lei contida na Torá e interpretada no Talmude. Torá e Talmude são para mim apenas os testemunhos mais importantes da vigência da atitude perante a vida em tempos idos.
A essência da ideologia de vida dos judeus parece-me ser esta: A afirmação da vida de todas as criaturas. A vida do indivíduo só tem sentido no serviço de embelezamento e enobrecimento da vida em todos os seres vivos.
A vida é sagrada, isto é o valor máximo do qual dependem todas as outras avaliações. A santificação da vida supra-individual traz consigo a adoração de tudo o que é espiritual, um traço especialmente característico da tradição judaica.
O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu é uma negação da superstição, um resultado imaginário da sua negação. É também uma tentativa de basear uma lei moral no temor, uma tentativa lamentável. Mas parece-me que a forte tradição moral no povo judeu se soltou largamente deste temor. Também é manifesto que “servir Deus” foi equiparado a “servir o outro”. Para isso lutaram incansavelmente os melhores do povo judeu, especialmente os profetas.
Assim o Judaísmo não é, principalmente, uma religião transcendente, tendo só a ver com a nossa vida experienciada e por assim dizer palpável, e com nenhuma outra coisa. Parece-me por isso duvidoso que possa ser chamado uma “religião” no sentido corrente do termo, ainda porque não é exigido aos judeus nenhuma “fé”, só a santificação da vida no sentido supra-pessoal.
Mas encontra-se ainda algo mais na tradição judaica, que se revela esplendorosamente em alguns salmos, uma espécie de alegria embriagada e um espanto sobre a beleza e incompreensível sublimidade deste mundo, da qual o homem somente consegue alcançar uma fraca noção. É o sentimento de onde também a verdadeira investigação obtém a suas forças, mas que igualmente parece exprimir-se no canto dos pássaros. Isto parece-me ser o conteúdo mais sublime da ideia de Deus.
Será isto característico para o Judaísmo? Vive ele também sob outro nome? De forma pura não vive em nenhum lado, também não no Judaísmo, onde muito culto da letra obscurece a pura doutrina. Mas vejo mesmo assim no Judaísmo uma das suas realizações mais vitais e puras. Isto vale especialmente para o princípio da santificação da vida.
É notável que na oração da santificação do Shabbat também os animais são expressamente incluídos, tanta é a força e a exigência do ideal da solidariedade para com todo o ser vivo. Ainda mais, exprime-se a exigência da solidariedade de todos os homens, e não é um acaso que as doutrinas socialistas tiveram maioritariamente a sua origem em judeus.
O quanto da consciência da santidade da vida está viva no povo judeu, exemplifica-se muito bem numa pequena frase, que Walther Rathenau* uma vez me mencionou em conversa: “Se um judeu diz que vai à caça por prazer, está a mentir.” Não se pode exprimir de forma mais simples a consciência da santidade e solidariedade com a vida.

Albert Einstein (1879-1955), físico, judeu alemão.

Artigo de opinião escrito por Einstein a 3 de Agosto de 1932, traduzido do original alemão por Lutz Brückelmann (a quem agradeço a paciência e imensa gentileza com que atendeu o meu pedido).
O original pode ser visto aqui: página 1 e página 2.
* Sobre Walther Rathenau ver: Walther Rathenau – Wikipedia


Albert Einstein com David Ben Gurion, primeiro-ministro de Israel, em Princeton, 1948.

Ontem, 14 de Março de 2005, passaram 126 anos sobre o nascimento de Albert Einstein, um dos mais notáveis personagens da história humana. Com a tradução deste texto, mostra-se aqui uma das faces menos conhecidas de Einstein – o seu judaísmo muito particular.
Militantemente laico durante a maior parte da sua vida – tal como a esmagadora maioria dos judeus alemães da época –, o cientista sentiu sempre, contudo, uma profunda ligação cultural e emocional ao judaísmo. Nos últimos anos, no entanto, rejeitaria o ateísmo transformando-se em “judeu agnóstico”, admitindo a existência de um Criador que “não joga aos dados com o Universo”.
Sobre o seu judaísmo, Einstein escreveria ainda anos mais tarde: “A busca do conhecimento pelo conhecimento, um quase fanático amor à justiça e o desejo de independência pessoal – estas são as características da tradição judaica que me fazem agradecer às estrelas o facto de eu lhe pertencer.”
Apesar da sua manifesta oposição a qualquer forma de nacionalismo, Albert Einstein participou activamente no movimento sionista e defendeu abertamente a criação de um estado judaico na Palestina, “uma pátria nacional e cultural para o povo judeu onde os direitos dos árabes sejam também respeitados”. Em defesa da criação de Israel, Einstein chegou a depor, em 1946, perante o Comité Anglo-Americano de inquérito sobre a Palestina e quando, dois anos depois, a independência de Israel foi declarada, o cientista saudou-a como a “concretização de um sonho ancestral”.
Desde muito cedo, décadas antes da formação política de Israel, Einstein participou na recolha de fundos para a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém e foi também um dos propulsores da fundação de uma universidade judaica americana, a Brandeis University. Em testamento, Albert Einstein legou todo o seu espólio, bem como os direitos autorais sobre a sua obra e a sua imagem, à Universidade Hebraica de Jerusalém.
Em 1952, três anos antes da sua morte, Albert Einstein foi convidado pelo primeiro-ministro israelita David Ben Gurion a candidatar-se à presidência de Israel. Doente e frágil, Einstein sentiu-se obrigado a rejeitar o convite numa carta onde manifestava sentir-se “extremamente honrado e comovido” com o desafio de Ben Gurion.
Durante todo o ano de 2005, assinalando a passagem do centenário do annus mirabilis de Albert Einstein, durante o qual, com apenas 26 anos, publicou três artigos que mudariam radicalmente o pensamento científico, a comunidade cientifica mundial celebra o Ano Internacional da Física (ver World Year of Physics 2005 e Sociedade Portuguesa de Física).


Albert Einstein em viagem com os líderes sionistas Meachim Usishkin, Chaim Weizman, futuro primeiro presidente de Israel, e Theodor Herzl, o “pai do sionismo”.

::A LER:: אלברט איינשטיין – ויקיפדיה / Albert Einstein Archives Online / Jewish Virtual Library – Albert Einstein / Albert Einstein – Wikipedia (Inglês) / Albert Einstein – Wikipédia (português) / Albert Einstein – Wikipedia (Alemão) / Albert Einstein – Biography (Nobel.com) / Einstein – Image and Impact. AIP History Center exhibit. / Ben Gurion University – Einstein planting a tree in the young town of Migdal in Israel / Medalhas portuguesas comemorativas do centenário de Einstein / Albert Einstein Licensing

::A OUVIR:: Einstein fala sobre o destino dos judeus da Europa, a equivalência energia-massa e armas nucleares e a paz

::A VER:: Albert Einstein em Princeton, fala sobre a Universidade Hebraica de Jerusalém: Vídeo (formato mpg)


Einstein toca violino numa sinagoga de Berlim (1930)

Desinformação Almofadada

A ideia é simples e ao mesmo tempo estranha: armada com almofadas e travesseiros, uma multidão com mais de 500 pessoas juntou-se, como que instantaneamente, às 8:00h da noite de segunda-feira, na Praça Rabin, no centro de Tel Aviv, para uma batalha campal. O objectivo era desfazer as almofadas, rir alarvemente e descarregar o stress.
[ler ‘Flash Mob’ hits Tel Aviv; JewSchool – Pillow Fight!!; para quem lê hebraico ver também a notícia no Ha’aretz: קרב הכריות ההמוני הראשון הסתיים ללא נפגעים; mais fotos aqui: התמונות: מלחמת הכריות; e o folheto que convocou a gigantesca batalha de almofadas.]
A excentricidade desta festa de rua fez com que ela fosse notícia por todo o mundo. Mas como aconteceu em Israel, a notícia nunca poderia ser assim tão simples, como se pode atestar por um clip hilariante da televisão estatal do Dubai onde, perante a incapacidade de compreender uma flash mob sem quaisquer intuitos políticos, os “jornalistas” insistem que a batalha de almofadas foi “uma manifestação de colonos em protesto contra a decisão de Sharon de retirar de Gaza”. A “reportagem” pode ser vista aqui: Dubai TV Blooper: Report on Tel Aviv Pillow Fight’s Club Street Party. Já agora, atente-se num pormenor: logo no início, recusando mencionar Israel de forma directa, o pivot do noticiário diz que a “manifestação” ocorreu em “Tel Aviv, nas terras árabes ocupadas”.
Organizada pelo Tel Aviv Pillow Fight Club e inspirada nas flash mob, as batalhas de almofadas estão a correr o planeta: além de Tel Aviv, já aconteceram também pelo menos em Londres e Paris. Aqui, presume-se, sem “colonos” nem “protestos”.

Entretanto, outro tipo de multidão protesta agora no Iraque a escolha de um segundo dia de descanso nacional. A juntar à sexta-feira, o tradicional dia de repouso do islão, o governo decidiu que os trabalhadores iraquianos poderiam descansar também ao sábado. Porque protestam então? Porque o sábado é “o dia dos judeus”… e alegadamente a escolha do governo faz parte de uma imensa “conspiração sionista”. Não acreditam? Então vejam isto: LBC TV and Al-Alam – Iraqis Protest the Decision to Make Saturday a Day of Rest.
[ler também BBC NEWS-Iraqis march against Saturday]

Aniversariantes muito recomendáveis

Nas últimas semanas alguns dos meus blogs favoritos fizeram anos. O plural justifica-se sobejamente no caso do Crónicas Matinais, Umblogsobrekleist, Voz do Deserto e Días Estranhos, que celebraram o seu segundo ano de presença na blogosfera. A Desassossegada, mais nova mas não menos recomendável, fez um ano.
Espero não me ter esquecido de ninguém.

PS – By the way, thank you guys for the nice compliments. Another member of the tribe going directly to the Leituras column on the right.

“O que é que a Bacall faz aí em cima?”

A pergunta, formulada num email enviado por um amigo, merece uma resposta pública. A foto de Lauren Bacall no cabeçalho rotativo aqui da Judiaria foi a forma subtil que encontrei de assinalar o Dia Internacional da Mulher (8 de Março), mantendo a lógica das imagens que por lá têm passado – com o judaísmo como tema comum e unificador. Já lá estiveram (e voltarão a estar) Albert Einstein, o manuscrito Sefer Ha’mefoar, de Shlomo Molkho (Diogo Pires), Paul Newman (numa cena de Exodus), Woody Allen e agora Bacall (nascida com o nome de Betty Perske). Sim, Lauren Bacall, a mulher de Humphrey Bogart, é judia. Curiosamente, já agora, Bacall é prima direita do actual vice-primeiro-ministro israelita, e líder do Partido Trabalhista, Shimon Peres, cujo nome originalmente era Shimon Perske.

ShaBot 6000: O Marrano…


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Kashrut – Leis dietéticas judaicas, habitualmente conhecidas também como alimentação kosher.
Marranos – Judeus forçados a converterem-se ao catolicismo na península Ibérica, nos séculos XV e XVI. A designação – obtida pela contracção das palavras hebraicas márre (amargo) e anúze (forçado) – refere-se também aos seus descendentes, muitos dos quais optam agora pelo processo de conversão para “regressar” à sua religião ancestral.
Marrão – Calão (gíria) portuguesa. Diz-se de pessoas que estudam afincadamente. Vulgo nerd.

O homem que descalçou os sapatos

Levantei-me e os meus dois olhos viram isto:
Não sabia quem era o homem,
o seu nome, ou a sua complicada história.

Era uma manhã toda de ouro,
e este homem marchou até ao poste eléctrico
como se caminhasse para uma fronteira,
e ali descalçou os sapatos,
e deixando-os para trás, como num limiar,
começou a andar descalço,
algures para além deste ponto final,
em direcção a um princípio sem fim, lá longe:
sem casa, ou cama, ou seio:
sem um pão ou um jarro de água…
leve e de mãos vazias.

Vi os seus ombros largos,
a sua alta estatura, os seus viris passos
indo embora, indo daqui para as suas distâncias,
sem a memória dos seus sapatos,
que esperam por ele.

Uri Zvi Greenberg, (1896-1981), poeta israelita.

Borges dito por Borges

Inspirado pelo magnífico presente com que a Carla Hilário de Almeida Quevedo nos brindou ontem (ver e ouvir aqui: Ouvir Jorge Luis Borges. Borges e yo, de El Hacedor, 1960), vasculhei os arquivos da Judiaria e desencantei um post, que escrevi em Junho do ano passado, sobre o “judaísmo” de Borges.
Encontrei também umas gravações que resolvi colocar no server para partilhar com os leitores da Judiaria. São quatro poemas pela voz do próprio Mestre.

Borges dito (e comentado) por Borges: Fundación mítica de Buenos Aires / El General Quiroga va en coche al muere / Milonga de dos hermanos / Everness
(paciência, paciência… os ficheiros são grandes mas a recompensa é imensa)