Acção de Graças

David Abenatar Melo

No inferno metido,
Da Inquisição dura,
Entre os cruéis leões do capricho,
De ali me redimiste,
Dando a meus males cura,
Só porque arrependido me viste.

David Abenatar Melo (século XVI), poeta, filósofo e teólogo.
Judeu “marrano” português, nascido no Alentejo, em Fronteira, distrito de Portalegre, com o nome de baptismo de Fernão Álvaro Melo. Preso e torturado por diversas vezes pela Inquisição de Évora, foge para a Holanda em 1613, onde anos mais tarde se torna rabino da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão.

Amanhã

anónimo

Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não. Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.

Autor anónimo. Poema encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças do campo de extermínio nazi de Auschwitz.

[A partir da tradução do yiddish original para inglês da autoria de Joseph Leftwich.]

100 anos: Parabéns Stanley Kunitz

A zanga

A zanga

A palavra que disse em raiva
pesa menos que uma semente de salsa,
mas por ela passa a estrada
que leva à minha sepultura,
naquele talhão comprado
nas encostas salgadas de Truro
onde os pinheiros dominam a baía.
Estou já meio-morto que chegue,
desviado da minha própria natureza
e da minha força de viver.
Se pudesse chorar, chorava.
Mas sou velho demais para ser
a criança de alguém.
Liebchen,
com quem me vou zangar
senão nos murmúrios do amor,
essa chama áspera e irregular?

Stanley Kunitz, poeta e professor. Judeu norte-americano. Kunitz, um dos mais consagrados poetas americanos vivos, completou 100 anos de vida no passado dia 29 de Julho.

::A LER e OUVIR:: The Academy of American Poets – The Portrait, um dos poemas autobiográficos mais marcante de Kunitz, lido pelo próprio poeta.

O meu compatriota

Antoni Slonimski

Este homem, que a sua própria pátria esquece
Quando de sangue Checo derramado ouve,
Que, como um irmão, pela Jugoslávia padece,
Que com o povo da Noruega partilha as dores.

Que com a mãe Judia aperta as suas mãos
Em pesar com ela se curva sobre os seus mortos,
Que é Russo, quando a Rússia cai e sangra,
E com os Ucranianos pela Ucrânia chora.

Este homem, com um coração que a todos sente,
Francês, quando a França sofre em cativeiro,
Grego, quando a Grécia em frio e fome sucumbe
Ele é o meu irmão-homem. Ele é a Humanidade.

Antoni Slonimski (1895 -1976), poeta e tradutor. Judeu polaco.
[A partir da tradução do polaco original efectuada por Frances Notley.]

London Poets

Amy Levy

(In Memoriam)

They trod the streets and squares where now I tread,
With weary hearts, a little while ago;
When, thin and grey, the melancholy snow
Clung to the leafless branches overhead;
Or when the smoke-veiled sky grew stormy-red
In autumn; with a re-arisen woe
Wrestled, what time the passionate spring winds blow;
And paced scorched stones in summer:–they are dead.

The sorrow of their souls to them did seem
As real as mine to me, as permanent.
To-day, it is the shadow of a dream,
The half-forgotten breath of breezes spent.
So shall another soothe his woe supreme–
“No more he comes, who this way came and went.”

Amy Levy (1861 – 1889), escritora e poeta. Judia britânica.

::NOTA:: Ao contrário do que é habitual na Rua da Judiaria, este poema não foi traduzido propositadamente. É publicado no original inglês em memória das vítimas dos atentados ocorridos em Londres, faz hoje exactamente uma semana.

Dois poemas de Nissim Ezekiel

Nissim Ezekiel


Vida

Na presença da morte,
recorda,
não te consoles,
aqui só há morte,
vida só

Poema Cartaz

Nunca fui um refugiado
A não ser do espírito,
um país amado e perturbado –
o meu lar e o meu inimigo.

Nissim Ezekiel (1924-2004), poeta e dramaturgo. Judeu indiano.

Autodefesa

Santob de Carrion

O meu cabelo cinza com cuidado tinjo,
Não que lhe odeie o tom,
Nem sequer porque finjo
Ser mais jovem do que na verdade sou

Mas isto faço por palavras que temo
De homens a quem quero bem,
Que procuram na minha branca cabeça
Sabedoria que ela não tem.

Santob de Carrion [Shem Tov ben Isaac ibn Ardutiel] (século XIV), poeta, escritor e filósofo. Judeu castelhano nascido na cidade de Carrion de los Condes.

A beleza das estrelas

Moisés ibn Ezra

Contemplo a beleza das estrelas
que cobrem a face dos céus,
Imagino-as como um jardim em flor –
Até que a alva alba sobe, como pomba,
Debaixo das asas de um corvo
Que esvoaça para longe.

Moisés ibn Ezra (1070-1138), filósofo, linguista e poeta medieval. Judeu de Granada.

O fim do homem é a morte

Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra

Olho para o mundo – e ele
assemelha-se a um jardim
com as suas crianças de permeio,
como erva.
Alguns, cuja memória é como a fragrância
do bálsamo,
e outros, cujos rebentos são como feno.
Mas sobre todos a Morte empunha
a sua foice,
e a sepultura guardará esta colheita.

Contemplo os túmulos de outras eras, de
dias antigos,
onde pessoas dormem o eterno sono.
Não há inimizade entre estas gentes
– não há inveja;
Não há amor nem há ódio;
E o meu pensamento, vislumbrando-os,
falha em discernir o mestre do escravo.

Onde estão todos os túmulos de todos os homens
que morreram na terra desde os dias de outrora?
Uma sepultura é cavada sobre outra,
e corpos são enterrados sobre corpos;
em buracos na terra eles jazem juntos –
os pedaços de cal e as pedras preciosas.

Moisés ben Jacob Ha-Sallah ibn Ezra (conhecido em árabe como Abu Harun Musa) (1070-1138), judeu de Granada. Filósofo, linguista e poeta medieval.

Em memória de Eugénio de Andrade e Álvaro Cunhal.

Jerusalém – ירושלים

Yehuda Amichai

Estava eu um dia sentado na escadaria junto às portas da Cidadela de David, depois de pousar duas pesadas cestas ao meu lado. Um grupo de turistas em redor do seu guia fez de mim um ponto de referência. “Estão a ver aquele homem ali com dois cestos? À direita da sua cabeça está um arco do período romano. Um pouco à direita da sua cabeça.” “Mas ele está a mexer-se!” Eu disse para mim próprio: a redenção só chegará quando lhes disserem: “Estão a ver aquele arco romano? Não importa, mas ao pé dele, um pouco para a esquerda e depois um pouco abaixo, está um homem que acabou de comprar fruta e vegetais para a sua família.”

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Livro de Orações

Aharon Shabtai

Há anos que quero escrever um livro de orações
Porquê? Porque aprendi
que o sólido se suspende em nada
Porque descobri que a frase é uma espécie de súplica
e porque descobri que em tudo o que disse,
em tudo o que disse, disse apenas obrigado
assim, pouco a pouco,
na verdade, escrevi já este livro
e hoje pesa quase noventa quilos
e em breve fará cinquenta anos
e ontem comprei-lhe sapatos.

Aharon Shabtai, poeta israelita contemporâneo.

Katerina moça

Luís Henriques

Qu’achaste ó “ahanim”,
que vos assim namorou?
rezar bem o “tafalim”?
ou com que vos “çabacou”?
Eu jurar por minha lei
ou polos dez mandamentos?
ou dizer – viva el-rei!
Como sei
em seus estrevançamentos?

Em rezar o “baracha”
ou de que fôstes contente
ou em ser mui diligente
quando vão a “minaha”.
Em guardar bem o “sabá”
ou cheirar-vos à “defina”?
Como fôstes tam mofina
Katerina
Sobre serdes muito má.

Quando vier comer
que for o partir do pão
dir-vos ha ũ oração
sabê-lhe vós responder:
“Baru ata Adonai Eloheno”
Sam palavras que diz
Amoça “lecha minariz”
lhe respondêres, e peno,
pois meu bem foi tam pequeno.

Luís Henriques (finais do século XV), poeta e fidalgo da Casa de Bragança.
Esta estança, curiosamente recheada de palavras e frases hebraicas, foi escrita após Catarina, a sua amada “cristã-nova”, ter trocado Henriques por um judeu.
in Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516)

Sem título

Abraham Joshua Heschel

Quando vagueio por avenidas
De poemas, de visões deslumbrantes –
Comprimo nesse precioso espaço
Os meus jovens segredos crus.

Não quero cobrir com cartazes de Deus
As esquinas abertas das ruas,
Mas celebrar o aniversário da eternidade
No minúsculo recanto de cada momento.

Quero construir – velha amostra
Das vindimas do meu espírito –
Vinho verbal para gerações longínquas
No mais fresco abismo de um poema.

Abraham Joshua Heschel, (1907–1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

Fadensonnen

Paul Celan

Acima dos dejectos cinza e negros.
Uma árvore –
elevado pensamento
capta os tons da luz: há ainda
canções para cantar além
da humanidade.

Paul Celan (1920-1970), pseudónimo de Paul Antsche. Poeta, ensaísta e tradutor. Judeu de origem romena.

Borges: A Israel no dia do seu aniversário

Jorge Luis Borges

Israel

Um homem encarcerado e enfeitiçado
um homem condenado a ser serpente
que guarda um ouro infame,
um homem condenado a ser Shylok,
um homem que se inclina sobre a terra
e sabe que esteve no Paraíso,
um homem velho e cego que há de destruir
as colunas do templo,
um rosto condenado a ser máscara,
um homem que apesar dos homens
é Spinoza e o Baal Shem e os Cabalistas,
um homem que é o Livro,
um homem que louva do abismo
a justiça do firmamento,
um advogado ou um dentista
que dialogou com Deus na montanha,
um homem condenado a ser o escárnio,
a abominação, o judeu,
um homem lapidado, incendiado
e atirado em câmaras letais,
um homem que se obstina em ser imortal
e que agora voltou à sua batalha,
à violenta luz da vitória,
formoso como um leão ao meio-dia.

Jorge Luis Borges, Elogio de la sombra (1969)