Eli, Eli…

Meu Deus, meu Deus, que não acabem nunca
a areia e o mar,
o murmurar das águas,
os relâmpagos dos céus,
as orações dos homens.

אלי, אלי, שלא יגמר לעולם
החול והים
רישרוש של המים
ברק השמים
תפילת האדם

Hannah Szenes (1921-1944)

No Jardim Zoológico

O céu está cinzento com chuva que não cairá,
Nos carreiros de argila há poças de fantasmagórica neblina.
Empestada com imemorial tristeza,
A terra cinzenta drena a coragem de existir.

Pobres criaturas dos trópicos, encurraladas em terras do norte,
Eu também desejo o sol e sou escravo.
O meu coração está convosco,
Compreendo o leão que se volta vivo na sua sepultura.

Israel Zangwill (1864-1926), escritor, dramaturgo e poeta.
Judeu britânico nascido em Londres.

Mazel Tov Francisco!


A vida escondida. Há gente surpreendente, não damos nada por ela e um dia surpreendem-nos, viveram em lugares estranhos, caçaram leões, perderam-se a voltar para casa e nunca mais voltaram, conseguiram ler Saramago ou ganharam um prémio de literatura. Há sempre uma surpresa à nossa espera.”

Longe de Manaus, palavras de Jaime Ramos escritas por Francisco José Viegas (pág. 201)

Dos jornais: “O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores 2005 foi ontem atribuído ao livro “Longe de Manaus”, de Francisco José Viegas. Trata-se de um dos mais importantes prémios literários portugueses.” Confesso que esta foi a melhor notícia que li nos últimos tempos. Não é todos os dias que um amigo (por quem sempre “dei muito”, ao contrário da citação…) ganha um prémio. Não é todos os dias que um amigo ganha um prémio literário. O maior prémio da literatura portuguesa. Parabéns Francisco!


Tive um namorado que era da direção do Círculo de Cultura Judaica e que começou me ensinando hebraico em iluminuras portuguesas, letra a letra, ele em tronco nu (tinha uma tatuagem, eu lembro), numa cama de um hotel eu de calcinha e camiseta, pronunciando os erres com agá aspirado à mistura, lendo da direita para a esquerda, e então ele ia para junto da janela, São Paulo ao fundo, recortado como numa fotografia de Nova Iorque, e então ele recitava, recitava em hebraico e traduzia. Vestia camisas de flanela e era bom de cama, me levava a restaurantes para comer camarão e frutos do mar, que lhe estavam proibidos, e eu gostava disso. Ele pecava comigo e eu era toda pecado. Mas depois acabou, não me lembro o mês do ano, lembro só que acabou. Ele me dizia que eu tinha o perfume do mel. Era mentira. Devia ser. Perfume de mel é enjoativo. Eu não sou enjoativa, eu sei. A gente se prometeu que nunca terminaria por telefone, pelo menos isso. A gente se promete sempre isso, a gente vê sempre isso nos filmes e diz isso em quartos de hotéis e mesmo na véspera das despedidas. Mas ele telefonou num primeiro domingo cancelando o encontro. Depois telefonou noutros dias cancelando outros encontros. Foda. Vida é foda mesmo. Homens não assim tão interessantes. Não são assim tão inteligentes. Meu nome é Daniela. Sou uma garota urbana, trinta e dois anos, e acho que homens maravilhosos só existem mesmo na literatura, onde não há desperdício de amor. Mas se desperdiça bastante, na vida real. Muito, bastante, de mais.”

Longe de Manaus, Francisco José Viegas (págs. 334 e 335)

Yeroushalaim (ירושלים)

Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Junto aos rios da Babilónia
Nos sentámos e chorámos
Lembrando Sião.
Lá nos salgueiros
Pendurámos nossas liras.

Se de ti me esquecer, ó Jerusalém,
Que mirre a minha mão direita,
Que a minha língua se quebre,
Se de ti me não lembrar,
Se não preferir Jerusalém
À minha maior alegria.

Salmo 137

::PARA OUVIR::
Ofra HazaYerushalayim Shel Zahav (Jerusalém de Ouro)

Stanley Kunitz 1905-2006

Era um dos mais brilhantes e constantes poetas americanos do último século. Stanley Jasspon Kunitz, nascido a 29 de Julho de 1905 na cidade de Worcester, Massachusetts, o terceiro filho do alfaiate Solomon Kunitz e de Yetta Jasspon Kunitz, morreu no domingo passado em Nova Iorque com 100 anos de idade. Contam os obituários que começou a escrever poesia a sério por volta de 1926, altura em que iniciava em Harvard um doutoramento que não havia de concluir. Um ano depois, disseram-lhe que nunca lhe ofereceriam uma posição de professor na universidade porque os estudantes anglo-saxonicos ficariam ofendidos por terem um judeu a ensinar-lhes literatura inglesa.

A Aproximação a Tebas

Filhos, netos, a minha longa posteridade,
A quem lego as aranhas da minha poeira,
Acreditem-me, por mais histórias que vos contem,
Ditas por médicos ou mendazes escribas,
De loucuras imberbes, de consanguínea luxúria,
Instigando pestilência, rebelião, guerra,
Eu vim preparado, presente no que vejo,
Mas amarrado à vida. Na estrada para Tebas
Tive a minha sorte, conheci um monstro encantador,
E a história é esta: do monstro fiz-me a mim.

Kunitz escrevia devagar. Fazia-o habitualmente numa velha máquina de escrever portátil, muitas vezes agarrando-se a um poema durante anos a fio até o dar como terminado. Preferia trabalhar à noite; o dia reservava-o para outras paixões, a maior das quais a jardinagem. Em entrevista à revista People, Kunitz insistia que o segredo da sua longevidade estava na sua atitude perante a vida: “Sou curioso. Sou activo. Faço jardinagem, escrevo e bebo martinis.”
No ano passado, por ocasião do seu 100o aniversário, Kunitz confessava ao New York Times que se reconciliara com a morte e que pouco se preocupava com o seu legado: “Imortalidade? Não é nada que me faça perder o sono. A minha mais profunda certeza é que estou a viver e a morrer ao mesmo tempo, e a minha convicção é relatar este diálogo.”

O Longo Barco (excerto)

(…)
Paz! Paz!
Ser embalado pelo Infinito!
Como se não importasse
qual fosse o caminho para casa;
como se ele não soubesse
amava tanto a terra
queria ficar para sempre.

::A VER E OUVIR:: The Academy of American Poets – The Portrait (poema dito por Stanley Kunitz) / Online NewsHour: Stanley Kunitz speaks with Elizabeth Farnsworth.- October 26, 2000 (vídeo) / NPR – All Things Considered: The Layers (entrevista com Kunitz. A página contém ainda um dos seus mais célebres e notáveis poemas, The Layers)

::A LER:: A Zanga (tradução minha de um poema de Stanley Kunitz, publicado na Rua da Judiaria por ocasião dos seus 100 anos) / The Academy of American Poets – Stanley Kunitz / Books & Writers: Stanley Kunitz / Poet: Stanley Kunitz – All poems of Stanley Kunitz / Stanley Kunitz – Wikipedia, / New York State Writers Institute – Stanley Kunitz


Stanley Kunitz, fotografado por Marnie Samuelson, em 2003, no jardim da sua casa de férias, em Provincetown. Poeta e professor, Kunitz era um dos mais consagrados poetas americanos. Faleceu a 14 de Maio de 2006, dois meses antes de completar 101 anos de vida.

Castelos

Castelos –
Castelos de ferro e granito,
Castelos de mármore e malaquita,
Castelos de bronze e aço e ouro,
Castelos e castelos incontáveis.

Castelos –
Bibliotecas e museus,
Monumentos e mausoléus,
Templos, igrejas, catedrais,
Todos os castelos
Desmoronam!

Mas os meus castelos,
Construídos de nostalgia,
Buscando de dia, ardendo de noite,
De desejo, de esperança
De espera, de busca,
Tecido, fiado
De longínqua lua, de sol distante,
Dos meus desejos
Sem fraquejar,
Todos os meus castelos, todos, todos, todos,
Não podem nunca desmoronar!

Aaron Glanz-Leyeless (1889 – 1966). Pedagogo, linguista e poeta. Judeu polaco.

Traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês da autoria de Benjamin and Barbara Harshav.

Exercícios de memória

“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim

Já não escrevo, decoro. Construo o livro todo na cabeça.”

As palavras são de Antonio Tabucchi, numa conversa deliciosa com Carlos Vaz Marques. Uma entrevista que irá para o ar na TSF de hoje a uma semana, às 19:00h de quinta-feira, dia 18.
Na entrevista, do programa “Pessoal e… transmissível”, Tabucchi relata que o seu último conto foi recentemente remetido à memória no Alentejo. São cinco páginas, ainda inéditas, recitadas para o papel sem apontamentos, sem notas escritas. É um conto sefardita: “Chama-se Yo m’enamori d’un aire e começa com uma canção sefardita, meia portuguesa e meio espanhola, que fala de um homem que está apaixonado por uma rapariga que se desvanece no ar. Isto refere-se às perseguições dos judeus na península Ibérica no princípio do século XVI”, diz Tabucchi. Nele é contada a história de um regresso. Um descendente de judeus portugueses volta a Lisboa, caminha pelo Jardim Botânico e pelo Príncipe Real. Vem de um “sitio muito longínquo” buscando os lugares dos seus antepassados. “Ele não fala a língua dos seus antepassados, nem espanhol nem português, mas lembra-se de uma canção que ouvia cantar quando era criança.” O resto da história pode ser ouvido neste excerto da entrevista gentilmente cedido por Carlos Vaz Marques: Pessoal e… transmissível: Antonio Tabucchi.

::PARA OUVIR::
“Yo m’enamori d’un aire”, Parvarim


A canção em ladino que inspira o conto de Tabucchi

A ENTREVISTA:

::NOTA:: A entrevista completa por ser ouvida também em formato podcasting em TSF Pessoal e… transmissível (feed xml).
Obrigado Carlos por teres permitido aos leitores da Rua da Judiaria a audição antecipada deste excerto da entrevista.

Catarina Dias, a Purgatória

Ruy Ventura

cantava, nesse tempo,
a oração dos mortos,
ligando no tear
os fios da memória –

devolvia a água
à raiz da oliveira
para que o sangue
pudesse alimentar
a luz (e as sombras)
dessa terra –

lançava sobre o lume
o sabor e a sabedoria
para que o fermento
envolvesse a solidão –

bebia na fonte
o brilho da pedra,
guardando no cântaro
a angústia das palavras –

guardava no peito
o fogo e a fuga,
o leito que um dia
fechara a garganta –

– quando vieram, sem sombra,
impor sobre o corpo esse peso
sem vida

e a vestiram de noite,
embora fosse branco
o hábito perpétuo.

Ruy Ventura

Este poema foi-me enviado pelo autor, escrito em memória de uma antepassada judia, condenada pelo tribunal da Inquisição de Évora.

Nota – Catarina Dias, a Purgatória foi uma judia do século XVIII residente em Castelo de Vide. Foi condenada pela Inquisição de Évora a usar o chamado “sambenito”. Outros familiares seus foram queimados em auto-de-fé no Rossio de São Brás, na capital da então província de Entre-Tejo-e-Odiana.
Ruy Ventura acrescenta no seu blog, Estrada do Alicerce:
“Ao construir a minha árvore genealógica, deparei-me com um nome estranho: Catarina Dias, a Purgatória. Tentei investigar de onde viria essa designação. Achei Catarina membro da família Narigão (de Castelo de Vide) que, em conjunto com os Tirados, fora severamente atormentada pelos sequazes da Inquisição. Catarina estava incluída no número dos sofredores: embora não tivesse visto as suas cinzas misturadas à terra do Rossio de São Brás de Évora, local de autos-de-fé, fora obrigada a usar durante toda a vida o odioso “sambenito “. Daí o alcunha.”

500 Anos: O massacre de Lisboa III

Garcia de Resende

Testemunhos

Vi qẽ em Lixboa se alçaram
Pouo baixo & villãos
Contra os nouos Christãos
Mais de quatro mil matarã
Dos qẽ ouuerão nas mãos.
Hũos delles viuos queimarã
Mininos espedaçarão
Fizerão grandes cruezas
Grandes roubos & vilezas
Em todos quantos acharão.

Estando só ha cidade
Por morrerem muito nella
Se fez esta crueldade
Mas el rey mandou sobrella
Cõ muy grande breuidade
Muitos forão justiçados
Quantos acharão culpados
homẽ baixos & bragantes
& dous frades observãtes
vimos por isso queimados.

El rey teue tanto a mal
Ha cidade tal fazer
Qẽ o titulo natural
De noble & sempre leal
Lhe tirou & fez perder.
Muytos homens castigou
& officios tirou
depois que Lixboa vio
tudo lhe restituyo
& o titulo lhe tornou

Garcia de Resende (1470 – 1536), in Miscellania & Variedades de Histórias, costumes, casos & cousas que em seu tempo aconteceram, escrito entre 1530 e 1533, e publicado após a sua morte, em 1554.

ADENDA: Renovo mais uma vez o desafio feito antes aqui: que no dia 19 de Abril vão à Baixa de Lisboa e no Rossio acendam uma vela simbólica por cada uma das vítimas. Quatro mil velas que iluminem a memória.

New York

Aaron Glanz-Leyeless

Uma muralha.
Uma densa muralha de costas humanas, braços, pernas.
Uma amurada cinzenta com redondas manchas.
Um exército derrotado numa caverna, antes das manobras,
Esperando que se abram as portas.

Não como jaulas abertas, em tumulto.
Não como pedras arrancadas do chão.
O exército antecipa
O tortuoso oscilar do metropolitano
Rumo à estação

Portas a menos.
Portas a menos.

Lá dentro – comprimidos
Em pé e sentados –
Muralha, muralha,
Braços, costas,
Rostos, pernas –
Um reino por um assento!
Um reino por uma argola!
As muralhas crescem,
Espessas, apertadas, densas,
Faces cinzentas, tensas.

Entrei!
As portas cerram-se.
Tremor.
Um nó vivo:
Contido, reprimido, ameaçando clamor.

Denso, ainda mais denso,
Amargo, ilusório,
Contundente, tenso –
Para descansar, jantar e cinema.

Aaron Glanz-Leyeless (1889 – 1966). Pedagogo, linguista e poeta Judeu polaco.

Traduzido para português a partir da tradução do yiddish original para o inglês da autoria de Benjamin and Barbara Harshav.

Blasfémia

Yehuda Amichai

Olho por olho,
O teu corpo pelo meu.
Abertos:
A Arca, o teu mistério
A minha boca.

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Um poema “blasfemo” de Amichai, ideal para assinalar aqui o segundo aniversário do Blasfémias, um blog incontornável, polémico, irreverente, bem escrito e, por vezes, deliciosamente irritante. Que dure por muitos e bons anos. Parabéns! מזל טוב

Novos Poemas: O Estrangeiro

Heinrich Heine

Tive uma pátria bela há muito tempo.
Os carvalhos pareciam
Tão altos e o aroma das violetas era tão doce.
Era um sonho.

Ela beijava-me em alemão, falava em alemão
(Custa acreditar
Como soava tão bem) a palavra: “Amo-te!”
Era um sonho.

Heinrich Heine (13 de Dezembro de 1797 – 17 de Fevereiro de 1856), poeta. Judeu alemão.

Hoje, dia 17, celebram-se 150 anos sobre a morte de Heinrich Heine, considerado o maior poeta alemão depois de Johann Wolfgang Von Goethe. Aconselho uma passagem pelo blog de Nathanael Robinson, seguindo as sugestões de leitura propostas: The Rhine River: Germany since Heine.

Poemas Dinamarqueses

Emmanuel Moses

Gostava de ser dinamarquês
viver na luz dinamarquesa
ver da minha janela um prado dinamarquês
onde vacas dinamarquesas pastam
um rio dinamarquês
e ao longe um moinho dinamarquês.

No inverno, a filosófica neve dinamarquesa
crepitaria sob as minhas solas
e no verão, moscas dinamarquesas
poriam um gordo ponto final
aos meus poemas dinamarqueses.

Emmanuel Moses, poeta israelita.
Poema do livro Le Present (1999).

Metade da gente do mundo

Yehuda Amichai

Metade da gente do mundo ama a outra metade,
metade da gente odeia a outra metade.
Por causa desta e daquela metade terei eu de vaguear
e me transformar incessantemente como chuva no seu ciclo,
terei eu de dormir entre rochas, tornar-me áspero
como os troncos das oliveiras,
e ouvir a lua uivar para mim,
e camuflar o meu amor com receios,
e brotar como erva assustada entre os carris
do caminho de ferro,
e viver submerso como uma toupeira,
e quedar-me com raízes mas sem ramos,
e não sentir a minha face contra a face de anjos, e
amar na primeira caverna, e casar com a minha mulher
sob uma abóbada de vigas que sustentam a Terra,
e expressar a minha morte, sempre até ao último sopro e
às últimas palavras e sem nunca compreender,
e colocar mastros sobre o telhado da minha casa
e um abrigo antiaéreo debaixo dela.
E ir apenas para regressar e passar por todos os lugares –
gato, pau, fogo, talhante, entre o cabrito e o anjo da morte?
Metade da gente ama,
metade da gente odeia.
E qual é o meu lugar entre tais iguais metades,
e por que fenda verei eu o bairro de casas
brancas dos meus sonhos e as pegadas nuas
na areia ou, pelo menos, o lenço da mulher que acena
junto às dunas?

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.