Um pássaro sem nome

Emmanuel Moses

9.

Ele dissera: vou reconstruir tudo
A cidade com areia
O céu com um pouco de azul da Prússia
Os nervos com linhas de costura

Ele dissera: o coração não morrerá
E ao anoitecer, pássaros sombrios escapavam
Do braseiro.

Emmanuel Moses, poeta israelita.
Poema do livro OPUS 100 (1996).

Este poema, escrito por um dos meus poetas contemporâneos preferidos, é dedicado a Lutz Brückelmann, autor de um dos meus blogs favoritos, pelo segundo aniversário do seu imprescindível Quase em Português.

Camille Pissarro, um pintor “transmontano”


Pissarro, pai do Impressionismo, descendente de judeus portugueses de Trás-os-Montes.

Até há pouco tempo, quando se discutia a paternidade da pintura moderna, o consenso parecia apontar para um único nome: Paul Cézanne. Nas últimas décadas, no entanto, um número crescente de historiadores de arte começou a questionar este pressuposto, olhando antes para Camille Pissarro, amigo e mestre de Cézanne, como o verdadeiro precursor da revolução que transformaria radicalmente a pintura na última metade do século XIX. Jacob Camille Pissarro, de seu nome completo, era filho de Abraham (Frederic) Gabriel Pissarro, um judeu “marrano” português, transmontano de Bragança, que ainda criança (nos finais do século XVIII) emigrara com os pais para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. Camille nasceu a 10 de Julho de 1830 em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, para onde o pai se mudara anos antes para servir de executor do testamento de um tio.
Camille Pissarro era um personagem fascinante. Amigo e mestre de Degas, Cézanne e Gauguin, Camille Pissarro era visto pelos colegas como um “patriarca” – uma figura generosa, amável e profundamente fiel às suas amizades. “Pissarro foi como um pai para mim: era o homem a quem se pediam conselhos, era como le bon Dieu”, escreveu sobre ele Cézanne. Henri Matisse chamou-lhe “o Moisés da pintura contemporânea, aquele que nos dá a Lei”; Cézanne afirmaria categoricamente: “todos nós descendemos de Pissarro.”
Anarquista convicto, Camille Pissarro não era religioso em termos formais mas, mesmo assim, nunca dissimularia o judaísmo herdado dos seus antepassados portugueses. Pelo contrário, Pissarro orgulhava-se de ser judeu.
Durante o Caso Dreyfus – o paradigma do antisemitismo que dividiu a sociedade francesa dos finais do século XIX – Pissarro, ao mesmo tempo que combatia o ódio irracional contra os judeus, sentiria na pele o antisemitismo de alguns dos seus colegas, mesmo vindo de amigos, como Degas e Renoir. Nessa altura, alguns dos seus colegas mais próximos chegariam mesmo a por em causa a sua relação de amizade, temendo “ficar contaminados” por se associarem a um judeu. “Continuar com o israelita Pissarro é ficar manchado com revolução”, escreveu Renoir, com um antisemitismo tristemente típico da época.
Na última edição da revista Commentary, o crítico de arte Dana Gordon escreve um excelente artigo de cinco páginas intitulado Justice to Pissarro, onde defende que a paternidade da pintura moderna deve ser definitivamente atribuída, não a Cézanne, mas a Camille Pissarro, o pintor descendente de judeus sefarditas de Bragança.


Camille Pissarro, L’Ermitage à Pontoise, 1867.


Camille Pissarro, Vue de ma fenêtre, Eragny sur Epte, 1886-88.

[Organizada pelo Museum of Modern Art (MOMA), de Nova Iorque, a exposição Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro pode ser visitada no LACMA, em Los Angeles, até 16 de Janeiro de 2006 e depois, entre 27 de Fevereiro e 28 de Maio no Musée d’Orsay, em Paris.]

::A VER:: Pioneering Modern Painting: Cézanne and Pissarro / Camille Pissarro The first Impressionist / L’Impressionnisme – Biographie de Camille PISSARRO / WebMuseum: Camille Pissarro / Camille Pissarro Online / Camille Pissarro – Olga’s Gallery / Camille Pissarro ~ The Artist / Camille Pissarro, 1830-1903 – a Political Biography of an Anarchist / Commentary – Justice to Pissarro / CNN.com – arts & style – Pissarro’s art reflects St. Thomas roots – July 17, 2000 / Frederic Bonin Pissarro (pintor, bisneto de Camille Pissarro).

Fuga de Morte (Todesfugue)

Paul Celan

Leite negro da manhã bebemos ao cair da tarde
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos céus onde o espaço sobra
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando cai a noite nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
escreve e sai da casa e as estrelas todas chamejam
e assobia chamando os seus cães
e assobia chamando os seus judeus faz-nos abrir uma vala na areia
manda-nos tocar para a dança

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos de madrugada e ao meio-dia bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem que cultiva serpentes e escreve
escreve quando a noite cai nach Deutschland
os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite cavamos uma sepultura nos céus
onde o espaço sobra

Ele grita vocês aí cavem fundo a terra destinada e os outros cantem e toquem
ele puxa a espada que traz à cinta agita-a e os seus olhos são azuis
empurrem as pás mais fundo vocês aí e os outros que continuem
a tocar para a dança

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia e de madrugada bebemos ao entardecer
bebemos e bebemos
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margareta
os teus cabelos de cinza Shulamite ele cultiva serpentes

Toquem mais doce a música da morte grita ele Morte é um capataz
aus Deutschland
ele grita arranhem mais negro esse violino e depois flutuem como fumo
nos ares
depois cavem uma sepultura nas nuvens onde o espaço sobra

Leite negro da manhã bebemos de noite
bebemos ao meio-dia Morte é um capataz aus Deutschland
bebemos ao entardecer e pela madrugada bebemos e bebemos
Morte é um capataz aus Deutschland o seu olho é azul
dá-te tiros com balas de chumbo a sua pontaria certeira
nesta casa mora um homem os teus cabelos de ouro Margarete
atiça os seus cães contra nós dá-nos uma sepultura nos céus
cultiva serpentes e sonha Morte é um capataz aus
Deutschland

o teu cabelo de ouro Margareta
o teu cabelo cinza Shulamite

Paul Celan (1920-1970), pseudónimo do poeta Paul Antschel. Judeu romeno.

Traduzido para português com a ajuda preciosa da tradução inglesa da autoria de Jerome Rothenberg, in Paul Celan: Selections, editado por Pierre Joris, University of California Press 2005.

Em memória da Noite de Cristal (Kristallnacht), o pogrom de 9 e 10 de Novembro de 1938 que abriu caminho para o Holocausto.

O Spinoza da Rua do Mercado (II)

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)


Estudante faz uma pausa na leitura do Talmude para olhar à janela.
Moukatchevo, Ucrânia, 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

Parte II (ver Parte I)

Empoleirado no último dos degraus, quando espreitava pela janela o Dr. Fischelson podia olhar para dois mundos. Acima dele estavam os céus, densamente polvilhados de estrelas. O Dr. Fischelson nunca estudara seriamente astronomia mas conseguia distinguir os planetas, aqueles corpos celestes que, como a terra, giravam em torno do sol, e as estrelas fixas, elas próprias sóis distantes cuja luz demora centenas ou mesmo milhares de anos a chegar até nós. Ele reconhecia as constelações que marcam o caminho da terra pelo espaço e aquela moldura nebulosa, a Via Láctea. O Dr. Fischelson tinha um pequeno telescópio que comprara na Suíça quando lá estudara e gostava particularmente de ver a lua através dele. Podia distinguir claramente na superfície da lua os vulcões banhados pela luz do sol e as crateras escuras e sombrias. Gostava de observar aquelas fendas e gretas. Pareciam-lhe simultaneamente distantes e próximas, ao mesmo tempo substanciais e insubstanciais. De vez em quando via uma estrela cadente traçando um arco largo de um lado ao outro dos céus até desaparecer, deixando atrás de si uma cauda flamejante. O Dr. Fischelson sabia então que um meteorito atingira a nossa atmosfera e que, talvez, um fragmento seu tinha ido parar ao oceano ou caído no deserto, ou mesmo em alguma região habitada. Aos poucos, as estrelas que tinham aparecido atrás do telhado do Dr. Fischelson subiam até brilharem por cima das casas do outro lado da rua. Sim, quando o Dr. Fischelson olhava para os céus ele tinha noção dessa extensão infinita que é, de acordo com Spinoza, um dos atributos de Deus. O Dr. Fischelson sentia-se confortado ao saber que, apesar de ser apenas um homem débil e fraco ele era mesmo assim uma parte do cosmos, feito da mesma matéria dos corpos celestes, uma permutação da Substância infinita absoluta; na medida em que era uma parte da Divindade, ele sabia que não podia ser destruído. Nesses momentos, o Dr. Fischelson sentia o Amor Dei Intellectualis que é, segundo o filósofo de Amsterdão, a mais elevada perfeição da mente. O Dr. Fischelson respirou fundo, levantou a cabeça o mais alto que o seu apertado colarinho permitia e sentiu-se literalmente a rodopiar na companhia da terra, do sol, das estrelas, da Via Láctea e da infinidade de galáxias conhecidas apenas do pensamento infinito. As suas pernas tornaram-se leves, como que desafiando a gravidade, forçando-o a agarrar com força o parapeito da janela, não fosse ele voar para a eternidade.
Quando o Dr. Fischelson se cansava de observar os céus, o seu olhar descia até à Rua do Mercado, lá em baixo. Dali podia ver uma longa faixa desde o mercado de Yanash até à Rua do Ferro, com as lâmpadas dos candeeiros de gás a formarem uma fileira de pontos luminosos. Fumo subia pelas chaminés nos telhados negros de estanho; os padeiros aqueciam os fornos e aqui e ali fagulhas luzentes misturavam-se com o fumo preto. A rua nunca era tão barulhenta e apinhada como nas noites de Verão. Ladrões, prostitutas, apostadores, jogadores de cartas e receptadores vadiavam na praça que vista de cima parecia uma pretzel polvilhada de sementes de sésamo. Os rapazes novos riam desbragadamente e as raparigas guinchavam. Um vendedor de melancias gritava com voz selvagem, e a longa faca que ele usava para cortar a fruta pingava um sumo cor de sangue. Às vezes a rua ficava ainda mais agitada. Carros de bombeiros, com as pesadas rodas a tinir, chegavam a correr, puxados por robustos cavalos negros arreados pelos ajustes. A seguir vinha a ambulância com a sirene aos berros. Depois alguns rufias desatavam à pancada entre eles e a polícia tinha de ser chamada. Um transeunte era roubado e corria a gritar por socorro. Algumas carroças carregadas de lenha tentavam passar para o pátio da padaria, mas os cavalos não conseguiam levantar as rodas sobre o passeio e os carroceiros insultavam os animais e batiam-lhes com o chicote. Faíscas saltavam-lhes dos cascos. Já há muito que passava das sete, que era a hora de lei para fechar as lojas, mas na verdade era agora que o comércio começava. Os fregueses eram discretamente conduzidos pela porta das traseiras. Na rua, os polícias russos, subornados no princípio do mês, nada viam. Os vendedores continuavam a apregoar os seus produtos, uns tentando gritar mais alto que os outros.
“Oiro, oiro, oiro”, berrava uma mulher que vendia laranjas podres.
“Açúcar, açúcar, açúcar”, grasnava um vendedor de ameixas demasiado maduras.
“Cabeças, cabeças, cabeças”, rugia um rapaz que vendia cabeças de peixe.
Pela janela da casa de estudo dos hassidim, do outro lado da rua, o Dr. Fischelson podia ver rapazes com longos caracóis no cabelo perto das orelhas, balançando sobre pesados volumes sagrados, fazendo caretas e estudando em voz alta, quase a cantar. Carniceiros, estivadores e vendedores de fruta bebiam cerveja em baixo, na taberna. Da porta aberta da taberna jorrava vapor como se fosse de uma sauna e lá de dentro vinha o som de música alta. À entrada da taberna rameiras tentavam atirar-se a soldados bêbados e a operários a caminho de casa. Alguns carregavam fardos de lenha nos ombros, fazendo recordar ao Dr. Fischelson os penitentes condenados a acender os seus próprios fogos no Inferno. Grafonolas fanhosas raspavam canções que se ouviam pelas janelas. A liturgia de Yom Kippur alternava com as melodias burlescas do vaudeville.
O Dr. Fischelson espreitou para o caos meio iluminado da rua e aguçou o ouvido. Ele sabia que o comportamento da populaça era a própria antítese da razão. Estas pessoas estavam mergulhadas nas mais inúteis das paixões, ébrios de emoções e, segundo Spinoza, emoção nunca era boa. Em vez do prazer que buscavam, tudo o que conseguiam ganhar era doenças e prisão, vergonha e o sofrimento que resultava da ignorância. Até os gatos que vadiavam nos telhados pareciam mais agitados e selvagens do que aqueles de outras partes da cidade. Miavam com as vozes de mulheres em parto e como demónios subiam pelas paredes e saltavam pelas varandas e beirais. Um desses gatos parou sobre a janela do Dr. Fischelson e soltou um guincho que o fez estremecer. O doutor desceu da janela e, agarrando uma vassoura, sacudiu-a em frente dos brilhantes olhos verdes do negro animal. “Vá, embora seu selvagem ignorante!” – e bateu com o cabo da vassoura no telhado até que o gato fugiu.

(continua…)

Canção pela paz

Poema de Yaakov Rotblit

Para ouvir:
Shir La’Shalom (Canção pela Paz) – Miri Aloni

Shalom Haver (Adeus Companheiro) – Arik Einstein

Deixa o sol nascer
E a manhã oferecer a sua luz,
A força da mais pura oração
Não nos trará de volta.
Aquele cuja vela foi apagada,
E foi levado pelo vento,
Uma lágrima amarga não o acordará
E não o trará de volta.
Ninguém nos traz de volta
Da morte ou do sofrimento
Aqui, nem a vitória nos serve.
Nem cantos de salvação nem uma oração
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos

Deixa o sol entranhar as flores,
Não olhes para trás,
Deixa os que partiram.
Enche os olhos de esperança
E não apenas de intenção
Canta uma canção de amor,
E não uma canção de guerras.
Não digas apenas que o dia virá
Traz esse dia,
Porque não é apenas um sonho.
E em todas as praças da cidade
Aclamem a paz.
Então cantem, cantem um canção pela paz
Não sussurrem uma oração
É melhor cantar uma canção pela paz
espalhada aos quatro ventos.

Poema de Yaakov Rotblit.

Na noite de 4 de Novembro de 1995, há exactamente 10 anos, minutos depois de cantar esta canção num comício pela paz na praça de Tel Aviv que hoje tem o seu nome, Yitzhak Rabin era assassinado. O papel com a letra da Canção pela Paz, que guardara no bolso do casaco, ficaria manchado com o seu sangue.

Sinagoga secreta descoberta no Porto


Ekhal, a Arca da Scola Grande Tedesca, na sinagoga de Campo Ghetto Nuovo, Veneza.

Vestígios de uma sinagoga secreta dos finais do século XVI foram recentemente descobertos no Porto, na Rua de S. Miguel, numa casa comprada há quatro anos pelo pároco de Nossa Senhora da Vitória. Encontrado por acidente durante uma obras, um nicho emparedado foi identificado por especialistas como um ekhal (pronunciado “errál”), a reentrância onde eram guardados os rolos da Torá, a parte mais sagrada da sinagoga, também conhecida simplesmente como Arca (aron ha’kodesh – ארון הקדש). Este achado reveste-se de uma importância histórica notável, provando a existência de uma sinagoga secreta no Porto mais de um século após a conversão forçada dos judeus portugueses, decretada por D. Manuel I em 1497. Num trabalho publicado no Jornal de Notícias (ver Jornal de Notícias – Sinagoga descoberta no Porto), assinado pelo jornalista Pedro Olavo Simões, o arqueólogo Mário Jorge Barroca data o ekhal nos finais do século XVI ou princípios do século XVII. A descoberta do que resta de uma sinagoga clandestina naquela localização, segundo afirma a historiadora Elvira Mea também ao Jornal de Notícias, enquadra-se nos relatos do rabino Immanuel Aboab – que nasceu e foi criado no Porto – inscritos no seu livro Nomologia o Discursos Legales, publicado em Amsterdão em 1629. A historiadora diz ainda que contactou o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil, alertando para a necessidade de preservar este raro achado, mas apenas a última instituição terá manifestado algum interesse.

PS – Um muito obrigado a Carlos Romão e Paulo Jorge Santos por me alertarem para a notícia. Francisco José Viegas também escreveu sobre o achado no seu A Origem das Espécies. Já agora acrescento que Elvira Mea, a historiadora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto citada no texto de Pedro Olavo Simões, é responsável pela cadeira Judeus e Cristãos Novos na Cultura Portuguesa. Sobre a história dos judeus no Porto, e com uma breve referência à sinagoga agora descoberta, ver ainda este pequeno artigo da Jewish Encyclopedia, datado de 1905, da autoria do rabino alemão Meyer Kayserling, um dos maiores estudiosos novecentistas da história dos judeus portugueses.

::ADENDA::
Para memória futura, aqui fica a transcrição do trabalho do Jornal de Notícias:

Sinagoga descoberta no Porto

Por Pedro Olavo Simões

Foi descoberta, no Porto, uma sinagoga de finais do século XVI. Por circunstâncias várias, tem enorme importância histórica, mas está numa casa onde a paróquia de Nossa Senhora da Vitória ultima a construção de um lar de idosos, com aval do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR).
A historiadora Elvira Mea, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) , anda há dois anos a lançar alertas para a existência, no nº 9 da Rua de S. Miguel, de um “Ehal” (nicho onde são guardados os rolos da Torah, a Lei atribuída a Moisés), que tem o especial valor de ter sido feito depois da expulsão/conversão forçada dos judeus em 1496/97, por D. Manuel. Trata-se de uma sinagoga clandestina, que constituía “uma afronta total à situação de Contra-Reforma”. Para mais, além da tipologia da casa (uma entrada por trás, discreta, na Rua da Vitória), característica do culto clandestino, a documentação, designadamente da Inquisição, dá conta da existência, nas imediações, de casas de jogo, que os cristãos-novos usavam como elementos distractivos.
Elvira Mea, que diz ter contactado o IPPAR, o Governo, a Câmara do Porto e o Governo Civil (a única entidade que mostrou interesse), nota, ainda, que o achado faz luz sobre a obra “Nomologia…” (Amsterdão, 1629), de Imanuel Aboab, em que o autor diz ter visto a sinagoga, na sua meninice, algo que a ausência de vestígios materiais tornava duvidoso. A importância do “Ehal” é ainda maior, atendendo à falta de vestígios materiais da presença judaica no Porto, designadamente na zona do Olival, hoje Vitória, onde esteve a última judiaria da cidade. A localização da sinagoga na rua que agora é da Vitória, e não na de S. Miguel, é corroborada por escritos de historiadores como Geraldo Coelho Dias.
O arqueólogo Mário Jorge Barroca, também docente da FLUP, não hesita em afirmar que o “Ehal” é de finais do século XVI ou do início do século XVII, sendo um de quatro exemplares existentes em Portugal, juntamente com os de Castelo de Vide, de Castelo Mendo (que ele próprio identificou) e da Guarda. Apesar de danificado, por obras mais antigas, o “Ehal” constitui oportunidade única para aprofundar e divulgar o conhecimento sobre a cidade.
Agostinho Jardim, pároco de Nossa Senhora da Vitória, comprou a casa em questão há cerca de quatro anos, tendo descoberto o dito “nicho” ao ver que “havia uma parede falsa a tapar qualquer coisa”. O lar, feito ali por ter sido aquela a casa devoluta que apresentava melhores condições, é uma necessidade premente, e a obra está perfeitamente legal, mas o padre Jardim está aberto à procura de uma solução. Já Miguel Rodrigues, da Direcção Regional do Porto do IPPAR, admite a importância do achado e a necessidade de fazer tudo pela preservação, mas nota que, por o edifício não ser do Estado, há que ter em conta “todos os interesses em presença”. Diz ter sabido do caso há 15 dias, desconhecendo os apelos feitos anteriormente.

::ADENDA II::

Ha’aretz (Israel)
12/01/2006
Remains of a Torah ark discovered
during renovations in Portugal

By Amiram Barkat

A group of citizens from the city of Porto in Portugal who view themselves as descendents of Crypto-Jews want to turn a building in which the remains of an ancient synagogue were found into a museum dedicated to the history of the city’s Jews.
In their view, the building, in which a recess of a synagogue ark was discovered by chance, once served as the synagogue of Rabbi Isaac Aboab. However, so far the group’s request has not been acceded to, and it appears unlikely that it will.
Rabbi Aboab, also known as the “last gaon [sage] of Castile,” was the head of the Guadalajara yeshiva and one of the last gaonim of Spain. In March 1492, on the eve of the expulsion of the Jews from Spain, Aboab and a group of Jewish dignitaries managed to obtain political asylum in Portugal.
The rabbi settled in the Judiaria, or Jewish, quarter of Porto along with a few hundred Jewish families. Five years later, the Portuguese authorities forced all the Jews in the country to either convert to Christianity or be expelled.
Many of those forced to convert continued to observe the Jewish commandments in secret. Over the years, the Jews abandoned the Judiaria, and many of its buildings were handed over to the Church or various charity organizations. The synagogue building was handed over to a state charity.
Two years ago, the organization gave the building to a priest named Agostinho Jardim Moreira to establish an old people’s home in it. During renovations on the building, a recess where a synagogue ark once stood, in which the Torah scrolls were kept, was found behind a secret wall.
The niche was identified by historian Elvira Mea, a lecturer at the University of Porto who specializes in Jewish history. She happened to be passing by while guiding a tourist from Israel.
The location of the building precisely matches a description provided by 16th century writer Immanuel Aboab (a great-grandson of Rabbi Aboab), who wrote that the synagogue was located “in the third house along the street counting down from the church.”
Mea, who specializes in the period of the Inquisition, maintains that the synagogue continued to be active even during the period of the Crypto-Jews, who worshiped in it secretly. However, an Israeli journalist of Portuguese extraction, Inacio Steinhardt, who knows Mea personally, disagrees with her.
“It is difficult to believe the Crypto-Jews prayed in a synagogue, because it would have been far too dangerous,” he says. Steinhardt is convinced the Crypto-Jews removed the ark from the synagogue along with its other sacred artifacts and worshiped in their homes.
A group of descendants of Crypto-Jews who heard about the discovery has asked that the building be preserved and turned into a museum dedicated to the history of the city’s Jews. However, Father Moreira has demanded an alternative building as well as compensation for the money that has already been put into the renovations.
Israeli ambassador to Portugal Aaron Ram has appealed to the city of Porto and the local bishop regarding the matter. In addition, the Center for Jewish Art at Hebrew University has asked UNESCO to intervene.
Steinhardt says he is pessimistic regarding the chances of turning the building into a museum because only the Portuguese government is authorized to make any decisions in the matter.

O Terramoto de Lisboa, os judeus e a Inquisição

Às 9h20 da manhã de 1 de Novembro de 1755, há exactamente 250 anos, Lisboa era varrida pelo primeiro de uma série de três violentos abalos sísmicos. Em breves minutos, uma das mais belas capitais europeias ficaria irreconhecível, irremediavelmente destruída por um dos mais devastadores terramotos da História – que, segundo os geólogos modernos, terá atingido uma magnitude de 9 na escala de Richter. Entre 60 a 100 mil pessoas perderam a vida nos escombros (cerca de metade da população da capital portuguesa na época).
Escassos quatro meses após o terramoto de Lisboa, a 11 de Março de 1756, uma quinta-feira (9 de Adar II de 5516, segundo o calendário hebraico, cinco dias antes do festival judaico de Purim), os governadores da congregação sefardita portuguesa e espanhola de Hamburgo – onde na época residiam cerca de 350 judeus portugueses – decretam um dia “jejum geral”, para “orar e suplicar à Divina majestade”. Um panfleto escrito em espanhol circulou pela cidade, anunciando um sermão a cargo do rabino Jacob Bassan (1704-1769), no qual se lia:
Horden de Rogativa y Peticion, para orar y rogar, al Senhor, para tiempo de teramoto, o temblor de tierra, y segun se há oydo, la indignacion de Ds. se experimentó, em Varios lugares, y en diferentes partes, tembló la tierra, por lo que se ajuntaran los Senhores Parnassim, y con la aprovacion del Sr. HH, decretaran um ayuno general, para jueves, siendo 9 del mez de Adar segundo deste anho, para orar e suplicar ala Divina magestad, por nós y por todo Israel nuestros Hermanos los proximos y los remotos, El todo poderozo apiade sobre nós, y sobre todos os lugares de nuestras moradas, y ampare por nos, Amen.
Composto em Lengua Ebrea, y tradizido em Lengua Espanhola por el H.H.R. Jehacob de Abraham Bassan, rav del K.K. Beth Israel en Hamburgo. Estampado por orden de los Senhores Parnassim de dicho Kahal anno 5516. Estampado em Hamburgo, em casa de la Viuda de I.H. [ilegível] Anno 1756.


Esquerda: o panfleto da sinagoga portuguesa e espanhola de Hamburgo anunciando um dia de jejum e oração em memória as vítimas do terramoto de Lisboa (clique para ver uma imagem maior do panfleto). Direita: xilogravura checa sobre o terramoto de Lisboa datada de finais de 1755 (Original do Museu da Biblioteca Nacional da República Checa).

Rezando pela memória das vítimas do terramoto de Lisboa, e pedindo a protecção divina, alguns dos líderes religiosos dos judeus portugueses emigrados em Hamburgo – e também em Amsterdão – viam na catástrofe um “castigo divino” que punia Portugal pelos crimes da Inquisição, em retribuição pelas suas inúmeras vítimas1 (António José da Silva, dramaturgo conhecido como O Judeu, por exemplo, fora executado na fogueira 18 anos antes do terremoto). A mesma leitura seria feita na época um pouco por toda a Europa, onde teólogos protestantes imputavam o Grande Terramoto de Lisboa a uma omnipresente “mão de Deus” que castigava os portugueses pela sede sanguinária e fanática da Inquisição (ver gravura em baixo). Cerca de dois séculos antes, como testemunhou um atónito Gil Vicente, um grupo de frades de Santarém pregava que o terramoto de 26 de Janeiro de 1531 fora “um castigo divino” pela presença dos judeus em Portugal (que por sinal estavam no país há mais de 2500 anos…).
Mas no século XVIII, mesmo aqueles menos dados às coisas da religião não hesitavam em juntar terramoto e Inquisição nas mesmas páginas. Numa carta dirigida a M. Tronchin de Lyons, datada de 24 de Novembro de 1755, redigida pouco tempo depois de receber a notícia da catástrofe de Lisboa, o filósofo iluminista francês Voltaire escrevia: “(…) Que dirão os pregadores – especialmente se o Palácio da Inquisição ainda ficar de pé! Agrada-me a ideia de que esses reverendos padres, os da Inquisição, terão sido esmagados tal como as outras pessoas. Servirá isso para ensinar que homens não devem perseguir outros homens: porque, enquanto beatos hipócritas queimam uns quantos na fogueira, a terra abre-se e engole a todos sem distinção.”
Quatro anos mais tarde, Voltaire tornava a escrever sobre o terramoto de Lisboa, e sobre a Inquisição, no romance burlesco Candide. No capítulo VI de Candide, o filósofo francês coloca os padres da Universidade de Coimbra a proclamarem que “o espectáculo de queimar vivas umas quantas pessoas em fogo lento, e numa grande cerimónia, é um segredo infalível para prevenir que a terra trema”, pelo que se organiza um “grandioso auto-de-fé” no qual serão queimados, entre outros, “dois portugueses que se recusam comer toucinho”. “No mesmo dia”, escreve Voltaire no final do capítulo, “a terra tremeria de novo com um furor implacável.”

1Até aos finais do século XIX, as congregações de judeus portugueses na Diáspora (em Nova Iorque, Filadélfia, Savannah, Newport, Amsterdão, Caraíbas etc.) tinham nos seus livros de oração uma benção, pronunciada diariamente pelos congregantes, onde se lia em português: “Tende na vossa guarda a todos os nossos Irmãos prezos pella Inquisição e a todos os nossos irmãos que andão por caminhos tanto por mar como por terra.


(clique para ampliar)
Gravura britânica, publicada em Londres em 1756. O rei português, D. José I, frente a uma Lisboa em ruínas, pergunta a um padre anglicano quais as causas do terramoto; o sacerdote protestante mostra-lhe um “auto-da-fé”, dizendo que “queimar pessoas provoca a ira divina”. (Jan Kozak Collection, Universidade de Berkeley, Califórnia)

::A LER:: Candide (texto integral em francês) / Candide (texto integral em inglês) / Cândido (texto integral em português) / Voltaire – Poème sur le désastre de Lisbonne / Dialogus – Voltaire – Le tremblement de Lisbonne / Dicionário Histórico de Portugal: Padre Gabriel Malagrida / Pequeno Blogue do Grande Terramoto (um blog de Rui Tavares, historiador, tradutor de Voltaire para português e autor do Pequeno Livro do Grande Terramoto) / Historical Depictions of the 1755 Lisbon Earthquake / Earthquakes Around the World / DivulgandoBD: Terramoto de 1755 na Banda Desenhada

Dois anos na Rua da Judiaria


Rua da Judiaria, em Almada, fotografada por Fernando Fragata.

A Rua da Judiaria nasceu há precisamente dois anos. O parto de 27 de Outubro de 2003 foi complicado, confesso; era o resultado de meses de gestação e contemplações, decisões e rescisões, avanços e recuos. As minhas dúvidas iniciais eram básicas: Que poderia eu fazer com um blog? Que ganhariam os outros em ler as minhas prosas? Hoje, precisamente 730 dias e quase meio milhão de leitores depois, a Rua da Judiaria ultrapassou todas as minhas expectativas – especialmente por ser um blog, por opção, obrigado a seguir o estreito carreiro ditado por uma temática que à partida poderia parecer restritiva. O constante interesse dos leitores, e de tantos outros bloggers, sou obrigado a admitir, nunca deixou de me surpreender. A todos os que vão tendo a paciência de ler o que vou escrevendo e traduzindo, aqui fica o meu mais profundo agradecimento. Obrigado pela companhia nestes dois primeiros anos.

::ADENDA::
Aos que assinalaram o aniversário da Rua da Judiaria (com referências nos respectivos blogs ou por email), a minha gratidão.

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(em actualização…)

Estatísticas

Yehuda Amichai

Por cada homem enfurecido há sempre
dois ou três que o acalmam com palmadinhas nas costas,
por cada chorão, muitos mais limpadores de lágrimas,
por cada homem feliz, uma profusão de infelizes
a querer aquecer-se no calor da sua alegria.

E todas as noites pelo menos um homem
não consegue encontrar o caminho de casa
ou a sua casa mudou-se para outro lugar
e ele vagueia pelas ruas,
supérfluo.

Uma vez estava com o meu filho pequeno na estação
e um autocarro vazio passou por nós. O meu filho disse:
“Olha, um autocarro cheio de gente vazia.”

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

Grandes Citações VI


Se as estatísticas estiverem certas, os judeus constituem apenas um por cento da raça humana. Isto sugere uma ténue e nebulosa baforada de pó cósmico perdida na resplandecência da Via Láctea. Na verdade, mal se devia ouvir falar do Judeu; mas ele faz-se ouvir, e sempre se fez ouvir. As suas contribuições para as listas mundiais de grandes nomes da literatura, ciência, arte, música, finanças, medicina e saber recôndito estão também fora das proporções dos seus fracos números. Ele tem combatido, em todas as épocas, uma batalha admirável neste mundo; e fê-lo com as mãos atadas atrás das costas. Ele podia ser disto vaidoso e ser perdoado por isso. Os egípcios, os babilónios e os persas ascenderam, encheram o planeta com som e esplendor, depois desvaneceram em coisa de sonhos e partiram; seguiram-se os gregos e romanos, fazendo vasto ruído, e foram-se; outros povos brotaram e por momentos ergueram alto a sua tocha mas ela havia de extinguir-se; agora sentam-se no crepúsculo ou desapareceram. O Judeu viu-os a todos, venceu-os a todos, e é agora o que sempre foi, sem exibir decadência, nem enfermidades da idade, nem fraqueza das suas partes, nem abrandar das energias ou entorpecimento da sua mente vigorosa e alerta. Todas as coisas são mortais menos o Judeu; todas as outras forças morrem, mas ele fica. Qual será o segredo da sua imortalidade?”

Mark Twain (1835-1910), Harpers’s Magazine, 1899.

O Spinoza da Rua do Mercado

Um conto de Isaac Bashevis Singer (Biography)
(tradução minha, inédita)


Dois judeus à conversa nas ruas de Varsóvia, 1938. Fotografia de Roman Vishniac.

Parte I

O Dr. Nahum Fischelson caminhava para trás e para a frente no seu quarto, numas águas-furtadas da Rua do Mercado, em Varsóvia. O Dr. Fischelson era um homem baixo, encurvado, com barba acinzentada e praticamente calvo, à excepção de um tufo de cabelo que permanecia na nuca. Tinha o nariz curvo que nem um bico e os seus olhos eram grandes, escuros e agitados como os de um imenso pássaro. Era uma quente noite de Verão, mas o Dr. Fischelson vestia um casaco negro que lhe chegava aos joelhos, usava um colarinho apertado e um laço. Da porta caminhava até à clarabóia do tecto em declive, e dali voltava para trás. Era preciso subir uns degraus para olhar para a rua. Uma vela ardia num castiçal de bronze em cima da mesa e uma variedade de insectos zumbiam à sua volta. De vez em quando, uma das criaturas esvoaçava demasiado perto da chama e chamuscava as asas, ou outra incendiava-se e fazia o pavio brilhar ainda mais por um breve instante. Quando isso acontecia o Dr. Fischelson fazia uma careta. A sua face enrugada contorcia-se e debaixo do bigode desgrenhado mordia o lábio. Por fim tirou o lenço do bolso e agitou-o na direcção dos insectos. “Vão-se embora daqui, idiotas e imbecis”, ralhou ele. “Aqui não se aquecem; só se queimam.”
Os insectos dispersaram, mas um segundo depois estavam de volta e uma vez mais circundavam a chama trémula. O Dr. Fischelson limpou o suor da testa enrugada e suspirou, “tal como os homens eles não querem mais nada do que o prazer do momento.” Na mesa havia um livro aberto, escrito em latim, e nas suas largas margens estavam anotações e comentários rabiscados em letra pequena pelo Dr. Fischelson. O livro era a Ethica de Spinoza que o Dr. Fischelson estudava há 30 anos. Conhecia-lhe de memória todas as preposições, todas as provas, todos os corolários e cada nota. Quando ele queria encontrar uma passagem em particular, geralmente abria o livro no lugar exacto sem ter de procurar. Mas, ainda assim, continuava a estudar a Ethica horas a fio todos os dias, com uma lupa nas suas mãos magras, murmurando e acenado a cabeça. A verdade é que quanto mais o Dr. Fischelson estudava, mais frases surpreendentes encontrava, mais passagens pouco claras e mais observações crípticas. Cada frase continha pistas inimagináveis para qualquer dos estudiosos de Spinoza. Na verdade, o filósofo antecipara toda a crítica da razão pura feita por Kant e pelos seus seguidores. O Dr. Fischelson estava a escrever um comentário à Ethica. Tinha gavetas cheias de anotações e rascunhos, mas parecia que nunca iria completar o trabalho. O problema de estômago que o atormentava há anos piorava de dia para dia. Agora o estômago começava a doer-lhe logo às primeiras colheradas de farinha de aveia. “Deus do céu, é difícil, muito difícil”, dizia para si próprio usando a mesma entoação do seu pai, o falecido rabino de Tishevitz. “É muito, muito difícil.”
O Dr. Fischelson não tinha medo de morrer. Primeiro, porque já não era um homem novo. Segundo, como declara a quarta parte da Ethica, “um homem livre pensa apenas na morte e a sua sabedoria é uma meditação, não na morte, mas da vida.” Terceiro, porque também se diz que “a mente humana não pode ser absolutamente destruída com o corpo humano pois há uma parte dela que permanece eterna.” Ainda assim, a úlcera do Dr. Fischelson (ou talvez fosse cancro) continuava a importuná-lo. A sua língua sabia-lhe sempre mal. Arrotava frequentemente e emitia um gás nauseabundo de cada vez que o fazia. Sofria de azia e cãibras. Umas vezes apetecia-lhe vomitar, mas outras vezes tinha apetite para alho, cebolas e fritos. Há muito que deitara fora os medicamentos receitados pelos médicos e procurava os seus próprios remédios. Descobrira os benefícios de comer rábano ralado após as refeições e de ficar deitado na cama, de barriga para baixo, com a cabeça pendida para um dos lados. Mas estes remédios caseiros ofereciam apenas um alívio temporário. Alguns dos médicos que consultara garantiam-lhe que não tinha doença alguma. “É só nervos”, disseram-lhe. “Você pode viver até aos 100 anos.”
Mas, nesta noite quente de Verão, faltavam as forças ao Dr. Fischelson. Os joelhos tremiam-lhe e tinha o pulso fraco. Sentou-se para ler, mas a visão tornou-se nublada. As letras dançavam na página, ora verdes, ora douradas. As linhas ondulavam, saltando umas sobre as outras, criando largos intervalos em branco, como se pedaços do texto tivessem desaparecido de forma misteriosa. O calor era insuportável e vinha directamente do tecto de lata; o Dr. Fischelson sentia-se dentro de um forno. Por várias vezes subiu os quatro degraus em direcção à janela e pôs a cabeça à mercê da brisa refrescante da noite. Ficava naquela posição até que os joelhos lhe começavam a tremer. “Oh, que bela brisa!”, murmurava ele, “um verdadeiro encanto”, e lembrava-se que, segundo Spinoza, moralidade e felicidade eram idênticas, e que a maior acção moral a que um homem podia aspirar era entregar-se a um qualquer prazer que não fosse contrário à razão.

(continua…)

No Inferno (um pequeno conto)


Retábulo do túmulo de Don Sancho Sáiz Carrillo (detalhe), autor anónimo (século XIV).

E disse o rabino de Apt a Deus:
“Senhor do Mundo, eu sei que não tenho virtude nem mérito para poder merecer, depois da minha morte, entrar no paraíso ao lado dos justos. Mas, se porventura pensas colocar-me no inferno entre os pecadores, lembra-te que não me dou bem com eles. Por isso te suplico que os tires a todos do inferno, para que me possas lá pôr.”

Rabi Avraham Yehoshua Heschel, Apt (Rússia, século XVIII)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

Leituras

1. Invertendo a tendência corrente de transformar blogs em livros, Luís Carmelo, decidiu converter o papel em bits e bytes, transpondo para o Miniscente os 42 capítulos do seu livro O Trevo de Abel – leitura mais do que obrigatória. Autor de um dos melhores blogs de língua portuguesa, o Luís acabou de lançar também o seu site pessoal. Ainda no Miniscente, aconselho a leitura deste post: 1506-2006: pedido de desculpas e reflexão. Escrevendo sobre a aproximação do aniversário de um dos acontecimentos mais negros da História de Portugal, o Luís lança um repto que terá seguimento proximamente aqui na Rua da Judiaria.

2. No Ma-Schamba, José Pimentel Teixeira escreve sobre um tema eternamente ausente do debate político em Portugal. Para ler aqui: O Meu Voto nas Eleições Presidenciais em Portugal e O Voto dos Emigrados.

3. Por último, no excelente The Rhine River, o historiador Nathanael Robinson escreve um post bastante interessante sobre Konrad Adenauer, os judeus e a sua amizade com David Ben-Gurion. A ler ainda The Rhine River: Meet you in Deutz, onde Nathanael descobre a história deliciosa de Armando Rodrigues de Sá, um carpinteiro de Canas de Senhorim que, em Novembro de 1964, se tornou o milionésimo emigrante a chegar à Alemanha (disponível aqui em tradução automática, má mas legível, de alemão para inglês: The Millionth Guest Worker). O feito valeu-lhe uma mota, oferecida pelo governo da Alemanha Federal.