Amanhã

anónimo

Amanhã fico triste,
Amanhã.
Hoje não. Hoje fico alegre.
E todos os dias,
por mais amargos que sejam,
Eu digo:
Amanhã fico triste,
Hoje não.

Autor anónimo. Poema encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças do campo de extermínio nazi de Auschwitz.

[A partir da tradução do yiddish original para inglês da autoria de Joseph Leftwich.]

God Speed Mister Jennings

Diariamente, este senhor fez-me acreditar que a minha profissão de jornalista ainda valia a pena. Peter Jennings, pivot e editor do jornal da noite da ABC, morreu ontem, vítima de cancro do pulmão. Recomeçara a fumar há quatro anos, numa manhã triste de Setembro, no dia 11. Era o melhor pivot de televisão do mundo. Tinha 67 anos.

O Jogo de Damas (um pequeno conto)

Num dos dias de Hanukah, o rabi Nahum, filho do rabino de Rizhin, entrou na sinagoga e encontrou os seus alunos a jogar às damas, como era costume naquele tempo. Quando viram o rabino, envergonharam-se e pararam de jogar. Mas o rabi Nahum sorriu e pediu-lhes que prosseguissem: “Sabem que as regras do jogo de damas são muito parecidas às regras da vida? Pois reparem: a primeira é que não se podem fazer duas jogadas ao mesmo tempo. A segunda regra diz que apenas se pode andar para a frente, e nunca para trás. E, por fim, quando se chega à última casa, alcança-se o dom de poder finalmente andar em qualquer direcção.”

Rabino Nahum de Stepinesht (Ucrânia, século XIX)
in Die Erzählungen der Chassidim (As Lendas dos Hassidim), Martin Buber, 1949.

A Capital – memórias de um cadáver esquisito

À medida que se envelhece, a vida faz questão de nos semear cadáveres pelo caminho. Nem sempre são os mais óbvios. Às vezes – na maior parte das vezes, talvez –, são “coisas”, ou simplesmente lugares que nos marcam, para o bem e para o mal. Coisas com alma, porque “morte” só faz verdadeiramente sentido quando ela se evapora.
No início desta semana morreu A Capital, o jornal onde estagiei. O fantasma deixa memórias. Cheguei ao jornalismo escrito “a sério” no final dos anos 80, na velha redacção do Bairro Alto, numa época em que o matraquear constante das máquinas de escrever ainda dominava o ritmo da vida dos jornalistas. Tenho guardada uma folha de lauda desses tempos, uma página timbrada com o logotipo d’ A Capital, marginada a 60 espaços, pronta a receber prosa de letra martelada a tinta que sujava os dedos e, às vezes, a própria consciência. Encontrei-a hoje, numa caixa cheia de papéis velhos que insisto em guardar sem saber muito bem porquê. Amarelada, velha de quase 20 anos, a folha de lauda d’ A Capital bem podia ser uma metáfora para um jornal que não conseguiu acompanhar os tempos – apesar de consecutivas mudanças e esforços vários.
A Capital nunca foi um “grande jornal”. Nunca foi uma referência no sentido que em tempos o foram o Diário de Lisboa, O Século ou A República, todos eles também desaparecidos. Podia nem ser um jornal influente, pelo menos no meu tempo, mas para um jornalista, um estágio n’ A Capital era o equivalente a uma pós-graduação nos bastidores do jornalismo. Era a “tarimba” no sentido mais completo da palavra e, durante décadas, A Capital formou gerações de jornalistas portugueses que hoje estão espalhados por uma miríade de publicações, do Diário de Notícias ao Público, passando pelo Expresso, pela Visão e pela Sábado, entre muitos outros.
A faceta de “jornal-escola” em que A Capital se convertera era uma espada de dois gumes: por um lado, por causa do violento ritmo de trabalho de um vespertino, aprendia-se a escrever depressa, a arrumar ideias e apontamentos antes de chegar à redacção, porque a prosa tinha de estar pronta num quarto de hora. Por outro, esse mesmo ritmo, aliado a condições de trabalho nem sempre favoráveis – longas horas de trabalho, falta de reconhecimento, baixos salários, etc. –, fazia com que os jornalistas debandassem à primeira oportunidade. Era um ciclo tornado vicioso que enchia a redacção de jornalistas estagiários inexperientes, que a A Capital formava para ver sair um ou dois anos depois.
É certo que muita coisa terá mudado desde 1992, altura em que sai d’ A Capital. De vespertino – talvez o último jornal europeu que ainda saía à tarde – passou a matutino, diluindo-se no meio de um mercado apinhado de títulos. As vendas foram caindo a pique, reflectindo mudanças bruscas que descaracterizavam o jornal e alienavam o seu público habitual sem se manterem o tempo suficiente para conquistar novos leitores.
Em Setembro do ano passado, Luís Osório e Rogério Rodrigues, dois excelentes jornalistas, assumiram a direcção do jornal e embarcaram na tarefa de o transformar radicalmente. Do incaracterístico produto populista que A Capital se tornara, quiseram fazer um jornal a sério. Honestamente, mesmo sem nunca ter visto o jornal impresso, acompanhando-o apenas pela Internet, acredito que o conseguiram. Agora, seis meses depois, A Capital morre de pé, inquestionavelmente melhor do que era antes, vítima de uma administração com vistas curtas – um mal bastante frequente na Imprensa portuguesa –, sem paciência para esperar que as mudanças conquistassem um novo mercado.
Pela parte que me toca, o fim d’ A Capital vem acentuar uma crescente desilusão pessoal para com o mundo do jornalismo português e, num sentido mais íntimo, com a própria profissão, um sentimento que vem fermentado há já algum tempo. Independentemente de tudo o resto, nas memórias dos anos em que lá trabalhei, fica a inevitável nostalgia; uma imensa saudade dos camaradas com quem partilhei a redacção. E o muito que com eles aprendi.

100 anos: Parabéns Stanley Kunitz

A zanga

A zanga

A palavra que disse em raiva
pesa menos que uma semente de salsa,
mas por ela passa a estrada
que leva à minha sepultura,
naquele talhão comprado
nas encostas salgadas de Truro
onde os pinheiros dominam a baía.
Estou já meio-morto que chegue,
desviado da minha própria natureza
e da minha força de viver.
Se pudesse chorar, chorava.
Mas sou velho demais para ser
a criança de alguém.
Liebchen,
com quem me vou zangar
senão nos murmúrios do amor,
essa chama áspera e irregular?

Stanley Kunitz, poeta e professor. Judeu norte-americano. Kunitz, um dos mais consagrados poetas americanos vivos, completou 100 anos de vida no passado dia 29 de Julho.

::A LER e OUVIR:: The Academy of American Poets – The Portrait, um dos poemas autobiográficos mais marcante de Kunitz, lido pelo próprio poeta.

Fotografias da Judiaria

Shaar Aliyah, 1950. Campo de refugiados judeus Rosh Hay’n, nos arredores da cidade de Haifa. Foto de Robert Capa, um dos mais reconhecidos repórteres fotográficos de sempre. Capa, um judeu nascido em Budapeste, na Hungria, cujo nome verdadeiro era Ernest Andrei Friedmann, foi morto a 25 de Maio de 1954, aos 40 anos, no Vietname, ao pisar uma mina terrestre deixada pelos guerrilheiros de Ho Chi Minh.

O rabino abolicionista

“Não são as vitórias da União mas sim as da Liberdade que devemos celebrar, meus amigos. O que é união quando existe degradação humana? Quem ousaria afixar novamente o selo à amarra que consignou milhões ao cativeiro? Não eu, o escravo alforriado de Mizraim [Egipto]. Nem vós, cujo lema é progresso e civilização.” Escrito nas páginas do Philadelphia Inquirer, a 25 de Novembro de 1864, ainda em plena guerra civil americana, este parágrafo em defesa do fim da escravatura definia a essência da visão humanista do seu autor: Sabato Morais, rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, nos Estados Unidos.
Um dos mais influentes rabinos da história do judaísmo americano, Sabato Morais era descendente de judeus “marranos” portugueses forçados ao exílio para escapar à Inquisição. Nascido em Livorno, Itália, na segunda década do século XIX, Sabato era filho de Samuel Morais – um comerciante de parcos meios –, que desde cedo incutiu nos filhos o gosto pela leitura, pelas línguas e pela política. Sabato Morais cresceu a falar e a ler português em casa e italiano, latim e hebraico na escola.
Samuel Morais era um fervoroso militante do movimento republicano e foi preso por diversas vezes por causa das suas opiniões políticas, o que obrigou Sabato, o seu filho mais velho, a contribuir desde muito novo para o sustento da família, dando aulas de hebraico e ensinando outras crianças da sua idade a ler os livros de orações na sinagoga. O expediente que servia para ajudar a renda familiar acabaria por marcar o seu futuro: em 1845, com apenas 22 anos, é ordenado rabino, depois vários anos de treino sob a alçada dos rabis Abraham Baruch Piperno, Abraham Curiat, Isaac Alvarenga e Angiolo Funaro.
Pouco depois da ordenação Sabato Morais opta por abandonar a Itália, viajando até Londres, onde se candidata ao cargo de rabino assistente da Sinagoga Portuguesa Bevis Marks, a maior e mais antiga congregação sefardita britânica. Depois de falhar inicialmente os seus intentos, em parte devido à sua pouca fluência na língua inglesa, Sabato regressaria a Londres um ano depois, em 1846, para ensinar hebraico na Escola dos Órfãos Portugueses, uma instituição ligada à mesma sinagoga. Em Londres, Sabato Morais conhece e torna-se amigo de Sir Moses Montefiore e de Giuseppe Mazzini, o líder republicano italiano (e membro da Carbonária) inspirador de Garibaldi. Partilhando os ideais republicanos do pai, e também a militância maçónica, segundo alguns historiadores, Sabato Morais, terá mesmo emprestado o seu passaporte a Mazzini para ele poder regressar a Itália sem ser preso.
Em 1851, após alguma hesitação, Sabato Morais parte de Londres em direcção aos Estados Unidos para se tornar rabino da Sinagoga Portuguesa Mikveh Israel, de Filadélfia, na época uma das mais influentes congregações do judaísmo americano.

Nos EUA, este descendente de judeus portugueses encontraria um terreno fértil para a luta pelos seus ideais políticos e humanistas. Desde logo junta a sua voz ao coro de intelectuais abolicionistas, exigindo o fim da escravatura. Remando contra a corrente de outros líderes religiosos do seu tempo, Sabato Morais envolveu-se directamente na batalha política em defesa da firme separação entre a religião e o Estado. Enquanto vice-presidente da Alliance Israelite Universelle, teve também um papel activo na resposta à perseguição de judeus em Marrocos, na Roménia e na Rússia e escreveu artigos inflamados contra os célebres raptos de Edgardo Mortara e Joseph Coen, duas crianças judias italianas retiradas aos seus pais e baptizadas à força com o consentimento do Vaticano.
Em paralelo, Sabato Morais prosseguiu uma invejável carreira académica, leccionando no Maimonides College e University of Pennsylvania. O seu nome ficaria também intimamente ligado ao Jewish Theological Seminary, que Sabato Morais fundou com Henry Pereira Mendes, na altura rabino da Shearith Israel, a Sinagoga Portuguesa de Nova Iorque (a mais antiga sinagoga da América do Norte, fundada em 1654).
Ao contrário da abolição da escravatura, outra causa apadrinhada por Sabato Morais não teve tanto sucesso: a abolição da pena de morte nos Estados Unidos. Sobre isto transcreve o Philadelphia Inquirer de 8 de Dezembro de 1865:

“(…)Mas uma outra lição deverá o mundo receber das nossas mãos; tal como proclamou o antigo sábio hebreu, um tribunal que condena um homem à morte, nem que seja uma vez em setenta anos, merece a nossa reprovação.(…) A civilização apela-vos, como um povo livre, a apagar este vestígio de épocas bárbaras, e a humanidade ecoa esse chamamento. Mais do que a exibição dos colossais poderes, mais do que as proezas dos exércitos, o reconhecimento imortal será adquirido quando à abolição da escravatura se juntar o fim da pena capital.”
Sabato Morais morreu a 12 de Novembro de 1897, aos 74 anos. O seu funeral levou às ruas de Filadélfia dezenas de milhares de pessoas e os jornais da época classificaram-no como “o maior que a cidade alguma vez viu”. Por ocasião da sua morte, o Yudishe Gazeten, o primeiro jornal em língua Yiddish dos EUA, publicou um obituário assinado pelo jornalista e escritor Kasriel Sarasohn, classificando Sabato Morais como “der grester fun ale ortodoksishe rabonim in Amerike . . . on sofek” (“ o maior de todos os rabinos ortodoxos da América… sem nenhuma dúvida”) e o New York Times escreveu na mesma altura: “O doutor Sabato Morais foi o mais eminente rabino deste país e os seus discursos foram sempre um factor de poder e vigor em discussões de vasta importância e interesse para milhões de pessoas; um pensador, escritor e orador destemido, incisivo e profundo.”
No livro United States Jewry 1776-1985, o historiador Jacob Rader Marcus descreve Sabato Morais como “um homem imensamente culto e idealista que deixou uma marca profunda na história tanto do judaísmo americano como da própria América”.


::A LER::
University of Pennsylvania Library Collections – Sabato Morais Ledger / Congregation Mikveh Israel / The Story of Mikveh Israel Cemetery / Mikveh Israel: Philadelphia, PA (postal) / Mikveh Israel / Jewish Theological Seminary

O meu compatriota

Antoni Slonimski

Este homem, que a sua própria pátria esquece
Quando de sangue Checo derramado ouve,
Que, como um irmão, pela Jugoslávia padece,
Que com o povo da Noruega partilha as dores.

Que com a mãe Judia aperta as suas mãos
Em pesar com ela se curva sobre os seus mortos,
Que é Russo, quando a Rússia cai e sangra,
E com os Ucranianos pela Ucrânia chora.

Este homem, com um coração que a todos sente,
Francês, quando a França sofre em cativeiro,
Grego, quando a Grécia em frio e fome sucumbe
Ele é o meu irmão-homem. Ele é a Humanidade.

Antoni Slonimski (1895 -1976), poeta e tradutor. Judeu polaco.
[A partir da tradução do polaco original efectuada por Frances Notley.]

As “razões” do terrorismo


Foto de Ahmad Khateib, em Gaza, para o New York Times

Aparentemente, os rockets Qassam usados pelos terroristas do Hamas têm um prazo de validade de seis meses a partir do momento que são fabricados. Para não os “desperdiçar”, o Hamas resolveu agora lançá-los para matar civis israelitas

Um jornalista palestiniano perguntou ontem a um militante armado do Hamas porque razão tinha o grupo subitamente começado a lançar novamente rockets Qassam após dois meses de calma. A resposta dele: “Sabe quantos Qassam temos? O que é que vamos fazer com eles no mês que vem, depois dos israelitas retirarem?”
Diz-se que seis meses após serem manufacturados, os Qassam explodem por si próprios. Se isso é verdade, pode estar explicada a urgência que o Hamas subitamente sentiu em livrar-se deles.

O resto está aqui.

A perda da virgindade

Um artigo de Pilar Rahola

Parecemos adolescentes à moda antiga, quando chegávamos inexperientes, inocentes e vulneráveis à perda da virgindade. Acumulávamos quatro lições de sexo aprendidas clandestinamente à boca pequena, algum apalpão de esquina e umas quantas verdades absolutas que só serviam para inchar o peito e parecer que estávamos preparados. Depois daquilo, nada do aprendido servia e tudo tinha que voltar a ser perguntado. A perda da virgindade era, sobretudo, uma queda do hímen mental, a porta de entrada da maturidade. Se me permitem a exótica metáfora, começa a ser hora de deixar para trás esta adolescência colectiva que vivemos com santa ingenuidade, abandonar os quatro tópicos simples que nos serviram para obter cómodas respostas a incómodas perguntas, e brindar pela queda da inocência.
Já nos mataram muito, tanto que algumas sandices que ainda se ouvem nos microfones da correcção política resultam algo mais que grotescas: são um inequívoco exercício de irresponsabilidade.
A perda da virgindade. Comecemos pelo paternalismo que ainda explica o fenómeno do terrorismo islâmico como se fosse uma rebelião desesperada dos párias do mundo. Quantas vezes pudemos ler ou ouvir, em sisudas e prestigiosas tribunas, que os homens-bomba que despedaçam pessoas nos restaurantes de Haifa ou nos autocarros de Jerusalém são heróicos resistentes que não têm nada a perder? Não falamos ainda de “resistência” quando nos referimos à estratégia terrorista de Al-Zarqawi no Iraque? Não projectamos uma visão compreensiva da “luta armada” dos grupos islamitas chechenos? Não mostramos uma velada justificativa, pela via da culpabilização americana, de alguns ataques terroristas? Este paternalismo, sem dúvida consequência da nossa já gasta má consciência, decorado com umas gotinhas de estética revolucionária e reforçado pela óptica antiamericana que contamina a visão europeia, este paternalismo, dizia, é, depois do 11 de Setembro, do 11 de Março e da matança de Londres, o obstáculo que mais pateticamente distorce a nossa capacidade de análise. Por trás do atentado terrorista, por trás do suicida não há um desesperado, mas uma densa rede logística, económica e ideológica que vampiriza as causas legítimas, fanatiza até ao puro niilismo os seus seguidores e usa as suas mentes anuladas para o objectivo superior da revolução islâmica. Os verdadeiros resistentes palestinianos não são os integristas do Hamas, que capturam crianças de oito anos para convertê-las em terroristas-suicidas e cujas milionárias fontes de financiamento estão em algumas fortunas que se valorizam em Kuala Lumpur e nos escritórios opacos de algumas ditaduras do petrodólar. Os resistentes palestinianos são os que lutam democraticamente pela sua causa, enfrentando, inclusive, o fanatismo integrista. Os verdadeiros resistentes iraquianos não são os degoladores de pessoas, mas os que foram massivamente votar apesar da ameaça de morte. Não são desesperados, não são pobres, não são libertadores, não são resistentes. São militantes de uma ideologia totalitária, profusamente regada pela economia, perfeitamente instalada nos conflitos do mundo e cujo objectivo último é a destruição dos valores que garantem a convivência e a liberdade. Deixemos, pois, de fazer de imbecis olhando-os como se fossem os substitutos do nosso Che Guevara adolescente. Sem nenhuma dúvida, como fez em tempos o nazismo, declararam-nos guerra.
E antes que alguém procure algum vislumbre de incorrecção moral no que afirmo, recordarei o que tanto escrevi:
Não nos declarou a guerra o islão, nem é um choque de civilizações ou religiões. É a declaração de guerra de uma ideologia que utiliza o islão, sequestra-o e tenta apropriar-se dele. De facto, o integrismo islâmico é tão inimigo do Ocidente como é inimigo do direito dos cidadãos islâmicos de viver em liberdade.
A perda virgindade também implica a superação do discurso doméstico, como se a al-Qaeda fosse o resultado de políticas externas concretas e sua solução tivesse a ver com a bondade ou maldade das ditas políticas. Se lhes preocupa a causa palestiniana, porque começa o 11 de Setembro a gestar-se em plenos acordos de Oslo? Se lhes preocupava a participação espanhola no Iraque, porque acabam de prender 16 muçulmanos, cinco dos quais já haviam feito o juramento do martírio? Por que filmaram as torres de Barcelona, se já éramos bons? E por que foi preparado o 11 de Março dois anos antes da guerra do Iraque? Crer, ao estilo do chauvinismo francês, que “portar-se bem” implica “sair dessa” é não entender nada e constatar algo: que somos muito débeis e que conhecem as nossas fraquezas, entre elas a reiterada e doentia visão do próprio umbigo.
Começou há muito, nos anos 20 do século passado, com os fundadores da Fraternidade Muçulmana do Egipto, cuja ramificação chegaria à criação de um Governo integrista no Sudão, e depois do Hamas de Yassin e à própria estruturação da al-Qaeda. Há muito que são amparados por governos que se sentam na ONU e por fortunas que crescem nas bolsas internacionais. Fanatizam muito, contaminando milhares de pessoas. E matam desde há muito, mas decidimos não vê-los. Decidimos não ver como matavam dezenas em Buenos Aires faz mais de uma década. Afinal, eram judeus. Não ver quando matavam em Nairobi, afinal eram americanos. E não os vimos nem em Bali, nem na Turquia, nem em Beslan, nem em Jerusalém. Certamente, não os vimos em Nova York. E só quando nos mataram em Madrid começamos a descobrir que isto era connosco, mas aprendemos as lições? Ou continuamos com o discurso paternalista que explicava em termos épicos, domésticos e simples as suas façanhas terroristas? Entretanto estão os ianques para nos divertir e para explicar a maldade do mundo, para que nos preocuparmos com a estrutura terrorista que nos ataca? Agora a morte viajou de metro por Londres e, outra vez permanecemos desconcertados e boquiabertos. Até que alguém, bondoso, deu uma resposta: é por culpa da guerra do Iraque, e respiramos mais tranquilos. Não há nada como ter respostas simples para poder aplacar as inquietantes perguntas que não queremos fazer. É realmente terrível o que ocorre: estão a matar-nos na nossa própria casa, socializando o terror para destruir o nosso sistema de liberdades, e nós continuamos entretidos confundindo-nos com o inimigo. Mais do que adolescentes virgens, parecemos autênticos imbecis.

Pilar Rahola, jornalista e escritora, foi deputada da Esquerda Republicana da Catalunha no parlamento espanhol e vice-presidente da Câmara de Barcelona. Este artigo foi originalmente publicado no diário espanhol El País no seguimento dos atentados de Londres.

O rei astuto e os dois pintores (um conto)


Autoretrato, 1939, Joseph Teixeira de Mattos (1892-1971)
Judeu holandês de ascendência portuguesa

Numa terra distante, há muitos anos, um rei mandou construir o mais belo palácio de que havia memória. Quando ficou pronto, o rei quis decorar as paredes dos salões com pinturas das paisagens do seu reino. Havia naquele tempo e naquelas paragens dois pintores famosos muito apreciados pelo seu talento. Sem saber como escolher entre os dois, o rei chamou-os a ambos e desafiou-os a pintar cada um uma parede de um dos imensos corredores do palácio. Entre eles, o rei mandou colocar uma pesada cortina, que os impedia de ver o trabalho do outro.
Aos dois disse o rei: “Têm três meses para pintar uma paisagem na parede. Nessa altura escolherei a pintura que mais gostar; o seu autor será convidado para decorar o resto das paredes do palácio e receberá uma sacola cheia de ouro e jóias.”
Um dos artistas, talentoso e trabalhador, tinha tudo preparado e começou de imediato a pintar. Praticamente não dormia e pouco comia dos manjares que os criados do rei lhe traziam. A pintura ocupava todos os seus pensamentos e gestos.
O outro era bastante preguiçoso. Todos os dias acordava tarde e passava o resto do dia refastelado, bebendo dos melhores vinhos das adegas do rei e comendo o que de melhor lhe serviam. Tudo sem levantar o pincel uma única vez. Quando ouvia o colega trabalhar, ria desabridamente: “Que tolo, está no palácio e nem sabe gozar o luxo”, dizia ele entredentes.
Os dias e meses foram passando. Um pintava dia e noite. O outro nada fazia. Até que faltaram apenas três dias para que terminasse o prazo dado pelo rei e o pintor preguiçoso acordou a meio da noite encharcado em suor: “Não fiz trabalho nenhum… o rei vai-me castigar com toda a certeza.” Aflito, o pintor não comeu nem dormiu. Dois dias passaram sem que ele conseguisse pensar num plano. Até que, finalmente, na véspera da chegada do rei, teve uma ideia. Pegou numa lata de óleo negro e pintou a parede inteira até que esta ficou brilhante como um espelho.
Na manhã seguinte o rei veio inspeccionar o trabalho dos dois pintores acompanhado por membros da corte. Virando-se para a primeira metade do corredor, o rei ficou maravilhado com o trabalho do pintor esforçado. Em cores vibrantes, o artista retratara fielmente a paisagem que envolvia o palácio. “Nunca vi nada tão perfeito. Aqueles pássaros, que beleza, quase que os oiço chilrear. E as flores… só lhes falta o aroma”, disse o rei, maravilhado.
Depois de alguns minutos passados na contemplação da pintura, o rei ordenou que fosse retirada a cortina, para que pudesse ver o que fizera o outro pintor. Para espanto de todos, a segunda parede era exactamente igual à primeira. Uma cópia perfeita, com todos os traços e pinceladas. Ali estavam as mesmas árvores, os mesmos pássaros chilreantes e os mesmos canteiros floridos. “Como é isto possível?”, interrogavam-se entre si os membros da corte.
Mas o rei não se deixara enganar com a mesma facilidade. Sem pensar duas vezes, o rei pegou na prometida sacola de ouro e jóias e colocou-a junto à parede verdadeiramente pintada. Outra sacola idêntica apareceu de pronto no outro lado, fazendo com que todos percebesse que se tratava de um simples reflexo.
Então o rei declarou solenemente: “Cada um de vós receberá o pagamento que merece. Vá, aproximem-se das vossas obras e que cada um recolha a recompensa posta ao lado da respectiva pintura.”
E assim foi.

Pequeno conto do rabino Nachman de Bratslav, Ucrânia, (1772-1810), publicado no livro Kokhavey Or (Estrelas de Luz), editado em Jerusalém, em 1896.

ShaBot6000: O Casamento Gay


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Nos casamentos judaicos, manda a tradição que o noivo parta um copo, pisando-o, em memória da destruição do Templo Sagrado de Jerusalém. No Talmude escreve-se que “mesmo nas ocasiões de grande alegria” se deve recordar a amargura dos dias mais tristes.

London Poets

Amy Levy

(In Memoriam)

They trod the streets and squares where now I tread,
With weary hearts, a little while ago;
When, thin and grey, the melancholy snow
Clung to the leafless branches overhead;
Or when the smoke-veiled sky grew stormy-red
In autumn; with a re-arisen woe
Wrestled, what time the passionate spring winds blow;
And paced scorched stones in summer:–they are dead.

The sorrow of their souls to them did seem
As real as mine to me, as permanent.
To-day, it is the shadow of a dream,
The half-forgotten breath of breezes spent.
So shall another soothe his woe supreme–
“No more he comes, who this way came and went.”

Amy Levy (1861 – 1889), escritora e poeta. Judia britânica.

::NOTA:: Ao contrário do que é habitual na Rua da Judiaria, este poema não foi traduzido propositadamente. É publicado no original inglês em memória das vítimas dos atentados ocorridos em Londres, faz hoje exactamente uma semana.

Dois poemas de Nissim Ezekiel

Nissim Ezekiel


Vida

Na presença da morte,
recorda,
não te consoles,
aqui só há morte,
vida só

Poema Cartaz

Nunca fui um refugiado
A não ser do espírito,
um país amado e perturbado –
o meu lar e o meu inimigo.

Nissim Ezekiel (1924-2004), poeta e dramaturgo. Judeu indiano.