Um ano na Ma-Schamba

Foi há dois dias, mas não podia escapar a uma referência (atrasada) na Judiaria: o Ma-Schamba, um dos melhores blogs que conheço, completou o primeiro ano de existência na segunda-feira. Diariamente, cada vez que viajo até Maputo ao clicar no link do Ma-Schamba, com lugar cativo entre os Profetas da coluna da esquerda, congratulo-me pelo facto de José Flávio ter desistido de desistir do blog. Parabéns José Flávio e obrigado pela excente prosa que nos dás.

Uriah Levy

O judeu português

que salvou Monticello

Quando Uriah Levy visitou pela primeira vez, em 1825, a vasta propriedade na Virgínia que poucos anos antes pertencera a Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano – um homem que ele admirava profundamente –, ficou chocado com o seu estado de degradação. Outrora imponente, Monticello estava virtualmente em ruínas.
Apostado em conservar aquele que considerava ser um marco fundamental da história do país, Uriah comprou Monticello no ano seguinte, restaurando a mansão de Jefferson e abrindo-a ao público. O grande apreço que sentia por Jefferson tinha uma explicação: Uriah Levy era judeu – descendente de judeus portugueses – e a tolerância religiosa que Jefferson imprimira na matriz constitucional americana permitia aos judeus poderem desfrutar na América de uma liberdade que até então nunca tinham alcançado em qualquer outro país.
“Thomas Jefferson foi um dos mais importantes homens da História, que fez tanto para moldar a República de forma a que a religião de um homem não o impedisse de exercer uma carreira pública”, escreveu Uriah Levy.
Considerado um dos mais notáveis heróis dos primórdios da história naval dos Estados Unidos, Uriah Levy tinha sido confrontado durante toda a sua carreira militar – que durou mais de meio século – com um profundo antisemitismo. Quarenta anos antes do oficial do exército francês Alfred Dreyfus ter sido julgado, condenado e eventualmente exonerado em julgamentos que tiveram por base o antisemitismo, Uriah Levy enfrentou perseguições semelhantes nos Estados Unidos. Chamado por seis vezes a responder perante um tribunal militar, foi sempre ilibado, e após o último julgamento foi-lhe concedido o posto de comandante da Frota do Mediterrâneo – a maior da armada americana na época – e elevado ao posto de Comodoro.

Uriah LevyA sua forte personalidade, segundo os seus biógrafos, permitiu-lhe sobreviver ao antisemitismo que na altura reinava na instituição militar. De acordo com os costumes da época, Uriah Levy foi obrigado a defender a sua honra inúmeras vezes, a última das quais em 1816, quando matou em duelo o tenente William Potter por este lhe ter chamado “judeu maldito”. Vitima de antisemitismo durante toda a sua carreira militar, Uriah Levy nunca se cansou de expressar o seu apreço e profunda admiração pelos ideais de liberdade religiosa defendidos por Jefferson.
Casado com Virgínia Lopes, também ela descendente de judeus portugueses, Uriah Levy nasceu em Filadélfia, em 1792, filho de Michael Levy e Raquel Machado – que seria enterrada em Monticello –, pertencendo a uma longa linha de ilustres judeus portugueses foçados a emigrar para os Estados Unidos. A sua avó materna, Rebeca Machado – tida como uma das matriarcas das primeiras comunidades judaicas norte-americanas – era filha de David Mendes Machado, rabino da congregação Shearith Israel, a sinagoga portuguesa de Nova Iorque. O seu primo, Mordecai Manuel Noah, jornalista, escritor, político e juiz, foi o mais conhecido judeu americano do século XIX e um dos percursores do sionismo, defendendo, no folheto Discourse on the Restoration of the Jews, o regresso dos judeus à Terra Santa meio século antes da realização, em 1879, do Primeiro Congresso Sionista, em Basileia.
Uriah Levy era ainda bisneto de Diogo (Samuel) Nunes Ribeiro, um judeu português nascido em Idanha-a-Nova, em 1668, que para escapar à Inquisição – que o prendera duas vezes em Lisboa sob a acusação de “reconverter cristãos-novos ao judaísmo” – emigrou primeiro para Londres e depois para a América, onde se contaria entre os membros fundadores da cidade de Savannah, na Geórgia. Samuel Nunes Ribeiro era tio de António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), um dos mais destacados médicos e cientistas da época, membro do grupo de intelectuais portugueses exilados na Europa habitualmente designado como “estrangeirados”.
Uriah Levy foi também bastante activo no seio da comunidade judaica luso-americana do século XIX, ajudando a fundar e ocupando o cargo de presidente da Washington Hebrew Congregation e, em 1854, apadrinhando o novo seminário do Instituto Educacional Bnai Jesherun, em Nova Iorque.
Na história da marinha norte-americana, o seu nome ficou intimamente associado a uma cruzada pessoal que moveu pela abolição dos castigos corporais na Armada. Escandalizado com barbaridade dos castigos – era comum marinheiros serem chicoteados por delitos menores –, Uriah Levy fez apelos pessoais aos membros do Congresso para que a prática fosse proibida, chegando a enviar-lhes chicotes desafiando-os para que experimentassem “na própria pele”.
Como tributo à sua carreira militar, em 1959, a Marinha dos EUA concedeu o seu nome à sua mais antiga sinagoga, na base naval de Norfolk, na Virgínia. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nome de Uriah Levy foi também dado a um caça-submarinos da Armada americana, o USS LEVY.

Após a sua morte, em 1862, Uriah Levy legou a propriedade de Monticello em testamento “ao povo dos Estados Unidos”.


Raquel Machado (1769-1839), a mãe de Uriah Levy,


O seu primo Mordecai Manuel Noah (1785-1851)


Uriah Levy, jovem capitão da Armada dos EUA


Monticello, a propriedade de Thomas Jefferson
(óleo sobre tela, Jane Pitford B. Peticolas, 1827)

::LER:: Who was Uriah Levy? / Judeus Portugueses na América :: Arquivos da Judiaria / The Levy Stewardship of Monticello / The Papers of Thomas Jefferson – Home Page / Monticello: The Home of Thomas Jefferson

Recados

1) Está solucionada a falha técnica das Músicas da Judiaria, que durante os últimos dias impossibilitou o acesso a quem quisesse ouvir a canção de Bob Dylan (ver post Bob Is Back). Obrigado a todos os que enviaram mensagens a alertar para o problema.

2) Estreou ontem em Portugal o último filme de Fernando Fragata, Sorte Nula (ver foto acima), entretanto colocado já entre as “Sugestões da Judiaria”, na coluna da esquerda. O Fernando é um bom amigo – uma das pessoas mais genuínas e generosas que conheço. No cinema, é um iconoclasta: quer fazer filmes portugueses que divirtam e entretenham. Imaginem só a chutzpah do rapaz!
PS [recado directo] Fragata: vê se voltas depressa a Los Angeles. Os empregados do Canter’s e da picanha do Pampas Grill, no Farmer’s Market, estão fartos de perguntar por ti e pela Sandra…

3) Agora faltam os parabéns. Ainda que com um atraso significativo, não posso deixar passar em claro o aniversário do Super Flumina, de Rui Oliveira, um excelente blog agora com nova morada. Desejos atrasados de feliz aniversário (foi no primeiro dia de Hanuká) também para Gus Erlichman, o criador do Pletz.com, o melhor e mais completo site judaico em língua portuguesa, e dinamizador da hiper-activa lista de discussão judaica brasileira Pletz@le – Gus: obrigado por todo o teu trabalho! מזל טוב חבר

Um Supermercado na Califórnia (1955)

Que pensamentos teus tenho esta noite, Walt Whitman, porque
caminhei pelas ruas sob as árvores com uma dor de cabeça
auto-consciente olhando para a lua cheia.
Na minha faminta fadiga, e procurando imagens, entrei
no supermercado de frutos de néon, sonhando com as tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
fazem compras à noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates, bebés nos tomates – e tu, Garcia Lorca, que
fazias tu junto às melancias?

Eu vi-te, Walt Whitman, sem filhos, velho cavador solitário,
apalpando as carnes no frigorífico e olhando os rapazes
do supermercado.
Ouvi-te fazer perguntas a cada um: Quem matou as
costeletas de porco? A como são as bananas? És tu o meu anjo?
Vagueei dentro e fora da brilhante pilha de latas
seguindo-te, e seguido na minha imaginação pelo segurança
da loja.
Caminhámos juntos pelos corredores abertos na nossa
solidão ilustre provando as alcachofras, possuindo todas as delícias
congeladas, sem nunca passar pela caixa.

Onde vamos nós, Walt Whitman? As portas fecham daqui
a uma hora. Em que direcção aponta a tua barba esta noite?
(toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no
supermercado e sinto-me absurdo.)
Caminharemos toda a noite por ruas solitárias? As
árvores juntam sombra a sombras, luzes apagadas nas casas, estaremos ambos
solitários.

Caminharemos sonhando com a América perdida do amor
passando por automóveis azuis à entrada das garagens, em direcção à nossa cabana tranquila?
Ah, querido pai, barba grisalha, velho solitário professor-coragem,
que América tinhas tu quando Caronte deixou de puxar a sua balsa
e tu desceste numa margem fumegante e ficaste a olhar o barco
desaparecendo nas águas negras do Rio do Esquecimento?

Allen Ginsberg (1926 – 1997), poeta, judeu americano.

:: Áudio :: O original deste poema pode ser ouvido aqui na voz do poeta.

*!חג חנוכה שמח


Além de todos os simbolismos históricos, religiosos e mesmo místicos, os dias de festa judaicos têm em comum um factor fundamental: a comida. Uma velha anedota hebraica resume assim todos os dias de festa do calendário judaico: “tentaram matar-nos, sobrevivemos, agora vamos comer!”
Nas festas que hoje se iniciam, Hanuká, o Festival das Luzes, a tradição manda que se jante bem durante todos os seus oito dias de duração. Entre as delícias tradicionais desta época festiva destacam-se as Sufganiot (סופגנייה), uma espécie de “Bolas de Berlim” recheadas com compota de morango, damasco ou ameixa.
Abrindo uma rubrica que gostaria de tornar permanente aqui na Judiaria, segue a receita de outro dos pratos tradicionais de Hanuká: Latkes.
Elogios, comentários e sugestões podem ser enviados para o Correio da Judiaria (disponível na coluna da esquerda), ao cuidado da responsável desta nova secção de culinária judaica, Shlomit, a magnífica cozinheira cá de casa.

* Feliz Hanuká

לטקעס, לביבות חנוכה של הסבתא שושנה

Latkes

(Panquecas de Batata, receita da avó Shoshana Z”L)
(Serve 4 a 5 pessoas)


4-5 batatas (grandes) raladas e escorridas
4 ovos (batidos)
2 colheres de sopa de natas (opcional)
3-4 colheres de farinha
1 colher de chá de sal
1 colher de chá de pimenta

Podem ainda ser adicionado os seguintes ingredientes (opcional):
alho francês (cortado em pequenos pedaços)
salsa (cortada em pequenos pedaços)
cebola picada

Misture todos os ingredientes numa tigela de dimensões razoáveis. Tenha em atenção o facto das batatas raladas poderem começar a oxidar caso estejam muito tempo a aguardar preparação. Para evitar que tal aconteça, aconselha-se que esprema sobre elas meio limão.
Com a massa dos ingrediente faça pequenas bolas. Frite-as em óleo quente, virando-as regularmente até ficarem douradas. À medida que for virando as latkes, espalme-as ligeiramente com a espátula.

Opções para servir à mesa:
As Latkes podem ser servidas como aperitivo, acompanhadas com puré de maçã e natas; natas e compota de frutas; ou simples. Podem ainda ser servidas à sobremesa, polvilhadas com açúcar de pasteleiro e canela (mas neste caso aconselha-se que sejam confeccionadas sem alho francês).

Bom apetite!

Mário Alberto Nobre Lopes Soares: 80 anos


Mário Soares, então Presidente da República, apresenta em Belmonte, em 1989, um pedido formal de desculpas à comunidade judaica pelo sofrimento infligindo pela Inquisição e pela monarquia aos judeus portugueses. Na foto, à direita, o então rabino da comunidade de Lisboa, Abraão Assor Z”L, e o presidente da CIL na época, Joshua Ruah, aceitam o gesto simbólico. Dirigindo-se aos judeus de Belmonte – na sua maioria ainda cripto-judeus – Soares afirmaria: “Ergam as vossas cabeças e tenham orgulho nas vossas nobres origens”.

:: Nota :: Achei deveras interessante – demonstrativo, talvez – que a entrada portuguesa sobre Mário Soares na Wikipedia seja muitíssimo menos detalhada do que a versão da mesma em hebraico

Bob Dylan – O Sionista

Músicas da Judiaria VI

Para ouvir:

Bob Dylan: Neighborhood Bully

Por ocasião do lançamento (nos EUA e Reino Unido) do primeiro volume das memórias de Bob Dylan, a 6ª edição das Músicas da Judiaria – agora “revista e aumentada” – recuperou aquela que é talvez a mais emblematicamente judaica das canções de Dylan: Neighborhood Bully, do álbum Infidels, de 1983, um tema onde Bob Dylan demonstra uma profunda afinidade e identificação com o povo judeu e com Israel. Ao mesmo tempo, Neighborhood Bully assume-se como um violento ataque ao antisemitismo e ao anti-sionismo.
Mas a relação de Dylan com o seu judaísmo nunca foi pacífica. Robert Allen Zimmerman– de seu nome verdadeiro -, o franzino adolescente judeu que passava as férias de Verão no Herzl Camp, em Devil’s Lake, Wisconsin, haveria de ocultar as origens sob o nome artístico que o consagraria.
Em 1978, quebrando as rígidas e auto-impostas barreiras de defesa da sua privacidade, Bob Dylan anunciou ao mundo que se convertera ao cristianismo. O recém-adquirido estatuto de “cristão renascido” transbordou para a carreira musical, chocando o seu público e os críticos. Passou apenas a compor temas religiosos e produziu três álbuns inspirados pela linguagem do gospel: Slow Train Coming (1979), Saved (1980) e Shot of Love (1981). A crítica não lhe perdoou a trilogia e profetizou-se o fim da célebre “nascente de talento” de Dylan, como um dia lhe chamara Phil Ochs.
Talvez influenciado pela reacção negativa à sua conversão musical, Bob Dylan abandonaria o cristianismo em 1983, regressando ao judaísmo, desta vez como praticante. Começou a recusar fazer concertos ao sábado e dedicou-se ao estudo da Cabalá, muito antes desta se tornar moda entre as estrelas da música e do cinema.
Nesse mesmo ano, lança o álbum Infidels, selando definitivamente o corte com o cristianismo e o regresso ao judaísmo. É daqui que sai Neighborhood Bully, a canção desta edição das Músicas da Judiaria. O rompimento com o cristianismo é flagrante especialmente na letra iconoclasta da canção Man of Peace.
Desde então, Bob Dylan apareceu por diversas vezes na famosa maratona televisiva L’Chaim/To Life, organizada anualmente nos EUA para recolher fundos para o Chabad Lubavitch, um movimento ortodoxo judaico com uma forte componente mística. Em finais de Setembro último, Bob Dylan foi visto nos serviços de Yom Kippur da sinagoga ortodoxa Adath Israel, em St. Paul, no Minnesota.
Mas quem for ler a sua nova autobiografia à procura de mais revelações sobre a espiritualidade de Bob Dylan certamente ficará desapontado. Por enquanto, no primeiro de três volumes, o cantor limita-se a escrever essencialmente sobre a faceta da sua vida que mais fascinará os seus seguidores – a sua carreira musical.
Recentemente, Like a Rolling Stone, da sua autoria, foi escolhida como a melhor canção de rock ‘n’ roll de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone. “Nenhuma outra canção pop transformou e desafiou de forma tão profunda as leis comerciais e as convenções artísticas da sua época, e de todas as épocas”, escreveu a revista.
A autobiografia resgatou-o também do exílio mediático que Bob Dylan impusera a si próprio. No domingo passado, Dylan foi entrevistado pelo jornalista Ed Bradley para o programa 60 Minutes, da CBS, naquela que foi a sua primeira entrevista televisiva em duas décadas. Um excerto da entrevista pode ser visto aqui (formato Windows Media™).
Entretanto, enquanto não há tradução portuguesa do Bob Dylan Chronicles: Vol. One, vale a pena clicar no link para as Músicas da Judiaria VI e ouvir (e ler) Neighborhood Bully.

No Palácio do Teu Rosto

O teu rosto é o meu palácio,
os teus olhos – azuis, quase –
o travesseiro para a minha alma.

Quando o meu nome repousa no berço
dos teu lábios macios
os meus membros tornam-se luz, tornam-se brilho.

Quando com um sorriso, e um copo de vinho,
dizes l’chayim* ao meu sonho –
a minha fé grisalha rejuvenesce.

Quando com um sorriso, doce selo,
imprimes em ti o meu destino –
o meu coração transforma-se numa escada para os céus.

O teu rosto é o meu palácio,
os teus olhos – azuis, quase–
o travesseiro para a minha alma.

Abraham Joshua Heschel, (1907 – 1972), rabino, filósofo e poeta.

* Brinde tradicional em hebraico que literalmente significa “à vida!”. Equivalente a “à saúde”, “cheers

[Poema do livro The Ineffable Name of God: Man (Continuum, Setembro de 2004) onde se publicam, agora pela primeira vez em inglês, 66 poemas escritos por Heschel originalmente em yiddish, entre 1927 e 1933, traduzidos por Morton M. Leifman.]

Outono

As folhas caem, caem como se viessem de longe,
como criaturas murchas de jardins
nas profundezas dos céus;
elas caem com gestos de renúncia.

E, noite dentro, a pesada terra
cai também,
cai das estrelas
para a solidão.

Todos caímos. Esta mão terá de cair.
Olhem em redor: é o destino de todos.

Ainda assim, há quem nos ampara a queda
eternamente na ternura das suas mãos.

Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta austríaco de ascendência judaica.

[NT – a partir da tradução do alemão para o inglês da autoria de C.F. MacIntyre]

Vigília por Darfur

O primeiro genocídio do século XXI prossegue em Darfur, no Sudão, perante o continuado encolher de ombros da comunidade internacional. Mais de 70 mil pessoas foram assassinadas enquanto dois milhões foram forçadas a abandonar as suas aldeias e a ocupar “campos de refugiados” – verdadeiros campos de concentração guardados pelas mesmas milícias sanguinárias que sistematicamente massacram as populações locais, violam as mulheres e escravizam milhares de refugiados. As Nações Unidas continuam a recusar admitir que a situação que se vive em Darfur constitua genocídio.
Aos meus leitores de Nova Iorque, sugiro que no próximo dia 13 de Dezembro (segunda-feira) passem pela Fountain Plaza, no Washington Square Park, para participar numa vigília por Darfur, organizada conjuntamente pelo Darfur Rehabilitation Project, NYU Law Students for Human Rights, Yeshivat Chovevei Torah Rabbinical School e American Anti-Slavery Group.
Entretanto, quem estiver longe de Nova Iorque pode sempre ir visitando os extraordinários blogs Sudan: The Passion of the Present e Sudan Watch.

::Leituras:: Nunca Mais! :: Arquivos da Judiaria / Que Fazer com Este Genocídio? :: Arquivos da Judiaria / Darfur e o Mundo :: Arquivos da Judiaria / Cartaz Darfur :: Arquivos da Judiaria

David Grossman

Retratos VI – Judeus na Primeira Pessoa



Para mim, ser judeu é ser um estranho.
Um estranho em relação a situações humanas em que se forma um colectivo de qualquer espécie, composto por muitos que falam (ou urram) com uma voz única; um estranho com uma leve suspeita sobre o que torna aquele colectivo possível; com a solidão que toma conta do indivíduo na presença de um colectivo daqueles, mesmo que ele não queira – ou seja incapaz – de fazer parte dele; com o sentido de singularidade que acompanha aquela solidão; com aquela marca (não inteiramente compreensível) de orgulho que acompanha estes sentimentos, afligido incessantemente pelo facto dessa singularidade colocar uma barreira invisível, mas real, entre ele e os outros; com o constante cepticismo que repousa dentro desses sentimentos, porque frequentemente parece que estes sentimentos não são mais do que uma crosta formada sobre a ferida da solidão, da trágica distinção dos Judeus – e quem sabe se foi imposta desde o início aos judeus pelos outros ou se os judeus a escolheram e refinaram – transformou “O Judeu” num símbolo quase universal do estrangeiro absoluto; com a dor do facto desta atitude ter transformado o Judeu e a sua História, aos olhos da humanidade, numa história maior do que a própria vida, e logo em algo que não é parte da própria vida, algo despegado do curso da natureza e da História experimentado por outras nações.
A isto tenho de juntar o profundo e instintivo sentimento de identificação familiar que sinto em relação aos judeus de todas as gerações. Partilho os seus destinos, as suas formas de pensar, a sua cultura, a sua linguagem e o seu humor. Mas talvez, aquilo com que realmente me identifico, mais do que qualquer outra coisa, é precisamente com esse sentido de solidão, ferida e perseguição, esse sentimento de ser estrangeiro neste mundo, sempre angustiado pela delicadeza da existência.
Mas sempre que sinto isto ao identificar-me desta forma como judeu, passo a fazer parte deste colectivo particular, o colectivo judaico, dou um passo atrás, e tenho sérias (e muito judaicas) dúvidas acerca de lhe pertencer.

David Grossman, jornalista e escritor israelita. Retirado do livro “I Am Jewish: Personal Reflections Inspired by the Last Words of Daniel Pearl”, 2004.

::A LER:: David Grossman (bio-biblio) / Books & Writers – David Grossman (bio) / PBS – NOW. Bill Moyers Interviews David Grossman / Público Online “Israel é um milagre e estamos a desperdiçá-lo” / Fora do Mundo: O ÚNICO SÍTIO DA TERRA, Pedro Mexia / Guardian Where death is a way of life, David Grossman / Israel Culture & Arts.

::A OUVIR:: TSF: Pessoal… e Transmissível – David Grossman , uma excelente entrevista conduzida por Carlos Vaz Marques / NPR – David Grossman on Israel in Crisis (formato RealAudio)

Em Perspectiva

“Imaginemos que, em vez do “mundo árabe”, existia um “mundo judeu” no meio do qual tentava sobreviver um único estado árabe/muçulmano. Sim, imaginemos que existia uma região do planeta conhecida como “Mundo Judeu”. Centenas e centenas de milhões de judeus espalhados por diversos países de língua hebraica e religião judaica. Incrustado nesse “mundo judeu” há um país árabe. Não seria este país árabe acarinhado pela Comunidade Internacional? Não seria esse pequeno país árabe dotado de meios de defesa, recursos e financiamentos para a sua sobrevivência? Não teriam todos os progressistas do planeta um sem-número de razões para justificar e legitimar a continuidade e prosperidade desta única nação árabe do planeta? Se esta visão, posta nestes termos, parece razoável a todos, então não há justificativa para que a situação inversa não seja igualmente razoável.
De contrário trata-se de hipocrisia. Ou de algo bem pior…”

Miguel Fernandes, jornalista

(em email enviado à lista de discussão do excelente site judaico brasileiro Pletz)