Abraham Lopes Cardozo צ”ל


Rabino Abraham Lopes Cardozo (1914-2006), responsável pela preservação da tradição musical dos judeus portugueses, faleceu na terça-feira, em Nova Iorque, aos 91 anos.

Para Ouvir:

Abraham Lopes Cardozo: Mizmor le-David

O rabino Abraham Lopes Cardozo, hazzan emérito da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque e reconhecido pelos seus esforços na preservação da música tradicional dos judeus portugueses da Diáspora, morreu na passada terça-feira, dia 21 de Fevereiro, aos 91 anos de idade. Lopes Cardozo faleceu num hospital de Manhattan, em Nova Iorque. Abraham Lopes Cardoso foi responsável pela condução musical dos serviços litúrgicos da sinagoga portuguesa de Manhattan, Shearith Israel – a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos, fundada em 1654 – entre 1946 e 1984, altura em que se reformou.
Nascido a 27 de Setembro de 1914, o rabino Abraham Lopes Cardozo era descendente de uma longa linha de rabinos e músicos da comunidade de judeus portugueses de Amsterdão. O seu bisavô, o lendário rabino David Lopes Cardozo (1808-1890), foi o último líder espiritual da comunidade de Amsterdão a fazer os sermões de Shabbat integralmente em português. O pai do rabino Abraham, Joseph Lopes Cardozo – morto no campo de concentração de Sobibor em 1943 -, era músico, foi maestro do coro de rapazes da Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e cantor durante o Santo Serviço (o nome ainda hoje dado pelos judeus sefarditas holandeses à liturgia de Shabbat).
Abraham Lopes Cardozo prosseguiu a longa tradição rabínica e musical familiar, primeiro na Sinagoga Portuguesa de Amsterdão e posteriormente na Nederlandsch Portugeesch Israelietsch Gemeente Zedek Ve-Shalom, a congregação de judeus portugueses de Paramaribo, Suriname, nas Antilhas Holandesas, e em Nova Iorque, onde acabou por se fixar em 1946. Grande parte da sua família pereceu no Shoá. Em 1940, quando o exército nazi invadiu a Holanda, Abraham Lopes Cardozo estava já no Suriname. O seu irmão Arie Lopes Cardozo foi capturado em 1941, pouco tempo antes dos seus pais e do seu irmão mais novo, Ies, deportado no dia do seu casamento, a 26 de Maio de 1943. Nenhum deles sobreviveu aos campos de extermínio. Reformado oficialmente desde 1984 das suas funções de hazzan da Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque, o rabino Abraham Lopes Cardoso continuou até ao fim da sua vida empenhado em perpetuar a tradição musical dos judeus sefarditas portugueses, compilando várias colecções de edição restrita. Em 2000 foi condecorado pela coroa holandesa com o título de Cavaleiro da Ordem de Oranje Nassau, pelo seu trabalho de preservação cultural. A mesma condecoração tinha sido em tempos conferida ao seu avô.
Em 2004, Abraham Lopes Cardozo gravou em Israel aquele que é considerado o maior registo da tradição musical dos judeus portugueses, num CD intitulado “The Western Sephardi Liturgical Tradition as Sung by Abraham Lopes Cardozo”, editado pelo Centro de Estudos de Música Judaica da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Abraham Lopes Cardozo foi enterrado ontem, dia 22 de Fevereiro, no cemitério da comunidade de judeus portugueses, em Manhattan.

Os assassinos da Memória

Um depoimento de Elie Wiesel


Elie Wiesel fotografado por William Coupon.


(…) Devo dizer desde já que não sinto qualquer ódio pelo acusado. Nunca o conheci; os nossos caminhos nunca se cruzaram. Mas conheci assassinos que, como ele, com ele, escolheram ser inimigos do meu povo e da humanidade. Posso ter conhecido algumas das suas vítimas. Eu assemelho-me a eles, da mesma forma que eles se assemelhavam a mim. Dentro do reino de maldição criado pelo acusado e pelos seus camaradas, todos os prisioneiros judeus, todos os judeus, tinham o mesmo rosto, os mesmos olhos; todos partilhavam o mesmo destino. Às vezes dava a impressão que o mesmo judeu era morto pelo inimigo seis milhões de vezes.
Não, em mim não há ódio: nunca houve ódio. Não é de ódio que se trata aqui – mas de justiça. E de memória. Tentamos fazer justiça à nossa memória.
Aqui vai uma memória: a da Primavera de 1944. Poucos dias antes das festividades pentecostais judaicas – Shavuot. Eu tinha 15 anos. Uma criança profundamente religiosa, eu era movido por sonhos messiânicos e orações. Longe de Jerusalém, eu vivia por Jerusalém e Jerusalém vivia em mim.
Apesar do regime fascista, os judeus da Hungria não tinham sofrido ainda muito. Os meus pais tinham uma loja, as minhas três irmãs iam à escola, o Shabbat envolvia-nos em paz… a guerra? Essa estava à beira do fim. Os Aliados estavam prestes a desembarcar. O Exército Vermelho estava a 20 ou 30 quilómetros. Mas foi então…
Os alemães invadiram a Hungria a 19 de Março de 1944. A partir dai os acontecimento evoluíram a um passo tão rápido que não nos deixou respirar. Uma sucessão de decretos antisemitas foram passados: a proibição de viajar, a confiscação de bens, a obrigatoriedade de usar a estrela amarela, os guetos, as deportações.
Nós olhávamos impotentes à medida que o nosso mundo encolhia sistematicamente. Para os judeus, o país foi limitado a uma cidade, a cidade a um bairro, o bairro a uma rua, a rua a um quarto, o quarto a um vagão selado que de noite atravessava os campos polacos.
Tal como as 44 crianças judias de Izieu (deportadas para Auschwitz em 1944), os adolescentes judeus da minha terra chegaram tarde à estação de Auschwitz. O que era isto? Perguntámo-nos. Ninguém sabia. O nome não evocava em nós qualquer memória. Pouco depois da meia noite o combóio começou a mover-se. Uma mulher no nosso vagão gritou, “vejo fogo, vejo fogo!” Fizeram-na calar. Lembro-me do silêncio no vagão. Lembro-me do resto. As vedações de arame farpado até ao infinito. Os gritos dos prisioneiros cujo dever era dar-nos as “boas-vindas”, os tiros disparados pelas SS, o ladrar dos seus cães. E sobre nós, sobre o próprio planeta, chamas imensas erguiam-se para o céu como se o consumissem.
Desde essa noite, quando olho para o céu vejo-o frequentemente em chamas… mas nessa noite não podia olhar para o céu por muito tempo. Estava ocupado a agarrar-me à minha família. Ouviu-se uma ordem: “Alinhem-se por famílias.” Eram bom, pensei eu, vamos ficar juntos. Passados uns minutos: “Homens para a direita, mulheres para a esquerda.” Choviam pancadas de todos os lados. Não fui capaz de me despedir da minha mãe. Nem da minha avó. Nem de beijar a minha irmã mais nova. Com as minhas duas irmãs mais velhas ela afastava-se, arrastada pela desvairada maré negra…
Esta foi uma separação que cortou a minha família ao meio. Raramente falo dela, quase nunca. Não consigo pensar na minha mãe ou na minha irmã pequena. Com os meus olhos, ainda as procuro. Irei sempre procurá-las. No entanto, eu sei… Eu sei tudo. Não, tudo não… não se pode saber tudo. Podia imaginá-lo, mas não o quero fazer. É preciso saber parar… O meu olhar estanca à entrada das câmaras de gás. Mesmo em pensamento, eu recuso violar a privacidade das vítimas no momento da morte.
O que vi chega-me. Numa pequena floresta algures em Birkenau eu vi crianças serem atiradas vivas para as chamas pelas SS. Às vezes maldigo a capacidade de ver. Devia ter-me deixado sem nunca voltar. Eu devia ter ficado com aqueles pequenos corpos carbonizados… Desde essa noite, eu passei a sentir um profundo e imenso amor pelas crianças e pelos idosos. Cada idoso faz-me lembrar o meu avô, a minha avó, cada criança recorda-me a minha pequena irmã, a irmã das crianças judias mortas de Izieu…
Noite após noite, continuei a interrogar-me – o que significa tudo isto? Qual é o sentido desta indústria assassina? Funcionava perfeitamente. Os assassinos matavam, as vítimas morriam, os fogos ardiam e um povo inteiro ansioso por eternidade transformava-se em cinzas, aniquilado por uma nação que, até então, era considerada a mais instruída, a mais culta do mundo. Diplomados pelas melhores universidades, amantes de música e pintura, médicos, advogados e filósofos participaram na Solução Final e tornaram-se cúmplices da morte. Académicos e engenheiros inventaram métodos mais eficientes para exterminar massas em tempo recorde… Como foi isto possível?
Não sei a resposta. Na sua extensão, no seu aspecto ontológico e nas suas ambições escatológicas, esta tragédia desafia e excede todas as respostas. Se alguém reclamar ter uma resposta, essa só pode ser falsa. Tanto luto, tanta agonia, tantas mortes de um lado e uma simples resposta do outro? Não se pode perceber Auschwitz nem com Deus nem sem Deus. Não se pode perceber nos termos dos homens ou dos céus. Porque havia tanto ódio para com crianças e velhos judeus? Para quê esta crueldade contra um povo cuja memória de sofrimento é a mais antiga do mundo?
(…) Sim, um mundo maldito onde se falava outra linguagem, onde uma nova religião era proclamada: uma religião de crueldade, dominada pela desumanidade; uma sociedade que evoluíra do outro lado da sociedade, do outro lado da vida, do outro lado da morte talvez; um mundo onde um pequeno pedaço de pão valia todos os ideais, onde um adolescente uniformizado tinha poder absoluto sobre milhares de prisioneiros, onde seres humanos pareciam pertencer a outra espécie, tremendo perante a morte, que tinha todos os atributos de Deus…
Como judeu, é impossível para mim não sublinhar o sofrimento do meu povo durante o seu tormento. Peço que não vejam nisto qualquer tentativa de negar ou minimizar o sofrimento das populações dos países ocupados ou a tortura sofrida pelos nossos camaradas, os nossos amigos cristãos ou ateus a quem o inimigo comum puniu com uma brutalidade imperdoável. Como se fossem nossos irmãos? Eles são nossos irmãos.
É impossível para mim, como judeu, deixar de sublinhar que, pela primeira vez, um povo inteiro – do maior ao mais pequeno, do mais rico ao mais pobre – foi condenado à aniquilação. Para o extirpar, para o extrair da história, para o matar na memória matando toda a memória dele: era este o plano do inimigo.
Marcado, isolado, humilhado, espancado, esfomeado, torturado, o judeu foi entregue ao carrasco, não por ter defendido uma qualquer opinião, não por possuir riquezas e tesouros, não por ter adoptado um certo comportamento proibido. O judeu foi condenado à morte simplesmente porque nasceu judeu, porque carregava com ele a memória judaica.
Declarado ser menos que um homem, e por isso sem merecer compaixão ou pena, o judeu nascera apenas para morrer – tal como o assassino nascera apenas para matar. Consequentemente, o assassino não tinha qualquer sentimento de culpa. Um investigador americano colocou a questão nestes termos: o assassino não perdera o sentido de moralidade, mas sim o sentido de realidade.
(…) Auschwitz e Treblinka, Maidanek e Ponar, Belzec e Mathausen, e tantos, tantos outros nomes: o apocalipse estava por todo o lado. Por todo o lado, procissões mudas caminhavam para valas cheias de cadáveres. Poucas lágrimas, muito poucos choravam. Pela sua aparência, resignadas, as vítimas pareciam deixar este mundo sem remorsos. Era como se estes homens e mulheres optassem por não viver numa sociedade desfigurada, desnaturada pelo ódio e pela violência.
Depois da guerra, o sobrevivente tentou contar aquilo, prestar testemunho… mas quem conseguia encontrar palavras para descrever o indiscritível?
O silêncio contemplativo dos velhos que sabiam, das crianças que tinham medo de saber… o horror das mães que enlouqueciam, a aterradora lucidez de gente louca num mundo de delírio… o canto grave do rabino recitando o Kaddish, o murmúrio dos seus seguidores caminhando atrás dele para o fim, para os céus… a criança que despia o irmão pequeno… dizendo-lhe para não ter medo da morte… talvez lhe dissesse para não ter medo dos mortos…
E na cidade, na grande cidade de Kiev, a mãe e os seus dois filhos frente a soldados alemães que riem… tiram-lhe uma das crianças a matam-na à vista da mãe… depois matam a segunda… ela quer morrer; os assassinos deixam-na viva, mas habitada pela morte… depois ela pega nos dois pequenos corpos, abraça-os e chora… como se pode descrever esta mãe? Como pode alguém descrever o seu sofrimento? Nesta tragédia há algo que dói para além da dor – e eu não sei o que é.
Sei que temos que falar. Não sei como. Por este crime ser absoluto, toda a linguagem é imperfeita. É por isso que há no sobrevivente um sentimento de impotência. Era mais fácil para ele imaginar-se livre em Auschwitz do que é imaginar-se em Auschwitz sendo livre. É esse o problema: quem não passou por este acontecimento nunca será capaz de o perceber. Mesmo assim, o sobrevivente tem consciência do seu dever de prestar testemunho. De contar o que viveu. De protestar cada vez que qualquer “revisionista” moralmente perverso ouse negar a morte dos que morreram. E a verdade da memória transmitida pelos sobreviventes.
(…) Pode morrer-se mais do que uma vez? Sim, pode-se. O sobrevivente morre cada vez que se junta, nos seus pensamentos, à procissão nocturna que na realidade nunca deixou. Como pode ele distanciar-se sem os trair? Durante muito tempo ele falou com eles, tal como eu falo com a minha mãe e a minha irmã: vejo-as afastar-se sob o céu em chamas… peço-lhes que me perdoem por não as ter seguido…
É pelos mortos, mas também pelos sobreviventes e pelas crianças deles – e pelas vossas – que este julgamento é importante: ele pesará no futuro. Em nome da Justiça? Em nome da memória. Justiça sem memória é uma justiça incompleta, falsa e injusta. Esquecer seria a injustiça absoluta da mesma forma que Auschwitz foi o crime absoluto. Esquecer seria o triunfo final do inimigo.
Na verdade, o inimigo mata duas vezes – da segunda vez tenta obliterar os vestígios dos seus crimes. Foi por isso que ele empurrou o seu plano atroz e aterrador aos limites da linguagem, e para além dela: “mesmo que sobrevivas, mesmo que contes, ninguém acreditará em ti”, disse um oficial das SS a um jovem judeu algures na Galicia.
Este julgamento contradisse já esse assassino. As testemunhas falaram; as suas verdades entraram na consciência da humanidade. Graças a eles, as crianças judias de Izieu jamais serão esquecidas.
Como guardiões das sepulturas invisíveis, sepulturas de cinzas encrostadas num céu eterno de nevoeiro e chamas, temos de lhes permanecer fiéis. Temos de tentar. Recusar falar, quando se esperam palavras, seria admitir o triunfo último do desespero.
(…) Graças a este julgamento, os sobreviventes têm uma justificação para a sua sobrevivência. O seu testemunho conta, as suas memórias fazem parte da memória colectiva. Claro, nada pode trazer os mortos de volta. Mas por causa deste encontro, por causa das suas palavras, o acusado não será capaz de matar de novo os mortos. Tivesse ele sucesso a culpa não seria dele, mas nossa.
Tendo lugar sob o signo da justiça, este julgamento tem também de honrar a memória.

Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz, sobrevivente dos campos de extermínio de Auschwitz e Buchenwald. Testemunho prestado no Julgamento de Klaus Barbie, em Lyon, a 2 de Junho de 1987. Retirado e traduzido do livro From the Kingdom of Memory, Summit Books, New York, 1990.

Novos Poemas: O Estrangeiro

Heinrich Heine

Tive uma pátria bela há muito tempo.
Os carvalhos pareciam
Tão altos e o aroma das violetas era tão doce.
Era um sonho.

Ela beijava-me em alemão, falava em alemão
(Custa acreditar
Como soava tão bem) a palavra: “Amo-te!”
Era um sonho.

Heinrich Heine (13 de Dezembro de 1797 – 17 de Fevereiro de 1856), poeta. Judeu alemão.

Hoje, dia 17, celebram-se 150 anos sobre a morte de Heinrich Heine, considerado o maior poeta alemão depois de Johann Wolfgang Von Goethe. Aconselho uma passagem pelo blog de Nathanael Robinson, seguindo as sugestões de leitura propostas: The Rhine River: Germany since Heine.

Poemas Dinamarqueses

Emmanuel Moses

Gostava de ser dinamarquês
viver na luz dinamarquesa
ver da minha janela um prado dinamarquês
onde vacas dinamarquesas pastam
um rio dinamarquês
e ao longe um moinho dinamarquês.

No inverno, a filosófica neve dinamarquesa
crepitaria sob as minhas solas
e no verão, moscas dinamarquesas
poriam um gordo ponto final
aos meus poemas dinamarqueses.

Emmanuel Moses, poeta israelita.
Poema do livro Le Present (1999).

Nova Iorque fora de horas


Nova Iorque – a baixa de Manhattan vista da minha janela.

Primeiro, devo uma explicação aos que por aqui passaram no último mês e se depararam com o primeiro grande interregno deste blog em mais de dois anos. As razões da ausência foram pessoais, geradas por um conjunto de circunstâncias que me deixaram simultaneamente sem tempo e sem disposição para continuar a escrever. Na mesma altura em que começava a encaixotar a minha casa em Los Angeles para mudar para Nova Iorque, no mês passado, a minha mãe foi internada de urgência no Hospital Garcia de Orta, diagnosticada com uma doença grave cujo nome ainda hoje me recuso pronunciar – foi isto que contei, em hebraico, no post de 19 de Janeiro. As semanas seguintes passaram-se com um sentimento de impotência ampliado pela distância, noites em branco de ansiedade e os dias feitos a empacotar livros e toda a vida acumulada durante uma década em LA.
A minha mãe começou a ser tratada com quimioterapia na semana passada e os médicos estão esperançosos que a recuperação venha a ser total. Contei-lhe há dias, ao telefone, que recebi centenas de mensagens de todo o mundo – de Portugal a Israel, do Brasil, dos EUA, da Alemanha, da Austrália… – de pessoas que leram o meu post e enviavam votos de melhoras e simpáticas palavras de encorajamento. Emocionada, ela pediu-me que vos agradecesse.
Cheguei a Nova Iorque há uma semana, depois de uma viagem de carro de cinco dias a atravessar os Estados Unidos. O camião da mudança ainda vem a caminho. Já passa das 10:00h da noite de sábado. Enquanto escrevo, no 15o andar, sentado no chão de um apartamento ainda sem móveis, cai dos céus um manto branco que vai cobrindo a cidade. Estão 10 graus negativos e neva em Nova Iorque. Para trás ficou o Verão eterno de Los Angeles e um punhado de certezas. Acabo o dia com uma oração. Enquanto olho através da janela da sala para os arranha-céus iluminados, vou meditando na minha mãe, desejando que em breve ela também os possa ver daqui e que tudo o resto não passe de uma má recordação.

Regresso…

Em breve virá um post a marcar o meu retorno à Judiaria. Até lá tentarei encontrar as palavras que agora me faltam para exprimir a imensa gratidão que sinto para com as centenas de mensagens que recebi durante estas semanas. Obrigado … e até logo!

Ausência…

Problemas familiares graves, aliados à preparação da minha mudança para Nova Iorque, não me têm permitido escrever aqui na Judiaria com a assiduidade que seria desejável. Falta o tempo e a cabeça. A intermitência deverá manter-se nas próximas semanas.

אמי חולה מאוד ונמצאת בבית החולים. אבקשכם להתפלל עמי עבור החלמתה המהירה.
שמה מריאנה נונש (בעברית, מרים בת יוסף ואלזירה).
אני מודה לכם ומקווה ומאמין שאלוהים ישמע לתפילותינו.

::ADENDA::
Obrigado (muito obrigado mesmo!) às largas dezenas de leitores que enviaram mensagens com simpáticas palavras de encorajamento. Um agradecimento especial também ao blog SimplyJews (תודה רבה) e a João Tunes, pelos posts e pela amizade.

Metade da gente do mundo

Yehuda Amichai

Metade da gente do mundo ama a outra metade,
metade da gente odeia a outra metade.
Por causa desta e daquela metade terei eu de vaguear
e me transformar incessantemente como chuva no seu ciclo,
terei eu de dormir entre rochas, tornar-me áspero
como os troncos das oliveiras,
e ouvir a lua uivar para mim,
e camuflar o meu amor com receios,
e brotar como erva assustada entre os carris
do caminho de ferro,
e viver submerso como uma toupeira,
e quedar-me com raízes mas sem ramos,
e não sentir a minha face contra a face de anjos, e
amar na primeira caverna, e casar com a minha mulher
sob uma abóbada de vigas que sustentam a Terra,
e expressar a minha morte, sempre até ao último sopro e
às últimas palavras e sem nunca compreender,
e colocar mastros sobre o telhado da minha casa
e um abrigo antiaéreo debaixo dela.
E ir apenas para regressar e passar por todos os lugares –
gato, pau, fogo, talhante, entre o cabrito e o anjo da morte?
Metade da gente ama,
metade da gente odeia.
E qual é o meu lugar entre tais iguais metades,
e por que fenda verei eu o bairro de casas
brancas dos meus sonhos e as pegadas nuas
na areia ou, pelo menos, o lenço da mulher que acena
junto às dunas?

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Perder um líder: uma perspectiva israelita


(…) E de repente tudo mudou. A mudança podia ouvir-se no tom de voz dos jornalistas, podia ver-se nos seus rostos, podia ler-se nos jornais em hebraico e nas suas actualizações na Internet. Algo estava errado. Muito errado. E ainda se pode ver, esta manhã, nos rostos de estranhos quando se caminha nas ruas.
Quer ele viva ou morra, nós estamos já de luto. Todos nós – os que sempre gostaram de Sharon, aqueles que nunca gostaram dele e o vasto número de israelitas que em tempos o vilipendiaram, mas que nos últimos anos olharam com espanto à medida que ele personificava a palavra “líder”.
Sim, ele tinha defeitos, sim, houve escândalos, ele estava longe de ser perfeito. Mas era um líder. Nós tínhamos um líder. E não temos mais.
Estes são ecos dos sentimentos que tivemos há dez anos, quando perdemos Yitzhak Rabin. É claro, desta vez não se trata de um assassinato, de violência interna, da mesma intensa perplexidade, ou do mesmo sentido de tragédia nacional.
Mas algo muito semelhante está a acontecer a nível emocional, do sentimento de estar num buraco de insegurança que resulta do facto do país não ter ninguém à frente neste momento. E nós não sabemos quem será o próximo líder verdadeiro. Se quisermos ser freudianos, pode dizer-se que estamos a perder uma figura paterna.
De esquerda ou de direita, mesmo se acreditarmos que homens como Yitzhak Rabin ou Ariel Sharon foram maravilhosos – ou se acharmos que eles estiveram completamente errados, completamente enganados, foram demasiado violentos ou completamente corruptos, nunca se pode duvidar nem por um minuto que a sua principal prioridade foi a segurança e o bem-estar do Estado de Israel e dos seus cidadãos. Cada sucesso e cada erro seu vinha da sua determinação de ver o país sobreviver, prosperar e ter sucesso. Com figuras destas como primeiro-ministro, nós sentíamos que havia alguém a olhar por nós. E quando eles subitamente desaparecem, pela mão de um assassino ou pela mão caprichosa do destino, ficamos devastados, profundamente inseguros e preocupados com o futuro.
E por isso nos preocupamos, vemos e esperamos, incapazes de deixar passar uma hora sem ver televisão, sem ouvir rádio ou ir à Internet.
Ele ainda está vivo; é uma boa notícia. Mas isso não altera o facto de, na maneira em que precisamos de Ariel Sharon, nós já o perdemos. Aqueles que acreditam em milagres rezam agora por um. Aqueles que não acreditam em milagres gostariam agora de acreditar.”

Um texto da jornalista israelita Allison Kaplan Sommer, autora do blog An Unsealed Room.

Saudades

O Francisco escreveu hoje uma frase notável: “Vamos desaparecendo, aos poucos.” A aparente simplicidade destas quatro palavras esconde nas entrelinhas um abismo estratificado de emoções. Foi pelo blog do Francisco, e com esta frase, que fiquei a saber esta madrugada da morte do Cáceres. A minha primeira reacção foi de profundo choque. Mais do que um director, mais do que um chefe, o Cáceres era um amigo – é a ele que devo grande parte da minha carreira, desde que, em 1990, me foi buscar para trabalhar n’O Jornal.
A distância tem o condão de funcionar muitas vezes como uma lupa de emoções, ampliando o bom e o mau – geralmente o mau –, multiplicando a angústia da ausência, aguçando os sentidos. Já não via o Cáceres há mais de seis anos. Mas quando li as notícias que contavam a sua morte foi como se ainda ouvisse a sua inimitável voz ao meu lado, galgando tempo e espaço. A morte dos amigos traz-nos lágrimas e funciona como um espelho onde vemos invariavelmente reflectida a inevitabilidade do nosso próprio fim. Quando desaparecem os amigos, desaparecemos também nós. Aos poucos.
Cáceres, camarada, vou ter saudades tuas.


Carlos Cáceres Monteiro (Lisboa, 9 de Agosto de 1948 – Lisboa, 03 de Janeiro de 2006)

Feliz Ano Novo… e obrigado!

Apesar de por estas bandas o Ano Novo (ראש השנה) já ter começado há quase três meses, o final do ano 2005 da Era Comum traz inevitavelmente um sentimento de final de ciclo que convida ao balanço. A encerrar o ano, quero agradecer em primeiro lugar a todos os leitores que por aqui vão passando diariamente. Um muito obrigado também aos blogs que insistiram em colocar a Rua da Judiaria nas respectivas lista de preferências para o ano que agora encerra, nomeadamente ao Portugalidades (Luís Miguel Rocha), ao Almocreve das Petas (Masson), Ma-Schamba (José Pimentel Teixeira), Contra-indicado (José Nunes), Forum Comunitário (Walter Rodrigues), Anjos e Demónios (Patrick Blese), A Peste (Jorge Vaz Nande), Sob a Estrela do Norte (Homem das Neves), A Barriga de um Arquitecto (Daniel Carrapa), Francisco del Mundo, Malaposta (Alvarinho Castro), Tugir (Luis Novaes Tito e Carlos Manuel Castro), Duelo ao Sol (Harry Madox) e New Zionist (Yoav). Para mim, e de uma forma estritamente pessoal, 2006 será um ano de profunda mudança – quanto mais não seja, de geografias. Depois de exactamente 10 anos a viver em Los Angeles, no final de Janeiro mudo-me para Nova Iorque, trocando definitivamente o sol eterno da Califórnia pela neve da Big Apple. “Start spreading the news, I’m leaving today…
Feliz Ano Novo!

(em actualização…)