Notas da Blogosfera: Um Aniversário, um Folhetim e Histórias

O Povo de Bahá faz hoje um ano. Muitos parabéns a Marco Oliveira pelo excelente trabalho.

Absolutamente imperdível: um “folhetim à moda clássica” intitulado Um Amor Catalão, da autoria de Luís Carmelo. Vai no sexto episódio. A acompanhar obrigatoriamente no Miniscente (with an English version on Minion).

Num post intitulado “Blinders” (palas) Nathanael D. Robinson escreve sobre as vantagens e desvantagens da excessiva especialização dos historiadores – uma tendência crescente no mundo académico. A não perder: The Rhine River: Blinders.

Requiem para Andy Sipowicz

Muito antes de todos os CSI, do viciante Law & Order, Crossing Jordan ou Monk, o meu “cop show” favorito era NYPD Blue. Ontem à noite, depois de 12 anos no ar (e 261 episódios), a ABC emitiu o último episódio da série. Sim, acabou.
NYPD Blue foi escrita e produzida por Steven Bochco, que desde 1993 deu largas ao que começara uma década antes em Hill Street Blues – a desmistificação dos TV cops enquanto eternos good guys. De todos os seus personagens, Andy Sipowicz foi inegavelmente o mais bem conseguido. Interpretado por Dennis Franz, Sipowicz era à partida o mais improvável herói da história da televisão americana: gordo, careca, alcoólico, violento e racista. Andy evolui com o correr dos anos, gradualmente, semana a semana, à frente dos nossos olhos, devolvendo-nos a capacidade de acreditar que os homens também mudam. Não vou contar o que acontece no último episódio – que vi ontem depois de um interregno de várias temporadas –, digo só que foi bonito.

Aniversários

O Blasfémias, um blog que dispensa qualquer tipo de apresentações, fez ontem um ano. Muitos parabéns Sara Müller, CAA, CL, Gabriel Silva, João Miranda, JPLN, LR, PMF, Rui, RAF e AAA. Com um atraso significativo não queria deixar de assinalar também o primeiro aniversário do Amor e Ócio e o segundo (!) do Blogue dos Marretas.

ShaBot6000 na Judiaria


(clique na imagem para ampliar)

Glossário:
Kippá – cobertura de cabeça usada pelos judeus tradicionais (equivalente ao solidéu)
Hashem – Deus. Palavra hebraica que significa literalmente O Nome

A partir de hoje, a Rua da Judiaria passa a publicar semanalmente a versão portuguesa do mais falado cartoon judaico dos últimos tempos, o ShaBot 6000, da autoria de Ben Baruch – a quem desde já gostaria de agradecer por ter respondido favoravelmente e sem hesitar ao convite da Rua da Judiaria.
Quem é Shabot6000? Construído por um judeu ortodoxo, o ShaBot6000 é um robot que decidiu converter-se ao judaísmo e que semanalmente se confronta com as complexidades e contradições da religião que escolheu. Irreverente e irónico, ShaBot6000 assume-se como um olhar mordaz sobre um judaísmo onde se confrontam a modernidade e a tradição. Simplesmente delicioso. O site oficial de Ben Baruch e ShaBot6000 pode ser visitado aqui. Já agora, não percam o artigo sobre Ben Baruch e ShaBot na última edição do Forward, o mais antigo diário judaico de Nova Iorque: A Robot Speaks, and Online Fans Express Joy (inscrição gratuita).

Ciclo de Violência?

Há três semanas, o aperto de mãos entre Mahmoud Abbas e Ariel Sharon em Sharm El-Sheik trazia a esperança de que tudo podia mudar. A paz, por muito difícil que pudesse parecer, estaria perto, garantiam as notícias. Hoje, um atentado suicida numa discoteca de Tel Aviv – prontamente reivindicado pelos terroristas das Brigadas dos “Mártires” de al-Aqsa e da Jihad Islâmica – faz reviver o síndroma do Groundhog Day.
Um dos mais propagados mitos sobre o conflito israelo-palestiniano defende que os atentados terroristas são uma “resposta directa” às acções do governo israelita. Uma passagem de olhos pelos títulos das notícias das últimas três semanas é prova suficiente para deitar por terra esta teoria. Senão vejamos:
Sharon assina retirada histórica de Gaza e alteração do traçado da Barreira de Segurança; Israel antecipa retirada de Gaza; Israel reafirma confiança no novo parceiro de paz; Israel liberta 500 prisioneiros palestinianos.
Lidas as notícias, analisado o encaminhamento dado ao processo de paz por Abbas e Sharon, gostaria que me explicassem a que “responde” o atentado de hoje em Tel Aviv? Aos que insistem em acreditar no mito aconselho a leitura de um artigo de Alan Dershowitz intitulado As Causas dos Atentados Suicidas.
Dito isto, penso ser importante sublinhar que acredito no facto da actual liderança da Autoridade Palestiniana (PA) estar honestamente empenhada na construção da paz. Mas também é importante notar que a PA não consegue ter mão nos grupos terroristas que utilizam os atentados, não só contra a população civil de Israel, mas também como “arma política” interna, de forma a mostrar à Autoridade Palestiniana que qualquer negociação com Israel pode ser descarrilada caso as suas exigências não sejam ouvidas.
Meus caros: esta gente, os responsáveis pelo atentado de hoje, não são “militantes” nem sequer “extremistas”. Estes eufemismos apenas mascaram uma realidade bem mais fria e nojenta. A palavra correcta é terroristas – porque sobrevivem apenas num clima de terror. Porque a paz não lhes interessa. Porque se alimentam da violência e do medo. E da resposta à sua violência. Esta gente não precisa de pretextos. As últimas semanas de esperança provam isso mesmo.

Das Tuas Mãos

Da gentil taça das tuas mãos
deixa-me beber descanso e conforto
na profunda serenidade da tua voz
deixa-me desnudar o mistério

Paixões queimaram a minha pele e as minhas roupas
em farrapos vagueio através da distância, da luz,
e imploro um fio da seda da tua voz
para coser as feridas dos meus enigmas irresolutos.

Incerteza envolve o mundo
Distorcendo tudo com materialismo.
Quero ler o teu rosto
Como fazem dedos treinados em Braille –
Com os meus lábios.

Da gentil taça das tuas mãos
deixa-me beber descanso e conforto
na profunda serenidade da tua voz
deixa-me desnudar o mistério

Abraham Joshua Heschel, (1907–1972), rabino, filósofo e poeta.

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

A.B. Yehoshua nomeado<br> para o Booker Prize International

O escritor israelita A.B. Yehoshua foi nomeado para o prémio Man Booker International, destinado a reconhecer a obra de escritores não anglófonos traduzidos em língua inglesa. A.B. Yehoshua, a par de Amos Oz e David Grossman, é actualmente um dos mais conceituados escritores israelitas e um dos meus favoritos – sobre ele já escrevi aqui na Judiaria (ver Literatura e Realidade).
O prémio literário, a atribuir em Junho, é a primeira edição da versão internacional do famoso Booker Prize, concedido anualmente a escritores e obras de língua inglesa.
Ao receber a notícia da nomeação, entrevistado pela imprensa israelita, A.B. Yehoshua disse ter ficado “muito contente”, apressando-se a acrescentar: “Mas hoje estou ainda mais feliz com a retirada de Gaza do que com a nomeação para o prémio.”
Ao lado de A.B. Yehoshua foi nomeado um diverso leque de escritores, incluindo nomes como García Marquez, Gunter Grass, Kundera, António Tabucchi, Kenzaburo Oe, Philip Roth e John Updike.
No mercado português (ao contrário do Brasil) continua a não haver uma única tradução dos romances de A.B. Yehoshua – será por falta de tradutores de hebraico?

Ao todo são 18 os escritores finalistas. Em Março a lista será reduzida para cinco. Aqui vai a lista completa:

Gunter Grass – Alemanha
Ismail Kadare – Albânia
Tomas Eloy Martinez – Argentina
Margaret Atwood – Canadá
Gabriel García Marquez – Colômbia
Milan Kundera – República Checa
Naguib Mafhouz – Egipto
A.B. Yehoshua – Israel
Antonio Tabucchi – Itália
Kenzaburo Oe – Japão
Stanislaw Lem – Polonia
Muriel Spark – Grã-Bretanha
Doris Lessing – Grã-Bretanha
Ian McEwan – Grã-Bretanha
Philip Roth – EUA
Saul Bellow – EUA
Cynthia Ozick – EUA
John Updike – EUA

Lembrado e Esquecido

Ele fez do caminhar na água uma forma de arte. Raramente se molhava. Partia da velha doca dos pescadores a várias horas do dia, ou antes da aurora romper.
Por vezes voltava passados minutos.
Às vezes só depois das arestas das montanhas orientais ficarem vermelhas com o fogo do pôr-do-sol ou depois do ocidente se transformar em brasas e escuridão.
Ninguém compreendia os seus passeios solitários. Alguns sugeriam que aprendesse a fazer ski aquático. Outros contentavam-se com uma piada ou um encolher de ombros.
Pequenos peixes corriam silenciosamente sob os seus pés, indo à sua vida, sem arriscar opiniões sobre o homem que caminhava sobre as águas.
Os tempos era difíceis, como sempre. Acima de tudo era preciso sobreviver, uma tarefa difícil mesmo para um peixe.
Com anos de seca o nível das águas descera e os pescadores às vezes chegavam a casa sem peixe nas redes que chegasse para as suas famílias, já cansadas do gosto e do fedor do peixe, das escamas secas que enchiam as casas infelizes como agulhas de pinheiro cobrindo o chão da floresta.
Isso era antes. Desde então que ninguém o vê.
Alguns dizem que foi a Jerusalém tratar de importantes questões políticas ou religiosas.
Outros garantem que ele foi chamado a passear com o patrão.
Os peritos do mercado – estão sempre por perto – notaram que ele claramente não caminhou sobre as águas.
Depois de algum tempo foi esquecido. Só os velhos e as mexeriqueiras
ainda falavam do homem que aqui estivera, já lá vai muito tempo, e que até caminhava sobre as águas.
Já não sabiam o seu nome. Nem sabiam, provavelmente nunca o souberam, porque fazia ele o que fez. É assim que acontece com histórias como esta, que circulam e acabam num livro qualquer, ou esquecidas.
Esta história conseguiu ambas as coisas: ele é mencionado em vários guias turísticos
em capítulos sobre folclore.

Natan Zach, poeta israelita contemporâneo
Poema do livro Anti-Mechikon, Hakibbutz Hameuchad, Tel Aviv 1984.

Dois Pesos e Duas Medidas

Quando a palavra ocupação é lida nas páginas dos jornais é geralmente associada à situação vivida nos territórios palestinianos – uma ocupação, aliás, contra a qual sempre me exprimi publicamente – ou, mais recentemente, no Iraque. Não me lembro de ter lido na Imprensa portuguesa uma única peça jornalística sobre a brutal ocupação militar e política do Líbano pela ditadura Síria, que perdura há quase 30 anos.
Hoje, numa manifestação de rua em Beirute, milhares de pessoas defenderam uma independência nacional efectiva para o Líbano exigindo a retirada das tropas sírias e o fim da ocupação, no seguimento do assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri.
Por uma questão de coerência, quem se diz selectivamente contra uma ou outra ocupação tem o dever de pelo menos saber que existem outras ocupações que raramente saltam para as páginas dos jornais.

::A LER:: Syrian Occupation of Lebanon / Syrian Terrorism against Lebanese People / The Syrian occupation of Lebanon – Mordechai Nisan / Lebanonwire.com – Syria must open the door to freedom and fully end its occupation of Lebanon / The New York Times – Thomas L. Friedman: ‘Hama Rules’ / The Daily Star – Opinion Articles – The ramifications of Hariri’s assassination / “We Don’t Need Syria” in Lebanon – article by Daniel Pipes / Muslim American Society – Thousands Hold Anti-Syria Rally, Troops Said to Pullout of Lebanon / The Guardian – Lebanese Hold Historic Anti-Syrian March.

Último Comentário Sobre as Eleições

“Não pude votar, mas não pensem que essa eleição me passe ao lado. Dei, rangendo os dentes, o meu voto virtual ao PS e José Sócrates, para poder responsabilizá-lo integralmente pelo que fará nos próximos quatro anos.
Pode ter a certeza, se falhar, cair-lhe-ei em cima!”

Escrito por Lutz no Quase em Português, este post reflecte na perfeição aquilo que sinto. Assino por baixo. Em absoluto.

Músicas da Judiaria Arquivadas

Os Arquivos das Músicas da Judiaria estão finalmente atestados e a funcionar em pleno. Até agora são sete as canções arquivadas. São também sete estilos diferentes: da música dos judeus negros do Uganda a Bob Dylan, passando pela folk de Shlomo Bar, o fatalismo da canção yiddish, a tradição musical dos judeus portugueses cantada pelo rabino Abraham Lopes Cardozo, a música dos judeus do Iraque e a renascença da musicalidade da língua quase perdida dos judeus ibéricos, o ladino, pela voz magnífica de Suzy. Muito mais virão.
Os Arquivos das Músicas da Judiaria abrem os Arquivos de Temas na coluna da direita.

A Campanha Vista a 9133 Km de Distância (III)

Serei eu o único a achar o “dia de reflexão” uma imensa idiotice paternalista de uma Lei Eleitoral a precisar de profundas reformas? Estarei sozinho? Para cúmulo, leio que a Comissão Nacional de Eleições vai “vigiar os blogs” para policiar eventuais “desvios” ou “violações” ao “dia de reflexão” – uma aberração que honestamente encaro como uma violação séria à liberdade de opinião.
Este “policiamento” dos blogs levanta uma questão interessante: como poderá, por exemplo, a CNE punir um cidadão português que mora no estrangeiro e escreve um blog alojado em servidores internacionais? Mais um exemplo concreto: a diferença horária que me separa de Portugal (menos 8 horas) faz com que esteja a escrever este post já depois da meia noite de sábado em Lisboa, embora para mim ainda sejam 16:30h de sexta-feira aqui em Los Angeles. Será que violo o “dia de reflexão” ao comentar as sondagens ou o comportamento de Santana Lopes, José Sócrates ou Francisco Louçã?
Se o voto dos emigrantes valesse alguma coisa – isto é, se eu fosse mesmo votar no domingo – estaria mais do que tentado a testar esta dúbia fronteira.

A Música dos Judeus do Uganda

Músicas da Judiaria VII

 Abayudaya, os Judeus do Uganda

Para ouvir

The Jews from Uganda: Lekhá Dódi

A sétima edição das Músicas da Judiaria é dedicada aos Abayudaya, nomeados no domingo passado para um Grammy.
Abayudaya é uma palavra do dialecto bantu-luganda que significa literalmente Povo Judeu. Os Abayudaya são os judeu negros do Uganda. Escondidos do resto do mundo durante largas décadas em pequenas aldeias ao redor de Mbale, nas encostas do monte Elgon, próximo da fronteira com o Quénia – a 250 quilómetros de Kampala, a capital – os cerca de mil judeus do Uganda viveram até agora uma existência a oscilar entre a perseguição e o esquecimento. Na semana passada, uma nomeação para os Grammy, na categoria de melhor álbum de World Music catapultou-os para a ribalta da cena musical internacional, levando o seu líder, o jovem rabino Gershom Sizomu (ver Gershom Sizomu – Judeus na Primeira Pessoa [Arquivos da Judiaria]), a pisar a passadeira vermelha do Staples Center, em Los Angeles.
A nomeação dos Abayudaya foi atribuída ao álbum Abayudaya – Music from the Jewish People of Uganda, lançado pela Smithsonian Folkways e compilado pelo rabino Jeffrey A. Summit, professor de etnomusicologia da Tufts University.
Das 24 canções do CD, escolhi para a sétima edição das Músicas da Judiaria uma das mais emblemáticas composições litúrgicas judaicas: Lekhá Dódi – לכה דודי –, um hino composto a partir de um poema místico seiscentista da autoria de Shlomo Alkabetz, um cabalista de Safed, cidade da Galileia onde se refugiaram centenas de judeus portugueses fugidos da Inquisição.
Vale bem a pena ouvir os Abayudaya. É só clicar aqui: Músicas da Judiaria VII

::NOTA:: Até à semana passada, altura em que a Rua da Judiaria mudou definitivamente para este novo endereço, o blog não dispunha de espaço de armazenamento online suficiente para manter um arquivo completo das Músicas da Judiaria. Agora, feita a mudança, essa deficiência foi superada e todas as músicas que passaram pelo blog serão gradualmente aqui arquivadas em página própria na coluna da direita, a abrir os Arquivos Temáticos. Fiquem atentos.